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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA 
CLAUDIA DE OLIVEIRA LEIVAS BASTOS 
 
 
 
 
 
 
 
 
NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL ATÍPICO NO NOVO CÓDIGO DE 
PROCESSO CIVIL E CONTROLE JURISDICIONAL 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Palhoça 
2017
 
 
CLAUDIA DE OLIVEIRA LEIVAS BASTOS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL ATÍPICO NO NOVO CÓDIGO DE 
PROCESSO CIVIL E CONTROLE JURISDICIONAL 
 
 
Monografia apresentada ao Curso de Pós-
Graduação Lato Sensu em Direito Processual 
Civil, da Universidade do Sul de Santa Catarina, 
como requisito à obtenção do título de 
Especialista em Direito Processual Civil. 
 
 
 
 
Orientação: Prof. Hernani Luiz Sobierajski, MSc. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Palhoça 
2017 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
B327n Bastos, Claudia de Oliveira Leivas 
 Negócio Jurídico Processual Atípico no Novo Código de Processo 
Civil e Controle Jurisdicional / Claudia de Oliveira Leivas Bastos. 
Florianópolis – 2017. 
 46 p. 
 
 Orientadora: Prof. MSc. Hernani Luiz Sobierajski 
 Monografia (Especialização) – Universidade do Sul de Santa 
Catarina, Florianópolis, 2017. 
 
 1. Negócio jurídico processual atípico. 2. Controle jurisdicional. 3. 
Processo cooperativo. I. Sobierajski, Hernani Luiz. II. Universidade do 
Sul de Santa Catarina. III. Título. 
 
 
CLAUDIA DE OLIVEIRA LEIVAS BASTOS 
 
 
 
 
 
 
 
 
NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL ATÍPICO NO NOVO CÓDIGO DE 
PROCESSO CIVIL E CONTROLE JURISDICIONAL 
 
Esta Monografia foi julgada adequada à obtenção do título 
de Especialista em Direito Processual Civil e aprovada em 
sua forma final pelo Curso de Pós-Graduação Lato Sensu 
em Direito Processual Civil, da Universidade do Sul de 
Santa Catarina. 
 
 
Palhoça, 28 de agosto de 2017. 
 
_____________________________________________________ 
Professor e orientador: Hernani Luiz Sobierajski, MSc. 
Universidade do Sul de Santa Catarina 
 
 
_____________________________________________________ 
Prof. Andreia Catine Cosme, MSc. 
Universidade do Sul de Santa Catarina 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
À minha mãe e ao meu pai, grandes incentivadores 
do estudo, ao meu irmão in memoriam e aos meus 
filhos, surpreendentes parceiros da vida, dedico. 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
Em primeiro lugar, gostaria de manifestar meu agradecimento ao Professor 
Hernani Luiz Sobierajski, meu orientador, sempre paciente e disposto a colaborar na 
elaboração dessa monografia. Apesar das inúmeras dificuldades e dúvidas que vieram à tona, 
sempre demonstrou parceria e conhecimento, incentivando e sugerindo de forma elucidativa. 
Quero também agradecer ao amigo e colega de trabalho Marcelo Elias 
Naschenweng, magistrado do Tribunal de Justiça de Santa Catarina pelo apoio inconteste. O 
convívio com o profissional, mestre e doutorando permitiu-me não somente admirá-lo pelo 
compromisso com a atividade jurídica, científica e acadêmica, mas principalmente pelo seu 
valor humano, sempre respeitoso e disponível para os colegas de trabalho no afã de alcançar 
primor laboral. 
Agradeço ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina, pelo incentivo ao 
aprimoramento cultural de seu quadro de pessoal. 
Como não poderia deixar de citar, minha família, meus filhos Tassiana e Blando 
que compreenderam as inúmeras horas de convívio que lhes foram tiradas, e pelo apoio, o 
qual foi determinante para o desenvolvimento e conclusão do estudo. 
 
 
RESUMO 
 
O objetivo desta monografia é descrever e analisar o instituto negócio jurídico processual 
atípico trazido ao ordenamento jurídico pelo Novo Código de Processo Civil, estampado no 
Art. 190. A construção do pensamento se dá a partir do vislumbre da quebra de paradigmas do 
processo civil brasileiro com a caricatura de liberdade e autonomia da vontade no processo. O 
novo modelo de organização processual se traduz em processo cooperativo sendo ampliada a 
participação das partes no processo. Prima facie discorre acerca do negócio jurídico típico já 
previsto no CPC/73 e faz ponte com o Código Civil de 2002, dados os pressupostos para sua 
existência. Dada a amplitude do negócio jurídico é importante analisar e investigar a 
sistemática para controle da dimensão dele, bem como do objeto passível de ser negociado. 
Cautela e imprescindível para evitar o afastamento do Estado Juiz. Se os poderes do 
magistrado forem subordinados pelo agir das partes, é possível que os acordos reduzam ou até 
mesmo impeçam a atuação judicial. Nessa linha de pensamento, no papel de controlador e 
fiscalizador, o magistrado deverá intervir sem infringir o ideal do estado democrático de 
direito. Reflete ainda acerca da estrutura do poder judiciário brasileiro frente a demandas com 
procedimentos ímpares. Quanto à metodologia, esta pesquisa é classificada como qualitativa e 
utilizou-se do método dedutivo que parte de teorias e leis que são consideradas gerais e 
universais e visam explicar a ocorrência de certos fenômenos. Para a coleta de dados, foram 
realizadas consultas a documentos e bibliografias recentes sobre o assunto abordado nesta 
pesquisa. Em conclusão ao presente trabalho, vislumbra-se a dificuldade do sistema 
jurisdicional moderno em adaptar-se ao novo instrumento processual, seja ele cultural ou 
estrutural. 
 
 
Palavras-chave: Negócio jurídico processual atípico. Controle jurisdicional. Processo 
cooperativo. 
 
 
ABSTRACT 
 
The purpose of this monograph is to describe and analyze the atypical procedural legal 
business brought to the legal order by the New Code of Civil Procedure, stamped in Art. 190. 
The construction of the thought comes from the glimpse of the breaking of paradigms of the 
Brazilian civil process with The caricature of freedom and autonomy of the will in the 
process. The new model of procedural organization translates into a cooperative process and 
the participation of the parties in the process is amplified. Prima facie discusses the typical 
legal business already provided for in CPC/73 and bridges the Civil Code of 2002, given the 
assumptions for its existence. Given the breadth of the legal business it is important to analyze 
and investigate the system to control its size, as well as the object that can be negotiated. 
Caution is essential to avoid expulsion from the State Judge. If the powers of the magistrate 
are subordinated by the parties' actions, it is possible that the agreements reduce or even 
impede judicial action. In this line of thought, in the role of controller and inspector, the 
magistrate should intervene without violating the ideal of the democratic state of law. It also 
reflects on the structure of the Brazilian judiciary against demands with odd procedure. As for 
methodology, this research is classified as qualitative and used the deductive method that 
starts from theories and laws that are considered general and universal and to explain the 
occurrence of certain phenomena. For data collection, queries were made to recent documents 
and bibliographies on the subject addressed in the research. In conclusion, we can see the 
difficulty of the modern jurisdictional system in adapting to the new procedural instrument, be 
it cultural or structural. 
 
Keywords: Business Atypical procedural legal. Jurisdictional control. Cooperative process. 
 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................9 
2 PROCESSO JURISDICIONAL DEMOCRÁTICO: MUDANÇAS 
PARADIGMÁTICAS PROCEDIMENTAIS ...................................................... 11 
2.1 LIBERDADE COMO GARANTIA CONSTITUCIONAL E AUTONOMIA DA 
VONTADE NO PROCESSO ................................................................................. 13 
2.1.1 Princípio do respeito ao autorregramento da vontade no processo ................... 14 
2.2 FORMALISMO PROCESSUAL E FLEXIBILIZAÇÃO PROCEDIMENTAL ...... 16 
2.2.1 Modelos tradicionais de organização do processo: adversarial e inquisitorial .. 17 
2.3 PROCESSO COOPERATIVO: UM NOVO MODELO DE ORGANIZAÇÃO 
PROCESSUAL ...................................................................................................... 19 
3 NEGÓCIO JURÍDICO ........................................................................................ 21 
3.1 FATOS JURÍDICOS, ATOS JURÍDICOS, ATOS-FATOS JURÍDICOS E 
NEGÓCIOS JURÍDICOS ....................................................................................... 21 
3.1.1 Enquadramento dos atos processuais .................................................................. 22 
3.2 CONCEITO ........................................................................................................... 23 
3.3 FUNDAMENTAÇÃO E PRESSUPOSTOS ........................................................... 24 
3.3.1 Pressupostos subjetivos ........................................................................................ 24 
3.3.2 Pressupostos objetivos .......................................................................................... 25 
3.4 NORMAS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO PREVISTAS NO CÓDIGO CIVIL .. 26 
3.5 INTERESSE PÚBLICO E COLETIVIDADE EM RELAÇÃO AO NEGÓCIO 
JURÍDICO ............................................................................................................. 27 
3.6 CLASSIFICAÇÃO GERAL ................................................................................... 28 
3.7 NEGÓCIO PROCESSUAL TÍPICO: INOVAÇÃO PROCEDIMENTAL? ............. 30 
4 NEGÓCIO PROCESSUAL ATÍPICO ................................................................ 33 
4.1 OBJETO: O PRINCÍPIO DA ATIPICIDADE DA NEGOCIAÇÃO SOBRE O 
PROCESSO ........................................................................................................... 34 
4.1.1 Momento de celebração ........................................................................................ 36 
4.2 REQUISITOS DE VALIDADE ............................................................................. 37 
4.2.1 Capacidade processual negocial........................................................................... 38 
4.3 PARTICIPAÇÃO DO MAGISTRADO NO NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL
 38 
4.4 ÔNUS DA ALEGAÇÃO E INADIMPLEMENTO................................................. 40 
 
 
4.5 DECISÃO QUE DECRETA INVALIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO 
PROCESSUAL ...................................................................................................... 40 
4.6 ESTRUTURA E CONTROLE JURISDICIONAL ................................................. 41 
5 CONCLUSÃO ...................................................................................................... 43 
 REFERÊNCIAS ................................................................................................... 45 
 
 
 
9 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
O objetivo desta monografia consiste em analisar o negócio jurídico processual 
atípico, advento do Novo Código de Processo Civil, que inaugurou o conceito de participação 
mais efetiva das partes com maior permissividade daqueles sujeitos envolvidos nas lides. 
Emergiu a possibilidade de autorregramento da vontade das partes e com ela questionamentos 
materiais e processuais. 
Com a possibilidade de negociação sobre situações jurídicas processuais bem 
como sobre a estrutura do procedimento há o risco de afetar a solução do mérito da causa. 
Consiste a dúvida acerca do limite das convenções. Muito embora o legislador, com a 
intenção de facilitar e tornar mais democrática a lide judiciária, tenha em muito inovado, há 
de ser averiguada a viabilidade do negócio jurídico dada a liberdade das formas, sobretudo no 
caso concreto. No dia a dia forense será percebida a insegurança frente ao novo instituto e ao 
intérprete caberá adotar posição de forma mais equânime possível. 
Assim, o estudo está dividido em três capítulos: 
No Capítulo 2 estão explanados temas atinentes ao sistema processual civil 
brasileiro e mudanças paradigmáticas procedimentais, traçando uma linha delimitadora ao 
ingressar no Novo Código de Processo Civil. Traz à baila formas de pensamento mais 
recentes como flexibilização procedimental e processo cooperativo. 
No Capítulo 3 adentra-se ao negócio jurídico de forma genérica, trazendo 
conceituação, fundamentos e pressupostos. Salienta o estudo nesse tópico as normas gerais de 
interpretação previstas no Código Civil, fazendo integração com o códex substantivo. Faz 
referência ainda ao negócio jurídico processual típico, instituto já previsto no Código de 
Processo Civil de 1973. 
No Capítulo 4, finalmente, emerge o tema negócio jurídico processual atípico com 
suas peculiaridades. Analisado o objeto, requisitos de validade e momento de celebração. 
Verificada a abrangência do instituto e a forma como pode ser controlado a fim de impedir 
injustiças e afastamento do Estado Juiz. Fonte de indagações e palco de inúmeros 
questionamentos certamente será alvo de muitos enunciados e revelações doutrinárias e 
jurisprudenciais. 
Utilizou-se do método dedutivo que parte de teorias e leis que são consideradas 
gerais e universais e visam explicar a ocorrência de certos fenômenos. O método utilizado 
para a coleta de dados foi a consulta a documentos e bibliografias recentes sobre o assunto. A 
pesquisa é classificada como qualitativa, pois o tema em estudo poderá elucidar e 
10 
 
compreender a abrangência do negócio processual atípico em situações futuras. Para a coleta 
de dados foram efetuadas pesquisas bibliográficas, utilizando livros, periódicos, trabalhos de 
pesquisa e consulta à rede mundial de computadores. 
 
11 
 
2 PROCESSO JURISDICIONAL DEMOCRÁTICO: MUDANÇAS 
PARADIGMÁTICAS PROCEDIMENTAIS 
 
Ao vislumbrar a história da humanidade, percebe-se que o homem está em 
constante amadurecimento cultural e intelectual, sempre se moldando a novas estruturas e 
organizações. Responde a questionamentos e desafios emergentes por meio de conhecimento 
e técnicas científicas do seu tempo. O direito processual civil não ficou imune à 
transformação e evolução. 
O processo civil brasileiro encontra-se em momento marcante na história, um dos 
principais instrumentos para a concretização dos direitos fundamentais, objetivo maior da 
República Federativa do Brasil. No modelo estabelecido no Código de Processo Civil de 
1973, foi conferido protagonismo à figura do magistrado, com esteiro na crença de que o 
Estado teria o objetivo de resolver todos os problemas e divergências da sociedade. 
Nos últimos anos, uma grande reforma legal se deu no Código de Processo Civil 
de 1973, tendo como objetivo desburocratizar o procedimento e acelerar o resultado da 
prestação jurisdicional. Não se circunscrevendo ao referido Código, a legislação extravagante 
também originou ações novas e remédios acauteladores visando a ampliar o espectro da tutela 
jurisdicional. Mesmo a própria Constituição Federal restou emendada para somar no rol dos 
fundamentais a garantia de uma duração razoável para o processo e o emprego de técnicas de 
aceleração da prestação jurisdicional (CF, Art. 5º, LXXVIII, com o texto da EC nº 45, de 
08.12.2004). 
Conforme Humberto Teodoro Júnior (2015, p. 49):Nas últimas décadas, o estudo do processo civil desviou nitidamente sua atenção 
para os resultados a serem concretamente alcançados pela prestação jurisdicional. 
Muito mais do que com os clássicos conceitos tidos como fundamentais ao direito 
processual, a doutrina tem-se ocupado com remédios e medidas que possam 
redundar em melhoria dos serviços forenses. Ideias, como a de instrumentalidade e a 
de efetividade, passaram a dar a tônica do processo contemporâneo. Fala-se mesmo 
de “garantia de um processo justo”, mais do que de um ‘processo legal’, colocando 
no primeiro plano ideias éticas em lugar do estudo sistemático apenas das formas e 
solenidades do procedimento. 
 
Lembra o referido doutrinador, que na evolução do processo civil foram 
concebidos notáveis órgãos judiciários para, primordialmente, conduzir as partes à 
conciliação, valendo-se não só da figura clássica do juiz estatal, mas também de conciliadores 
e juízes leigos, além de acenar para a possibilidade de encaminhar a solução, 
12 
 
alternativamente, para julgamentos arbitrais (Leis nº 9.099, de 26/09/1995, e nº 10.259, de 
12/07/2001). 
Na mesma senda evolutiva, reformas outras se deram no Código de Processo Civil 
de 1973 visando a acordos, como por exemplo, a instituição no procedimento ordinário da 
audiência preliminar, cujo objetivo é a tentativa de solução conciliatória, antes de passar-se à 
instrução da causa (Art. 331), sendo admitida a figura do conciliador para auxiliar o juiz 
durante a tramitação do procedimento sumário (Art. 277, § 1º). 
Eis que surge o Novo Código de Processo Civil, valorizando a mediação e 
conciliação, sugerindo, inclusive o incremento nos quadros dos órgãos auxiliares da justiça, 
com treinamento técnico especializado, os mediadores e conciliadores, visando a pacificação 
do litígio. 
Como bem lembra Dellore (2015), o Novo Código de Processo Civil - NCPC 
levou cinco anos tramitando, desde sua gênese a partir de 01/10/2009 (data da assinatura do 
ato que criou a comissão para elaborar o anteprojeto de lei de um novo código) até a 
aprovação do texto final do Projeto de Lei Nº 166/10 pelo Senado em 17/12/2014. Após isso, 
encerrou-se a fase de debates, restando ainda a sanção e eventuais possíveis vetos. Foram 
várias audiências públicas, aberto debate com ilustres processualistas, sugestões legislativas, 
centros de estudo. Tudo de forma a democratizar a legislação processual. 
O Novo Código de Processo Civil, permeado em toda a sua extensão, objetiva 
reduzir o paradigma exacerbadamente estatal e o excessivo protagonismo judicial, de forma a 
permitir às partes maiores poderes na condução das demandas judiciais, objetivando um 
provimento jurisdicional baseado na democracia e no diálogo, participando de forma ativa. O 
juiz passa, a partir de então, a ser um verdadeiro administrador e interlocutor no processo, 
com a reponsabilidade do esclarecimento, de diálogo, de prevenção e auxílio aos sujeitos da 
relação processual. Ele dialoga, conversa, escuta e interage, se mantendo acessível às partes. 
Busca o novo instrumento processual garantir a igualdade material entre os 
litigantes, prevendo a possibilidade de procedimentos diferenciados, ajustados pelas partes, 
capazes de moldar concretamente o processo às necessidades e peculiaridades de um caso 
específico. Desta forma, os negócios processuais passam a ser aliados na construção de 
decisões mais bem elaboradas, formuladas com a participação de todos e pautadas na 
democracia e nos preceitos constitucionais. Seu ideal é bastante razoável, pois não seria 
coerente afastar a participação dos litigantes na decisão se são eles os que sofrem os seus 
efeitos e almejam o melhor e eficiente resultado para suas desavenças. 
13 
 
Todo este arcabouço traz a impressão, de fato, de algo inovador e promissor, 
porém uma reflexão merece ser implantada: é imprescindível perceber que de nada adiantam 
as inúmeras alterações trazidas pelo Novo Código Processual se este continuar a ser visto, 
pensado e aplicado com a mesma ótica adotada sob a égide do Código de Processo Civil de 
1973. Primordial se faz a vitória sobre os obstáculos culturais e que sejam quebrados 
paradigmas que não se adequam mais a essa nova realidade para que sejam efetivamente 
alcançados os reais objetivos do Novo Código de Processo Civil. O processo deve ser, 
sobretudo, percebido como forma de se alcançar uma maior racionalidade, efetividade e 
qualidade na prestação jurisdicional. 
Conforme refere Teodoro Júnior (2015), pouco a pouco tudo vai sendo 
encaminhando para processos e procedimentos tendo como objetivo maior a solução justa e 
adequada aos conflitos jurídicos, de modo a reduzir as tensões sociais, enaltecendo a 
pacificação e harmonização dos litigantes em “em lugar de propiciar a guerra judicial em que 
só uma das partes tem os louros da vitória e à outra somente resta o amargor da sucumbência” 
(TEODORO JÚNIOR, 2015, p. 51). 
Assim, conhecido como o código das partes, veio o NCPC inovando e quebrando 
paradigmas culturais e processuais. Questionado por muitos e enaltecido por outros 
demostrará no decorrer do tempo a sua real eficiência. Democratizar a prestação jurisdicional 
é, pois, permitir às partes uma maior participação no processo e uma real influência na 
decisão a ser proferida pelo Estado-juiz. 
 
2.1 LIBERDADE COMO GARANTIA CONSTITUCIONAL E AUTONOMIA DA 
VONTADE NO PROCESSO 
 
A definição de liberdade trazida pelo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa 
refere que é a “faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação; 
poder de agir, no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação, dentro 
dos limites impostos por normas definidas; Independência, autonomia”. 
A liberdade é norma fundamental do texto maior e, muito antes dele, já existia e 
emanava seus efeitos, logo não há motivos para se repelir ou temer a ampliação dos limites da 
autonomia da vontade. Assim, “um processo que limite injustificadamente o exercício da 
liberdade não pode ser considerado um processo devido” (DIDIER JÚNIOR, 2015, p. 21). 
14 
 
A Constituição Federal, em seu Catálogo dos Direitos Fundamentais, elenca 
diversas formas de liberdade. Nota-se, pois, que é um direito fundamental de conteúdo amplo 
e complexo, sendo um dos pressupostos de um Estado Democrático de Direito. Na Magna 
Carta está prevista no Artigo 5º, caput, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de 
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a 
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade...” 
(BRASIL, 1988). O Novo Código de Processo Civil preconiza, em seu Artigo 1º, que “o 
processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado conforme os valores e as normas 
fundamentais estabelecidos na Constituição da República Federativa do Brasil”. Ambos 
referidos institutos andam de mãos dadas, e o fim almejado é um processo justo e 
democrático, e primordialmente alicerçado pelos preceitos constitucionais, sendo marcado 
pelo diálogo e participação entre todos os sujeitos da relação processual. 
Nessa esteira, o exagerado protagonismo judicial se reduz, pois permite-se às 
partes maior influência na condução do processo. Cai por terra o imperialismo do juiz, não lhe 
sendo permitido impor decisão sem antes proporcionar às partes a oportunidade de 
desenvolver o contraditório dialético, com a garantia da não surpresa. Busca-se, com isso, 
estabelecer uma verdadeira comunidade de trabalho orquestrada pela ideia de colaboração. 
Daí o marco divisor do novo instituto processual, pois ao longo de toda a história 
da doutrina brasileira, sempre se entendeu que a vontadeé irrelevante no processo. Eis que 
surge o Novo Código valorizando a possibilidade de as partes autorregrarem o processo, 
permitindo os chamados negócios jurídicos processuais, enaltecendo a autonomia da vontade. 
 
2.1.1 Princípio do respeito ao autorregramento da vontade no processo 
 
Quando aplicado no âmbito processual, o princípio da liberdade dá ensejo ao 
princípio do respeito ao autorregramento da vontade das partes no processo, isto é, o direito 
que as partes possuem de autorregular-se, no âmbito processual, sem restrições que sejam 
injustificadas ou não razoáveis. 
Didier Júnior (2015, p. 74) defende a existência, no NCPC, de um princípio 
implícito que denomina de autorregramento da vontade no processo. Seria decorrente do 
princípio constitucional da liberdade e encontra vasto campo para se enraizar na ideologia do 
novo diploma legal ao estimular composição das partes e ao prever os acordos sobre regras de 
procedimento. 
15 
 
O respeito à liberdade das partes deve conviver com os poderes do órgão 
jurisdicional e se faz preponderante esclarecer que o autorregramento da vontade no processo 
não é ilimitado. Segundo Didier Júnior (2015, p. 22), “o processo cooperativo nem é processo 
que ignora a vontade das partes, nem é processo em que o juiz é um mero espectador de 
pedra”. A mediação legislativa é indispensável para limitar a extensão da vontade. Refere o 
referido doutrinador Didier Júnior (2015, p. 133), que as limitações ao exercício do poder de 
autorregramento no processo serão estudadas à medida que os temas a ela relacionados 
apareçam. 
Assim, o respeito ao autorregramento da vontade no processo objetiva, acima de 
tudo, propiciar a obtenção de um ambiente processual que permita o direito fundamental de 
autorregulação, sem barreiras injustificadas impostas pela cultura até então predominante. 
O conjunto de normas, subprincípios ou regras existentes e permeabilizadas em 
todo o Novo Código de processo civil disciplinam juridicamente as condutas processuais e 
servem como parâmetros e limitações. O eminente doutrinador refere que existe um 
verdadeiro microssistema do exercício livre da vontade no processo. Para melhor 
compreensão do tema seguem alguns exemplos: 
1. estímulo a autocomposição: 
a) mediação e conciliação nos Arts. 165 a 175; b) possibilidade de acordo antes 
mesmo da defesa do réu (Arts. 334 e 695); c) homologação judicial de acordo 
extrajudicial de qualquer natureza (Art. 515, III; Art. 725, III); d) inclusão de 
matéria estranha ao objeto litigioso do processo em acordo judicial (Art. 515, 
§2º); e) acordos processuais (sobre o processo, não sobre o objeto do litígio) 
atípicos (Art. 190). 
2. vontade da parte que delimita objeto litigioso do processo (Arts. 141 e 490) e 
do recurso (Arts. 1002 e 1013); 
3. previsão de vasta quantidade de negócios processuais típicos, a exemplo: 
negócio tácito de que a causa tramita em juízo relativamente incompetente 
(Art. 65); calendário processual (Art. 191); renúncia ao prazo (Art. 225); 
acordo para a suspensão do processo (Art. 313, II); saneamento consensual 
(Arts. 357, §2º); convenção sobre o ônus da prova (Art. 373, §§3º e 4º); 
desistência da execução ou de medida executiva (Art. 775); renúncia ao 
recurso (Art. 999), etc. 
4. cláusula geral de negociação processual, que permite a celebração de negócios 
jurídicos atípicos (Art. 190). 
16 
 
Enfim, as partes têm o direito de disciplinar juridicamente suas condutas 
processuais, ora de forma solitária, ora com a outra parte e ora com o órgão jurisdicional. 
Nesses termos encontra-se exposto no rol das normas fundamentais do processo civil o 
estímulo a autocomposição, como no Art. 3º do NCPC “§ 2º O Estado promoverá, sempre que 
possível, a solução consensual dos conflitos. § 3º A conciliação, a mediação e outros métodos 
de solução conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e 
membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial”. 
 
2.2 FORMALISMO PROCESSUAL E FLEXIBILIZAÇÃO PROCEDIMENTAL 
 
Processo tem sinônimo de forma, com predominância de simbolismo sobre a 
substância ou o conteúdo do litígio. O formalismo processual, é inegavelmente importante ao 
sistema jurídico. Oliveira (2010) enumera os diversos benefícios que o formalismo traz ao 
sistema jurídico, tendo como exemplo, a previsibilidade do processo (demarcação do início e 
fim do processo), delimitação do direito material debatido; contenção dos arbítrios do juiz; 
formação e valorização do material fático, promoção de igualdade entre as partes. 
O referido doutrinador descreve que: 
 
O formalismo, ou a forma em sentido amplo, no entanto, mostra-se mais abrangente 
e mesmo indispensável, a implicar a totalidade formal do processo, compreendendo 
não só a forma, ou as formalidades, mas especialmente a delimitação do poderes, 
faculdades e deveres dos sujeitos processuais, coordenação de sua atividade, 
ordenação do procedimento e organização do processo, com vistas a que sejam 
atingidas suas finalidades primordiais (OLIVEIRA, 2010, p. 6-7). 
 
Apesar de sua observação, tem se constatado que o exagerado formalismo 
mostrou-se falho do decorrer da história, vez que não ofereceu instrumentos apropriados para 
solução de conflitos pautados em princípios consensualmente aceitos ou em valores 
compartilhados por toda a coletividade. Por outro lado, deve ser considerado que, muitas 
vezes, é justamente o formalismo que garante um acesso ao judiciário mais equânime. Se faz 
necessário, outrossim, um equilíbrio entre forma e liberdade para que haja uma estreita 
ligação entre o direito e a realidade que o circunda. 
Nessa linha de raciocínio, as reformas processuais incorporadas no sistema 
judiciário se mostraram fundamentais à necessidade da comunidade, carentes de 
procedimentos eficazes, sendo garantida maior acessibilidade ao poder judiciário e 
possibilidade de perceber suas lides resolvidas com maior celeridade e justiça. 
17 
 
Carlos Alberto Álvaro de Oliveira ressalta ser o formalismo, ao contrário do que 
geralmente se pensa, o elemento fundador tanto da efetividade quanto da segurança do 
processo. A efetividade decorre, nesse contexto, do seu poder organizador e ordenador (a 
desordem, o caos, a confusão, decididamente não colaboram para um processo ágil e eficaz) e 
a segurança decorre do seu poder disciplinador (OLIVEIRA, 2006). 
Diz o referido autor que 
 
a efetividade e a segurança apresentam-se como valores essenciais para a 
conformação do processo em tal ou qual direção, com vistas a satisfazer 
determinadas finalidades, servindo também para orientar o juiz na aplicação das 
regras e princípios. Interessante é que ambos se encontram em permanente conflito, 
numa relação proporcional, pois quanto maior a efetividade menor a segurança e 
vice-versa (OLIVEIRA, 2006, p. 13). 
 
Em razão do aparecimento de novas necessidades sociais, modificaram-se os 
costumes e em decorrência surgiram novas aspirações no sentido de um processo menos 
formalista e mais flexível. Com o objetivo de suavizar a rigidez do sistema, surge o 
mecanismo da flexibilização procedimental, de modo que o ato processual é praticado de 
forma diversa. Podem as partes ou o juiz dar início e há verdadeiro instrumento de mediação 
entre o direito processual e o direito material, pois sua utilização se presta a flexibilizar o 
sistema legal para a busca da tutela do direito material. Convém salientar, isto posto, que sua 
utilização deve estar em concomitância com os escopos da jurisdição, sob pena de nulidade. 
Respeitados os limites para que o processo não se degenere em decorrência do arbítrio 
praticadopor qualquer das partes processuais. 
A flexibilização procedimental, ademais, tem a capacidade de conferir a igualdade 
substancial entre as partes, se o procedimento for moldado apropriadamente às 
particularidades de um determinado caso concreto, a decisão poderá ser mais justa e 
democrática, de acordo com as disposições constitucionais. Acordado entre as partes e 
fiscalizada pelo juiz, levará em consideração as diferenças materiais existentes entre os 
sujeitos processuais. A aplicabilidade ao caso concreto surge como exigência fundamental nos 
dias atuais, visando melhor consecução dos fins do processo. 
 
2.2.1 Modelos tradicionais de organização do processo: adversarial e inquisitorial 
 
Com o intuito de organização processual cada sujeito processual exerce uma 
função, havendo uma verdadeira distribuição de atividades. Os doutrinadores, 
18 
 
costumeiramente, identificam dois modelos de estruturação do processo, quais sejam: modelo 
adversarial e modelo inquisitorial. A terminologia não é pacífica, mas a ideia preponderante 
coincide. 
O modelo adversarial, também conhecido como modelo garantista, se reveste de 
uma ideia de competitividade, havendo uma disputa entre os oponentes diante de um órgão 
jurisdicional relativamente passivo, tendo como função primordial decidir o caso. A maioria 
da atividade processual é desenvolvida pelas partes. Nos dizeres de Didier Júnior (2015, p. 
121) prepondera o princípio dispositivo, no sentido de orientação preponderante. “Assim, 
quando o legislador atribuir às partes as principais tarefas relacionadas à condução e à 
instrução do processo, diz-se que se está respeitando o princípio dispositivo” (DIDIER 
JÚNIOR, 2015, p. 121). 
No modelo inquisitorial, também tido como modelo publicista, funciona o órgão 
jurisdicional como “protagonista do processo”. Nessa estrutura, há maior poderio conferido ao 
magistrado, assumindo a posição central. Imperava no Código de Processo Civil de 1973, o 
princípio inquisitivo, conferindo protagonismo à figura do juiz, responsável pela maioria da 
atividade processual, restando às partes um espaço limitado para que pudessem exercer sua 
autonomia da vontade. 
Com o Novo Código de Processo Civil, entretanto, o legislador buscou reduzir o 
exacerbado protagonismo judicial, sendo às partes permitindo maiores poderes na condução 
do processo. Não existe sistema totalmente dispositivo ou totalmente inquisitivo, pois há uma 
construção de procedimentos erguidos a partir de várias combinações. Recomenda-se falar em 
predominância em relação a cada tema, por exemplo, a instauração do processo e delimitação 
do objeto litigioso são questões, em regra, atribuídas às partes, imperando, portanto, o 
principio dispositivo. No que se refere à investigação probatória, é admissível que o 
magistrado, nos termos do Art. 370 do NCPC, determine a produção de provas ex officio, 
predomina o princípio inquisitivo. Conforme referido por Barbosa Moreira citado por Didier 
Júnior (2015, p. 122): 
 
fala-se de princípio dispositivo a propósito de temas como o da iniciativa de 
instauração do processo, o da fixação do objeto litigioso, o da tarefa de coletar 
provas, o da possibilidade de autocomposição do litígio, o da demarcação da área 
coberta pelo efeito devolutivo do recurso, e assim por diante. Nada força o 
ordenamento a dar a todas essas questões, com inflexível postura, respostas de 
idêntica inspiração. 
 
19 
 
Nessa esteira, percebe-se que há bastante equilíbrio entre os dois modelos. 
Outrossim, inaugura o Novo Código, o modelo cooperativo que autoriza o desenvolvimento 
da relação processual sob o manto da cooperação – que vem flexibilizar a necessidade de 
dominação decorrente da imposição da decisão judicial. 
 
2.3 PROCESSO COOPERATIVO: UM NOVO MODELO DE ORGANIZAÇÃO 
PROCESSUAL 
 
O modelo cooperativo, inovação do Novo Código de Processo Civil, caracteriza-
se por trazer um “meio termo” entre a autonomia da vontade com o exercício do poder 
jurisdicional do Estado, não havendo, portanto, uma eliminação da atuação judicial, mas ao 
invés disso, uma efetiva ampliação da participação das partes no processo. 
Previsão do Art. 6º do NCPC estabelece que todos os atores da relação processual 
devem cooperar entre si para que seja obtida uma decisão de mérito justa e efetiva, em tempo 
razoável. Nessa linha, tem-se que a atuação deve ser conjunta e cada sujeito processual (juiz, 
partes, procuradores, Ministério Público, Defensoria Público, peritos, etc.), deve agir com 
boa-fé, lealdade, honestidade e integridade, concorrendo à sua maneira para a formação do 
provimento jurisdicional, fomentando o modelo cooperativo. Não há destaque para qualquer 
dos sujeitos processuais, mostrando-se o modelo mais adequado para uma democracia. 
Apesar da participação ativa das partes em colaboração, refere Didier Júnior 
(2015, p. 126) que 
 
não há paridade no momento da decisão; as partes não decidem com o juiz; trata-se 
de função que lhe é exclusiva. Pode-se dizer que a decisão judicial é fruto da 
atividade processual em cooperação, é resultado das discussões tratadas ao longo de 
todo o arco do procedimento; a atividade cognitiva é compartilhada, mas a decisão é 
manifestação do poder, que é exclusivo do órgão jurisdicional, e não pode ser 
minimizado. Neste momento, revela-se necessária assimetria entre as posições das 
partes e a do órgão jurisdicional: a decisão jurisdicional é essencialmente um ato de 
poder. 
 
O modelo cooperativo assim, transcende os tradicionais modelos adversarial e 
inquisitivo. Tem o propósito de atribuir a todos os sujeitos a responsabilidade pela formação 
dos atos processuais e, por conseguinte, da decisão judicial. 
Neves (2016, p. 596) ressalta que há certa preocupação no que se refere à 
liberdade das partes, dizendo que foi significativamente aumentada, o que deve ser saudado, 
até porque permite um processo mais democrático, mas é natural que existam limites: 
20 
 
 
ainda que exista uma nítida influência da arbitragem nessa maior liberdade das 
partes fixarem o procedimento e estabelecerem suas posições processuais no caso 
concreto, impor um procedimento a um árbitro, contratado pelas partes, é natural. 
Impor um procedimento a um juiz, no exercício de sua função jurisdicional, 
representado pelo Estado, é um pouco mais complexo. 
 
Alguns doutrinadores e estudiosos revelam-se descrentes sobre o modelo 
cooperativo, firmes na alegação de que a parte quando busca o poder judiciário para defender 
seus interesses, deseja que seu pedido seja julgado procedente, vez que não conseguiu seu 
intento de forma prévia e pacífica. Não irá colaborar solidariamente com a parte contrária na 
defesa de um interesse antagônico. 
No entanto, a ideia de processo cooperativo traduz ideal de justiça e democracia, 
em que todos os sujeitos processuais colaboram para a solução da lide. O contraditório é 
efetivo, pois todas as partes atuam com paridade de armas e oportunidades, influenciando a 
decisão de forma equitativa. 
 
21 
 
3 NEGÓCIO JURÍDICO 
 
Não poderia falar sobre o negócio jurídico sem antes abordar a contextualização 
no sistema processual brasileiro, a começar pela diferenciação entre fatos jurídicos, atos 
jurídicos, atos-fatos jurídicos e negócios jurídicos, bem como do enquadramento dos atos 
processuais. Cabe também trazer o conceito, fundamentação, pressupostos e classificação 
geral. Para melhor compreensão do tema, convém elencar as normas gerais de interpretação já 
previstas no Código Civil de 2002, bem como fazer referência ao interesse público e coletivo 
em relação ao negócio jurídico. 
 
3.1 FATOS JURÍDICOS, ATOS JURÍDICOS,ATOS-FATOS JURÍDICOS E NEGÓCIOS 
JURÍDICOS 
 
Antes de serem abordadas as regras procedimentais previstas no Novo Código de 
Processo Civil, se faz interessante expor os conceitos fundamentais de direito material que 
trazem influência direta na abordagem no negócio jurídico processual, primeiramente sendo 
necessário perceber a distinção entre fatos jurídicos, atos jurídicos, atos-fatos jurídicos e 
negócios jurídicos. 
Os fatos, a serem compreendidos de forma genérica, preexistem ao Direito, assim 
como as pessoas e as coisas. Fatos naturais são os que não sofrem a incidência de 
normatividade jurídica, sendo irrelevantes juridicamente. Os fatos se tornam jurídicos pela 
incidência das normas jurídicas que assim o assinalam. Na hipótese de o fato estar previsto no 
enunciado normativo, sua ocorrência faz incidir a norma, surgindo então, o fato jurídico 
(NICHEL, 2016). 
Nos fatos jurídicos em sentido estrito, revela-se ausente o ato humano voluntário. 
Os atos jurídicos, propriamente ditos, revelam a manifestação da vontade humana visando um 
fim específico. E nesse ponto, Wambier e Talamini (2016, p. 482) revelam uma subdivisão, 
qual seja, no ato jurídico em sentido estrito, há manifestação de vontade que busca a produção 
de uma consequência jurídica, previamente delineada no ordenamento jurídico, como por 
exemplo, na hipótese do contribuinte declarar imposto de renda e escolher o modelo de 
declaração simplificado ou modelo completo, sendo uma escolha, há portanto, um ato de 
vontade. Apesar dessa possibilidade de escolha, não é possível formatar o modelo de 
declaração. 
22 
 
De outro lado, há o ato negocial (ou negócio jurídico) onde há manifestação da 
vontade que delineia o conteúdo do ato, havendo possibilidade de efeitos específicos. Nos 
atos-fatos jurídicos existe o ato humano, contudo não deriva da vontade de atingir um fim 
jurídico específico. Assim, apesar de ato humano e, portanto, voluntário, não tem em mira a 
produção do efeito processual que desencadeia. 
Os negócios jurídicos, ligados diretamente à autonomia da vontade, conferem 
possibilidade de escolha ao interessado da categoria jurídica, bem como da estruturação do 
conteúdo eficácia das respectivas relações jurídicas, conforme frisa Cunha (2014). O negócio 
jurídico normalmente é identificado como ato de autonomia privada. Revela a face de 
autodeterminação, autorregulação e autovinculação, sendo que a vontade humana produz, por 
si, efeitos jurídicos. 
 
3.1.1 Enquadramento dos atos processuais 
 
Ante a peculiaridade dos atos e fatos processuais produzirem efeitos jurídicos, 
podem incidir em processos jurisdicionais. Nessa linha, convém alinhavar os conceitos de fato 
jurídico processual, ato-fato processual, ato jurídico processual em sentido estrito e negócio 
jurídico processual. 
Em se tratando de fato jurídico processual, há evento não derivado de vontade 
humana, mas que gera efeitos processuais, como por exemplo, morte da parte ou do seu 
procurador, o que vem a acarretar suspensão do processo. 
No ato-fato processual, há voluntariedade do ato humano, porém não objetiva a 
produção do efeito processual que desencadeia, como exemplificam Wambier e Talamini 
(2016, p. 483), ilustrando uma parte que cria obstáculos para o cumprimento de uma decisão, 
sendo que a princípio, não se pode afirmar que a vontade esteja voltada para litigância de má-
fé, contudo pode ser uma consequência jurídica a ser suportada. 
Assim, no ato-fato há atitude humana, porém, a vontade é irrelevante. Nesse 
sentido, Cunha (2014, p. 6) ilustra como exemplo a revelia. Não é importante saber se o réu 
quis ou não deixar de contestar. Sua vontade em nada difere, contudo irá gerar um resultado. 
Da mesma forma se refere à ausência de recurso como sendo um ato-fato. 
O ato jurídico processual em sentido estrito se refere a um ato voluntário que visa 
efeito jurídico processual, contudo a vontade do sujeito não tem o condão de interferir. Há 
regras legislativas, delineadas pelo ordenamento jurídico, como por exemplo, na hipótese de 
apelação de uma sentença evitando o trânsito em julgado haverá transferência de competência 
23 
 
para outro órgão. Refere Cunha (2014, p. 7), que os atos jurídicos processuais são, em geral, 
atos de conhecimento ou de comunicação, como por exemplo, a citação, a intimação, a 
confissão e a penhora. 
Expostas tais categorias, refere Tartuce (2015, p. 92) que a partir de uma 
construção conceitual sucessiva, chega-se a ideia de negócio jurídico, que pode ser definido 
como um ato jurídico em que há uma composição de interesse das partes com uma finalidade 
específica. Enfim, no negócio jurídico processual a manifestação da vontade define seus 
efeitos específicos. 
 
3.2 CONCEITO 
 
Negócio jurídico é o ato jurídico voluntário, cujo suporte fático possibilita ao 
sujeito o poder de escolher a categoria jurídica ou definir, dentro dos limites fixados no 
próprio ordenamento jurídico, nos dizeres de Didier Júnior (2015, p. 376). O negócio jurídico 
será processual se repercutir efeitos e consequências em processo atual ou futuro. 
A voluntariedade não se faz relevante tão somente na prática do ato em si, mas 
também na obtenção e definição de suas consequências. Em outras palavras, o conteúdo e 
consequentemente os efeitos do ato não são todos preestabelecidos em lei, mas delineados, 
pelo menos em substancial parcela, pela vontade dos sujeitos que praticam os atos, como bem 
definem Wambier e Talamini (2016, p. 512). 
Refere ainda Marcos Bernardes de Melo (citado por Didier Júnior, 2015, p. 377) 
que no negócio jurídico há escolha do regramento jurídico para uma determinada situação. 
Desse modo, o sistema jurídico faculta às pessoas, dentro de limites predeterminados e de 
amplitude variável, o poder de escolha de categoria jurídica e de estruturação da eficácia e 
conteúdo das relações jurídicas, quanto ao seu surgimento, permanência e intensidade no 
mundo jurídico. 
Durante muito tempo houve controvérsia acerca da existência de negócios 
jurídicos processuais. Defende a corrente contrária a esse instituto que haveria tão somente 
negócios jurídicos materiais com resultados processuais, pois a vontade do indivíduo seria 
relevante para a definição do conteúdo e efeitos materiais; enquanto que o efeito processual, 
por outro lado, seria prefixado em lei. Em resumo, existiram apenas atos jurídicos processuais 
em sentido estrito, havendo condutas voluntárias e preordenadas a um objetivo, mas as partes 
não teriam como interferir sobre seu conteúdo. Referem Wambier e Talamini (2016, p. 514) 
24 
 
que tal concepção já foi superada e que hodiernamente aceita-se a existência dos negócios 
jurídicos processuais referindo que são 
 
manifestações de vontade que têm por escopo a produção de específicos efeitos 
processuais, delineados por tais manifestações. O negócio jurídico, em si, pode ser 
feito dentro ou fora do processo. Importa é que ele produza efeitos processuais. Ele é 
fruto da vontade dos sujeitos que o celebram, e é por tal vontade modulado, quanto a 
conteúdo e efeitos. (WAMBIER; TALAMINI, 2016, p. 514) 
 
Para ser caracterizado um ato como negócio jurídico, conforme Didier Júnior 
(2015, p. 379), se faz relevante que a circunstância de vontade esteja direcionada não somente 
à prática do ato, mas, também, à produção de um determinado efeito jurídico; no negócio 
jurídico, há escolha do regramento jurídico para uma determinada situação. 
Interessante ilustração acerca da nomenclatura revela Tartuce (2015, p. 92), 
referindo que a expressão negócio tem origem na construção na negação do ócio ou do 
descanso (neg + otium), ou seja, na noção do movimento.3.3 FUNDAMENTAÇÃO E PRESSUPOSTOS 
 
Originalmente, os negócios jurídicos têm berço na autonomia da vontade. Há 
exemplos enraizados em todo o Código Civil de 2002 e outros ordenamentos, pois dispor de 
alguma cláusula não significa invalidar ou esbarrar em algum preceito fundamental. 
Refere o Art. 190, do CPC/15, ampliando a possibilidade de celebração de 
negócios processuais atípicos: 
 
Versando o processo sobre direitos que admitam a autocomposição, é licito às partes 
plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às 
especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e 
deveres processuais, antes ou durante o processo. 
 
Convém salientar, que a liberdade negocial é, de fato, manifestamente 
subordinada a determinados pressupostos, sendo eles objetivos e subjetivos. 
 
3.3.1 Pressupostos subjetivos 
 
Para a celebração de negócios jurídicos em geral, faz-se necessário que os sujeitos 
tenham personalidade jurídica e capacidade para o exercício de direitos (Código Civil, Arts. 
1º, 3º, 4º, 166 e 171, I). 
25 
 
Para os negócios processuais, lembram Wambier e Talamini (2016, p. 515), que 
além dos parâmetros supracitados, em projeção processual, é preciso que o sujeito detenha 
capacidade de ser parte e de estar em juízo (Arts. 70 a 76, do CPC/15) e cita alguns exemplos: 
condomínio poderá celebrar negócio jurídico desde que representado por seu administrador ou 
síndico (Art. 75, XI); o incapaz, por seus pais, tutor ou curador (Art. 71). 
Refere Talamini (2015, p. 4) que os referidos pressupostos são compreendidos em 
sua importância processual: 
 
[...] é preciso que o sujeito detenha capacidade de ser parte e de estar em juízo 
(CPC/15, art. 70). Por exemplo, um condomínio poderá celebrar negócio jurídico, 
dede que representado por seu administrador ou síndico (CPC/15, art. 75, XI) (...). 
Em regra, haverá correspondência com a capacidade para exercício de direitos no 
plano material. Mas, para negócios processuais, o que importa é a capacidade de 
estar em juízo. Essa normalmente reflete aquela. Contudo existem hipóteses 
específicas em que entes orgânicos (internos a outras estruturas coletivas), aos quais 
não se confere autonomia no plano jurídicomaterial, são admitidos como parte no 
processo judicial. 
 
De suma importância a observação, pois o sujeito pode ser incapaz civil e capaz 
processualmente, como o menor de dezesseis anos, que tem capacidade processual para a ação 
popular, embora não tenha capacidade civil plena. Nesses termos, refere Didier Júnior (2015, 
p. 385) que “embora normalmente quem tenha capacidade civil tenha capacidade processual, 
isso pode não acontecer. Como se trata de negócios jurídicos processuais, nada mais justo do 
que se exija plena capacidade processual para celebrá-los”. 
Em se tratando de capacidade processual, convém salientar que o Poder Público 
também pode celebrar negócio jurídico, tendo como exemplo, a Fazenda Pública e o 
Ministério Público. 
 
3.3.2 Pressupostos objetivos 
 
Tem-se como primeiro pressuposto objetivo a forma, que é livre. Obviamente 
deve haver alguma formalidade, mesmo para o simples registro da manifestação dos 
envolvidos no negócio jurídico. Conforme refere Cabral (2016, p. 287), “trata-se de um 
modelo de liberdade das formas, que pode ser extraído tanto das normas do direito privado 
(Arts. 104, III, 107 e 166, IV e V, todos do Código Civil), como daquelas do direito 
processual (Arts. 154 e 244 do CPC/73; Arts. 188 e 277 do CPC/15).” Assim, a negociação 
pode ser inserida no próprio contrato de direito material ou ainda em outros documentos. 
26 
 
Em decorrência da desnecessidade de rigidez de forma, salienta-se que mesmo a 
forma escrita não é exigida como requisito de validade necessário como faz menção Cabral 
(2016, p. 289): 
A convenção processual pode ser escrita ou verbal, podendo ser celebrada oralmente 
tanto em procedimentos informais e simplificados, como os juizados especiais, 
quanto no procedimento comum (em audiência). Quando os acordos processuais 
forem celebrados oralmente em audiência, deverão ser registrados em termo. Pode 
haver registro em mídia eletrônica, com gravação em vídeo posteriormente 
documentada em DVD (art. 209, pár 1º do CPC/2015). A forma escrita somente será 
requisito de validade do acordo quando a lei expressamente exigir, como na Lei 
9.307/96 para o compromisso arbitral e também no art. 63, pár 10 do CPC/2015 a 
respeito da eleição de foro. 
 
Excepcionalmente a lei exige forma escrita em alguns casos, por exemplo, foro de 
eleição e convenção de arbitragem, no entanto, a rigor, diz-se que a forma é livre. Revela-se 
como segundo pressuposto objetivo no negócio jurídico processual o objeto, que é o ponto 
mais sensível e indefinido na dogmática de negociação atípica, conforme salienta Didier 
Júnior (2015, p. 387) – como se verá em capítulo próprio. 
Em linhas gerais, refere Teodoro Júnior (2015, p. 633) que no negócio jurídico a 
causa deve versar sobre direitos que admitam autocomposição; as partes devem ser 
plenamente capazes; e a convenção deve limitar-se aos ônus, poderes, faculdades e deveres 
processuais das partes (Art. 190, caput, CPC/15). Salienta ainda que o ajuste pode ocorrer 
antes ou durante a marcha processual. 
 
3.4 NORMAS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO PREVISTAS NO CÓDIGO CIVIL 
 
Durante toda a fase de negociação processual, desde tratativas, celebração e 
execução, há orientação baseado no princípio da boa-fé processual (Art. 5º, do CPC/15; Art. 
422, Código Civil). Tanto os negócios jurídicos processuais típicos, quanto os atípicos devem 
ser interpretados de acordo com as normas gerais de interpretação dos negócios jurídicos 
previstas no Código Civil. Enumera Didier Júnior (2015, p. 392), as normas gerais: 
 
a) art. 112 do Código Civil: nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção 
nelas consubstanciada no que ao sentido literal da linguagem; 
b) art. 113 do Código Civil: os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme 
a boa-fé e os usos do lugar de sua celebração; 
c) art. 114 do Código Civil: os negócios jurídicos benéficos (aqueles em que apenas 
uma das partes se obriga, enquanto a outra se beneficia) e a renúncia interpretam-se 
estritamente; 
d) art. 423 do Código Civil: quando houver no contrato de adesão cláusulas 
ambíguas ou contraditórias, deverá ser adotada a interpretação mais favorável ao 
aderente. 
 
27 
 
A interpretação do ato negocial não deve limitar-se ao exame gramatical de seus 
termos, mas sim na vontade. Deverá o intérprete investigar a real intenção dos contratantes. A 
boa-fé, por sua vez, se presume, ao contrário da má-fé, que deve ser provada. 
A melhor maneira de apurar a intenção dos contratantes é verificar o modo pelo 
qual vinha executando o contrato, de comum acordo. 
Deve-se, ainda, interpretar o contrato, na dúvida, da maneira menos onerosa para 
o devedor. 
 
3.5 INTERESSE PÚBLICO E COLETIVIDADE EM RELAÇÃO AO NEGÓCIO 
JURÍDICO 
 
O direito processual civil é uma vertente do direito público, ou seja, o poder 
jurisdicional é regulado e exercido pelo Estado. Ante o modelo cooperativo insculpido no 
Novo Código de Processo Civil busca-se eficiência processual. Na esteira da consensualidade, 
objetivam os negócios jurídicos viabilizar uma participação maior dos próprios sujeitos 
envolvidos no ato jurídico, substituindo regras jurídicas por regras estabelecidas em comum 
acordo pelos sujeitos processuais. 
A Fazenda Pública, considerando-se todos os membros que a representam em 
todo o país (União, estados, municípios, DF, suas fundações e autarquias), é a maior litiganteno Poder Judiciário. Há grande polêmica acerca da possibilidade de negócio jurídico 
envolvendo a Fazenda Pública, pois a autonomia da vontade, quando não totalmente negada, é 
ao menos, motivo de muitas controvérsias. 
No entanto, o Fórum Permanente de Processualistas Civis prescreve em seu 
anunciado 256: “Fazenda Pública pode celebrar negócio jurídico processual” (VILLAR, 
2015). Contudo, esse entendimento deve ser interpretado com cautela, pois a definição do 
Poder Público é pautada por normas de direito administrativo, em especial aquelas que 
atendem a dois princípios basilares: supremacia do interesse público e indisponibilidade do 
poder público. 
Existe, ainda, a possibilidade de efetivação de negócio processual coletivo, como 
refere o Enunciado nº 255, do Fórum Permanente de Processualistas Civis: “É admissível a 
celebração de convenção processual coletiva” (ENUNCIADOS..., 2016). Para tanto, basta 
pensar em um acordo coletivo trabalhista, onde os sindicatos disciplinem aspectos de futuro 
dissídio coletivo, como lembra Didier Júnior (2015, p. 393), sendo necessária a existência de 
legitimação negocial coletiva por parte do ente que a celebre. 
28 
 
Convém salientar a admissibilidade de negócios referentes a processos 
indeterminados, cabendo como exemplo, os acordos celebrados entre os órgãos do Poder 
Judiciário e alguns litigantes habituais (Caixa Econômica Federal, entre outros), no sentido de 
regular o modo como devem ser citados (precipuamente regulando a citação por meio 
eletrônico) e até mesmo a quantidade de citações por período. Ainda refere Didier Júnior 
(2015, p. 393), que moldado pela eficácia, o negócio jurídico processual também dá margem a 
convenções processuais que envolvam a Ordem dos Advogados do Brasil e os órgãos do 
Poder Judiciário para, como exemplo, estipular calendário para implantação de processo 
eletrônico ou outros instrumentos para gerar efetividade e eficiência. Assim, imagine-se a 
dimensão que podem atingir os negócios jurídicos pelo bem da coletividade. 
 
3.6 CLASSIFICAÇÃO GERAL 
 
Expostos os conceitos fundamentais da teoria geral dos fatos jurídicos, se faz 
importante relembrar as diversas classificações do negócio jurídico, o que pode ser 
perfeitamente aplicável aos negócios jurídicos processuais. Refere Tartuce (2015, p. 93), que 
pelo que consta no Art. 185 do Código Civil, as classificações a seguir servem tanto para os 
negócios quanto para os atos jurídicos em sentido estrito. 
No que se refere ao objeto, lembra Didier Júnior (2015, p. 387) que pode haver 
negócios processuais sobre o objeto litigioso do processo, a exemplo do reconhecimento da 
procedência do pedido, e também pode haver negócio processual que verse sobre o próprio 
processo, em sua estrutura, como o acordo para suspensão convencional do procedimento. O 
negócio que tem por escopo o próprio processo pode servir para a redefinição das próprias 
situações jurídicas processuais – ônus, deveres, direitos processuais – ou para a modificação 
do próprio procedimento. 
Quanto às manifestações de vontade dos envolvidos, os negócios jurídicos podem 
ser unilaterais, bilaterais e plurilaterais. Os negócios processuais podem ser unilaterais – 
aqueles realizados pela manifestação de apenas uma vontade, como a desistência do processo 
e também podem ser bilaterais – aqueles se perfazem pela manifestação de duas vontades, 
como a eleição negocial do foro, conforme Talamini (2015), nesses termos refere o Art. 200 
do CPC/15: “ Os atos das partes consistentes em declarações unilaterais ou bilaterais de 
vontade produzem imediatamente a constituição, modificação ou extinção de direitos 
processuais”. 
29 
 
Os negócios jurídicos bilaterais normalmente são divididos em contratos, quando 
as vontades são antagônicas, e em acordos ou convenções, quando as vontades convergem 
para um interesse comum, conforme afirma Didier Júnior (2015, p. 387). Existe também a 
possibilidade de realização de negócios plurilaterais, formados pela vontade de mais de dois 
sujeitos: é o que acontece, por exemplo, com os negócios processuais celebrados com a 
participação do juiz (como o calendário processual – Art. 191, do CPC), conforme revela 
Talamini (2015, p. 1). 
Os negócios podem ser ainda expressos, como o foro de eleição, ou tácitos, como 
a renúncia tácita à convenção de arbitragem (Art. 337, parágrafo 6º, CPC), como bem explana 
Didier Júnior (2015, p. 378): 
 
Negócios tácitos tanto podem ser celebrados com comportamentos comissivos, como 
é o caso da prática de ato incompatível com a vontade de recorrer (aceitação da 
decisão), como omissivos, como a não alegação de convenção de arbitragem. Há, 
então, omissões processuais negociais. Nem toda omissão processual é um ato-fato 
processual. O silêncio da parte pode, em certas circunstâncias, normalmente 
tipicamente previstas, ser uma manifestação de sua vontade. 
 
Em relação às vantagens patrimoniais para os envolvidos, os negócios jurídicos 
podem ser gratuitos ou onerosos. Os primeiros são atos de liberalidade, que outorgam 
vantagens sem impor ao beneficiado a obrigação de uma contraprestação. Já os negócios 
jurídicos onerosos envolvem sacrifícios e vantagens patrimoniais para todas as partes no 
negócio, conforme refere Tartuce (2015, p. 94). 
Acerca da necessidade de homologação, existem os negócios jurídicos processuais 
que precisam de homologação pelo juiz, como no caso da desistência do processo (Art. 200, 
parágrafo único, CPC/15), e outros que não necessitam dessa chancela, como o negócio tácito 
sobre a modificação da competência relativa ou a desistência do recurso. Contudo, a regra é a 
dispensa da necessidade de homologação judicial do negócio processual. 
Por fim, ainda há a possibilidade de celebração de negócios processuais atípicos, 
lastreados na cláusula geral de negociação sobre o processo, prevista no Art. 190, do CPC, 
que será analisado em item especial. 
 
30 
 
3.7 NEGÓCIO PROCESSUAL TÍPICO: INOVAÇÃO PROCEDIMENTAL? 
 
Convém salientar que o negócio jurídico processual típico não é uma inovação no 
ordenamento jurídico. Já no Código Civil de 2002 havia previsão legal prevista no Art. 104: 
“A validade do negócio jurídico requer: I – agente capaz; II – objeto lícito, possível, 
determinado ou determinável; III – forma prescrita ou não defesa em lei”. Refere Tartuce 
(2015, p. 100) que não há no dispositivo menção expressa a respeito da vontade livre, mas 
certo é que referido elemento está inserido seja na capacidade do agente, seja na licitude do 
objeto do negócio. 
O negócio jurídico é produto da autonomia privada ou da autorregulação de 
interesses, sendo decorrente da liberdade de celebração e de estipulação de regras entre as 
partes. Contudo, isso não impede que a legislação fixe o regime de determinados negócios. 
Nesse caso, existe um tipo previsto em lei, sendo por ela regulado. 
Nesse modelo encaixa-se o negócio jurídico típico, o qual dispensa a convenção 
das partes para sua regulação, sendo previamente estabelecida em lei. Não há dúvida que a 
previsão legal dos negócios jurídicos processuais, imprime a segurança que os 
administradores, sujeitos ao imperativo da legalidade, tanto buscam. O Código de Processo 
Civil de 1973 revelara previamente o negócio jurídico processual típico, como bem enumera 
Cunha (2016, p. 54): 
 
a) modificação do réu na nomeação à autoria (arts. 65 e 66); 
b) sucessão do alienante ou cedente pelo adquirente ou cessionário da coisa litigiosa 
(art. 42, par 1º); 
c) acordo de eleição de foro (art. 111); 
d) prorrogação da competência territorial por inércia do réu (art. 114); 
e) desistência do recurso (art. 158; art. 500, III);f) convenções sobre prazos dilatórios (art. 181); 
g) convenção para suspensão do processo (arts. 264, II, e 792); 
h) desistência da ação (art. 267, par 4º; art. 158, parágrafo único); 
i) convenção de arbitragem (art. 267, VII; art. 301, IX); 
j) revogação da convecção de arbitragem (art. 301, IX, e §4º); 
k) reconhecimento da procedência do pedido (art. 269, II); 
l) transação judicial (arts. 269, III, 475-N, III e V, e 794, II); 
m) renúncia ao direito sobre o qual se funda a ação (art. 269, V); 
n) convenção sobre a distribuição do ônus da prova (art. 333, par. único); 
o) acordo para retirar dos autos o documento cuja falsidade foi arguida (art. 333, 
parágrafo único); 
p) conciliação em audiência (arts. 447 e 449); 
q) adiamento da audiência por convecção das partes (art. 453, I); 
r) convenção sobre alegações finais orais de litisconsortes (art. 454, § 1º) 
s) liquidação por arbitramento em razão de convenção das partes (art. 475 – C, I), 
dentre outros. 
 
31 
 
O CPC/2015 manteve vários negócios jurídicos típicos anteriormente previstos no 
CPC/1973, como, por exemplo, convenção sobre eleição de foro, sobre suspensão do processo 
e sobre distribuição do ônus da prova. Enumera Didier Júnior (2015, p. 377), alguns exemplos 
de negócios processuais típicos no CPC/2015: 
 
a) cláusula de eleição de foro (art. 63); 
b) negócio tácito de que a causa tramite em juízo relativamente incompetente (art. 
65); 
c) convenção de suspensão do processo (art. 313, II); 
d) negócio sobre adiamento da audiência (art. 362, I); 
e) a desistência da ação (art. 485, par. 4º); 
f) a retirada dos autos de documento objeto de arguição de falsidade (art. 432, par. 
único); 
g) redução de prazos peremptórios (art. 222, par. 1º); 
h) renúncia ao prazo (art. 225); 
i) calendário processual (art. 191); 
j) audiência de saneamento e organização em cooperação com as partes (art. 357, 
par. 3º); 
k) acordo de saneamento ou saneamento consensual (art. 364, par. 2º); 
l) cláusula de inversão do ônus da prova (art. 373, § 3.º) 
m) escolha consensual do perito (art. 471); 
n) escolha do arbitramento como técnica de liquidação (art. 509, I); 
o) desistência do recurso (art. 999), entre outros. 
 
Sempre existiram negócios processuais no ordenamento jurídico brasileiro. 
Contudo, até a inovação do códex instrumental, eles eram típicos. Conforme bem elucidam 
Wambier e Talamini (2016, p. 515), até então as hipóteses de negócios processuais eram 
taxativas, sempre a depender de uma específica previsão legal (o que se costumar denominar 
numerus clausus). Diante da inovação do Art. 190, do CPC/15, surge a possibilidade de 
negócios processuais não previstos, tidos como atípicos, onde o ajuste de vontade das partes 
tem a permissividade de moldar o procedimento ou posições jurídicas processuais entre outras 
hipóteses. Revelada a possibilidade de ampla liberdade aos interessados, para adequarem o 
processo, ajustando às suas necessidades e expectativas concretas, ainda que vigiadas pelo 
ordenamento jurídico. Interessante reflexão traz o doutrinador referindo que 
 
A arbitragem foi a fonte de inspiração – ou o fator de incentivo – para o legislador 
instituir essa possibilidade de ampla formatação voluntária do processo judicial. O 
raciocínio subjacente à cláusula geral de negócios jurídicos processuais estabelecida 
no art. 190 é o seguinte: se as partes podem até mesmo retirar do Judiciário a 
solução do conflito, atribuindo-a a um juiz privado em um processo delineado pela 
vontade delas, não há porque impedi-las de optar ou manter a solução do conflito 
perante o juiz estatal, mas em um procedimento e (ou) processo também por elas 
redesenhado. (VIEIRA, 2016, p. 252). 
 
32 
 
Assim, cabe ilustrar que utilização de arbitragem tem caráter voluntário e se 
baseia fundamentalmente na liberdade de escolha das partes, no consenso. Portanto, assim 
como os negócios processuais, a arbitragem é regida pelo princípio da autonomia privada. 
 
33 
 
4 NEGÓCIO PROCESSUAL ATÍPICO 
 
Permite o negócio processual atípico plena liberdade para que as partes, em 
comum acordo, modulem o processo judicial, ajustando-o às suas concretas necessidades. 
Reproduzindo o disposto no Art. 158, do CPC de 1973, o Art. 200, do Novo Código de 
Processo Civil, dispõe que “os atos das partes consistentes em declarações unilaterais ou 
bilaterais de vontade produzem imediatamente a constituição, modificação ou extinção de 
direitos processuais”. 
A começar por essa premissa, pode-se construir o princípio da atipicidade dos 
negócios processuais, chegando a conclusão de que é possível qualquer tipo de negócio entre 
as partes ou entre estas e o juiz. Não bastasse essa previsão, o Novo Código de Processo Civil, 
prevê em seu Art. 190 uma cláusula geral de procedimento. 
Esclarece Didier Júnior (2015, p. 380) que o caput do Art. 190 do Novo CPC, é 
uma cláusula geral, da qual se extrai o subprincípio da atipicidade da negociação processual. 
Subprincípio porque serve à concretização do princípio de respeito ao regramento da vontade 
no processo e, “em decorrência dessa cláusula geral podem advir diversas espécies de 
negócios processuais atípicos. Muito embora tenha o legislador usado o verbo “convencionar” 
no caput e no parágrafo único, a cláusula geral permite negócios processuais, gênero de que as 
convenções são espécies”. (DIDIER JÚNIOR, 2015, p. 380) 
Assim, revela o Art. 190 do Novo CPC: 
 
Versando o processo sobre direitos que admitem a autocomposição, é lícito às partes 
estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e 
convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdade e deveres processuais, antes ou 
durante o processo. 
Parágrafo único. De ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das 
convenções previstas neste artigo, recusando-lhes aplicação somente nos casos de 
nulidade ou de inserção abusiva em contrato de adesão ou em que alguma parte se 
encontre em manifesta situação de vulnerabilidade. 
 
O processo deve ser adequado à realidade material, podendo ser dito que o 
procedimento previsto em lei para determinado processo deve atender as finalidades do 
direito tutelado. Esclarece Cunha (2014, p. 27), que 
 
caso o direito material de que a parte alegue ser titular contenha alguma nota 
particular ou revista ou timbre de direito especial, a lei, via de regra, confere-lhe um 
procedimento igualmente especial. O procedimento sofre, assim, influência das 
peculiaridades do direito material. 
 
34 
 
Nessa linha de pensamento, tem-se que se faz necessário haver uma adequação do 
processo às peculiaridades do caso concreto. 
 
4.1 OBJETO: O PRINCÍPIO DA ATIPICIDADE DA NEGOCIAÇÃO SOBRE O 
PROCESSO 
 
Nos termos do Art. 190, caput, do Novo CPC, as partes podem estipular 
mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa. Refere Didier Júnior 
(2015, p. 380) que 
 
o negócio processual atípico tem por objeto as situações jurídicas processuais – 
ônus, faculdades e poderes (‘poderes’, neste caso, significam qualquer situação 
jurídica ativa, o que inclui direitos subjetivos, direitos protestativos e poderes 
propriamente ditos). O negócio processual atípico pode ter por objeto o ato 
processual - redefinição de sua forma ou da ordem de encadeamento dos atos, por 
exemplo. 
 
Nesse sentido, os Enunciados n. 257 e 258 do Fórum Permanente de 
Processualistas Civis: 
 
257. O art. 190 autoriza que as partes tanto estipulem mudanças do procedimento 
quanto convencionem sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres 
processuais”. 
258. As partes podem convencionar sobre seus ônus,poderes, faculdades e deveres 
processuais, ainda que essa convenção não importe ajuste às especificidades da 
causa. (VILLAR, 2015) 
 
Não se trata, isto posto, de negócio jurídico sobre o direito litigioso – essa é a 
autocomposição. No caso em apreço, há negociação sobre o processo, alterando suas regras e 
não sobre o objeto litigioso do processo. 
Convém esclarecer que o Fórum Permanente de Processualistas Civis (VILLAR, 
2015) se traduz em evento periódico composto por encontros de professores brasileiros de 
processo, destinados a estudar e discutir o Novo Código de Processo Civil. Em cada um 
desses encontros, são emitidos enunciados interpretativos, com objetivo de orientar os 
profissionais do Direito. Dada a permissividade e amplitude do Art. 190, há amplo espaço 
para interpretação e discussão. 
Refere Cunha (2014, p. 27) que 
 
as partes podem, à evidência negociar regras processuais. Além de poderem ajustar 
o procedimento para as peculiaridades da causa, as partes podem negociar sobre 
35 
 
ônus, faculdades e deveres processuais antes ou durante o processo. As partes 
podem, por exemplo, definir outros deveres e sanções para além daqueles já 
previstos na legislação. 
 
Nesse sentido, registra o Enunciado 17, do Fórum Permanente de Processualistas 
Civis: “As partes podem, no negócio processual bilateral, estabelecer outros deveres e sanções 
para o caso de descumprimento da convenção”. (VILLAR, 2015) 
Muito bem se posiciona Neves (2016, p. 583) acerca da liberdade de negociação: 
 
Ao criar a correlação mudança procedimental-especificidades da causa, o legislador, 
entretanto, não consagrou a vontade livre das partes, mas sim uma vontade 
justificada, condicionada a uma adequação procedimental que atenda a eventuais 
peculiaridades do caso concerto. 
 
Para elucidar o novo instrumento, Didier (2015, p. 381) lista alguns exemplos de 
negócios processuais atípicos permitidos pelo Art. 190: 
a) acordo de impenhorabilidade; 
b) acordo de instância única; 
c) acordo de ampliação ou redução dos prazos; 
d) acordo para superação preclusão; 
e) acordo de substituição de bem penhorado; 
f) acordo de rateio de despesas processuais; 
g) dispensa consensual de assistente técnico; 
h) acordo para retirar o efeito suspensivo da apelação; 
i) acordo para não promover execução provisória; 
j) acordo para dispensa de caução em execução provisória; 
k) acordo para limitar número de testemunhas; 
l) acordo para autorizar intervenção de terceiro fora das hipóteses legais; 
m) acordo para decisão por equidade ou baseada em direito estrangeiro ou 
consuetudinário; 
n) acordo para tornar uma prova ilícita, entre outros. 
 
Refere Tartuce (2015, p. 124) que o Enunciado n. 15, do Fórum Permanente de 
Processualistas Civis gerará grande debate: “o negócio jurídico celebrado nos termos do art. 
190 obriga herdeiros e sucessores”. Daniel Amorim Assumpção Neves (2016) citado por 
Tartuce (2015, p. 124) refere que “a conclusão de não se tratar de direito personalíssimo é 
correta porque envolve direitos disponíveis de natureza processual, vinculado aos sucessores 
36 
 
processuais na hipótese de falecimento da parte”. A construção acerca do tema negociação 
atípica ocorre diariamente na lide forense. As novas experiências trarão questionamentos e 
discussões acerca do tema, donde emergirão outros tantos enunciados e posicionamentos. 
 
4.1.1 Momento de celebração 
 
Nos termos do Art. 190, caput, do Novo CPC, o negócio jurídico pode ser 
celebrado antes ou durante o processo. No tocante à celebração em momento anterior ao 
processo, refere Neves (2016, p. 587), que concorda com a doutrina que defende uma 
aproximação do negócio jurídico com a arbitragem, de forma que a convenção possa ser 
elaborada por meio de cláusula contratual ou por meio de instrumento em separado, celebrado 
concomitantemente ou posteriormente ao contrato principal. 
Ocorrendo a celebração durante o processo, as partes podem fazer o acordo 
extrajudicialmente, apenas protocolando em juízo. Lembra Neves (2016, p. 588) que existe 
também a possibilidade de celebrar o negócio jurídico na presença do juiz, em ato oral, como 
na audiência de instrução e julgamento a até mesmo na presença de conciliador ou mediador 
na audiência prevista no Art. 334 do Novo CPC, já que tal acordo não depende de 
homologação judicial para gerar efeitos. 
Ainda acerca do momento de celebração de acordo processual, complementa 
Didier Júnior (2015, p. 384) que o ambiente propício é a audiência de saneamento e 
organização do processo (Art. 357, § 3º, NCPC). Nesse momento, as partes podem, por 
exemplo, acordar para alterar ou ampliar o objeto litigioso, dispensar perito ou celebrar o 
negócio de organização consensual do processo (Art. 357, § 2º, NCPC). 
Percebe-se, dado o exposto, as variadas possibilidades de inclusão do negócio 
jurídico no processo. Enquanto houver litispendência, será possível negociar sobre o processo. 
Tudo vai depender do objeto da negociação. Um acordo para divisão de tempo na sustentação 
oral, por exemplo, pode ser celebrado um pouco antes do início da sessão de julgamento no 
tribunal. 
37 
 
4.2 REQUISITOS DE VALIDADE 
 
Os negócios jurídicos processuais passam pelo plano de validade de atos jurídicos. 
Refere o Enunciado n. 134 do Fórum Permanente dos Processualistas Civis: “Negócio 
jurídico processual pode ser invalidado parcialmente” (VILLAR, 2015). Lembra Neves (2016, 
p. 588) que o negócio processual não depende de homologação pelo juiz, aplicando-se o 
previsto no Art. 200, caput, no Novo Código de Processo Civil, de forma que o acordo 
procedimental é eficaz independente de qualquer ato homologatório judicial. O referido 
artigo, afirma que os atos das partes produzem imediatamente a constituição, modificação ou 
extinção de direitos processuais. 
Há um conjunto de normas que disciplinam a negociação sobre o processo. Esse 
conjunto, conforme Didier Júnior (2015, p. 382), pode ser considerado um microssistema. O 
Art. 190 e o Art. 200 do NCPC são “o núcleo de microssistema e devem ser interpretados 
conjuntamente, pois restabelecem o modelo dogmático na negociação sobre o processo no 
direito processual civil brasileiro”. Nesse sentido, o Enunciado n. 261, do Fórum Permanente 
de Processualistas Civis: “o art. 200 aplica-se tanto aos negócios unilaterais quanto aos 
bilaterais, incluindo as convenções processuais do art. 190”. (VILLAR, 2015) 
Para serem válidos, os negócios processuais devem ser celebrados por pessoas 
capazes, possuir objeto lícito e observar forma prevista ou não proibida por lei, conforme 
previsto nos Arts. 104, 166 e 167 do Código Civil. Assim, havendo desrespeito a quaisquer 
destes requisitos, poderá ser decretada a nulidade do negócio processual, reconhecível ex 
officio nos termos do parágrafo único do art. 190 do novo CPC. 
Os limites aos negócios jurídicos processuais serão paulatinamente identificados 
pela doutrina. A licitude do objeto passa pelo respeito às garantias fundamentais do processo. 
Ilustra Cunha (2014, p. 29) que 
 
 não parece possível um negócio processual que dispensa a fundamentação da 
decisão ou que imponha sigilo ou segredo de justiça, afastando a exigência 
constitucional de publicidade nos processos judiciais. Os negócios jurídicos 
processuais devem situar-se no espaço de disponibilidade outorgado pelo legislador 
não podendo autorregular situações alcançadas por normas cogentes. A legislação 
impõe, por exemplo, observância às normas de competência absoluta, permitindo, 
entretanto, negócios jurídicos atípicos sobre competência relativa. Quer isso dizer 
que não é possível a celebração de negócioprocessual que modifique a competência 
absoluta. 
 
38 
 
Assim, tem-se que o negócio processual está impossibilitado de afastar regra de 
proteção a direito indisponível. 
 
4.2.1 Capacidade processual negocial 
 
A capacidade processual é um requisito de validade exigido nos negócios 
jurídicos processuais atípicos, nos termos preestabelecidos no Art. 190, do Novo CPC. 
Contudo, referido enunciado não especifica o tipo de capacidade a que se refere. Elucida, 
nesse sentido, Didier Júnior (2015, p. 385) que é exigida a capacidade processual negocial, 
que pressupõe a capacidade processual, mas não se limita a ela, pois a vulnerabilidade é caso 
de incapacidade processual negocial. 
Ainda nessa linha, convém ilustrar com as palavras do doutrinador Neves (2016, 
p. 589) 
 
que a parte precisa ter capacidade de estar em juízo, de forma que mesmo aquelas 
que são incapazes no plano material, ganham capacidade processual ao estarem 
devidamente representadas. Se a capacidade for a processual, todo e qualquer sujeito 
processual poderá celebrar o negócio jurídico ora analisado, já que todos devem ter 
capacidade de estar em juízo no caso concreto 
 
Cabe ainda relembrar acerca da capacidade de negociação pelo Ministério 
Público, sobretudo na condição de parte como por exemplo a possibilidade de inserir, em 
termos de ajustamento de conduta, convenções processuais. 
No que se refere ao advogado da parte, traz o Art. 105, do Novo Código de 
Processo Civil uma lista de atos que exigem poderes especiais, entre eles os autos negociais. 
Assim, sempre que houver um negócio processual há necessidade de poder especial delegado 
pela parte. 
 
4.3 PARTICIPAÇÃO DO MAGISTRADO NO NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL 
 
Há divergência a respeito da necessidade de homologação da convenção 
processual referido no Art. 190, do Novo CPC. Contudo, tem prevalecido o entendimento de 
que não é necessária a homologação, produzindo o negócio efeitos imediatos. A homologação 
somente é necessária para o ato gerar efeitos quando houver expressa previsão legal, como no 
39 
 
caso de desistência da ação, explicitado no parágrafo único do Art. 200, do Novo CPC: “A 
desistência da ação só produzirá efeitos após a homologação judicial”. 
Refere Gajardoni (2015, p. 1.244) que convencionada a ampliação de prazo para o 
recurso de apelação pelas partes (o que deve ocorrer, por evidente, antes do trânsito em 
julgado da decisão), não se deve aguardar a homologação judicial da avença para interposição 
do recurso no novo prazo estabelecido. 
 
O controle de admissibilidade e validade da convenção, que pode ser feito pelo juiz 
no momento em que receber a notícia no negócio, é coisa distinta e sem relação com 
a homologação da convenção. Tanto que, não havendo vício, simplesmente cumpre-
se a convenção cujos efeitos remontam à data do acordo da vontade. (GAJARDONI, 
2015, p. 1.244) 
 
Importante trazer à baila que não é vedado, prévia e genericamente, o negócio 
processual em contrato de adesão, mesmo porque expresso no Art. 190 do Novo CPC. O 
contrato de adesão permite que uma parte imponha determinações à outra, cabendo a essa 
apenas aceitar ou recusar como um todo, sem margem para discussão individualizada de suas 
cláusulas. Lembra Cunha (2014) que, em tese, é possível, cabendo apenas ao juiz controlar 
validade da respectiva cláusula, recusando-lhe aplicação somente nos casos de nulidade ou de 
inserção abusiva em contrato de adesão ou no qual alguma parte se encontre em manifestar 
situação de vulnerabilidade. 
 
A simples circunstância de o contrato ser de adesão não é suficiente para se ter como 
nula ou ineficaz a cláusula que disponho sobre procedimento ou sobre regras 
processuais. É preciso, para que o juiz recuse-lhe a aplicação, a evidência de uma 
abusividade, de uma nulidade ou de uma manifesta situação de vulnerabilidade. 
(CUNHA, 2014, p. 28). 
 
Mesmo em não se tratando de contrato de adesão, o juiz deverá aferir se uma das 
partes não se prevaleceu de manifestar situação de vulnerabilidade da outra. Como dito, a 
eficácia do negócio jurídico processual independe de prévia homologação pelo juiz. Contudo, 
há algumas exceções. O próprio parágrafo único do Art. 200 do Novo Código de Processo 
Civil estabelece uma: a desistência da ação. Refere Talamini (2015, p. 7) que o ajuste 
almejado pelas partes interferirá “em termos práticos de modo muito direto sobre a esfera de 
atuação do juiz – sendo, então, imprescindível que ele intervenha na própria celebração do 
ato, confirmando sua viabilidade prática”. Isso se justifica por serem situações que envolvem 
programação de conduta para o próprio juiz, e que somente serão possíveis de vinculação se 
40 
 
ele for previamente consultado e aferir factibilidade daquilo que se pretende, por exemplo na 
convenção sobre calendário processual. 
 
4.4 ÔNUS DA ALEGAÇÃO E INADIMPLEMENTO 
 
A alegação de inadimplemento da prestação de um negócio processual celebrado 
pelas partes é fato que deve ser alegado pela parte adversa. Lembra Didier Júnior (2015, p. 
391) que caso não o faça no primeiro momento em que lhe couber falar, será considerado que 
houve novação tácita e, consequentemente, preclusão do direito de alegar o inadimplemento. 
O juiz não poderá, de ofício, conhecer a falta, salvo se houver expressa autorização negocial 
ou legislativa nesse sentido. Ilustra o eminente doutrinador, como exemplo, o acordo de 
instância única, onde as partes negociam que ninguém recorrerá. Se, nesse caso, uma das 
partes recorrer, o órgão jurisdicional não pode deixar de admitir o recurso por esse motivo; 
cabendo à parte recorrida alegar e provar o inadimplemento, sob pena de preclusão. 
 
4.5 DECISÃO QUE DECRETA INVALIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO 
PROCESSUAL 
 
Em regra, não se previu recurso contra a decisão interlocutória que nega validade 
ou eficácia ao negócio jurídico processual. A princípio, a decisão do juiz que não homologa 
ou recusa aplicação a negócio processual não pode ser impugnado por agravo de instrumento. 
Prevê o Art. 1.015, III, do Novo CPC o cabimento no caso de decisão que rejeita a alegação 
de convenção de arbitragem. Refere Didier Júnior (2015, p. 390) que 
 
parece possível extrair, por analogia, a recorribilidade por agravo de instrumento da 
decisão interlocutória que não homologue ou recuse eficácia a um negócio 
processual. O rol das hipóteses de agravo de instrumento, embora taxativo, pode ser 
interpretado por analogia. 
 
Não há entendimento pacífico nesse sentido. Refere Neves (2016, p. 605) que 
“ainda que o negócio jurídico processual previsto no Art. 190, do Novo CPC, decorra da 
vontade das partes da mesma forma que a convenção de arbitragem, o objeto de ambas é 
distinto o suficiente para não permitir a interpretação extensiva”. Defende que a 
recorribilidade seguirá a regra do Art. 1.009, § 1º, do Novo CPC: apelação. Salienta o 
doutrinador que se trata de mais uma hipótese de nítida inutilidade do recurso previsto em lei, 
41 
 
já que após a prolação da sentença todo o procedimento já terá se desenvolvido em 
desrespeito ao acordo de vontade das partes. 
Muito bem lembram Wambier e Talamini (2016, p. 519) quando comentam que, 
no caso de situação grave e urgente onde não possa se aguardar eventual e futura apelação, o 
remédio será o mandado de segurança, no que concorda Neves (2016, p. 605). 
 
4.6 ESTRUTURA E CONTROLE JURISDICIONAL 
 
O Poder Judiciário brasileiro está sobrecarregado de trabalho. Dito isso, precisa de 
uma rotina, de um modelo-padrão, de alguns poucos procedimentos e regras-base para 
trabalhar e dar vazão à enxurrada de demandas. Trazo negócio jurídico processual a admissão 
de calibrar o procedimento voluntariamente. Por um lado, dá uma conformação mais 
democrática ao processo e por outro pode comprometer a eficácia da máquina judiciária, já 
tão precária em sua estrutura. 
Refere Gajardoni (2015, p. 1245) que 
 
uma alteração ou outra do rito-padrão, ou das situações jurídicas e ativas das partes, 
em caráter pontual, até é suportável pelo Poder Judiciário. A contratualização de 
todas as etapas do procedimento e da relação jurídica processual, como regra, não, 
ao menos, até que sejamos capazes de diminuir o volume de demandas que aportam 
diariamente no Poder Judiciário brasileiro. 
 
Em se comparando com o instituto da arbitragem, onde o árbitro é juiz de poucas 
causas, poderá desenvolver seu trabalho de forma particularizada, quase que artesanal. Já o 
juiz estatal atua em milhares de causas. Nesse sentido, complementa Tartuce (2015, p. 113) 
que “no processo judicial há a figura do juiz togado, preso à estrita legalidade, ao contrário 
dos árbitros, com mais liberdade para decidir. Talvez por isso os negócios jurídicos 
processuais não vinguem”. 
Cabe a reflexão de Marcelo Pacheco Machado citado por Gajardoni (2015, p. 
1245) em comentário acerca do Art. 190, do Novo CPC: 
 
Daí o dilema: diminuindo a abrangência do dispositivo, corremos o risco de torná-lo 
inútil, por sua vez, ao ampliá-la, corremos o risco de aumentarmos problemas com a 
lentidão e ineficiência do processo. Isso tudo aliado à grande incerteza que esta 
norma de conteúdo aberto e de extensão tão duvidosa pode gerar do Judiciário. Anos 
gastos debatendo quando é possível e quando não é possível a convenção, enquanto 
a situação de direito material aguarda pacientemente pacificação. Os benefícios são 
muito incertos, os malefícios, certíssimos. 
 
42 
 
No contexto atual, perceptível é a fragilidade da estrutura do Poder Judiciário 
frente a inovações procedimentais com tamanha liberdade. A experiência dirá qual dimensão 
da regra autorizadora de negócios processuais atípicos vai assumir no sistema processual civil 
instaurado pelo Código de Processo Civil de 2015. 
43 
 
5 CONCLUSÃO 
 
Visando a alcançar a compreensão do autorregramento da vontade, a pesquisa 
passou por breves considerações acerca da autonomia da vontade, objetivando esclarecer os 
diferentes delineamentos que a vontade assumiu em distintos momentos da produção jurídica. 
O ordenamento jurídico cedeu espaço ao autorregramento da vontade concedendo aos 
jurisdicionados possibilidade para que regulem seus próprios interesses, dentro de limites 
previamente por aquele fixados. 
Torna-se imprescindível compreender a interdependência estabelecida entre o 
interesse público e o interesse privado, dado que o primeiro apenas se legitima se coincidir, 
em alguma medida, com as pluralidades do segundo. No âmbito do processo, esse equilíbrio 
entre público e privado se efetiva pela adoção de um modelo cooperativo, onde todos os 
sujeitos processuais colaboram para a solução da lide, atuando com paridades de armas e 
oportunidades, de forma equitativa influenciando a decisão. 
Em que pese admitido o potencial oferecido pela cláusula geral de negociação 
processual, sua textura aberta, conduz ao reconhecimento do importante papel a ser 
desempenhado pelo magistrado quando da aplicação in concreto dos negócios processuais. 
A atuação do magistrado no que concerne aos negócios jurídicos processuais se 
restringe, contudo, ao plano da validade, na medida em que ele efetua o controle dos 
requisitos previstos pelo sistema jurídico para que o negócio adentre esse plano. Essa 
incumbência, contudo, não é simples de forma alguma, mormente quando considerada a 
complexidade imprimida pela natureza mista do instituto, a comportar disciplina civil, 
processual e, principalmente, constitucional. Sem levar em consideração, ainda assim, da 
sobrecarga de trabalho do sistema judiciária atual. 
Com o negócio jurídico processual, as partes poderiam convencionar diversas 
matérias, fazendo com que o processo judicial ficasse mais adequado para determinada 
demanda. Contudo, superado mais de um ano da implementação da novidade, o meu ânimo 
inicial com o novo instituo acabou não se verificando na prática. Parece que depois que o 
litígio se instala a razoabilidade das partes é perdida e não se consegue avançar em discussões 
de assuntos que seriam benéficos a ambas, sobretudo em audiências onde presentes os 
interessados. Apesar da amplitude de possibilidades de convenções, poucos casos surgiram e 
se limitaram a alterações de prazos e momentos de manifestação no decorrer do processo. 
44 
 
Acredita-se que seja interessante, como sugestão futura, serem realizadas 
pesquisas com um tema que aprofunde acerca do real incentivo e participação dos advogados 
militantes nas negociações jurídicas, trazendo à tona a realidade dos bastidores e as 
dificuldades encontradas para a consecução de maior quantidade de negociações, seja pelo 
lado profissional ou pelas barreiras e dúvidas elencadas pelas partes. 
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