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Apostila Mecanismos de solucao de conflitos

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acolhendo a ideia da adequação, dentro do binômio 
necessidade-utilidade, como forma de racionalizar a prestação jurisdicional e 
evitar a procura desnecessária pelo Poder Judiciário ou mesmo ou abuso do 
direito de ação. 
 
Poderíamos até dizer que se trata de uma interpretação neoconstitucional do 
interesse em agir que adequa essa condição para o regular exercício do direito 
de ação às novas concepções do Estado Democrático de Direito. 
 
Interessante observar que Neil Andrews remete em sua obra ao dever das 
partes de explicar o motivo da recusa em se submeter aos meios alternativos. 
Mas essa é apenas uma das facetas dessa visão. A outra, talvez a mais 
importante, é a consciência do próprio Poder Judiciário de que o cumprimento 
de seu papel constitucional não conduz, obrigatoriamente, à intervenção em 
todo e qualquer conflito. 
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Tal visão pode levar a uma dificuldade de sintonia com o Princípio da 
Indelegabilidade da Jurisdição, na esteira de que o juiz não pode se eximir de 
sua função de julgar, ou seja, se um cidadão bate às portas do Poder Judiciário, 
seu acesso não pode ser negado ou dificultado, na forma do Artigo 5º, inciso 
XXXV, da Carta de 1988. 
 
O juiz e os processos de solução de conflitos 
O que deve ser esclarecido é que o fato de um jurisdicionado solicitar a 
prestação estatal não significa que o Poder Judiciário deva, sempre e 
necessariamente, ofertar uma resposta de índole impositiva, limitando-se a 
aplicar a lei ao caso concreto. Pode ser que o juiz entenda que aquelas partes 
precisem ser submetidas a uma instância conciliatória, pacificadora, antes de 
uma decisão técnica. 
 
E isso fica muito claro no novo CPC, na medida em que o Artigo 139 confere 
uma série de poderes ao juiz, sobretudo no que se refere à direção do 
processo, mencionando expressamente a adequação e a flexibilização mitigada 
como instrumentos para se alcançar a efetividade. 
 
Nesse passo, é evidente que a maior preocupação do juiz será com a efetiva 
pacificação daquele litígio, e não apenas com a prolação de uma sentença, 
como forma de resposta técnico-jurídica à provocação do jurisdicionado. 
 
Se o novo CPC exige do juiz uma fidelidade absoluta aos princípios 
constitucionais, convertendo-se, de forma inquestionável, num agente 
preservador das garantias constitucionais, por outro lado, outorga-lhe 
instrumentos para que possa conhecer o conflito a fundo, compreendendo suas 
razões, ainda que metajurídicas, a fim de promover a sua pacificação. 
 
 
Atenção 
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 Nesse sentido, é preciso forjar um sistema equilibrado entre a 
mediação judicial e a extrajudicial, de modo a observar de forma 
intransigente a garantia do acesso à justiça e manter um 
Judiciário ágil, rápido e efetivo. Uma vez ajuizada a demanda, 
assim como temos desenvolvido um sistema de filtros para as 
causas repetitivas, temos que pensar também um sistema 
multiportas que se adapte a cada tipo de conflito. 
 
Rede colaborativa 
Outro ponto que me parece vital é a construção de uma rede colaborativa 
envolvendo órgãos do Poder Judiciário e setores da sociedade civil organizada 
que detenha a estrutura necessária para ofertar esse serviço em regime de 
cooperação. Isso se refere a cartórios extrajudiciais, universidades públicas e 
privadas, associações de classe, Defensoria Pública, Ministério Público e 
Advocacia Pública. 
 
Pensar apenas na mediação judicial não resolverá o problema da sobrecarga de 
trabalho, que hoje pesa sobre os ombros dos magistrados. Ao contrário, 
provavelmente causará um novo boom de demandas, assim como ocorreu com 
a edição do CDC em 1990 e com a instituição dos Juizados Especiais Civis, em 
1995. 
 
Diante disso, forçoso reconhecer que, antes de editar nossa futura lei de 
mediação, temos que construir essa rede e deixá-la preparada para o volume 
de demandas que está por vir, sob pena de comprometermos esse instituto 
antes mesmo da sua vigência. 
 
Atividade proposta 
Tendo em vista o conteúdo visto sobre o eventual uso da mediação obrigatória 
no direito brasileiro, aponte as principais desvantagens apontadas pela 
doutrina, bem como os efeitos colaterais que podem daí advir. 
 
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Chave de resposta: Podem ser apresentadas as seguintes considerações: a) 
Eventual problema de inconstitucionalidade, frente ao Artigo 5°, XXXV, da C.F.; 
b) Falta de efetividade diante da dificuldade de conseguir o acordo em alguns 
casos; c) Possível realização de ato simulado apenas para satisfazer a condição 
legal imposta; d) Possível comprometimento da celeridade; e) Aumento do nível 
de litigiosidade diante do uso inadequado dos meios alternativos. 
 
Referências 
ANDREWS, Neil. O Moderno Processo Civil: formas judiciais e alternativas de 
resolução de conflitos na Inglaterra. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009. 
BONAFE-SCHMITT, Jean-Pierre. Os modelos de mediação: modelos latinos e 
anglo-saxões de mediação. Meritum – Revista de Direito da Universidade 
FUMEC, Belo Horizonte, vol. 7, n. 2, jul./dez. 2012, p. 181/228. 
COSTA E SILVA, Paula. A nova face da justiça: os meios extrajudiciais de 
resolução de controvérsias. Lisboa: Coimbra Editora, 2009. 
GABBAY, Daniela Monteiro. Mediação & Judiciário no Brasil e nos Estados 
Unidos: condições, desafios e limites para a institucionalização da mediação no 
Judiciário. Brasília: Gazeta Jurídica, 2013. 
HILL, FLAVIA. A nova lei de mediação italiana. Revista Eletrônica de Direito 
Processual, vol. VI, p. 294-321. 
PAUMGARTTEN, Michele Pedrosa; PINHO, Humberto Dalla Bernardina de. A 
Experiência Italo-Brasileira no uso da mediação em resposta à crise do 
monopólio estatal de solução de conflitos e a garantia do acesso à justiça. 
Revista Eletrônica de Direito Processual, vol. 8, 2011, p. 443-471. 
Disponível em: http://www.redp.com.br. 
PAUMGARTTEN, Michele Pedrosa; PINHO, Humberto Dalla Bernardina de. 
Mediación Obligatoria: una versión moderna del autoritarismo procesal. 
Revista Eletrônica de Direito Processual, vol. 10, p. 210-225, 2012. 
Disponível em: http://www.redp.com.br. 
PAUMGARTTEN, Michele. O futuro da mediação na Itália após a decisão da 
Corte Constitucional da República. Revista Eletrônica de Direito 
Processual, vol. XI. Disponível em: http://www.redp.com.br. 
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Exercícios de fixação 
Questão 1 
Tendo em vista a Diretiva n° 52 da Comunidade Europeia e a ideia de 
institucionalizar a mediação nos estados-membros, é correto afirmar que: 
a) A diretiva instituiu a mediação obrigatória em todos os países da 
Comunidade Europeia. 
b) Todos os países devem instituir mecanismos de solução consensual de 
conflitos. 
c) Cada país deve adotar as ferramentas adequadas às suas peculiaridades, 
desde que contemplem a mediação obrigatória para conflitos em matéria 
de pequenas causas. 
d) Os países devem fazer plebiscitos para adotar a mediação obrigatória. 
e) Nos conflitos em matéria patrimonial, entre partes maiores e capazes, 
deve ser, necessariamente, adotada a mediação obrigatória. 
 
Questão 2 
No direito italiano, a mediação obrigatória foi instituída a partir do Decreto 
Legislativo nº 28 (DL nº 28), editado em março de 2010. Ocorre que, em 2012, 
a Suprema Corte daquele país considerou esse mecanismo inconstitucional 
porque: 
a) Ofendia o princípio constitucional do acesso à justiça. 
b) Atenta contra o princípio da inércia jurisdicional. 
c) Continha vício formal. 
d) Dependia de norma regulamentadora