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| PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 123 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Fernando melhem elias INTRODUÇãO O tratamento ortodôntico-cirúrgico das deformidades dentofaciais requer um planeja- mento minucioso, tradicionalmente realizado a partir dos dados clínicos, exames radio- gráficos, traçados cefalométricos e análise dos modelos de gesso. em cirurgias ortognáticas bimaxilares, os movimentos cirúrgicos desejados para as bases ósseas são primeiramente simulados em modelos de gesso das arcadas dentárias, mon- tados em um articulador, processo conhecido como cirurgia de modelos. embora esse método tenha sido tradicionalmente utilizado pelos cirurgiões ao longo dos anos, ele apresenta algumas limitações como a incapacidade de revelar as posições assumidas pelas bases ósseas em decorrência dos movimentos planejados para as arcadas dentárias, dificultando assim a previsão acurada dos resultados em alguns casos, como os de assimetrias faciais acentuadas. Com a evolução científico-tecnológica observada nos últimos anos, um novo método foi criado com a perspectiva de mudar o paradigma do planejamento em cirurgias or- tognáticas: o planejamento cirúrgico virtual. esse método consiste na simulação tridimensional em computador dos movimentos cirúrgi- cos desejados para os dentes e bases ósseas, a partir de dados provenientes de tomografias computadorizadas (TCs) do paciente e do escaneamento de suas arcadas dentárias. 124 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Uma vez finalizada a simulação, guias cirúrgicos são projetados no ambiente virtual e posteriormente impressos com técnicas de prototipagem rápida, para serem utilizados na transferência do planejamento para o paciente no momento da cirurgia. OBJETIVOS Ao final da leitura deste artigo, o leitor poderá: reconhecer os princípios básicos do planejamento virtual em cirurgia ortognática; comparar as vantagens e limitações dos diferentes métodos de planejamento no tratamento ortodôntico-cirúrgico; indicar as etapas clínicas e a sequência da simulação cirúrgica no computador; estabelecer o protocolo necessário à boa execução da técnica de cirurgia ortognática virtual. ESqUEMA CONCEITUAL Conclusão Etapas do planejamento virtual Planejamento virtual – uma nova realidade Planejamento tradicional – razões para a mudança Quantificação da deformidade Simulação virtual da cirurgia Fabricação de guias cirúrgicos Criação do crânio composto Tomografia computadorizada Registro de mordida Registro fotográfico escaneamento dos modelos Registro da posição neutra da cabeça moldagens e modelos de gesso exame clínico limitações da cirurgia de modelos Problemas na transferência com o arco facial limitação do traçado preditivo Orientação do crânio composto Caso clínico Paradigma do planejamento em cirurgia ortognática | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 125 PARADIGMA DO PLANEJAMENTO EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA Paradigmas são normas e padrões que, durante algum tempo, servem de modelo ou exemplo a ser seguido em determinada situação; são princípios e conhecimentos que orientam comportamentos e ações; são as percepções de filósofos e cientistas sobre uma teoria ou descoberta que fornecem explicações e soluções para uma comunidade científica. Na Cosmologia, por exemplo, durante muitos séculos se acreditou no paradigma geocên- trico, segundo o qual o Sol e os planetas giravam ao redor da Terra. Até mesmo os cálculos matemáticos da época confirmavam esse modelo. mas, a partir de um determinado momento, novos estudos de astrônomos e físicos começa- ram a se opor a essa forma de enxergar o mundo, dando origem ao paradigma heliocêntrico, segundo o qual são a Terra e os planetas que giram ao redor do Sol, e não vice-versa. A alteração nas concepções básicas da teoria dominante, muitas vezes decorrente de novas evidências científicas, é chamada de mudança ou quebra de paradigma. Frequentemente, a mudança ou quebra de paradigma gera uma crise entre os que questio- nam o paradigma a ser modificado e aqueles que o defendem. No exemplo do geocentrismo e heliocentrismo, muitos dos convictos de que este último seria o modelo correto sofreram rejeições sociais e acusações diversas, até que as evidências científicas tornassem inevitável a sua imposição.1 Assim como ocorre em outras ciências, a cirurgia ortognática também possui alguns para- digmas. O princípio universalmente aceito de que a obtenção de bons resultados pós-operatórios está diretamente relacionada com as etapas do planejamento pré-operatório pode ser considerado como o paradigma do planejamento em cirurgia ortognática. Segundo esse modelo tradicional de planejamento, antes do procedimento cirúrgico propriamente dito, deve-se primeiramente simular os movimentos desejados para os dentes e bases ósseas, assim como as mudanças nos tecidos moles, sobre os traçados cefalométricos, etapa conhecida como traçado preditivo. Na sequência, a simulação dos movimentos dentários deve ser realizada nos modelos de gesso das arcadas dentárias, montados em um articulador semiajustável, etapa denominada cirurgia de modelos. 126 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Durante esse processo, dois guias cirúrgicos em resina acrílica deverão ser confeccionados sobre os dentes superiores e inferiores, de maneira a relacioná-los espacialmente, um deles denominado intermediário e o outro, final. esses guias serão utilizados na cirurgia real, aju- dando a transferir para o paciente as posições desejadas para a maxila e a mandíbula, com base na oclusão dentária. especificamente, o guia intermediário será utilizado para posicionar uma das bases ósseas (maxila ou mandíbula), já mobilizada, em relação à outra, ainda em sua posição original. A escolha de qual base mover primeiro dependerá do caso e/ou da preferência do cirurgião. O guia final será utilizado para estabilizar as arcadas superior e inferior na oclusão final, para que se proceda à osteossíntese da base óssea que ainda não havia sido fixada, quando do posicionamento com o guia intermediário.2 Durante décadas, o paradigma do planejamento em cirurgia ortognática tem sido repre- sentado pelas etapas tradicionais de traçado preditivo e cirurgia de modelos, aplicadas com êxito em grande parcela dos casos. Porém, ao longo do tempo, esse modelo tradicional de planejamento cirúrgico não tem escapado do destino de muitos outros paradigmas: o de se mostrar incapaz de resolver todos os problemas. em alguns casos de assimetrias faciais acentuadas, por exemplo, ele não tem se mostrado suficiente para prever a posição desejada para as bases ósseas com acurácia, a despeito da experiência de quem o executa. Isso ocorre porque os movimentos se sucedem em um am- biente tridimensional, não reprodutível pelo traçado preditivo bidimensional. Além disso, a cirurgia de modelos, apesar de permitir o registro tridimensional dos movimentos dentários, não permite a previsão da repercussão desses movimentos sobre as bases ósseas e, muito menos, sobre os tecidos moles adjacentes. Assim sendo, diante das limitações do planejamento tradicional e da evolução científico- tecnológica, nasce um novo paradigma do planejamento em cirurgia ortognática: o planejamento cirúrgico virtual. esse método consiste na simulação tridimensional dos movimentos cirúrgicos desejados para os dentes e bases ósseas em computador, a partir de dados provenientes de TCs do paciente e do escaneamento de suas arcadas dentárias, moldagens ou modelos de gesso por escâneres a laser. Uma vez finalizada a simulação, guias cirúrgicos são projetados no ambiente virtual e posterior- mente impressos com técnicasde prototipagem rápida, para serem utilizados na transferência do planejamento para o paciente, no momento da cirurgia (Figura 1).3 | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 127 Figura 1 – Ilustração da mudança ou quebra do paradigma do planejamento em cirurgia ortognática, no passado- presente representado pela cirurgia de modelos e, no presente-futuro, pelo planejamento cirúrgico virtual. Fonte: Arquivo de imagens do autor. 1. Segundo o artigo, “assim como ocorre em outras ciências, a cirurgia ortognática tam- bém possui alguns paradigmas.” Comente o paradigma do planejamento em cirurgia ortognática. 2. Quais são os princípios do modelo tradicional de planejamento das cirurgias ortognáticas? 3. explique o planejamento cirúrgico virtual em cirurgia ortognática. 128 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA 4. em sua prática clínica, como você realiza o planejamento ortodôntico-cirúrgico das de- formidades dentofaciais? PLANEJAMENTO TRADICIONAL – RAZÕES PARA A MUDANÇA A necessidade de mudança de um paradigma nasce das comprovações científicas sobre a deficiência ou incapacidade do então modelo atual em resolver todos os problemas em situações ou estudos sucessivos. No caso do planejamento tradicional das cirurgias ortognáticas, eventuais erros podem ocorrer nas várias etapas do método, em decorrência da: limitação do traçado preditivo; transferência com arco facial; montagem no articulador; cirurgia de modelos. LIMITAÇãO DO TRAÇADO PREDITIVO Tanto o estudo cefalométrico como o traçado preditivo são realizados sobre telerradiografias bidimensionais. Portanto, as medidas lineares e angulares representarão uma média apro- ximada do que poderia ser encontrado separadamente em cada um dos lados do paciente, caso fosse realizado um estudo tridimensional. Assim, nessa fase, os dados tridimensionais observados durante o estudo clínico não poderão ser plenamente considerados nos traçados preditivos, realizados em duas dimensões (2D), como ilustrado nas Figuras 2A e B. Da mesma forma, as simulações do traçado preditivo não poderão ser os únicos parâmetros para a cirurgia de modelos, uma vez que ela será realizada em três dimensões (3D). | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 129 A B Figura 2 – A e B) Traçado preditivo informatizado, realizado sobre a telerradiografia em norma lateral, com base na análise cefalométrica de macNamara, mostrando os movimentos cirúrgicos e a repercussão nos tecidos moles em 2D. Fonte: Arquivo de imagens do autor. PROBLEMAS NA TRANSfERêNCIA COM O ARCO fACIAL O arco facial foi projetado para transferir a posição da maxila em relação à base do crânio e ao eixo de rotação mandibular, permitindo assim a reabilitação protética oclusal no articu- lador semiajustável. Quando acoplado ao articulador, o arco facial estabelece uma relação de paralelismo com o chamado plano axiorbital, e não com o plano de Frankfurt, como muitos acreditam. Ao se realizar um avanço puro da maxila (movimento horizontal paralelo ao plano de Frank- furt), uma quantidade variável de erro no posicionamento vertical desse osso poderá ocorrer se o plano de Frankfurt for divergente do plano axiorbital. Nessa situação, uma discrepância de 20º na orientação do modelo superior em relação ao plano horizontal poderá acarretar um erro vertical de 4mm, no caso de avanços de 10mm, e um erro vertical de 3mm em avanços de 5mm (Figura 3).4-6 130 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Figura 3 – efeito da transferência com o arco facial da posição da maxila em relação à base do crânio. A haste superior do articulador (paralela ao arco facial) corresponde ao plano axiorbital, e não ao plano de Frankfurt. Se na montagem do articulador houver diferença significativa entre esses dois planos, haverá alte- ração do plano oclusal e da posição vertical da maxila em movimentos supostamente horizontais (seta azul). Fonte: Adaptada de Gateno e colaboradores (2001).5 LIMITAÇÕES DA CIRURGIA DE MODELOS Como já mencionado, a ideia de se transportar para a cirurgia real os movimentos simulados na cirurgia de modelos, com o auxílio de guias de resina acrílica, representa uma das invenções mais importantes na área da cirurgia ortognática. Ainda assim, a cirurgia de modelos pode ser imprecisa, pois não permite visualizar a repercus- são dos movimentos dentários sobre as bases ósseas e, muito menos, sobre os tecidos moles. Além disso, pode consumir muito tempo do cirurgião, fazendo com que o profissional acabe por delegar tarefa tão importante a membros menos experientes da equipe cirúrgica, o que pode resultar em falhas adicionais, considerando que a movimentação dos dentes é realizada por tentativa e erro, que há necessidade de medidas precisas antes e após o corte das bases de gesso e que essas bases devem ser refixadas nas posições desejadas com materiais nem sempre de fácil manuseio ou isentos de distorções dimensionais (Figuras 4A e B).5,6 | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 131 A B Figura 4 – Cirurgia de modelos simulando movimentos de impacção da maxila e avanço da mandí- bula. A) A seta vermelha ressalta suposto avanço acentuado da mandíbula, que poderá se constituir em um complicador da técnica cirúrgica. B) A sobreposição da cirurgia de modelos do perfil pós- -operatório da paciente mostra que o avanço observado na base de gesso, em suas regiões posterior e anterior, não foi condizente com a realidade. A cirurgia de modelos apresenta acurácia relativa para os movimentos dentários, mas não para as bases ósseas. Fonte: Arquivo de imagens do autor. 5. Segundo o artigo, alguns eventuais erros estão associados ao planejamento tradicional das cirurgias ortognáticas. enumere-os. 6. explique por que, em alguns casos, pode ocorrer limitação do traçado preditivo no pla- nejamento tradicional de uma cirurgia ortognática. 132 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA 7. No planejamento tradicional de uma cirurgia ortognática, os modelos da maxila e man- díbula devem ser montados em um articulador semiajustável. Para tal, utiliza-se um arco facial, projetado para ficar paralelo ao plano A) de Frankfurt. B) oclusal. C) mandibular. D) axiorbital. Resposta no final do artigo 8. Segundo o artigo, a cirurgia de modelos pode ser imprecisa. Justifique esta afirmação. PLANEJAMENTO VIRTUAL – UMA NOVA REALIDADE Diante das desvantagens do planejamento tradicional, outros métodos mais sofisticados fo- ram desenvolvidos, incorporando informações obtidas com a TC da face e o escaneamento a laser das arcadas dentárias, até a criação de um protocolo clinicamente exequível, com segurança e confiabilidade. Nasceu então a simulação cirúrgica assistida por computador, ou método CASS, sigla do inglês Computer-Aided Surgical Simulation, após uma série de publicações de seus autores Jaime Gateno e James Xia.7-11 No método CASS, realizam-se a TC da face e o escaneamento dos modelos de gesso das arcadas dentárias em um escâner laser. As imagens tridimensionais obtidas pelos dois processos são superpostas e fusionadas em um ambiente virtual (software de desenho e modelagem 3D), criando-se o chamado crânio composto, em que tanto o esqueleto facial quanto as superfícies dentárias se apresentam perfeitamente reproduzidos. Ainda no ambiente virtual, a deformidade é quantificada com o auxílio de diversas medições e métodos, incluindo a análise cefalométrica 3D. | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 133 No passo seguinte, são realizadas as osteotomias e os movimentos desejados para os dentes e bases ósseas, corrigindo-se as discrepâncias e assimetrias, de acordo com as medidas e análises cefalométricas, mas sempre se priorizando as necessidades clínicas do caso.Uma vez terminada a simulação cirúrgica, guias cirúrgicos intermediário e final são projetados e prototipados, utilizando-se técnicas de desenho e manufatura auxiliadas por computador ou CAD-CAm, sigla do inglês Computer-Aided Design/Computer Aided Manufac- turing. Assim, chega-se ao resultado final de todo o processo, a exemplo do método tradi- cional, com a manufatura de guias cirúrgicos, porém de forma muito mais precisa (Figura 5). Figura 5 – Planejamento virtual realizado seguindo o protocolo CASS, no software Simpant-OmS (materialise – Bélgica). Observar o crânio composto, a osteotomia le Fort I com impação da maxila, o desenho do guia intermediário, as osteotomias sagitais, a osteotomia do mento e o guia final. Nas fotos abaixo, observam-se as fotografias pré e pós-operatórias da paciente. Fonte: Arquivo de imagens do autor. Uma das grandes vantagens do método CASS é a possibilidade de ser empregado em vários programas de computadores, dedicados a desenho industrial e técnicas CAD, muitos dos quais são gratuitos, mas nem por isso menos precisos. A manipulação desses softwares é extremamente complexa, requerendo conhecimentos específicos e demandando muito tempo, até mesmo para profissionais treinados. Ademais, o método CASS ainda não contempla a previsão das modificações dos tecidos moles em função dos movimentos ósseos e dentários executados. 134 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Para os seus criadores, isso não representa uma deficiência do método, mas reflete a realidade de que nenhum algoritmo criado até o presente momento é capaz de prever com precisão tais modificações (Figura 6). Figura 6 – Planejamento virtual realizado seguindo o protocolo do autor (derivado do método CASS), em softwares livres e CAD-CAm. Observar o crânio composto, a osteotomia le Fort I segmentada com impação da maxila e correção do plano oclusal, as osteotomias sagitais e a osteotomia do mento e o guia final. A seta azul aponta área de sobreposição óssea no ângulo mandibular direito, que deverá ser eliminada durante a cirurgia. Fonte: Arquivo de imagens do autor. Independentemente da imprecisão relativa que os métodos de planejamento cirúrgico virtual possam apresentar para a previsão das alterações dos tecidos moles, alguns softwares clínicos aprimoraram ferramentas para prever tais alterações, entregando um resultado visual mais agradável, embora ainda não totalmente confiável. Por outro lado, algumas ferramentas foram desenvolvidas para análise do volume e grau de constrição das vias aéreas, contribuindo para o diagnóstico adequado, assim como para os efeitos da cirurgia sobre elas (Figuras 7A e B). | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 135 Figura 7 – A) Imagem pré-operatória e B) da simulação virtual, realizada seguindo o protocolo do autor (derivado do método CASS), em software Dolphin 3D Surgery (Dolphin Imaging – eUA). Na imagem pré-operatória, observar o contorno dos tecidos moles e das vias aéreas. Na simulação virtual, pode-se notar a previsão de mudança dos tecidos moles realizada pelo programa, sem nenhum retoque manual. Fonte: Arquivo de imagens do autor. A B Os softwares clínicos disponíveis comercialmente têm buscado simplificar várias etapas do complexo preparo das imagens para o planejamento virtual, automatizando processos que poderiam durar horas em programas abertos, tornando-se assim mais amigáveis ao usuário. entretanto, alguns cirurgiões ainda imaginam que o programa de computador irá construir automaticamente o crânio composto, segmentando e preparando as imagens para que o usuário proceda com o planejamento cirúrgico de forma simples e intuitiva. Infelizmente, essa ainda não é a realidade atual. Por este motivo, alguns serviços se empenham em preparar as imagens de cada paciente específico, utilizando de processos próprios e de diversos softwares, entregando o caso pronto ao cirurgião para ser virtualmente operado. Sem dúvida, uma das principais vantagens do planejamento virtual é a economia de tempo do cirurgião e de sua equipe em tarefas que podem ser realizadas por terceiros. 136 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA 9. Descreva o método de simulação cirúrgica assistida por computador. 10. O planejamento virtual de uma cirurgia ortognática deve ser realizado, necessariamente, a partir dos dados obtidos A) nas cirurgias de modelos. B) com a TC. C) nos traçados preditivos. D) nas telerradiografias. Resposta no final do artigo 11. Quando comparado ao planejamento tradicional, o planejamento virtual apresenta a vantagem de A) permitir a confecção de guias cirúrgicos. B) visualizar as raízes dentárias. C) prever os movimentos dentários. D) visualizar as modificações ósseas em 3D. Resposta no final do artigo 12. Quais são as principais limitações do planejamento cirúrgico virtual? | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 137 13. No planejamento cirúrgico virtual para cirurgias ortognáticas, os guias cirúrgicos são fabricados A) sobre os dentes dos modelos de gesso físicos. B) em silicona de adição. C) pelo processo conhecido como CAD-CAm. D) após enceramento diagnóstico. Resposta no final do artigo ETAPAS DO PLANEJAMENTO VIRTUAL Independentemente dos programas de computador utilizados, o planejamento virtual deve obedecer a protocolos, existindo alguns deles relatados na literatura. A seguir, serão descritas as etapas do protocolo modificado pelo autor deste artigo, com base no método CASS, originariamente descrito por Gateno e Xia.7-11 ExAME CLíNICO O exame clínico padronizado é fundamental para o sucesso do planejamento virtual. Os pacientes devem ser operados com base em sua aparência clínica, e não apenas levando-se em conta as imagens do computador. No exame clínico, especial atenção deve ser dada à exposição dos incisivos em repouso, à exposição gengival no sorriso máximo, à linha média, ao mento e à simetria ou assimetria dos ângulos mandibulares, órbitas, nariz, projeção genianas e outras áreas de interesse. O Quadro 1 apresenta uma sugestão de formulário com as informações clínicas básicas que devem ser registradas antes do início do planejamento virtual. As modificações realizadas no computador devem se basear principalmente nos achados clínicos. 138 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Quadro 1 INFORMAÇÕES CLÍNICAS QUE DEVEM SER REGISTRADAS ANTES DO PLANEJAMENTO VIRTUAL exposição dos incisivos em repouso exposição gengival em repouso (11-21) exposição gengival sorriso máximo (16) exposição gengival sorriso máximo (13) exposição gengival sorriso máximo (11) exposição gengival sorriso máximo (21) exposição gengival sorriso máximo (23) exposição gengival sorriso máximo (26) Desvio da linha média superior Desvio da linha média inferior Desvio do mento Simetria dos ângulos Simetria das órbitas Simetria nasal Fonte: elaborado pelo autor. Observações Medidas clínicas REGISTRO fOTOGRÁfICO As fotografias da face devem ser realizadas na posição neutra da cabeça, orientada pelo ci- rurgião. Nas imagens em repouso, o paciente deverá morder um registro em cera, na posição de relação central (RC). A cera deve ser removida dos dentes anteriores para evitar qualquer modificação na posição dos lábios (Figuras 8A-m). | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 139 A E I B F L C G K M D H J Figura 8 – A-H) Registro fotográfico de frente e perfil, realizado na posição neutra da cabeça. I e J) As imagens inferossuperiores são im- portantes para se avaliar desvios da linha média e diferenças na projeção dos incisivos e caninos superiores, devendo ser registradas sem rotação lateral da cabeça, a partir da suaposição neutra. K-M) As imagens intraorais também devem ser registradas na posição neutra da cabeça, para que assimetrias e alterações do eixo Z possam ser identificadas (observar desnível do eixo Z na foto frontal da oclusão). Fonte: Arquivo de imagens do autor. 140 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA MOLDAGENS E MODELOS DE GESSO Devem realizadas moldagens das arcadas dentárias e vazados modelos em gesso especial. No caso de segmentações da maxila ou mandíbula, modelos adicionais devem ser obtidos, duplicando-se o(s) original(is). Nesses modelos físicos, as segmentações devem ser realizadas da forma habitual, no intuito de obter a oclusão final e a inclinação desejada para os segmentos individuais (Figura 9). Figura 9 – modelos físicos em gesso especial da arcada superior, arcada superior segmentada e arcada inferior. Observar que os pontos nos quais foram realizados desgastes dentários foram identificados com caneta escura (sem brilho) para não interferir no escaneamento a laser. Fonte: Arquivo de imagens do autor. REGISTRO DE MORDIDA Um novo registro de mordida em cera deve ser obtido na posição de RC. Opcionalmente, pode-se acrescentar cera ao registro utilizado para as fotografias, de maneira a envolver todos os dentes. Também, por opção, pode-se usar uma silicona de adição própria para registro de mordida e mesmo um guia de mordida (bite jig), que pode ser acoplado a um giroscópio digital. No método do autor, o guia de mordida não é utilizado, para facilitar sua reprodução entre os cirurgiões (Figura 10). | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 141 Figura 10 – Registro da oclusão em RC, realizado com cera 7 ou silicona de adição preenchendo um guia de mordida. O registro em cera deve ser transportado interposto aos modelos de gesso para evitar distorções. O guia de mordida é útil para o acoplamento de um giroscópio digital, mas não consta do protocolo do autor para facilitar a popularização do método. Fonte: Arquivo de imagens do autor. REGISTRO DA POSIÇãO NEUTRA DA CABEÇA O registro da posição neutra da cabeça já foi obtido com as fotografias frontais e laterais do paciente, desde que elas tenham sido obtidas com técnica correta, com a objetiva da câmera posicionada perpendicularmente e na altura dos olhos do paciente. Recomendam-se objetivas próprias para fotos clínicas, para evitar distorções. Outra maneira de registrar a posição neutra da cabeça é a utilização de um giroscópio digital, como proposto por Xia e colaboradores.12 esse aparelho permite gravar a posição tridimen- sional da cabeça, importante para a correta orientação do crânio composto, no software de planejamento. Apenas devido à dificuldade de acesso ao giroscópio digital, esse equipamento foi retirado do protocolo sugerido pelo autor do artigo, embora possa ser utilizado com vantagens, principalmente nos casos de grandes assimetrias (Figura 11). 142 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Figura 11 – Registro da posição neutra da cabeça com giroscópio digital. Observar alteração acentuada do eixo Z da paciente. As três ilustrações superiores mostram as orientações espaciais da cabeça que são registradas pelo aparelho, respectivamente o pitch, yaw e roll (termos da língua inglesa utilizados para os eixos X, Y e Z). Os mos- tradores analógicos correspondem aos registros do aparelho para essas informações.13 Fonte: Arquivo de imagens do autor. TOMOGRAfIA COMPUTADORIZADA O passo seguinte é a realização da TC com o paciente em RC, fazendo uso do registro de mordida (Figura 12). Como a posição neutra da cabeça já foi determinada no registro foto- gráfico, não há necessidade de se realizar a tomografia nesta posição. Os tomógrafos médicos helicoidais multslice costumam ser superiores na qualidade de imagem, ao passo que os odontológicos cone beam expõem o paciente a menor dose de radiação.14 A tomografia deve ser realizada com cortes finos (de 0,6-1,0mm de espessura) e abranger desde a região frontal, um pouco acima da glabela, até o osso hioide, cerca de 2cm abaixo da mandíbula. Os lábios devem permanecer em repouso para que as alterações dos tecidos moles possam ser previstas, se um software clínico for utilizado. O exame de tomografia deve ser gravado em um CD no formato DICOm, sigla do inglês Digital Imaging and Communications in Medicine (ou comunicação de imagens digitais em medicina), como usualmente realizado nos centros de radiologia. Não são necessárias reconstruções tridimensionais ou reformatações específicas. Apenas as imagens da série básica dos cortes axiais serão usadas para o planejamento. | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 143 Figura 12 – exame em tomógrafo helicoidal multslice. A paciente deve realizar o exame com o registro de mordida em cera em posição e os lábios em repouso. Na fotografia, o guia de mordida está acoplado a um arco facial com marcadores fiduciais, utilizado no protocolo CASS. No protocolo do autor, o guia de mordida e o arco facial não são utilizados. Apenas as imagens da série axial com janela óssea são necessárias para o planejamento, devendo essas imagens ser gravadas no formato DICOm. Fonte: Arquivo de imagens do autor. ESCANEAMENTO DOS MODELOS Os modelos em gesso especial das arcadas dentárias deverão ser escaneados em um escâner laser, primeiramente com a maxila separada da mandíbula e após em RC, utilizando-se o registro de mordida. Se forem previstas segmentações da maxila e/ou mandíbula, elas deverão ser realizadas em modelo(s) adicional(is), para posterior escaneamento. Finalmente, os modelos deverão ser escaneados na oclusão final desejada, para que esta possa ser reproduzida durante o planejamento virtual (Figuras 13A e B). Figura 13 – A) Imagens escaneadas dos modelos de gesso em oclusão inicial e final. Observar que, no planejamento virtual (B), os modelos de gesso em oclusão final são utilizados para guiar os segmentos da maxila e a mandíbula para a máxima intercuspidação dentária. Fonte: Arquivo de imagens do autor. A B 144 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA CRIAÇãO DO CRâNIO COMPOSTO O crânio composto é criado pela superposição das imagens em 3D dos modelos de gesso e da TC. A criação do crânio composto é necessária porque as superfícies dentárias, principalmente dos dentes com restaurações a aparelhos ortodônticos, são pobremente reproduzidas pela tomografia ou se apresentam com artefatos metálicos que dificultam sua utilização no processo de planejamento. Para que o crânio composto apresente alta qualidade de imagem, deve-se proceder com a limpeza dos artefatos metálicos e com segmentação das estruturas anatômicas de interesse. Nessa fase, a mandíbula deve ser individualizada, o mesmo sendo feito com as raízes dentárias, canais mandibulares e tecidos moles. essa tarefa é bastante trabalhosa, podendo levar horas. Adicionalmente, dependendo do software utilizado, pode-se sobrepor a fotografia do paciente sobre os tecidos moles da TC, tornando o processo virtual um pouco mais realístico (Figura 14). Figura 14 – etapas da criação do crânio composto. Observar os artefatos gerados pelo aparelho ortodôntico, os quais devem ser removidos juntamente com os dentes gerados pela TC. Os modelos de gesso virtuais são sobrepostos às imagens da tomografia, aproveitando-se deles para o planejamento apenas as superfícies oclusais dos dentes. Fonte: Arquivo de imagens do autor. OrientaçãO dO crâniO cOmpOstO Uma vez criado, o crânio composto deve ser orientado para a posição natural da cabeça, utilizando o método fotográfico sugerido pelo autor, com base nas fotografias de frente, perfil e inferossuperior, ou mesmo com os registros do giroscópio digital (Figura 15). |PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 145 A orientação do crânio composto é uma etapa de absoluta importância para a acurácia do planejamento cirúrgico virtual, devendo ser minuciosa e precisa. Por esse motivo, o cirurgião deve estar afeito às diversas possibilidades e técnicas aplicadas com essa finalidade, corrigindo eventuais inconsistências em casos preparados por serviços de planejamento virtual. Figura 15 – Orientação do crânio composto no software, com base nas fotografias clínicas, como proposto pelo autor. As ilustrações mostram apenas as fotografias laterais, mas todas as demais inci- dências são utilizadas nessa etapa, de importância fundamental para o sucesso do planejamento. Observar que, na primeira imagem, o crânio está girado inferiormente, sugerin- do que a paciente seja retrognata. Com a orientação correta, pode-se notar a verdadeira deformidade a ser corrigida. Fonte: Arquivo de imagens do autor. qUANTIfICAÇãO DA DEfORMIDADE A próxima etapa é a quantificação da deformidade apresentada pelo paciente, realizada por meio de mensurações específicas e da cefalometria 3D. Diferentes métodos podem ser utilizados com essa finalidade, mas a sua descrição minuciosa foge do escopo deste artigo. Aconselha-se ao leitor, que assim desejar, o aprofundamento na literatura específica sobre cefalometria 3D. entretanto, vale ressaltar que as deformidades devem ser quantificadas não apenas com base nas imagens de computador e nas medidas lineares e angulares obtidas, mas principalmente levando-se em conta o exame clínico do paciente (Figuras 16A-C).15,16 146 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA A B C Figura 16 – A quantificação da deformidade é realizada tanto visualmente como mediante medidas lineares e angulares da cefalometria 3D. A) Alteração do eixo Z, inclinando o plano oclusal. B) O eixo Z foi corrigido. C) A simulação virtual completada com a cirurgia da mandíbula e do mento. Fonte: Arquivo de imagens do autor. SIMULAÇãO VIRTUAL DA CIRURGIA A simulação cirúrgica inicia-se com a delimitação das osteotomias desejadas para cada caso em particular, sendo as mais comumente realizadas: osteotomia sagital da mandíbula; mentoplastia; osteotomia le Fort I, com ou sem segmentação. Nessa fase, o planejamento virtual permite a identificação exata dos locais sobre os quais deverão ser realizadas as osteotomias, levando-se em consideração fatores importantes a se observar no sentido de aumentar a segurança do ato cirúrgico, como espessura da mandíbula, posição dos feixes vasculonervosos, cornetos e septo nasal, entre outras estruturas. Uma vez realizadas as osteotomias, procede-se com os movimentos desejados, de acordo com o estudo clínico e a quantificação da deformidade. esses movimentos devem obedecer a uma sequência padronizada, sendo a ordem recomendada pelo autor listada no Quadro 2. | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 147 Quadro 2 SEQUÊNCIA SIMULADA DE MOVIMENTOS VIRTUAIS NA CIRURGIA ORTOGNÁTICA Sequência para a maxila Correção da linha média Correção do eixo Z Correção da rotação axial Correção da exposição dos incisivos Correção da posição vertical da maxila Correção do plano oclusal Correção da posição anteroposterior Sequência para a mandíbula Colocar em oclusão final Ajustar os segmentos proximais Posicionar o mento Independentemente de o cirurgião almejar iniciar sua cirurgia real pela mandíbula ou pela maxila, o planejamento virtual deve ser iniciado pela maxila, pois a posição do incisivo e a correção do eixo Z são prioritárias para a estética do sorriso. Ao final do planejamento, se a cirurgia for iniciada pela maxila, o guia intermediário será confeccionado com a maxila operada e a mandíbula em sua posição original. Se a cirurgia for iniciada pela mandíbula, a maxila deverá ser retornada a sua posição original e o guia intermediário confeccionado com a mandíbula operada. esta ordem é relativamente fácil de ser alterada no software ao término do planejamento, motivo pelo qual os adeptos da cirurgia mandibular em primeiro lugar não devem se preocupar. A simulação virtual do procedimento cirúrgico permite enxergar muito além do que é possível com a cirurgia de modelos, pois revela de maneira bastante clara todos os pontos de sobrepo- sição ou afastamento das bases ósseas, prevendo a necessidade de desgastes ou enxertos, ou até possibilitando modificações para que eles não sejam necessários, se o caso assim permitir. Além de aumentar a previsibilidade, inclusive das alterações dos tecidos moles, ainda que parcialmente, a simulação virtual confere maior segurança ao ato cirúrgico, antecipando pro- blemas com os quais o cirurgião iria se deparar apenas no momento da cirurgia, e que muitas vezes passariam despercebidos, como o deslocamento condilar em função de interferências nos segmentos proximais da mandíbula ou a protrusão indesejada da maxila decorrente de interferências na região dos processos pterigoides (Figuras 17 e 18).16 148 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Figura 17 – Simulação cirúrgica virtual em um paciente com deficiên- cia maxilar, inclinação do eixo Z, excesso man- dibular e discrepância transversal entre maxila e mandíbula. Na sequência de planejamento, a man- díbula e maxila foram levadas para a posição de máxima intercuspidação e a linha média corrigida (continua na Figura 18). Fonte: Arquivo de imagens do autor. Figura 18 – Sequência de movimentos, com- pletando os já mostrados na Figura 17. A maxila foi avançada, as assime- trias e o ângulo do plano oclusal corrigidos, sendo o planejamento finaliza- do com a mentoplastia. Adicionalmente, foi rea- lizado retoque manual da posição dos lábios, sem valor preditivo acurado. O método de planeja- mento utilizado foi o do autor (baseado no proto- colo CASS) e o software o Dolphin 3D Surgery (Dolphin Imaging – eUA). Fonte: Arquivo de imagens do autor. | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 149 fABRICAÇãO DE GUIAS CIRúRGICOS Finalizada a simulação, os guias cirúrgicos intermediário e final são desenhados, utilizando técnicas CAD-CAm, como mencionado. Alguns programas são capazes de gerar guias por processos automatizados, ao passo que outros requerem o desenho assistido por computador, realizado pelo próprio operador. Uma vez desenhados, os guias são impressos em 3D, utilizando técnicas de prototipagem rápida. Antes da cirurgia, eles devem ser ajustados na boca do paciente, uma vez que pequenos movimentos dentários podem ter ocorrido desde o momento da moldagem, e esterilizados, de acordo com o material utilizado no processo de fabricação (Figuras 19 e 20). Figura 19 – Vista inferior e superior das imagens 3D de um de um guia cirúrgico final desenhado em programas CAD-CAm. Uma vez finalizados, os guias virtuais são gravados em arquivos digitais e impressos por técnicas de prototipagem rápida. Fonte: Arquivo de imagens do autor. A B C Figura 20 – A) Guia cirúrgico intermediário e (B e C) final de paciente distintos, fabricados em diferentes materiais. Observar a adaptação aos dentes, sem interferências. Após a fixação dos segmentos ósseos com placas e parafusos, o bloqueio intermaxilar é aberto e os guias são removidos. Fonte: Arquivo de imagens do autor. 150 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA 14. No que diz respeito ao planejamento virtual de cirurgias ortognáticas, quais os aspectos devem ser observados durante o exame físico? 15. No preparo para o planejamento virtual de cirurgias ortognáticas, as estruturas dentárias são reproduzidas em um ambiente virtual a partir dos dados obtidos com A) a TC. B) o escaneamento dos modelosde gesso. C) as telerradiografias frontal e lateral. D) as fotografias em 3D. Resposta no final do artigo 16. Com relação à sequência do planejamento cirúrgico virtual, pode-se afirmar que o pri- meiro movimento a ser executado, sem se considerar o para máxima intercuspidação, é o de correção A) do plano oclusal. B) do eixo Z. C) do eixo X. D) da linha média. Resposta no final do artigo 17. Com relação ao crânio composto utilizado no processo de planejamento virtual de cirur- gias ortognáticas, pode-se afirmar que A) deve ser impresso em resina acrílica. B) é montado com os modelos de gesso físicos. C) é montado com fotografias 3D e modelos de gesso, apenas. D) deriva da TC. Resposta no final do artigo | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 151 18. Considere as etapas do planejamento virtual de cirurgias ortognáticas e assinale V (ver- dadeiro) ou F (falso). ( ) No registro fotográfico, a cera deve ser removida dos dentes anteriores para evitar qualquer modificação na posição dos lábios. ( ) Deve-se, obrigatoriamente, usar uma silicona de adição própria para registro de mordida e mesmo um guia de mordida (bite jig), que pode ser acoplado a um giroscópio digital. ( ) O registro da posição neutra da cabeça pode ser feito com as fotografias frontais e laterais do paciente, desde que elas tenham sido obtidas com técnica correta. ( ) Finalizada a simulação, os guias cirúrgicos intermediário e final são desenhados utilizando técnicas CAD-CAm. Resposta no final do artigo 19. Após a etapa de quantificação da deformidade do paciente, com informações obtidas por meio de mensurações específicas e da cefalometria 3D, a delimitação das osteotomias dá início à simulação virtual da cirurgia ortognática. Aponte a sequência de movimentos a serem realizados nesta etapa. 20 Considere o protocolo adaptado pelo autor deste artigo, com base no método CASS, e elabore um esquema com as etapas do planejamento virtual de cirurgias ortognáticas. 152 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Paciente apresentando deformidade dentofacial esquelética, com deficiência maxilar anteroposterior, excesso mandibular e mordida aberta anterior (Figuras 21-27). Figura 21 – Observam-se oclusão Classe III de Angle, compensações dentárias e diastemas anteriores. Fonte: Arquivo de imagens do autor. Figura 22 – Durante o planejamento virtual, observou-se acentuada interferência óssea do lado direito da mandíbula (seta vermelha), resultante da correção da linha média. Fonte: Arquivo de imagens do autor. CASO CLíNICO | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 153 Figura 23 – Correção da interferência com rotação do conjunto maxila-mandíbula. esse movimento deve ser realizado de acordo com as alterações clínicas observadas, principal- mente as projeções genianas e dos caninos superiores, buscando sempre a simetria facial. Fonte: Arquivo de imagens do autor. Figura 24 – Planejamento virtual na fase de reposicionamento da maxila, com guia intermediário virtual, e aspecto transoperatório mostrando o guia prototipado e a maxila fixada. Fonte: Arquivo de imagens do autor. 154 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA Figura 25 – Aspectos pré e pós-operatórios, após osteotomia le Fort I e osteotomias sagitais da mandíbula. Observar linha do sorriso mais harmônica no pós-operatório, com exposição de todas as coroas dos incisivos e de pequena faixa da gengival. Fonte: Arquivo de imagens do autor. | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 155 A B C Figura 26 – A) Aspectos da oclusão inicial. B) Preparo ortodôntico para a cirurgia. C) Após finalização do caso. Fonte: Arquivo de imagens do autor (Ortodontista do caso: André Ribeiro – SP). Figura 27 – Imagens sequenciais do planejamento cirúrgico virtual, da tomografia 3D pós-operatória e da superposição de ambas. embora apenas visual, essa análise mostra as congruências entre o planejamento e o resultado obtido. Fonte: Arquivo de imagens do autor. 156 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA 21. Que observações podem ser feitas com relação ao caso clínico exposto? CONCLUSãO O planejamento cirúrgico virtual pode ser considerado uma mudança do paradigma do planejamento em cirurgia ortognática, trazendo previsibilidade de resultados nunca antes observada nos métodos tradicionais e permitindo que casos complexos sejam resolvidos com maior segurança e em menor tempo cirúrgico. entretanto, o seu aparecimento não necessariamente levará, em um curto prazo, ao aban- dono do planejamento tradicional, pois diferentemente do que aconteceu com o paradigma geocêntrico, substituído pela sua incoerência, o planejamento tradicional não pode ser consi- derado uma aberração de época. muito pelo contrário, trata-se de uma das mais importantes invenções na área da cirurgia ortognática, responsável pela evolução científica da cirurgia bucomaxilofacial e da própria Odontologia. Nesse aspecto, parece que o paradigma do planejamento em cirurgia ortognática, no passado- presente representado pelo planejamento tradicional e no presente-futuro, pelo planejamento virtual, seguirá destino análogo ao de paradigmas bastante conhecidos na modernidade, como o da Física Clássica, o da Teoria da Relatividade e o da mecânica Quântica, os quais ora se contradizem, ora se complementam. em um mundo de constantes avanços científico-tecnológicos, parece inevitável que o plane- jamento virtual assuma papel imprescindível nas cirurgias ortognáticas, aumentando ainda mais a previsibilidade e a segurança de procedimento cirúrgico tão complexo e preciso. | PRO-ODONTO CIRURGIA | CIClO 8 | VOlUme 2 | 157 RESPOSTAS àS ATIVIDADES E COMENTÁRIOS Atividade 7 Resposta: D Comentário: O arco facial foi projetado para transferir a posição da maxila em relação ao plano axiorbital, que passa pelo eixo de rotação da mandíbula. Atividade 10 Resposta: B Comentário: Necessariamente, a TC deve ser realizada para que se obtenham informações precisas do esqueleto facial, permitindo o planejamento virtual acurado. Atividade 11 Resposta: D Comentário: Uma das vantagens do planejamento virtual é a visualização das estruturas ósseas em 3D, bem como dos movimentos realizados por elas. Atividade 13 Resposta: C Comentário: Os guias são fabricados por técnicas de desenho e manufatura assistidos por computador (CAD-CAm). Atividade 15 Resposta: B Comentário: Os dentes devem ser reproduzidos a partir do escaneamento a laser dos mode- los de gesso. em alguns protocolos, o escaneamento pode ser feito sobre as moldagens ou mesmo diretamente na boca. Atividade 16 Resposta: D Comentário: Uma vez corrigida, a linha média deve permanecer na mesma posição, enquanto se executam as demais correções. Atividade 17 Resposta: D Comentário: O crânio composto é montado com dados da TC e dos modelos das arcadas dentárias, escaneados a laser. Atividade 18 Resposta: V – F – V – F Comentário: Opcionalmente, pode-se acrescentar cera ao registro utilizado para as fotografias, de maneira a envolver todos os dentes. Também, por opção, pode-se usar uma silicona de adição própria para registro de mordida e mesmo um guia de mordida (bite jig), que pode ser acoplado a um giroscópio digital. 158 PLANEJAMENTO VIRTUAL EM CIRURGIA ORTOGNÁTICA – UMA MUDANÇA DE PARADIGMA REfERêNCIAS 1. Kuhn TS. A estrutura das revoluções científicas. 3. ed. São Paulo: Perspectiva; 1992. 2. Anwar m, Harris m. model surgery for orthognathic planning. Br J Oral maxillofac Surg. 1990 Dec;28(6):393-7. 3. Xia J, Ip HH, Samman N, Wang D, Kot CS, Yeung RW, et al. Computer-assisted three-dimen- sional surgical planning and simulation: 3D virtual osteotomy. 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In: Associação Brasileira de Odontologia; Pinto T, Vasconcellos RJH, Prado R, organizadores. PRO-ODONTO CIRURGIA Programa de Atualização em Odontologia Cirúrgica: Ciclo 8. Porto Alegre: Artmed Panamericana; 2014. p. 123-59. (Sistema de Educação Continuada a Distância; v. 2).