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Síndrome de Insuficiência Cardíaca - Fernando Zanette

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Raciocínio clínico 4ª Fase – Fernando Netto Zanette – Med. UFSC 13.2 
 Síndrome de insuficiência cardíaca 
A insuficiência cardíaca se enquadra como uma síndrome clínica complexa caracterizada por anormalida-
des na função cardíaca e na regulação neuro-humoral, incapacitando o coração de bombear o sangue a um volume 
adequado para as trocas metabólicas teciduais ou fazê-lo apenas por meio de elevadas pressões de enchimento. A 
síndrome clínica usualmente se apresenta acompanhada de intolerância aos esforços, retenção hídrica e dimi-
nuição da expectativa de vida. 
Com o surgimento e desenvolvimento da insufici-
ência, diversas respostas neuro-humorais compensató-
rias se desenvolvem – como a ativação do sistema re-
nina-angiotensina-aldosterona e o aumento da ativi-
dade simpática -, o que, nos estágios iniciais da doença, 
tendem a atenuar as modificações volêmicas da sín-
drome. À medida que a doença se desenvolve, no en-
tanto, ocorre um aumento gradativo da insuficiência, 
com manifestações clínicas características de acordo 
com a disfunção cardíaca, incluindo dispneia aos esfor-
ços, fadiga, letargia, hipotensão, dores musculares aos 
esforços, cianose de extremidades e edema periférico. 
Sintomas às vezes que se dá pouca atenção, mas com im-
portante caráter diagnóstico, são a perda do apetite, a má 
digestão e o emagrecimento progressivo. 
 Classificação 
A insuficiência cardíaca (IC) pode ser classificada, basicamente, de acordo com a forma de aparecimento da 
doença (aguda ou crônica), com o setor cardíaco acometido (direito, esquerdo ou ambos) e com a fração de 
ejeção ventricular (diminuída ou preservada). 
 Insuficiência cardíaca aguda 
Define-se a insuficiência cardíaca aguda como aquela com 
sintomatologia de início súbito (como horas ou dias), perante um 
fator causador de grande gravidade – como um infarto agudo do 
miocárdio (IAM) que lese uma área muito extensa do coração ou 
uma arritmia grave -, o que impede a ação dos mecanismos com-
pensatórios do organismo. A IC aguda pode, ainda, ser nova ou 
devido à piora de uma IC pré-existente (insuficiência cardíaca 
crônica descompensada ou crônica agudizada). Temos como 
exemplo de sintomas de descompensação cardíaca o edema de 
pulmão agudo (ocupação dos alvéolos por líquido) – levando à 
dispneia com tosse produtiva - e o débito cardíaco reduzido, o 
qual pode preceder o choque cardiogênico. 
Desenho representando os achados cardíacos básicos nas insuficiências cardíacas di-
astólica e sistólica, onde temos, respectivamente, um miocárdio pouco flexível na di-
ástole e um miocárdio fracamente contrátil na sístole 
Ilustração de um infarto agudo de miocárdio de grande extensão, compro-
metendo a bomba cardíaca de forma a desencadear uma insuficiência 
cardíaca aguda 
Em relação à insuficiência ventricular direita, por exemplo, podemos ter como cenário o desprendimento de 
um trombo na veia ileofemoral que trafegue até o pulmão. Neste, o coágulo pode levar a uma obstrução de uma 
artéria pulmonar muito calibrosa, desencadeando uma IC direita devido a um tromboembolismo pulmonar. 
Dentre as diversas causas de uma insuficiência cardíaca aguda, podemos destacar miocardites severas, in-
fecções sistêmicas graves, reações alérgicas (choque anafilático) e utilização de determinados medicamentos. 
 A insuficiência cardíaca aguda exige atendimento médico imediato em decorrência do risco de 
morte iminente do paciente. 
 Insuficiência cardíaca crônica 
A insuficiência cardíaca crônica, por sua vez, destaca-se como aquela onde a doença subjacente – como 
hipertensão arterial sistêmica ou um IAM que afete apenas uma pequena porção cardíaca – evolui lentamente, 
permitindo ao organismo o desenvolvimento dos mecanis-
mos neuro-humorais compensatórios. A sintomatologia, 
que varia de um grau mínimo – principalmente na insufici-
ência compensada – a um grau intenso, apresenta um tempo 
longo de manifestação, normalmente de meses ou anos. À 
medida que a insuficiência se avança, os quadros próprios 
de cada setor cardíaco acometido – como edema de mem-
bros inferiores na insuficiência direita ou dispneia aos es-
forços na esquerda – tornam-se frequentes e se intensifi-
cam. 
Explicado a maneira como a doença se instala, aborde-
mos a classificação referente ao setor cardíaco acometido. 
 Insuficiência ventricular esquerda 
Na insuficiência ventricular esquerda, o tipo mais comum, o problema reside em uma falha do ventrículo 
esquerdo, o que o torna incapaz de bombear todo o seu conteúdo para a rede arterial periférica pela aorta. Isso 
resulta não somente em uma hipoperfusão importante dos tecidos do corpo, mas também em uma elevação da 
pressão atrial esquerda, que promove uma estase sanguínea com concomitante CONGESTÃO E HIPERTENSÃO 
PULMONAR. 
Essa congestão se manifesta como um EDEMA PULMONAR (acúmulo de 
líquido anormal no órgão), o que desencadeia o mecanismo de TOSSE, a qual 
pode ser SECA ou PRODUTIVA. A congestão provoca, juntamente a isso, o 
quadro característico de DISPNEIA, cuja intensidade depende da forma de 
aparecimento e da evolução da doença. Caso a insuficiência tenha caráter 
crônico, mas pouco grave, surge uma DISPNEIA AOS ESFORÇOS, que tende a 
evoluir dos grandes para os médios e pequenos esforços, chegando, em um 
caso agravado da síndrome, em desconforto e dispneia ao repouso. Nos es-
tágios iniciais, a dispneia tende a desaparecer logo após o cessar da atividade 
física em questão. Além da dispneia, temos com frequência o sinal de TA-
QUICARDIA (por um mecanismo de compensação da falência do órgão) e a 
presença de uma TERCEIRA BULHA (B3), esta nos casos de INSUFICIÊNCIA 
SISTÓLICA. 
Em relação ao edema pulmonar, quando ocorre um ACÚMULO DE LÍ-
QUIDO APENAS NO INTERSTÍCIO PULMONAR, temos a manifestação de TOSSE 
SECA, ao passo que, com o PREENCHIMENTO ALVEOLAR, manifesta-se a 
Esquematização de um ventrículo esquerdo hipertrofiado após o desenvolvi-
mento dos diversos mecanismos compensatórios ao longo da insuficiência ven-
tricular esquerda crônica 
Principais desdobramentos decorrentes de uma insufi-
ciência ventricular esquerda, salientando sua sintoma-
tologia mais recorrente 
TOSSE PRODUTIVA com EXPECTORAÇÃO ESPUMOSA (devido à presença de ar) e, às vezes, RÓSEA, pela passagem 
de hemácias. 
À medida que a insuficiência progride, a piora do edema pulmonar pode provocar a ORTOPNEIA, uma dis-
pneia em decúbito dorsal que melhora quando o paciente se levanta. Isso tem como causa base o aumento do 
retorno venoso ao coração - proveniente, sobretudo, dos membros inferiores - na posição deitada, que se acumula 
na região torácica. Como o ventrículo esquerdo se apresenta incapaz de bombear esse sangue extra, surge uma 
sobrecarga da circulação pulmonar e se manifesta a ortopneia. Os pacientes acometidos, para evitar ou atenuar 
a situação, tendem a dormir com mais almofadas ou com a cabeceira da cama elevada. Com o agravamento do 
quadro de insuficiência e, logo, da congestão pulmonar, a inclinação ou o número de travesseiros aumenta, alcan-
çado patamares em que o paciente precisa se manter sentado à cama a fim de evitar a dispneia. 
O edema pode ainda evoluir, eventualmente, para um DERRAME PLEURAL – achado mais frequente nas insu-
ficiências biventriculares. O acúmulo gradativo de líquidos, nesse caso, também se responsabiliza em parte pela 
DISPNEIA PAROXÍSTICA NOTURNA – o indivíduo, uma a duas horas após se deitar, acorda por causa de uma dispneia 
de tamanha gravidade que simula a sensação de sufocação -, comum em casos bastante avançados de IC de ven-
trículo esquerdo. Nos casos de descompensação intensa da insuficiência, pode se manifestar, ainda, o padrão 
respiratório de Cheyne-Stokes, 
Juntamente a isso, outros sintomas