A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
187 pág.
As Vítimas Algozes

Pré-visualização | Página 9 de 50

de Sales, e dormia recolhida. 
Sabem todos o que é o amor entre os escravos: a condição desnaturada desses 
exilados da sociedade, desses homens reduzidos a coisas, desses corpos animados a 
quem se negam direitos de sensibilidade, materializados à força, materializa neles 
sempre o amor: sem o socorro da poesia dos sentimentos que alimenta o coração e o 
transporta às regiões dos sonhos que se banham nas esperanças de santos e suaves laços, 
os escravos só se deixam arrebatar pelo instinto animal, que por isso mesmo os impele 
mais violento. 
A mucama muito atarefada de dia, raro da casa se escapava para encontrar-se 
com Simeão em rápida entrevista, e trancada à noite sob o teto da família, não tinha o 
recurso da senzala ou do passeio noturno para receber o amante. 
A mucama não tem a educação da senhora-moça: a natureza animal é tudo nela. 
O escravo não crê na pureza da donzela, nem na fidelidade da esposa mais nobre; 
 21
admite somente que a falta de oportunidade ou de ocasião para ser má seja o que 
mantém a honra das famílias; a observação é cruel e injustíssima: o juízo do escravo é 
infamemente torpe; mas ele julga conforme as idéias e a vida da escravidão. 
O instinto impeliu e a razão abandonou o crioulo e a mucama, 
Aconteceu o que acontece mais vezes e em mais casas do que se presume. 
Simeão e a escrava mucama ajustaram-se: à meia-noite ela abria uma janela, e 
Simeão saltava para dentro da casa: depois, quando a desconfiança de João de Sales e de 
seu filho tornou perigosa a entrada pela janela, o dinheiro, que não faltava a Simeão, 
abriu-lhe a porta da cozinha. 
Havia no terreiro cães a velar; mas o homem compra os cães como compra 
homens; a uns, pedaços de carne; aos outros, mais ou menos moedas de ouro. 
Simeão comprara os cães e um negro escravo da cozinha, e entrava todas as 
noites na casa de João de Sales. 
A casa de João de Sales estava pois de noite à mercê das intenções e de 
quaisquer projetos de Simeão; mas que casa há aí, onde haja escravos e sobretudo 
escravas, cuja segurança não esteja exposta às conseqüências do instinto animal e da 
boa ou má vontade do elemento escravo?... 
Simeão era, pois, durante duas horas em cada noite mais do que o amante da 
mucama, o árbitro das vidas e da fortuna de João de Sales e de sua família. 
Ainda bem que Simeão, o escravo, ali ia somente como animal que o instinto 
arrasta em procura da sua igual; se fora ladrão ou assassino tinha tido abertas a janela da 
sala e a porta da cozinha. 
A vida, a fortuna e a reputação dos senhores estão de dia e principalmente de 
noite à mercê dos escravos. 
Mas uma noite houve ruído, e Hermano de Sales que velava, acudiu com uma 
luz, e chegado à sala de jantar, estacou diante de Simeão. 
O crioulo, atrevido e ainda mais urgido pelo risco da situação, quis fugir; e 
vendo a saída disputada, avançou ousado para o mancebo que, apertando-o em seus 
braços de ferro, o lançou por terra. 
João de Sales acudiu, como toda a família que despertara assustada. 
O caso explicou-se em breve. 
Hermano ressentido do ataque de Simeão, tinha-o esbofeteado com força, 
recebendo na manga da camisa gotas de sangue que saltaram do rosto do escravo 
ofensor. 
Simeão foi conhecido, e a escrava sua amásia e cúmplice castigada ime-
diatamente a seus olhos. 
O crioulo egoísta e altanado sentiu menos o castigo que a mucama recebera, do 
que as bofetadas que ela vira-o receber. 
Entretanto a sua luta com Hermano tinha passado toda entre os dois, e Hermano 
o havia facilmente subjugado. Homem contra homem, ele tinha sido em breves 
momentos submetido pelo mancebo. 
Era pouco mais de meia-noite, e muito tarde para Simeão ser enviado a seu 
senhor: Hermano o fez trancar no quarto em que se prendiam os escravos delinqüentes, 
e na manhã seguinte o mandou levar a Domingos Caetano com carta de seu pai, 
narrando quanto se passara. 
Simeão, protegido por Florinda, escapou a justo castigo, que Domingos Caetano 
devia infligir-lhe. 
Para o escravo a repreensão não é pena, porque a repreensão fala ao brio, ao 
sentimento do pundonor, que a escravidão não pode comportar. 
E Simeão foi apenas asperamente repreendido. 
 22
Desde aquela noite o crioulo detestou Hermano. 
Simeão viu desde então em Hermano um homem que era melhor, mais forte, e 
muito superior a ele: melhor, porque era livre; mais forte, porque pudera e podia 
subjugá-lo; muito superior, porque o tinha esbofeteado, prendido e mandado conduzir 
preso à casa de seu senhor, e a ele nem era dado pensar em vingar-se. 
Não era a vergonha de suas faces esbofeteadas que o irritava, queimando-as; era 
a idéia de nunca ter sido até então castigado materialmente por1 seu senhor, e tê-lo sido 
sem ressentimento dos senhores, e sem o seu apoio ou proteção para tirar vingança de 
quem assim o maltratara. 
Esse aborrecimento crescera; porque Hermano, homem bom e homem livre, nem 
sequer indiciava conservar lembrança do que acontecera e indiferente passava por 
diante de Simeão no campo da fazenda ou na estrada, como por desconhecido que não 
merecesse olhar de atenção. 
O crioulo vaidoso via na indiferença de Hermano o desprezo que o humilhava e 
aviltava. 
– Esbofeteou-me, e não me conhece, e não me vê e não me teme!... – dizia ele 
consigo, e lhe fervia a raiva no coração. 
E Hermano tinha-se esquecido completamente de Simeão. 
Mas a serpente lembrava o pé que lhe machucara a cabeça. 
Era serpente que tem memória, a serpente escravo. 
 
XV 
 
O amor de Hermano e Florinda era a harmonia suave de dois corações que se 
entenderam antes de pensar que se entendiam: aromas exalados por duas flores, 
encontraram-se no espaço e misturaram-se na aura encantada a que dão o nome de 
amor. 
Na vida e nas relações do campo que entre nós geralmente se chama a roça, o 
amor de dois jovens é simples, temeroso e poético; simples como os costumes da boa 
gente agricultora, temeroso como o pudor da donzela que é puríssima flor da solidão, 
poético porque suspira à sombra da árvore vizinha da estrada por onde espera ver passar 
o cavalheiro desejado; porque medita e sonha junto à fonte solitária; porque a distância 
que sempre separa os amantes é mãe da saudade que chora lágrimas doces; poético 
porque a lembrança, a saudade, o desejo, o ciúme, os sofrimentos, o encontro, a 
confissão, e a esperança não tem artifício que o desnature, e todo natureza santa apura o 
seu encanto ao trinar dos passarinhos, ao murmurar do arroio, e ao ruído misterioso e 
romanesco do bosque. 
Hermano e Florinda amaram-se com esse amor da roça. 
Na capela da fazenda de Domingos Caetano fizeram-se, havia dois anos, preces 
a Deus por chuva que a lavoura, vítima de prolongada seca, pedia sequiosa: acudiu ao 
religioso ato concurso numeroso, como sempre em tais casos se observa. Uma noite, no 
meio da ladainha, um mancebo e uma donzela que a distância rezavam ajoelhados se 
surpreenderam a olhar-se: ambos coraram, como criminosos apanhados em delito 
flagrante”: esse rubor de sublime pejo foi a aurora do seu amor. 
Hermano e Florinda quase que se arrependeram de se haver olhado assim, 
quando os seus corações deviam estar exclusivamente voltados para Deus, a pedir 
chuva; mas nessa mesma noite choveu, e ambos pensaram que a troca de seu olhar era 
abençoada por Deus. 
Segundo e inocente pecado: Hermano e Florinda se desgostaram da chuva que 
havia posto fim às preces. 
 23
Cada qual suspirou. sonhou, desejou de seu lado; mas tão longe! Vinte vezes em 
um mês Hermano passou a cavalo pelo campo da fazenda de Domingos Caetano: ele 
tinha sabido a hora do passeio costumado à horta e viu vinte vezes Florinda ao lado de 
sua mãe. 
Nas festas da freguesia ambos se encontraram na igreja, e à noite nas danças de 
mascarados, e no Largo (na praça) a verem o fogo de artifício: o fogo de artifício quase 
que não viram; mas