Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL DA BAHIA CAMPUS PAULO FREIRE BRENDA BISPO DE ALCÂNTARA RESENHA CRÍTICA “A relação assimétrica médico-paciente: repensando o vínculo terapêutico.” TEIXEIRA DE FREITAS/BA 2018 BRENDA BISPO DE ALCÂNTARA “A relação assimétrica médico-paciente: repensando o vínculo terapêutico.” Resenha crítica requisitada por Marcus Matraca, docente do curso de BI Saúde, na Universidade Federal do Sul da Bahia. Teixeira de Freitas, 04 de dezembro de 2018. TEIXEIRA DE FREITAS/BA 2018 RESENHA CRÍTICA CAPRARA, A.; RODRIGUES, J. V. “A relação assimétrica médico paciente: repensando o vínculo terapêutico”. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-146, 2004. CREDENCIAIS DOS AUTORES Andrea Caprara possui graduação em Medicina e Cirurgia - Faculdade de Medicina Universidade de Modena, Itália (1981) e Doutorado em Antropologia - Universidade de Montreal (1994). Atualmente é professor Associado no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual do Ceará. Outras obras: CAPRARA, A.; RIDDE, V. Zika: nuevo revelador de la necesidad de promocion de la salud en America Latina. Global Health Promotion (Print), v. 23, p. 89-91, 2016. Josiane Rodrigues é formada em psicologia pela Universidade Federal do Ceará. Especialista em Psicologia da saúde :Psicologia hospitalar pela PUC/SP; Especialista em Psico-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Outras obras: RODRIGUES, J. V. Câncer: Significados e Desafios- Cuidando do cuidador. In: VII Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia, 2002, Recife. Psico-Oncologia: O Encontro da Ciência com a Espiritualidade. São Paulo: Editora Livro Pleno, 2002. RESUMO DA OBRA No artigo, CAPRARA e RODRIGUES por meio de uma revisão da literatura e da apresentação dos resultados de uma pesquisa realizada sobre a relação entre médicos e pacientes no Programa de Saúde da Família no Estado do Ceará, tem como proposta refletir sobre quais os fatores que estão na raiz desta problemática. No capítulo inicial há uma visão geral sobre o tema, com a constatação de que com novas descobertas, como sulfamídicos e penicilina nos anos 30-40, o crescente avanço da medicina e a fragmentação do corpo direcionada às especializações médicas, tornava-se cada vez mais frequente um atendimento intencionado a resolver unicamente a queixa biológica do paciente. Não se verificava o aperfeiçoamento das práticas de saúde, como práticas compostas pela comunicação, pela observação, pelo trabalho de equipe, por atitudes fundamentadas em valores humanitários sólidos. O paciente apresenta uma série de fatores que vão além do ramo biológico que envolve sua doença. Como um ser humano, ele está sujeito aos reflexos de suas condições psicológicas, ambiente em que vive e frequenta, relações sociais, condições socioeconômicas. Hoje, a temática sobre a relação médico-paciente encontra um renovado interesse na produção científica, na formação e prática clínica buscando proporcionar uma melhoria da qualidade do serviço de saúde. O segundo capítulo trata da identificação das principais características da relação médico-paciente, definindo os principais problemas. Apesar dos sucessos da medicina moderna, os custos da saúde e insatisfação dos profissionais continuam aumentando. Entre os fatores determinantes desta situação, apresenta-se a necessidade de melhorar a qualidade dos serviços de saúde, do ponto de vista dos usuários, e da população que em geral é considerado um elemento fundamental deste processo (Lewis et al., 1995; Rosenthal et al.,1997; Gattinara et al., 1995). A qualidade dos serviços de saúde depende de 30 a 40% da capacidade diagnóstica e terapêutica do médico, e de 40 a 50% da relação que se estabelece entre profissionais de saúde e usuários. Os médicos e pacientes, mesmo pertencendo à mesma cultura, interpretam a relação saúde-doença de formas diferentes. Além dos aspectos culturais temos de enfatizar que eles não se colocam no mesmo plano: trata-se de uma relação assimétrica em que o médico detém um corpo de conhecimentos do qual o paciente geralmente é excluído (Arrow, 1963). A humanização da medicina é uma necessidade relatada por diferentes estudiosos, principalmente da relação entre médicos e pacientes, que reconhecem a urgência de uma maior habilidade quando se trata da sensibilização diante do sofrimento da doença. Esta proposta aspira pelo nascimento de uma nova imagem profissional, responsável pela efetiva promoção da saúde ao considerar o paciente em sua integridade física, psíquica e social e não somente de um ponto de vista biológico. O Terceiro capítulo realça os mesmos problemas que enfatizam a assimetria na relação entre médicos e pacientes, mas localizado no Programa de Saúde da Família do Estado do Ceará. Pesquisas internacionais demonstram dados estatísticos surpreendentes: 54% dos distúrbios percebidos pelos pacientes não são tomados em consideração pelos médicos durante as consultas, 50% dos problemas psiquiátricos e psicossociais não são considerados, em 50% das consultas, médicos e pacientes não concordam sobre a natureza do problema principal e 65% dos pacientes são interrompidos pelos médicos depois de 15 segundos de explicação do problema (Stewart et al., 1979; Schulberg et al., 1988; Freeling et al., 1985). Seguindo esses dados, realizou-se uma pesquisa sobre a relação entre médicos e pacientes no Programa de Saúde da Família no Estado de Ceará, mostrando os principais problemas no contexto da atenção primária no Brasil. Primeiramente, os aspectos organizacionais, como a alta rotatividade dos médicos, a falta de estruturas físicas adequadas e os problemas na organização dos serviços, afetam a relação, bem como os fatores culturais e sociais. Como enfatizado pela literatura, o espaço terapêutico teria de facilitar a comunicação, mantendo a privacidade e evitando interrupções, sendo esse espaço o mais confortável possível. Pelo que se refere à comunicação entre médicos e pacientes, os médicos não explicam de forma clara e compreensiva o problema e não verificam o grau de entendimento do paciente sobre o diagnóstico e sobre as indicações terapêuticas. Em relação aos aspectos psicossociais, na maioria das consultas os médicos não exploram os medos e ansiedades dos pacientes. A diversidade cultural é uma realidade com a qual os médicos de Saúde da Família precisam administrar em sua prática. É uma aprendizagem indispensável para uma intervenção médica eficiente. A maioria das queixas dos pacientes faz referência a problemas comunicacionais com o médico e não a sua competência clínica, sendo estas queixas os efeitos de uma má relação. No último capítulo, são apresentadas algumas possíveis soluções para os problemas constatados, tomando como exemplos, universidades de países de primeiro mundo. Nos cursos tradicionais para médicos e enfermeiros, os estudantes adquirem uma série de conteúdos e capacidades práticas que levam a considerarem somente os aspectos físicos, excluindo as características culturais e socioeconômicas. Há algumas décadas, nas universidades europeias e norte-americanas estão sendo desenvolvidos cursos sobre o tema da relação médico-paciente. Quase todos esses cursos têm uma característica comum: a duração acompanha todo o processo de formação do estudante desde os primeiros até os últimos anos. Durante as etapas sucessivas do curso, os conteúdos adquirem passo a passo uma maior elaboração, passando de temas mais simples, como “formulação de perguntas” e “capacidade de escuta” a aspetos mais complexos como “a comunicação de más notícias” e a “assistência de pacientes em fase terminal”. Com o transcorrer do tempo, cada estudante identifica as próprias capacidades e dificuldades, escolhendo o percurso formativo mais adequado àssuas necessidades (Caprara et al., 2003). Por tanto, uma vez implementada a humanização é garantido que o vínculo entre o paciente e o médico seja criado de forma sólida e recíproca, já que ela permite mostrar ao paciente uma sensibilização maior diante do seu sofrimento, um grau de compreensão maior das palavras expressas assim como a transmissão de informações pelo médico. Cabe ao médico, possibilitar que a relação seja centrada no paciente e não apenas na doença. Com essa abordagem, pode-se diminuir a assimetria da relação. CONCLUSÃO DA RESENHISTA De um modo geral, as autoras mostram que a percepção de que a maioria dos problemas no serviço público de saúde, que está em grande parte ligados com a pouca inteligência interpessoal e falta de sensibilidade dos profissionais de saúde, principalmente dos médicos, é uma necessidade relatada e observada por diferentes estudiosos. E que esse problema apesar de ter destaque apenas na relação médico-paciente é de responsabilidade tanto das bases de ensino e universidades, quanto do poder público, dando aos usuários e profissionais do serviço público condições dignas de trabalho, um ambiente em que se sintam acolhidos e políticas públicas que estreitam a assimetria das relações. Os exemplos citados amplamente na obra auxiliam na compreensão da problemática abordada e possibilita refletir diante de várias questões e fatos abordados. Por fim, com o estudo dessa obra pode-se amadurecer a ideia de busca de soluções durante a formação médica, tomando como exemplo as instituições de ensino pelo mundo, que em muito pode enriquecer o serviço público de saúde.