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2016 Fundamentos FilosóFicos do direito Profª Ivone Fernandes Morcilo Lixa Copyright © UNIASSELVI 2016 Elaboração: Profª Ivone Fernandes Morcilo Lixa Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: 340.1 Lixa; Ivone Fernandes Morcilo Fundamentos filosóficos do direito/ Ivone Fernandes Morcilo Lixa: UNIASSELVI, 2016. 158 p. : il. ISBN 978-85-515-0003-3 1.Teoria e filosofia. I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. L693f III apresentação Vivemos um tempo alucinado e alucinante! As distâncias são cada vez menores, a comunicação nos une em escala planetária em tempo real, mas paradoxalmente nunca estivemos tão sem esperanças e com medo. Nosso cotidiano é dominado por um crescente medo desenraizado que se alimenta pelo anúncio do fim das grandes utopias. Estamos perto do fim da segunda década do século XXI sem que tenhamos definido os rumos dessa etapa da história vista por alguns como uma autêntica “encruzilhada” que nos obriga a pensar acerca de qual caminho seguir: civilização ou barbárie. Tempos difíceis e inéditos em que saberes são redefinidos, formas de poder são reinventadas, maneiras pouco éticas de controle e de geração de riqueza vão ampliando e aprofundando novas formas de exclusão e perversidades. É nesse cenário que te convidamos a filosofar sobre o direito e a justiça! Talvez você esteja se perguntando: restaria ainda algo a ser repensado e reinventado? Para quê? Por quê? Aceitando o desafio de responder algumas dessas perguntas é que apresentamos este caderno de estudos. Viajando pelo mundo da filosofia iniciamos nossa primeira conversa. Na primeira unidade, vamos ter a oportunidade de compreendermos melhor qual a função da Filosofia e de que maneira a Filosofia pode nos ajudar a compreender melhor os fundamentos e elementos que constituem o Direito Moderno. Na segunda unidade, juntos vamos percorrer a história do pensamento filosófico ocidental buscando individualizar o legado de cada momento para as reflexões acerca do justo e do direito. Finalmente, na terceira unidade, retornamos ao mundo contemporâneo descortinando por sob o véu de nossa ingenuidade a criticidade e os desafios para o jurista brasileiro nos dias atuais. Sem dúvidas é um convite para sairmos do lugar comum, do nosso conforto e aparente segurança. O caminho é difícil, mas necessário, afinal é preciso nos mantermos apaixonados pelo Direito e com esperança para que possamos acreditar na transformação. É isso que nos mantém vivos e nos humaniza. Precisamos amar o saber, e é assim que nasce a Filosofia! Bons Estudos! Profª Ivone Fernandes Morcilo Lixa IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA V VI VII UNIDADE 1 – DIREITO E FILOSOFIA ............................................................................................1 TÓPICO 1 – FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL .........................................................................3 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................3 2 O QUE É E PARA QUE FILOSOFIA? .............................................................................................4 3 FILOSOFIA: UM SABER CIENTÍFICO E METÓDICO .............................................................7 4 A FILOSOFIA NA TRADIÇÃO OCIDENTAL .............................................................................9 4.1 POR QUE ATENAS E EM ATENAS? ..........................................................................................12 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................20 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................21 TÓPICO 2 – FILOSOFIA DO DIREITO ............................................................................................23 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................23 2 A ESPECIFICIDADE DA FILOSOFIA DO DIREITO .................................................................26 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................30 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................31 TÓPICO 3 – O PARADIGMA DOMINANTE DE DIREITO MODERNO E SEUS ELEMENTOS EDIFICADORES ...................................................................................33 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................33 2 O PARADIGMA MODERNO DE LEGALIDADE: FUNDAMENTOS....................................39 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................42 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................43 TÓPICO 4 – ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO POSITIVISMO JURÍDICO CONTEMPORÂNEO E DA SUPREMACIA DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE ..........................................................................................................45 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................45 2 VERTENTE HISTORICISTA DO DIREITO MODERNO..........................................................51 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................54 RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................58AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................59 UNIDADE 2 –A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO ..................................................................................61 TÓPICO 1 – O LEGADO GRECO-ROMANO .................................................................................63 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................63 2 DO MITO AO LOGOS ......................................................................................................................66 3 PLATÃO – FILOSOFIA, POLÍTICA E JUSTIÇA ..........................................................................74 4 ARISTÓTELES: UM ESPÍRITO MODERADO ............................................................................79 5 O HELENISMO ROMANO ..............................................................................................................86 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................89 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................90 sumário VIII TÓPICO 2 – O PENSAMENTO MEDIEVAL ..................................................................................91 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................91 2 A PATRÍSTICA E O PENSAMENTO DE SANTO AGOSTINHO ............................................93 3 A CULTURA JURÍDICA MEDIEVAL .............................................................................................99 4 A HERANÇA CULTURAL PARA A MODERNIDADE ..............................................................101 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................102 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................104 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................105 UNIDADE 3 – FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS ...............................................................................................107 TÓPICO 1 – OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO.....................................................................................109 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................109 2 HANS KELSEN E A PURIFICAÇÃO DO DIREITO ...................................................................111 3 CRISE E CRÍTICA: OS LIMITES DA RACIONALIDADE JURÍDICA MODERNA ...........118 4 A REVISÃO DOS FUNDAMENTOS DO DIREITO NO BRASIL: CRISE E CRÍTICA .......124 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................132 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................133 TÓPICO 2 – DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS ..................................135 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................135 2 A NOVA CONDIÇÃO NO COTIDIANO......................................................................................137 3 PALEOPOSITIVISMOS, JUSCONSTITUCIONALISMOS E RENOVAÇÃO CRÍTICA NO BRASIL .......................................................................................................................137 4 PENSAMENTO CRÍTICO CONSTITUCIONAL: RENOVAÇÃO POLÍTICA, JURÍDICA E FILOSÓFICA ...............................................................................................................142 5 NOVOS MARCOS FILOSÓFICOS DO DIREITO .....................................................................145 CONTEMPORÂNEO ............................................................................................................................145 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................149 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................151 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................152 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................153 1 UNIDADE 1 DIREITO E FILOSOFIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Os objetivos desta unidade são: • definir o que é Filosofia; • compreender o que é Atitude Filosófica; • diferenciar a Atitude Filosófica do mero ato de pensar; • identificar os objetivos da Filosofia; • conceituar Filosofia Jurídica, bem como seus objetivos específicos; • refletir acerca dos elementos históricos, políticos e filosóficos que construíram o Direito Moderno. Esta unidade está dividida em quatro tópicos. Ao final de cada um deles você encontrará atividades que auxiliarão no seu aprendizado. TÓPICO 1 – FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL TÓPICO 2 – FILOSOFIA DO DIREITO TÓPICO 3 – O PARADIGMA DOMINANTE DE DIREITO MODERNO E SEUS ELEMENTOS EDIFICADORES TÓPICO 4 – ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO POSITIVISMO JURÍDICO CONTEMPORÂNEO E DA SUPREMACIA DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL 1 INTRODUÇÃO Às vezes temos a sensação de que vivemos em um mundo que precisamos e queremos compreender, e é por isso que iniciamos nosso estudo com um convite. O mesmo tipo de convite com o qual se inicia o famoso romance filosófico “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder, que já foi traduzido em mais de 50 idiomas. Você já ouviu falar sobre esse livro? É uma interessante estória através da qual uma menina inquieta e curiosa chamada Sofia, nome que (como você verá) não é escolhido por acaso, é conduzida pela história e o mundo dos grandes filósofos. Ela, assim como você, é convidada a “olhar o fundo da cartola do mágico”. Há um trecho interessante no início do livro com o qual você poderá se identificar: Para muitas pessoas, o mundo é tão incompreensível quanto o truque do mágico que tirou um coelhinho de uma cartola que estaria vazia. No caso do coelhinho, sabemos que o mágico apenas nos iludiu. E é justamente porque ele conseguiu nos iludir que queremos descobrir como fez seu truque. Quando nos referimos ao mundo, é um pouco diferente. Sabemos que o mundo não é um truque nem uma ilusão, pois vivemos aqui e fazemos parte dele. No fundo, nós é que somos como o coelhinho que foi tirado da cartola. A diferença entre nós e o coelhinho branco é que ele não sabe que está participando de um número de mágica. Conosco é outra história. Temos consciência de que somos parte de algo misterioso e ansiamos por descobrir como tudo pode ser explicado (GAARDER, 2012, p. 15). DICAS O livro O Mundo de Sofia está disponível na internet em: <file:///C:/Users/ Usuario/Downloads/O%20Mundo%20de%20Sofia%20-%20Jostein%20Gaarder%20(1).pdf>. Leia!!! Será recompensador!! UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 4 Você deve estar se perguntando por que e para que estudar Filosofia, se seu interesse é Direito? Filosofia não é perda de tempo ou coisade gente que “viaja” e vive nas nuvens? É natural que você pense assim, aliás, muitos perguntam para que serve a Filosofia. Estamos habituados a nos preocuparmos com o que nos traga recompensas materiais ou financeiras, afinal, temos apelos todos os dias pela mídia, por exemplo, a sermos utilitaristas e colocarmos nossa felicidade, bem como o sentido de nossa existência, na quantidade de coisas e bens que podemos comprar e acumular. Através da Filosofia aprendemos a conquistar uma felicidade muito particular: descobrir o sentido das coisas e de nossa própria existência para sermos donos de nosso próprio destino. A Filosofia está presente em nosso cotidiano mais do que pensamos e tem influenciado ideias, discursos, ações políticas, conceitos de justiça, por exemplo, sem percebermos que é a Filosofia que nos permite ter a capacidade de escolhermos e valorarmos nosso agir, não apenas individualmente, mas com os demais com quem convivemos. E é isso, afinal, que nos torna civilizados. Iniciamos um estudo particular que nos vai ajudar a compreender que não existe nada “natural” no mundo jurídico. Vamos aprender que, embora sendo difícil, devemos conhecer a origem e a finalidade dos valores que regem o mundo do Direito, para nos tornar menos ingênuos e com mais certezas. 2 O QUE É E PARA QUE FILOSOFIA? Vivemos um cotidiano marcado por discursos e práticas que costumamos rotular de “justas/injustas” ou “certas/erradas”; e não raras vezes nos vemos exigindo “o que nos é de Direito”. O que exatamente estamos colocando em questão? O que é o justo e injusto em um mundo marcado por tão profundas contradições e aparente desesperança? Os últimos anos do século XX testemunharam grandes mudanças em toda a face da Terra. O mundo torna-se unificado – em virtude das novas condições técnicas, bases sólidas para uma ação humana mundializada. Esta, entretanto, impõe-se à maior parte da humanidade como uma globalização perversa. Consideramos, em primeiro lugar, a emergência de uma dupla tirania, a do dinheiro e a da informação, intimamente relacionadas. Ambas, juntas, fornecem as bases do sistema ideológico que legitima as ações mais características da época e, ao mesmo tempo, buscam conformar segundo um novo ethos as relações sociais e interpessoais, influenciando o caráter das pessoas. A competitividade, sugerida pela produção e pelo consumo, é a fonte de novos totalitarismos, mais facilmente aceitos graças à confusão dos espíritos que se instalam. Tem as mesmas origens a produção, na base mesma da vida social, de uma violência estrutural, facilmente visível nas formas de agir dos Estados, das empresas e dos indivíduos. A perversidade sistêmica é um dos seus corolários (SANTOS, 2011, p. 18). TÓPICO 1 | FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL 5 Frases como “isso é uma verdade” já não são ditas com tanta facilidade. As verdades parecem provisórias. É um tempo em que tudo parece se transformar com rapidez alucinante. Mal temos tempo de compreender conceitos, valores, ideias ou comportamentos que repentinamente já são ultrapassados. Como nós, que pensamos o Direito, podemos lidar com esse aparente “pós tudo” sem cairmos na cilada do senso comum, dos dogmas ou das verdades midiáticas criadas todos os dias? NOTA Dogma é uma “verdade a priori” aceita sem questionamentos. O dogmatismo ao longo da história resultou em intolerância e opressão. Em sentido contrário, o pensar crítico é uma postura que visa rever os dogmas e os contextos teóricos, fáticos, ideológicos e culturais que os sustentam e os legitimam. Há uma realidade na qual estamos inseridos que exige uma explicação! Diariamente fazemos escolhas e julgamentos de valores, pois somos movidos por crenças, valores, preconceitos, enfim, um conjunto de idealizações e representações tanto individuais como coletivas que nos permite viver em sociedade. Como diz a filósofa Marilena Chauí (2000, p. 8): Como se pode notar, nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade. No esforço de ir além das “verdades postas” é preciso uma atitude reflexiva metódica, ou seja, é necessário um “distanciamento” da realidade e dos fatos para que possamos interrogar a nós mesmos e aos conceitos que parecem inquestionáveis. Neste momento podemos sentir que nossas certezas são questionadas e tudo parece possível de ser redefinido ou repensado. É desde aí, desta “atitude reflexiva”, que falamos em “Filosofia”. Desde uma atitude que permite discutir o que parece óbvio e natural. Claro que refletir sobre as verdades e a realidade que nos cerca é uma dura escolha. Pode ser que sejamos mais felizes ou mais otimistas com o superficial, afinal, ser inquieto é não se deixar levar tão facilmente. É não aceitar passivamente o que nos é oferecido como “alternativa possível”. Desde a atitude reflexiva descobrimos que não podemos ser felizes a vida toda e todo o tempo. E essa é talvez a tarefa mais urgente de nosso tempo. Enfrentar o medo das incertezas é o grande desafio que se coloca diante de nós quando decidimos assumir uma atitude reflexiva. Devemos ter a coragem de sair do nosso “agradável e confortável” senso comum. “Acontece que tendemos a descobrir algo agradavelmente reconfortante quando ouvimos melodias que sabemos de cor” (BAUMAN, 2008, p. 29). UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 6 Esse distanciamento das “melodias que sabemos de cor”, das verdades cotidianas, a fim de assumirmos uma atitude questionadora de si mesmo e desejar conhecer por que e para que são nossas crenças e sentimentos é que podemos chamar de atitude filosófica. A atitude filosófica é o ato de reflexão questionadora própria do filósofo, daquele que, tendo a consciência de que o saber é sempre provisório e também infinito, renova e reinventa sempre as perguntas que formula. É assumir o risco de viver sem verdades. Para o jusfilósofo brasileiro Miguel Reale (2002, p. 5-6): Filósofo autêntico, e não o mero expositor de sistemas, é, como o verdadeiro cientista, um pesquisador incansável, que procura sempre renovar as perguntas que formula, no sentido de alcançar respostas que sejam ‘condições’ das demais. A filosofia começa com um estado de inquietação e de perplexidade, para culminar numa atitude crítica diante do real e da vida. E é aí que nasce a Filosofia. Um saber metódico e rigoroso que possibilita chegar à raiz das coisas na interminável e incessante busca do sentido do “ser” e universo existencial. • Atitude reflexiva: é o ato de pensar as crenças, verdades e sentimentos de nosso cotidiano de forma profunda e com desejo de conhecer a essência das coisas. • Atitude filosófica: é a reflexão própria dos que não se cansam de admirar as coisas, e são capazes de se distanciar do cotidiano e de si mesmos. • Por que e para que a reflexão filosófica? Para um agir pessoal e social intencional e consciente, sabendo o por que, para que e como são as coisas, crenças e sentimentos em sua essência. • A finalidade da reflexão filosófica é permitir um pensar e crer de forma crítica e livre de preconceitos. • O filósofo é inimigo de fanatismos e dogmatismos. ATENCAO TÓPICO 1 | FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL 7 FIGURA 1 - LE PENSEUR – O PENSADOR FONTE: <https://artelocalizada.wordpress.com/tag/o-pensador/>. Acesso em: 15 ago. 2016. Le Penseur – O Pensador – é uma famosa escultura de 1902 do artista francês Auguste Rodin. Retrata uma difícil e sofrida atitude humana:a de refletir profundamente. A atitude do filósofo! 3 FILOSOFIA: UM SABER CIENTÍFICO E METÓDICO Muitas vezes usamos a palavra “Filosofia” para querer significar muitas coisas, como, por exemplo: “filosofia de vida”, no sentido de uma forma pessoal de agir e pensar; “mera filosofia”, querendo dizer que se trata de especulação, de tão somente uma “teoria” sem fundamento. Mas Filosofia não é mera opinião, é um pensar de maneira sistemática, ou seja, a partir de critérios e métodos. É um trabalho intelectual. Filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou ideias obtidas por procedimentos de demonstração e prova, exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer ‘eu acho que’, mas de poder afirmar ‘eu penso que’. O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas e, em segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de ideias e significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente (CHAUÍ, 2000, p. 13). A origem etimológica da palavra “Filosofia” nos esclarece bem seu sentido: • “Filosofia” é uma palavra grega que resulta da união de dois termos: filos (o que ama, o que gosta) e sofia (saber, sabedoria), portanto, Filosofia é o “amor pela sabedoria”, e o filósofo é o que tem paixão pela verdade que se quer conhecer. • Filosofia é um saber racional, rigoroso e sistemático que se diferencia de religião, ou seja, de convicção pela fé. UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 8 QUADRO 1 - SABERES QUE PERMITEM COMPREENDER E EXPLICAR A REALIDADE Senso comum São informações que nos ajudam a descrever e identificar a realidade que nos cerca, porém, tratam-se de saberes que não resultam de uma sólida base teórica e metodológica. Sua força de convencimento é produto do costume e/ou aceitação cultural. Muitas vezes, se tais conhecimentos são submetidos ao rigor crítico e científico, nem sempre são mantidos ou validados. Religião (Teologia) Trata-se de uma forma de saber que estabelece padrões de conduta e concepções de acordo com a fé em determinados princípios transcendentais. São formas de convencimento ou convicções originárias de crenças – de fé – racionalizadas de forma lógica que deve ser distante de fanatismo cego. Ciência Racionalização de determinadas temáticas através de métodos e técnicas que busca demonstrar a correção de certas prescrições ou proposições. Trata-se de uma elaboração de pensadores europeus como Copérnico, Descartes, Galileu, Newton, dentre outros, dos séculos XVI a XVIII, que acreditam que a realidade pode ser compreendida, explicada e dominada através de metodologias específicas – métodos e técnicas – que possibilitam a sistematização, controle, previsão e disseminação de saberes válidos, demonstráveis e seguros. A ciência tradicional é uma contraposição ao senso comum, misticismo, mitos e superstições. Filosofia Saber reflexivo, racional, metódico e crítico sobre algo. Pode ser aplicada a diferentes campos do conhecimento com a finalidade de questionar, esclarecer e tornar compreensíveis os pressupostos que fundamentam distintas temáticas. É ramificada em vários campos. Assume-se como atitude prévia de problematizar uma determinada questão sob distintas perspectivas, sempre aberta a rever e inovar conceitos e verdades prévias. Entre outras coisas, é a atitude própria daquele que se espanta (estranhamento) com o mundo a seu redor – seu cosmos –, todo o universo existencial. FONTE: A autora Filosofia é um dos saberes humanos que se define por sua especificidade, métodos e objetivos, sendo composta por distintos “saberes”. Ao longo da construção histórica do pensamento filosófico, distintos campos e subdivisões foram sendo definidos. De modo geral, o saber filosófico se estende por campos que colocam questões e problemáticas que as ciências da natureza – tais como matemática, física, biologia e química – não conseguem responder, dizem respeito ao permanente “problema das escolhas”. DICAS Assista à clássica cena do filme “Matrix”. O herói é obrigado a escolher entre permanecer na ignorância ou conhecer a dura realidade. Disponível em: <https://www. youtube.com/watch?v=Bb86zhbBTAU>. Acesso em: jul. 2016. TÓPICO 1 | FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL 9 É sobre os seguintes campos que se estende o saber filosófico: • Ética: do grego “ethos” – bons costumes –, diz respeito a escolhas inevitáveis e inadiáveis quando nos deparamos com condutas e hierarquia de valores que definem os caminhos a serem seguidos e os que devem ser evitados, levando em conta os fins a que se destina a justificativa do próprio agir. A Filosofia Ética tem como objeto de problematização a atitude humana em relação ao coletivo e suas consequências históricas, sociais e políticas. Em outras palavras, é um campo filosófico preocupado com o valor do bem e do agir humano que o tem como finalidade última. • Lógica: tem como preocupação as estruturas do pensamento e seus encadeamentos racionais que permitem conhecer o ser humano e seu mundo circundante. Através da lógica se discute se as inferências – deduções, as conclusões obtidas pela relação entre uma coisa e outra – são verdadeiras ou falsas. • Estética: do termo grego aisthetiké, significa “aquele que percebe”. É o campo da filosofia que se dedica ao estudo do belo nas manifestações artísticas e naturais; ao sentimento que desperta no indivíduo quando da sua contemplação. • Epistemologia: termo de origem grega, “episteme”, relacionado com a natureza e limites do conhecimento humano. Normalmente definida como “Teoria do Conhecimento” ou “gnosiologia”, que no sentido mais restrito refere-se às condições – metodológicas e técnicas – sob as quais se produz o conhecimento. Como campo filosófico relaciona-se às possibilidades de alcançar a verdade no conhecimento. • Metafísica: do grego “metà” – além de – e “physis” – natureza, física – é um campo filosófico que discute questões para além do agir e conhecer, envolvendo discussão acerca da natureza do que se conhece, sobre o que permite indagar acerca da coisa em si. Metafísica indica o permanente esforço para atingir uma causa válida e racional para o sentido da existencialidade humana, que tem como ramo principal a ontologia – que investiga sobre as categorias ou essências do ser. 4 A FILOSOFIA NA TRADIÇÃO OCIDENTAL Filosofia, como saber sistemático e rigoroso acerca dos fundamentos últimos das coisas, do “o quê”, “para que”, “porquê”, “como” dos fenômenos que nos cerca e sobre nós mesmos, é um campo do conhecimento que, como conhecido atualmente, surgiu na antiga Grécia há mais de dois mil e quinhentos anos. UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 10 FIGURA 2 - PITÁGORAS DE SAMOS FONTE: <http://www.ahistoria.com.br/pitagoras/>. Acesso em: 15 ago. 2016. Pitágoras de Samos (570-495 a.C.), fi lósofo e fundador da teoria que entendia serem os números, as relações matemáticas, a essência de todas as coisas. A ele se atribui a invenção da palavra Filosofi a para designar a sabedoria, que, apesar de pertencer aos deuses, pode ser desejada pelos homens, pelos fi lósofos. Evidente que não signifi ca que outras culturas e civilizações, como os orientais, africanos e povos latino-americanos, não se dedicaram a refl etir e/ou compreender o mundo ao seu redor. Entretanto, “Filosofi a” com as características que se tornaram modelo na cultura ocidental é resultado da tradiçãogrega. Vejamos um exemplo: Os chineses desenvolveram um pensamento muito profundo sobre a existência de coisas, seres e ações contrárias ou opostas, que formam a realidade. Deram às oposições o nome de dois princípios: Yin e Yang. Yin é o princípio feminino passivo na Natureza, representado pela escuridão, o frio e a umidade; Yang é o princípio masculino ativo na Natureza, representado pela luz, o calor e o seco. Os dois princípios se combinam e formam todas as coisas, que, por isso, são feitas de contrários ou de oposições. O mundo, portanto, é feito da atividade masculina e da passividade feminina (CHAUÍ, 2000, p. 20). A extraordinária genialidade grega para a Filosofi a é o chamado “Milagre Grego”. Claro que essa afi rmação chega a ser exagerada e despreza as demais culturas, chamadas pelos antigos gregos de “bárbaros”. Na verdade, entre fi ns do século VII a.C. e VI a.C., uma soma de fatores contribuiu para a criação, consolidação e expansão da Filosofi a grega. Segundo historiadores do helenismo, a criação de um modo específi co de pensar o mundo dos homens e da natureza se dá através de: • As viagens marítimas – que contribuíram para a desmistifi cação da visão de mundo dominante, uma vez que os mitos já não podiam explicar as origens e diferenças descobertas. • A invenção do calendário – uma nova abstração sobre o tempo na qual os deuses não encontram lugar. • Invenção da moeda – que exige nova forma de raciocinar e relacionar as coisas e os bens. • O surgimento da vida urbana – contribuindo para a formação de uma categoria de sujeitos enriquecidos que coletivamente passaram a pensar e discutir coletivamente, criando uma espécie de espaço público de decisão. TÓPICO 1 | FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL 11 • Invenção do alfabeto – fazendo com que se desenvolva a sofisticação da literatura, arte e capacidade de abstração. • Criação da política – resulta da busca de equilíbrio entre a convivência dos homens e o poder. Entretanto, se em sua origem, na antiguidade grega, significou uma forma possível de humanização, momentos da trajetória histórica conferiram-lhe um sentido inverso. O nascimento da reflexão política resultou das condições específicas do modo de vida grego ateniense: a existência da pólis – Cidade-Estado – e o logos – racionalização do mundo circundante; ambas constituindo distintas dimensões da liberdade e pluralidade humana. FIGURA 3 - MUNDO HELÊNICO – CIVILIZAÇÃO E CULTURA GREGA ANTIGA FONTE: <http://pt.slideshare.net/patriciagrigorio3/a-grcia-antiga-51320286>. Acesso em: 15 ago. 2016. IMPORTANT E Embora não se possa afirmar que foram os gregos os únicos “filósofos” do mundo antigo, os primeiros nomes históricos da Ciência e da Filosofia são: Tales de Mileto (623 a.C. ou 624 a.C.-546 a.C. ou 548 a.C.), Heráclito de Éfeso (535-475 a.C.), Anaximandro de Mileto (610- 546 a.C.), Xenófanes de Colofon (570-475 a.C.) e Parmênides de Eleia (530-460 a.C.). Por que quando pensamos ou ouvimos falar em Filosofia, imediatamente lembramos da cidade de Atenas? Por que lá houve o florescer de uma magnífica cultura que imortalizou nomes como os dos filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles, os autores trágicos Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, historiadores como Heródoto e Tucídides? UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 12 "A Escola de Atenas" é um afresco de Raffaello (1506-1510), de 5,00m x 7,00m, pintado no Palácio Apostólico, Vaticano. Retrata um grupo de filósofos de várias épocas históricas ao redor de Aristóteles e Platão, ilustrando a continuidade histórica do pensamento filosófico ateniense. Vamos então a um breve estudo histórico que nos permite compreender por que, quando são reunidas algumas condições políticas, sociais, econômicas e culturais, pode ocorrer um “milagre” em uma civilização. FIGURA 4 - A ESCOLA DE ATENAS FONTE: <https://filosofiaefilosofiasnorenascimento.wordpress.com/2013/08/17/delimitando-o- campo-i/>. Acesso em: 15 ago. 2016. 4.1 POR QUE ATENAS E EM ATENAS? De todas as cidades gregas, em nenhuma outra havia tão estreito laço entre o cidadão e a pólis – cidade autônoma/cidade-Estado - como o que existia em Atenas, uma cidade que se afirmou como superior militar, política, cultural e economicamente em relação às demais, culminando com uma dolorosa experiência: A Guerra do Peloponeso (431-401 a.C.). Em meio à derrota surge a necessidade de uma reflexão política interna, o que se tornou fator decisivo para a rápida e surpreendente superação da profunda crise em que aquela sociedade havia mergulhado. Em nenhum outro momento da história o povo ateniense havia se dado conta de que sua maior força estava na cultura. Uma corrente geral arrastava poetas, oradores e, sobretudo, jovens, buscando exaltar o ideal consciente da cultura e da educação grega. A clara consciência do “espírito grego”, que se traduzia como distinção em relação aos demais povos, e a realização da democracia no século anterior, ofereciam maior capacidade de superação aos entraves políticos, sociais e econômicos dos séculos V e IV a.C. Neste momento, o processo histórico rompe com a estabilidade da ordem social até então instituída. Assiste-se um avanço cultural decisivo que criou um fértil terreno para o pensamento político e filosófico. É superado o antigo paradigma cosmológico no qual ao homem cabia apenas aceitar o destino de TÓPICO 1 | FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL 13 nascer, viver e morrer sob a ordem do inevitável e imutável, desaparecendo o sentido de vivência como mágico círculo natural de ordem fora do qual apenas existia o caos. Assim, abre-se o campo para os debates onde é ressaltada a capacidade de pensar como forma de convencimento público, destacando-se pensadores influentes e eloquentes que defendiam valores humanos. Este movimento intelectual crítico das autoridades e das convenções acaba por criar um abismo entre as velhas crenças – preocupadas com o mundo da natureza – e os assuntos da pólis. Os sofistas lideram estes novos debates, auxiliando seus discípulos a obter mais sucesso na vida pública do que na especulação teórica. Sophistes era uma expressão genericamente utilizada para designar pessoas ao mesmo tempo hábeis e sábias, e, por volta de 450 a.C., passou a ser usada para identificar “professores viajantes” que ensinavam por meio de conferências públicas a arte da eloquência e da sabedoria “prática” (areté). Estes intelectuais constituíam uma nova classe de profissionais que, apesar de não partilharem nenhuma escola filosófica, possuíam um traço comum: afastaram definitivamente o pensamento grego das preocupações naturais e centraram-se nos assuntos relativos à conduta humana. Consolida-se uma forma de pensar onde a filosofia passa a ser a fonte primordial de conhecimento e poder. Na medida em que a capacidade de contemplação – adquirida pelo ato de filosofar – confere legitimidade racional ao discurso e à prática política, é rompida a submissão injustificável ao nomos: agora é necessário compreendê-lo racionalmente. Neste cenário é que surge uma figura que será imortalizada como a encarnação de todas as virtudes ideais de um cidadão: Sócrates (469-399 a.C.). Um homem atormentado pela consciência do saber, que carregava o insuportável fardo de conhecer a redenção de uma sociedade decadente e criminosa, não poderia fugir da missão política que deveria cumprir. Sua conhecida escolha pela morte, quando acusado de corromper a juventude e ser um subversivo, representa o conflito político entre o pensador e a pólis. Embora não desejando desempenhar nenhum papel político, queria, acima de tudo, que a filosofia tivesse algum sentido para a cidade. Seu julgamento e morte é antes de mais nada uma atitude humana diante da esfera política. A partir de então, os filósofos se sentiram mais responsáveispela cidade, seus seguidores – destacadamente Platão e Aristóteles – definiram conceitos éticos a fim de conferir validade à ação política. Este foi o ponto de partida para a reflexão política: a racionalização de uma conduta ética como sinônimo de sabedoria e as bases de toda tradição filosófica ocidental. UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 14 DICAS Leia a obra clássica: JAEGER, Werner. Paideia – A Formação do Homem Grego. Tradução de Artur M. Lima. São Paulo: Martins Fontes, 1989. Há uma História da Filosofia? Ao falarmos Filosofia no marco da tradição ocidental, ou seja, das ideias, conceitos, métodos e teorias que se consolidaram e são repetidas no meio acadêmico, o eixo central é, normalmente, a História da Filosofia. Como tradição e mesmo como disciplina universitária, a filosofia ganha profundidade, porque conhece a fundo a sua própria história. As grandes ideias, resenhadas e sistematizadas, impedem que constantemente aquele que trabalha com a filosofia tenha que inventar a roda. Isto é, o conhecimento da história da filosofia facilita a bagagem filosófica na medida em que desnuda a amplitude do conhecimento filosófico e se abre às suas minúcias (MASCARO, 2012, p. 3). Filosofia implica em método de reflexão e pode-se dizer que a cada momento histórico há “uma Filosofia” porque há um método, uma forma específica de sistematização, desafios e questionamentos específicos de cada época e contexto para os quais serão elaboradas respostas a partir da acumulação de saberes filosóficos legados, portanto, historicamente, convencionou-se as seguintes etapas do pensamento filosófico ocidental: • Filosofia Antiga: entre os séculos VI a.C. ao V Refere-se a uma etapa bastante diversificada, envolvendo problemáticas das mais diversas. Pode-se agrupar entre: o pré-socráticos ou cosmológico – período e pensadores que antecederam a Sócrates e interrogavam acerca das questões da natureza, physis, e o princípio organizador, arché, do mundo e da própria natureza; o socrático ou antropológico – entre os séculos V e fins do século IV a.C., representado pelas imortais figuras de Sócrates, Platão e Aristóteles, quando a preocupação da Filosofia desloca-se para o eixo humano, a vida política e moral; bem como a capacidade humana de conhecer a essência e razão das coisas; o helenístico ou greco-romano – de fins do século III a.C. ao II, quando se dá o início da consolidação do pensamento cristão, destacadamente com o pensamento de Santo Agostinho. Nesta etapa, as grandes questões passam a orbitar em torno da busca da virtude individual e da fundamentação da ética cristã. Predominam as doutrinas dos estoicos, epicuristas e os céticos. TÓPICO 1 | FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL 15 • Filosofia Medieval: entre os séculos V ao XIV/XV Etapa histórica em que a Filosofia se torna “serva da Teologia”, uma vez que ocorre uma indissociável relação entre Filosofia e Teologia, mais especificamente, a Teologia Cristã, que nasce e se consolida associada à cultura greco-romana, porém, com forte influência do pensamento aristotélico, sobretudo em Tomás de Aquino, após uma breve aproximação inicial com o platonismo, particularmente em Santo Agostinho. A Filosofia medieval foi edificada por pensadores europeus, árabes e judeus. Naquele momento, a Igreja dominava política e ideologicamente a Europa e se expandia, ao mesmo tempo em que fundava universidades, edificava catedrais e coroava reis. Em síntese, a Igreja Católica Romana era o poder em múltiplas dimensões, tendo como uma das questões filosóficas centrais a prova da existência de Deus e da alma imortal. Há que se destacar que se o pensamento conhecido de Platão e Aristóteles chegou até à Idade Média e, por via de consequência, à Modernidade, os grandes responsáveis foram os árabes, uma vez que não apenas mantiveram magníficas bibliotecas, mas eram estudiosos metódicos dos antigos textos gregos, a exemplo de Avicena (980-1037), que buscou conciliar o pensamento de Platão e Aristóteles, e Averróis (1126-1198), um dos maiores conhecedores de Aristóteles que o mundo já conheceu. Sem dúvida, graças aos árabes foi possível a aproximação entre o materialismo aristotélico e o cristianismo. Dentre a complexa e profunda discussão filosófica levada a cabo pelos medievais, dois momentos costumam ser assinalados: o Patrística – o termo “patrística” vem do latim pater (pai) e se refere aos “pais” da teologia da Igreja, tem seu início durante o período de decadência do Império Romano, durante o século III. As principais questões filosóficas são relacionadas com fé e razão; a natureza de Deus, a alma e a vida moral. A fundamentação será dada pelo platonismo, sobretudo no que se refere à concepção do “suprassensível”, para a justificação do controle racional das paixões, no sentido platônico, renúncia do mundo terreno e o rigor ético. O maior nome é o do Bispo de Hipona, Santo Agostinho (354-430), que desde Platão crê que a verdade é produto da iluminação divina dada por Deus a todo espírito humano. Dentre suas obras destacam-se as que irão ser relevantes para nosso futuro estudo sobre Filosofia do Direito: “As Confissões” (396- 397) e “Cidade de Deus” (411-426) – seu maior escrito sobre ética e política. o Escolástica – período posterior ao século XIII, quando Tomás de Aquino (1225- 1274), a partir das obras de Aristóteles, garante a sobrevivência do cristianismo frente ao avanço do racionalismo que irá marcar os séculos posteriores. Inúmeras são suas obras, dentre as quais destaca-se a “Suma Teológica”, escrita entre os anos de 1265-1273. Desde a metafísica aristotélica são elaboradas as bases racionais e filosóficas para a separação entre fé e razão, harmonizando as distintas e maiores esferas da verdade que podem ser atingidas. UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 16 A Filosofia Medieval, marcada por profundidade e grande vigor teórico, é um período que não pode ser considerado “de trevas”, como erroneamente costuma ser compreendida, ou enfadonhas e inúteis discussões sobre cristianismo, como o “sexo dos anjos” e “umbigo de Adão”. DICAS A popular expressão “discutir sexo dos anjos” tem sua origem em um curioso episódio ocorrido no ano de 1453, durante a tomada de Constantinopla pelos turcos. Narra a história que enquanto o imperador, que acabou morto, resistia junto com os cristãos contra a queda da cidade de Istambul (na época chamada Bizâncio), que estava sendo queimada e incendiada e sua população morta, as autoridades da Igreja mantinham uma acalorada discussão sobre qual seria o sexo dos anjos e se Adão tinha ou não umbigo. A Idade Média foi o momento histórico de elaboração dos pilares da Modernidade. Na etapa medieval, a vida intelectual, política e filosófica atinge novos e altos níveis de sofisticação. Por essa razão afirma Richard Tarnas (2011, p. 244) que “a gestação medieval da cultura europeia atingira um novo limiar, além do qual ela já não se conteria nas antigas estruturas. A maturação de dois mil anos do Ocidente estava a ponto de afirmar-se em uma série de tremendas convulsões culturais que dariam à luz ao mundo moderno”. • Filosofia Moderna: entre os séculos XV/XVI ao XIX O pensamento filosófico moderno possui uma marca: a completa inovação do mundo e do homem. Como resultado de uma soma de fatores, a Modernidade inaugura um inédito estágio civilizatório de múltiplas e complexas faces. Dentre os fatores que se entrelaçam, o Renascimento, a Reforma e a Revolução Científica serão os propulsores de uma nova lógica de vida e, como veremos, de Direito. As transformações mais do que nunca são aceleradas e alucinantes: o “mundo” se expande para além da Europa, a visão unitária de cristianismo e de verdade é rompida pela Reforma Protestante com Calvino e Lutero; o conceito de conhecimento passa a ser definidopela Ciência por pensadores como Leonardo da Vinci, Copérnico, Galileu, Bacon e Kepler; a política passa a ser definitivamente assunto humano e científico com Bodin e Maquiavel; a arte renasce com Miguel Ângelo, Rafael, El Greco e outros. Enfim, Modernidade torna-se sinônimo de permanente mudança. Definitivamente o homem torna-se dono de seu destino e de suas escolhas políticas, é livre para se autodeterminar. Afinal, o homem é o “centro” do universo existencial. TÓPICO 1 | FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL 17 FIGURA 5 - HOMEM VITRUVIANO Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci é uma obra de 1490 baseada em um trabalho do arquiteto Vitrúvio e quer significar as proporções perfeitas de um ideal de ser humano. É uma figura repleta de simbolismos, demonstrando a relação do homem com o universo. FONTE: <http://www.sitedecuriosidades.com/curiosidade/o-que-e-o-homem-vitruviano-de-da- vinci.html>. Acesso em: 15 ago. 2016. O pensamento moderno possui duas faces indissociáveis: o Racionalismo e o Iluminismo. O Racionalismo moderno é fundado na inabalável crença na autonomia e autoconsciência do ser humano em si, muito menos dependente de um Deus onipotente e onipresente. A fé na razão humana triunfa sobre as religiões, as antigas autoridades e a Ciência como uma nova forma de redenção, e conduz o homem a um novo olhar para a realidade objetiva verificável, quantificável e comprovável. A busca pela verdade era agora conduzida na base da cooperação internacional, no espírito de curiosidade disciplinada, com o desejo mesmo de transcender cada vez mais os limites do conhecimento. Oferecendo uma nova possibilidade de certeza epistemológica e consenso objetivo, novos poderes de previsão experimental, invenção técnica e controle da Natureza, a Ciência apresentava-se como a graça salvadora da cultura moderna (TARNAS, 2011, p. 305). Munido de uma nova racionalidade, independente dos dogmas da Igreja e das gloriosas e eternas ideias greco-romanas, agora havia condições que estabeleciam um novo modelo civilizatório, novas formas de ordem política alicerçadas nos direitos racionalmente definidos em contratos sociais mais benéficos, que iriam servir de linha divisória entre o estado de natureza selvagem e bárbaro e a sociedade civil. Lembre-se de que a era moderna é a era das Revoluções Burguesas, que fundaram uma nova forma de poder: os Estados Liberais. ATENCAO UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 18 Outra face do pensamento moderno é o Iluminismo (Aufklãrung em alemão, que pode ser traduzido como Esclarecimento, ou Lumières, Luzes, no dizer francês). Para os iluministas, todo desconhecido pelo estado de ignorância pode ser conhecido, “iluminado” pela razão humana. Pensadores iluministas como Locke, Leibniz, Spinoza, Bayle, Voltaire, Montesquieu, Diderot, Hume, Adam Smith, Kant, dentre muitos outros mais, fundaram uma nova visão de mundo. FIGURA 6 - REPRESENTAÇÃO DA LIBERDADE A Liberdade Guiando o Povo – Le liberte guidant le peuple –, pintura de Eugène Delacroix de 1830, é um dos grandes símbolos da civilização moderna e representa a liberdade empunhando a bandeira da Revolução Francesa triunfando sobre os mortos. FONTE: <http://noticias.universia.com.br/destaque/noticia/2012/01/06/903132/conheca- liberdade-guiando-povo-eugne-delacroix.html>. Acesso em: 15 ago. 2016. • Filosofia Contemporânea: da metade do século XIX até os dias atuais É muito difícil definir com clareza o período histórico em que se vive. São muitas as correntes filosóficas com variadas percepções de mundo, entretanto, algo têm em comum: o desencanto com a razão e a descrença na ciência. Estamos em uma etapa em que “tudo parece desmanchar-se no ar”. Tempos líquidos, no entender de Bauman (2008, p. 38), ao que parece “[...] não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos [...]”. As categorias filosóficas passaram a desconfiar do otimismo técnico e científico do século XIX, afinal, as guerras mundiais desnudaram a crueldade que pode ser produzida pelo conhecimento científico. Desde aí, por exemplo, a Escola de Frankfurt, formada por um grupo de intelectuais fundadores da Teoria Crítica, fez a distinção entre razão instrumental e razão crítica. A razão instrumental, a técnico-científica, não foi capaz de promover a libertação e emancipação humanas, ao contrário, tornou-se instrumento de opressão e extermínio. Como contraposição à razão crítica, desde uma revisão da razão instrumental, propõe uma forma de conhecimento libertador e emancipatório. As utopias modernas foram destroçadas pelas experiências totalitárias do fascismo, nazismo e stalinismo. Instalou-se um desencanto com os discursos e ideais legados da modernidade. Desgraçadamente descobrimos que não somos iguais, tampouco livres e muito menos fraternos. A universalidade e hegemonia TÓPICO 1 | FILOSOFIA: UM ESTUDO INICIAL 19 da civilização eurocêntrica já não pode ser mais defendida. São tempos de relativismos e saberes provisórios. Estaríamos no fim da Filosofia? No fim da história? Se para alguns a Modernidade acabou, para outros, como Jürgen Habermas, é um projeto inacabado (HABERMAS, 2013). Em discurso proferido em setembro de 1980 em Frankfurt, Habermas denuncia que as promessas do Iluminismo não se cumpriram e ainda seria possível, apesar das patologias e males vividos na Modernidade, melhorar a condição humana, e, assim, não teria sentido o discurso pós-moderno. Talvez o que ainda nos restaria seria o luto pelo fracasso de um projeto civilizatório. FIGURA 7 - RETRATO DO HORROR Guernica – de Pablo Picasso, obra produzida em 1937, atualmente no Museu Rainha Sofia (Madri-ES). Retrata o horror do bombardeio alemão sobre a cidade espanhola de Guernica com o aval do ditador Francisco Franco. FONTE: <http://www.museoreinasofia.es/en/collection/artwork/guernica>. Acesso em: 15 ago. 2016. Desde os centros tradicionais da Filosofia se anuncia a pós-modernidade. A entrada para o século XXI não foi tão triunfal como se esperava. Desde as três últimas décadas do século XX, as lutas contra os regimes ditatoriais, os movimentos sociais, a luta pela afirmação de direitos humanos, a perversa miséria e exclusão produzida pela globalização neoliberal, fizeram ressurgir a aproximação entre a Filosofia, Ética, Política e Ideologia. DICAS Mais adiante retomaremos alguns dos pensadores modernos e pré-modernos para melhor compreendermos o próprio Direito e seus fundamentos filosóficos modernos. Para melhor aprofundar esse momento de estudo, sugere-se a leitura do livro: “Convite à Filosofia”, de Marilena Chauí, disponível em: <http://www.filosofia.seed.pr.gov.br/arquivos/ File/classicos_da_filosofia/convite.pdf>, especialmente o Capítulo I. 20 Neste tópico, você viu: • Os elementos essenciais que irão servir de referência permanente em nossos estudos. • O sentido e especificidade do estudo da Filosofia. • A Filosofia como saber prévio e necessário a qualquer campo do conhecimento. • A origem do pensamento filosófico na tradição do pensamento ocidental. • O processo histórico de construção da Filosofia ocidental. • Os desafios da reflexão filosófica no mundo contemporâneo. RESUMO DO TÓPICO 1 21 Considere o texto a seguir: Uma definição precisa do termo “filosofia” é impraticável. Tentar formulá-la poderia, ao menos de início, gerar equívocos. Com alguma espirituosidade, alguém poderia defini-la como “tudo e nada, tudo ou nada...”. Melhor dizendo, a filosofia difere das ciências especiais na medida em que procura oferecer uma imagem do pensamento humano – ou mesmo da realidade, até onde se admite que isso possa ser feito – como um todo. Contudo, na prática, o conteúdo de informação real que a filosofia acrescenta às ciências especiais tende a desvanecer-se atéparecer não deixar vestígios. Acreditamos que esse desvanecimento seja enganoso, mas devemos admitir que até aqui a filosofia não tem conseguido realizar suas grandes pretensões. Tampouco tem logrado êxito em produzir um corpo de conhecimentos consensual comparável ao elaborado pelas diversas ciências. Isso se deve, em parte, embora não integralmente, ao fato de que, quando obtemos conhecimento verdadeiro a respeito de determinada questão situamos essa questão como pertencente à ciência e não à filosofia. O termo “filósofo” significava originariamente “amante da sabedoria”, tendo surgido com a famosa réplica de Pitágoras aos que o chamavam de “sábio”. Insistia Pitágoras em que sua sabedoria consistia unicamente em reconhecer sua ignorância, não devendo, portanto, ser chamado de “sábio”, mas apenas de “amante da sabedoria”. Nessa acepção, “sabedoria” não se restringia a qualquer dos domínios particulares do pensamento e, de modo similar, “filosofia” era usualmente entendida como incluindo o que hoje denominamos “ciência”. Esse uso sobrevive ainda hoje em expressões como “filosofia natural”. Na medida em que uma grande produção de conhecimento especializado em um dado campo ia sendo conquistada, o estudo desse campo se desprendia da filosofia, passando a constituir uma disciplina independente. As últimas ciências que assim evoluíram foram a psicologia e a sociologia. Dessa forma, poderíamos falar de uma tendência à contração da esfera da filosofia na própria medida em que o conhecimento se expande. Recusamo- nos a considerar filosóficas as questões cujas respostas podem ser dadas empiricamente. Não desejamos com isso sugerir que a filosofia poderá acabar sendo reduzida ao nada. Os conceitos fundamentais das ciências, da figuração geral da experiência humana e da realidade (na medida em que formamos crenças justificadas a seu respeito) permanecem no âmbito da filosofia, visto que, por sua própria natureza, não podem ser determinados pelos métodos das ciências especiais. É sem dúvida desencorajador que os filósofos não tenham logrado maior concordância com respeito a esses assuntos, mas não devemos concluir que a inexistência de um resultado por todos reconhecido signifique que esforços foram realizados em vão. Dois filósofos que discordem entre si podem estar contribuindo com algo de inestimável valor, embora ambos não estejam em condição de escapar totalmente ao erro: suas abordagens rivais AUTOATIVIDADE 22 podem ser consideradas mutuamente complementares. O fato de filósofos distintos necessitarem dessa mútua complementação torna evidente que o ato de filosofar não é unicamente um processo individual, mas também um processo que possui uma contrapartida social. Um dos casos em que a divisão do trabalho filosófico se torna bastante proveitosa consiste na circunstância de que pessoas distintas usualmente enfatizam aspectos diferentes de uma mesma questão. Contudo, boa parte da filosofia volta-se mais para o modo pelo qual conhecemos as coisas do que propriamente para as coisas que conhecemos, sendo essa uma segunda razão pela qual a filosofia parece carecer de conteúdo. No entanto, discussões a respeito de um critério definitivo de verdade podem determinar, na medida em que recomendam a aplicação de um dado critério, quais as proposições que na prática deliberamos serem verdadeiras. As discussões filosóficas da teoria do conhecimento têm exercido, ainda que de modo indireto, importante efeito sobre as ciências. FONTE: <http://filosofia.paginas.ufsc.br/files/2013/04/O-que-%C3%A9-Filosofia-e-por-que-vale- a-pena-estud%C3%A1-la.pdf>. Acesso em: 15 ago. 2016. Após a leitura e reflexão sobre o texto acima responda a seguinte questão: Por que a não concordância dos filósofos sobre determinada problemática é considerado um ganho? As discussões filosóficas não devem conduzir a uma verdade? 23 TÓPICO 2 FILOSOFIA DO DIREITO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Vamos retomar o mesmo questionamento inicial: por que e para que o estudo da Filosofia para quem deseja ser um jurista? Qual a relação entre Direito e Filosofia? Como já vimos, a atitude reflexiva, ação ou processo através do qual a pergunta retorna ao sujeito que pergunta, resulta da permanente inquietação frente ao que nos rodeia, e este é o ponto de partida para a Filosofia. Também já sabemos que a problematização das questões mais radicais, no sentido daquelas que estão “na raiz”, nos coloca diante de um universo infinito de desafios e novos questionamentos que, de início, sequer imaginávamos serem relevantes. Diante da tentativa de estabelecer a relação entre Direito e Filosofia, inúmeras são as dificuldades e “caminhos” que se colocam, porém, decidindo pela escolha mais elementar, neste primeiro momento propomos definir o que é Filosofia do Direito. Como conhecimento sistematizado e rigoroso, a Filosofia é o estudo preliminar de inúmeras áreas do saber, particularmente das Ciências Sociais e Humanas. Como você já deve saber, há uma diferença nas áreas do conhecimento definida em função de seu objeto e métodos. Sem querer entrar na mesma discussão que tomou conta do debate científico dos séculos XVIII e XIX acerca do conceito de Ciência e seus distintos campos, o campo do Direito é um campo de estudo social e valorativo, uma vez que lidamos com conceitos como deveres, obrigações, justo e injusto etc. Para iniciarmos uma aproximação com a Filosofia do Direito, podemos afirmar que Direito é um saber específico, ao mesmo tempo uma ciência normativa e aplicada que se aproxima de muitos outros conhecimentos relacionados à ação humana e aos valores que a regem. UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 24 NOTA “Ciência” é um termo de origem latina “scientia”, que significa conhecimento ou saber. De forma bastante simples, se pode afirmar que atualmente se entende por Ciência todo o conhecimento produzido através da sistematização metodológica acerca de um determinado objeto com base em determinados pressupostos ou princípios. Ciência comporta vários conjuntos de saberes elaborados a partir de teorias que respondem de maneira eficiente a um determinado problema. Por esta razão, “espírito investigativo” é sempre problematizador e aberto ao “novo”. De acordo com o objeto são definidos campos distintos do conhecimento, dentre os quais as Ciências Sociais e Humanas, que estudam o comportamento e as relações humanas. Nelas se incluem áreas como a Antropologia, o Direito, a História, a Psicologia, a Sociologia, a Filosofia Social, a Economia Social, a Política Social, o Direito Social. Já as Ciências Naturais são ciências que descrevem, ordenam e comparam os fenômenos que independem das relações humanas, como, por exemplo, as ciências exatas (como a Física e a Química) e as geociências (Biologia, incluindo a Microbiologia e a Paleontologia, Geografia, Geologia, Cristalografia etc.). FIGURA 8 – OBSERVAÇÃO CIENTÍFICA Gravura de Maurits Cornelis Escher (1898- 1972) que nos sugere o que é a observação científica: um olhar para o “mistério” do mundo e de nós mesmos. FONTE: <http://www.mcescher.com/gallery/italian-period/hand-with-reflecting-sphere/>. Acesso em: 15 ago. 2016. Por sua particularidade, o Direito possui distintas dimensões, dentre as quais a dogmática jurídica, definida como premissas ou pressupostos válidos, segundo os valores, finalidades e princípios do Direito, cuja finalidade é a de orientar uma decisão de forma a limitar a discricionariedade – poder de escolha – do órgão julgador. A dogmática jurídica preocupa-se com possibilitar uma decisão e orientar a ação, estando ligada a conceitos fixados, ou seja, partindo de premissas estabelecidas. Essas premissas ou dogmas estabelecidos TÓPICO 2 | FILOSOFIA DO DIREITO 25 (emanados da autoridade competente) são, a priori, inquestionáveis. No entanto,conformadas as hipóteses e o rito estatuídos na norma constitucional ou legal incidente, podem ser modificados de tal forma a se ajustarem a uma nova realidade. A dogmática, assim, limita a ação do jurista condicionando sua operação aos preceitos legais estabelecidos na norma jurídica, direcionando a conduta humana a seguir o regulamento posto e por ele se limitar, desaconselhando, sob pena de sanção, o comportamento contra legem, mas não se limita "a copiar e repetir a norma que lhe é imposta, apenas depende da existência prévia desta norma para interpretar sua própria vinculação (ADEODATO, 2002, p. 32). Uma das finalidades da dogmática jurídica é a de possibilitar o que tradicionalmente se define como segurança jurídica, ou seja, garantir um mínimo de previsibilidade das decisões que definem as relações e o comportamento social, porém, dogmática jurídica não deve ser compreendida como conceitos, ideias e concepções estagnadas e imutáveis. É exatamente a dimensão valorativa do Direito que lhe confere permanente dinâmica, e aqui podemos visualizar uma outra face do saber jurídico: a Zetética. Zetética do Direito tem como característica ser especulativa e problematizadora acerca da Dogmática Jurídica (COELHO, 1991). É o campo do Direito de discussão acerca dos fundamentos e justificativas dos conceitos com os quais operamos o Direito, rompendo com as verdades postas, especulando acerca do que é e não do que deve ser de direito. ESTUDOS FU TUROS Na última unidade iremos aprofundar o estudo acerca da Teoria Crítica do Direito e discutir as distintas correntes e proposições. Não é difícil perceber que no Direito, embora este possua conceitos técnicos operacionais dados, por exemplo, pela norma jurídica, há uma permanente mutabilidade e problematização dos parâmetros mais duradouros e institucionalizados do saber jurídico a fim de que o Direito cumpra sua função social, que é a de dar uma solução adequada a interesses e necessidades sociais de acordo com a dinâmica que rege a vida social. Para tanto é necessário um comportamento crítico e atualizador por parte dos juristas, em outras palavras, uma atitude filosófica. A Filosofia do Direito é um dos instrumentos através dos quais é possível a abstração crítica dos conceitos e pressupostos jurídicos que constroem e legitimam as práticas jurídicas e os discursos jurídicos, funcionando como espaço privilegiado para, de forma livre, refletir radicalmente. UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 26 Para pensadores clássicos do Direito, como Giorgio Del Vecchio, o Direito ultrapassa o limite de sua logicidade interna, uma vez que é produto da natureza humana, fazendo com que exista a necessidade de alargar e aprofundar a dimensão do fenômeno jurídico de forma a permitir compreender as contingências sob as quais se construiu uma lei ou um costume; e esse fundamento não pode ser investigado pela ciência jurídica stricto sensu, ou seja, em sua dimensão técnica normativa. Esta investigação define o campo da Filosofia do Direito: “disciplina que define o Direito na sua universalidade lógica, investiga os fundamentos e os caracteres gerais do seu desenvolvimento histórico, avalia-o segundo o ideal de justiça traçado pela razão pura” (DEL VECCHIO, 1979, p. 306). Como veremos, ao longo da história a Filosofia do Direito se tornou um saber autônomo, independente da Filosofia, uma vez que possui particularidades, objeto específico e objetivo diferenciado. Agora já estamos preparados para conversar sobre Filosofia do Direito e assim “retirar a venda dos olhos”. FIGURA 9 – A JUSTIÇA É CEGA FONTE: <http://chebolas.blogspot.com.br/2013/05/blog-post_4012.html>. Acesso em: 15 ago. 2016. A charge acima faz menção à tradicional figura da deusa Themis, que na mitologia grega era a guardiã dos juramentos dos homens e das leis. Era representada empunhando a balança – com a qual equilibra seu raciocínio para julgar – e a espada – que é a força necessária para ser obedecida. Sua imparcialidade e cegueira não devem ser entendidas literalmente, uma vez que necessita estar de “olhos abertos” às injustiças e formas de dominação entre os homens. 2 A ESPECIFICIDADE DA FILOSOFIA DO DIREITO Já tendo compreendido a relação entre Direito e Filosofia, passamos agora a uma aproximação maior com nosso objeto principal: a Filosofia do Direito. O TÓPICO 2 | FILOSOFIA DO DIREITO 27 ponto de partida para a compreensão de um campo do saber é a definição de suas características nucleares, quais sejam: seu objeto, métodos e finalidades e/ou funções. Tendo a Filosofia como preocupação a problematização acerca da essência das coisas, a questão do “ser”, ao voltarmos nosso olhar como filósofos para o Direito, nosso objeto particular é o Direito que, de acordo com o “olhar” metodológico, comporta distintas definições. Direito é um termo “vazio”, sob o ponto de vista do rigor científico, ou seja, exige previamente uma definição, e exatamente esse tem sido o grande desafio dos juristas ao longo da história do pensamento jurídico. Direito não é um termo uníssono, não possui uma única definição, e buscar defini-lo é uma das tarefas mais desafiadoras da Filosofia do Direito. E ainda, depende daquele que o define segundo os parâmetros que adote, das relações que são estabelecidas com os demais campos da Filosofia, como Ética e Moral ou com a Ideologia. Para Marilena Chauí (2000), a ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo (representações) e prático (normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes, a partir das divisões na esfera da produção. Pelo contrário, a função da ideologia é a de apagar as diferenças, como de classes, e de fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, encontrando certos referenciais identificadores de todos e para todos, como, por exemplo, a Humanidade, a Liberdade, a Igualdade, a Nação, ou o Estado. Definir “o que é Direito” para delimitar o objeto da Filosofia do Direito não é uma tarefa simples e fácil e, dependendo da corrente teórica adotada, pode- se chegar a conceitos diversos. Nós mesmos, em nosso cotidiano, usamos a palavra “Direito” com sentidos bem distintos. Quer tentar verificar? Ótimo!!! Então considere as seguintes frases: • “No Direito brasileiro não há pena de morte para crimes comuns”. • “Tenho o direito a professar uma crença religiosa”. • “O Direito é uma ciência social aplicada”. UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA 28 Na primeira frase a palavra “Direito” é usada para referir-se ao sistema normativo – conjunto de normas jurídicas hierarquicamente sistematizadas e legitimadas pelo Estado – que de forma geral rotulamos de “Direito Objetivo”, ou de “Direito Positivo”. Na segunda, usada como “Direito Subjetivo”, como “permissão”, “exercício de liberdade” ou “ faculdade”. Já na terceira, como estudo ou campo do conhecimento, um saber sistemático acerca do Direito Objetivo e do Subjetivo. Como você pôde perceber, não é possível usar a palavra “Direito” sem que se dê a ela uma atribuição, uma vez que há uma autêntica constelação de visões – que mais adiante chamaremos de “cosmovisões” – acerca do Direito, porém, apesar de se poder reconhecer a imprecisão do termo Direito, tanto na linguagem comum como na diversidadedos pensadores jurídicos, devemos nos esforçar para diminuirmos essa vagueza, uma vez que nos cabe determinar pressupostos e fundamentos que nos afastem do senso comum e das imprecisões. Para Miguel Reale (2002, p. 304), a diferença entre Ciência do Direito e Filosofia do Direito é muito evidente, ou seja: • Ciência do Direito, ou Jurisprudência, caracteriza-se como estudo sistemático de preceitos já dados, postos diante do intérprete (administrador, advogado ou juiz) como algo que ele deve apreender ou reproduzir em suas significações práticas, a fim de determinar o âmbito da conduta lícita ou as consequências resultantes da violação das normas reveladas ou reconhecidas pelo Estado. • Filosofia do Direito, ao contrário, em lugar de ir das normas jurídicas às suas consequências, volve à fonte primordial de onde aqueles ditames de ação necessariamente emanam, ou seja, não observa a experiência jurídica, como um dado ou um objeto externo, mas sim in interiore hominis. Na visão do jusfilósofo brasileiro, a Filosofia do Direito vai além do Direito posto pelo poder político, pelo Estado, e do problema de buscar no sistema a resposta jurídica ao caso concreto, mas vai às origens e finalidades da própria norma jurídica, isto porque, explica Reale (2002), o Direito “não é uma coisa”, mas carrega em si as relações sociais. O Direito não se limita à experiência prática. Carrega em si vivências sociais, uma trama de relações de poder, e por essa responsabilidade e compromisso social o jurista deve ter uma preocupação prévia a toda experiência jurídica: por que e para que a norma jurídica? Portanto, não há de se confundir prática científica ou procedimental do Direito com a Filosofia do Direito. A Filosofia do Direito é um saber crítico a respeito das construções jurídicas erigidas pela Ciência do Direito e pela própria práxis do Direito. Mais que isso, é sua tarefa buscar os fundamentos do Direito, seja para cientificar-se de sua natureza, seja para criticar o assento sobre o qual se fundam as estruturas do raciocínio jurídico. Provocando, por vezes, fissuras no edifício que por sobre as mesmas se ergue (BITTAR; ALMEIDA, 2001, p. 43). TÓPICO 2 | FILOSOFIA DO DIREITO 29 A atitude filosófica no Direito é um permanente estado de vigilância e atenção às práticas jurídicas e judiciais, à inovação legal, à finalidade das normas jurídicas, é, enfim, uma atitude própria daquele que está permanentemente inquieto com o mundo ao seu redor, e é esse modo de ser que distingue os jusfilósofos dos demais pensadores do Direito: a capacidade e sensibilidade de se admirar com as coisas e com mundo que nos cerca. Independente das concepções teóricas e pressupostos, Bittar e Almeida (2001) delimitam as seguintes tarefas e objetivos da Filosofia do Direito: • Proceder à crítica das práticas, das atitudes e atividades dos operadores do direito. • Avaliar e questionar a atividade legiferante, bem como oferecer suporte reflexivo ao legislador. • Proceder à avaliação do papel desempenhado pela ciência jurídica e o próprio comportamento do jurista ante ela. • Investigar as causas da desestruturação, do enfraquecimento ou da ruína de um sistema jurídico. • Depurar a linguagem jurídica, os conceitos filosóficos e científicos do Direito. • Investigar a eficácia dos institutos jurídicos, sua atuação social e seu compromisso com as questões sociais, seja no que tange a indivíduos, a grupos, a coletividades, a preocupações humanas universais. • Esclarecer e definir a teleologia do Direito, seu aspecto valorativo e suas relações com a sociedade e os anseios culturais. • Resgatar origens e valores fundantes dos processos e institutos jurídicos. • Por meio da crítica conceitual institucional, valorativa, política e procedimental, auxiliando o juiz no processo decisório. Em síntese: Enquanto a Ciência do Direito define conceitos e proposições operacionais limitadas às verdades provisórias e limitadas a uma determinada concepção acerca do Direito, a Filosofia do Direito problematiza os fundamentos, das causas últimas e finalidades do Direito. ESTUDOS FU TUROS A questão que a seguir buscaremos responder diz respeito à delimitação do Direito Moderno. Atualmente, quando nos referimos ao Direito, a que exatamente estamos nos referindo e por quê? 30 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você viu que: • Há uma especificidade na Filosofia do Direito: problematizar a essência e finalidade do agir jurídico. • Não há um consenso acerca do termo “Direito”, devendo ser definido de acordo com os pressupostos ideológicos, políticos e filosóficos estabelecidos. • A atividade do jurista exige uma permanente atitude questionadora. 31 Considere a seguinte afirmação do jusfilósofo Luiz Fernando Coelho: A dogmática jurídica pressupõe algumas crenças aceitas pelo senso comum teórico dos juristas como verdade, independentemente de qualquer discussão ou prova. Eu as chamo de pressupostos ideológicos, porque foram construídas ao longo da história do Direito pela ideologia, inculcadas no inconsciente coletivo e assimiladas pelo senso comum teórico dos juristas. FONTE: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/sequencia/article/view/15826/14317>. Acesso em: 15 ago. 2016. Responda a seguinte questão: Como romper com o “senso comum teórico” dos juristas? AUTOATIVIDADE 32 33 TÓPICO 3 O PARADIGMA DOMINANTE DE DIREITO MODERNO E SEUS ELEMENTOS EDIFICADORES UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO O conhecimento jurídico, como qualquer outro conhecimento, é uma construção elaborada desde a articulação de elementos que dão origem à compreensão ou solução de um problema ou questionamento que nos permite adquirir determinadas competências. Tendo essa perspectiva, o contexto existencial – histórico, político, social e cultural – do pensador e a “escolha” metodológica dos elementos a serem utilizados permitem identificar as características e objetivos das teorias científicas, portanto, saber científico não é um privilégio, mas produto de uma dinâmica relação com a realidade circundante. Ciência não é feita independente do mundo, não opera de forma autônoma, mas depende de um conjunto de condições para sua elaboração e desenvolvimento e, uma vez elaborada e com condições institucionais, o saber se prolifera e se reproduz. Essa concepção de ciência foi defendida por Thomas S. Kuhn (1922- 1996), cientista e filósofo americano, cujos estudos o conduziram a buscar outro direcionamento intelectual dedicando-se ao estudo da história e filosofia da ciência. No ano de 1940 ele ingressou na Universidade de Harvard para estudar Física, doutorando-se em 1949, e no ano de 1962, com o lançamento da obra The structure of scientific revolutions (A estrutura das revoluções científicas), promove uma autêntica “dessacralização” da ciência. NOTA A seguir levantaremos os conceitos do estudo de Khun. 34 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA A partir de uma perspectiva histórica demonstra que não é possível sustentar uma “Ciência” como atividade única em todos os momentos históricos nas distintas sociedades, uma vez que, para Khun, o que é um saber científico é um certo consenso e/ou cumplicidades teóricas de uma comunidade autodenominada “científica”. Neste sentido, cientista é o indivíduo que partilha e se compromete com o modelo defendido e reproduzido pela comunidade científica, construindo-se a tradição de pesquisa e teorias científicas. Demonstra, através da sua perspectiva historicista, que apesar de as pesquisas científicas terem por base a lógica e a racionalidade, elas também são regidas pela subjetividade. Segundo ele, a crença em um paradigma não depende necessariamente da razão, mas sim da fé do pesquisador. Traz uma nova concepção de paradigma, o qual pode ser interpretado como um modelo referencial,um conjunto de conhecimentos que já está estabelecido na comunidade científica. Entretanto, com o surgimento de novos fenômenos, alguns paradigmas não conseguem explicar ou responder aos questionamentos que tais fenômenos produzem, o que leva ao surgimento de uma anomalia e, consequentemente, à emergência de uma crise científica. O paradigma inicial, antes de entrar em uma crise, encontrava-se na denominada “ciência normal”, que não pretende trazer inovações, representa o estudo dentro do próprio paradigma, a fim de demonstrar cada vez mais a solidez do mesmo. Diante da aparição de uma crise, existem três possibilidades de solução: a ciência normal conseguiria solucionar a anomalia; o problema seria rotulado e encaminhado às gerações futuras, para que estas, com uma melhor aparelhagem, pudessem resolvê-lo; ou tal anomalia levaria ao surgimento de um novo paradigma, o qual não anularia necessariamente o anterior. Com o surgimento de um novo paradigma, a ciência daria um salto, avançaria. Isto é, ocorreria uma revolução científica através da denominada “ciência extraordinária”, a qual representa o tempo da emergência de novos paradigmas e a competição deles entre si. Tal competição tem como causa a escolha de qual paradigma possuirá o enfoque mais adequado, em relação a resolver as deficiências do paradigma anterior. Com o estabelecimento do novo paradigma, reiniciam-se os processos e o desenvolvimento científico se efetiva. Kuhn demonstra que, muitas vezes, a escolha ou defesa de um paradigma baseia-se em questões subjetivas, pessoais, mesmo que já exista um novo paradigma racionalmente mais eficiente que o anterior. O objetivo nem sempre é provar racionalmente a veracidade de um paradigma. Para o cientista decidir se é a favor ou contra um paradigma, ele deve decidir se acredita nele ou não, se tem fé no mesmo ou não. FONTE: <http://seminariosemsaude.blogspot.com.br/2010/10/thomas-kuhn-e-ciencia-como-pra- tica.html>. Acesso em: 20 jul. 2016. TÓPICO 3 | O PARADIGMA DOMINANTE DE DIREITO MODERNO E SEUS ELEMENTOS EDIFICADORES 35 Em síntese, paradigma é um conjunto de instrumentos teóricos e práticos aceitos e partilhados por uma comunidade científica capaz de resolver problemas, explicar fenômenos e demonstrar resultados de uma investigação revestidos de “verdades científicas”. A história da ciência não é desenvolvida a partir de uma linearidade e sequência articulada de saberes, ou progresso permanente e contínuo, mas a primazia de um paradigma sobre outras possíveis determinadas condições. Trazendo essa concepção de saber para o Direito, passamos a vê-lo como uma construção técnica e sociocultural – um paradigma – que se tornou dominante e vem sendo reproduzido no interior da comunidade jurídica a partir de determinadas condições. Em que condições e com quais elementos foi elaborado o paradigma de Direito dominante? O marco a partir do qual vamos iniciar nossa conversa sobre o Direito é a Modernidade. “Modernidade” é a designação genérica de um complexo conjunto de transformações ocorridas a partir dos séculos XIV e XV que acabou por transformar o modo de vida e suas formas tradicionais de racionalização. Naquele momento histórico, a realidade parecia se transformar em um ritmo alucinante. Copérnico, no século XVI, com a teoria heliocêntrica e a órbita planetária, havia iniciado um movimento antidogmático seguido por Tycho Brahe, Kepler e Galileu, entre outros, que viria a abalar o princípio de autoridade, até então, base do poder papal. Isaac Newton, no século XVII, dá um passo definitivo para a criação de uma teoria geral da dinâmica. Em meados do mesmo século, Huygens elaborou a teoria ondulatória da luz. Em 1628 são publicadas as descobertas de Harvey sobre a circulação do sangue. Robert Boyle, em 1661, supera definitivamente os alquimistas no campo da química e retoma a teoria dos átomos de Demócrito. Giordano Bruno em 1660 é queimado na fogueira por divulgar a teoria heliocêntrica e por suas convicções teológicas serem consideradas heréticas. Acreditava que a Sagrada Escritura deveria ser obedecida como ensinamento moral e não como astronômico. A revolução da ciência abria possibilidade para a certeza epistemológica e consenso objetivo e, ao mesmo tempo, a lógica da previsão experimental e metodológica científica ia assumindo-se como redentora social. O mundo torna-se secular e mutante. “Secularização” é um termo que significa o gradual e irreversível abandono das convicções científicas que se apoiavam em preceitos religiosos, de forma acentuada a partir do século XIII. O processo de secularização consistiu na formação dos Estados Modernos e declínio 36 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA do poder papal e antigos reinos, além do rompimento com o paradigma do saber medieval, portanto, a secularização foi elemento essencial para edificação da Modernidade e de suas instituições, como o Estado Contemporâneo e o Direito. Com a teoria darwiniana demonstrava-se que a transformação era o estado permanente da natureza lutando para o desenvolvimento e supremacia dos mais fortes e não fruto benevolente de um plano transcendental. Assim, a ciência ia tornando a realidade neutra. De forma definitiva eram rompidos os vínculos com o passado medieval e inaugurada uma era em moldes absolutamente novos anunciando o alvorecer de um progresso humano infinito. O modelo de racionalidade que foi construído desde o Renascimento chega ao auge no século XIX, quando adquire o status de modelo global de racionalidade científica que se alastra para os diversos campos do conhecimento. Tal modelo é representado melhor pelo positivismo. A palavra positivismo foi empregada pela primeira vez pelo filósofo francês Claude Saint-Simon (1760-1825) para designar o método exato das ciências e a possibilidade de sua extensão à filosofia. Mais tarde, Auguste Comte (1798- 1857) utilizou a expressão para designar a sua filosofia, que teve grande expressão no mundo ocidental durante a segunda metade do século 19 (estendendo-se ao Brasil na primeira metade do século 20). FIGURA 10 - AUGUSTE COMTE FONTE: <http://pt.slideshare.net/mundisa/sociologia-comte>. Acesso em: 20 jul. 2016. TÓPICO 3 | O PARADIGMA DOMINANTE DE DIREITO MODERNO E SEUS ELEMENTOS EDIFICADORES 37 A característica essencial do positivismo, tal qual Comte a concebeu, é a devoção à ciência, vista como único guia da vida individual e social, única moral e única religião possível. A obra fundamental de Comte é o livro "Curso de Filosofia Positiva", escrito entre 1830 e 1842, a partir de 60 aulas dadas publicamente pelo filósofo, a partir de 1826. É na primeira delas que Comte formulou a "lei dos três estados" da evolução humana: • estado teológico, em que a humanidade vê o mundo e se organiza a partir dos mitos e das crenças religiosas; • estado metafísico, baseado na descrença em um Deus todo-poderoso, mas também em conhecimentos sem fundamentação científica; • estado positivo, marcado pelo triunfo da ciência, que seria capaz de compreender toda e qualquer manifestação natural e humana. FONTE: <http://www.mundodosfilosofos.com.br/comte.htm>. Acesso em: 15 ago. 2016. O positivismo se caracteriza pela crença de que somente é válido e confiável o conhecimento acerca dos fatos observados e estudados através do método próprio das ciências experimentais (observação, quantificação e experimentação), pressupõe que o espírito e os métodos científicos experimentais devem se estender a todos os domínios da vida intelectual, política e moral. Para melhor compreendermos o conceito de ciência e de Direito Moderno, vamos lembrar rapidamente o “cenário” histórico no qual ele foi construído, e para isso retornemos ao mundo europeu dos séculos XVI a XVIII, dentro do qual reinventou-se o conceito de política e de poderque servirá de explicação para o modo como o Direito foi elaborado. Um dos elementos centrais e ponto de partida é o conceito de contratualismo, uma espécie de “fórmula” política e jurídica que vai aliar convenientemente convivência social e submissão a um poder comum. Os chamados contratualistas entendem que o estado de natureza é um tipo de condição humana irracional que deveria definitivamente ser superado quando uma forma de poder fosse capaz de controlar os conflitos. Este estado de natureza, marcado por um individualismo caótico, deveria ser substituído por um mundo de indivíduos dotados de direitos iguais formando um corpo político comum, uma força esmagadoramente maior do que qualquer um isolado, e governado por um único poder legítimo: o Estado. 38 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA IMPORTANT E As teorias contratualistas foram elaboradas entre os séculos XVI e XVII e discutiam as razões pelas quais os homens vivem em sociedade e criam distintas formas de poder. Defendem que as relações humanas livres de qualquer ordem social, jurídica e política caracterizam o “estado de natureza” e era o que predominava antes do surgimento da sociedade civil. Naquele “estado de natureza” não havia leis e tampouco normas sociais ou políticas, o que veio a ser sucedido por uma espécie de pacto através do qual os homens passam a reconhecer uma autoridade política – o Estado – e um conjunto de regras – o Direito –, criando as bases da sociedade moderna. Destacam-se, dentre outros, como contratualistas: J. Althusius (1557-1638), Thomas Hobbes (1588-1679), B. Spinoza (1632-1677), S. Pufendorf (1632-1694), John Locke (1632- 1704), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), I. Kant (1724-1804) Sobre o tema, leia mais em: <http://www.portalconscienciapolitica.com.br/filosofia-politica/ filosofia-moderna/os-contratualistas/>. O contratualismo moderno, proposto nas teorias de Hobbes, Locke e Rousseau, funda-se na crença de que para haver uma nova ordem social e política esta deve estar subordinada a uma justiça comum racional e objetivamente elaborada, de forma que sua compreensão se aproxime do método científico e, assim, as obrigações políticas e jurídicas, unificadas, vão sendo elaboradas como legítimas, racionais, verdadeiras e objetivas. É nesta concepção de contrato social e racionalidade moderna que se funda o corpo político: a recíproca obrigação política horizontal, cidadão para cidadão, e vertical, do cidadão para com o Estado. Nesta indissociável relação é que se compreende o objetivo do Direito Moderno. Em outras palavras, o direito não pode servir de instrumento de violação da vontade geral e deve ser tão universal e abstrato como a vontade que o justifica. Em síntese, o Direito Moderno é definido potencialmente como vontade do soberano, manifestação de consentimento e autoprescrição. Embora com divergências, os pensadores políticos e jurídicos modernos são movidos pelo desejo de justificar uma nova ordem social que vinha emergindo a partir de critérios racionais e universalmente válidos, na qual o direito ocupa um papel central. TÓPICO 3 | O PARADIGMA DOMINANTE DE DIREITO MODERNO E SEUS ELEMENTOS EDIFICADORES 39 2 O PARADIGMA MODERNO DE LEGALIDADE: FUNDAMENTOS Como você já deve ter concluído, o paradigma da modernidade tem como pressuposto a crença de que a racionalidade técnica científica é capaz de produzir uma explicação segura e verdadeira. O Direito moderno vai ser elaborado a partir desse mesmo pressuposto, qual seja, o de que um conjunto de normas objetivas, tecnicamente adequadas e legitimamente construídas é capaz de promover a segurança jurídica e a previsibilidade nas relações humanas. Segurança jurídica, para o jusfilósofo Miguel Reale (1994, p. 102), é a existência de “algo subjetivo, um sentimento, a atitude psicológica dos sujeitos perante o complexo de regras estabelecidas como expressão genérica e objetiva da segurança mesma”. Para esse autor, o problema da “segurança” não é somente uma questão de “sentimento” ou “sensação”, mas também a certeza de existência de um conjunto de instrumentos eficazes e complexos de garantias a fim de proteger os indivíduos envolvidos nas “tramas” da convivência humana. “Segurança” sem “certeza” seria uma falácia! Para muitos pensadores, é a dualidade – certeza/segurança – que explica ao longo da história a prevalência do direito escrito sobre o costume, a supremacia da “ordem escrita” sobre a tradição. Como, na perspectiva da Modernidade, vai ser definida “segurança jurídica” e “certeza de garantia”? Lembrando o conceito de Estado Moderno enquanto produto de uma vontade geral, ideia de contrato social, este ente político torna-se fonte legítima para a produção do Direito através de algumas crenças, tais como o paradigma da legalidade e a onipotência do legislador. O legalismo moderno pode ser compreendido como um conjunto de normas objetivas gerais e abstratas produzidas exclusivamente pelo Estado, cuja finalidade é controlar a ação social, tanto individual como política, estabelecendo deveres e direitos de forma coercitiva. Esta “invenção” política e jurídica é resultado das chamadas Revoluções Burguesas – processo histórico e transformações de forma de poder lideradas pela burguesia ocorridas especialmente na Inglaterra e França, que entre os séculos XVII ao XIX destituíram os modelos absolutistas e acabaram por fundar os Estados Liberais Modernos, que serviram para a defesa dos interesses das elites burguesas defenderem seus interesses, livre circulação de bens e de pessoas, liberdade de comércio e direito de propriedade contra o arbítrio do Estado. 40 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA Este modelo sociopolítico e jurídico foi recepcionado e reproduzido de distintas formas, por exemplo, na França a lei positivada em códigos era considerada a condição primeira para a garantia de direitos, enquanto que na Alemanha, pela tradição histórica, se preferia diferenciar lei formal (codificada) de lei material (finalidade e conteúdo valorativo). O paradigma da legalidade era, e de certa maneira é, um dos pilares centrais da segurança jurídica, uma vez que garante a coesão do grupo social e organiza a consciência individual em função de padrões universais, válidos para todos, de justiça e previsibilidade, legitimando a ordem política e jurídica posta, criando uma espécie de “consenso” no agir coletivo e individual. O princípio da legalidade canaliza e estrutura a lei. A lei pode ser vaga, imprecisa, fluida e indeterminada, pois o princípio da legalidade consegue a proeza de fazer aparecer como conformes a esta fluidez os mais diversos atos de aplicação individual e concreta. Garantindo uma ligação tanto normativa como lógica entre o abstrato e o concreto, entre o geral e o individual, a legalidade funda e reforça a ideia de uma coerência da ordem jurídica. Ela pinta a imagem reconfortante, porque previsível, de um mundo jurídico fechado e ordenado, em que tudo está no seu lugar, em que a conclusão decorre naturalmente do jogo das premissas maior e menor, em que o geral e o abstrato antecipam um juízo hipotético sobre o concreto que, por sua vez, os confirma. Em suma, a ideia de uma lógica da ordem jurídica é essencialmente ideológica e esta ideia alimenta-se, nomeadamente, do princípio da legalidade (MIALLE, 1989, p. 275). O historiador português do Direito Antonio Manuel Hespanha esclarece que o plano jurídico vinha ao encontro da pretensão de colocar fim tanto à incerteza e ao casuísmo do modelo jurídico tradicional, quanto à proliferação de sistemas especulativos sobre direito natural que haviam surgido ao longo do século XVIII, “ou seja, dirigia-se tanto contra a vinculação do direito à religião e à moral, como contra a sua identificação com especulações de tipo filosófico como as que eram correntesnas escolas jus-racionalistas. Contra uma coisa e contra a outra proclamava-se a necessidade de um saber dirigido para coisas positivas” (HESPANHA, 1997, p. 15). Assim vai se construindo a concepção de Direito como Direito Positivo, ou seja, de que direito legítimo e válido é aquele posto pelo poder político estatal. Positivismo Jurídico é uma doutrina segundo a qual o único direito é o direito positivo Você deve estar se perguntando: o que é, afinal, Direito Positivo? Haveria “outro” Direito para além do Direito Positivo? Essa é uma discussão que tem acompanhado – e até atormentado – os juristas ao longo dos séculos desde a antiguidade grega, e a resposta não é tão simples. Para melhor esclarecer, veremos o que nos ensina o notável jusfilósofo TÓPICO 3 | O PARADIGMA DOMINANTE DE DIREITO MODERNO E SEUS ELEMENTOS EDIFICADORES 41 Norberto Bobbio (1999, p. 15) sobre a primeira distinção que deve ser feita entre Positivismo Jurídico e Positivismo Filosófico, já estudada: A expressão ‘positivismo jurídico’ não deriva daquela de ‘positivismo’ em sentido filosófico, embora no século passado tenha havido uma certa ligação entre os dois termos, posto que alguns positivistas jurídicos eram também positivistas no sentido filosófico: mas em suas origens (que se encontram no início do século XIX) nada tem a ver com o positivismo filosófico [...] a expressão ‘positivismo jurídico’ deriva da locução ‘direito positivo’. “Direito Positivo” é uma expressão que na atualidade significa “Direito Posto” pelo poder político – em nosso caso, pelo Estado. Por que “Direito Positivo” se tornou sinônimo de “Direito Legal”? Vamos tentar responder com o breve estudo no tópico a seguir. 42 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você viu que: • Direito Positivo, Positivismo Jurídico e Positivismo Filosófico são conceitos distintos, embora em muitos momentos aparentemente se aproximem e se toquem. • Positivismo Jurídico é uma concepção teórica, política e filosófica de Direito reducionista que acabou por tornar-se o paradigma dominante de Direito. • Direito Positivo é o Direito posto pelo poder político em distintos momentos da história cuja função é estabelecer o controle social e a sustentação das próprias relações de poder que o criam. • O positivismo jurídico torna-se aparentemente a única forma legítima de Direito que nega os valores éticos e morais que o constituem e finalidade maior: a realização do justo concreto. 43 A bela e conhecida obra literária “O auto da compadecida” de Ariano Suassuna reproduz o cotidiano do sertanejo brasileiro em todas suas dimensões. Uma das partes centrais da obra é “o julgamento de João Grilo” quando os personagens são “levados ao céu” e são julgados se irão para o céu ou inferno. Veja a cena em: <https://www.youtube.com/watch?v=16dYqO24HBI>. No julgamento de João Grilo há uma discussão entre o Diabo – que os quer condenar pela violação à lei – e a Compadecida – que os defende em sua miserável condição humana. Como esta metáfora sertaneja reproduz uma crítica ao Positivismo Jurídico? AUTOATIVIDADE 44 45 TÓPICO 4 ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO POSITIVISMO JURÍDICO CONTEMPORÂNEO E DA SUPREMACIA DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO O estudo a seguir faz parte da obra “Hermenêutica e Direito: uma possibilidade crítica”, publicada pela Editora Juruá (Curitiba) em 2003, de autoria de Ivone Fernandes Morcilo Lixa. Ao longo da história do Direito Moderno foram definidas duas correntes doutrinárias que deram origem ao que vai se denominar de Positivismo Jurídico, sua principal característica é a predominância do legalismo. Para compreender essa construção deve-se partir do século XIX, quando foram definidas duas grandes correntes jurídicas: o legalismo, representado pela Escola Exegética desenvolvida na França, e o formalismo científico, cuja precursora foi a Escola Histórica alemã. O legalismo, que acaba sendo dominante na prática jurídica, reduz o direito à lei e admite como única fonte de direito o criado por um legislador estatal. Já a segunda corrente, a Histórica, “[...] deduzia as normas jurídicas e sua aplicação a partir do sistema, dos conceitos e dos princípios doutrinais da ciência jurídica, sem conceder a valores ou objetivos extrajurídicos (por exemplo, religiosos, sociais ou científicos) a possibilidade de confirmar ou infirmar as soluções jurídicas” (WIEACKER , s.d., p. 492). Embora não possam as duas concepções ser confundidas, por possuírem diferentes matrizes filosóficas e políticas, ambas rejeitam qualquer fundamentação metafísica do direito para além das relações humanas e políticas concretas, buscando elaborar uma concepção de Direito como saber científico especializado e autônomo, que deve utilizar métodos objetivos e verificáveis, à semelhança das ciências naturais, além da pretensão de conferir a este saber um caráter de universalidade e de progressiva perfeição, já que esta fase coincide com o período áureo da expansão colonialista europeia, que difundia e impunha a cultura e, por via de consequência, o modelo jurídico desenvolvido na Europa Ocidental às diferentes partes do mundo, combatendo e dizimando em nome do “progresso, modernidade e da civilização” todas as formas de organização social, política e jurídica dos povos conquistados, convencida de sua supremacia. 46 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA Lembre-se do conceito de Ciência, elaborado na Modernidade, e de que a partir de tal modelo de saber é que pode ser edificado o Direito Moderno. ATENCAO Retomando a trajetória histórica do pensamento jurídico, é necessário compreender como foi o processo de codificação no século XIX, que foi fator relevante para a consolidação do positivismo jurídico. Este movimento inovador e revolucionário no plano jurídico-formal vem na esteira da ideologia liberal burguesa e no triunfo dos princípios da Revolução Francesa, rompendo definitivamente com a antiga ordem estamental sobre a qual se assentava o Antigo Regime. O princípio básico deste novo paradigma jurídico, coerente com a concepção de que o estudo do Direito deve ser restringido à experiência constatada, consiste em identificar e reconhecer apenas como Direito o produzido pelo Estado, o único com existência objetiva – jus positum – que, com segurança, pode ser instrumento de planificação e manutenção da sociedade. O movimento da codificação, produto da simbiose do jusracionalismo com o Iluminismo, alastrou-se pela Europa Ocidental a partir do século XIX, e, apesar da multiplicidade de circunstâncias que justificam sua ocorrência, possuem um idêntico perfil espiritual. Os códigos modernos pretenderam uma “planificação social” através da reordenação sistemática da matéria jurídica tendo como pressuposto a convicção iluminista de que o estágio civilizatório da sociedade seria alcançado com uma forma de governo fundada na razão e na “vontade geral”” (WIEACKER , s/d, p. 366). O ideal cartesiano atraído pela certeza do saber encontrava na filosofia, na política e no direito, dentre outras disciplinas, um conceito de ciência tradicional incerta e contraditória. É exatamente o que Descartes (1596-1650) exprime na primeira e segunda partes do Discours de la Méthode, propondo para aquelas disciplinas um método com bases sólidas como as da matemática. O método proposto por Descartes está assentado inicialmente na evidência racional, por não admitir como verdadeiro nada que não seja evidente para o espírito, regra primeira que é complementada por outras – a análise, síntese e revisões gerais – que apenas têm a finalidade de tornar evidente o “que à primeira vista o não é” (HESPANHA, 1997, p. 149). O pensamento dos juristas que buscavam um “direito certo e seguro” encontrou no poder da razão individual a possibilidade de descobertadas regras do justo fundado numa ordem racional, o que iria conduzir no sentido de tornar o direito positivo o “mais certo”. TÓPICO 4 | ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO POSITIVISMO JURÍDICO CONTEMPORÂNEO E DA SUPREMACIA DO PRINCÍ- PIO DA LEGALIDADE 47 FIGURA 11 - RENÉ DESCARTES FONTE: <http://www.mundodosfilosofos.com.br/descartes.htm>. Acesso em: 20 jul. 2016. René Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês, tornou-se um dos grandes idealizadores da ciência e da filosofia moderna. Seu pensamento influenciou pensadores das diferentes áreas com sua concepção de “método” inspirado no rigor matemático e nas “cadeias da razão”. Defende que: • não se pode admitir "nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal", devendo ser admitido como verdade o que é verdadeiro e demonstrado pela razão – assumir como atitude a “dúvida metódica”; • todo saber deve ser resultado de análise, ou seja, deve-se "dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis"; • a síntese é capacidade científica de síntese: "concluir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para, aos poucos, ascender, como que por meio de degraus, aos mais complexos"; • a compreensão dá-se pelos "desmembramentos tão complexos... a ponto de estar certo de nada ter omitido". Estes elementos são os fundamentos do célebre método cartesiano e do racionalismo. FONTE: <http://www.mundodosfilosofos.com.br/descartes.htm>. Acesso em: 20 jul. 2016. 48 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA Naquele novo momento histórico passa a dominar no pensamento dos juristas a ideia de “sistemas” que têm como ponto de partida os direitos inatos do indivíduo. A concepção individualista de homem, apesar de remontar ao nominalismo, teve no cartesianismo e no empirismo um novo impulso, onde os direitos individuais, imutáveis e necessários são definidos pela própria natureza humana. Do cartesianismo é absorvida a ideia do homem como ser que busca a verdade através da razão, detentor de dois direitos naturais inerentes: usar livremente a razão na produção do conhecimento e de pautar sua ação em princípios ditados pela razão. O empirismo transcende o cartesianismo ao idealizar o homem não apenas como um ser racional, mas comandado por instintos concretos (perpetuação, conservação) que deveriam ser garantidos e satisfeitos pelo Direito Positivo. Afirma Hespanha (1997, p. 151), que “a filosofia nominalista, ao contrário da tradição filosófica clássica que conferia existência real ao homem como inserido em estruturas sociais, considerava o homem enquanto um ser isolado, sem outros direitos e deveres senão aqueles reclamados pela sua natureza individual ou pela sua vontade”. Com o jusracionalismo é aberta uma nova fase no pensamento jurídico. De um lado, a nova convicção de “natureza humana” eterna e imutável confere valor universal do Direito, o que explica a “exportação” dos códigos, notadamente o Código Civil napoleônico como subsidiário ou principal, para regiões culturalmente distintas, representando um verdadeiro movimento revolucionário. E de outro, o divórcio definitivo entre Direito Natural e Direito Positivo, vindo este último a ser considerado como o único Direito. NOTA Você já deve ter compreendido “Direito Positivo” como o conjunto de normas jurídicas “postas” pelo poder político, já o Direito Natural pode ser compreendido, ao menos provisoriamente, até discutirmos melhor o tema, como prescrições que norteiam o agir (social, político e jurídico) fundamentadas no conceito de “justiça”, ou seja, Direito Natural é que é bom, enquanto Direito Positivo é o necessário para o controle social. A discussão acerca dos conceitos e limites de cada esfera do Direito acompanha a trajetória histórica do Direito ocidental. No entender de Bobbio (1999, p. 26, grifos do original), “[...] a partir deste momento o acréscimo do adjetivo «positivo» ao termo «direito» torna- se um pleonasmo, mesmo porque, se quisermos usar uma fórmula sintética, o positivismo jurídico é aquela doutrina segundo a qual não existe outro direito senão o positivo”. TÓPICO 4 | ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO POSITIVISMO JURÍDICO CONTEMPORÂNEO E DA SUPREMACIA DO PRINCÍ- PIO DA LEGALIDADE 49 Na França revolucionária do século XIX o movimento da codificação veio a mudar radicalmente o conceito de Direito, fazendo verdadeira “tábula rasa” da ordem jurídica anterior. Ao criar uma nova mentalidade que identifica Direito com os códigos, os juristas desenvolvem um instrumental técnico de interpretação e aplicação do Direito, seguindo uma orientação exegética – denominação relacionada à técnica medieval de interpretação literal de textos. No dizer de Bobbio (1999, p. 83), a técnica exegética “[...] consiste em assumir pelo tratamento científico o mesmo sistema de distribuição da matéria seguido pelo legislador e, sem mais, em reduzir tal tratamento a um comentário, artigo por artigo, do próprio Código”. Portanto, a chamada Escola da Exegese pretendia reduzir o direito à lei, levando a cabo os objetivos revolucionários burgueses. Como disse o decano Aubry, em 1857, em um relatório oficial sobre o espírito do ensino da Faculdade de Direito em Paris: Toda a lei, tanto no espírito quanto na letra, com uma ampla aplicação de seus princípios e o mais completo desenvolvimento das consequências que dela decorrem, porém nada mais que a lei, tal a divisa dos professores do Código de Napoleão (PERELMAN , 1998, p. 31). Apesar de já ter a Assembleia Nacional Constituinte francesa de 1790 concebido um projeto de código que sintetizasse um novo direito revolucionário, apenas em 1804, com o Consulado e sob a influência de Napoleão I, é que o Código Civil teve uma versão definitiva, seguindo-se o Código de Processo Civil (1806), Código Comercial (1807), Código Penal (1810), dentre outros. Esta fase de promulgação dos códigos inaugura a instauração da Escola da Exegese, que, segundo Perelman (1998), vem seguida de duas outras fases distintas: uma fase de apogeu até cerca de 1880, e uma de declínio, que termina em 1890 com a obra de Gény, anunciando o fim do pensamento exegético. Os códigos napoleônicos consumaram definitivamente a doutrina jusracionalista ao “positivar a própria razão” e a concretização legislativa da volonté générale. FIGURA 12 - CÓDIGO DE NAPOLEÃO O Código Civil francês foi promulgado em 21 de março de 1804 e acabou sendo conhecido como “Código de Napoleão”. Este importante diploma jurídico teve grande influência no direito civil moderno, inclusive para a elaboração do primeiro Código Civil brasileiro, de 1916. FONTE: <http://jhessycruzoliver.blogspot.com.br/2013/06/o-codigo-civil-napoleonico.html>. Acesso em: 15 ago. 2016. 50 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA Segundo Hespanha (1997), a lei sistematizada nos códigos adquire o monopólio de manifestação do direito. Já não havia lugar para outras fontes de direito. O direito doutrinal havia sido incorporado nos códigos. A Revolução rompeu definitivamente com o passado, instituindo uma nova ordem política e jurídica, desvinculando-se, assim, do Direito tradicional. A jurisprudência não tinha mais sentido como fonte de Direito, na medida em que aos juízes cabia apenas o poder de aplicar a lei e não estabelecer o Direito. Esta compreensão jurídica, predominante na França do século XIX, forjou juristas (como Duranton, Demolombe, Troplong) cujas obras doutrinárias limitavam-se a expor e interpretar os artigos dos códigos. A Escola da Exegese estava intimamente ligada ao ambiente político e jurídico francês, ou seja, a um Estado nacional revolucionário, em corte com o passado, dotado de órgãos representativos e que tinha empreendido uma importante tarefa de codificação. Isto determina a disseminaçãodos princípios desta escola noutros países, retardando-a, nomeadamente, nos casos em que estes requisitos não estivessem realizados (HESPANHA, 1997, p. 177). Tal saber jurídico, que dominou a Europa na primeira metade do século XIX, segundo Bobbio (1999, p. 84-89), possui como características fundamentais: • A inversão das relações tradicionais entre Direito Natural e Direito Positivo. • O monismo jurídico. • A interpretação e aplicação da lei fundada na intenção do legislador. • O culto à lei e o princípio da autoridade. Como decorrência da sacralização do Direito estatal fundado no princípio da onipotência do legislador, vincula-se uma das características do pensamento exegético: a interpretação e aplicação da lei com base na intenção do legislador, se o único Direito é o expressado na lei, enquanto manifestação positivada do Estado, por via de consequência, a correta hermenêutica é aquela que busca “revelar” ou “desentranhar” do texto legal a vontade do legislador nos casos em que “[...] ela não deflui imediatamente do próprio texto legislativo, e todas as técnicas hermenêuticas [...] são empregadas para atingir tal propósito” (BOBBIO, 1999, p. 87). A ficção jurídica de um legislador onipotente e detentor de “uma vontade” expressa no texto legal é fruto do pensar dogmático positivista, que compreende o texto da lei como expressão da mens legislatoris (vontade do legislador). Pressupondo os códigos como instrumento capaz de garantir a certeza das relações sociais e o Direito como fato objetivado e delimitado nestes códigos, via de consequência, a interpretação e aplicação do Direito deveria ser centralizada na determinação unívoca e precisa do sentido expresso no texto legal, operando-se com a segurança e certeza como valores prioritários deste modelo de cientificização. Para dar conta da perspectiva formalista e lógica da ciência jurídica, definitivamente o intérprete não pode operar senão o que lhe é dado, que são as proposições normativas e sistematicamente organizadas nos códigos. TÓPICO 4 | ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO POSITIVISMO JURÍDICO CONTEMPORÂNEO E DA SUPREMACIA DO PRINCÍ- PIO DA LEGALIDADE 51 Esta preocupação cientificista herdada pelos juristas do século XVIII se explica pelo conceito sistemático de Direito, “[...] que se resumia, em poucas palavras, na noção de conjunto de elementos estruturados pelas regras de dedução” (FERRAZ Jr., 1991, p. 240). Interpretar significa, sob tal ótica, estabelecer o sentido imanente da norma na totalidade do sistema tal qual foi previsto pelo legislador, distinguindo-se a vontade real e vontade presumida. 2 VERTENTE HISTORICISTA DO DIREITO MODERNO A Alemanha, em fins do século XVIII, que ocupava lugar de destaque no cenário do pensamento jurídico europeu, além de não ter sido palco da experiência revolucionária burguesa, não conhecia o modelo político do Estado Nacional. Na Europa a crença no racionalismo e no liberalismo revolucionário difundia a convicção de que os Estados Modernos deveriam ordenar sua ordem jurídica através de uma codificação monopolizadora. Nas raízes dos movimentos políticos contratualistas, o Estado (e o Direito Codificado) era idealizado como fruto de um contrato social racional a-histórico, portanto, como forma universal e acultural, indiferente às particularidades históricas e culturais. “Era isto que uma cultura de raízes nacionais, ancorada nas especificidades culturais dos povos, não podia aceitar. Uma organização política e jurídica indiferenciada, exportável, universalizante, aparecia quando confrontada com os particularismos das tradições nacionais, como um artificialismo a rejeitar” (HESPANHA, 1997, p. 181). É contra esta visão artificial e intemporal de Estado e Direito que pensadores como Gustav Hugo (1764-1844), Friedrich Carl V. Savigny (1779-1861) e G. F. Puchta (1798-1846) buscam fontes não estatais e não legislativas do direito, compreendendo a sociedade como um organismo sujeito à evolução histórica, onde a tradição do passado condiciona naturalmente o presente. Esta natural e peculiar evolução, sob tal ótica, possuiria como elemento permanente e atuante o “espírito do povo” (Volksgeist), que daria sentido e unidade a todas as formas de manifestação cultural das diferentes nações. O processo de construção do positivismo na Alemanha, segundo Bobbio (1999), foi precedido pela desagregação dos “mitos” jusnaturalistas ligados à concepção filosófica racionalista, a filosofia iluminista de matriz cartesiana, tarefa que coube ao historicismo na primeira metade do século XIX, que tem sua origem na Escola Histórica do Direito. Chama a atenção Bobbio “[...] que ‘escola histórica’ e ‘positivismo jurídico’ não são a mesma coisa; contudo, a primeira preparou o segundo através de sua crítica radical ao direito natural” (1999, p. 45). Como decorrência das condições específicas do processo histórico e da concepção predominante no pensamento jurídico alemão em rejeitar o Estado como única fonte do direito e sua forma legislativa, é na filosofia da cultura organicista e evolucionista, somada ao ambiente cultural do romantismo alemão, que a Escola Histórica vai buscar como pressuposto da ordem jurídica a ideia de que a sociedade, assim como um ser vivo, é um todo orgânico submetida a um 52 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA processo de evolução histórica que é individualizada em cada povo. Este processo evolutivo histórico, neste entendimento, é movido por uma força, ou um “espírito contínuo e atuante”: o espírito do povo (Vosksgeist) que confere unidade e sentido a todas as manifestações culturais de uma nação, sendo o direito uma destas formas de manifestação, e, portanto, é o resultado da ação deste agente nuclear. O primeiro passo para a desmistificação do jusnaturalismo deu-se com Gustav Hugo. Como sugere o título de sua obra, Tratado do Direito Natural como Filosofia do Direito Positivo, escrita em 1798, entende-se que o direito natural não pode ser mais concebido como sistema normativo independente do direito positivo, mas como filosofia do direito positivo. Com tal afirmação, reduzindo o direito natural e filosofia ao direito positivo, efetua a passagem do jusnaturalismo para o juspositivismo. Na obra referida, quando se discutem as fontes do direito, ao colocar a questão central do que é direito, o autor responde não acreditando na “sabedoria” jus-racionalista do legislador e sua “fábrica de leis”: ESTUDOS FU TUROS Mais adiante faremos um estudo detalhado sobre jusnaturalismo ao longo do pensamento ocidental! Será interessante! Na crítica que Hugo lançou ao jusracionalismo a-histórico e seus legisladores, buscou construir uma ciência jurídica autônoma, empírica e filosófica, propondo uma sistematização interna da qual seria possível a construção conceitual dos conteúdos do direito positivo, antecipando as contribuições levadas pela Escola Histórica. A reação ao movimento de codificação francês, considerado como fator de destruição e não de construção do direito, conduzirá a valorização dos elementos consuetudinário e doutrinal do direito e não ao direito legislado, como pretendia o pensamento legalista-exegético, o que é evidenciado no debate travado entre Savigny e Antônio Frederico Justo Thibaut (1772-1840). Thibaut, no ensaio Sobre a necessidade de um direito civil geral para a Alemanha (Heidelberg, 1814), defende a necessidade da codificação do direito com uma perfeição formal – normas jurídicas enunciadas de maneira clara e precisa – e substancial – normas capazes de regular todas as relações sociais – como forma de unificação da Alemanha e avanço no pensamento jurídico. Com a crença de que, apesar de o direito originar-se da “alma do povo”, cabe ao jurista a tarefa de sistematização dele, o que é demonstrado por sua preocupação em reconstruir o direito revelado pelos juristas,nas obras História do Direito Romano na Idade Média (1815-1831) e Sistema do Direito Romano Actual (1840-1851). TÓPICO 4 | ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO POSITIVISMO JURÍDICO CONTEMPORÂNEO E DA SUPREMACIA DO PRINCÍ- PIO DA LEGALIDADE 53 O trabalho de Friedrich Carl von Savigny é um importante marco na renovação da ciência jurídica alemã, por submeter a ordem jurídica vigente a um tratamento “histórico” incorporando a história do direito à história global, já que o direito é parte integrante da cultura como um todo socialmente construído. Inicialmente é importante esclarecer que para Savigny a cultura é entendida como tradição espiritual. Por entender o direito como “parte individualizada da vida do povo”, que “atua de maneira silenciosa” e surgindo “assim como a linguagem” das concepções do povo, não pode ser imposto, como pretendiam os “legisladores jusracionalistas”. FIGURA 13 - FRIEDRICH CARL VON SAVIGNY Friedrich Carl von Savigny (1779-1861) – Importante jurista alemão do século XIX e o maior nome da Escola Histórica de Direito. Teve enorme influência no Direito Moderno, especialmente no Direito Civil. FONTE: <https://global.britannica.com/biography/Friedrich-Karl-von-Savigny>. Acesso em: 15 ago. 2016. Savigny intencionava buscar as raízes do direito presente a partir da historicidade, mas na prática compreendeu os conceitos abstratos e idealizados pelo direito, já que a construção da história jurídica, que foi objeto de análise, não discute a validade e natureza da ordem jurídica. Ao repudiar a filosofia racionalista, deixou de conferir fundamentação à sua historicidade, entretanto, consegue seu objetivo ao conferir tratamento formal ao direito. Como decorrência da ideia já consolidada de sistematicidade do direito, por sua fonte originária ser um todo orgânico (o “espírito do povo”), a unidade dos institutos jurídicos seria conferida por um “princípio orientador”, “uma alma”. A compreensão e o sentido dos institutos, nesta ótica, seriam obtidos a partir da sistematização dos princípios gerais, e, através da dedução, seria possível obter os demais princípios. Em síntese, com o tratamento formal do direito histórico e legislado seria possível extrair princípios gerais que explicariam e produziriam toda uma ordem normativa subsequente, incorporando definitivamente os postulados positivistas de cientificidade. Ao produzir uma coerência no sistema, não estaria o jurista a criar o direito de maneira arbitrária, mas apenas identificando e descrevendo de maneira neutra o que era objetivamente dado. A neutralidade e a objetividade pretendidas pelo direito passam a legitimar uma ordem jurídica fundada na racionalidade. Assim, se ia definindo o idealismo científico formal do Direito Moderno. 54 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA LEITURA COMPLEMENTAR O QUE É FILOSOFIA E POR QUE VALE A PENA ESTUDÁ-LA UTILIZAÇÃO DA FILOSOFIA Há uma questão que muita gente formula de imediato quando ouve falar de filosofia: qual a utilidade da filosofia? Não há certamente expectativa alguma de que ela contribua para a produção de riqueza material. Contudo, a menos que suponhamos que a riqueza material seja a única coisa de valor, a incapacidade da filosofia de promover esse tipo de riqueza não implica que não haja sentido prático em filosofar. Não valorizamos a riqueza material por si própria - aquela pilha de papel que chamamos de dinheiro não é boa por si mesma -, mas por contribuir para nossa felicidade. Não resta dúvida de que uma das mais importantes fontes de felicidade, ao menos para os que podem apreciá-la, consiste na busca da verdade e na contemplação da realidade; eis aí o objetivo do filósofo. Ademais, aqueles que, em nome de um ideal, não classificaram todos os prazeres como idênticos em seu valor, tendo chegado a experimentar o prazer de filosofar, consideraram essa experiência como superior em qualidade a qualquer outra. Visto que a maior parte dos bens que a indústria produz, excetuando os que suprem nossas necessidades básicas, valem apenas como fontes de prazer, torna-se a filosofia perfeitamente apta, no que se refere à utilidade, para competir com a maioria dos produtos industriais, quando poucos são os que podem dedicar-se, em tempo integral à tarefa de filosofar. Mesmo que entendêssemos a filosofia como fonte de um inocente prazer particularmente válido por si próprio (obviamente, não apenas para os filósofos, mas também para todos aqueles a quem eles ensinam e influenciam), não haveria razão para invejar tão pequeno desperdício da força humana dedicada ao filosofar. Não esgotamos, porém, tudo o que pode ser dito em favor da filosofia, pois, à parte qualquer valor que lhe pertença intrinsecamente acima de seus efeitos, a filosofia tem exercido, por mais que ignoremos isso, uma admirável influência indireta até mesmo sobre a vida de gente que nunca ouviu falar nela. Indiretamente, tem sido destilada através de sermões, da literatura, dos jornais e da tradição oral, afetando assim toda a perspectiva geral do mundo. Em grande parte, foi através de sua influência que se fez da religião cristã o que ela é hoje. Devemos originalmente a filósofos ideias que desempenharam papel fundamental para o pensamento em geral, mesmo em seu aspecto popular, como, por exemplo, a concepção de que nenhum homem pode ser tratado apenas como um meio ou a de que o estabelecimento de um governo depende do consentimento dos governados. No âmbito da política, a influência das concepções filosóficas tem sido expressiva. Nesse sentido, a Constituição norte-americana é, em grande parte, uma aplicação das ideias do filósofo John Locke; ela apenas substitui o monarca hereditário por um presidente. Similarmente, admite-se que as ideias de Rousseau tenham sido decisivas para a Revolução Francesa de 1789. É inegável que a influência da filosofia sobre a política pode às vezes ser nefasta: os filósofos alemães do TÓPICO 4 | ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO POSITIVISMO JURÍDICO CONTEMPORÂNEO E DA SUPREMACIA DO PRINCÍ- PIO DA LEGALIDADE 55 século XIX podem ser parcialmente responsabilizados pelo desenvolvimento de um nacionalismo exacerbado que posteriormente veio a assumir formas bastante deturpadas. Todavia, não resta dúvida de que essa responsabilidade tem sido frequentemente muito exagerada, sendo difícil determiná-la exatamente, o que se deve ao fato de aqueles filósofos terem sido obscuros. Contudo, se uma filosofia de má qualidade pode exercer influência nefasta sobre a política, com as filosofias de boa qualidade pode ocorrer o contrário. Não há meios de impedir tais influências, sendo, portanto, extremamente oportuno que dediquemos especial atenção à filosofia com o intuito de constatar se concepções que exerceram alguma influência foram mais positivas do que nefastas. O mundo teria sido poupado de muitos horrores caso os alemães tivessem sido influenciados por uma filosofia melhor que a dos nazistas. Torna-se, portanto, imperativo abandonar a afirmação de que a filosofia é destituída de valor, mesmo com respeito à riqueza material. Uma boa filosofia, ao influenciar favoravelmente a política, pode gerar uma prosperidade incapaz de ser alcançada sob a égide de uma filosofia inferior. Outrossim, o expressivo desenvolvimento da ciência, com seus consequentes benefícios de ordem prática, muito depende de seu background filosófico. Houve mesmo quem tenha chegado a afirmar, a nosso ver exageradamente, que o desenvolvimento da civilização como um todo seria concomitante às mudanças na ideia de causalidade, da concepção mágica de causalidade à científica. De qualquer modo, a ideia de causalidade faz parte do objeto da filosofia. A própria ‘perspectiva científica’, em grande parte, foi introduzida inicialmente pelos filósofos. Todavia, certamente não estaremos nas melhores condições parafazer um estudo proveitoso da filosofia se a encararmos principalmente como uma via indireta de acesso à riqueza material. A principal contribuição da filosofia consiste no intangível background intelectual do qual muito dependem o clima espiritual e a feição geral de uma civilização. Nesse sentido, ocasionalmente se desenvolvem ambições ainda maiores. Whitehead, um dos mais expressivos e acatados pensadores modernos, descreve os dons da filosofia como “a capacidade de ver e de prever, aliada a um sentido do valor da vida, ou seja, o sentido da importância que anima todo esforço civilizado”. Acrescenta ainda Whitehead que, “quando uma civilização atinge seu auge sem coordená-lo com uma filosofia de vida, difundem-se por toda a comunidade períodos de decadência e monotonia, seguidos pela estagnação de todos os esforços”. Para ele, a filosofia consiste em “uma tentativa de esclarecer as crenças que, em última instância, determinam nossa atenção, a qual integra a base de nosso caráter”. De um modo ou de outro, podemos ter como certo que o caráter de uma civilização é enormemente influenciado por sua concepção geral da vida e da realidade. Até pouco tempo, para a maioria das pessoas, essa concepção era proporcionada pelo ensino religioso, mas as próprias concepções religiosas foram muito influenciadas pelo pensamento filosófico. Ademais, a experiência demonstra que as concepções religiosas podem conduzir-nos à loucura, a menos que sejam continuamente 56 UNIDADE 1 | DIREITO E FILOSOFIA submetidas a uma avaliação racional. Os que rejeitam qualquer concepção religiosa devem ter o maior interesse em elaborar uma nova concepção para, se possível, substituir a crença religiosa. E fazê-lo significa engajar-se na filosofia. Embora não possa substituir a filosofia, a ciência suscita problemas filosóficos, pois ela não pode dizer-nos que lugar ocupam os fatos com que lida no esquema geral das coisas, não conseguindo nem mesmo esclarecer suas relações com os espíritos que os observam. Nem mesmo pode demonstrar, embora deva admitir, a existência do mundo físico ou a legitimidade do uso dos princípios da indução para prever as prováveis ocorrências futuras ou ultrapassar de alguma forma o que tem sido efetivamente observada. Nenhum laboratório científico pode demonstrar em que sentido os homens têm uma alma, se o universo tem ou não um propósito, se, e em que sentido, somos livres, e assim por diante. Não desejamos com isso sugerir que a filosofia possa resolver esses problemas; no entanto, se ela realmente não puder, nada mais poderá fazê-lo, sendo certamente válido tentar descobrir ao menos se tais problemas podem ser solucionados. Veremos que a própria ciência pressupõe continuamente conceitos que subsumam os domínios da filosofia e, da mesma forma que nenhuma ciência pode florescer se não admitirmos tacitamente uma resposta para certas questões filosóficas, não podemos fazer uso mental adequado da ciência, com o intuito de implementar nosso desenvolvimento intelectual, sem admitirmos uma visão de mundo mais ou menos coerente. Mesmo as melhores conquistas da ciência moderna não teriam sido alcançadas se os cientistas não tivessem adotado determinadas suposições de grandes e originais filósofos, nas quais basearam todo o seu proceder. A concepção “mecanicista” do universo, que caracterizou a ciência durante os últimos três séculos, é derivada principalmente da filosofia de Descartes. Por ter ocasionado maravilhosos resultados, o esquema mecanicista deve ser, em parte, verdadeiro, ainda que parcialmente inadequado, apressando- se o cientista em buscar no filósofo o necessário auxílio para erigir novo esquema que possa substituir o antigo. Um segundo serviço inestimável prestado pela filosofia (especialmente pela “filosofia crítica”) reside no hábito, por ela estimulado, de promover-se um julgamento imparcial considerando-se todas as facetas de uma questão, e na ideia que ela oferece do que seja a evidência e de que devemos buscar ou esperar de uma prova. Pode ser esse um importante questionamento das inclinações emocionais e das conclusões precipitadas, sendo especialmente necessário, e com frequência negligenciado, em controvérsias políticas. Se ambos os lados considerassem suas diferenças políticas munidos de espírito filosófico, seria difícil admitir a eventualidade de uma guerra. O sucesso da democracia depende muito da habilidade dos cidadãos em distinguir um bom de um mau argumento, não se deixando enganar por confusões. A filosofia crítica estabelece um padrão ideal para o raciocínio correto e capacita quem a estuda a remanejar argumentos confusos. Talvez seja esse a motivação pela qual Whitehead afirma, na passagem acima citada, que “nenhuma sociedade democrática poderá alcançar êxito sem que a educação geral que a inspire exprima uma perspectiva filosófica”. TÓPICO 4 | ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO POSITIVISMO JURÍDICO CONTEMPORÂNEO E DA SUPREMACIA DO PRINCÍ- PIO DA LEGALIDADE 57 Na medida em que admitirmos que certa cautela é desejável ao afirmarmos que os homens não deixam de viver de acordo com uma filosofia na qual acreditam, e enquanto atribuirmos a maior parte dos desacertos humanos exatamente à falta desse desejo de sintonia com ideais mais nobres, não poderemos negar a extrema relevância de crenças gerais a respeito da natureza do universo e do bem para a determinação do progresso ou da degeneração da humanidade. Algumas partes da filosofia inegavelmente produzem resultados práticos mais expressivos, mas não devemos por isso incorrer no erro de supor que a aparente inexistência de um suporte de ordem prática para determinado campo de estudo implica que a investigação desse campo seja destituída de sentido prático. Conta- se que um cientista, que costumava jactar-se de desprezar a dimensão prática de toda pesquisa, disse certa vez a respeito de uma: “O melhor disso tudo é que ela possivelmente não revelará qualquer utilidade prática para quem quer que seja”. Todavia, essa linha de pesquisa acabou levando à descoberta da eletricidade. De modo similar, estudos filosóficos por demais acadêmicos e aparentemente destituídos de utilidade prática terminam por exercer profunda influência sobre a visão de mundo, chegando até mesmo a afetar, em última instância, a ética e a religião que adotamos, pois as diferentes partes da filosofia, os diferentes elementos que compõem nossa visão de mundo, deveriam integrar-se. Tal é pelo menos o objetivo, nem sempre alcançável, de uma boa filosofia. Sendo assim, conceitos à primeira vista muito distanciados de qualquer interesse de ordem prática podem vir a afetar de modo vital outros conceitos que envolvem mais de perto a vida diária. Podemos compreender agora o motivo pelo qual a filosofia não precisa recear a questão de ter ou não valor prático. Devo ao mesmo tempo dizer que não aprovo de modo algum uma concepção puramente pragmática da filosofia. A filosofia merece ser valorizada por si própria, e não por seus efeitos indiretos de ordem prática. E a melhor maneira de assegurarmos esses bons efeitos práticos é nos dedicarmos à filosofia pela filosofia. Para encontrar a verdade, precisamos buscá-la desinteressadamente. E o fato de a encontrarmos se revelará muito útil do ponto de vista prático. Não obstante, uma preocupação prematura com seus efeitos práticos só dificultará nossa busca do que é de fato verdadeiro. Muito menos podemos fazer desses efeitos práticos o critério de sua verdade. As crenças são úteis porque são verdadeiras, e não verdadeiras porque são úteis. FONTE: <http://filosofia.paginas.ufsc.br/files/2013/04/O-que-%C3%A9-Filosofia-e-por-que-vale-a- pena-estud%C3%A1-la.pdf>. Acesso em: 22 ago. 2016. 58 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico, você viu que: • O Direito moderno é um paradigma assentado no princípio da legalidade.• Positivismo Jurídico é a síntese teórica, filosófica e política do Direito moderno que acabou por constituir-se em modelo dominante acerca do pensar e do agir jurídico. • As crenças aceitas e reproduzidas de neutralidade e autossuficiência do sistema normativo estatal são elementos nucleares e basilares da lógica jurídica contemporânea. 59 AUTOATIVIDADE Para finalizar este primeiro momento de estudo estamos propondo como atividade de verificação a elaboração de um breve texto de uma (1) página – na metodologia exigida (Arial, 11, espaço 1,5, justificado) abordando o seguinte tema: “OS FUNDAMENTOS DO POSITIVISMO JURÍDICO”. Sugere-se como texto base para elaboração a Introdução e Capítulo 1 do livro de Norberto Bobbio, disponível no site: <http://aprender.ead.unb. br/pluginfile.php/19632/mod_resource/content/1/Norberto%20Bobbio%20 -%20O%20positivismo%20juridico%2C%20Li%C3%A7%C3%B5es%20da%20 Filosofia%20do%20Direito.pdf>. Feito o trabalho releia brevemente a unidade estudada e compare seu texto com o conjunto do texto lido. 60 61 UNIDADE 2 A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Os objetivos desta unidade são: • compreender as características, fundamentos e legado da cultura greco- romana no âmbito da Filosofia do Direito; • identificar o contexto histórico desde o qual foi edificada a Filosofia Jurídica Medieval, destacadamente as correntes Patrística e Escolástica, de forma a individualizar os fundamentos desde os quais se edificou a cultura jurídica moderna; • individualizar e caracterizar a cultura jurídica no contexto do pensamento filosófico medieval como pressuposto histórico e científico do Direito Moderno. Esta unidade está dividida em dois tópicos e ao final de cada um deles você encontrará atividades que o auxiliarão no aprendizado. TÓPICO 1 – O LEGADO GRECO-ROMANO TÓPICO 2 – O PENSAMENTO MEDIEVAL 62 63 TÓPICO 1 O LEGADO GRECO-ROMANO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A partir dos estudos realizados na unidade anterior já é possível aprofundarmos melhor nossos estudos, especificamente na Filosofia do Direito, indo às raízes das questões centrais para as quais os pensadores do Direito buscaram soluções a fim de estabelecer fundamentos éticos, políticos e morais adequados para o agir jurídico. Inicialmente vamos lembrar que o estudo da Filosofia Geral e o da Jurídica, em geral, são associados com o processo de construção das ideias, métodos, conceitos e questionamentos ao longo da história do pensamento ocidental. Repetidamente os manuais acadêmicos costumam apresentar o desenrolar do pensamento de distintos autores desde a autorreferência, ou seja, é feita a reconstrução da história do pensamento filosófico sem o objetivo de discutir como as ideias podem mudar o mundo e como o mundo muda as ideias. Caso não estivermos atentos, podemos entrar em um interminável círculo de debates e reflexões, perdendo de vista a realidade que nos cerca e para a qual nossa preocupação deve estar voltada. Afinal, filosofar é uma atitude de questionamentos, porém devemos sempre ter o cuidado de não estar “nas nuvens”, pois se assim for, estaremos conhecendo tão somente a miséria da Filosofia e não a sua virtude. NOTA A expressão “Miséria da Filosofia” foi usada pelo pensador Karl Marx como título de sua importante obra em 1847. Este livro, considerado por alguns como a base do marxismo, é uma resposta ao economista Pierre-Joseph Proudhon que havia escrito acerca das contradições do sistema econômico de sua época. A crítica de Marx à obra é porque sua obra era essencialmente acadêmica, uma vez que analisava e compreendia a realidade a partir de abstrações. Marx critica o método: compreender a realidade desde o “mundo das ideias”. Diríamos hoje que Marx critica o “academicismo”! UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 64 A miséria da Filosofia é ficar perdida dentro de si mesma, de sua tradição, ou seja, é esquecer sua maior finalidade: o agir social. Ao reconstruirmos a tradição do pensamento filosófico, não podemos esquecer que as ideias são produzidas desde um “cenário” histórico, cultural e ideológico provocativo, e para essas provocações é que os filósofos buscam respostas. Sempre há um “pano de fundo” impulsionando o agir, mas não estamos situados naquele contexto histórico. O que buscamos é enfrentar os desafios de nossa realidade e, para tanto, refazemos nossa trajetória não como puro lazer ou “passatempo”, mas estabelecendo uma relação entre o pensar e o agir, entre as ideias e a realidade, compreendendo a Filosofia como práxis. Práxis é uma palavra de origem grega, utilizada inicialmente por Aristóteles, que significa conduta ou ação. Portanto, refere-se à atividade oposta à teoria. Embora o termo tenha sido usado por muitos pensadores, foi em Karl Marx que ganhou ressignificação. De acordo com a filosofia marxista, práxis é o fundamento de toda teoria, qual seja, o de transformação da realidade. Marx utiliza o conceito como crítica ao idealismo, compreensão das coisas e do mundo a partir das ideias. Deixando de lado o idealismo vulgar e fantasioso (a face miserável do pensar) que trabalha a realidade não como é, mas como se imagina ser, é que vamos revisitar historicamente a construção do pensamento filosófico jurídico. Lembra o pensador Antonio Carlos Wolkmer que reexaminar a história do pensamento jurídico é dar uma nova leitura ao Direito, uma vez que: A história expressa a complexa manifestação da experiência humana interagida no bojo de fatos, acontecimentos e instituições. O caráter mutável, imperfeito e relativo da experiência humana permite proceder múltiplas interpretações dessa historicidade. Daí a formulação, ora de uma História oficial, descritiva e personalizada do passado, e que serve para justificar a totalidade do presente, ora da elaboração de uma História subjacente, diferenciada e problematizante que serve para modificar/recriar a realidade vigente (WOLKMER, 2007, p. 14). Como já estudamos, o pensamento jurídico hegemônico foi elaborado como uma espécie de “engenharia” social e política, relativamente bem-sucedido, na Modernidade, a partir de uma soma de fatores e elementos que possibilitaram a edificação de um projeto jurídico cientificista e técnico de matriz eurocêntrica. O eurocentrismo é uma concepção segundo a qual o espírito europeu é uma verdade absoluta e carrega em si um todo intelectual da humanidade. Esta concepção, chamada por Enrique Dussel como “paradigma eurocêntrico”, é a tese que acabou por impor tanto nas áreas centrais como nas periferias mundiais o pressuposto segundo o qual a modernidade é um fenômeno exclusivamente europeu desenvolvido desde a Idade Média e, desde aí, se difunde como “história mundial” (DUSSEL, 2012, p. 51). A Modernidade, vista pela perspectiva eurocêntrica, tem como antecedente a Idade Antiga e TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 65 preparatória à Idade Média, e desde aí a Europa adquire lugar privilegiado e acumulador da construção do conhecimento. Apresentamos uma “linha do tempo” da Filosofia ocidental, é apenas uma imagem para situar-se. A história não é linear, tampouco a Filosofia é somente eurocêntrica. TEMAS PARA ESTUDO: Verdades, Conhecimento, Ética e Moral, Política, Liberdade, Cultura, Violência, Ideologia, Bioética e outros. QUADRO 2 – FILOSOFIA OCIDENTAL MITO Grécia Antiga NASC. FILOSOFIA Filosofia Antiga FILOSOFIA MEDIEVAL Filosofia Medieval RENASCENÇA Renascimento FILOSOFIA MODERNA Filosofia Moderna ILUMINISMO Iluminista FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA Filosofia Contemporânea - Mitologia - Séc. VII a.C - VI d.C VII ao XIV XIV - XVI XVII - XVIII XVIII - XIX XIX- XX - Cosmos (mundo) - Viagens Marítimas - Moedas - Cidades - Escrita - Política Característica Valorização da Teologia - Teocentrismo - Padres Igreja Característica - Humanismo - Homem (centro) Característica - Racionalismo - Ceticismo, Dúvida Característica - Razão - Política - Grandes Revoluções - Progresso - Mercantilismo Característica - Progresso - Técnicas - As Grandes Guerras - Ditaduras - Socialismo Pensadores - Platão - Sócrates - Aristóteles - Sofistas Pensadores S. Agostinho S. Tomás Pensadores - Maquiavel Pensadores - Descartes - Bacon - Hobbes - Pascal - Locke Pensadores - Hume - Rousseau - Kant Pensadores - Hegel - Marx - Sartre - Heidegger FONTE: <http://amorsaudeevida.blogspot.com.br/2014/04/linha-do-tempo-da-filosofia.html>. Acesso em: 20 jul. 2016. Vamos iniciar o estudo da trajetória da Filosofia do Direito buscando compreender: • Quais elementos caracterizaram cada momento da historicidade pré-moderna da filosofia jurídica. • As contribuições de cada etapa histórica ao pensamento jusfilosófico pré-moderno. • Como foram respondidas as grandes questões acerca da justiça e do direito em distintos momentos a partir de diferentes contextos. Na etapa contemporânea da vida social necessitamos redefinir nossa trajetória na tentativa de visibilizar um futuro mais generoso e humanizador, o que pretendemos desde uma revisão da história do pensamento filosófico do direito, pois, ao que parece: O direito perdeu sua identidade, rendeu-se a novos deuses: é visto como servo da economia, da política e da utilidade, enquanto exigimos que seja visto como fenômeno moral. Nunca antes, parece, exigiu-se tanto do direito; nunca antes investiu-se tão pouca autoridade nele (MORRISON, 2006, p. 17). UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 66 2 DO MITO AO LOGOS Uma das problemáticas que se deve ter presente é acerca das fontes de estudo do direito e da filosofia grega e romana. Como boa parte da literatura jurídica e filosófica foi perdida, sobretudo a dos pré-socráticos, dos sofistas, de Demócrito, e tantos outros autores, nosso estudo deve ser completado por outras fontes. Também se perderam escritos de Platão e Aristóteles, restando fragmentos e partes incompletas de importantes obras. FIGURA 14 - FRAGMENTO DA “ILÍADA” Fragmento da “Ilíada”, de Homero, arquivada no Neues Museum, em Berlim, que preserva parte da obra. FONTE: <https://jrodrigorodriguez.wordpress.com/2010/02/07/berlim-e-hamburgo-aos- pedacos-xix-homero-ausente/>. Acesso em: 16 ago. 2016. Estamos acostumados a nos maravilharmos com a magistral obra dos juristas romanos e da genialidade da cultura grega, sem, muitas vezes, nos darmos conta das convergências entre ambas. A expansão do Império Romano e o aprimoramento da vida na pólis grega são fatores importantes para compreendermos a fundação de uma nova concepção de cidadania e política. Com diferenças e particularidades, o certo é que o espírito prático romanista e seu legado técnico de direito, um dos pilares da cultura ocidental, e a sofisticação da cultura grega vão encontrar na filosofia o ponto de encontro entre ambas. A ciência jurídica romana, no período clássico, tem na filosofia grega, particularmente no platonismo, paripatetismo e estoicismo, a fonte ética e moral de sustentação. Não que os romanos não tenham autonomia de pensamento, mas há de ser lembrado que a civilização romana foi plural e eclética, aprendendo ao longo de séculos de história de dominação a conviver e absorver distintas culturas. As primeiras especulações acerca da justiça na Grécia antiga são fundadas na teogonia – antiga narrativa da origem do cosmo e dos deuses –, que concebia, desde um politeísmo antropomórfico, a solução dos problemas humanos. A relação entre a natureza e os humanos estruturou o espírito inicial da filosofia. TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 67 O que aconteceu foi que categorias com que teve que encarar o mundo natural foram tiradas da experiência da vida humana, intuitivamente expressa na mitologia, e deste modo se deve reconhecer, [...] que essas categorias (e em especial a noção de ‘lei’, aplicada aos fenômenos da realidade física) têm origem social. A passagem do mito para o logos, como se denominou o processo mental que deu lugar à filosofia enquanto conhecimento racional rigoroso, não se deu de uma só vez, e por longo tempo coexistiram as duas modalidades de enfrentar o mistério do Ser (TRUYOL Y SERRA, 1982, p. 86, grifos nossos). A inicial filosofia helênica buscava compreender o enigma da existência humana desde o desvelamento do que seria o elemento essencial, primordial, estável e unitário que rege o cosmos humano e não humano. A esse princípio a que “todas as coisas” estão ligadas e a que “tudo volta” deram o nome de physis – natureza. Ao mesmo tempo, a vida humana ia se organizando na pólis – um espaço de convivência comunitária, um pequeno cosmos, a política e a autoderminação iam se consolidando. Assim, a pólis foi sendo o núcleo central articulador da cultura grega e manifestação jurídica-política, que somadas exprimem uma das maiores expressões civilizatórias da história. A visão de mundo complexa e particularmente grega deve ser compreendida a partir dos arquétipos tão marcantes daquela cultura. Subjacente às ideias era mantida uma visão de cosmo (kósmos – universo humano e não humano harmônico e estruturado), ordenado por princípios imutáveis e universais transcendentais concebidos desde formas e conceitos divinos. Embora distintos no pensar e em momentos históricos diferentes, os filósofos gregos manifestaram um desejo de encontrar os elementos e arquétipos ordenadores para o caos da vida. Esses princípios estavam ora nas formas geométricas e matemáticas; ora nos opostos (homem/mulher; luz/escuridão; amor/ódio; bem/mal, entre outros), ora nos valores morais e na justiça. FIGURA 15 - ATLAS Atlas ou Atlante é um dos titãs gregos – figuras de poderes desproporcionais de força e violência, desordem e caos –, condenado por Zeus a sustentar os céus para sempre. O castigo lhe foi imposto após tentar tomar o Olimpo. FONTE: <http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/2010/10/atlas.html>. Acesso em: 16 ago. 2016. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 68 No pensamento grego havia um permanente fluxo entre a vida interior e exterior: “tudo flui, nada persiste nem permanece o mesmo”, defendia Heráclito de Éfeso. E assim, desde as divindades e os arquétipos serão elaborados os fundamentos de filosofia e justiça daquela sociedade. Protegida pelos deuses, a pólis era regida por normas tradicionais – themistes (regulamentações) – que codificadas constituíam o nomos – ordem da pólis . Como você deve saber, as pólis constituíam formas diversas de organização que concretizava a convivência desde os valores de todos por todos. Graças à vida na pólis era possível a liberdade individual assegurada pela justiça, inicialmente compreendida como reparação a tudo que feria a ordem estabelecida e, posteriormente, vai se identificar como harmonia e equilíbrio nas relações entre os homens. [...] se o apego da pólis às suas autocracias e independência pôde servir de estímulo à emulação, também é certo que trouxe consigo a invertebrada atomização do mundo grego, cuja unificação acabou por ser imposta do exterior, à custa da própria liberdade. Essa situação só em parte foi mitigada por confederações e ligas de cidades, estabelecidas em geral sob a direção de uma pólis hegemônica (Atenas, Esparta, Tebas) (TRUYOL Y SERRA, 1982, p. 87). A íntima relação dos termos “política” e “pólis” não decorre tão somente do vínculo semântico. A multifacetada experiência ocorridaem Atenas entre os séculos IV a VI a.C. evidenciou contradições capazes de gerar um ambiente decisivo para o surgimento da reflexão política. O esplendor vivido pela pólis ateniense em séculos anteriores, canalizado para o campo intelectual, transmutou o amálgama composto pela filosofia, ciência e cultura para um campo específico do conhecimento e da ação: a política. Para o povo grego, o modo de vida digno dependia de uma precondição: o exercício da liberdade. A liberdade significava a independência em relação às necessidades básicas de vida, eliminando qualquer modo de vida ligado à sobrevivência. Não apenas os escravos não possuíam liberdade, mas também os artesãos livres e os mercadores, ou seja, estavam excluídos todos os que não podiam dispor de liberdade de ação e de movimento. Apenas aos homens livres pertencia o direito de escolha de uma vida digna: a vida voltada aos prazeres do corpo – onde o belo é consumido tal como é dado; a vida dedicada aos assuntos da pólis – atividade que por excelência produz belos efeitos; e a vida de filósofo – dedicada à contemplação e investigação das coisas eternas, cuja beleza não poderia ser alterada nem pela produção nem pelo consumo humano. Na concepção de Hannah Arendt (1983), dentre as atividades humanas gregas que mantinham um bios digno – um modo de vida autenticamente humano e livre de necessidades e privações –, a vida política ocupava especial destaque, pois viver na pólis significava desfrutar de uma forma de organização política particular e livremente escolhida. TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 69 Não se tratava apenas de viver num aglomerado urbano, mas, sobretudo, de ser parte integrante de uma unidade política e social organizada, limitada territorialmente; fazendo com que o grego, como afirma Touchard (s/d, p. 28), “reflita sempre sobre si próprio como cidadão”. A pólis representava, como modelo ideal de agrupamento humano, algo mais do que uma forma possível de organização: era uma dádiva divina que possibilitava conferir sentido e individualidade à existência humana. A grande marca do espírito grego, uma cultura ímpar, é a busca de compreensão da relação do cosmos – mundo circundante – com o ser humano na tentativa de edificar um tipo ideal de governo desde uma Politeia, fundada na ética e no bem comum que, irrenunciavelmente fosse capaz de servir de referencial para a ação dos governantes. Este “espírito” foi norteando as distintas formas de governo da pólis – da monarquia à aristocracia e posteriormente a oligarquia seguida pela tirania –, formas que acabaram por se tornarem objeto de reflexão do mundo existencial, humano e não humano. Esta é uma marca do espírito grego: através da razão, compreender a relação do homem com o mundo circundante instituído, como busca de um tipo ideal de governo, de uma Politeia – Constituição – fundada no bem e na ética, que pudesse servir como referencial último para a ação dos governantes. É certo que houve um “mundo pré-político” grego, o mundo homérico, onde havia um sentido embrionário de pólis. Ilíada fala de um mundo dominado pelo espírito heroico de homens que já conheciam a vida organizada da cidade. Jaeger (1989, p. 29) compreende que a Ilíada descreve um tipo próprio de existência: “para o herói – o mais nobre dos homens, porém frágil por sua condição humana – a luta e a vitória representam o conteúdo da própria vida”. Com a chegada e aperfeiçoamento do alfabeto fenício na Grécia são escritos poemas épicos que traduzem a cultura do povo grego em uma fase primitiva. Os mais famosos são atribuídos a Homero (século XI a.C.): Ilíada e Odisseia, constituídos, ambos, por 24 cantos. Ilíada canta episódios do décimo ano da guerra de Troia, tendo como personagem central Aquiles, um semideus (herói), filho de Peleu (rei de Tessália) e da sereia Tétis, que com sua cólera e bravura combate Heitor, um dos mais valentes dos chefes troianos. Dentre outros episódios, a estória narra a morte de Aquiles (flechado no calcanhar por Páris) e o fim da guerra de Troia (ardil do cavalo de madeira). Odisseia narra as aventuras de Ulisses (rei de Ítaca e herói da guerra de Troia) que se destaca por sua prudência e astúcia. Odisseia descreve a volta de Ulisses após a queda de Troia. Passando por desgraças e triunfos, retorna Ulisses para junto de sua amada Penélope disfarçado de mendigo. Vencendo a prova exigida por Penélope, apenas Ulisses seria capaz de disparar 12 flechas, e mesmo velho e coberto de farrapos é reconhecido. Como recompensa por seus feitos, Ateneia – deusa protetora de Ulisses – devolve-lhe seu aspecto juvenil e reiniciam novas aventuras. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 70 O mesmo modelo de herói em Odisseia, regressando de maneira aventurosa de sangrentas batalhas, inspirado pelo modo de ser da aristocracia, deseja a fama partilhada com amigos e familiares. A nobreza descrita em Ilíada é idealizada pelo imaginário transmitido pela tradição; uma casta que tenta permanecer intocável, resistindo às mudanças políticas. Em Odisseia a mesma nobreza é descrita como uma classe ainda fechada, que, apesar de forte sentimento de humanidade, é consciente de seus privilégios, entendendo-os como desígnios divinos. Homero narra, segundo Jaeger (1989), uma concepção que precedeu e fundamentou o pensamento político clássico grego. A idealidade humana da antiga pólis permaneceu no coletivo, convertendo a cidade “[...] num ser especificamente espiritual que reunia em si os mais altos aspectos da existência humana e os repartia como dons próprios” (JAEGER, 1989, p. 96). A pólis – o cosmos político – dá ao homem grego, ao lado de sua vida privada, a vida de cidadão, permitindo a identificação de uma segunda existência: o comum, através do qual o homem realiza suas virtudes de convivência política. A identidade de um grego não era restrita a seu nome e a de seu pai, mas de sua cidade de origem. A consciência de cidadania, que desde tempos imemoriais pertencia à aristocracia, fazia com que o cidadão exigisse e lutasse por garantias de vida privada e comum, já que ambas constituíam uma só. Seguramente é por este fato que Aristóteles define o homem como um animal político: um ser com qualidade de cidadão. Segundo o pensamento de Hannah Arendt (1983, p.16), a convivência plural da pólis é o que possibilitava uma significação ao humano, pois tal coexistência é o pressuposto da identidade individual e política. A escolha de um modo de vida digno, condicionada à ação política, dependia de uma precondição determinante: o exercício da liberdade. A noção de liberdade era o diferencial entre um grego e um bárbaro. A liberdade, conceito aliado à ideia de lei, era uma condição que os gregos sempre exaltaram. Viver livre era, fundamentalmente, além de não ser escravo de ninguém e de nenhuma coisa, também o poder de participar politicamente. Tal condição resultou de paulatina conquista jurídica: a liberdade civil, conquistada com as reformas de Sólon (594 a.C.), e o avanço democrático com a participação nos órgãos de decisão política. Assim, liberdade e democracia eram inseparáveis. Democracia significava a obediência da lei na igualdade, sendo, portanto, a liberdade, como define Touchard (s/d, p. 39), “[...] um estatuto de duplo aspecto: por um lado, independência em relação a toda espécie de coação pessoal; por outro, obediência às disposições gerais”. A cidade permitia a emancipação do cidadão na medida em que libertava o indivíduo da submissão pessoal e a transferia para as obrigações coletivas. TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 71 Sólon, apesar de nobre, havia feito fortuna como comerciante. Empreendeu uma reforma social abolindo a escravidão por dívidas – proibiu que a liberdade do credor fosse garantia de pagamento de dívida– e deu aos camponeses uma parte das terras que até então pertencia exclusivamente aos nobres. No âmbito político, além de manter os órgãos governamentais existentes (Arcontes e Areópago), acrescentou dois novos corpos políticos: a Assembleia Popular, constituída por todos cidadãos sem distinção de nascimento, e o Conselho dos 400 (Senado). Dividiu os atenienses em quatro classes de acordo com a riqueza com gradativa proporcionalidade de direitos. A quarta classe, os mais pobres, não pagavam impostos. Ao conceder o privilégio de voto à quarta classe, preparou o caminho para a democracia. De todas as cidades gregas, em nenhuma outra havia tão estreito laço entre o cidadão e a pólis como o que existia em Atenas. Por esta razão, a queda de Atenas em 404 a.C., após uma guerra de 30 anos, representou uma catástrofe, com repercussões para além do âmbito político, atingindo a própria moral daquela sociedade. Péricles, que governou Atenas de 461 até sua morte, em 429, havia fundado um império que parecia ser a eterna morada da civilização ateniense. A súbita perda de hegemonia de Atenas abalou o mundo helênico, porque “deixava nos limites do Estado grego um vazio difícil de preencher” (TOUCHARD, s.d., p. 335). Assim, o século V a.C. transformou-se num momento de reconstrução interna e externa de Atenas. “Democracia” é o termo que define oficialmente o modelo político de Atenas no século V. Péricles emprega a palavra “democracia” na oração fúnebre que Tucídides lhe atribui. Como princípio político, designa um modelo oposto à tirania e oligarquia no qual a lei é igual para todos (isonomia), com igual participação nos negócios (isegoria) e no poder (isocracia). Afirma o referido autor que democracia se caracteriza como: Barreira contra o abuso da força (Hybris) e os apetites excessivos (pleonexia), ela desempenha no universo político o mesmo papel que a medida (sofrósine) no universo moral (TOUCHARD, s.d.). Os longos anos de guerra absorveram recursos que causam acentuado empobrecimento de Atenas, e, com isso, as lutas de classe acirram-se, polarizando forças sociais em antagonismos antropofágicos. O modo de vida ateniense, até então inabalável, teve que ser recomposto. A derrota da Liga de Delos na Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), com a vitória de Esparta e a imposição do regime oligárquico dos Trinta Tiranos, mostrou que as instituições políticas são tão efêmeras quanto qualquer sonho de eterna dominação e riqueza. O decréscimo populacional, a destruição das áreas agrícolas acompanhada de êxodo rural, a falta de alimento e o forte abalo econômico são alguns dos fatores que produziram um turbilhão de decadência. A participação e o interesse do cidadão nas atividades públicas, que até então davam fiança à administração política, tornaram-se objeto de repugnância. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 72 Foi a partir desta dolorosa experiência que surgiu a necessidade de uma reflexão política interna, sendo este um dos fatores decisivos para a rápida e surpreendente superação da profunda crise em que aquela sociedade havia mergulhado. Em nenhum outro momento da história o povo ateniense havia se dado conta de que sua maior força estava na cultura. ATENCAO O resgate da aparentemente perdida honra ateniense passa a nortear o cotidiano nas praças e nos tribunais. Uma onda de esperança impregnava o discurso dos poetas, dos políticos e jovens. A clara consciência do “espírito grego”, que se traduzia como distinção em relação aos demais povos, e a realização da democracia no século anterior ofereciam maior capacidade de superação aos entraves políticos, sociais e econômicos dos séculos V e IV a.C. Neste momento, o processo histórico rompe com a estabilidade da ordem social até então instituída. Assiste-se a um avanço cultural decisivo que criou um fértil terreno para o pensamento político e filosófico. É superado o antigo paradigma cosmológico no qual ao homem cabia apenas aceitar o destino de nascer, viver e morrer sob a ordem do inevitável e imutável, desaparecendo o sentido de vivência como mágico círculo natural de ordem fora do qual apenas existia o caos. Paulatinamente ia abrindo espaço público para os debates, acentuando- se a capacidade de pensar e argumentar como forma de convencimento. Assim, pensadores eloquentes iam influenciando as massas. Este movimento intelectual crítico das autoridades e das convenções acaba por criar um abismo entre as velhas crenças, preocupadas com o mundo da natureza, e os assuntos da pólis. Os sofistas lideram estes novos debates, auxiliando seus discípulos a obter mais sucesso da vida pública do que na especulação teórica. Sophistes era uma expressão genericamente utilizada para designar pessoas, ao mesmo tempo hábeis e sábias, que, por volta de 450 a.C., passou a ser usada para identificar “professores viajantes” que ensinavam por meio de conferências públicas a arte da eloquência e da sabedoria “prática” (areté). Os sofistas (sábios) eram estrangeiros, portanto, não cidadãos gregos, e sem compromisso com os destinos da cidade. O objetivo desses “professores itinerantes” era ensinar a arte do bem falar e argumentar, sem a preocupação com a essência valorativa (moral e ética) do discurso. Os sofistas mais conhecidos são Hípias (nascido na Élida no século V a.C.), Górgias (487-380 a.C.) e Protágoras (485-410 a.C.). Estes intelectuais constituíam uma nova classe de profissionais, que apesar de não partilharem nenhuma escola filosófica, possuíam um traço comum: afastaram definitivamente o pensamento grego das preocupações naturais e centraram-se nos assuntos relativos à conduta humana. Com isto, o zoon politikon, TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 73 definição de homem usada mais tarde por Aristóteles, muda de eixo. Tratava- se agora de unir, de maneira convincente, duas atividades políticas: “a ação (práxis) e o discurso (léxis), dos quais surge a esfera dos negócios humanos (taton anthropon pragmata, como chamava Platão), que exclui estritamente tudo o que seja apenas útil e necessário” (ARENDT, 1983, p. 34). A experiência crescente do exercício político vai acentuando o discurso como meio de persuasão, meio de comunicação específico que alia o pensamento filosófico ao político. Consolida-se uma forma de pensar onde a filosofia passa a ser a fonte primordial de conhecimento e poder. Na medida em que a capacidade de contemplação, adquirida pelo ato de filosofar, confere legitimidade racional ao discurso e à prática política, é rompida a submissão injustificável ao nomos: agora é necessário compreendê-lo racionalmente. Sob este “pano de fundo” surge uma figura que será imortalizada como a encarnação de todas as virtudes ideais de um cidadão: Sócrates. FIGURA 16 - ESCULTURA DE SÓCRATES EXPOSTA NO MUSEU DO LOUVRE FONTE: <http://faunosmitos.blogspot.com.br/2008/11/scrates-era-um-fauno_8005.html>. Acesso em: 16 ago. 2016. O Sócrates (469-399 a.C.) histórico, segundo Jaeger (1989, p. 343-400), não possuía nenhum traço de origem, nem de classe social, que o predestinasse a reunir em torno de si filhos da aristocracia. É possível que Arquelau, quando então com 30 anos, o tenha conduzido no círculo aristocrático. Em idade madura, viveu o apogeu e o florescimento da cultura ateniense, tendo discípulos de relevância política, como Alcebíades e Crítias. A exigência da consolidação do poder ateniense levava seus cidadãos a grandes sacrifícios e Sócrates sempre se destacou como um bravo combatente. Pessoalmente era radicalmente contrário à ambição pelo poder por entender que as razões espirituais eram superiores às causas políticas. Na escola ateniense de atletismo, o ginásio, local também de torneio de pensamentos, torna-se uma figura indispensável, por ser um autêntico médico preocupado com o bem-estarfísico e espiritual de seus amigos. A “ginástica de pensamento”, a que obrigava os jovens, os fascinava, fazendo perguntas certeiras para a revelação dos talentos daqueles que o procuravam. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 74 Identificado por alguns como sofista e ridicularizado por outros de maneira impiedosa, como por Aristófanes na peça teatral As Nuvens, Sócrates é um homem de seu momento histórico. Viveu numa Atenas que assistia ao nascimento do ato de filosofar consubstanciado com o de fazer política. Em Críton, Platão imortaliza a atitude de Sócrates que faz de sua morte o seu último grande ensinamento: a obediência às leis da cidade é um dever para todos, mesmo quando elas se voltam contra o cidadão. Compreendendo que política e ética são inseparáveis, Sócrates tinha claro o conflito de ambas na prática, chegando a afirmar diante dos juízes que a luta pela justiça deve ser do homem comum e não dos homens públicos. Observava que os crimes mais graves eram cometidos por um homem quando estava no poder, por ser a onipotência a maior tentação que uma pessoa pode ter. Por esta razão, o entendimento de Sócrates é o de que a direção política deve possuir um cunho filosófico, sendo esta a grande convicção desenvolvida por Platão, seu maior seguidor. Sócrates, um homem atormentado pela consciência do saber, que carregava o insuportável fardo de conhecer a redenção de uma sociedade decadente e criminosa, não poderia fugir da missão política que deveria cumprir. Sua escolha pela morte representa o conflito político entre o pensador e a pólis. Embora não desejando desempenhar nenhum papel político, queria, acima de tudo, que a filosofia tivesse algum sentido para a cidade. Seu julgamento e morte é antes de mais nada uma atitude humana diante da esfera política. A partir de então, os filósofos se sentiram mais responsáveis pela cidade. A introdução do humanismo no pensamento político e filosófico foi o grande legado de Sócrates, pois isto foi o que possibilitou que seus seguidores pudessem definir conceitos éticos capazes de conferir validade à ação política. E exatamente este foi o ponto de partida para a reflexão política: a racionalização de uma conduta ética como sinônimo de sabedoria. A dialética é o método pedagógico através do qual Sócrates refletia. A partir do diálogo irônico e sarcástico, para que o interlocutor chegue às suas próprias conclusões, estimula a reflexão entre “ideias opostas”. Essa forma de educação custou a Sócrates sua vida. Foi acusado de ateísmo e de corromper a juventude. O pressuposto de seu pensamento é o reconhecimento de seus próprios limites e ignorante de sua ignorância, pois só assim a razão poderia superar a mera opinião. 3 PLATÃO – FILOSOFIA, POLÍTICA E JUSTIÇA Platão, como era próprio dos jovens da aristocracia ateniense, tinha inclinação para os negócios públicos. O regime dos Trinta, que emerge da crise ateniense após 404 a.C., e o breve retorno da democracia, findada em poucos meses, fazem ruir suas ilusões em relação à política. Entretanto, o grande golpe que mais o abalou, com então 29 anos, foi a condenação e morte de Sócrates. Devido a esse episódio Platão já não crê mais nos TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 75 regimes políticos de sua época, sobretudo na democracia, por entender ser o pior dos regimes que tornava possível a política ser dominada por mercenários dominados por paixões e meras opiniões. Platão, seguindo os ensinamentos de Sócrates, se convence definitivamente que apenas o filósofo poderia ser governante pois apenas ele, conhecendo a verdadeira justiça, seria capaz de melhor conduzir a política. FIGURA 17 - PLATÃO – MUSEU DO LOUVRE FONTE: <http://www.filosofia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe. php?foto=437&evento=6>. Acesso em: 16 ago. 2016. Segundo Philonenko (1997), “Platão” era uma alcunha de Aristocles (428- 7-348-7 a.C.). Ateniense de nascimento, do lado paterno descendente de Codrus, último rei de Atenas, que por sua vez descendia diretamente do próprio deus Poseidon; e, do lado materno, de Perictine, descendente de Sólon, filha de Crítias, dois dos Trinta Tiranos que dominaram Atenas por algum tempo. Após seu nascimento, sua mãe enviúva e volta a casar-se com Pirilampo, seu tio materno, com quem teve um filho, Antifonte, narrador de Parmênides. Era um aristocrata de alta linhagem e como tal recebeu a alta educação exigida por sua posição social. Ligou-se intimamente com Sócrates, um homem do povo, de cuja convivência, salienta o referido autor, houve um curioso resultado: Sócrates nunca se tornou aristocrata, nem Platão um homem do povo. É duvidosa a maneira como Platão se aproxima de Sócrates, mas é provável que, por ter sido preparado para exercer atividade política, tenha se ligado a Sócrates por suas pregações sobre a justiça que iria reinar na cidade quando o princípio da consequência substituísse o princípio da igualdade. A desordem e impotência do governo democrático no desastre político de 404 (fim da guerra do Peloponeso) e o despotismo oligárquico instalado foram os motivos que conduziram Platão a ligar-se ao homem de quem dirá no final de Fédon: “[...] que entre todos os do seu tempo que lhe foi dado conhecer, ele foi o melhor e, além disso, o mais sábio e o mais justo” (PHILONENKO, 1997, p. 25). Em A República, referindo-se aos sofistas como mercenários e falsos pensadores políticos, Platão (s.d., p. 283) afirma: UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 76 Cada um desses particulares mercenários, a quem essa gente chama Sofistas e considera como rivais, nada mais ensina senão as doutrinas da maioria, que eles propõem quando se reúnem em assembleias, e chamam a isso ciência. É como se uma pessoa, que tenha de criar um animal grande e forte, aprendesse a conhecer as suas fúrias e desejos, por onde deve aproximar-se dele e por onde tocá-lo, e quando é mais intratável ou mais meigo, e porquê, e cada um dos sons que costuma emitir a propósito de cada coisa, e com que vozes dos outros se amansa ou irrita, e depois de ter adquirido todos estes conhecimentos com a convivência e com o tempo, lhes chamasse ciência e os compendiasse, para fazer deles objeto de ensino, quando na verdade nada sabe do que, destas doutrinas e desejos, é belo ou feio, bom ou mau, justo ou injusto, e emprega todos estes termos de acordo com as opiniões de grande animal, chamando bom àquilo que ele aprecia, mau ao que ele detesta, mas sem ter qualquer outra razão para tanto, antes designando por justo e belo o inevitável, porquanto nunca viu a diferença essencial entre a natureza da necessidade e a do bem, nem é capaz de a apontar a outrem. Com a morte de Sócrates, Platão sabe que Atenas não era um lugar seguro e decide partir para a Itália e Secília Meridional, tornando-se próximo de Díon – cunhado do tirano de Siracusa Dionísio I, o Velho, sucedido por seu filho Dionísio, o Jovem – o que lhe permitiu visitar a corte muitas vezes e, movido por sua crença, tenta convencer o monarca de que o verdadeiro rei deveria ser um filósofo. Mais uma vez passa por uma experiência dramática: é embarcado à força num navio de Égina, cidade então em guerra com Atenas, vendido como escravo, retornando apenas para Atenas graças ao resgate feito por Anníceris. Após sua primeira viagem àquelas terras, em 387 a.C., volta para Atenas e funda a Academia, próximo ao santuário do herói ático Academos, que perdurou até 529, quando é desativada por Justiniano. Seus primeiros diálogos refletem a grande preocupação política que na obra República, tradução de Politeia (palavra mais rica de significado), atinge plena maturidade. A República é um grande diálogo que reflete um espírito inquieto que pretende, através da reflexão, encontrar um melhorcaminho para o governo da cidade. Buscando uma resposta para o que é a justiça, segundo Chevalier (1982), desta obra platônica podem ser extraídas três teorias: a da justiça; da educação, condição primordial para a realização da justiça; e da comunidade, condição negativa, mas necessária. Como herdeiro do pensamento pitagórico e seguidor dos princípios socráticos, para Platão, a justiça é concebida como virtude universal que engloba prudência, sabedoria e fortaleza, na medida em que dependem da existência daquela, pois apenas com tal coexistência torna- se possível a harmonia social. Para Pitágoras a conduta humana em sociedade possui como referencial a “ordem natural das coisas divinas”, ou seja, o comportamento ou está de acordo ou em desacordo com tal parâmetro. A justiça é tomada como valor absoluto que exige do indivíduo qualquer sacrifício para mantê-la: entre sofrer uma injustiça e causar-lhe a outrem é preferível sofrê-la. Segundo Bittar (1999, p. 51), o paradigma da justiça é expresso no contexto da filosofia pitagórica como inúmeros conceitos, podendo ser resumidos nos seguintes preceitos: 1. Respeito aos deuses e ao culto. 2. No sentido judiciário (post factum) como corretivo em caso de ocorrência de uma injustiça. TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 77 3. Justiça normativa (ante factum) como algo preventivo colocado à disposição dos politai como garantia da ordem e bem comum. 4. Como sinônimo de autoridade e obediência estando implícita a ideia de hierarquia. 5. Com sentido ético como piedade. A doutrina pitagórica, segundo o referido autor, afora seu caráter místico, representou uma importante base para o pensamento platônico. Moral e política na teoria platônica formam a base imutável do Bem Comum que não podem estar à mercê de perturbações “do devir”. Para Platão, a verdadeira política deve estar a salvo das paixões e ilusões e a chave para a verdadeira política seria a Filosofia. Por esta razão a Alegoria, ou Mito da Caverna é um dos núcleos centrais de suas ideias. Com este referencial, Platão exclui a utilidade, conveniência e interesse da verdadeira sabedoria de governar, pois a grandeza da política da cidade é medida de acordo com sua relação com o ideal de justiça, que não é outra coisa senão o Verdadeiro Bem aplicado à convivência social. Ao instituir a política como ciência, Platão busca estabelecer princípios teóricos para bem governar, e este foi o início de uma reflexão legada a toda geração de teóricos que o sucederam. Na República, Platão idealiza uma cidade hierarquizada, governada por filósofos com virtude própria, fundada na Razão ou “Ciência do Bem” (ciência política). Nesta linha de pensamento, a justiça nada mais é do que o respeito à hierarquia: cada um deve exercer “na” e “para” a cidade o papel que lhe cabe. Reconhecendo a diversidade humana, a Cidade de Platão seria constituída por três classes distintas: a primeira, dos chefes de governo com sabedoria e virtudes próprias; a segunda, de auxiliares ou guerreiros dotados de coragem; e a terceira, dos artífices ou camponeses, quer sejam proprietários ou não, virtuosos por sua temperança, ou seja, com capacidade de resistir aos apetites. A convivência com tal diversidade permitiria a realização da perfeita justiça na medida em que cada qual cumprisse sua função. Cada classe, representando uma parte da alma, permitiria a existência de um único corpo harmônico: A Cidade. Ao que parece, a construção teórica platônica pretendia eliminar a divisão social dominante em seu tempo e a causa da decadência moral da civilização ateniense: a luta de ricos contra pobres, dos excluídos contra a aristocracia dominante. Seja como for, a idealização de uma cidade homogênea – como se poderia afirmar atualmente, totalitária – era a forma de eliminar o modelo político que Platão considerava o pior de todos: a democracia, para a qual a ética de governo era o individualismo. A cidade perfeita era, para Platão, uma autêntica oligarquia de sábios esclarecidos, uma vez que o mérito de governar não poderia ser obtido pelo nascimento nem pelas aptidões naturais, mas pela virtude adquirida através do conhecimento científico. Platão, ao instituir um estudo normativo sobre princípios teóricos que devem reger a convivência dos homens, inaugura a política como ciência. A invenção da política foi uma resposta ao conflito, aparentemente indissolúvel, entre aqueles cujo saber e prática era construído unicamente pela lógica do poder; e os filósofos desejavam mostrar que, afinal de contas, não eram inúteis, pois conheciam a “ciência do agir”, e esta sim, era o fundamento legítimo da política. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 78 Você já compreendeu o que buscavam Sócrates e Platão? O filósofo, ao assumir “carregar o fardo” de governar, tenta evitar ser governado pelos piores. Não é o medo do próximo que o impulsiona, mas a consciência de seu compromisso para com o coletivo: sabe que o conhecimento não deve ser apenas objeto de contemplação, antes de tudo, deve orientar a prática. A política é inventada como uma ciência que não se confunde com especulação. Platão mostra que a ação de governar deve combinar a aptidão de comandar com sabedoria e justiça. Em suma, ao governante cabe saber diferenciar a justa relação entre o múltiplo e o uno, ter dignidade e legitimidade a partir de uma causa transcendente verdadeira. O esforço em idealizar uma cidade sob o ponto de vista filosófico, que nunca chegou a ser levada a sério, evidenciando-se assim que existe “algo mais” no exercício da política: um permanente conflito entre a ação e a reflexão. Platão soube racionalizar o conflito a partir do permanente choque entre o Corpo e a Alma, a Cidade e a Sabedoria, a Política e a Filosofia. Este drama platônico estendeu-se ao longo da história ocidental, sem que, contudo, se tivesse tanta consciência de sua origem como a que ele teve: a reflexão política implica necessariamente numa escolha: a aparente segurança oferecida pela submissão resignada e abandono da política ou o risco da ação consciente, com a certeza de que, apesar da permanente luta, nem sempre o final é glorioso. E Platão mostrou que esta última é a característica daqueles que não se deixam imbecilizar pela própria impotência. Platão, assim como Sócrates, sabia, por sua própria experiência, que a ação política é, dentre as capacidades e possibilidades humanas, uma das mais perigosas. As condições históricas que foram sendo criadas ao longo do desenvolvimento político ocidental evidenciaram que refletir acerca da política é assumir o risco do fracasso, que apenas pode ser compensado pela oportunidade de construção de uma sociedade melhor. Platão percebeu que Sócrates não havia fracassado ao mostrar que os assuntos da pólis não são seguros para os filósofos, reconhecendo que sua morte serviu para dar sentido à reflexão política. Compreendeu que seu mestre sabia que apenas seria imortalizado se a solidariedade dos filósofos pudesse competir com a cidade, sem serem ridicularizados ao falarem nas praças públicas. Afinal, Sócrates triunfou, mostrando à pólis que não era um inútil, que realmente tinha muito a ensinar a seus concidadãos. Esta é uma das lições que se pode extrair da invenção da política: buscar sentido na experiência do conflito. Em breve síntese, do pensamento platônico colhe-se para a Filosofia do Direito: • O sentido de Ética enquanto pressuposto da ordem política e jurídica que não se restringe à mera virtude, mas o agir orientado para o Bem sem abandoná- lo sob pena de “deixar o barco navegar pelo sentido da correnteza e não para onde o timoneiro deseja chegar”. • A Filosofia – o educar-se – tem por finalidade o exercício da cidadania, para a “verdade”. • O Bem e o Justo nascem desde a reflexãoacerca da verdadeira essência – que está no mundo das ideias – sendo a finalidade da justiça o exercício do bem comum. • O direito não existe independente da vida social – da convivência na pólis. TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 79 4 ARISTÓTELES: UM ESPÍRITO MODERADO Muitos autores consideram Aristóteles o criador do método empírico, nas experiências práticas, de investigação em contraposição ao idealismo platônico. Talvez porque sua técnica de investigação tinha como base a observação tal qual estudava os fenômenos biológicos. Para Aristóteles, a essência das coisas não é um mero reflexo do mundo das ideias, mas elas podem ser compreendidas a partir da maneira como opera a natureza. A teoria platônica de um outro mundo atemporal de essência parece postular que, de algum modo, a ‘realidade’ concreta das coisas existia fora do tempo e das estruturas espaciais que damos por certos quando estabelecemos nossa relação com as coisas. Para Aristóteles, porém, devemos voltar nossa atenção para o modo como as coisas funcionam neste mundo à nossa volta (MORRISON, 2006, p. 49). FIGURA 18 - ARISTÓTELES – MUSEU DO LOUVRE FONTE: <http://www.leitura.org/aristteles-busto-de-aristteles-no-museu-do-louvre-nascimento. html>. Acesso em: 16 ago. 2016. Nascido em Estagira no ano 384 a.C., Aristóteles era filho de Nicômaco, médico de Amintas III – rei da Macedônia, pai de Felipe II e avô de Alexandre Magno. Aos 18 anos passa a frequentar a Academia, acompanhando as lições de Platão durante duas décadas. Possuidor de grande fortuna, cercou-se dos livros dos grandes filósofos e poetas de seu tempo, sendo chamado por Platão de O Leitor. Era dotado de um grande espírito de observação e de incomum sagacidade. Aos 41 anos é convidado por Felipe para ser educador de Alexandre. Com a ascensão de Alexandre ao trono, em 336 a.C., retorna para Atenas e funda o Liceu, ginásio localizado na parte leste da cidade. Sua escola foi chamada de peripatética, de passeadores, por ser comum dar aulas passeando pelos jardins. Seu ensino abrangia todas as formas de conhecimento de sua época: Lógica, Metafísica, Cosmologia, Biologia, Arte, Sociologia, Psicologia e Moral. FONTE: <http://www.suapesquisa.com/aristoteles/>. Acesso em: 16 ago. 2016. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 80 Aristóteles, de maneira diversa de seu mestre Platão, buscou também refletir acerca da organização política de sua época. Seus escritos eram manuais – lições – utilizados por alunos e professores do Liceu, muito provavelmente, alguns deles escritos como projetos de pesquisa juntamente com os alunos, sendo A Política o grande tratado político. Apesar de ser uma obra bastante modificada quanto à disposição dos livros, o que se percebe de sua forma atual é que, sem dúvida, constitui um tratado de ciência política, que, segundo Sabine (s.d., p. 10), “mostra duas fases do pensamento aristotélico, que paulatinamente distancia-se de Platão”. Um primeiro momento, como herdeiro do pensamento platônico, mas tentando ir além, considera a filosofia política como princípio de construção da cidade, predominando a preocupação ética de identificar o bom cidadão com o homem bom, vendo na política a possibilidade de formação de um ser humano moralmente elevado. A relação entre o homem e a pólis, vínculo natural e necessário, é, para Aristóteles, o que diferencia o ser humano dos demais animais, já que a superioridade humana é adquirida com a convivência na cidade, e, por via de consequência, com a possibilidade de partilhar de um processo civilizatório comum. Definindo a política como condição inerente ao homem, afirma Aristóteles (1988, p. 14): É evidente, pois, que a cidade faz parte das coisas da natureza, que o homem é naturalmente um animal político, destinado a viver em sociedade, e que aquele que, por instinto, e não porque qualquer circunstância o inibe, deixa de fazer parte de qualquer cidade, é um ser vil ou superior ao homem. Tal indivíduo merece, como disse Homero, a censura cruel de ser um sem família, sem leis, sem lar. Porque ele é ávido de combates, e, como as aves de rapina, incapaz de se submeter a qualquer obediência. Aristóteles concebe a convivência política como algo “natural”, porém, confere um sentido específico para o termo “natureza”. Afirma que a cidade está na ordem da natureza e antes do indivíduo: [...] se cada indivíduo isolado não se basta a si mesmo, assim também se dará com as partes em relação ao todo. Ora, aquele que não pode viver em sociedade, ou que de nada precisa por bastar-se a si próprio, não faz parte do Estado; é um bruto ou um deus. A natureza compele assim todos os homens a se associarem (ARISTÓTELES, 1988, p. 15). Assim, admite a coexistência na cidade como forma de desenvolvimento humano, já que proporciona as condições necessárias para o homem atingir sua plenitude, ou seja, permite às forças evolutivas do homem atingirem seus próprios fins, portanto, não vislumbra na vida política um obstáculo à “vida natural” do homem, como entendiam os pensadores cínicos do século IV a.C., ao contrário, é exatamente na vida política que, para Aristóteles, o ser humano atinge um modo de vida digno e superior a qualquer outro. TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 81 Lembre-se de que o conceito de “natureza” em Aristóteles deve ser compreendido a partir de seus estudos biológicos e sociais, entendendo “natureza” como um sistema de capacidades e forças evolutivas para um fim próprio, que, para seu desenvolvimento, apropria-se das condições favoráveis oferecidas materialmente. Num segundo momento de sua obra trata da questão política numa dimensão maior: “A nova ciência seria geral, isto é, abordaria tanto as formas existentes quanto os ideais de governo e ensinaria a arte de administrar e organizar Estados de todos os tipos, fosse qual fosse a forma desejada” (SABINE, s.d., p. 101). A nova orientação conferida por Aristóteles à ciência política buscava, além do ensino da arte de governar, independente do modelo político adotado, o estudo das formas existentes e ideais de governo. Assim, esta nova ciência, independente do fim moral, incluía o conhecimento acerca do Bem Político (relativo e absoluto) e procedimentos políticos no estudo dos objetivos de governo. Com o objetivo de examinar os diferentes modelos políticos de sua época, juntamente com seus alunos, investigou 158 constituições, inclusive o Direito Consuetudinário dos bárbaros e as Leis de Sólon, dentre outros estudos. O final de Ética a Nicômaco serve de introdução para A Política, onde Aristóteles torna evidente o método através do qual pretendia compreender e ensinar a ciência política. Criticando a maneira como os sofistas ensinavam a arte de governar, que no seu entender “se omitiram quanto ao exame do assunto da legislação” (ARISTÓTELES, 1985, p. 210), afirma que talvez fosse melhor estudar o assunto das constituições no limite da capacidade, da filosofia e das coisas humanas, apontando para o ponto de partida do estudo da política: Primeiro, então, se algo foi dito com acerto e detalhadamente pelos pensadores anteriores, passemos em revista a sua contribuição; depois, à luz das constituições que colecionamos, examinemos as instituições que preservam ou destroem as cidades, e as que preservam ou destroem as várias espécies de constituições, e as razões pelas quais umas cidades são bem administradas e outras, ao contrário, são mal administradas. Quando tivermos estudado convenientemente estes assuntos é mais provável que possamos ver de maneira mais abrangente qual das várias espécies de constituições é a melhor, e como cada constituição deve ser estruturada, e quais as leis e costumes que uma constituição deve incorporar para ser a melhor. Comecemos a nossa discussão (ARISTÓTELES, 1985,p. 211). É de se notar a maneira diferenciada através da qual Aristóteles aborda a ciência política em relação a Platão. Chama a atenção Touchard (s.d.) que a metodologia adotada em A Política se aproxima do que atualmente poderíamos chamar de “científica”, pois a partir de uma análise empírica, persegue dois objetivos distintos: compreender o funcionamento dos regimes políticos existentes e descrever um modelo ideal de governo. Entretanto, ao mesmo tempo que busca afastar-se, mantém aproximação com seu mestre. Busca igualmente estabelecer um fim ético como princípio político, e esta intenção Aristóteles nunca abandonou. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 82 O Estado deveria permitir o desenvolvimento moral de seus cidadãos, pois era concebido como uma associação de indivíduos que deveriam partilhar a crença na construção de um modo de vida digno e feliz. Este era o sentido de existência do Estado: a forma de organização que permite o mais alto desenvolvimento moral do cidadão, percebendo, afinal, que o bom homem e o bom cidadão apenas são coincidentes num modelo político ideal (TOUCHARD, s.d., p. 59). A partir do Livro VI de A Política é iniciado o estudo das diferentes formas de governo, com a finalidade de identificar “quais as condições que lhe podem dar toda a perfeição desejada, livre de quaisquer obstáculos exteriores, e finalmente, qual a que convém a este ou àquele povo” (ARISTÓTELES, 1988, p. 156). Fazendo a distinção entre o governo constitucional e o despótico, e partindo do pressuposto de que o primeiro objetiva o bem comum, enquanto o segundo apenas ao da classe dominante, Aristóteles estabelece três formas autênticas (ou constitucionais) – monarquia, aristocracia e democracia moderada – e três degenerados (ou despóticos) – tirania, oligarquia e democracia extremada (ou governo da plebe). O critério estabelecido por Aristóteles diferencia-se do utilizado por Platão em um aspecto central: para o primeiro, as formas autênticas eram as que visavam o bem comum, enquanto que para o segundo era o respeito à lei. Entretanto, percebe Aristóteles que a disputa pelo poder se relaciona essencialmente com dois pontos centrais: a qualidade (definida pela liberdade, riqueza e instrução) e quantidade (superioridade numérica do povo). Em outras palavras, a luta política polariza-se a partir de duas reivindicações centrais de poder: o interesse das elites econômicas e o bem-estar de um número maior possível de pessoas. Porém, quais seriam as reivindicações mais justas? A resposta a tal indagação é o que para Aristóteles confere mérito ao governo, na medida em que seria aquele capaz de atender às reivindicações das diferentes classes que compõem a cidade. Para Aristóteles, o grande problema não era estabelecer academicamente qual o princípio ético da política, já que todos pareciam concordar que seria a justiça, mas de como realizá-la através da prática. Seguindo o mesmo pensamento de Sócrates e Platão, ressaltou Aristóteles que o juízo correto (orthòs lógos) a respeito de uma ação (práxis) é que torna o homem capaz de realizar o bem. Esta razão prática, diferentemente da teórica (epistêmica – que opera com o conhecimento puro e com objetivos eidéticos e conceituais eternos, que possui um fim em si mesmo) é indispensável para a convivência social e para o exercício de governo. Esta razão prática permite o desenvolvimento da virtude, já que não é inerente ao ser, mas adquirida pela participação num processo educativo (Paideia) desde a mais tenra idade. Com uma boa orientação, a razão iria se impor sobre as paixões, conduzindo o homem e os assuntos da cidade. Um bom governo (das leis, constitucional) seria um governo da razão sem paixão, pois só assim seria possível controlar o governo dos homens que tende para a satisfação da alma apetitiva, do desejo orientado instintivamente sem a direção da razão. Assim, a boa conduta é obtida quando há uma adequação entre meios e TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 83 fins através da “prudência”, ou seja, da “prudente” eleição dos meios necessários para o alcance dos objetivos teleológicos das práxis. A “prudência” (phrónesis) é a disposição racional direcionada para a ação, no sentido de atualização de um bem, que permite a escolha dos meios adequados para a realização dos fins eleitos. Por esta razão é que se pode conhecer um homem por sua prática, por suas ações, uma vez que age a partir da eleição de um ponto que será o diretivo de toda a aplicação da sabedoria prática. É na eleição e decisão que o homem demonstra o justo e o injusto, já que isto é inerente a toda ação. Para Aristóteles, portanto, a política é a ciência da prática que tem como objeto o estudo do bem da cidade e, como consequência, o bem de todos os cidadãos, ocupando a questão da ética lugar privilegiado. Por conta disto, a justiça é a preocupação central do governante, pois esta é a virtude social por excelência. Um governo sob leis boas – representativas dos ideais da cidade – criaria o hábito de observância de todos os cidadãos de preceitos genéricos e abstratos capazes de atender aos anseios políticos dos cidadãos. Na medida em que as leis iguais para todos, com a mesma qualificação política ateniense (cidadãos, metecos e escravos), a igualdade seria de acordo com as aptidões de cada um, e assim, a felicidade seria o resultado do convívio social, a pólis, que teria sempre na célula familiar a origem primeira que ia se complementando com a convivência social. Aristóteles, com um espírito político moderador, converge seu pensamento para uma tendência em que deve prevalecer o interesse da “classe média”, classe esta que, como chama atenção Touchard (s.d., p. 60), “por diversas vezes tentara impor os seus pontos de vista em Atenas, sobretudo no fim do século V, e se definira a si própria como intermediária entre os ricos, inclinados ao egoísmo e à ambição, e os não possidentes, encargo e ameaça para o Estado”. Esta classe, entende Aristóteles, não age por interesse próprio, mas em interesse coletivo, e é isto que a torna mais capaz para o exercício da “coisa pública”. Esta concepção, sem dúvida, vincula-se ao princípio aristotélico de que a “virtude está no meio”. É evidente, pois, que a comunidade civil mais perfeita é a que existe entre os cidadãos de uma condição média, e que não pode haver Estados bem administrados fora daqueles nos quais a classe média é numerosa e mais forte que cada uma delas; porque ela pode fazer pender a balança em favor do partido ao qual se une, e, por este meio, impedir que uma ou outra obtenha superioridade sensível. Assim, é uma grande felicidade que os cidadãos só possuam uma fortuna média, suficiente para suas necessidades. Porque, sempre que uns tenham imensas riquezas e outros nada possuam, resulta disso a pior das democracias, ou uma oligarquia desenfreada, ou ainda, uma tirania insuportável, produto infalível dos excessos opostos (ARISTÓTELES, 1985, p. 175). Buscando estabelecer a melhor constituição, aconselha Aristóteles que a preferível é a mais aceita pelos mais fortes da cidade, e que, ao mesmo tempo, não deve ser aquela que mais se distancia do meio. Seguramente é por esta razão que elogia a democracia moderada de Sólon. Embora não pretendendo descrever o tipo ideal de Estado, Aristóteles não se limitou tão somente a descrever as formas de governo existentes. Os objetivos morais que permitiriam o aperfeiçoamento UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 84 humano não estariam, como para Platão, num plano ideal, mas seriam o resultado de um complexo ajuste político, sendo a arte de governar a correta adequação entre os meios disponíveis e os fins desejados. A inovação de Aristóteles está no fato de que inclui em seu estudo não apenasa significação ética da Cidade-Estado, “mas também o estudo empírico dos elementos políticos e sociais de constituições, as respectivas combinações, e as consequências que delas derivam” (SABINE, s.d., p. 123). Portanto, não abandona os ideais de seu mestre, que permaneceram inalterados, mas buscou orientar uma prática política orientada por fins dignos, através de meios racionalmente estabelecidos. Sem dúvida, o trabalho de Aristóteles busca indagar o tipo de comunidade que constitui a Cidade-Estado propondo uma diferenciada da comunidade familiar, mostrando como, historicamente, a partir da família – comunidade que atende as necessidades mais elementares –, surge a pólis como forma mais civilizada de vida. Seguramente, um dos conceitos relevantes de Aristóteles para a formação jurídica é o de justiça, que tem, como você percebeu, como sua base de construção, a dimensão ética, por ele definida como “ciência da prática”. Sobre justiça como virtude, o texto principal é Ética a Nicômaco, especialmente o Livro V, embora possam ser encontrados estudos em diversos outros livros de sua imensa produção. DICAS Aristóteles tratou a justiça como virtude que se aproxima de outras, como coragem, temperança, benevolência, entre outras. Como virtude, justiça é uma ciência da prática e ramo especial do saber humano, a ética. Sugere-se a leitura de Ética a Nicômaco, disponível em: <http://pensamentosnomadas. com/obra-completa-de-aristoteles-em-10874>. No site você encontrará muitas das obras de Aristóteles. Em Aristóteles encontramos dois grandes campos para a compreensão do sentido da justiça: o universal e o particular. Aristóteles considera que a “regra de ouro” da justiça é “dar a cada um o que é seu” de acordo com seu mérito! Vamos compreender melhor esse conceito. • Justiça Universal: é a virtude que está em todas as demais, como, por exemplo, na paciência ou caridade. O paciente é aquele que reconhece o que é necessário despender de tempo ou conhecimento com outro. O professor impaciente com TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 85 o aluno não possui a virtude da paciência e tampouco da justiça, porque não reconhece a necessidade e condição do outro, ou ainda, a caridade como ato de dar não deve ser movida pelo temor ou como demonstração de superioridade, mas sim como justiça. • Justiça Particular: como virtude em si mesma que se manifesta como: • Justiça Distributiva: se dá na relação entre dois sujeitos e duas coisas, cujo critério fundamental é o mérito – dar a cada um o que é seu – reconhecendo Aristóteles que o mérito pode ser variável e é uma proporção. Compreendendo melhor, vamos ler o que diz Aristóteles sobre a “regra de ouro” “dar a cada um o que é seu”: O justo, portanto, pressupõe no mínimo quatro elementos, pois as pessoas para as quais ele é de fato justo são duas, e as coisas nas quais ele se manifesta – os objetos distribuídos – são também duas. O justo, então, é uma espécie do gênero ‘proporcional’ (a proporcionalidade não é uma propriedade apenas das quantidades numéricas, e sim da quantidade em geral) (ARISTÓTELES, 1985, p. 96). Como podemos perceber, a justiça distributiva envolve um “arranjo” na distribuição dos bens e do poder de distribuição. • Justiça Corretiva: também chamada justiça diortótica, é mais simples de se compreender. Ao contrário da distributiva, nessa modalidade a justiça é considerada como um tipo de reparação que, voluntária ou involuntariamente, foi retirado de alguém ou da coletividade. É uma proporção matemática, uma vez que se trata de devolução ao que foi subtraído. Para Aristóteles, independe se a pessoa é boa ou má, uma vez que para a correção devem ser tratadas como iguais. Como podemos perceber, tanto a Justiça Distributiva como a Corretiva fazem parte do cotidiano do direito e das decisões judiciais tanto na esfera privada como pública. • Reciprocidade: esta modalidade, que não se enquadra nas anteriores, é que se aplica em caso de produção de bens e sua aquisição, para as coisas que podem ser mensuradas por dinheiro. Seja A uma casa, B dez minas e C um leito. O termo A vale a metade de B se vale cinco minas (ou seja, ela é igual a cinco minas); o leito (C) vale um décimo de B; vê-se claramente, então, quantos leitos equivalem a uma casa (ou seja, cinco). É evidente que as permutas se efetuavam desta maneira antes de existir dinheiro, pois é indiferente permutarmos uma casa por cinco leitos ou pelo equivalente em dinheiro aos cinco leitos (ARISTÓTELES, 1985, p. 101). É evidente que Aristóteles é um homem de seu tempo e pensa desde uma sociedade escravista e aristocrática, a concepção de justiça está elaborada desde tal perspectiva! Não iremos encontrar em Aristóteles o conceito de valor de humanidade e de igualdade como atualmente temos, mas isso não deve diminuir a importância de seu pensamento! UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 86 FIGURA 19 - MUNDO GRECO-ROMANO: ESCRAVISTA E ARISTOCRÁTICO FONTE: <http://antiguidade1anomedio.blogspot.com.br/2015/06/escravidao-no-mundo-greco- romano.html>. Acesso em: 16 ago. 2016. 5 O HELENISMO ROMANO Ao final da era de Péricles (495/492-429 a.C.), considerada a Era de Ouro de Atenas, a civilização grega entrava em decadência. A democracia ateniense, maior orgulho daquele povo, ruía e as guerras, já no século IV a.C., pouco a pouco iam minando as bases daquela extraordinária civilização. Desde o episódio da morte de Sócrates, os ideais éticos e políticos daquela sociedade foram se esvaindo. Apesar dos filósofos terem abandonado as praças, o espírito helênico sobreviveu e ecoou pela história! NOTA Helenismo é um termo que designa a divulgação, absorção e expansão da civilização grega pelo mundo mediterrâneo, euroasiático e no Oriente. O helenismo vai dialogar de forma muito próxima com os romanos, sem que se possa considerar uma sucessão linear, uma vez que as filosofias grega e romana são construídas sobre as mesmas bases, até as inovações trazidas pelo cristianismo no início da Idade Média. Os romanos ficaram conhecidos na história do Direito como essencialmente práticos, que souberam absorver diversas culturas. “Sem a criatividade e o refinamento dos helenos, os romanos incorporaram elementos culturais advindos de vários povos conquistados e os adaptaram ao seu espírito e aos seus interesses políticos de dominação” (WOLKMER, 2006, p. 29). TÓPICO 1 | O LEGADO GRECO-ROMANO 87 Das inúmeras contribuições e reinvenções da filosofia grega pelos romanos no período pós-clássico, destacaram-se: o epicurismo, difundido principalmente por Lucrécio (99-55 a.C.), e o estoicismo, cujos representantes foram Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.), Epicteto (50-93 d.C.) e o imperador Marco Aurélio (121-180 d.C.). Ambas são concepções filosóficas voltadas para a vida feliz e virtuosa, além de ambas demonstrarem desinteresse e desencanto com a política. “Às trevas sócio- organizacionais de seu tempo, os epicuristas responderam da mesma forma que o platonismo e o aristotelismo, a saber, distanciando-se das atividades políticas e aglomerando-se num lugar comum de estudos, reflexões e discussões: o jardim, a escola” (BITTAR; ALMEIDA, 2001, p. 121). • Epicurismo: escola que permaneceu durante séculos tanto no mundo grego como no romano, tem sua origem no pensamento de Epicuro de Samos (341-270 a.C.). FIGURA 20 - EPICURO DE SAMOS FONTE: <http://epicurea.es/por-que-epicurea/>. Acesso em: 16 ago. 2016. Para Epicuro de Samos: A justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem. O epicurismo assenta- se na busca pelo prazer, não entendido como mundanidade, mas ausência de dor e perturbação da alma. Para ele, a verdadeira felicidade é encontrada quando do afastamento de todos os tiposde sofrimento. Para Epicuro, a noção de justiça se funda na concepção de que há entre os indivíduos interesse em uma vida plena e prazerosa sem dominação de um por outro, e desde aí se constrói a política. Portanto, ser justo é agir conforme o bem do outro. Vejamos suas máximas: • O justo segundo a natureza é a regra do interesse que temos em não nos prejudicarmos nem sermos prejudicados mutuamente. • Em relação àqueles, dentre os viventes, que não puderem concluir pactos para não se prejudicarem pessoalmente nem serem prejudicados mutuamente, nada há que seja justo ou injusto. Isto também vale para UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 88 os povos que não puderam ou não quiseram concluir os pactos para não se prejudicarem nem serem prejudicados mutuamente. • Nunca houve justiça em si, mas nas relações recíprocas, quaisquer que sejam seu âmbito e as condições do tempo, uma espécie de pacto a fim de não prejudicar nem ser prejudicado (EPICURO, 2006, p. 99). Seria a justiça uma convenção compreendida pela razão e pela natureza, porque os homens sendo injustos se aproximariam do sofrimento, seja pelo castigo ou pela perseguição. • Estoicismo: corrente que influenciou mais que o epicurismo, cujo fundador foi Zenão de Citium. FIGURA 21 - ZENÃO DE CITIUM Zenão de Citium (333 a.C.-263 a.C.) – busto no Museu Pushkin, em Moscou –, natural da ilha de Chipre. Estoicismo é uma referência ao local onde esse filósofo ensinava: stoa pokilé (pórtico pintado). FONTE: <http://kdfrases.com/frase/136822>. Acesso em: 16 ago. 2016. Nos estoicos há uma tendência ao uso prático da razão, e esta razão deve orientar as ações humanas para a harmonia tal qual há na natureza. Diferencia-se do epicurismo porque não entendem a razão como convenção e a justiça não nasce de um acordo, mas é uma virtude que orienta a razão anterior às leis escritas. Saber guiar-se pela razão é conhecer a natureza e seus desígnios, consolidando o dever como hábitos que geram virtudes e afastando-se das paixões e futilidades que desviam a alma do dever. O estoicismo, bastante difundido por Cícero, assenta-se no Direito Natural entendido como uma razão universal que se aproxima da moral, como a reta razão, sendo o direito justo válido para todos os homens. ESTUDOS FU TUROS A seguir veremos como o cristianismo mudou radicalmente a percepção de mundo greco-romano, iniciando uma nova etapa na tradição filosófica. 89 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, vimos que: • A Filosofia greco-romana significou o rompimento da lógica mítica na legitimação e justificação da política e da justiça nas relações humanas. • O rico legado da cultura grega, em suas distintas etapas, dos pré-socráticos aos socráticos, construiu o sentido ético e moral da justiça e do Direito. • A civilização helênica, preservada mesmo após a desintegração do mundo greco e romano, por sua beleza, força e complexidade foi mantida, reproduzida e reinventada, chegou até os dias atuais enquanto momento fundacional e sempre referenciado do modelo ideal de justiça e seu sentido maior: a felicidade e bem comum. 90 AUTOATIVIDADE A seguir trazemos um trecho do famoso diálogo entre Sócrates e Glauco no livro de Platão “A República”. O diálogo – fictício – ficou conhecido como o “Mito da Caverna”. Trata-se de uma parte central da obra e tem sido objeto de análise ao longo da história do pensamento filosófico. Sócrates: E se o tirarem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros. Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos primeiros momentos. Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos outros objetos refletidos na água, depois os próprios objetos. Em segundo lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para a luz dos astros e da lua mais facilmente que durante o dia para o sol e para a luz do sol. Glauco: Sem dúvida. Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra superfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o sol tal como é. Glauco: Certamente. Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que é ele que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que é, de algum modo a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna. Glauco: É indubitável que ele chegará a essa conclusão. Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros, não acha que ficaria feliz com a mudança e teria pena deles? Glauco: Claro que sim. FONTE: <http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_2009_06_Platao_e_o_Mito_da_Caverna.htm>. Acesso em: 16 ago. 2016. Após a leitura do texto acima responda a seguinte questão: Para os pensadores gregos pós-socráticos antigos qual o sentido da justiça? Por que o jusfilósofo tem a “missão” de “retornar à caverna” e tentar “libertar os demais”? 91 TÓPICO 2 O PENSAMENTO MEDIEVAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A verdadeira desintegração do Império Romano, longo processo que se inicia em torno do século V, marcado pela divisão do império em Oriente e Ocidente em 476, a expansão dos reinos bárbaros e a ascensão do cristianismo são fatores que marcam a entrada do mundo ocidental em um novo estágio civilizatório. A Idade Média será um longo período histórico marcado pela hegemonia do poder da Igreja, herdeira do legado filosófico da antiguidade, e relações socioeconômicas feudais. Será uma etapa em que os valores culturais, ideológicos, políticos e filosóficos se assentarão nos valores cristãos e pela centralização do poder eclesiástico. Apesar do legado cultural da antiguidade, a fase medieval é marcada por profundas diferenças. Enquanto na Antiguidade os homens eram valorizados por suas posses, qualidades e por seus feitos heroicos, excluindo os pobres, mulheres e os escravos, na sociedade cristã ocidental se reconhece o homem como unidade composta de matéria e espírito. A reviravolta proporcionada pelo cristianismo ao afirmar que o bem maior não é o Estado, mas o homem dentro da sociedade, possibilita a edificação da concepção transcendental de dignidade das ‘modernas declarações de direito’ (WOLKMER, 2006, p. 38). UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 92 FIGURA 22 - SOCIEDADE MEDIEVAL FONTE: <http://sociedademedieval.weebly.com/>. Acesso em: 16 ago. 2016. Marcada por relações sociais estamentais – ordens/grupos sociais divididos e sem mobilidade –, a sociedade medieval era um universo profundamente hierarquizado, no qual a nobreza e o clero detinham o poder, restando aos servos a submissão aos senhores em troca de proteção e uso da terra para a sobrevivência. A doutrina cristã vai se definir como o eixo central da moral, ética, leis e fundamento das instituições políticas e jurídicas desta etapa. É das lições do cristianismo e dos fundamentos bíblicos aliados à releitura da tradição grega e romana que serão elaborados os preceitos de direito e justiça. Durante a Idade Média, no mundo ocidental, predomina uma visão homogênea de cristianismo fundada em verdades e dogmas difundidos pelos doutores da Igreja. A filosofia e o direito se submetiam ao controle da teologia cristã e da doutrina da Igreja, que irão dialogar com pensadores como Platão e Aristóteles. Aliar fé (pístis) e razão(logos) será o grande esforço desta etapa, que pode ser sintetizada pelos seguintes elementos caracterizadores: • A hegemonia do monoteísmo cristão no mundo ocidental. • A adoção da teoria criacionista – origem do mundo e controle do tempo por Deus. • O antropocentrismo – assumindo o homem (ser criado à imagem e semelhança de Deus) lugar privilegiado na história. • Condição humana marcada pelo pecado cuja redenção depende do perdão divino condicionado à adoção do modo de vida cristão. • A incorporação na natureza humana dual platônica – corpo e alma racional – o espírito (pneuma) que é o elo como o divino através do exercício da fé. • O sentido do amor divino como único verdadeiro que conduz à redenção. • Concepção linear e progressiva da história (anunciando o fim com o Juízo Final). TÓPICO 2 | O PENSAMENTO MEDIEVAL 93 É na Alta Idade Média, entre os séculos V e IX, que serão elaborados os fundamentos da chamada Patrística, pelos padres (pais) da Igreja, cujos fundamentos e sistematizações tiveram como objetivo central a criação dos dogmas centrais da religião cristã que acabarão por institucionalizar a própria fé e, a partir dos princípios desta fé cristã, extraídos os conceitos de Direito e Justiça que irão nortear as práticas de controle daquela sociedade. 2 A PATRÍSTICA E O PENSAMENTO DE SANTO AGOSTINHO Muitos serão os padres que irão assumir a tarefa de edificar os fundamentos da fé cristã, sendo este período conhecido como Patrística (etapa que se estende entre os séculos II ao VI). Destes pioneiros da filosofia e teologia cristã, podem ser elencados duas grandes correntes: os “filiados” à tradição helênica, mais especulativos e de discussões mais metafísicas da teologia, como São Irineu, São Basílio, Orígenes; e os latinos, de inclinação mais prática, como São Ambrósio, São Jerônimo e Santo Agostinho. Entretanto, é em Santo Agostinho que a Patrística encontra o ponto de convergência e maior complexidade. FIGURA 23 - SANTO AGOSTINHO (354-430) – MUSEU FITZWILLIAM – CAMBRIDGE FONTE: <http://religiao.culturamix.com/santos/santo-agostinho/>. Acesso em: 16 ago. 2016. Santo Agostinho, ou Aurélio Agostinho, o Bispo de Hipona, é considerado o grande conciliador entre a filosofia grega e o cristianismo. O conjunto de sua obra tem como ponto de partida a defesa da revelação da palavra de Deus na Bíblia; desde aí, produz uma vasta produção cujos trabalhos mais relevantes UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 94 para o Direito são Confissões e Cidade de Deus. Na primeira narra sua trajetória de vida, que até sua conversão passa por inúmeras experiências, dentre as quais o maniqueísmo, que estará presente em seu pensamento. Sua conversão em 386 representa a absoluta adesão à filosofia enquanto instrumento de reflexão e compreensão racional da fé. A concepção agostiniana acerca do justo e injusto pode ser compreendida a partir da própria teologia aliada à metafísica platônica, tão bem evidenciada na obra Cidade de Deus. “O tema em Agostinho remete ao estudo do problema da justiça fundamentalmente à discussão da relação existente entre lei humana (lex temporalem) e lei divina (lex aeterna), onde está compreendido o estudo das diferenças, influências, relações etc. existentes entre ambas” (BITTAR; ALMEIDA, 2001, p. 173). Sua concepção de justiça tem no platonismo a principal fonte de inspiração e justificação. Defende que a justiça humana – falha, transitória, imperfeita e corrupta – apenas será corrigida pela justiça divina – eterna, perfeita e incorruptível. As leis humanas, que regulam a relação entre os homens, devem ser inspiradas em leis divinas que têm como fonte o maior dos legisladores: Deus, que diferentemente dos homens é ilimitado, tudo sabe e tudo vê. Assim, a justiça divina deve comandar e inspirar a justiça humana, que tem sua origem na própria criação de Deus, mas que por imperfeições e erros humanos acabou sendo desvirtuada. Há que se lembrar que na lógica judaico-cristã o pecado original corrompeu o homem e está na base de todo sofrimento humano. Por sua própria culpa o homem é corrupto, pois se afastou de seu Criador. E, nessa ordem de ideias, em que homens, instituições, governos, julgamentos, ordenações, organizações, comportamentos são corruptos, também leis são corruptas. Este é o estado de coisas humano: esse é o estatuto da lei humana. A justiça, portanto, nessa orientação, é viciada ab origine. A justiça, dentro dessa dimensão, vem compreendida como algo profundamente marcado pelos próprios defeitos humanos (BITTAR; ALMEIDA, 2001, p. 177). Embora a preocupação de Agostinho não tenha sido o tema do Direito, o conjunto de sua obra permite extrair importantes elementos para a compreensão da política, dos fundamentos e relações entre Direito Natural (divino) e Direito Positivo (humano), legitimidade do poder político e o sentido da justiça. Para Truyol Serra (1982, p. 215), Agostinho é pessimista em relação aos homens – a crença no pecado original que corrompeu sua natureza divina –, o que faz com que seja necessária a submissão da lei humana à divina, tendo a mesma lógica em relação ao poder político. Portanto, a verdadeira justiça só será efetiva se alicerçada no cristianismo e na prática da fé. Em síntese, pode-se afirmar que sua doutrina possui os seguintes traços característicos: TÓPICO 2 | O PENSAMENTO MEDIEVAL 95 • A razão deve ser aliada à fé a fim de que seja possível a iluminação interior. • Redefine o platonismo – é forte em sua obra o dualismo platônico como corpo/ alma; terreno/divino; imperfeito/perfeito; mutável/imutável etc. – encontrando na transcendência divina cristã a essência da verdade. • Desenvolve os grandes dogmas da Igreja, tais como o da Santíssima Trindade, além da tese do criacionismo. • Conceito de “mal” como mero resultado degradante do afastamento de Deus pelo próprio homem. • Existência concomitante de dois poderes: o Divino – que governa a Cidade Celeste cujos cidadãos participam e comungam do amor de Deus – e o Humano – onde vivem os que se afastaram do verdadeiro amor e serão julgados no Juízo Final. ESTUDOS FU TUROS Na próxima unidade você poderá perceber que são muitos os elementos do pensamento moderno em que se encontram elementos do pensamento agostiniano, tais como o conceito de Estado e legitimidade de poder político. DICAS No site <http://www.mundodosfilosofos.com.br/agostinho.htm> você poderá encontrar a biografia de Santo Agostinho. Verá como o pensamento deste importante filósofo reflete suas inquietações pessoais e trajetória de vida que o levaram à conversão e a assumir a tarefa de edificar o fundamento do cristianismo. Ainda, no site <https://www.wdl.org/pt/item/11301/> você poderá consultar as obras de Santo Agostinho. No início do século XII o cristianismo e o poder da Igreja já haviam se consolidado na Europa, perdendo, assim, urgência, a necessidade de afirmação da teologia cristã e a autoridade intelectual dos doutores da Igreja, que já estavam consolidadas, não havendo mais ameaça de nenhuma outra cultura ou forma de paganismo para suas estruturas de dominação. O clero prosperava e já então era possível dedicar-se mais à investigação de novas culturas, particularmente as do Império Bizantino e do islamismo, que souberam preservar os antigos manuscritos da cultura helênica. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 96 Num contexto sem precedentes de aprendizado patrocinado pela Igreja e sob a influência das forças maiores que animavam a emergência cultural do Ocidente, estava preparado o cenário para a mudança radical nos alicerces da concepção cristã: no ventre da Igreja medieval, a filosofia cristã de negação do mundo elaborada por Agostinho e baseada em Platãocomeçou a dar lugar a uma interpretação fundamentalmente diferente de existência, conforme os escolásticos recapitulavam a evolução intelectual do movimento de Platão a Aristóteles (TARNAS, 2011, p. 198). As transformações são desencadeadas desde então, coincidindo com a redescoberta ocidental de boa parte dos textos de Aristóteles, preservados pela cultura árabe, e desde então traduzidos para o latim, e com eles também obras da ciência grega, particularmente a de Ptolomeu. Este inédito episódio, que trouxe uma complexa cosmologia científica e a sofisticação aristotélica desconhecida, atrai os pensadores da Igreja, em especial os escolásticos. A Escolástica é o último período do pensamento cristão medieval, que vai do começo do século IX até o fim do século XVI, da constituição do sacro romano império bárbaro, ao fim da Idade Média, que se assinala geralmente com a descoberta da América (1492). O termo escolástica tem sua origem relacionada à filosofia ensinada nas universidades, pelos mestres escolásticos. Esta é uma etapa de grande avanço do ensino superior, as universidades se tornaram centros de discussão, o que chamou a atenção dos eclesiásticos para o “perigo” das diversidades acerca da verdade cristã. Até quando, por autorização papal, em 1215, a Universidade de Paris recebe o direito de autonomia em relação à busca pelo conhecimento. A preocupação inicial de “contágio” do paganismo filosófico de Aristóteles à fé cristã acabou tendo efeito não desejado e cada vez mais os “livros proibidos” passavam a ser objeto de curiosidade e investigação. DICAS O clássico filme “O Nome da Rosa”, baseado no romance homônimo de Umberto Eco e dirigido por Jean-Jacques Annaud, é uma ficção que trata exatamente de uma trama diabólica e violenta que se abate sobre um mosteiro no século XIV, quando valores e dogmas tradicionais do cristianismo são questionados. Na biblioteca do mosteiro são mantidas às escondidas obras da filosofia grega antiga consideradas heréticas, portanto perigosas para a fé cristã. Aos curiosos, que liam às escondidas, é reservado o pior dos castigos: a morte por envenenamento. Caso não tenha assistido, sugerimos que o faça. TÓPICO 2 | O PENSAMENTO MEDIEVAL 97 É neste ambiente de tensão, entre Fé e Razão, que Tomás de Aquino e seus discípulos enfrentam, magistralmente, o desafio e aparentes contradições da cultura grega e o cristianismo, preparando o firme terreno por onde se edificaria a ciência moderna. A ele foi legada a tarefa de integrar de forma coerente o legado grego à fé cristã, e, atento às transformações de seu tempo, soube dar “de modo impressionante a virada do pensamento ocidental sobre seu eixo na Alta Idade Média para uma nova direção da qual a mente moderna seria herdeira e depositária” (TARNAS, 2011, p. 201). FIGURA 24 - SÃO TOMÁS DE AQUINO FONTE: <http://religiao.culturamix.com/santos/santo-agostinho/>. Acesso em: 16 ago. 2016. Diferentemente dos teólogos tradicionais, Aquino não se opunha às inovações da ciência, uma vez que reconhecia na natureza a criatividade divina, e conhecê-la não era nenhuma ousadia, pois Deus ainda permaneceria soberano, uma vez que a racionalidade humana era dom divino e o exercício da liberdade era dádiva por Ele concedida. Estava convencido de que a Razão e a Liberdade tinham valor em si e o objetivo de ambas era servir mais a Deus. As qualidades humanas eram expressões do próprio Criador, uma vez que o homem era feito à sua imagem e semelhança. A obra de Tomás de Aquino é imensa, mas, sem dúvida, a Summa Theologica é a que expressa de forma sistemática o pensamento cristão e a relação deste com inúmeras matérias, como antropologia, política, ética e direito. Na concepção tomista, o homem é um ser naturalmente voltado para a felicidade e o pecado é um agir em sentido inverso que, pela bondade divina, constitui uma escolha, uma vez que o homem é um ser livre. A liberdade é a precondição para qualquer ato ser considerado moral, pois um ato só é humano se for livre, ensinava Aquino. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 98 A liberdade tem, para o pensamento tomista, como pressuposto, o conhecimento de todas as alternativas para que possa escolher de forma virtuosa. Sendo, portanto, a obrigação moral de origem natural no ser humano, que deve praticar o bem e evitar o mal. Os fatores e condições aceitos que se apresentam razoáveis aos homens são: • O homem tem o dever moral de proteger sua vida e sua saúde, razão pela qual o suicídio e a negligência constituem um erro. • A necessidade natural de propagar a espécie resulta na necessidade fundamental de união de um homem e uma mulher. • Tendo em vista que o homem busca a verdade, seu melhor meio de consegui-lo consiste em viver em harmonia social com seus concidadãos, que também estão engajados em tal busca. Para assegurar uma sociedade ordenada e harmoniosa, as leis humanas são moldadas de modo que sirvam de diretrizes para o comportamento da comunidade (MORRISON, 2006, p. 78-79). Desde aí podem ser compreendidos os princípios que devem reger as leis humanas, que se originam do estado natural do homem, devendo a razão e a moral orientarem-se por estas tendências e capacidades. Tais qualidades formam o Direito Natural, um hábito interior, mas pela insuficiência e incompletude humana é necessário o Direito Positivo, portanto, obrigação moral imposta pela razão. A lei nada mais é que um ordenamento da razão tendo em vista o bem comum promulgado por aquele que tem o encargo de cuidar da comunidade (pergunta 90, r. 4) (AQUINO, 2001). Aquino (2001 apud MORRISON, 2006) define a lei na lógica tomista como: • Lei Eterna: a lei é um ditame da razão prática que emana do governo que rege uma comunidade perfeita. Portanto, a ideia mesma do governo das coisas em Deus, o senhor do Universo, tem a natureza de uma lei. E, como a concepção das coisas da razão divina não está sujeita ao tempo, mas é eterna, conclui-se que essa espécie de lei deve ser chamada de eterna (pergunta 91, r. 1). • Lei Natural: a lei natural é a parte da lei eterna que diz respeito especificamente ao ser humano. Se o homem não pode conhecer a totalidade de Deus, a racionalidade humana garante sua participação na razão eterna, através da qual ele identifica uma tendência natural (normativa) à prática de atos e a fins adequados. A lei natural nada mais é que a participação da criatura racional na lei eterna (pergunta 91, r. 2). • Lei Humana: as leis escritas – leis humanas – devem derivar de preceitos gerais da lei natural. Sendo, portanto, o direito um “ditame da razão prática”. A forma de se extrair as conclusões da lei é semelhante ao que ocorre com a “razão especulativa”. Da mesma forma que chegamos a conclusões distintas nas ciências, do mesmo modo, a partir dos preceitos da lei natural, a razão humana deve atingir determinações mais particulares de certas questões. O que confere à lei sua legitimidade é sua dimensão moral originada do Direito Natural. TÓPICO 2 | O PENSAMENTO MEDIEVAL 99 • Lei Divina: sua função é dirigir o homem a seu devido fim, que é revelado nas Escrituras Sagradas como forma de graça divina para que o homem possa atingir seus fins espirituais e naturais. A lei divina provém diretamente de Deus e é conhecida pela fé, esperança e amor. Em síntese, pode-se compreender a teoria em Tomás de Aquino como parte do pressuposto de o homem, enquanto ser racional e livre, escolhe sua conduta e, por não conhecer plenamente os desígnios de Deus, desvia-se do verdadeiro caminho pecando. Portanto, a autodeterminação que é uma bênção também é motivo da perdição e causa do mal (ausência do bem). 3 A CULTURA JURÍDICA MEDIEVAL Desde os primórdios do que iria ser definido como cultura jurídica medieval e superadasas questões intelectuais e políticas que envolveram a cristandade, problemas específicos na esfera jurídica apenas surgem no século XI, quando o ambiente econômico, político e urbano do norte da Itália exige uma nova compreensão intelectual da matéria jurídica e da administração da justiça, impulsionando uma cultura profana acerca do direito orientada não apenas para e pelas autoridades, mas para um mundo autônomo. Diante disso, a Idade Média sentiu a cultura antiga como uma forma modelar e intemporal da sua própria vida. Os textos da antiguidade eram, por isso, intocáveis no seu valor, se bem que a sua utilização (aplicação) na vida medieval continuava a constituir um problema que exigia um enorme e continuado esforço da razão cognitiva. Neste contexto, a expressão máxima de valor textual era a Sagrada Escritura e os demais de cunho teológico a ela relacionados. De forma correlata, na esfera jurídica, o texto que gozava do mesmo status era o Corpus Iuris, que exercia sobre o pensamento jurídico medieval a força de uma revelação do direito. É neste ambiente que na primeira metade do século XII o monge Irnerius, ao iniciar sua cátedra em Direito Justiniano em Bolonha, deu origem à escola dos glosadores, trabalho posteriormente seguido em distintas partes da Itália e França. Segundo António Manuel Hespanha (2005, p. 198), “as características mais salientes e originárias do método bolonhês são a fidelidade ao texto do códex Justiniano e o caráter analítico e, em geral, não sistemático”. A justificativa para o apego fiel ao texto é por ser considerado de origem sagrada, por acreditar- se na época que Justiniano fosse contemporâneo de Cristo, sendo, portanto, inadmissível outra interpretação que não consistisse num ato de humilde esclarecimento do sentido das palavras. Assim, o trabalho dos glosadores na interpretação exegética do texto de Justiniano ia paulatinamente se transformando numa dogmática, por criar uma linguagem técnica acerca do direito, entretanto, sem a preocupação exclusivamente prática, mas com objetivo teórico-dogmático, ou seja, de demonstrar a racionalidade de textos jurídicos sagrados. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 100 Este trabalho acabou por influenciar a cultura jurídica da época, em função da autoridade intelectual destes juristas, que gozavam de um prestígio próximo ao sagrado, além da exegese textual, um verdadeiro racionalismo contemplativo e puramente intelectual, que serviu de legitimação do direito positivo moderno, quando é travestido em “vontade política geral” da nação com finalidade prática sob o comando do Estado. Na Idade Média, quanto mais prática necessitava ser a interpretação dos textos jurídicos, mais ia se aproximando de técnicas suficientemente capazes de harmonizar, construir regras e princípios do que foi sendo definido como dogmática jurídica. Entretanto, a esta dogmática jurídica faltava o revestimento da “verdade” enquanto categoria lógica e autônoma. O avanço no sentido de edificar a moderna cultura jurídica será dado pelos comentadores, como foram designados os novos “práticos” do direito pré-moderno, que acabaram por transformar o Direito de Justiniano no direito comum da Europa (HESPANHA, 2005). O avanço urbano e mercantil europeu dos séculos XIII e XIV exigia maior valorização do direito local em relação ao direito comum cultivado pelos letrados. Estes pós-glosadores, “arquitetos da modernidade” ao lado de Dante, Giotto e Petrarca, foram os responsáveis em estabelecer a relação entre o jus commune com o jus speciale local. Este processo acabou por conduzir a uma unidade racional e lógica das distintas concepções, mas com uma finalidade prática, o que vai ultrapassando os glosadores por constituir-se numa interpretação menos comprometida com a “sacralidade” dos textos de Justiniano, além de também fundada numa atitude mais racionalista no sentido de guiar o pensamento por critérios lógicos tal como haviam sido herdados por Aristóteles. Entretanto, o direito, tanto para os comentadores, como havia sido para os glosadores, era considerado um repositório de experiências de natureza indiscutível, mesmo quando contraditório. Por esta razão, todo trabalho de sistematização foi realizado segundo uma ordem formalmente preestabelecida, porém, criando inovações dogmáticas que se tornam permanentes na modernidade. A inovação no plano interpretativo foi a oposição entre o texto de lei (verba) e seu espírito (mens). Esta distinção era baseada no princípio medieval da linguagem segundo o qual as palavras eram invenções humanas feitas para permitir exteriorizar um pensamento, um espírito, sendo as palavras verdadeiras expressões da alma. O espírito da lei enquanto valor encontrava apoio, por exemplo, no Digesto, scire leges non est verba earum tenere sed vim ac potestate (saber as leis não é dominar a sua letra, mas seu sentido e intenção). Para além desta tarefa era realizado um outro trabalho, mais importante: a interpretação lógica dos preceitos jurídicos. TÓPICO 2 | O PENSAMENTO MEDIEVAL 101 A interpretação lógica partia da concepção de que o texto era a expressão de uma ideia geral (ratio) tal qual o autor expressou em cada parte, sendo assim, o texto compreendido a partir da inter-relação do conjunto dos contextos, ou seja, cada preceito jurídico isolado é compreendido a partir do texto normativo que o constitui – do instituto jurídico – extraído das ideias formadoras iniciais – a dogmática. A ratio legis era obtida através de um procedimento lógico dialético, segundo as regras aristotélicas, que acabava se tornando um processo inovador e, portanto, criativo. 4 A HERANÇA CULTURAL PARA A MODERNIDADE O saber jurídico edificado pelos comentadores acabou por colocar em marcha uma lógica que conduziu à unificação interna do ordenamento jurídico, chegando no século XVI já pronta para sua cientifização. Como lembra Hespanha (2005), o paciente trabalho dos comentadores tornava viável um movimento de síntese, pelo qual todo o direito fosse reunido num sistema teórico orgânico submetido a axiomas e regras. Enfim, estava pronto e logicamente fundamentado um sistema coerente que poderia adquirir novo status independente da tradição romanística, já sendo possível avançar no sentido de libertar-se da árdua e laboriosa interpretação dos textos da antiguidade para sua fundamentação, abrindo-se, assim, o direito para uma perspectiva racionalista, produto de princípios universais que designam as condições institucionais de normatizar as relações sociais. Estava definitivamente superada a fase de construção sistemática do direito. É o ambiente filosófico do século XVII que vai fornecer elementos para uma concepção de direito estável e previsível, como a própria razão cartesiana dominante. Um projeto perseguido pelos juristas modernos que se distinguia do idealizado pelos romanistas clássicos, para os quais o direito era uma arte orientada por regras prováveis de estabelecer o justo que admitiam conflito de opiniões. Com a secularização do conhecimento e a quebra de hegemonia religiosa provocada pela Reforma Luterana, a validade do direito deveria ser buscada independente da crença religiosa. Com esta laicização, o fundamento do direito se desloca para valores referenciais laicos, comuns a todos e válidos pela evidência exclusivamente racional. É assim que se vai firmando o jusnaturalismo moderno, que se aproxima metodologicamente das ciências matemáticas, uma tendência de submeter o mundo humano ao mundo da natureza. Todos os seres regidos pelas mesmas leis e movimentos, enfim, a ordem e certeza do otimismo cartesiano. UNIDADE 2 | A CONSTRUÇÃO FILOSÓFICA DO DIREITO MODERNO NO MARCO DA TRADIÇÃO 102 LEITURA COMPLEMENTAR FILOSOFIA MEDIEVAL O desenvolvimentodo conhecimento durante a Idade Média conta com particularidades diversas que se afastam daquela errônea perspectiva que a define como a “Idade das trevas”. Contudo, a predominância dos valores religiosos e as demais condições específicas fazem do período medieval apenas singular em relação aos demais períodos históricos. Nesse sentido, o expressivo monopólio intelectual exercido pela Igreja estabeleceu uma cultura de traço fortemente teocêntrico. Não por acaso, os mais proeminentes filósofos que surgiram nessa época tiveram grande preocupação em discutir assuntos diretamente ligados ao desenvolvimento e à compreensão das doutrinas cristãs. Já durante o século III, Tertuliano apontava que o conhecimento não poderia ser válido se não estivesse atrelado aos valores cristãos. Logo em seguida, outros clérigos defenderam que as verdades do pensamento dogmático cristão não poderiam estar subordinadas à razão. Em contrapartida, existiam outros pensadores medievais que não advogavam a favor dessa completa oposição entre a fé e a razão. Um dos mais expressivos representantes dessa conciliação foi Santo Agostinho, que entre os séculos IV e V defendeu a busca de explicações racionais que justificassem as crenças. Em suas obras “Confissões” e “Cidade de Deus”, inspiradas em Platão, ele aponta para o valor onipresente da ação divina. Para ele, o homem não teria autonomia para alcançar a própria salvação espiritual. A ideia de subordinação do homem em relação a Deus e da razão à fé acabou tendo grande predominância durante vários séculos no pensamento filosófico medieval. Mais do que refletir interesses que legitimavam o poder religioso da época, o negativismo impregnado no ideário de Santo Agostinho deve ser visto como uma consequência próxima às conturbações, guerras e invasões que viriam a marcar a formação do mundo medieval. Contudo, as transformações experimentadas com a Baixa Idade Média promoveram uma interessante revisão da teologia agostiniana. A chamada filosofia escolástica apareceu com o intuito de promover a harmonização entre os campos da fé e da razão. Entre seus principais representantes estava São Tomas de Aquino, que durante o século XIII lecionou na universidade de Paris e publicou “Suma Teológica”, obra onde dialoga com diversos pontos do pensamento aristotélico. São Tomás, talvez influenciado pelos rigores que organizavam a Igreja, preocupou-se em criar formas de conhecimento que não se apequenassem em relação a nenhum tipo de questionamento. Paralelamente, sua obra teve uma composição mais otimista em relação à figura do homem. Isso porque acreditava que nem todas as coisas a serem desvendadas no mundo dependiam única e exclusivamente da ação divina. Dessa maneira, o homem teria papel ativo na produção de conhecimento. TÓPICO 2 | O PENSAMENTO MEDIEVAL 103 Apesar dessa nova concepção, a filosofia escolástica não foi promotora de um distanciamento das questões religiosas e, muito menos, afastou-se das mesmas. Mesmo reconhecendo o valor positivo do livre-arbítrio do homem, a escolástica defende o papel central que a Igreja teria na definição dos caminhos e atitudes que poderiam levar o homem à salvação. Com isso, os escolásticos promoveram o combate às heresias e preservaram as funções primordiais da Igreja. FONTE: SOUSA, Rainer Gonçalves. Filosofia Medieval. Brasil Escola. <http://brasilescola.uol.com. br/historiag/filosofia-medieval.htm>. Acesso em: 16 ago. 2016. 104 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, vimos que: • O pensamento jurídico medieval é produto das relações de poder e cultura daquele momento histórico quando o grande desafio foi o de consolidar o cristianismo e simultaneamente legitimar o poder papal. • O Direito Canônico resultou da consolidação e desenvolvimento da filosofia medieval que, resgatando o platonismo e aristotelismo, elaboram as bases do poder da Igreja. • O trabalho dos canonistas foi o início do que iríamos denominar na Modernidade de “Ciência Jurídica”. 105 AUTOATIVIDADE Considere a seguinte afirmação: A “modernidade” refere-se às formações societárias do “nosso tempo”, dos “tempos modernos”. O início da “modernidade” está marcado por três eventos históricos ocorridos na Europa e cujos efeitos se propagam pelo mundo: a Reforma Protestante, o Iluminismo (die Aufklärung) e a Revolução Francesa. Em outras palavras, a “modernidade” se situa no tempo. Ela abrange, historicamente, as transformações societárias ocorridas nos séculos XVIII, XIX e XX, no “Ocidente”. Neste sentido, ela também se situa no espaço: seu berço indubitavelmente é a Europa. Seus efeitos propagam-se posteriormente pelo hemisfério norte, especialmente pelos países do Atlântico Norte (FREITAG, Bárbara. Habermas e a Filosofia da Modernidade. In: Perspectivas, São Paulo, V.16, 1993, p. 23). Faça uma breve dissertação de no máximo uma página discutindo: 1 Os fatores históricos e políticos que contribuíram para a construção da modernidade. 2 Como se caracterizou o Direito Moderno. 106 107 UNIDADE 3 FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Esta última unidade tem por objetivos: • bases teóricas, filosóficas e políticas sob as quais se edificou o Positivismo Jurídico; • compreender a Teoria Kelseniana de Direito, como a bem-sucedida cientifização do Direito Positivista, bem como os desafios e problemáticas legadas; • identificar as bases da Teoria Crítica e da Crítica Jurídica – origens e propostas; • problematizar a Teoria Crítica do Direito no âmbito da cultura jurídica brasileira contemporânea; • discutir os principais desafios filosóficos e teóricos do Direito Contemporâneo à luz do Novo Constitucionalismo. Esta unidade está dividida em dois tópicos. Ao final de cada um deles você encontrará atividades que o auxiliarão no aprendizado. TÓPICO 1 – OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO TÓPICO 2 – DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS 108 109 TÓPICO 1 OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Por meio do estudo das Unidades 1 e 2 já compreendemos conceitos fundamentais de filosofia e da filosofia do Direito; e a trajetória histórica do pensamento filosófico pré-moderno. Este é o momento de nos aproximarmos da atualidade e refletirmos acerca dos elementos, características e fundamentos da Filosofia Moderna do Direito com vistas a compreendermos a legitimidade do Direito contemporâneo, discutindo os desafios que se colocam ao jurista e visualizarmos formas de superação de problemáticas que dificultam a efetividade da justiça. A concepção moderna de Direito é o resultado de uma convergência de fatores e elementos sociais, políticos, econômicos, históricos e culturais cuja maior expressão é o liberalismo, que em sua vertente filosófica é, em síntese, uma concepção doutrinária que, com base em ideias iluministas elaboradas entre os séculos XVII e XVIII na Europa, defende a não intervenção do Estado no controle da economia e da vida social. Para o jusfilósofo Norberto Bobbio (2000, p. 17), “o liberalismo é uma concepção política segundo a qual o Estado possui poderes e funções limitados, se contrapondo, portanto, ao Estado Absolutista”. Entretanto, destaca Bobbio (2000) que o modelo liberal passou historicamente por inúmeras transformações, havendo uma diferenciação entre as distintas etapas do liberalismo, que foram desde a absoluta não intervenção estatal – na sua versão clássica – até uma intervenção necessária a fim de impedir a dominação dos mais fortes sobre os mais fracos – liberalismo social. Salienta ainda que o pressuposto filosófico do liberalismo é a doutrina dos direitos do homem, segundo a qual todos os homens, independentemente desua condição ou origem, são portadores de direitos essenciais, como a vida, liberdade, autodeterminação, segurança, felicidade, entre outros. São estes exatamente os direitos que devem ser assegurados pelo Estado, sendo este ente político o único poder legítimo de definir o que “é Direito” e “de direito”. UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 110 A lógica liberal, em suas múltiplas faces e versões, que vão desde o liberalismo filosófico até o político e econômico, tornou-se o principal ideário do mundo moderno. Uma análise histórica e política mais atenta permite compreender o liberalismo, defendido pelas revoluções burguesas que destituíram a nobreza do poder e romperam com o poder político papal desde os séculos XVII e XVIII, como defesa de valores individuais burgueses bastante convenientes para os interesses da burguesia que emergia e se consolidava naquele momento histórico. Sem dúvida, eram necessários meios de legitimação das novas formas de aquisição e concentração de riquezas que iam sendo elaboradas e uma justificação racional deste novo modelo de vida e de mundo que estava nascendo. Dentre os pensadores iluministas que elaboraram as bases do liberalismo moderno podem ser destacados: John Locke (1632-1704), Voltaire (1694-1778), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), David Hume (1711-1776), Adam Smith (1723- 1790), Immanuel Kant (1724-1804), dentre outros. O Iluminismo, no qual o Direito Moderno é edificado, pode ser resumidamente compreendido a partir das seguintes características: Valorização da razão acima da fé, devendo ser o conhecimento acerca da natureza, da sociedade e da política, produto da investigação e experiência objetiva. Forte oposição ao absolutismo político e aos privilégios da nobreza e da Igreja. Defesa da liberdade na política, economia e escolha religiosa incluindo a igualdade de todos perante a lei, uma vez que “Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum”. (art. 1º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789). Defesa dos interesses individuais, naturais e inerentes à condição humana. Particularmente, para o Direito interessa também a forma e dinâmica de estruturação de poder que foi elaborada e consolidada. A organização centralizadora de poder que se institui sob a forma secularizada monárquica de Estado absolutista transforma-se no Estado nacional, liberal e representativo do século XVIII, gerenciador das leis do livre mercado do liberalismo econômico e tutor das relações de competição privada. [...] Neste novo cenário de rupturas e de gradual secularização está que a nascente ciência jurídica moderna não só se revela como produção de uma específica formação social e econômica, mas, principalmente, consolida-se no processo de junção histórica entre a legalidade estatal e a centralização burocrática. Trata-se da tendência, que acabaria sendo predominante, do Direito identificado com a legislação posta pela autoridade revestida de poder máximo e, ainda mais, o Direito como criação do Estado (WOLKMER, 2006, p. 107-108). TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 111 É sob esta perspectiva que é elaborado o Direito Moderno e a lógica de saber acerca do direito, como já anteriormente estudado, marcadamente centralizada no positivismo jurídico. NOTA O positivismo jurídico acabou por eliminar todas as especulações idealizadas e metafísicas acerca do direito, reduzindo Direito às categorias de legalidade vigentes. Nesta ótica, a formalização do positivismo jurídico encontra legitimidade na explicação da objetividade coercitiva, na previsibilidade e segurança jurídica. Conclui-se que: • A concepção jurídica normativa moderna é elaborada desde a existência e forma de organização do Estado. • O Positivismo Jurídico foi a melhor e mais sofisticada elaboração concreta da lógica de Direito Moderno. • Tem como maior característica o formalismo legal. • O processo de codificação do século XIX foi o mais eficiente instrumento de legitimação e operacionalidade do Direito. 2 HANS KELSEN E A PURIFICAÇÃO DO DIREITO Na perspectiva moderna, compreender o Direito se reduz à reprodução do texto legal, tornando o trabalho do jurista uma mera exegese limitada à subsunção do texto legal ao fato da vida social desde um raciocínio lógico dedutivo. O paradigma da subsunção é o modelo de racionalidade jurídica que vai dominar a prática do direito na perspectiva positivista. Trata-se de uma concepção que entende que a aplicação do direito ao caso concreto é resultado de um pensamento silogístico no qual o juiz fixa: • o fato como premissa maior; • o sistema normativo como premissa menor; • o direito do caso concreto como conclusão necessária e inquestionável. Este modelo pressupõe: • o direito como um sistema autossuficiente e coerente; • o raciocínio lógico é a metodologia adequada para fixar o justo do caso concreto; • há possibilidade de distinção entre fato (premissa maior) e direito (premissa menor); UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 112 • a decisão, justo do caso concreto, é resultado do necessário e inquestionável “enquadramento” (subsunção), extraindo daí os efeitos legais e jurídicos para o caso concreto. Observe que a base e justificativa dessa ideia é que o direito posto (direito positivo) tem a capacidade de resolver todos os casos concretos e a atividade jurídica é um ato neutro (independente de valores morais e éticos) e imparcial. Resume-se na famosa frase: “Dê-me o fato que te darei o direito”! Ainda que se possa discutir se o Direito é uma ciência própria ou um saber da prática, a verdade é que desde o início do século XX poucos foram os autores que ousaram desafiar esse paradigma hegemônico, especialmente após o advento da obra “Teoria Pura do Direito”, de Hans Kelsen, pensador que se esmerou em demonstrar como a pureza metodológica do Direito é a principal característica de sua cientificidade. Como veremos adiante, essa “pureza” é exatamente o objeto maior de crítica do positivismo jurídico. Afirma o jusfilósofo mexicano Jesus Antonio de La Torre Rangel: “[...] um dos maiores problemas da ciência do Direito é a sua arbitrariedade, por ser constituída de leis arbitrárias que se modificam com o tempo, pois uma mera palavra do legislador converte bibliotecas inteiras em lixo” (2006, p. 32). O direito, nesta perspectiva, é transformado em uma ciência dogmática estática, reservando ao jurista o papel de reprodutor de códigos e leis, eliminando qualquer discussão acerca dos valores, interesses e necessidades sociais que estão subjacentes à norma jurídica e como isso, além de empobrecer o papel do direito, o transforma em instrumento de reprodução de uma ordem política posta. Antes de irmos adiante, vamos brevemente compreender o pensamento e a importância de Hans Kelsen. FIGURA 25 - HANS KELSEN Hans Kelsen – jurista e filósofo nascido em 11 de outubro de 1881, na cidade de Praga (Boêmia austríaca), pertencente ao então Império Austro-húngaro. Falecido em 19 de abril de 1973 em Berkeley, Califórnia-EUA. Um dos mais importantes e discutidos pensadores do direito contemporâneo. FONTE: <http://revistavisaojuridica.uol.com.br/advogados-leis-jurisprudencia/42/paginas-da- historia-hans-kelsen-158859-1.asp>. Acesso em: 20 ago. 2016. TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 113 Em meio à profunda crise teórica em fins do século XIX e início do XX, Kelsen é um marco divisório para o positivismo jurídico, inaugurando o chamado normativismo positivista e superando a esgotada concepção exegética. Com base na sólida e rigorosa metodologia científica e constitucionalista – tendo redigidoa Constituição da Áustria –, inaugura a técnica de controle de constitucionalidade através de tribunal específico. IMPORTANT E Controle da constitucionalidade é um dos conceitos centrais para o direito contemporâneo. Trata-se de técnica de verificação de adequação vertical que obrigatoriamente deve existir entre as normas infraconstitucionais e a Constituição. É uma análise crítica comparativa entre o ato legislativo/normativo e a Constituição, tendo como pressuposto que no Estado de Direito nenhum desses atos pode ferir ou contrariar a Lei Fundamental. A base política e jurídica do controle de constitucionalidade é o pressuposto de supremacia da Constituição escrita, por tratar-se de norma fundamental que se sobrepõe a todas as demais e ter seu procedimento de criação – o poder constituinte originário é um ato político e não jurídico – distinto dos demais. Em síntese, ao que está em desacordo com a Constituição, ponto máximo do vértice do sistema normativo, deve ser declarada a não possuir validade política e jurídica. Os pressupostos para o controle da constitucionalidade são, basicamente: a existência de uma Constituição rígida, escrita e que não pode ser modificada por procedimentos infraconstitucionais; e a existência de um órgão/tribunal que garanta a supremacia constitucional. Kelsen contribui decisivamente para a autonomia científica do Direito, sobretudo com a publicação da obra “Teoria Pura do Direito”, em 1934 – com segunda edição em 1960 –, sendo esta a mais destacada produção do autor ao lado de “Teoria Geral do Direito e do Estado” e “Teoria Geral das Normas” (obra póstuma). A “Teoria Pura do Direito” é a obra pioneira que distingue duas esferas distintas: o fenômeno jurídico – manifestação social e valorativa do Direito – e a ciência do Direito – entendimento técnico procedimental científico desta manifestação. E é nesta distinção que vamos encontrar a base da teoria kelseniana, qual seja: direito e moral. Segundo tal perspectiva, o órgão julgador (Estado) não está legitimado a julgar de acordo com convicções políticas/morais, mas sim de acordo com o sentido do fato dado pelas normas estatais. É nesta dimensão que deve ser compreendida a famosa dicotomia “ser”, mundo dos fatos/da vida social; e “dever ser”, direito positivado/o fato como deve ser; ou seja, a preocupação de Kelsen é diferenciar o direito como é (vigente) da valoração moral do conteúdo ou sentido normativo. UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 114 O “dever ser” é sempre produto de uma vontade política legítima e o “ser” é produto da vontade politicamente sem legitimidade. ATENCAO Alguém pode exigir que outro faça ou deixe de fazer algo por entender moralmente justo (prescrever uma ação ou omissão), mas não pode obrigar ao sujeito fazer ou deixar de fazer o que quer. Por quê? Exatamente porque não possui legitimidade política para tal exigência. E a ciência do Direito permite a abstração do direito do mundo dos fatos sociais. A Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo – do Direito positivo em geral, não de uma ordem jurídica especial. É teoria geral do Direito, não interpretação de particulares normas jurídicas, nacionais ou internacionais. Contudo, fornece uma teoria da interpretação. Como teoria, quer única e exclusivamente conhecer o seu próprio objeto. Procura responder a esta questão: o que é e como é o Direito? Mas já não lhe importa a questão de saber como deve ser o Direito, ou como deve ser feito. É ciência jurídica e não política do Direito [...] De um modo inteiramente acrítico, a jurisprudência tem se confundido com a psicologia e a sociologia, com a ética e a teoria política. Esta confusão pode porventura explicar-se pelo fato de estas ciências se referirem a objetos que indubitavelmente têm uma estreita conexão com o Direito. Quando a Teoria Pura empreende delimitar o conhecimento do Direito em face destas disciplinas, fá-lo não por ignorar ou, muito menos, por negar essa conexão, mas porque intenta evitar um sincretismo metodológico que obscurece a essência da ciência jurídica e dilui os limites que lhe são impostos pela natureza do seu objeto (KELSEN, 2006, p. 1). Lendo atentamente as primeiras palavras da obra, não é difícil concluir que o objetivo de Kelsen é depurar o Direito, entendido exclusivamente como Direito Positivo, de outras formas de conhecimento, compreendendo-o como ciência em si mesma. Para Bittar e Almeida (2001, p. 324): Com os pilares teóricos fixados no método positivista é que Kelsen (Teoria Pura do Direito) procurou delinear uma Ciência do Direito desprovida de qualquer outra influência que lhe fosse externa. Assim, alhear o fenômeno jurídico de contaminações exteriores à sua ontologia seria conferir-lhe cientificidade. Nesse sentido, o isolamento do método jurídico seria a chave para a autonomia do Direito como ciência. Dessa forma, por meio das ambições de sua teoria, ter-se-ia uma descrição do Direito que correspondesse apenas a uma descrição pura do Direito. TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 115 Validade não significa que a norma é certa ou errada, justa ou injusta; mas elaborada de acordo com os pressupostos estabelecidos de maneira formal pelo sistema normativo. ATENCAO Fica evidente em Kelsen que a atividade do jurista é, a partir de um sistema normativo previamente definido, chegar à norma do caso concreto, não cabendo nesta análise os valores que antecedem a elaboração da norma. Exatamente por esta concepção é que Direito e Estado seriam “duas faces” de uma mesma “moeda”. Outro conceito-chave da teoria kelseniana é o conceito de validade da norma. Validade deve ser compreendida como a qualidade e condição da norma quando ela é emanada de um órgão político competente e se elaborada de acordo com o procedimento, modo, hierarquia, estrutura e lógica prevista pelo ordenamento jurídico. A validade normativa deve ser compreendida a partir do fundamento de validade de todo sistema normativo: a norma hipotética fundamental (Grundnorm). A recíproca e hierárquica relação de validade entre as normas que compõem o sistema é definida a partir do fundamento último de validade de todo ordenamento jurídico, formando uma espécie de “pirâmide” cujo vértice é a norma fundamental. Segundo uma teoria jurídica positivista, a validade do Direito positivo se apoiar numa norma fundamental que não é uma norma posta mas uma norma pressuposta e que, portanto, não é uma norma pertencente ao Direito positivo cuja validade objetiva é por ela fundamentada, e também no fato de, segundo uma teoria jusnaturalista, a validade do Direito positivo se apoiar numa norma que não é uma norma pertencente ao Direito positivo relativamente ao qual ela funciona como critério ou medida de valor, podemos ver um certo limite imposto ao princípio do positivismo jurídico (KELSEN, 2006, p. 238). Há um pressuposto de validade de todo sistema, uma norma não jurídica, mas política, que estabelece uma espécie de estrutura hierárquica de normas onde, em tal escalonamento, no ápice, ponto mais alto da hierarquia, há uma última norma que não é a norma constitucional de um Estado, mas um pressuposto inexistente fisicamente, mas existente logicamente. UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 116 Claro que esse conceito é um dos grandes problemas da teoria de Kelsen! Qual o pressuposto de validade, norma hipotética fundamental, justo? Qualquer sistema que a define é justo? Para Kelsen essa não é uma questão jurídica e sim política. Todo sistema hierárquico requer um “ponto final” de referência para não regressar ad infinitum, além de que, se não há um pressuposto de validade, pode ser aceito qualquer um. O que se pode afirmar é que o limite devalidade aceito pelo pacto social são os valores que constituíram a ordem constitucional, e é a partir daí que deve raciocinar o jurista, funcionando como um princípio/ fundamento de legitimidade de todo sistema. Desde esse conceito de validade não é difícil compreender que Kelsen nos leva a compreender que Direito é um sistema de normas hierarquicamente definidas desde a ordem política e jurídica estabelecida segundo um pressuposto de validade, norma hipotética fundamental, e que permite o controle de constitucionalidade das normas. Para Fábio Ulhoa Coelho (2001, p. 43-44), a validade da norma, portanto, está condicionada a três pressupostos: • Competência da autoridade que a editou, derivada da norma hipotética fundamental. • Mínimo de eficácia, possibilidade de produzir os efeitos jurídicos a que se destina, sendo irrelevante a sua inobservância episódica ou temporária – porque as normas jurídicas não perdem a validade por ‘desuso’. • Eficácia global da ordem de que é componente. Como se conclui, o método kelseniano tem que ser compreendido como a busca de uma tentativa de autonomia da ciência do Direito, não como o estudo ou a teoria de uma ordem jurídica particular, mas compreender as estruturas sobre as quais se constrói o Direito Positivo e a universalização destas estruturas. Exclui-se qualquer preocupação sociológica ou juízo acerca do justo, uma vez que o que importa para a Teoria Pura é compreender os pressupostos de validade, vigência e eficácia da norma jurídica. A ciência, para Kelsen, deve, por exemplo, diferenciar-se da política. O político e o jurídico devem ser separados para que a ciência jurídica não se contamine com elementos de natureza política, correndo o risco de perder sua independência. A ciência não é ciência de fatos, de dados concretos, de acontecimentos, de atos sociais. A ciência, para Kelsen, é a ciência do dever-ser, ou seja, a ciência que procura descrever o funcionamento e o maquinismo das normas jurídicas (BITTAR; ALMEIDA, 2001, p. 330). Isso significa que o objeto do Direito nessa concepção pode e deve ser estudado como algo diverso/separado dos fenômenos sociais e estudar a ciência jurídica é independente da realidade social. Esta é uma das grandes problemáticas TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 117 do positivismo jurídico, devendo o jurista limitar-se ao Direito posto, estabelecido pelas relações de poder, não observando as questões valorativas, éticas ou sociais que o conduziriam à realidade social. O Direito normativo/dogmático, e somente este, é seu objeto de estudo. Diante disso, o jurista não precisa ficar indiferente no que diz respeito a valores éticos, morais e sociais; ele pode criticar o Direito positivo e esforçar-se para modificá-lo, alcançando assim sua reforma e a estruturação de algumas normas quando julgar necessário (LIXA; SPAREMBERGER, 2016, p. 36). O postulado central do positivismo é a crença epistemológica de que o sentido do justo está expresso na letra da lei. Como parte integrante da mesma crença, os ideais de plenitude, coerência, universalidade e a-temporalidade do sistema normativo permitem, enquanto instância racional, a elaboração de ficções hermenêuticas, como a “vontade do legislador” e “vontade da lei", de múltiplas funções práticas e ideológicas. Inicialmente estes postulados justificam a atividade compreensiva do direito como ato formal, excluindo qualquer possibilidade de criação por parte do intérprete e inferência de elementos substanciais, em nome da igualmente ficção “segurança jurídica” (LIXA, 2013). Em tal perspectiva, as aparentes ambiguidades, insuficiências, lacunas, ou até mesmo contradições do sistema, poderiam ser solucionadas com critérios hermenêuticos adequados e análise mais detalhada do significado do texto legal. Esta “flexibilidade dogmática” seria necessária para resolver as dificuldades práticas, solucionadas com a reportação do intérprete à mente do legislador, compreendendo o caso concreto tal qual teria sido previsto ou poderia resolver o elaborador da lei (LIXA, 2013). Enfim, o postulado da vontade do legislador permitiria ao intérprete superar os silêncios, imprecisões e contradições do texto legal, mantendo as exigências procedimentais do formalismo em sua aplicação. Distintas teorias elaboradas sob o rótulo de “hermenêutica jurídica”, assim como admitem a “vontade do Estado” como instância política legítima de produção do direito, característica maior do positivismo jurídico, identificam esta como instância racional do direito, o “espírito da lei” ou “espírito do legislador”. Correntes que chegam a soluções técnicas e conclusões normativas próximas, tratando a norma jurídica como algo pensado e concebido fora do sujeito, cuja operacionalidade depende de um processo racional formalista capaz de reproduzir a ordem jurídica-política instituída. Assim, a operacionalidade técnica do sistema normativo acaba por identificar metodologia da ciência jurídica com procedimento interpretativo, confundindo- se a esta metodologia, e por vezes absorvendo, com o ato hermenêutico. Trata- se, sobretudo, de uma racionalidade cognitiva-instrumental específica do direito moderno que pretende solucionar o problema básico da atividade jurídica como a correta e segura determinação do sentido prático da ordem normativa. UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 118 O desafio kelseniano de depurar a ciência jurídica acaba por deixar em aberto os fundamentos da interpretação e aplicação normativa ao demonstrar que a interpretação é um ato de decisão, de vontade ou mesmo de poder político. Esta afirmação acaba por criar um vazio epistemológico para as tradicionais teses de segurança jurídica, neutralidade, objetividade e previsibilidade penosamente mantidas desde o século XIX e que serão revistas pelas correntes críticas do Direito (LIXA, 2013). 3 CRISE E CRÍTICA: OS LIMITES DA RACIONALIDADE JURÍDICA MODERNA A razão libertadora, um dos mais audaciosos projetos da Modernidade, foi idealizada desde seu início para carregar em si um conjunto de representações e perspectivas que pareciam representar a realização de um grande sonho da humanidade. O projeto da modernidade foi construído graças a um enorme esforço intelectual de pensadores iluministas que pretendiam desenvolver uma ciência objetiva, uma moralidade e uma concepção de lei que fossem universalmente válidas pela intrínseca lógica de suas proposições gerada pelo acúmulo de conhecimento produzido por sujeitos livres e criativos aliados pelo objetivo comum de buscar emancipação e enriquecimento (HABERMAS, 1992, p. 109-110). Esta racionalidade aplicada à organização social prometia como resultado a certeza de uma sociedade estável, democrática e justa. Assim, a justificativa de necessidade de submissão social e política à razão científica era a promessa de segurança definitiva contra qualquer imprevisibilidade do mundo natural, e com tal discurso justificador a ciência submeteu a natureza em toda sua dimensão (a humana e não humana). Entretanto, como pondera David Harvey (1993, p. 23), “há uma suspeita de que o projeto iluminista estava condenado a voltar-se contra si mesmo e transformar a busca de emancipação num sistema universal de opressão em nome da liberdade humana, e esta espécie de tragédia anunciada tornou-se realidade no início do século XX”. O otimismo, em relação aos frutos da ciência, foi dolorosamente rompido pelos eventos que marcaram o século XX. Sem dúvida, a maior catástrofe humana foi a Segunda Guerra Mundial, cuja lembrança, com os episódios de Auschwitz e Hiroshima, tornou-se insuportável. Nos anos 50 a Europa, e com ela boa parte da humanidade, deixou de acreditar no futuro e, como consequência, a ciência perdegrande parte da autoridade que até então possuía. Esta desilusão não pode ser dissociada das guerras mundiais. A entrada para o século XX rapidamente tornou-se um desencanto, ficando evidente que a Modernidade, com suas grandes promessas, havia se transformado em um projeto fracassado. TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 119 Segundo dados oficiais, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), embora nem todos os continentes tenham sido palco dos conflitos, o número de mortos atingiu a cifra de 15 a 65 milhões de pessoas. Nem todos foram mortos diretamente em campos de batalha, mas com seus “efeitos colaterais”, como a “Gripe Espanhola” que se alastrou pelo mundo. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) o número de mortos estimados é de 40 a 72 milhões de pessoas, sendo 62% civis (alguns em campos de concentração por sua etnia, condição física, sexualidade etc.; outras, vítimas de armas de destruição em massa, como a bomba atômica). São por demais conhecidas as imagens desoladoras dessa trágica fase da história. Já no fim da Segunda Guerra Mundial, durante o conhecido Julgamento de Nuremberg no dia 25 de novembro de 1945, oficiais nazistas foram levados a julgamento por diferentes ações, como extermínio em massa, tortura, privação de liberdade de civis, experimentos com seres humanos etc. NOTA Nuremberg é um momento histórico em que o positivismo jurídico é colocado em questão. Os acusados alegavam em sua defesa que estavam agindo sob a égide do Direito e proteção de um Estado Constitucional! Vamos ler a transcrição de parte da sentença que reproduz a defesa dos acusados: [...] a defesa propõe a tese de que estes indivíduos cometeram atos que, independentemente do valor ou desvalor moral, foram perfeitamente legítimos de acordo com a ordem jurídica do tempo e local em que foram realizados. Os acusados, segundo essa tese, eram funcionários públicos estatais que agiram em plena conformidade com as normas jurídicas vigentes, determinadas por órgãos legítimos do Estado nacional socialista. Não só estavam autorizados a fazer o que fizeram, como também, em alguns casos, eram legalmente obrigados a fazê- lo. A defesa nos relembra um princípio elementar de justiça, que a civilização que nós representamos aceitou há muito tempo e que o próprio regime nazista ignorou: esse princípio, usualmente enunciado com a expressão latina ‘nullun crimen, nulla poena sine lege pravia’, proíbe impor uma pena por um ato que não era proibido pelo direito vigente no momento de seu cometimento (SANTIAGO NINO, 2010, p. 20-21, grifos nosso). A atrocidade e o extermínio de milhões de seres humanos foram feitos sob a proteção da lei. Seriam então atos legais e justos? Esta era a discussão central! O resultado você já sabe: todos foram condenados! E desde aí o positivismo jurídico não mais encontra defensor. UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 120 Para compreender todo o julgamento também devemos ler parte da sentença condenatória, que é uma das críticas mais contundentes ao positivismo jurídico: O princípio moral de que as normas jurídicas vigentes devem ser obedecidas e aplicadas é um princípio plausível, visto que está vinculado a valores como segurança, ordem, coordenação de atividades sociais etc., mas é absurdo pretender que ele seja o único princípio moral válido. Há outros princípios igualmente válidos, como os que consagram o direito à vida, à integridade física, à liberdade etc. Em certas circunstâncias excepcionais, a violação desses últimos princípios, em que se incorreria se fossem respeitadas as regras jurídicas, seria tão drástica e grosseira que justificaria a desobediência ao princípio moral que prescreve ater-se ao direito vigente. Essas circunstâncias ocorreram durante o regime nazista, e não se pode duvidar que os funcionários desse regime não podiam justificar em termos morais as atrocidades que cometeram com base no fato de estarem elas autorizadas ou prescritas pelo direito vigente (SANTIAGO NINO, 2010, p. 29). DICAS Sobre a discussão acerca dos atos de extermínio cometidos pelo regime nazista serem ou não legítimos há dois filmes excelentes que recomendamos: “O Leitor” - filme teuto-americano de 2008, dirigido por Stephen Daldry e baseado no romance Der Vorleser, de 1995, do escritor alemão Bernhard Schlink. “Hannah Arendt” - filme de drama teuto-francês de 2012, uma obra biográfica sobre a filósofa política alemã de origem judaica, Hannah Arendt, envolvida em um dos grandes julgamentos de nazistas da história e sobre o qual ela posicionou-se de maneira inesperada, mas própria de um filósofo e cientista político. O positivismo jurídico, diante do desencanto com o projeto civilizatório da Modernidade, perda de perspectiva, era previsível desde o início da modernidade, implícito nas suas incompatíveis promessas anunciadas de controle, previsibilidade, paz social, “ordem e progresso” sem fim etc. A razão moderna embrionariamente carregava consigo a exigência de uma crítica. Crítica que, como afirma Michel Foucault (s.d., p. 35), é uma atitude própria da civilização moderna, um movimento: [...] pelo qual o sujeito se dá o direito de interrogar a verdade sobre seus efeitos de poder e o poder sobre seus discursos de verdade; pois bem, a crítica será a arte da inservidão voluntária, aquela da indocilidade refletida. A crítica teria, essencialmente por função, o desassujeitamento no jogo do que se poderia chamar, em uma palavra, a política da verdade. TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 121 A razão herdada do século XIX que havia possibilitado uma ciência positiva assentada numa lógica instrumental e a edificação do Estado como aparato legítimo de racionalização da economia e da sociedade pode ser apontada como a causa do surgimento de um movimento crítico na Alemanha da primeira metade do século XX, que demonstrou os elos entre a ingenuidade do saber científico com as formas de dominação construídas pela sociedade moderna. A empreitada da Escola de Frankfurt de deslocar a crítica para a esfera do poder permitiu compreender a falsa ideia que o saber possui de si mesmo e como a aproximação desmedida entre ambos – saber e poder – produziu consequências desastrosas e irremediáveis. A Teoria Crítica, como enfrentamento à lógica de ciência positiva, surge em um momento histórico de otimismo na realização da revolução operária. A Revolução Russa de 1917 e os levantes operários alemães de 1918 e 1923 davam mostras de que a Revolução do Proletariado não era uma utopia, mas um projeto político e social possível. O novo horizonte teórico construído a partir das obras de Lukács e Korsch, importantes pensadores revolucionários, representava alternativa ao leninismo e sua concepção naturalista da história. Na Alemanha, forças reacionárias organizam-se, em 1933, no Partido Nacional Socialista, permitindo que Hitler chegasse ao poder. Instaura-se um período de perseguição e aniquilamento da organização operária. FIGURA 26 - THEODOR ADORNO E MAX HORKHEIMER Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), dois grandes expoentes da Escola de Frankfurt, juntamente com Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e outros. FONTE: <http://brasilescola.uol.com.br/cultura/industria-cultural.htm>. Acesso em: 20 ago. 2016. A Teoria Crítica, que acabou por nominar o movimento dos intelectuais vinculados à Escola de Frankfurt, tem sua origem em 1937, quando Max Horkheimer a utiliza num escrito (Teoria Tradicional e Teoria Crítica) para indicar um ideário contraposto ao paradigma cartesiano. Ao todo são cerca de 12 ensaios publicados entre os anos de 1933 e 1940, na maioria, escritos durante seu exílio em Nova York. O projetode aliar a teoria marxista com as distintas disciplinas da ciência social através de uma metodologia fecunda e orientada filosoficamente representava, para Max Horkheimer, um dos fundadores da Escola de Frankfurt, uma forma de mediação necessária a partir do esgotamento no século XIX das premissas idealistas da filosofia da história hegeliana, que, até então, UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 122 representavam a tradição teórica capaz de aliar análise empírica da realidade e reflexão filosófica, mas esvaziadas por terem sido absorvidas pelo positivismo e a metafísica contemporânea. A base da Teoria Crítica de pensar uma filosofia da história a partir da pesquisa social, buscando meios cognitivos que possam mediar as relações sociais com uma ideia transcendental de razão, conduziu a uma sistemática crítica ao positivismo como tentativa metodológica de visualizar um conceito interdisciplinar de pesquisa. O sistema ideal é o sistema unitário da ciência que, nesse sentido, é todo-poderoso. E porque no objeto tudo se resolve em determinações intelectuais, o resultado não representa nada consistente e material: a função determinante, classificadora e doadora de unidade é a única que fornece a base para tudo, e a única que todo esforço almeja. [...] Segundo esta lógica, o progresso da consciência da liberdade consiste propriamente em poder expressar cada vez melhor, na forma de quociente diferencial, o aspecto do mundo miserável que se apresenta aos olhos do cientista (HORKHEIMER, 1989, p. 38). A esta tradição, Horkheimer dá o nome de “Teoria Tradicional” ou hipotético-dedutiva. A “Teoria Crítica” é crítica da “Teoria Tradicional” sob um ponto de vista ético. Admitindo a impossibilidade de abandono absoluto com as realizações teóricas passadas, diferencia ambas propostas quanto à atitude do sujeito, ou seja, na relação do cientista para com a sociedade. A Teoria Crítica é uma concepção teórica que não perde de vista seu contexto social de origem e sua possibilidade de aplicação prática, pretendendo cumprir a tarefa de transformação radical da ordem social existente. ATENCAO FIGURA 27 - PENSADORES DA ESCOLA DE FRANKFURT E IDEALIZADORES DA TEORIA CRÍTICA FONTE: <mosqueteirasliterarias.comunidades.net/a-escola-de-frankfurt>. Acesso em: jul. 2016. TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 123 Tal proposta exigia uma permanente reflexão no sentido de esclarecer seu papel no processo histórico, o que até então não era metodologicamente possível pela rígida divisão entre filosofia e ciência. A Teoria Crítica, buscando edificar o pensador social num agente de transformação, parte da eliminação da natural separação entre indivíduo e sociedade na medida em que, reconhecendo os limites de sua base social, busca um comportamento orientado para uma emancipação do todo social. A intenção do comportamento crítico é ultrapassar o da práxis social dominante. O projeto da Teoria Crítica não desejava ser messiânico no sentido de propor um novo modelo político, mas o de desalienação como possibilidade de emancipação. E é exatamente aí que o conhecimento encontra seu lugar: o de admitir como pressuposto de racionalidade a permanente dinâmica social, articulando, assim, a reflexão teórica com o processo histórico-social. Em outras palavras, o objeto privilegiado da Teoria Crítica é a investigação acerca da articulação dialética entre os processos de conhecimento e transformação social. A pretensa isenção defendida pela Teoria Tradicional mostrava-se insustentável e deveria ser repudiada pelas consequências contra os humilhados da história. Havia servido de perverso instrumento de legitimação de formas alienantes e alienadas de formas de vida humana, legitimando racionalmente o enigma da “servidão voluntária”. Os desdobramentos da “Escola de Frankfurt” e da “Teoria Crítica” são tão vastos que é uma tarefa quase impossível estabelecer uma unidade teórica. Talvez o mais apropriado seja considerar as tendências progressivamente estabelecidas e mantidas graças à perseverança do “espírito crítico” que ultrapassou distintos momentos do século XX. O primeiro período encerra-se pelo confronto com o fascismo, quando o Instituto é fechado, em março de 1933, por ser considerado responsável pelas “tendências hostis” ao Estado nazista. Inicia-se um período histórico de ameaça não apenas para os membros do Instituto, mas da própria civilização ocidental. A amarga experiência psicológica e intelectual do exílio produziu um estado de espírito que é espelhado nos escritos dos teóricos críticos que observam o mal desejando compreender por que a humanidade mergulhava num novo tipo de barbárie ao invés de chegar a um estágio mais humano. Como nunca foi possível admitir-se uma unidade na Escola de Frankfurt, sobretudo nos primeiros momentos, não se pode falar em seu declínio. Teoria Crítica e Escola de Frankfurt em sentido mais amplo, independente de Adorno e Horkheimer, foram símbolos institucionais de um pensamento dedicado à luta contra todas formas de dominação, mantendo dentro da tradição marxista uma permanente abertura para com múltiplos diálogos teóricos. O grande projeto de um conhecimento interdisciplinar de uma sociedade emancipada. Seus elementos mais consistentes sempre foram a firme posição ética, a angústia com o destino da humanidade e a preocupação humanista com o futuro da civilização ocidental, e, neste sentido, a Teoria Crítica representou um ideário irradiador, serve como documento de constatação da desintegração da sociedade liberal burguesa europeia moderna, escrito, em não raras vezes, de maneira trágica por pensadores rebeldes desta mesma sociedade. UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 124 Em síntese, como produto do cenário filosófico de fins da primeira metade do século XX, marcado pelo pessimismo e descrença do pós-guerra, tornou-se urgente a tarefa de lançar um novo olhar sobre um mundo alienado, aniquilado e sem esperança emancipatória. É neste contexto que deve ser compreendida a Escola de Frankfurt e a Teoria Crítica, como defesa de uma insurgência contra o positivismo que pretende aliar o conhecimento científico acerca dos fatos sociais à reflexão filosófica (FREITAG, 1986). Este é o ponto de partida para uma oposição às profundas contradições sociais e as formas de pensamento que as legitimam, que foi assumido por Theodor Adorno e Max Horkheimer, que defenderam a Teoria Crítica como alternativa e espécie de libelo fundamental de oposição ao capitalismo através do qual assume-se o compromisso com a construção de uma sociedade justa e livre. Os defensores da Escola de Frankfurt fazem uma nítida separação entre teoria científica e teoria crítica. Diferem quanto ao seu fim na medida em que as teorias científicas têm o propósito de fazer “uso instrumental” do mundo exterior, capacitando seus agentes para controlar e cumprir de forma eficaz os fins escolhidos, ao passo que a Teoria Crítica pretende emancipação e esclarecimento, tomando a reflexão crítica como forma de libertação das coações ocultas do saber hegemônico. Ainda diferem quanto à estrutura cognitiva. As teorias científicas são objetificantes por não serem em si parte do domínio que pretendem conhecer. Por outro lado, a Teoria Crítica é autorreferente, na medida em que ela própria é objeto do que descreve. Finalmente, diferem quanto à aceitabilidade cognitiva. As teorias científicas requerem confirmação empírica através da observação e experimentação, enquanto a Teoria Crítica é aceita reflexivamente. Um traço marcante da Teoria Crítica é a oposição ao positivismo e ao empirismo, destacando e denunciando a crescente racionalidade instrumental e tecnológica que toma conta da sociedade ocidental como formade dominação. A observação de que o mundo é reduzido a objeto de exploração técnica é relacionada pelos pensadores da Teoria Crítica ao método elegido pelas Ciências Sociais, considerando a consciência científica a principal fonte de declínio cultural através do qual a humanidade ingressou numa nova barbárie. 4 A REVISÃO DOS FUNDAMENTOS DO DIREITO NO BRASIL: CRISE E CRÍTICA A entrada do pensamento crítico no direito se intensifica a partir da década de 60 desde a influência de pensadores e das ideias que vinham da Escola de Frankfurt e das teses de pensadores como Michel Foucault. Na Europa as inovações da Teoria Crítica encontravam um terreno fértil no ambiente pós- guerra, que projetavam no campo jurídico a desmistificação do jusnaturalismo e do positivismo. TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 125 Antonio Carlos Wolkmer (2015), retomando a trajetória do pensamento jurídico crítico europeu, lembra que a crítica jurídica se consolidou inicialmente na França por volta dos anos 70, culminando com o “manifesto” da Associação Crítica do Direito em 1978, atingindo, em seguida, a Itália, Espanha, Bélgica, Alemanha, Inglaterra e Portugal. Na América Latina, os “ventos” inovadores chegam por volta da década de 80, com o engajamento de juristas progressistas e comprometidos com a superação dos obstáculos políticos que impediam a construção e efetivação da democracia. Este movimento de renovação do pensamento jurídico recebe a adesão de pensadores brasileiros em inúmeras faculdades de direito, que acabaram por serem pioneiros de uma pedagogia jurídica emancipadora. As perspectivas epistemológicas, apesar de múltiplas, tinham como ponto em comum a defesa do rompimento com o positivismo legalista e revelando o caráter dominador e centralizador do direito hegemônico (LIXA, 2015). A Teoria Crítica trouxe consigo o impacto do questionamento do papel ideológico do direito na medida em que, diferentemente da concepção moderna de ciência, coloca no interior da discussão jurídica as contradições e ambiguidades inerentes ao direito moderno, buscando tomar o direito como instrumento não de manutenção da ordem estabelecida, mas a possibilidade de emancipação do sujeito histórico tradicionalmente submerso em determinada normatividade repressora, mas também discutir e redefinir o processo de constituição do discurso legal mitificado e dominante (WOLKMER, 2015, p. 18). Mostrava-se assim um horizonte inovador, mas que trazia consigo a necessidade de rompimentos e abandonos teóricos. Nas três últimas décadas do século XX o cenário social, político e econômico brasileiro provocou, de forma crescente, um profundo mal-estar na cultura jurídica brasileira. O saber jurídico moderno, até então uma sólida ciência que sustentava a racionalidade e autonomia do direito, viu-se esgotado. O horizonte projetado como futuro, não de mera continuidade do passado ou presente, mas da promessa de cumprir o desejado e, quem sabe, até o sonhado, indicava o inverso: sua derrota. Apesar de algumas vitórias, chegava o momento de admitir os limites do exercício do poder em “nome da lei e ordem”, mas algumas destas próprias vitórias serviam para confirmar a poderosa e revolucionária certeza de que as lutas se orientam segundo um horizonte de futuro e não para uma enganosa visão UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 126 profética. Diante da esperança, toda derrota representava, tão somente, mais um momento de luta, e com esta certeza ia se resistindo à prisão, exílio, tortura e, até mesmo, o doloroso sacrifício de vidas amadas. A consciência jurídica crítica emerge num novo momento histórico brasileiro quando é iniciado o rompimento com o poder ditatorial, em fins dos anos 80, e a ação de novos atores sociais vai indicando que não se tratava somente de buscar novos conteúdos teóricos. O problema da crise da razão jurídica não era tão somente um problema de conteúdo, tampouco de metodologia. Era muito mais que isto. O momento apontava o esgotamento do pensamento tradicional, era um problema político que trazia consigo profundas implicações de conhecimento. Assim, construir um saber contra-hegemônico era uma questão epistemológica de consequências políticas irrenunciáveis. A capacidade de percepção da complexa realidade não era tão somente uma questão de troca de paradigmas. Vivia-se coletivamente uma experiência que possibilitava, de um lado, a potencialização do reconhecimento da falácia do saber científico único e neutro, denunciando a existência de outros espaços de construção de saber; e, de outro, a necessidade de perspectivas coletivas de transformações políticas. Tratava-se de encontrar racionalidades alternativas num novo e complexo tempo e superar a angústia da impotência do que não se pôde ou não se quis evitar. Foi sendo, desde então, estabelecida uma trajetória fragmentada e por muitas vezes polêmica, autodenominada “crítica do direito”. Um corpo de ideias produzidas a partir de distintos marcos teóricos que buscaram estabelecer um diálogo flexível, podendo-se identificar, desde então, um conjunto de vozes dissidentes com objetivo irrenunciável de revisão epistemológica, reconhecendo os limites e funções, declaradas ou não, do saber jurídico oficial, a crítica do direito desloca seu eixo (LIXA, 2010). Embora sem ter cumprido a tarefa de construir uma Teoria Crítica do Direito, talvez por vocação da própria atitude crítica de constituir-se mais num movimento político permanente de insubordinação à verdade, ou pela sua própria natureza, condenada a impossibilitar e identificar a unidade, o certo é que pode-se analisar a trajetória histórica deste movimento-ação insurgente brasileiro como tentativa de resgate de elementos, fragmentos e experiências, em não raras vezes negligenciadas e marginalizadas, que podem indicar o que, efetivamente, se encontra agonizante e o que resta a ser retomado como guia para edificação de um novo saber emancipatório. TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 127 Roberto Lyra Filho nasceu no Rio de Janeiro em 13 de outubro de 1926. Sociólogo e jurista, exerceu atividade artística e literária (sob o pseudônimo mais conhecido de Noel Delamare), destacando-se como penalista na vida acadêmica e fora dela. Foi professor titular da Universidade de Brasília até o ano de 1984, quando se transfere para São Paulo, ano em que profere conferência memorial para estudantes de Direito (Centro Acadêmico XI de Agosto) sobre sua visão crítica do direito. Foi autor de inúmeras obras jurídicas, sempre marcadas por seu pensamento socialista, que é reconhecido por Marilena Chauí como uma Nova Filosofia Jurídica que devolve ao Direito sua dignidade política. Seus escritos são marcados pela indissociável relação entre direito e política, numa época em que esta era atitude corajosa e assumida por poucos. FIGURA 28 - DIREITO ACHADO NA RUA FONTE: <https://petdirunb.wordpress.com/tag/direito-achado-na-rua/>. Acesso em: jul. 2016. A construção de uma teoria crítica do direito brasileiro pode ser analisada a partir dos movimentos que foram edificados, desde uma pluralidade teórica e diretriz política de ação e de intensidade variável, algumas mais, outras menos bem-acabadas, vão identificando e cimentando o que podemos vislumbrar como uma hermenêutica jurídica crítica brasileira. Um ponto de partida para a construção do pensamento jurídico crítico é a Nova Escola Jurídica Brasileira (NAIR), descrita por Roberto Lyra Filho um pouco antes de sua morte (ocorrida em 11 de junho de 1986). Fundada por ele em Brasília, cujo boletim era a Revista de Direito & Avesso (publicado desde 1982), acabou por conquistar adeptos militantes em todo Brasil e germinando como movimentoscríticos do direito que se seguiram entre as décadas de 80 e 90. FIGURA 29 - ROBERTO LYRA FILHO FONTE: <http://odireitoachadonarua.blogspot.com.br/p/roberto-lyra-filho.html>. Acesso em: 20 ago. 2016. UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 128 Os trabalhos de Roberto Lyra explodem entre as décadas de 70 e 80 como manifestos de desejo de uma prática jurídica inovadora e politicamente comprometida. Aponta o que via como tarefa cotidiana do jurista: a permanente luta pela vida democrática e garantia de direitos fundamentais. Como pensador de seu tempo, assume de forma corajosa a necessidade de releitura do marxismo pelos juristas, colocando em questão a incorreta concepção segundo a qual Marx teria negado o direito. Seus trabalhos demonstram que é possível captar a dialética e materialismo histórico, os “fios condutores” do ideário marxista, como métodos de superação do tradicional positivismo e jusnaturalismo que impregnavam a cultura jurídica nacional. Analisa a decadência da cultura jurídica dominante na obra Para um Direito sem Dogmas (publicada em 1980), buscando as origens da ciência dogmática do direito. Demonstra que o conservadorismo jurídico esteve historicamente relacionado à necessidade de manutenção dos interesses dominantes, e o direito utilizado segundo o jogo de conveniências das elites. Denuncia a necessidade de superação do modelo hegemônico de direito através da renovação teórica e prática, já que a ciência dogmática do direito moderno foi o instrumento ideológico privilegiado da burguesia e serve mais como entrave do que propriamente de garantia emancipatória. Com o amadurecimento da Nova Escola Jurídica Brasileira, suas propostas inovadoras foram inseridas em inúmeros campos jurídicos, contribuindo desde a democratização do ensino do direito, com implementação de projetos interdisciplinares que realimentaram o debate acerca da função e modos de produção do saber jurídico, até fundamentar as práticas políticas em defesa da democracia assumida pelos juristas a partir da década de 80. A metodologia crítica dialética de Roberto Lyra, além de reconhecida como uma nova prática por inúmeros pensadores do direito no Brasil, do porte do professor José Eduardo Faria, da Universidade de São Paulo, Luis Alberto Warat e Antonio Carlos Wolkmer, da Universidade Federal de Santa Catarina, e militantes do “direito insurgente” como Miguel Pressburger, alcança círculos acadêmicos estrangeiros, tornando-se um ponto de ancoragem para os movimentos que se seguiram no Brasil nas décadas de 80 e 90. FIGURA 30 - COMPROMISSO POLÍTICO E JURÍDICO Charge história da época onde é clara a necessidade de compromisso político e jurídico com as classes populares. FONTE: <http://mestresdahistoria.blogspot.com.br/2014/11/confira-correcao-das-questoes-de. html>. Acesso em: 20 ago. 2016. TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 129 Iam sendo descobertos no Brasil novos sujeitos de direito e novas fontes de direito, crescendo a preocupação em garantir a democratização política e jurídica. Embora já crescendo no Brasil um grupo de juristas críticos, restava ainda a necessidade de um fato aglutinador, o que foi propiciado pelos eventos que culminaram com o surgimento do movimento do Direito Alternativo (DA). Amilton Bueno de Carvalho (2005, p. 73), retomando a história do movimento, lembra que: O início do engajamento de juízes – que acabaram por ser os pioneiros - deu-se em meio à discussão pré-Constituinte de 1985, quando a Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul promoveu encontros para fazer sugestões à Constituição em projeto de elaboração e durante os debates um deles se declara publicamente socialista, provocando perplexidade, para os que por força ideológica não poderiam admitir um posicionamento político de um juiz, e alívio para outros que descobriam não serem sós e tampouco exóticos por se identificarem com as lutas populares, e em todo o país iam surgindo declarações de juízes com o desejo de reconstrução democrática comprometida com a inclusão das vítimas da história. A partir de então formou-se um grupo de estudos para repensar o direito a partir do desejo de um novo modelo de sociedade. O gênero alternatividade, categoria abstrata e genérica, carrega a ideia de “alter” (o alternativo) como luta permanente à emancipação de “sujeitos preferenciais”: os oprimidos. Lembra Celso Luiz Ludwig (2006) que são inúmeros os pensadores do direito, cada um a seu modo, que trilham o caminho do uso do direito em favor daqueles para os quais tradicionalmente foi negada a justiça e o direito: o uso do direito a favor da emancipação da classe trabalhadora (Nicolas M. López Calera, Pietro Barcellona, Luigi Ferrajoli, Modesto Saavedra...); alternatividade identificada com os interesses do povo, dos pobres, dos marginalizados. Autores nacionais que defendem um direito insurgente a favor dos oprimidos (Miguel Pressburger); ao lado do povo marginalizado, oprimido e espoliado (Antonio Carlos Wolkmer); aliado aos interesses das classes subalternas (Wilson Ramos Filho); a defesa de proteção dos interesses das massas oprimidas (Lédio Rosa de Andrade); declaradamente comprometido com os pobres (Amilton Bueno de Carvalho); e tantos outros que foram somando a imensa massa de juristas comprometidos com um direito emancipatório e garantidor das condições necessárias à vida com dignidade (RANGEL, 2006). Em fins da década de 70, parte da classe média, que havia apoiado o golpe de 64, graças ao medo produzido pela propaganda anticomunista por setores conservadores da Igreja Católica, diante das frequentes denúncias de tortura e morte de estudantes, cassações de políticos, ausência de liberdade de expressão e perseguições a sindicatos, acaba por afastar-se do governo militar. UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS 130 FIGURA 31 - MANIFESTAÇÕES POPULARES EM BRASÍLIA DURANTE A CONSTITUINTE DE 88 FONTE: <http://www.educacional.com.br/reportagens/20AnosConstituicao/constituinte.asp>. Acesso em: 20 ago. 2016. No início dos anos 80 o regime estava saturado e o movimento popular cresce e torna-se imprescindível uma ampla negociação entre a oposição e a base governista. Embora houvesse um forte apelo político para convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte originária e exclusiva, como forma de garantir o máximo possível de participação popular, acabou-se por instaurar, em 1986, uma Constituinte dentro do próprio Congresso Nacional e dependente das estruturas e interesses existentes, mas sem perder o rumo da história. Aquele foi um momento em que se fundou a mentalidade de um novo constitucionalismo, quando o direito passou a ser o instrumento transformador da Nova República Democrática. Apesar de contestável a legitimidade da Assembleia Constituinte, o processo instaurado em 86 carregava consigo as contradições e esperanças de um Brasil que ia saindo dos “anos de chumbo”. A legitimidade da Constituinte acabou sendo construída pelo amplo movimento de participação da sociedade civil através de sindicatos, associações de classe, enfim, das várias iniciativas populares de participação, mas que apesar disto ainda eram evidentes as posições ideológicas, políticas e jurídicas antagônicas herdadas da ditadura. De um lado TÓPICO 1 | OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO JUSFILOSÓFICO MODERNO 131 os conservadores, que representavam os interesses da elite nacional, tentavam amarrar um texto constitucional que mantivesse seus privilégios econômicos; de outro os progressistas, que se organizavam para elaborar uma Constituição garantista, dirigente e programática. Deste embate de forças políticas o resultado foi a elaboração de uma Carta Constitucional norteada pelos princípios do Estado Democráticode Direito, que conferiu à “República” brasileira a tarefa de conferir eficácia ao programa constitucional definido. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, seja por trazer em si difícil travessia democrática, seja por uma euforia contida depois de longos anos de negação de vida política, com seus vícios e virtudes, inaugura uma fase inédita no país, quando supera-se o “velho constitucionalismo” e funda-se um modelo de Estado com a qualidade de Democrático de Direito. Sem adentrar na complexidade do tema do moderno constitucionalismo, o certo é que com o modelo adotado no Brasil há uma inovação no ordenamento jurídico-político, uma vez que a fórmula política nominada “Estado Democrático de Direito” supera os modelos anteriores. O novo constitucionalismo, embora nascido em tradicionais centros europeus, no Brasil representa simultaneamente conquista e desafio. Conquista no sentido de possibilitar uma cidadania ativa através de instrumentos democráticos na intervenção das condições reais de existência dos brasileiros, fixando obrigações dirigentes para o Estado. O Estado Democrático de Direito tem um conteúdo transformador da realidade social, já que ultrapassa o conteúdo material da vida humana, passando a irradiar valores de democracia em todos os sentidos da vida da Nação, inclusive na jurídica. Por outro lado, a nova fórmula política é obrigada a conviver com o velho positivismo jurídico que povoa o imaginário dos juristas através da dogmática e seus instrumentos técnico-operacionais, o que coloca em risco e fragiliza o modelo democrático duramente conquistado. Este é um desafio que vem sendo enfrentado pela via hermenêutica enquanto condição de possibilidade de compreender a disfuncionalidade entre o direito, que pelo novo constitucionalismo é um instrumento de garantia e transformação social, as instituições políticas encarregadas de conferir eficácia ao modelo democrático de Estado e a crescente complexidade das demandas sociais. Indo nesta direção, vai-se construindo um novo paradigma no pensamento jurídico brasileiro, autodenominado crítico, cuja gigantesca tarefa é servir de condição de possibilidade da ordem democrática e resistência ao estrito formalismo legalista. 132 Neste tópico, você viu: • O Positivismo Jurídico como resultado de uma convergência de fatores teóricos, políticos e sociais cujo resultado foi a redução do Direito ao Direito Estatal negando as demais fontes produtoras da norma jurídica bem como produzindo uma separação entre Direito e Moral. • A “Teoria Pura do Direito” de Hans Kelsen publicada nas primeiras décadas do século XX é um divisor de águas no Positivismo Jurídico e na racionalidade jurídica moderna, inaugurando uma nova etapa – normativismo jurídico – bem como uma nova concepção acerca do saber jurídico, a cientifização do direito. • Os eventos que se seguiram a II Guerra Mundial – o holocausto e os regimes ditatoriais – deixaram evidente a necessidade de rever a aproximação entre Direito e Moral e desde aí passa a ser marcante uma concepção acerca do que se convencionou chamar de Teoria Crítica do Direito. • A emergência do chamado Novo Constitucionalismo ou Constitucionalismo Contemporâneo como possibilidade de renovação do Direito, uma vez que, além do Constitucionalismo ter sido a face do Direito que se sustentou no início do século XXI, foi capaz de aproximar Direito, Moral e Ordem Democrática. RESUMO DO TÓPICO 1 133 Após o estudo realizado sobre Positivismo Jurídico e o pensamento de Hans Kelsen, abordado neste tópico, responda a seguinte questão: Qual o sentido de “Pureza” do Direito defendido por Kelsen? AUTOATIVIDADE 134 135 TÓPICO 2 DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Na entrada para o século XXI anuncia-se o esgotamento da modernidade. A “liquificação” da modernidade, pergunta Zygmunt Bauman (2001, p. 9), “não foi um processo que esteve desde o início presente no discurso moderno? Não foi o “derretimento dos sólidos” seu maior passatempo e principal realização? Não foi a modernidade “líquida” desde sua concepção?” Os “sólidos” destruídos pela modernidade, no final do século XX, para Bauman, passaram a apresentar sinais de maior liquidez. FIGURA 32 - “PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA” DE SALVADOR DALI (1931) - MUSEU DE ARTE MODERNA DE NOVA YORK FONTE: <https://mestresdapintura.com.br/blog/os-relogio-derretidos-de-dali/>. Acesso em: 20 ago. 2016. 136 UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS Os confrontos passaram a ser inevitáveis e os sintomas de mudança e descrença vão rearticulando as condições sociais e políticas, parecendo indicar uma nova condição humana e novas técnicas redefinem as relações de poder. As instituições e convicções defendidas pela modernidade parecem debilitadas. Os velhos e tradicionais partidos políticos e tradições ideológicas cedem espaço a movimentos sociais inéditos que vão se identificando coletivamente. As “sólidas” redes de interações sociais modernas cedem espaço ao multi (multiétnico e multicultural). Os referenciais de identificação não são mais elementos de uma cidadania individualizada. A fragmentação justifica a dominância do discurso do “mundo único”, e o global e local tornam-se visceralmente associados sob o lema “pense global, haja local”. Muitos pensadores, nas três últimas décadas do século XX, passaram a apontar para o novo fenômeno multifacetado monoliticamente chamado de globalização. Ao que parece, por força da tradição universalizante do ocidentalismo, há uma tendência dominante de apresentar a globalização como linear e consensual, ocultando impactos e as interações com o sistema mundial de dominação cujos efeitos agravam dramaticamente a exclusão e as desigualdades econômicas, fragilizando o tradicional conceito de Estado-Nação, além de promover migrações em massa, agravando e promovendo conflitos étnicos e políticos, degradação ambiental, dentre outros. “A pobreza produzida maciçamente torna-se banal ao lado de uma competitividade que tem a guerra como norma, eliminando qualquer forma de compaixão” (SANTOS, 2011, p. 46). O individualismo domina para além da vida econômica e invade a ordem política e os espaços territoriais. “Vão sendo implantados novos valores aos objetos e aos seres humanos que tomam como parâmetro uma suposta contabilidade global que mercantiliza todos os subsistemas da vida social, rompendo solidariedades numa batalha sem quartel” (SANTOS, 2011, p. 48). Por imposição do mercado, o consumismo move a vida pública e privada. Um novo fundamentalismo que emagrece moral e intelectualmente as pessoas, reduzindo a visão de mundo e fazendo esquecer qualquer relação entre o consumidor e o ser humano. Em finais do século XX a novidade é a sensação de naufrágio não apenas dos projetos individuais, mas de incertezas acerca do futuro coletivo, da possibilidade de uma forma correta de partilhar a existência e dos critérios de compreensão acerca dos acertos e erros da experiência humana. “O otimismo civilizatório, produto do esforço iluminista que abraçou a ideia de progresso e foi capaz de romper com o passado através da secularização e dessacralização do conhecimento” (HARVEY, 1993, p. 24). O Iluminismo tomou o progresso como lema para a secularização e dessacralização do conhecimento em nome da liberdade humana. A ciência prometia emancipação e o otimismo era o estímulo para as novas doutrinas fundadas na razão humana universal, mas as esperanças que tornavam suportáveis as perversidades modernas em finais do século XX desaparecem e as contradições internas e inconfessáveis do projeto iluminista evidenciam-se. TÓPICO 2 | DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS 137 2 A NOVA CONDIÇÃO NO COTIDIANO O empobrecimento globalizadoe a desconstrução das instituições tradicionais encontram no discurso da pós-modernidade uma justificação para a condição humana em finais do século XX, como uma teoria que abarca o que não é homogêneo, flexível e volátil. O ceticismo é a consequência do esfacelamento da noção de totalidade e retiram-se de cenas as tradicionais formas de engajamento revolucionário. Apenas as microrrevoluções passam a ser possíveis, já que as alternativas abrangentes e universais são condenadas ao fracasso, e o passado parece aprisionar o presente. É um novo palco da história, constituído por múltiplos momentos e elementos que comportam inúmeras leituras. O “cenário” de confiança, estabilidade e previsibilidade, necessário à construção de uma identidade individual, arquitetado e erigido coletivamente, criou as estruturas fundamentais do imenso edifício do que veio a ser a civilização moderna. Tais estruturas acabaram abaladas pela impossibilidade de ajuste entre a volúvel escolha individual e os pré-requisitos funcionais do coletivamente. As múltiplas compreensões acerca dos riscos e incertezas que afetam o cotidiano do planeta, do fim da crença na certeza, previsibilidade e controle sob a qual se forjou a civilização ocidental moderna vai construindo um movimento intelectual complexo e ambíguo, estruturado de forma difusa e que vai sendo provisoriamente rotulado de pós-modernidade. Trata-se de um conjunto de atitudes abertas e indeterminadas, moldadas por uma grande diversidade de correntes intelectuais e culturais: pragmatismo, existencialismo, marxismo, psicanálise, feminismo, hermenêutica, desconstrução e filosofia pós-empirista da ciência, além de outras. Estas são bases epistemológicas a partir das quais confluem princípios compartilhados que conduzem essencialmente à crença na falibilidade e relatividade do conhecimento subjetivamente determinado e marcado indelevelmente pelo pluralismo de valores e escolhas. São tempos difíceis, onde há tanto para transformar e repensar e, ao mesmo tempo, é um enorme desafio construir ou reconstruir um pensamento crítico (TARNAS, 2011). 3 PALEOPOSITIVISMOS, JUSCONSTITUCIONALISMOS E RENOVAÇÃO CRÍTICA NO BRASIL Sem dúvida, uma das pautas centrais do Direito contemporâneo é a sua constitucionalização e fundamentos legitimadores. As velhas concepções assentadas no paradigma juspositivista legalista, chamado por alguns de paleopositivismo, que tem como raciocínio acerca do Direito uma lógica autossustentadora e autojustificadora, em fins do século 138 UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS XX são substituídas pelo que vai se autodenominando neopositivismo ou neojuspositivismo subordinando o Direito ao sentido constitucional, que, embora redefinido pelo princípio da legalidade substancial que vincula o sentido normativo à coerência dos princípios e fundamentos constitucionalmente estabelecidos, mantém o velho paradigma da legalidade formal de produção. “Mais recentemente, acentuadamente a partir das três últimas décadas do século XX e início do XXI, com a entrada em cena das democracias participativas, os direitos fundamentais ganham novo status político e jurídico, constituindo a esfera do não decidível” (FERRAJOLI, 2015, p. 20), definindo limites políticos e jurídicos tanto da produção das normas como de sua interpretação, que implicam em exigir que a produção e interpretação das normas sejam não só originadas segundo procedimentos democráticos e através de um Poder Legislativo legítimo, mas que sejam estáveis, prospectivas, gerais e públicas, invertendo a tradicional relação entre o direito e a política. A lógica constitucionalizadora do direito ganha impulso maior, sobretudo nas últimas décadas do século XX. Esta etapa é marcada no plano teórico pelo esvaziamento das imagens e discursos representativos da racionalidade moderna, o que acaba por criar um complexo debate no qual são criadas novas rotulações. Instala-se um tempo dos “pós”, “de(s)” e “neo(s)”. São incorporadas inéditas expressões que significam tentativas de rotular situações às quais ou se defende, e se tenta promover, ou se rechaça, mas há o que parece ser um ponto de convergência: o esgotamento das categorias da modernidade e das grandes utopias que serviram para construir o horizonte de futuro moderno, tomando-se a crítica à modernidade o ponto de partida para sua própria superação (LIXA, 2015). Para autores como Zizek (2012), a complexidade sem fim do mundo contemporâneo possibilita o surgimento de conceitos opostos que parecem inquestionáveis, tais como a intolerância como tolerância, religião como senso comum racional etc. Enfim, vive-se um tempo em que é grande a tentação de gritar: “chega de bobagem!”. Talvez seja essa, diz Zizek, a manifestação do desejo de estabelecer uma linha demarcatória entre a fala lúcida e sã e a bobagem, reação que tem servido para despertar a ira da ideologia predominante. O senso comum de nossa época diz que, em relação à antiga distinção entre ‘doxa’ (opinião acidental/empírica, sabedoria) e Verdade, ou ainda mais radicalmente, entre conhecimento positivo empírico e fé absoluta, hoje é preciso traçar uma linha entre o que se pode pensar e o que se pode fazer (ZIZEK, 2012, p. 20). É na tentativa de ir além do mero pensar, neste contexto dos “pós”/”de(s)”/“neo(s)” e com desejo de fazer a reinvenção, é que no Brasil se edificam e consolidam correntes no Direito que se autodenominam críticas, como já analisado. Sinais de esgotamento que vão conduzindo para o interior do campo jurídico o pensamento crítico, inaugurando, assim, uma discussão inédita e fértil (LIXA, 2015). TÓPICO 2 | DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS 139 A ordem política e jurídica colocada em marcha no Brasil com a Constituição de 1988 e o inédito momento histórico, somados, representavam a superação do autoritarismo, exclusão social e violação de direitos fundamentais que, desde os primórdios da invenção colonialista, vinham constituindo uma patologia crônica exposta no grave quadro social que se delineava. A grande maioria dos juristas entra em sintonia com as tendências constitucionalistas que apontavam como grande desafio garantir a efetividade das constituições democráticas. Até então, historicamente, os comandos jurídicos e políticos constitucionais, de fato, estavam nas mãos dos detentores dos poderes político, econômico e social e, finalmente, o país começou a ‘levar a sério’ a Constituição e, apesar das dificuldades enfrentadas, tais como a desigualdade e o patrimonialismo que ainda povoam as instituições nacionais, os avanços em relação ao passado são inquestionáveis (SARMENTO, 2010, p. 3-4). Logo após a homologação da Constituição de 1988, juristas, como Luis Roberto Barroso e Clèmerson Merlin Clève, passaram a militar a concepção de que a Constituição, enquanto norma jurídica, deveria ser aplicada comumente pelos juízes, defendendo um constitucionalismo de efetividade, independentemente de qualquer mediação legislativa. IMPORTANT E Há de se destacar a obra “Direito Constitucional e a Efetividade das Normas”, de Luis Roberto Barroso, publicada no início da década de 90 e “A Teoria Constitucional e o Direito Alternativo: para uma dogmática constitucional emancipatória”. In: Uma vida dedicada ao Direito: uma homenagem a Carlos Henrique de Carvalho publicada em 1995. Estas obras são marcos importantes para esta nova etapa do pensamento jurídico brasileiro. [...] o que viria a tirar do papel as proclamações generosas de direitos contidas na Carta de 88, promovendo justiça, igualdade e liberdade. Se, até então, o discurso da esquerda era de desconstrução da dogmática jurídica, a doutrina da efetividade vai defender a possibilidade de um uso emancipatório da dogmática, tendo como eixo a concretizaçãoda Constituição (SARMENTO, 2010, p. 248). Desde aí se aprofundaram e se radicalizaram os estudos da hermenêutica jurídica. Influenciados pelo “giro” linguístico da filosofia e a entrada do pensamento de Ronald Dworkin, Robert Alexy, John Rawls, Hans Georg Gadamer, Jurgen Habermas, entre outros, juristas como Lenio L. Streck e Eros Roberto Grau refundam o pensamento jurídico brasileiro denunciando e renunciando ao velho positivismo e seus procedimentos hermenêuticos. Nesta 140 UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS nova etapa, ou quadra da história, como prefere Lenio L. Streck nominar este inédito momento de redefinição, é acentuada a natureza valorativa do Direito e dos princípios constitucionais (LIXA, 2015). Nesse contexto, lembra Daniel Sarmento (2010, p. 249), “há uma verdadeira febre de trabalhos sobre teoria dos princípios, ponderação de interesses, teorias da argumentação, proporcionalidade, razoabilidade etc. e se incorpora no pensamento jurídico crítico brasileiro o neoconstitucionalismo”. Tratava-se de um momento de conquistas e necessidades de que fossem garantidas. Entretanto, já na primeira década do século XXI, muitos se davam conta de que o neoconstitucionalismo não era a superação do velho positivismo. Como afirma Streck (2011), não é porque o neoconstitucionalismo tem um discurso axiologista e valorativo que é superado o positivismo formal legalista. As teorias “pós”/“neo” positivistas acabaram por caírem na incerteza e indeterminação do Direito. Seguramente o ‘relativismo’ e a ‘teoria da argumentação’ foram mal incorporados no pensamento brasileiro e decreta-se a ‘morte do método’ e em seu lugar passa a reinar absoluta incerteza e relativismo nas decisões judiciais. Possivelmente são os efeitos perversos de uma lógica colonizada que insiste em ser mantida na cultura jurídica brasileira (STRECK, 2011, p. 37). Não é novidade, desde Kelsen, que o julgador tem um espaço discricionário em aberto e que desde muito foi desmistificado o juiz “boca da lei”, mas como adverte Streck (2011), deve-se estar atento ao “pós-positivismo à brasileira”: [...] é preciso estar alerta para certas posturas típicas do ‘pós positivismo à brasileira’, que pretende colocar o rótulo de novo em questões velhas, já bastante desgastadas nessa quadra da história, quando vivenciamos um tempo de constitucionalismo democrático. Ainda hoje presenciamos defesas vibrantes de ativismos judiciais para implementar e concretizar os direitos fundamentais, tudo isso sempre retornando ao mesmo ponto: a ideia de que, no momento da decisão, o juiz tem um espaço discricionário no qual pode moldar sua vontade [...] (STRECK, 2011, p. 38). Em síntese, com as concepções e modelos “descobertos” no Brasil em fins do século XX, sobretudo com a entrada em cena do neoconstitucionalismo, é decretada a “morte do método”. Para Ferrajoli (2012), nestes tempos de total impotência e decadência da política, predomina um constitucionalismo principialista, momento quando se leva em conta todas as suas implicações, coloca em perigo a separação dos poderes, o princípio da legalidade e submissão do juiz somente à lei: em síntese, todos os princípios do estado de direito. “Diante da angustiante constatação, pergunta o pensador garantista italiano: quais alternativas se pode contrapor a esta orientação que coloca o Direito em uma espécie de “loteria do protagonismo judicial”? É momento de profundo e profícuo debate das vias possíveis de solução” (FERRAJOLI, 2012, p. 245). TÓPICO 2 | DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS 141 Uma das possibilidades é apontada por Ferrajoli (2012, p. 251) ao propor como ponto de partida para a definição do horizonte hermenêutico os direitos fundamentais consagrados na ordem constitucional. Isto é, não dar lugar à antinomia e lacunas, com todos os espaços de discricionariedade política deixados em aberto, de um lado, pela proibição de produzir normas incompatíveis com os princípios constitucionais e, de outro, pelas possíveis formas e graus de observância da obrigação de sua atuação. Ferrajoli (2012) chama a atenção para o fato de que todas as soluções, principalmente as mais controversas, não podem ser consideradas “verdadeiras” ou “objetivamente corretas”, uma vez que cada decisão, no campo hermenêutico, poderia ser considerada como condição de possibilidade de decisão definida a partir do horizonte compreensivo e, portanto, é inevitavelmente orientada por opções morais e políticas do intérprete. O autor conclui dizendo que: Os juízes não serão nunca, porque não poderão nunca sê-lo, simples bocas da lei, como desejavam os iluministas. Nem poderão jamais alcançar verdades absolutas, mesmo que seja na forma da verdadeira resposta correta. O reconhecimento desta imperfeição, ou se quiser, aporia, repito, é um fato de saúde institucional: gera o hábito da dúvida, a consciência do erro sempre possível, a disponibilidade para escutar todas as razões opostas que se confrontam no juízo, a prudência – a partir da qual advém o belo nome “juris-prudência” – como estilo moral e intelectual da prática jurídica e, em geral, das nossas disciplinas (2012, p. 254). Em síntese, frente à complexidade do fenômeno jurídico contemporâneo e a permanente reconstrução e vigilância da ordem democrática no Brasil, são possíveis múltiplas possibilidades de soluções para a “questão hermenêutica”, uma vez que o legislador e nem mesmo o Estado são detentores de todas as hipóteses de interpretação e aplicação da norma jurídica, o que evidentemente descortina a grande falácia do mito fundador do direito moderno: a certeza e segurança nascida da plena razão estatal. Em que pese o esforço de correntes jurídicas contemporâneas que se autorreferem como críticas, resta em aberto um espaço jurídico que ainda não pôde ser preenchido pelas práticas fundadas nestas correntes. É possível pensar uma alternativa às práticas alternativas e reinventar a crítica desde as experiências democráticas participativas (LIXA, 2015). Adotando a sugestão de Boaventura de Sousa Santos (2001) no que chama de sociologia das emergências, que é a prática de ampliar o presente reconhecendo o que foi subtraído pela sociologia das ausências, hermeneuticamente ampliando os espaços de possibilidades de compreensão do direito para além do Estado, é possível identificar agentes, práticas e saberes com tendências de futuro sobre as quais é possível ampliar as expectativas de esperança. Trata-se de uma ampliação sobre as potencialidades e capacidades ainda não reconhecidas e necessariamente movendo-se no campo das experiências sociais que desde as práticas do reconhecimento, transferência de poder e mediação jurídica são legítimos espaços de luta por dignidade humana e direitos fundamentais. 142 UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS É indo nesta direção que é possível falar-se em reconhecer o mundo social como mundo de possibilidade compreensiva e, portanto, fonte de uma nova racionalidade hermenêutica. Trata-se de uma perspectiva pluralista de direito que reconhece múltiplos espaços de fontes normativas, apesar de na maioria das vezes ser informal e difusa (WOLKMER, 2012, p. 155). O pluralismo é uma fonte de inúmeras possibilidades de regulação. Para Antonio Carlos Wolkmer (2012, p. 158): O pluralismo enquanto concepção filosófica se opõe ao unitarismo determinista do materialismo e do idealismo modernos, pois advoga a independência e a inter-relação entre realidades e princípios diversos. Parte-se do princípio de que existem muitas fontes ou fatores causais para explicar não só os fenômenos naturais e cosmológicos, mas, igualmente, as condições de historicidade que cercam a vida humana. A compreensão filosófica do pluralismo reconhece que a vida humanaé constituída por seres, objetos, valores, verdades, interesses e aspirações marcadas pela essência da diversidade, fragmentação, circunstancialidade, temporalidade, fluidez e conflituosidade. [...] O pluralismo, enquanto “multiplicidade dos possíveis”, provém não só da extensão dos conteúdos ideológicos, dos horizontes sociais e econômicos, mas, sobretudo, das situações de vida e da diversidade das culturas. Em meio à discussão plural e decolonial nas primeiras décadas do século XXI chegam ao poder, em vários países latino-americanos, governos progressistas que avançaram no campo da democratização, políticas sociais e integração regional. Neste marco, os governos populares da Bolívia, Equador e Venezuela em especial, foram implantando um novo paradigma constitucional a partir da plurinacionalidade, demodiversidade, novos direitos vinculados a uma racionalidade reprodutiva da vida que expressamente deseja a vontade descolonizadora como conteúdo fundamental do projeto político em marcha nestas nações (MEDICI, 2012, p. 56). Neste novo cenário, novos e distintos campos se tocam – o estatal e o social; o interno e o externo; o formal e o substancial – em que mundos normativos, práticas e saberes dialogam, se desentendem e interagem tornando possível reconhecer os pontos de contato entre a tradição moderna ocidental e os saberes leigos. 4 PENSAMENTO CRÍTICO CONSTITUCIONAL: RENOVAÇÃO POLÍTICA, JURÍDICA E FILOSÓFICA A entrada para o século XXI, particularmente na América Latina, é marcada pela inegável necessidade de renovação e redefinição do pensamento jurídico. É necessário quebrar o fascínio pelo “colonialismo mental” e assumir o comando do pensamento jurídico local, criando uma “democracia de alta energia”. É necessário quebrar definitivamente com o fascínio TÓPICO 2 | DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS 143 epistemológico colonizador e a hegemônica idealização sistemática jurídica do pensamento alemão e americano no sentido de repensar o direito e suas práticas para além do formalismo renovado do século XXI pelo discurso neoconstitucionalista. Disponível em: <http:// jota.uol.com.br/critica-ao-pensamento-juridico-brasileiro-segundo- mangabeira-unger>. Acesso em: 20 ago. 2016. Romper com a tradição liberal eurocêntrica implica reconhecer inicialmente a particulariedade do direito brasileiro e sua constitucionalidade. Embora sem querer entrar na discussão da face perversa da judicialização da política, ou mesmo do ativismo judicial, o certo é que a importação desatenta da tradição constitucional eurocêntrica e sua consequente fragmentação do poder, autêntico “loteamento do Estado”, acaba por criar uma das perversas e problemáticas formas de governo, na qual acaba sendo o Judiciário de fato o administrador do Estado. A base de uma proposta constitucional crítica, para Martín (2014), é a repolitização do constitucionalismo. Se a ordem econômica global neoliberal invadiu todo sistema político e social subsumindo o direito, não se trata de “despolitizar” o direito que conduz à eliminação e/ou ocultação do conflito e declarar o “fim da história política do direito”, “repolitizar” pode ser considerado um resgate da história e da natureza do constitucionalismo. Historicamente, o constitucionalismo, desde seu início, é “politizado” não apenas no sentido convencional de direito constitucional, mas seu fundamento e legitimação: o conflito. O avanço do público paulatinamente foi se transformando em fins do século XX como lugar privilegiado de defesa do “interesse geral”, acentuando o conflito entre o “público/privado”. A integração, articulação do conflito e coexistência pacífica de seus elementos definidores é o que pode representar alternativa à dinâmica constitucional. Quanto à sua natureza, a Constituição é um programa aberto e impulsionador de valores da ordem social do tempo presente, portanto, a crítica constitucional é tarefa de apropriação de conteúdos desde a realidade em sua dinâmica e complexidade; sua exterioridade; e sua impureza. Para pensadores como Boaventura de Souza Santos, assiste-se a um sistema político que encontra-se definitivamente em alerta, cuja natureza da judicialização da política conduz à politização da justiça. O processo político de judicialização da política é resultado do enfrentamento político do Judiciário ao quadro de emissão dos demais poderes em instalar as políticas de efetivação dos direitos. Isto porque o Judiciário, como Poder neutro, não é fonte de direito novo. O afastamento da lei inconstitucional é restauração da ordem ofendida. A judicialização da política traz consigo a prerrogativa da iniciativa de criação do direito novo, feito a partir de amplas possibilidades de princípios e valores, ensejando uma discricionalidade que compromete a imparcialidade, a principal razão de transferência ao Estado juiz do poder de dizer o direito. 144 UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS NOTA “Isso ocorre quando atuam para atender demandas sociais que não foram satisfeitas a tempo e a hora pelo Poder Legislativo, bem como para integrar (completar) a ordem jurídica em situações de omissão inconstitucional do legislador”. Justificativa para a prática do ativismo judicial segundo o Min. Luís Roberto Barroso. Disponível em: <http:// www.conjur.com.br/2015-dez-07/judicializacao-nao-confunde-ativismo-judicial-barroso>. A expansão do Direito e do Estado para a vida social que vem definindo um ativismo ilegítimo acaba por transferir para o Judiciário um poder extremamente amplo, cujo exercício é problemático, tanto pela impossibilidade operacional do Judiciário em atender à imensa gama de demandas, como pelo despreparo técnico de juízes. Se, de um lado, o Judiciário, ao assumir esferas políticas que ultrapassam seus limites, compreende democracia como a garantia de direitos individuais e coletivos que permitem condições materiais básicas de vida, e, portanto, de efetivo exercício de cidadania, de outro, a democracia também demanda o respeito a um amplo espaço de decisão política, incluindo os movimentos sociais como legítimos representantes da luta pela concretização e efetivação de direitos fundamentais. Contra a tendência de judicialização da vida e da política, surge a repolitização do constitucionalismo como contratendência às consequências disfuncionais do Direito e do Estado. O Estado Democrático de Direito no Brasil colocou em cena os movimentos sociais, que, na luta ou procura pela efetivação de demandas, sentem-se impotentes e ficam ao desalento ao se confrontarem com um sistema judiciário composto por autoridades de linguagem incompreensível e presença arrogante. Tal repolitização necessita ter como ponto de partida a elevação da participação popular na política, criando mecanismos para resolução de conflitos de forma a estabelecer no Estado um poder popular e pluralista cuja prática destina- se a resgatar grupos que se encontram em situação de subjugação ou exclusão sem que consigam, por si mesmos, atender suas necessidades. Dessa maneira, simultaneamente, se enriquece a democracia com mecanismos participativos diretos, resgatando o constitucionalismo primeiro que está além do convencional e dominante. Trata-se de reconhecer as novas realidades constituintes cotidianas cujos atores, como sujeitos históricos, são os que dinamizam, desde a estrutura social, política e econômica, carregam em si a potencialidade transformadora que vai reconfigurando a ordem jurídica. TÓPICO 2 | DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS 145 5 NOVOS MARCOS FILOSÓFICOS DO DIREITO CONTEMPORÂNEO Ignácio Ellacuria, no texto “Filosofia para que?” lembra que Sócrates não foi o primeiro filósofo, mas nele surgiu uma forma singular de filosofar: a reflexão como forma de compreender a si mesmo paratornar-se um ser político e assim politizar a cidade (SENET, 2012). De certa maneira, Ellacuria nos ajuda a responder à primeira questão que propomos no início deste estudo: para que e por que filosofar? Para alguns, filosofar é um ato de mera erudição intelectual. Será realmente que foram séculos de história e conhecimento acumulado de forma inútil? No mesmo texto, Ellacuria lembra que Kant afirmava que não se pode ensinar filosofia, mas o máximo que se pode fazer é ensinar a filosofar. O que realmente Kant nos diz? Que a filosofia não é somente um privilégio de seres sábios e isolados do mundo, mas que o conhecimento filosófico nos permite adquirir uma habilidade revolucionária: para descobrir que, mais que conhecer a realidade, precisamos transformá-la! Que esta transformação deve ter um propósito orientado por nós e para nós. Desde de início vimos que a atitude socrática foi revolucionária, porque passa a conceber o conhecimento como produto ao mesmo tempo humano e político, possui como objetivo a reta humanização e reta politização, e desde aí se pode falar em filosofia. No sentido da tradição socrática, o ato de filosofar tem como pressuposto permitir a conexão entre si mesmo (saber metodologicamente construído) e a realidade. Portanto, a reflexão não é mero ato de conhecimento ou apreensão da realidade e das coisas, mas permite conferir sentido para a vida humana e para a própria filosofia. Neste sentido, filosofar é o processo libertador e desidealizador de permanente dúvida e negação que depende da capacidade crítica, o que é chamado por dogmáticos como heresia e revisionismo. Assim, a filosofia adquire seu maior sentido: a compreensão de que é necessária a libertação. ATENCAO O que é a libertação que a filosofia pode trazer para o pensador do Direito? Para o filósofo e pensador latino-americano Enrique Dussel (2012, p. 67): a filosofia deve, em primeiro lugar, libertar a si mesma. 146 UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS Na história, ao menos desde os gregos, a filosofia esteve frequentemente atada ao carro do poder – é verdade que sempre houve, também, contradiscursos filosóficos de maior ou menor criticidade: de nossa parte, desejaríamos nos inscrever nessa tradição anti-hegemônica, ao etnocentrismo regional. Na Modernidade o etnocentrismo europeu foi o primeiro etnocentrismo mundial [...] o mundo ou a eticidade do filósofo – como é o de um sistema hegemônico (grego, bizantino, mulçumano, cristão medieval e, principalmente, moderno) – pretende se apresentar como o mundo humano por excelência; o mundo dos outros é barbárie, marginalização, não ser. Portanto, filosofar é uma tomada de consciência que pressupõe o questionamento, algo mais do que a mera reprodução de conceitos ou concepções alheias. É um compreender o presente a partir das condições históricas concretas de sua superação. Para Gadamer (2004), a apropriação de sentido é algo mais que o mero conceito ingênuo de compreensão, é sempre uma forma de apropriação sob estruturas de pré-juízos aos quais o sujeito que compreende é colocado à frente daquilo que se quer compreender. Neste sentido, para Leopoldo Zea (2005), um ser humano é definido pela história, e o que este humano pode ou não ser depende da tríplice dimensão histórica: ao que dá sentido ao fato, ao que se faz e ao que se pode continuar fazendo. “Segundo a dimensão vital adotada por este ser histórico e hermenêutico, a compreensão da história define escolhas: a afirmação e conservação do passado, a esperança no presente ou a mudança permanente no futuro” (p. 85). Partindo do horizonte compreensivo historicamente construído e atitude filosófica de ampliação do presente com vistas a um futuro mais generoso é que se pode refletir acerca das experiências coletivamente partilhadas no espaço geopolítico, filosófico, jurídico e cultural brasileiro. No sentido gadameriano, o estabelecer um horizonte, uma perspectiva de mundo, que possibilita o confronto – oposição do novo (presente, atual e questionador) ao antigo (dominante, a tradição) – do que permanece oculto pelos paradigmas dominantes. Como resistências a serem superadas. “O novo deixaria de sê-lo se não tivesse que se afirmar contra alguma coisa” (GADAMER, 1999, p. 14). Portanto, refletir sobre a situação do presente representa possibilidade de ampliação de compreensão da realidade e ampliar o horizonte compreensivo. Ter horizonte significa não estar limitado ao que há de mais próximo, mas poder ver além disso. Aquele que tem horizonte sabe valorizar corretamente o significado de todas as coisas que caem dentro dele, segundo padrões de próximo e distante, de grande e pequeno. A elaboração da situação hermenêutica significa então a obtenção do horizonte de questionamento correto para as questões que se colocam frente à tradição (GADAMER, 2004, p. 452). TÓPICO 2 | DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS 147 Se estivermos atentos à vida cotidiana ao nosso redor não é difícil perceber que tem sido muito diferente do que os iluministas e seus herdeiros haviam previsto e planejado. Seguramente, por esta razão não faltaram pensadores que nas três últimas décadas do século XX passaram a apontar para o novo fenômeno multifacetado monoliticamente chamado de Crise da Modernidade e de sua racionalidade justificadora. Ao que parece, por força da tradição universalizante do ocidentalismo, há uma tendência dominante de apresentar a Modernidade como linear e consensual, ocultando suas contradições e limites, particularmente as visibilizadas no Direito (LIXA, 2013, p. 286). Possivelmente seja hora de buscarmos identificar novos paradigmas, para tanto, é necessário adquirir o hábito de indignar-se e assumir uma atitude filosófica em relação ao Direito e à realidade em que vivemos. A tarefa não é fácil e obrigatoriamente devemos superar alguns obstáculos. David Sánchez Rubio (2014) aponta quais são os difíceis obstáculos: • Limites epistemológicos: o a maneira como aprendemos e nos acostumamos a compreender o que é Direito é assentada no paradigma da simplicidade. Isto é, considera o Direito em si mesmo, sem diálogo, vínculo e relações com demais campos do saber; o a redução do Direito ao Direito Estatal ignorando outras formas de expressão jurídica (pluralismo jurídico), acreditando que Direito é somente norma ou instituição, a pesada herança do positivismo jurídico; o a separação entre Direito e prática, somente se preocupando com as categorias teóricas, e os conceitos dogmáticos que devem ser “decorados” e reproduzidos; o abstração do mundo jurídico do mundo da vida, e com isso abstraindo as ideias, conceitos e teorias da realidade que nos leva a confundir ideia com a própria realidade. • Limites axiológicos: o os valores e princípios éticos que norteiam o agir jurídico apenas são os produzidos pelo Judiciário e/ou instrumentos estatais, sendo apenas uma questão definida por “especialistas”. Vida, liberdade, dignidade, solidariedade etc. são valoradas a partir de abstrações estranhas ao tempo e espaço real dos seres humanos a que estão relacionados; o separação entre saber científico e saber moral e ético. Com a pretensão de eximir a ciência do Direito de responsabilidade social, se reduz o campo do político negando e/ou ocultando que toda ação humana é uma ação política e uma forma de exercício de poder, o que acaba por retirar dos seres humanos sua capacidade de criação de valores. o o mundo contemporâneo com sua cultura consumista e neoliberal acaba por mercantilizar a própria vida e os seres humanos, fragmentando e reduzindo as relações fraternas e solidárias. • Limites culturais: o juntamente com esse modo de vida contemporâneo e seu Direito regulador – liberal e individualista – é imposta a homogeneizaçãode todas as instâncias da vida sob um único modo de vida e como se compreende essa vida. 148 UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS Indo nessa direção é preciso reconstruir um Direito crítico e comprometido com a vida, através do critério e do princípio de produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana em todos os seus sentidos. No mundo contemporâneo, pensar o Direito de forma crítica e inovadora é um desafio, sobretudo no contexto latino-americano, onde coexistem distintas culturas e visões de Direito. Para o sociólogo Boaventura de Sousa Santos (2001): Temos o direito de sermos iguais quando a diferença nos inferioriza Temos o direito de sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza. São os novos desafios que nos convidam a mergulhar na preocupação filosófica. Tarefa difícil, mas necessária. Para encerrar, vamos lembrar uma estória contada pelo sociólogo Herbert José de Sousa, o Betinho, que usava para explicar a tenacidade que tinha para levar adiante seu trabalho quando ele mesmo já estava condenado, por enfermidade incurável, à morte: Diz a lenda que havia uma imensa floresta onde viviam milhares de animais, aves e insetos. Certo dia uma enorme coluna de fumaça foi avistada ao longe e, em pouco tempo, embaladas pelo vento, as chamas já eram visíveis por uma das copas das árvores. Os animais, assustados diante da terrível ameaça de morrerem queimados, fugiam o mais rápido que podiam, exceto um pequeno beija-flor. Este passava zunindo como uma flecha indo veloz em direção ao foco do incêndio e dava um voo quase rasante por uma das labaredas, em seguida voltava ligeiro em direção a um pequeno lago que ficava no centro da floresta. Incansável em sua tarefa e bastante ligeiro, ele chamou a atenção de um elefante, que com suas orelhas imensas ouviu suas idas e vindas pelo caminho, e curioso para saber por que o pequenino não procurava também afastar-se do perigo como todos os outros animais, pediu-lhe gentilmente que o escutasse, ao que ele prontamente atendeu, pairando no ar a pequena distância do gigantesco curioso. – Meu amiguinho, notei que tem voado várias vezes ao local do incêndio, não percebe o perigo que está correndo? Se retardar a sua fuga talvez não haja mais tempo de salvar a si próprio! O que você está fazendo de tão importante? – Tem razão, senhor elefante, há mesmo um grande perigo em meio àquelas chamas, mas acredito que se eu conseguir levar um pouco de água em cada voo que fizer do lago até lá, estarei fazendo a minha parte para evitar que nossa mãe floresta seja destruída. TÓPICO 2 | DIREITO CONTEMPORÂNEO – DESAFIOS E DILEMAS 149 Em menos de um segundo o enorme animal marchou rapidamente atrás do beija-flor e, com sua vigorosa capacidade, acrescentou centenas de litros d’água às pequenas gotinhas que ele lançava sobre as chamas. Notando o esforço dos dois, em meio ao vapor que subia vitorioso dentre alguns troncos carbonizados, outros animais lançaram-se ao lago formando um imenso exército de combate ao fogo. Quando a noite chegou, os animais da floresta, exaustos pela dura batalha e um pouco chamuscados pelas brasas e chamas que lhes fustigaram, sentaram-se sobre a relva que duramente protegeram e contemplaram um luar como nunca antes haviam notado. FONTE: <https://www.youtube.com/watch?v=PlP-Xt4LLNg>. Acesso em: 20 ago. 2016. Podemos até nos desanimarmos e ficarmos exaustos por filosofar, mas vamos aprender a ver o mundo do Direito de uma maneira muito diferente da que estamos acostumados. Isso vale muito a pena! LEITURA COMPLEMENTAR O JUIZ E A JURISPRUDÊNCIA – UM DESABAFO CRÍTICO Amílton Bueno de Carvalho O novo juiz (é possível?) Marcado pelo meu local de fala (daí porque suspeito), entendo que o papel do juiz é muito forte como agente criador da jurisprudência, evidente que sem descaracterizar a importância do provocador, detonador, balizador, de todo o processo de onde emerge o ato decisório: o advogado e o promotor de justiça. Daí porque pretendo demonstrar como vislumbro este pequeno burguês com sede de poder que em determinado momento de sua vida ingressa na “casta da magistratura”. Fique claro: as eventuais críticas à magistratura representam, antes de mais nada e acima de tudo, profunda declaração de amor a ela: acredito que o juiz pode e deve ser agente do processo de democratização da sociedade e com potencialidade muito maior do que os próprios pensadores percebem. É amor e não ódio (ou “amoródio”, como diria um psicanalista). É respeito e não desdém, é confiança na dignidade da função! 150 UNIDADE 3 | FILOSOFIA MODERNA DO DIREITO E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS Tenho que para que o Juiz possa se completar tanto no plano individual, quanto como agente social, há requisitos que me parecem indispensáveis e que têm sido omitidos tanto por aqueles que olham a magistratura de fora, quanto por aqueles que pretendem ver a magistratura a partir de seu próprio local de fala. Os que miram desde fora – como regra – dão menor importância ao juiz. É tido como mero aplicador da lei, ou instrumento do poder dos doutrinadores que necessitam, para provar suas “verdades”, que os magistrados as cumpram, ou, finalmente (e agora dentro do Poder Judiciário), como cumpridores de ordens do Tribunal, via jurisprudência. Enfim, instrumento de ponta do dono da lei ou do dono do saber ou da hierarquia do Poder. Por outro lado, os próprios críticos não têm dado real importância à atividade específica do julgador: o juiz é conservador, não crítico, alienado. Outrossim, e n’outra ponta, quando o julgador fala de si mesmo emerge discurso efetivamente alienado dando a si próprio ares de divindade. O exemplo palmar desta ótica (aqui manifestada com todo o respeito) é a “Prece de um Juiz”, do magistrado aposentado João Alfredo Medeiros Vieira, vertido para quinze línguas. E assim começa a prece: “Senhor! Eu sou o único ser na terra a quem tu deste uma parcela da tua onipotência: o poder de condenar ou absolver meus semelhantes. Diante de mim as pessoas se inclinam; à minha voz acorrem, à minha palavra obedecem, ao meu mandado se entregam… Ao meu aceno as portas das prisões se fecham… Quão pesado e terrível é o fardo que puseste em meus ombros!… E quando um dia, finalmente, eu sucumbir e já então como réu comparecer à Tua Augusta Presença para o último juízo, olha compassivo para mim. Dita, senhor, a tua sentença. Julga-me como um Deus. Eu julguei como homem”. O texto explica-se por si só. E o que é pior: nós (juízes e povo) acreditamos na ideia do mito juiz-divindade. Não nos ocorre sequer a possibilidade de não existir Deus (como ficaria o sentido da prece?), ou de que o poder de condenar ou absolver passa muito mais pelo que quer a autoridade policial; que as pessoas inclinam-se perante o juiz por receio e não por respeito (aliás, nós sabemos que nem o advogado gosta de juiz: lisonjeia-o apenas para aguçar sua onipotência); que as portas da prisão dependem mais da correlação de forças que ocorre no presídio ou da boa ou má vontade do carcereiro; que o fardo é pesado (?) mas nem tanto como o daquele que passa fome! FONTE: <https://ensaiosjuridicos.wordpress.com/2013/04/11/o-juiz-e-a-jurisprudencia-umdesabafo -critico-amilton-bueno-de-carvalho/>. Acesso em: 20 ago. 2016. 151 Neste tópico, você viu que: • O contexto político, social e econômico de fins do século XX não permite mais a sustentação do discurso tradicional do Direito brasileiro, em particular, havendo uma reorientação no sentido de constitucionalizar os pressupostos e práticas jurídicas. • O marco teórico e político exige uma redefinição dos pressupostos ideológicos e hermenêuticos no sentido de busca de novos fundamentos filosóficos e éticos do Direito, representando,neste momento, a Filosofia Crítica Latino- Americana como uma alternativa rica e inovadora. • Assumir um posicionamento filosófico crítico e libertador no sentido de orientar nossas práticas para a emancipação humana e social implica uma permanente atitude de inquietação e desejo de transformação desde uma formação acadêmica consistente e de profundo compromisso. RESUMO DO TÓPICO 2 152 AUTOATIVIDADE Considere a figura a seguir: Com base nos conhecimentos abordados neste tópico, como você interpreta o conceito de igualdade e justiça representado na charge acima? FONTE: <https://blogdotarso.com/2013/04/03/charge-igualdade-no-liberalismo-versus- constituicao-social-e-democratica-de-direito/>. Acesso em: 20 ago. 2016. 153 REFERÊNCIAS ADEODATO, João Maurício. Ética e retórica. São Paulo: Saraiva, 2002. AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. v. I, parte I. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001. ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Celso Lafer. Rio de Janeiro: Forense, 1983. ARISTÓTELES. A Política. Tradução de Nestor Silveira Chaves. São Paulo: Ediouro, 1988. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Hury. Brasília: EDUNB, 1985. BAUMAN, Zygmunt. Medo Líquido. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. 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