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Criptococose é uma micose sistêmica de porta de entrada inalatória causada por fungos do gênero Cryptococcus, dos quais somente Cryptococcus neoformans e Cryptococcus gattii são responsáveis por doença em seres humanos. A micose abrange duas entidades distintas do ponto de vista clínico e epidemiológico, a criptococose oportunista, cosmopolita, associada a condições de imunodepressão celular e causada, predominantemente, por C. neoformans; e a criptococose primária de hospedeiro aparentemente imunocompetente, endêmica em áreas tropicais e subtropicais, causada predominantemente por C. gattii. Ambas causam, prioritariamente, a doença pulmonar e a meningoencefalite, sendo esta de evolução grave e fatal, acompanhada ou não de lesão pulmonar evidente, fungemia e focos secundários para outros órgãos, tais como a pele, ossos, rins, suprarrenal. É doença definidora de AIDS em pacientes infectados pelo HIV. O número de casos de criptococose tem diminuído após a introdução da terapêutica antirretroviral. No Brasil, ainda é uma doença oportunista frequente nos pacientes com AIDS e outras doenças imunodepressoras, cuja mortalidade varia de 25 a 50% dos casos, dependendo do hospedeiro e da espécie de Cryptococcus. Estudaremos apenas a criptococose oportunista, de evolução subaguda ou crônica, que acomete qualquer órgão ou sistema e constitui a mais frequente micose do SNC. É uma doença, como já dito, frequente em pacientes imunodeprimidos – linfoma, leucemias, AIDS, diabetes, colagenoses, transplantados, uso de medicamentos imunossupressores – cujo principal mecanismo de infecção é a via pulmonar, por meio da inalação do fungo, que está presente, principalmente, em ambientes com fezes de galinhas, pombos, onde há folhas de eucalipto e outras árvores tropicais. Ocorre, com maior frequência, em pessoas do sexo masculino entre 30 e 60 anos. Patogênese A infecção natural ocorre por inalação dos fungos, por serem pequenos, conseguem depositar-se nos alvéolos, transformando-se em leveduras capsuladas na temperatura corporal de 37oC. O hospedeiro desenvolve um complexo linfonodal pulmonar primário. Na maioria dos casos, a inalação de Cryptococcus spp. produz infecção pulmonar assintomática, autolimitada e, dentro deste complexo, as leveduras permanecem latentes, morrem ou, com um posterior evento de imunossupressão, são reativadas e causam doença. Essa infecção primária também pode causar sintomas pulmonares no hospedeiro, em caso de imunossupressão ou de um grande inóculo da levedura. A disseminação pulmonar para outros órgãos pode ocorrer como resultado da infecção primária ou secundária. No estágio de disseminação, o cérebro torna- se o órgão com maior propensão a ser o alvo da doença clínica. Esse tropismo pelo SNC é atribuído à concentração ótima de nutrientes assimiláveis pelo fungo (tiamina, ácido glutâmico, glutamina, dopamina, carboidratos e minerais) existentes no liquor, à falta de atividade do sistema complemento no liquor e à fraca ou ausente atividade de resposta inflamatória do tecido cerebral. Após o evento pulmonar inicial a infecção evolui como quadro regressivo, ocorrendo a formação de eventuais focos extrapulmonares, de estrutura tecidual granulomatosa nos hospedeiros normais, que raramente calcificam. Focos residuais, de infecções latentes, podem reativar anos após. Entre os mecanismos imunossupressores induzidos pela presença da cápsula estão: inibição da fagocitose e da ligação de IgG, bloqueio da fixação de C3 e da via da ativação de complemento pela via clássica, supressão da proliferação da expressão das moléculas de adesão. Tanto a parede celular como a cápsula sintetizada pelos fungos são estruturas que protegem os microrganismos dos ataques do hospedeiro. Após ter entrado no organismo do hospedeiro, os fungos encontram uma série de mecanismos, CRIPTOCOCOSE inespecíficos (da imunidade inata) e específicos (da imunidade adquirida) que tentam eliminá-los a qualquer custo, atuando por meio de um padrão de resposta Th1 e com liberação de citocinas por estímulos de macrófagos. Existem evidências de que o linfócito T tem eficácia reduzida no tecido cerebral em comparação ao que se observa em outros órgãos (ex-pulmão). Diagnóstico clínico Ocorre sob forma de infecção sistêmica latente, inaparente, mas pode evoluir para manifestações clínicas pulmonares, neurológicas, sendo as lesões neurológicas a principal causa de morte. As apresentações clínicas são diretamente relacionadas ao estado imunológico do hospedeiro, que varia desde manifestações localizadas autolimitadas até doença disseminada. Sinais e sintomas da criptococose dependerão da localização da doença (pulmonar, SNC ou disseminada). A criptococose em SNC é a manifestação clínica mais frequente da doença seguida do envolvimento pulmonar. O complexo primário pulmonar-linfonodo pode ser assintomático e com potencial risco de disseminação em presença de imunodepressão. Infecção subpleural assintomática ocorre devido ao tamanho dos propágulos fúngicos. A criptococose é uma micose importante em pacientes receptores de transplante de órgão sólido, sendo uma das mais frequentes doenças fúngicas invasivas no período pós-transplante, ocorrendo nos primeiros 2 anos após o transplante. Contudo, existem casos em que isso aconteceu nos primeiros 30 dias pós-transplante. CRIPTOCOCOSE PULMONAR Pode se apresentar das seguintes formas: Assintomáticas – lesões focais isoladas ou miliares de regressão espontânea; Forma pneumônica ou broncopneumônica – evolução arrastada, emagrecimento, febre baixa, tosse, astenia, dor torácica incaracterística; Forma miliar assintomática; Forma pseudotumoral – assintomática ou com queixas de perda ponderal, dor torácica mais localizada à direita, tosse, hemoptoicos e febre baixa intermitente; No paciente imunocompetente, a inalação do Cryptococcus causa pneumonite focal que pode ou não ser assintomática. O curso da doença vai depender, prioritariamente, do status imunológico do hospedeiro, podendo se resolver espontaneamente ou evoluindo para doença sintomática e disseminada. A criptococose pulmonar pode ser um achado radiológico em paciente assintomático. É comum a doença manifestar-se como pneumonia, multifocal, segmentar ou lobar. Massas focais, sobretudo em lobos superiores, são semelhantes a neoplasias pulmonares. No paciente imunodeprimido, é causado por reativação de foco pulmonar latente. No entanto, cogita-se a ocorrência de uma nova infecção. Os casos de acometimento pulmonar são mais sintomáticos, bem como apresentam mais frequentemente formas extrapulmonares. Os sintomas clínicos vão desde formas assintomáticas até casos graves de falência respiratória aguda grave, principalmente em pacientes HIV+ e em pacientes transplantados. Esta forma de pneumonia aguda grave está associada à alta mortalidade e à disseminação da doença e os pacientes devem ser tratados como a forma meningoencefalítica da criptococose. Apresentações clínicas como pneumotórax, pneumomediastino e pneumonia criptocócica alérgica foram relatadas como formas clínicas inusitadas. O encontro de outras infecções oportunistas associadas à criptococose pulmonar é comum, uma vez que esta micose tende a ocorrer em fases avançadas da AIDS, quando o número de linfócitos T CD4 é inferior a 100 células/mm3. CRIPTOCOCOSE – FORMA NEUROLÓGICA Embora a infecçãoocorra por via inalatória, nos pulmões, o SNC é o mais acometido pela doença, independente da situação do sistema imune. A meningoencefalite é uma doença fatal quando não tratada ou tratada inadequadamente. Os sintomas podem ser agudos ou crônicos, e sua gravidade varia de acordo com as condições clínicas do paciente. Os mais comuns são dor de cabeça intensa e contínua, sem fatores de melhora e pouco responsiva aos analgésicos, alteração do status mental que variam de alterações leves da personalidade até confusão mental, letargia e coma. A presença de náuseas e vômitos é comum e está associada com o aumento da pressão intracraniana. Febre e sinais meníngeos estão associados com a resposta inflamatória e alguns pacientes HIV+ podem apresentar quadro pouco específico com febre baixa, cefaleia persistente e ausência de sinais meníngeos. Dependendo do grau de acometimento, o paciente pode apresentar visão borrada, diminuição da acuidade visual até cegueira, diplopia e fotofobia, papiledema, neurite óptica e coriorretinite. Outros achados menos frequentes incluem convulsão, ataxia, afasia, diminuição da acuidade auditiva e movimentos coreoatetoicos. Hidrocefalia é uma complicação tardia que pode complicar-se com demência. A infecção em SNC envolve o tecido cerebral e as meninges. O diagnóstico de meningite criptocócica pode ser difícil devido às características dos sintomas serem subagudos e, às vezes, pouco específicos. No entanto, deve-se suspeitar da doença em paciente imunodeprimido com queixa de febre, cefaleia e outros sinais de envolvimento do SNC. Meningoencefalite insidiosa, com liquor claro ou por sinais de tumor cerebral; A forma tumoral - turuloma ou criptococoma; Lesões localizadas na base do encéfalo com comprometimento de tronco cerebral, cerebelo e pares cranianos; AIDS – evolução mais aguda; Rigidez de nuca – coma; Sem tratamento – óbito em 5 a 6 semanas após a instalação do quadro clínico; CRIPTOCOCOSE – FORMA TEGUMENTAR Depois do pulmão e SNC os sítios mais comumente acometidos são pele, próstata, ossos e medula óssea. As manifestações cutâneas ocorrem em 10 a 15% dos casos e caracterizam-se por pápulas, pústulas, nódulos e úlceras. No paciente com AIDS as lesões cutâneas lembram molusco contagioso. Lesões de pele, mucosas e tecido subcutâneo podem ocorrer como consequência da disseminação da doença e mais raro como forma inicial; Lesões cutâneas localizadas mais em face e couro cabeludo – aspecto de pápulas, pústulas acneiformes, nódulos de tamanhos variados, cor avermelhada e indolores; Podem evoluir para úlceras granulomatosas e abscessos; CRIPTOCOCOSE – FORMA DISSEMINADA FRANCA Acompanhada ou não de manifestações pulmonares e neurológicas, podendo haver invasão de gânglios linfáticos – simula a doença de Hodgkin; Lesões osteolíticas crônicas de ossos chatos e epífise de ossos longos, mas sem comprometimento do periósteo e de articulações; Criptococose ocular, prostatite por criptococos; DIAGNÓSTICO LABORATORIAL A alta mortalidade da doença criptocócica está diretamente relacionada ao retardo do diagnóstico e, consequentemente, da demora na instituição da terapia antifúngica, portanto o diagnóstico laboratorial é fundamental para a terapêutica, sendo esse fundamentado em: cultura e microscopia direta de materiais clínicos, anatomopatologia de tecidos e a detecção do antígeno criptocócico. Pesquisa direta do fungo Cultura Histopatologia – biópsia pulmonar, lesão tegumentar ou cerebral A microscopia se apresenta como um excelente recurso, uma vez que apresenta abundância de elementos fúngicos em materiais clínicos (escarro, lavado bronquioalveolar, tecidos, medula óssea). A cultura é o exame comprobatório da doença. Pode crescer em temperaturas entre 25°C e 37°C; a termotolerância máxima é de 40°C. A hemocultura pode revelar a presença do fungo no sangue (fungemia) na doença disseminada. Métodos imunológicos – aglutinação do látex (antígeno criptocócico), imunofluorescência indireta e reação de aglutinação em tubo (pesquisa de anticorpo) A detecção de Cryptococcus pela aglutinação do látex pode ser realizada no sangue, urina, lavado bronquioalveolar e no LCR. Na prática, a detecção de antígeno é feita no LCR e no soro. Títulos de 1:4 =infecção por Cryptococcus; Títulos ≥ 8 = doença em atividade. Títulos > 1:1.024 = alta carga fúngica, déficit imunitário e, quando por mais de 2 semanas pós-tratamento, pode sugerir dificuldade na resposta terapêutica. A maioria dos falso-positivos ocorre em reação cruzada com fator reumatoide. Exames radiológicos e tomográficos; Liquor – Formas neurológicas: pleocitose mononuclear moderada (200-500 células com discreto aumento de proteínas e glicose baixa) Ao realizar a punção liquórica deve-se sempre medir a pressão de abertura, quando ≥ 25 cmH2O requer punções repetidas até que a pressão de abertura diminua para valores < 20 cmH2O. Sempre que possível deve-se realizar tomografia computadorizada de crânio antes da primeira punção liquórica para excluir massas intracerebrais que poderiam resultar em herniação, visto que é improvável a reversibilidade do quadro depois que isso acontece. TRATAMENTO Anfotericina B + 5 Fluorcitosina Anfotericina lipossomal, complexo lipídico Formas pulmonares e dermatológicas – Itraconazol e Fluconazol Duração do tratamento – 6 semanas – até negativar cultura no liquor A persistência de leveduras capsuladas no liquor não significa que estas células estejam viáveis, devendo-se realizar a cultura como controle de cura. Antes da terapêutica para as formas pulmonares de criptococose ser instituída deve-se sempre afastar doença em SNC, mesmo em pacientes assintomáticos, realizar a punção liquórica, determinar a pressão de abertura, fazer a microscopia direta com pesquisa de Cryptococcus no LCR, coletar o LCR e determinar os títulos de antígeno criptocócico. O tratamento das formas pulmonares deve ser sempre recomendado nos pacientes sintomáticos e/ou com doença disseminada e/ou com antígeno criptocócico+ e/ou com imunossupressão. Pacientes com formas pulmonares localizadas, assintomáticos, oligossintomáticos ou com nódulo pulmonar ressecado podem ser observados, em um primeiro momento, sem o uso de antifúngicos; entretanto, o monitoramento clínico e laboratorial deve ser cuidadoso. Nestas situações é necessária avaliação criteriosa do risco de disseminação para outros locais, além de possível imunossupressão. Outra possibilidade de manejo dos casos supracitados seria a introdução da terapêutica específica em todos os casos de criptococose pulmonar, independente da presença ou ausência de sintomatologia. Terapia antifúngica Nas formas graves, a fase de indução tem por objetivo negativação ou redução efetiva da carga fúngica, sendo o período mínimo de tratamento de 2 semanas. A fase de consolidação deve ser mantida por pelo menos 8 semanas e compreende negatividade micológica e normalização de parâmetros clínicos e laboratoriais. Segue-se a fase de manutenção por um mínimo de 1 ano com tempo adicional que varia de acordo com a condição do estado imune do hospedeiro. A terapia de manutenção tem sido preconizada pelo alto risco de recaída nos pacientes com acentuada imunossupressão e em pacientes com AIDS enquanto os linfócitos T CD4+ estiverem em níveis inferiores a 100 células/mm3. Pode-se considerar a suspensão da terapia antifúngica de manutençãoem pacientes aderentes à TARV, após a estabilização dos linfócitos T CD4+ em níveis superiores 100 células/mm3, por mais de 6 meses. As substâncias disponíveis são: anfotericina B, itraconazol e flucitosina. Sendo o fluconazol o azólico de escolha no tratamento. A flucitosina é uma substância com potencial mielotóxico e hepatotóxico, e seu uso deve ser acompanhado com controles laboratoriais por hemograma, hepatograma e função renal. O itraconazol, embora menos eficaz, pode ser uma alternativa ao fluconazol nos casos de intolerância. A associação de anfotericina B + fluconazol poderia substituir a combinação de anfotericina B + flucitosina, uma vez que não dispomos de flucitosina no Brasil. A combinação de fluconazol + flucitosina também foi efetiva no tratamento da meningite criptocócica nos pacientes com AIDS. Somente na gravidez é que se deve ter muita cautela na indicação de flucitosina, analisando-se criteriosamente o custo-benefício do uso deste medicamento. (Tem sido sugerido que o tratamento de indução, anfotericina B + flucitosina, seja estendido para 6 semanas nos casos de doença neurológica e 2 semanas nos casos de doença pulmonar e a terapia de consolidação seja de no mínimo 12 meses.) *A hipertensão intracraniana (HIC) é definida como a pressão liquórica inicial medida por raquimanometria ≥ 20 cmH2O com o paciente em decúbito lateral. A principal intervenção recomendada para a redução da HIC é a punção lombar intermitente, e a maioria das mortes ocorridas nas primeiras semanas da doença têm sido associadas a pressão liquórica elevada.