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O que é Direito? Nada mais justo que a curiosidade do iniciante, que pela primeira vez se debruça sobre um ramo do conhecimento, para conhecer seu conteúdo. Nada é tão simples e ao mesmo tempo tão complexo quanto definir Direito. A palavra direito intuitivamente nos outorga a noção do que é certo, correto, justo, equânime. Quando se menciona a palavra é importante saber se a empregamos como substantivo, adjetivo ou advérbio. A palavra direito,no uso comum, é sintaticamente imprecisa: o meu direito será protegido; ele deve andar direito; não se trata de um homem direito; ele é seu braço direito; ele estuda Direito etc. O Direito, ius, no dizer do brocardo romano tradicional, é a arte do bom e do eqüitativo (ars boni et aequi). Há, portanto, que se enfrentar, de plano, o Direito como arte e como ciência. O termo ius é mais antigo na história do Direito Romano, dando origem a muitas palavras. O termo direito é palavra plurívoca, pois possui vários significados, ainda que ligados e entrelaçados, com sentido analógico. O Direito como arte ou técnica procura melhorar as condições sociais ao sugerir e estabelecer regras justas e eqüitativas de conduta. Pois é justamente como arte que o Direito, na busca do que pretende, se vale de outras ciências, como Filosofia, Antropologia, Economia, Sociologia, História, Política. Embora Hans Kelsen tenha tentado demonstrar que há uma teoria pura do direito, livre de qualquer ideologia política, o quadro do dia-a-dia do Direito traduz outra realidade. O Direito, como ciência, enfeixa o estudo e a compreensão das normas postas pelo Estado ou pela natureza do Homem. O Direito não se limita a apresentar e classificar regras, mas tem como objeto analisar e estabelecer princípios para os fenômenos sociais tais como os negócios jurídicos; a propriedade; a obrigação; o casamento; a filiação; o poder familiar etc. Já nesse ponto, muito singelamente se posta a grande díade: o direito posto pelo Estado, ou seja, o ordenamento jurídico ou direito positivo, a configurar, portanto, o positivismo; e, por outro lado, a norma que se sobreleva e obriga independentemente de qualquer lei imposta, o idealismo, cuja maior manifestação é o chamado direito natural, o jusnaturalismo. Para esta última vertente, adiante-se que existe um Direito muito mais amplo e sobreposto às leis elaboradas pelo Homem; um Direito que se aplica independentemente de norma, um Direito imanente à natureza humana, o justo e eqüitativo que independe da Lei: o direito natural. Ou, em termos absolutamente singelos, o sentido do que é justo independe da lei. Quanto à compreensão do Direito, se nos prendermos ao mundo da cultura, como faremos referência, ou seja, das realizações humanas, pois o Direito é sem dúvida um dado cultural, ele deverá ser visto como ciência cultural. Assim como todos os trabalhos humanos, devem ser vistas as leis elaboradas pelos homens. Se, porém, divisarmos o Direito sob o prisma do fenômeno social e político, este deverá ser visto como uma ciência social. Nesse diapasão, o Direito conceitua e procura compreender as revoluções, a criminalidade, a inflação etc. No curso da História digladiam-se perenemente positivistas e idealistas ou jusnaturalistas. O assunto merece maior destaque, como faremos a seguir. Basta dizer, por ora, que as duas correntes partem de premissas opostas e, portanto, na simples definição de Direito já estará aposta a oposição. A questão subseqüente será saber, em que pese as diversidades das sociedades no tempo e no espaço, se há regras universais que são admitidas indistintamente, aqui e alhures, no presente e no passado. Há, sem dúvida, ainda que com multiplicidade de sistemas e de necessidades sociais, uma plataforma comum do justo, cujo estudo mais pertence à antropologia jurídica. Existem, portanto, elementos constantes, com compreensíveis variantes nos direitos dos povos (Bergel, 2001 :XIX). Há que se admitir, pois, a existência de um Direito mais abrangente do que o ordenamento que rege um Estado. O moderno positivismo, em inúmeras correntes, também assim entende, não se prendendo exclusivamente a um ordenamento, embora sempre preso à sua idéia fundamental. Ademais, sempre haverá o subjetivismo de cada autor na compreensão do que se deva entender por Direito. Desse modo, diferente será a orientação da definição, quer se propenda para conceituá-lo como direito positivo ou como direito natural. Assim, pode-se definir o Direito de um país, em sentido estrito, como o conjunto de normas impostas pelo Estado para regular a sociedade. Nesse sentido, que não é em absoluto abrangente, o Direito engloba a Constituição do Estado e todas as demais leis ou normas, em todos os níveis. Não é, porém, a definição que se deva dar ao Direito enquanto ciência. O Direito, nesse sentido, coloca-se em plano superior e abrangente, transcendente das simples normas impostas por este ou aquele Estado, este ou aquele ordenamento. O Direito como ciência não se revela simplesmente por uma posição, como quando defino o lado direito ou o lado esquerdo. Há um Direito e o que não estiver abrangido por ele será um não-Direito, ou seja, algo irrelevante para o mundo jurídico. Ou, em palavras singelas, exclusivamente para uma primeira compreensão, quem não estiver com o Direito estará à margem dele ou contra ele. Porém, o próprio conteúdo do Direito se altera no tempo e no espaço. O que é permitido aqui poderá ser proibido acolá. Ciência é o conjunto de conhecimentos ordenados harmonicamente sobre determinado objeto. Cabe agora iniciarmos seus primeiros passos. Nesse diapasão, o Direito não pode ser entendido exclusivamente dentro da perspectiva da Filosofia ou Teologia, como um sinônimo de justiça, e muito menos sob um sentido formal de um conjunto de normas. É claro que em ambas concepções há o conteúdo da palavra direito. Porém, o Direito, como ciência, absorve esses conceitos e os transcende, "há de ser tido como uma ciência social, essencialmente normativa, posto que visa elaborar normas de conduta a serem respeitadas por cada indivíduo e voltadas para o interesse e bem-estar da coletividade" (Secco, 2001:5). Definir é explicar o sentido de um fenômeno, sua natureza, sua essência. Dada essa equivocidade do vocábulo, definir Direito é algo complexo, pois dificilmente será sintética e compreensível uma definição que abranja o Direito em todas as suas acepções. Quando nos debruçamos exclusivamente sobre a origem etimológica da palavra direito, não há maior dificuldade: direito provém de directus, directa,directum, rectum, a significar direto, reto, correto, conforme. Daí podermos sempre ligar o termo utilizado na linguagem vulgar e por vezes na técnica com tudo aquilo que é correto, justo, conforme a regra, enfim, direito. Também, por extensão, direito é tudo aquilo que se mostra conforme a moral ou à regra moral. Como lembra Goffredo Telles Júnior, é por esse motivo que a mão mais hábil é a mão direita, e conclui: "Em conseqüência, a palavra direito tem dois sentidos etimológicos: um sentido fundamental, referente ao mundo físico, e um sentido analogado, referente ao mundo ético" (2002:375). Nesse sentido, quando empregado como adjetivo, direito é a qualidade de ser escorreito, correto, certo, reto, conforme a regra. A origem e o sentido latinos se fazem presentes da mesma forma nas outras línguas: Derecho, Droit, Diritto, Recht, Right. O ius do latim clássico, com o mesmo sentido, nos trouxe outra série de termos: justiça, justo, jurídico, judiciário, judicial etc. No Direito Romano antigo, o ius era constituído de normas impostas pelos homens à sociedade e se contrapunha ao fas, normasde cunho religioso. A pessoa comum ambiciona que toda norma jurídica seja correta, direita. Daí então o emprego dessa terminologia. Por outro lado, para a definição do seu sentido real ou substantivo, torna-se complexo definir Direito, pois será diversa conforme a acepção tomada, como norma, faculdade, ciência etc. Sempre estará presente a idéia, porém, de que o Direito como ciência é um conjunto de normas de conduta para adequação social. Sob o aspecto geral, o direito se apresenta em três acepções. Como regra de conduta obrigatória, que se traduz no direito objetivo; como um sistema ordenado de conhecimentos, o que se traduz na ciência do direito; e como uma faculdade que a pessoa tem de agir para obter de outrem o que entende cabível, o direito subjetivo. BIBLIOGRAFIA: VENOSA, Sílvio de Salvo. Introdução ao Estudo do Direito : primeiras linhas. 2ª. ed. São Paulo: Atlas, 2009. (Páginas 8 a 12).