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Wagner Siqueira Bernardes 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
NEUROSE E PERVERSÃO 
 Gêmeas de seu oposto 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UFRJ 
 
2001 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11
Wagner Siqueira Bernardes 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
NEUROSE E PERVERSÃO 
 Gêmeas de seu oposto 
 
 
 
Dissertação submetida ao corpo docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro - 
UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em 
Psicologia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UFRJ 
 
2001 
 
 
12
 
 
 
NEUROSE E PERVERSÃO 
Gêmeas de seu oposto 
 
 
Wagner Siqueira Bernardes 
 
 
 
Dissertação submetida ao corpo docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro - 
UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em 
Psicologia. 
 
 
 
Aprovado por: 
 
 
 
 
 
________________________________________ - Orientadora 
Profa. Dra. Vera Lúcia Silva Lopes Besset 
 
 
 
 
________________________________________ 
Profa. Dra. Tânia Coelho dos Santos 
 
 
 
 
________________________________________ 
Prof. Dr. Ademir Pacelli Ferreira 
 
 
UFRJ 
 
2001 
 
 
 
 
 
 
 
13
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Bernardes, Wagner Siqueira 
 
 
 Neurose e perversão: gêmeas de seu oposto / Wagner 
 
 
 Siqueira Bernardes. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001. 
 
 
 ix, 82p. 
 
 
 Dissertação - Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
 
 
 1. Neurose. 2. Perversão. 3. Recalcamento. 
 
 
 4.Desmentido 
 
 
 I. Título 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
14
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Este trabalho foi viabilizado graças ao 
convênio de Mestrado Interinstitucional firmado 
entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro - 
UFRJ e a Pontifícia Universidade Católica de Minas 
Gerais - PUC Minas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
15
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 À saudosa Nilza Rocha Féres 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16
AGRADECIMENTOS 
 
 
À minha orientadora Profa. Dra. Vera Lopes Besset pela perspicácia e sensibilidade no 
acompanhamento do trabalho. 
Aos meus pais, pelo apoio e tolerância constantes. 
À amiga Lúcia de Paula Freitas, pela delicadeza em se propor a revisar o texto. 
À amiga Léa Meilman, pela valiosa versão do resumo para o inglês. 
À amiga Maria Flávia Drummond Dantas, pelas preciosas sugestões e rica interlocução. 
Aos meus colegas de Mestrado, pelo companheirismo demonstrado e especialmente a 
Kátia Botelho, Soraia Carellos, Suzana Camargos, Maristela Cunha, Eline Rennó e 
Lúcia Ephigênia por terem me suportado nos momentos difíceis. 
Ao Prof. Dr. José Newton Garcia de Araújo, pela disponibilidade e atenção na 
coordenação local do Mestrado Interinstitucional UFRJ/PUC Minas. 
À Valéria, pela presteza na digitação do texto. 
 
 
 
 
 
17
RESUMO 
 
BERNARDES, Wagner Siqueira. Neurose e Perversão: gêmeas de seu oposto. 
Orientadora: Dra. Vera Lúcia Silva Lopes Besset. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001. Diss. 
 
 
 
Tomando como referência o texto de Freud, o autor examina as relações entre 
neurose e perversão. Constata que a fórmula “a neurose é o negativo da perversão” não 
recobre toda a complexidade do tema e propõe que se tome os dois conceitos como 
gêmeos de seu oposto, trabalhando-os a partir do vínculo e da diferença que 
estabelecem entre si e que os criam em igual medida. Aborda o recalcamento ( 
Verdrangung ) e o desmentido ( Verleugnung ) na mesma perspectiva. Coloca também 
em discussão a questão da divisão do eu no processo de defesa. 
 
 
18
 
ABSTRACT 
 
BERNARDES, Wagner Siqueira. Neurose e Perversão: gêmeas de seu oposto. 
Orientadora: Dra. Vera Lúcia Silva Lopes Besset. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001. Diss. 
 
 
The author uses as reference writings of Freud to think about the relationship between 
neurosis and perversion. He deals with the formula “neurosis as the opposite of 
perversion” and discovers that it does not reflect all the complexity of the theme. He 
proposes to work the two concepts as twins of its opposite, it means, based on the link 
and the difference observed between them, that create themselves in equal measure. The 
author approaches the concept of repression ( Verdrangung ) and the disavowal 
(Verleugnung ) by the same perspective. He also discusses the question of the splitting 
of the ego in the defensive process. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
19
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO 10 
CAPÍTULO I: A versão neurótica de um outro perverso 14 
CAPÍTULO II: Quem bate? 35 
CAPÍTULO III: O gigantesco falo de Príapo 54 
CONCLUSÃO 72 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 81 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
20
 
INTRODUÇÃO 
 
Escolhemos trabalhar o conceito de perversão na obra de Freud por constatarmos 
que as formulações a seu respeito encontram-se, ao contrário daquelas sobre a neurose, 
pouco sistematizadas. Ademais, muito se elaborou sobre o recalcamento ( Verdrangung) 
 defesa que suporta teoricamente a neurose  mas pouco se sabe sobre o desmentido 
( Verleugnung )  defesa característica da perversão  uma vez que as referências 
freudianas acerca deste são esparsas. Outro aspecto controverso refere-se à divisão 
(Spaltung ) do eu no processo de defesa. Em que plano ela operaria nas referidas 
estruturas? 
Motivados por essas questões, optamos por dirigir maciçamente nossa pesquisa 
sobre o texto freudiano. Se nossa intenção inicial era estudar de maneira estanque o 
conceito de perversão, pudemos notar, ao longo de nosso percurso, ser impossível 
discerni-lo sem correlacioná-lo ao de neurose. 
A afirmação de Karl Abel  lingüista citado por Freud em “Sobre o sentido 
antitético das palavras primitivas”  de que todo conceito é o gêmeo de seu oposto, 
forneceu-nos o fio condutor de nosso trabalho. Conforme a sua concepção, qualquer 
conceito só é passível de ser comunicado quando medido pelo seu oposto, bem como só 
pode existir ao evocar simultaneamente o seu contrário. 
Portanto, neurose e perversão não poderiam ser tomadas simplesmente a partir de 
sua oposição, mas deveriam ser formuladas como conceitos gêmeos, nascidos do 
mesmo parto e criados, em igual medida, tanto pelo seu vínculo, quanto pela sua 
diferença. Ancorados nessa vertente, desenvolvemos nossa dissertação em três 
capítulos, seguidos por uma conclusão. 
No capítulo I recorremos a textos nos quais Freud marca a presença da perversão na 
neurose. Essa última é concebida ora como uma perversão do caráter, oracomo uma 
perversão desautorizada. É também definida como uma aberração patológica dos afetos. 
 
 
21
Inicialmente, apesar de formular uma defesa na neurose, Freud não o faz no caso 
da perversão. Relaciona a neurose ao recalcamento e à geração de desprazer, ao passo 
que a perversão é ligada à compulsão e ao desprendimento de prazer. 
Freud ainda destaca a insistência da histérica em situar-se como vítima de ataques 
sexuais, mas adverte que as versões histéricas são estratégias de defesa contra uma 
atividade sexual que não pode ser admitida pelo sujeito. 
Em “Três ensaios” marca a disposição originária e universal dos seres humanos à 
perversão. No entanto, assinala que na neurose as tendências perversas, recalcadas, 
permanecem em estado inconsciente, manifestando-se através do disfarce dos sintomas. 
O aforismo “a neurose é o negativo da perversão” ganha seu pleno sentido, a ponto de 
Freud definir a histeria como uma perversão negativa. 
Contudo, com o Homem dos Ratos, fica positivada a perversão na neurose e o 
famoso aforismo deverá ser reconsiderado à luz de uma nova concepção sobre o 
recalcamento, segundo a qual, para além do estabelecimento de um contraste entre 
consciente e inconsciente, o recalcamento assinala o contraste entre o eu e seu ideal. 
Se, na neurose, a divisão do sujeito é marcada pelo recalcamento, como situar a 
divisão na perversão? Com esta pergunta somos lançados ao capítulo II. 
A fantasia “bate-se numa criança”, considerada por Freud como um traço primário 
de perversão, situa-se na base tanto da perversão, quanto da neurose. Cumpre, 
entretanto, funções diferentes em cada estrutura pois, se não ocupa um lugar legítimo na 
trama da neurose, na perversão ela se constitui como um evidente suporte para as 
práticas sexuais masoquistas. 
A partir da desmontagem das versões fantasmáticas relatadas por seus pacientes, 
Freud constrói a fantasia masoquista inconsciente, situando-a no marco do complexo de 
Édipo para, a partir daí, afirmar que neurose e perversão são cicatrizes do recalcamento 
daquele complexo. 
 
 
22
Em “Bate-se numa criança” Freud, portanto, formula claramente uma defesa na 
perversão, relacionando-a, contudo, ao recalcamento. Isso trará dificuldades, podendo 
induzir-nos a pensar num apagamento da distinção entre as duas estruturas. 
Entretanto, com “A organização genital infantil”, o desmentido, que até então 
ocupava lugar impreciso e esparso na obra freudiana, ganha nova dimensão. Nele será 
destacada a primazia do falo, onde só se leva em conta um genital, o masculino. 
Primazia essa que, diante do horror à mulher, necessita ser garantida, mesmo que se use, 
como estratégia defensiva, o gigantesco falo de Príapo. A partir deste ponto iniciamos o 
capítulo III. 
Em “O tabu da virgindade” Freud lembra que o defloramento de uma virgem era 
um preceito rigidamente estabelecido entre os povos primitivos, sendo executado, 
através de práticas muitas vezes violentas, como um cerimonial religioso. A primeira 
relação sexual de uma jovem estava interditada justamente ao seu futuro esposo e, 
apesar de seu caráter inusitado, tal norma tinha como objetivo precípuo proteger o 
homem de sua futura esposa. Constituía-se num ato conjuratório, que visava a mitigar o 
temor do homem diante da mulher. 
Esse preceito, do qual parecem ter se afastado os modernos, mantém vigência até os 
dias de hoje na forma do amor à prostituta, a qual, pelo só e único fato de ter pertencido 
a outros, é capaz de aguçar a potência sexual de um homem ou, até mesmo, de livrá-lo 
de uma impotência. 
A degradação do objeto sexual, figurada no amor à prostituta, coloca em 
funcionamento metas sexuais perversas. Por outro lado  e aí encontra-se o paradoxo 
 todo estado de apaixonamento e excessiva idealização do objeto de amor desfaz 
recalcamentos e reestabelece perversões. 
O recalcamento, que durante o percurso de Freud foi destacado tão 
proeminentemente, cede, no ocaso de sua obra, seu lugar de honra ao desmentido, tanto 
em relação à perversão quanto no tocante à neurose. Com isso, ganha também destaque 
uma modalidade de divisão muito mais enigmática que aquela marcada pelo 
recalcamento, pois diz respeito não à defesa que o eu tem que operar para livrar-se das 
 
 
23
exigências pulsionais inoportunas, mas à defesa do eu diante das exigências do mundo 
exterior, sentidas como penosas. 
Uma vez que ambas as exigências são impostas a todo sujeito humano, não há como 
restringir o recalcamento à neurose e o desmentido à perversão. No entanto, tomando o 
recalcamento como o paradigma da neurose e o desmentido como o paradigma da 
perversão, pensamos ser possível trabalhá-los enquanto conceitos gêmeos de seu oposto 
e abordá-los tanto a partir de seu vínculo, quanto pela sua diferença. 
 
 
 
24
CAPÍTULO I 
A versão neurótica de um outro perverso 
 
Freud, num de seus primeiros escritos, apresenta-nos a versão de uma histérica: uma 
jovem mãe, apesar do firme propósito de amamentar seu bebê, mostra-se e diz-se 
incapaz de fazê-lo. 
Longe de constatar, nessa incapacidade, uma inibição da vontade  versão mais 
imediata que tenderíamos a dar a esse comportamento  Freud nos traz uma outra 
versão. Supõe aí uma perversão da vontade, uma vontade contrária que, apesar de 
inibida e rechaçada pela consciência, manifesta seu efeito através da inervação somática 
e, por meio do sintoma, induz o sujeito a fazer justamente o inverso do que mais anseia. 
A jovem mãe quer, acima de tudo, amamentar seu bebê mas, de fato, faz o inverso, não 
o amamenta. 
Segundo Freud, a histeria deve à emergência da vontade contrária o viés1 
demoníaco que tão amiúde apresenta e que obriga o enfermo a injuriar o que lhe é mais 
valioso. Tal é a perversão histérica do caráter: 
“ esse comichão a fazer o mal, a ter que adoecer quando o que 
mais ansiosamente desejam é a saúde: quem conhece enfermos 
de histeria sabe que esta compulsão muito amiúde aflige os mais 
inatacáveis caráteres ...”2 
Tais propósitos malignos, inibidos e sufocados pelo sujeito, “... levam uma 
insuspeita existência numa sorte de reino das sombras, até que saem à luz como 
espectros e se 
 
 
1
 Na edição argentina ( Amorrortu ed. ) das Obras Completas de Sigmund Freud encontramos sesgo 
demoníaco. (v.1. p.160). Segundo D´Albuquerque, A.Tenório: 
SESGO - torcido, cortado, enviesado. 
SESGA - nesga, greta, abertura, fenda. 
SESGAR - cortar enviesadamente, enviesar, torcer para um lado. No México: desviar a tese que se 
sustenta, para ocultar o pensamento ou dissimular a intenção. 
2
 FREUD, Sigmund. Un caso de curación por hipnosis. In: Obras completas. Buenos Aires: 
Amorrortu, 1996. v.1. p. 160. OBS: Todas as citações da obra de Freud encontradas nesta dissertação 
foram retiradas do texto em espanhol e traduzidas diretamente para o português. 
 
 
25
apoderam do corpo, que regularmente estava a serviço da consciência egóica 
dominante”.3 
A malignidade histérica é novamente abordada por Freud na parte II do “ Projeto de 
psicologia”, onde faz referência a representações, em princípio banais e desprovidas de 
importância, que irrompem na consciência sem justificativa aparente e provocam no 
sujeito efeitos psíquicos indesejáveis e desagradáveis, que não podem ser 
compreendidos nem inibidos. Apesar de o sujeito dar-se conta da estranheza da situação 
e saber que essas representações, pela sua banalidade, não merecem ser acompanhadas 
de conseqüências tão penosas, ele nada pode fazer  seja em relação à sua presença, 
seja no tocante às suas manifestações afetivas  pois tais fenômenos apresentam um 
caráter compulsivo incontrolável. Trata-se da compulsão histérica. 
No “ Manuscrito K” Freud irá considerar as psiconeurosesde defesa como 
“aberrações patológicas de estados afetivos psíquicos normais”.4 
A reação afetiva anômala, na histeria, seria o resultado de um conflito entre duas 
tendências contrárias. Daí Freud conceber essa neurose como uma aberração do 
conflito5, expressão forte e estranha, mas que ganha todo o seu sentido quando se 
verifica na histeria a presença de uma contradição entre “... uma necessidade sexual 
hipertrófica e uma desautorização do sexual levada demasiado longe”6. 
Sabe-se que uma defesa psíquica normal é caracterizada pelo fato de o sujeito evitar 
dirigir o investimento psíquico sobre tudo aquilo que, ao ser lembrado ou pensado, gere 
desprazer. Os neuróticos, no entanto, longe de se afastarem das representações 
desprazerosas, aderem-se a elas; são compelidos a recordá-las. 
Não deixa de ser surpreendente que a compulsão a recordar-se de algo que gera 
desprazer seja considerada por Freud como uma defesa  diga-se de passagem, 
 
3
 ______________. Idem. p.161. 
4
 ________________. Manuscrito K. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.1. p. 
260. 
5
 Idem. 
6
 ________________. Tres ensayos de teoría sexual. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 
1996. v.7. p. 150. 
 
 
26
patológica  cujo modelo é o recalcamento. Entretanto, ao exame mais detido, 
constata-se que no processo de recalcamento uma defesa é, sem dúvida, operada. A 
representação que irrompe como recordação, gerando desprazer, na verdade está 
ocupando, na consciência, o lugar de outra, que foi recalcada; o que leva Freud a dizer 
que, na histeria, “... a toda compulsão corresponde um recalcamento e a todo 
forçamento desmedido na consciência, uma amnésia”7. 
Assim, o neurótico traz a sua versão: “ algo, que eu não posso controlar, me 
invade e me faz sofrer”. Diríamos que Freud, em contrapartida, formula outra: “  
sofrer de certas lembranças o livra daquelas que não podem e não devem ser 
lembradas”. 
Portanto, o sujeito neurótico serve-se de uma recordação penosa, a despeito de  
ou mesmo devido a  seu caráter compulsivo e desprazeroso, como recurso de defesa. 
Este, no entanto, já é o resultado final do processo defensivo, expresso como sintoma. 
Se nesse estágio final o sujeito serve-se de uma representação penosa, é preciso nos 
reportarmos, porém, a um tempo anterior à formação do sintoma, no qual o sujeito é 
perturbado por uma vivência, de conteúdo sexual, sobrevinda na infância. 
Freud considera que para se ficar isento das psiconeuroses de defesa é necessário 
que antes da puberdade não se tenha produzido nenhuma irritação sexual importante. O 
que nos levaria a relacionar a causação da neurose à estimulação sexual precoce. Como 
compreender, no entanto, o fato de que sob condições análogas, de estimulação sexual 
precoce, “... se gere perversidade, ou simplesmente imoralidade, em lugar de neurose?”8 
Se uma excitação sexual prematura está situada na base, tanto da neurose quanto da 
perversão, o aparecimento da neurose, todavia, está condicionado à defesa, ao passo que 
a geração de perversão teria como pressuposto que “... a defesa não sobrevenha antes 
que o aparelho psíquico se tenha completado ou que não se produza defesa alguma”.9 
 
 
7
 ______________. Proyecto de psicología. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. 
v.1. p. 397. 
8
 _______________. Manuscrito K. Ibid. op.cit. v.1. p.261. 
 
 
27
É plausível supor que uma vivência sexual desprenda prazer; entretanto, quando 
esta “... é recordada com diferença de fase, na base de um desprendimento de prazer 
gera-se compulsão, na base de um desprendimento de desprazer, recalcamento; em 
ambos os casos a tradução para os signos da nova fase parece estar inibida” 10. 
A partir desse ponto algumas dificuldades se colocam, pois Freud: 
1. Supõe apenas o recalcamento como modelo patológico da defesa. Sabemos que 
posteriormente ele formulará outra defesa patológica, o desmentido. 
2. Faz uma contraposição entre compulsão - prazer - perversão e recalcamento - 
desprazer - neurose. 
Como entender, então, que em outros momentos Freud faça uma correspondência 
entre compulsão e recalcamento na neurose, bem como associe a compulsão neurótica 
não apenas ao desprazer mas, sobretudo, a um desprazer a serviço da defesa 
(recalcamento )? 
O problema parece situar-se no excedente sexual, o qual provoca um impedimento 
de tradução. Na “Carta 46” lemos: 
“ O despertar de uma recordação sexual de uma época anterior 
em outra posterior traz à psique um excedente sexual que produz 
efeitos como uma inibição-pensar e dá, tanto à recordação como 
às suas conseqüências, o caráter obsessivo {compulsivo}  o 
caráter do não inibido”11. 
Há então um excesso, algo que na passagem das fases fica, como resto não 
liquidado, fora da tradução e que se manifesta como compulsão, independente de ter 
caráter prazeroso ou desprazeroso. 
No “Projeto de psicologia” Freud assinala que as vivências de satisfação e de dor 
deixam como restos, respectivamente, os estados de desejo e os afetos, os quais contêm, 
ambos, “... uma elevação da tensão Q´η em Ψ, no caso do afeto, por desprendimento 
 
9
________________. Carta 52. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.1. p. 277. 
10
 Idem. 
11
 _______________. Carta 46. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.1. p. 270. 
 
 
28
repentino, no do desejo, por somação”12. Além disso, ambos “... deixam como seqüelas 
motivos compulsivos”13. 
Compreende-se facilmente que um excedente de desprazer induza a defesa e 
impeça a tradução. Na “ Carta 52” o recalcamento é apresentado como sendo um 
impedimento da tradução, cujo motivo “... é sempre o desprendimento de desprazer que 
se geraria por uma tradução, como se esse desprazer convocasse uma perturbação de 
pensar que não consentisse no trabalho de tradução”14. O que fica obscuro é o fato de o 
excesso de prazer impedir a tradução. Tal impedimento só poderia ser atribuído ao 
caráter compulsivo do prazer... 
Seria possível, parafraseando Freud, formular uma nova modalidade de defesa  
diferente do recalcamento  que consistisse num impedimento da tradução, cujo 
motivo fosse o desprendimento de prazer que se geraria por outra tradução, como se 
esse prazer convocasse uma perturbação de pensar que não consentisse no trabalho de 
tradução? 
Inevitável será retornar ao “Projeto”, manuscrito em que Freud faz referência ao 
objeto e o supõe como sendo um próximo, parecido com o sujeito: “ ... um objeto como 
este é simultaneamente o primeiro objeto-satisfação e o primeiro objeto hostil, assim 
como o único poder auxiliador” 15. Sendo ele o único poder auxiliador, dele não se pode 
prescindir. 
Quando, diante de uma moção de desejo, um objeto-satisfação  ou, mais 
exatamente, o seu vestígio mnêmico  é procurado, mas se encontra outro, a sua 
imagem mnêmica hostil, haverá desprazer e repulsão. 
Temos aí “... a defesa primária ou recalcamento {Verdrangung, “ esforço de 
suplantação e desalojamento ”}, o fato de que uma imagem-recordação hostil seja 
 
12
 ________________. Proyecto de psicología. Ibid. op.cit. v.1. p.367. 
13
 Idem. 
14
 ______________. Carta 52. Ibid. op.cit. v.1. p.276. 
15
 ______________. Proyecto de psicología. Ibid. op.cit. p.376. 
 
 
29
sempre abandonada pelo investimento o mais rápido possível”16. No processo de 
recalcamentoo objeto, que antes era um objeto-satisfação, ficará agora marcado pela 
repulsa e deverá ser evitado. O impedimento da tradução, nesse caso, se dá por 
condensação, uma vez que o objeto-satisfação é, ele mesmo, o objeto repulsivo. É certo 
que Freud formula aqui uma modalidade de defesa, o recalcamento. Porém, “a 
emergência de outro objeto em lugar do hostil foi o sinal de que a vivência de dor havia 
terminado...” 17 
Portanto, quando Freud diz que outro objeto, em lugar do hostil, assinala o fim da 
vivência de dor, não estaria ele marcando um outro tipo de defesa, o desmentido? 
Colocar um objeto no lugar de outro não seria desmentir? Ainda que esse outro objeto 
fosse o mesmo, só se poderia concluir que é o mesmo, desmentido. 
Quando a atração pelo objeto de desejo é destroçada, aquilo que fizer cessar a 
vivência de dor passará a ocupar lugar privilegiado. Tenta-se recuperar o objeto de 
desejo, bem como a satisfação perdida enlaçada a ele, lançando-se mão de qualquer 
parte reminiscente do objeto, ou mesmo, de qualquer outro objeto que se apresente e 
possa se adequar à satisfação pretendida. Ou seja, lança-se mão da primeira coisa que 
possa desmentir uma perda. É nessa medida que a tradução, via desmentido, fica 
impedida, pois uma coisa é traduzida por outra, mais satisfatória. Há um deslocamento. 
Que uma tradução impeça a tradução, isso pode nos parecer contraditório. No 
entanto, é justamente na contradição que o desmentido se baseia, ou melhor, o 
desmentido é uma contra-dição18. No desmentido trata-se de um objeto, gerador de 
desprazer, ser substituído por outro, que desprende prazer. Já no recalcamento, o mesmo 
objeto desperta, simultaneamente, prazer e desprazer. 
Estamos no campo da palavra, soberana e caprichosa, abordada por Freud em seu 
sentido antitético: 
 
16
 Idem. p.367. 
17
 Idem. 
18
 DESMENTIR: contradizer, contestar; negar, luxar, deslocar, desconjuntar; destoar, desdizer. In: Novo 
Dicionário Aurélio, 1975 . 
 
 
30
“ Extremamente chamativa é a conduta do sonho ante a 
categoria da oposição e contradição. Simplesmente a 
omite, o “não” parece não existir para o sonho. Tem 
notável predileção por compor os opostos em uma 
unidade ou figurá-los em idêntico elemento. E ainda 
toma 
a liberdade de figurar um elemento qualquer mediante seu 
oposto na ordem do desejo, pelo qual, de um elemento 
que admita contrário não se sabe, à primeira vista, se nos 
pensamentos oníricos está incluído de maneira positiva ou 
negativa”19 
Campo no qual Freud persiste, ancorado agora pelo lingüista Karl Abel: 
“ ´Posto que então todo conceito é o gêmeo de seu 
oposto, como se poderia tê-lo pensado pela primeira vez, 
como se pôde comunicá-lo a outros que tentavam pensá-
lo, senão medindo-o pelo seu oposto ? [...] a palavra que 
significava “forte” continha uma recordação simultânea 
de “fraco”, como sendo aquilo através do que chegou pela 
primeira vez a existir. Esta palavra não designava, em 
verdade, nem “forte” nem “fraco”, mas sim, o vínculo e a 
diferença entre ambos, que os criavam em igual 
medida...´”20 
 Não deveríamos, então, lidar com os conceitos de neurose e perversão, bem como 
com os de recalcamento e desmentido, como sendo gêmeos de seu oposto? 
Atenhamo-nos, por ora, aos fatos de discurso: o neurótico refere-se insistentemente 
a um desprazer, sendo que a referência perversa diz respeito a um prazer. Qual seria 
então a versão do neurótico? 
O sujeito histérico relata ter sofrido, na infância, abuso sexual da parte de outrem, 
um adulto ou mesmo uma criança mais velha. Situa-se, portanto, numa posição passiva, 
a partir da qual foi vitimado. 
A versão do obsessivo é diferente; ele coloca-se como agente ativo de sedução, 
descrevendo atos de agressão sexual praticados sobre outrem, com prazer. No entanto, 
 
19
 _______________. La interpretación de los sueños. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 
1996. v.4. p. 324. 
20
 __________. Sobre el sentido antitético de las palabras primitivas. In: Obras completas. Buenos 
Aires: Amorrortu, 1996. v.11. pp. 149-150. 
 
 
31
Freud refere-se a um o menino que “repetia sempre e sem inovação, sobre a menina, as 
mesmas práticas que, por seu turno, havia sofrido de uma criada ou governanta e que, 
devido a essa origem, eram amiúde de natureza repugnante”21. 
Encontramos no obsessivo: 
1. uma sedução sofrida precocemente que, entretanto, cai sob o peso do 
recalcamento; 
2. uma repetição, como agente ativo, da mesma prática sexual sofrida passivamente; 
3. uma versão relatada, à qual se fixa, referente  direta ou indiretamente  a 
uma prática sexual infligida, com prazer, a outrem. 
Tratar-se-ia, então  na neurose obsessiva  de perversão, uma vez que no relato 
estão presentes compulsão e prazer? Não exatamente, pois a versão do obsessivo vem 
acompanhada de intenso desprazer e auto-acusações desmedidas, o que leva Freud a 
formular que a neurose obsessiva, enquanto aberração patológica de estados afetivos 
normais, é uma aberração da auto-acusação22. 
Portanto, na neurose obsessiva, torna-se patente a intromissão compulsiva de 
representações  as idéias obsessivas  desprazerosas, que afloram à consciência 
como resposta, acusatória e punitiva, a uma prática sexual prazerosa realizada na 
infância. 
Na histeria, no entanto, o que aparece na consciência é a acusação a outrem: esta é a 
versão da vítima. Daí Freud dizer que a histeria parece-lhe ser “... conseqüência de uma 
perversão por parte do sedutor”23. 
Devemos lembrar, contudo, duas observações feitas por ele: 
 
21
 __________. La herencia y la etiología de las neurosis. In: Obras completas. Buenos Aires: 
Amorrortu, 1996. v.3. p. 152. 
22
 ________________. Manuscrito K. op.cit. v.1. p.260. 
23
 _________________. Carta 52. op.cit. v.1. p.279. 
 
 
32
1. Ao falar da freqüência incomparavelmente maior de histeria no sexo feminino, 
faz notar que este sexo “... com efeito, é mais estimulador de ataques sexuais, mesmo na 
infância”24. 
2. Além disso, chama a atenção para o fato de que há “... às vezes, na mesma 
pessoa, uma metamorfose: perversa à idade em que tem a plenitude de suas forças e, 
em seguida, histérica, a partir de um período de angústia.25” 
A versão histérica visa a desimplicar o sujeito de seu ato. Mas sabemos que os 
histéricos, mesmo não se implicando, continuamente retornam às cenas dos atentados, 
não conseguindo desligar-se de seus sedutores. Prova disso são as suas insistentes e 
sofridas reminiscências. Não apenas defendem-se de seus sedutores como, 
paradoxalmente, defendem-se em seus sedutores. 
Por isso, “... a histeria não é, em verdade, uma sexualidade desautorizada 
(ablehnen) senão, melhor, uma perversão desautorizada”26. Poder-se-ia dizer que é uma 
desautorização27 de perversão, ou seja, o histérico não abona, não dá posto, cargo, 
insignia ou dignidade à sua perversão. Não é à toa que traz relatos tão indignados e 
sente-se tão desonrado. 
Escandindo o texto freudiano, teríamos: 
A histeria resulta de perversão... 
“  da parte do sedutor”, diz a histérica 
“ desautorizada pelo sujeito”, conclui Freud. 
Talvez por isso Freud relate a Fliess: “Já não creio mais em minha ´neurótica´ [...] 
é pouco provável que a perversão contra crianças esteja difundida até esse ponto”28. 
 
24
 _________________. Nuevas puntualizaciones sobre las neuropsicosis de defensa. In: Obras 
completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.3. p. 164. 
 
25
 __________________. Carta52. op.cit. v.1. p.279. 
26
 Idem. 
27
 DESAUTORIZAR: desabonar, desautorar, desacreditar; despojar de crédito; privar de cargo, dignidade 
ou insignia. In: Novo Dicionário Aurélio, 1975 . 
28
 _________________. Carta 69. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.1. p. 301. 
 
 
33
É através da velha e cruel história de sedução, da qual se dizem vítimas, que as 
histéricas embelezam, para si, os fatos. As fantasias são “poetizações protetoras”29, 
“parapeitos psíquicos”30 edificados para bloquear o acesso às recordações infantis. 
Freud, que por algum tempo supervalorizou a freqüência da sedução, retifica sua 
opinião: 
“... não sabia distinguir, com certeza, entre os espelhismos 
mnêmicos dos histéricos acerca de sua infância e as marcas dos 
fatos reais; desde então aprendi, em troca, a resolver muitas 
fantasias de sedução, considerando-as como tentativas de 
defender-se da recordação da própria prática sexual 
(masturbação infantil ) ...”31. 
Outra função das fantasias é a de se colocarem a serviço de um “auto-descarrego”32. 
O termo “descarregar” comporta dois sentidos: tirar a carga, bem como, disparar a 
carga. Assim, o histérico, através das fantasias de sedução e dos sintomas, alivia a carga 
de si, disparando-a no outro. Porém, não se trata apenas disso. 
Na “Carta 52” Freud escreve a Fliess que “o ataque histérico não é um alívio, mas 
sim, uma ação e conserva o caráter originário de toda ação: ser um meio de reprodução 
de prazer” 33. Pacientes aos quais se trouxe algo de sexual, estando eles dormindo, “... 
voltam a dormir para vivenciar o mesmo e amiúde provocam, com isso, o desmaio.”34 
As versões recordadas na histeria, as quais tentam desviar-nos para o outro perverso 
causador de sofrimento, jamais seriam o motivo da formação de sintomas. São apenas 
uma via e uma escapatória diante de uma exigência de satisfação pulsional não admitida 
pelo sujeito. Segundo Freud, “o motivo primeiro da formação de sintoma, na ordem do 
 
29
 _________________. Carta 61. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.1. p. 289. 
30
 _________________. Manuscrito L. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.1. p. 
289. 
31
 _________________. Mis tesis sobre el papel de la sexualidad en la etiología de las neurosis. In: 
Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.7. p. 266. 
32
_________________. Carta 61. op.cit. v.1. p.288. 
33
 _________________. Carta 52. op.cit. v.1. p.280. 
34
 Idem. 
 
 
34
tempo, é a libido”35. Como o neurótico precisa tanto defender-se de sua libido como 
satisfazê-la, é necessário abrir um canal para o seu escoamento, mesmo que sob defesa. 
Assim, a defesa neurótica  o recalcamento  terá que, fundamentalmente, dar 
um destino para o afeto. O recalcamento visa a transformar “... uma fonte de prazer 
interior em uma de aversão interior”36. Nisto estaria a base, segundo Strachey, do 
problema da “inversão de afeto sob recalcamento”37. 
Sabe-se que “ o sonho é a realização ( disfarçada ) de um desejo (sufocado, 
recalcado)”38. Tem como tarefa figurar, como realizado, um desejo. Se o material 
disponível é de caráter doloroso, nem por isso deixa de ser utilizável para a formação do 
sonho. Isso porque “a satisfação pela realização do desejo recalcado pode resultar ser 
tão grande que equilibre os afetos penosos... ”39. Portanto, uma satisfação deve ser 
alcançada, mesmo que implique em desprazer. Mas, para além disso, a transformação de 
prazer em desprazer constitui-se, em si mesma, numa estratégia de defesa frente a um 
desejo desautorizado pelo sujeito. 
“ Tanto a sufocação do afeto quanto a inversão do afeto servem na vida social [...] à 
dissimulação40”, escreve Freud em “A interpretação dos sonhos”, acrescentando: 
 “... a censura me ordena que sufoque meus afetos e, se sou um mestre da 
dissimulação, fingirei o afeto contrário: sorrirei quando me armaria em cólera e 
parecerei terno quando gostaria de aniquilar”41. 
Freud assinala ainda que os desejos inconscientes consistem numa “... compulsão a 
que se tem que se adequar”42. E, se esses desejos despertam uma contradição no sujeito, 
sua realização “... já não provocaria um afeto prazeroso, mas sim, um de desprazer e 
 
35
 _________________. Manuscrito N. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.1. p. 
298. 
36
 _________________. Carta 75. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.1. p. 313. 
37
 Idem. 
38
 _________________. La interpretación de los sueños. Ibid. op.cit. v.4. p.177. 
39
 _________________.Idem. v.5. p. 549. 
40
 Idem. v.5. p.469. 
41
 Idem 
42
 Idem. v.5. p.593. 
 
 
35
justamente esta mudança do afeto constitui a essência do que designamos 
´recalcamento´”43.Tal concepção é retomada em “Três ensaios”: 
“Eu chamaria ´histérica´ , sem vacilar, a toda pessoa, seja ou não 
capaz de produzir sintomas somáticos, em quem uma ocasião de 
excitação sexual provoca, predominante ou exclusivamente, 
sentimentos de desprazer . Explicar o mecanismo dessa inversão 
de afeto segue sendo uma das tarefas mais importantes e, ao 
mesmo tempo, uma das mais difíceis da psicologia das 
neuroses”.44 
Assim, a contraposição neurose: recalcamento-desprazer X perversão: compulsão-
prazer não mais poderá ser sustentada. Pelo contrário, Freud marcará, cada vez mais, a 
perversão na neurose, apesar de sua neurótica insistir na versão de um outro perverso 
fora dela. Irá dizer que todo neurótico tem marcadas inclinações perversas que, no 
entanto, encontram-se recalcadas e inconscientes, acrescentando que “... suas fantasias 
inconscientes exibem o mesmo conteúdo que as ações que se tem documentado nos 
perversos”45. 
No “Caso Dora”, para além de qualquer suposição de sedução da parte de um outro 
perverso , tem que ser levada em conta “... a pré-condição somática para a criação 
autônoma de uma fantasia que coincide, por outro lado, com a prática dos perversos”46. 
Dora recordava-se muito bem de que em sua infância “... tinha sido uma ´chupadora´ 
”
47
. 
A partir do “ Caso Dora” fica assentada a base para todo o desenvolvimento dado a 
“Três ensaios”: a noção da universalidade da perversão, a qual estaria regularmente 
presente na vida sexual de todo ser humano, uma vez que “... as moções da vida sexual 
se contam entre as menos dominadas pelas atividades superiores da alma, mesmo nas 
pessoas normais”48. 
 
43
 Idem. 
44
 _________________. Fragmento de análisis de un caso de histeria. In: Obras completas. Buenos 
Aires: Amorrortu, 1996. v.7. p. 27. 
45
 Idem. v.7. p.45. 
46
 Idem. v.7. p.46. 
47
 Idem. 
48
 _________________. Tres ensayos de teoría sexual. Ibid. op.cit. v.7. p.135. 
 
 
36
A perversão, contudo, é tomada em “Três ensaios” de maneira ambígua: tanto é 
concebida como um desvio em relação à meta sexual normal quanto é enlaçada a ela. 
Mesmo no ato sexual mais normal “... anunciam-se os esboços daquilo que, caso se 
desenvolva plenamente, leva às aberrações que têm sido caracterizadas como 
perversões”49. Assim, Freud destaca que: 
“Em nenhuma pessoa sadia faltará algum complemento da meta sexual normal que 
possa chamar-se perverso e esta universalidade basta, por si só, para mostrar quão 
inadequado é usar condenatoriamente o nome perversão”50. 
Além disso, chama a atenção para o fato de que há muitos indivíduos “que são 
anormais em sua vida sexual, apesar de que, em todos os outros campos, respondem à 
norma e percorreram, em sua pessoa, o desenvolvimento da cultura humana, cujo ponto 
mais débilsegue sendo a sexualidade”51. 
Tal afirmativa pode parecer estranha. Entretanto, não estaria Freud antecipando aqui 
um tipo de divisão diverso daquele usualmente descrito na neurose e característico da 
perversão? Não seria esta modalidade de divisão a mais horripilante e réproba, 
justamente por conciliar uma sexualidade anormal com uma normalidade em todo o 
restante? 
Como se não bastasse, Freud ainda define as crianças como perversos polimorfos, 
dizendo que estas “... costumam dar mostras bem visíveis de uma prática sexual 
perversa”52. Suprema heresia, protestariam muitos, mesmo cem anos depois! 
Em vista de tudo isso, o que definiria a perversão como patológica ? 
“Na maioria dos casos podemos encontrar na perversão um 
caráter patológico não pelo conteúdo da nova meta sexual, mas 
por sua proporção em relação ao normal. Se a perversão não se 
apresenta junto ao normal [...] mas suplanta {Verdrangen}e 
substitui o normal em todas as circunstâncias, consideramos 
legítimo quase sempre julgá-la como um sintoma patológico; 
 
49
 Idem. p.136. 
50
 Idem. p. 146. 
51
 Idem. p.135. 
52
 _________________. Conferencias de introducción al psicoanálisis. In: Obras completas. Buenos 
Aires: Amorrortu, 1996. v.15. p. 192. 
 
 
37
vemos este último, portanto, na exclusividade e fixação da 
perversão”53. 
 Não deixa de ser inovadora  até para os dias de hoje  a postura de Freud em 
não definir a perversão, bem como o seu caráter patológico, pelo seu conteúdo. Já temos 
visto que as fantasias inconscientes dos neuróticos exibem conteúdos idênticos ao 
das 
ações perversas. Os sintomas neuróticos, segundo Freud, constituem-se também em 
expressão de pulsões que poderiam ser chamadas perversas, caso pudessem exteriorizar-
se diretamente em fantasias conscientes ou ações. Por isso, “ a neurose é, por assim 
dizer, o negativo da perversão”54. 
Assim, as neuroses são a contrapartida das perversões, a ponto de Freud, 
às vezes, referir-se aos histéricos como sendo “perversos negativos”55. 
Ao resumir seus “Três ensaios”, Freud será taxativo: 
“ A disposição às perversões é a disposição originária e 
universal da pulsão sexual dos seres humanos e a partir dela, em 
conseqüência de alterações orgânicas e inibições psíquicas, 
desenvolve-se, no curso da maturação, a conduta sexual 
normal”56. 
Sabe-se que um dos objetivos do trabalho cultural é a sufocação dos componentes 
perversos da pulsão sexual. Na perversão tais componentes não são sufocados; já na 
neurose há uma sufocação fracassada, pois as pulsões perversas, mesmo que não se 
exteriorizem como tal, o fazem de outra maneira, ou seja, através dos sintomas. Quanto 
mais alguém se esforce em abafar satisfações pulsionais, mais dificilmente conseguirá 
inibi-las, pois “ o valor psíquico da satisfação sexual eleva-se com a sua denegação”57. 
Com isso, não tenderia a neurose a se positivar? Não poderíamos concebê-la, agora, 
como um negativo fracassado da perversão? Isso não faria ressonância com a concepção 
do sintoma enquanto retorno do recalcado e fracasso do recalcamento? 
 
53
 _________________. Tres ensayos de teoría sexual. Ibid. op.cit. v.7. pp.146-147. 
54
 Idem. p.150. 
55
 Idem. p.216. 
56
 Idem. p.211. 
 
 
38
Sabemos que muitos histéricos expressam suas fantasias “... em uma realização 
consciente e, assim, fingem e colocam em cena atentados, maus tratos, agressões 
sexuais”58. 
 
Se são, eles próprios, os que encenam ser atacados sexualmente, não há como 
deixar de notar que há um outro, neles mesmos, que ataca sexualmente. Num caso 
observado por Freud a enferma “... com uma mão aperta o vestido contra o ventre ( no 
papel de mulher ) e com a outra tenta arrancá-lo ( no papel de homem )”59. Estão aí 
apresentados, em positivo, a vítima histérica e seu outro perverso. 
Passemos ao obsessivo, mas não pela via do registro oficial da casuística publicada 
por Freud. Consideraremos o negativo do caso ( “Anexo. Apontamentos originais sobre 
o caso de neurose obsessiva”), manuscrito encontrado após a morte de Freud. 
Retomemos alguns fragmentos das anotações: 
1. “Antes de dormir fantasiou que, casado com sua prima ( a dama ), lhe beijaria os 
pés, que contudo não estão limpos, mas mostram raias escuras ( o que lhe resulta 
horrível ). Ele mesmo, nesse dia, não pôde lavar-se tão cuidadosamente, e o observou 
em si. Atribui isso à amada. À noite sonhou que lambia os pés da amada, os quais, 
entretanto, estavam limpos; este último é um desejo onírico. A perversão é exatamente a 
mesma que a consabida, positiva”.60 
2. “Que a ele, o excita particularmente o rabo evidenciando-se porque, à pergunta 
de sua irmã sobre o que ele gostava na prima, respondeu gracejando: ´ o rabo´”61. 
3. “... fantasia de profanação de cadáver, que teve uma vez, consciente, e que, por 
outra parte, não ousou ir muito mais além...”62 
 
57
 ____________________. La moral sexual “ cultural” y la nerviosidad moderna. In: Obras completas. 
Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.9. p. 171. 
58
 ____________________. Las fantasías histéricas y su relación con la bisexualidad. In: Obras 
completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.9. p. 144. 
59
 Idem. p.147. 
60
 _____________. A propósito de un caso de neurosis obsesiva. In: Obras completas. Buenos Aires: 
Amorrortu, 1996. v.10. p. 216. 
61
 Idem. 
62
 Idem. p.217. 
 
 
39
4. “ Ele está feito de três personalidades, uma cheia de humor e normal, uma 
ascética e religiosa e uma viciosa-perversa”63. 
5. “ Corpo desnudo de minha mãe, duas espadas cravadas no peito [...] o baixo 
ventre e, em particular os genitais, devorados inteiros por mim e as crianças”64. 
6. “Representa um de seus secretários de juiz, um tipo sujo, desnudo e uma mulher 
lhe faz minette ( fellatio ). De novo minha filha! O tipo sujo é ele mesmo. É que quer ser 
logo secretário para casar-se. Sobre minette ouviu falar com horror; não obstante, com a 
garota de Trieste uma vez, estando sobre ela, deslizou para cima de tal maneira, que lhe 
sugeriu que o fizesse, o que não ocorreu. Eu repito minha conferência do último sábado 
sobre as perversões”65. 
7. “Outra ocorrência, das mais horríveis. Ordena que eu leve minha filha para seu 
quarto para que ele a lamba [...] Além disso, um joguete com meu nome: Freudenhaus-
Madchen (´Filha da casa de Freud = da casa dos prazeres ´ )”66. 
8. “... uma transferência: uma série de crianças jazem sobre o chão e ele chega em 
cada uma e mete algo dentro da boca. Um, meu filho ( seu irmão, que aos 2 anos comeu 
seus excrementos ), tem uma orla marrom em torno da boca e se lambe como se fosse 
algo muito gostoso. Em seguida, uma mudança: sou eu e o faço com minha mãe... 
Recorda que seu pai era boca suja e lhe agradavam muito palavras como ´cu´ e ´cagar ´. 
[...] Era um grande porco e por isso a mãe resolveu um dia lavá-lo dos pés à cabeça, 
quando ele tinha onze anos de idade. Chorou de vergonha e disse: ´Onde me esfregarás, 
entretanto? No cu? ...”67. 
9. “Forma-se uma grande irritação contra mim, a qual se exterioriza em insultos que 
só com grande dificuldade expõe. Me acusa de ser um ´limpador´ de nariz, não quer 
dar-me a mão, pensa que, ao final, terá que colocar no bom caminho a semelhante tipo 
 
63
 Idem. 
64
 Idem. p.221. 
65
 Idem. 
66
 Idem. p.222. 
67
 Idem. p.224. 
 
 
40
asqueroso [...] também insultos contra minha mulher e minha filha. Numatransferência 
diz diretamente que a Sra. F. pode lamber-lhe o cu...68” 
10. “... uma transferência: que todos os membros femininos de minha família se 
sufoquem num mar das mais diferentes e asquerosas secreções ...”69. 
11. “ Nas primeiras semanas de sua estadia em Unterach, olhando pelas gretas da 
cabine de banho, viu uma garota muito jovem desnuda e se fez as mais penosas 
acusações sobre o efeito que podia produzir nela a consciência de ser espiada”70. 
12. “... uma fantasia de transferência: entre duas mulheres, minha esposa e minha 
mãe, está estirado um arenque que, do ânus de uma chega ao da outra, até que uma 
menina o corta em dois pedaços, após o que, os dois fragmentos caem”71. 
Pois bem, nas versões relatadas pelo Homem dos Ratos e no movimento 
transferencial em direção a Freud descortina-se, para a nossa surpresa, um cortejo  
generoso e absolutamente consciente  de perversões de toda a espécie. 
Por que então, não considerá-lo um perverso? Simplesmente porque tudo isso 
ocorre sob sentimentos intensamente aflitivos de horror, auto-acusações e reprovações. 
O asco, a vergonha e a moralidade impõem-se como forças restritivas. 
No “Manuscrito K”, Freud afirma que a repugnância, a vergonha e a moralidade “... 
são as forças recalcadoras”72. Mas ele mesmo não se deixa convencer por essa 
explicação. Na verdade, esses sentimentos são conseqüências do processo de 
recalcamento e, como tal, constituem-se em fatores que restringem, mas também 
possibilitam, a satisfação pulsional. Portanto, a sua presença no Homem dos Ratos, ao 
mesmo tempo que denuncia, desautoriza as suas más ações. 
Os componentes pulsionais encontráveis claramente nas perversões sofreram, nas 
neuroses, recalcamento; porém, “... desafiando-o, puderam afirmar-se no 
 
68
 Idem. p.229. 
69
 Idem. p.231. 
70
 Idem. p.237. 
71
 Idem. pp.240-241. 
72
 FREUD, S. Manuscrito K. Ibid. op.cit. v.1. p.261. 
 
 
41
inconsciente”73. Tais componentes passam a produzir seus efeitos a partir do 
inconsciente encontrando, através dos sintomas, a satisfação substitutiva que lhes foi 
denegada. 
As ações obsessivas são ações de compromisso. Não apenas testemunham o 
arrependimento e o esforço de expiação mas, ao mesmo tempo, “... ressarcem a pulsão 
pelo proibido”74. Assim, “é uma lei da contração da neurose que estas ações obsessivas 
entrem cada vez mais a serviço da pulsão e se aproximem continuamente da ação 
originalmente proibida”75. 
Portanto, o obsessivo, longe de renunciar à ação proibida, repete-a, pela via do 
sintoma. No que tange à satisfação pulsional, a semelhança com a perversão torna-se 
patente. Ao contrário do que se possa pensar, a neurose não implica em renúncia 
pulsional. 
Por que então deveríamos manter uma distinção entre neurose e perversão se, do 
ponto de vista da compulsão pulsional a que ambas estão sujeitas, são tão semelhantes? 
Ora, porque o eu posiciona-se diferentemente em cada um dos casos. Freud irá marcar 
que o recalcamento parte do eu ou, mais precisamente, “ do respeito do eu por si 
mesmo”76. 
As mesmas impressões, vivências ou impulsos que um homem tolera, outro 
desaprova com indignação ou abafa, antes mesmo que se tornem conscientes. Para 
Freud, a diferença entre esses dois homens consiste em que “... um erigiu no interior de 
si um ideal, através do qual mede seu eu atual, ao passo que no outro falta essa 
formação de ideal. A formação de ideal seria, da parte do eu, a condição do 
recalcamento.”77 Por outro lado, onde não se desenvolveu um ideal de eu “... a aspiração 
sexual correspondente ingressa imodificável na personalidade como perversão”78 
 
73
 _________________. Cinco conferencias sobre psicoanálisis. In: Obras completas. Buenos Aires: 
Amorrortu, 1996. v.11. p. 42. 
74
 _________________. Tótem y tabú. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.13. p. 
38. 
75
 Idem. 
76
 _________________. Introducción del narcisismo. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 
1996. v.14. p. 90. 
77
 Idem 
78
 Idem. p.97. 
 
 
42
Pode-se, assim, estabelecer um novo contraste entre neurose e perversão: formação 
de ideal do eu na neurose, ausência dessa formação na perversão. Porém, aquilo que, na 
perspectiva do eu, aparece como respeito por si, revela-se, ao considerarmos a exigência 
 
libidinal, como hipocrisia. Vale o provérbio: “ rameira quando jovem, beata quando 
velha”79. 
Ser “bela alma” constitui-se numa posição de gozo. O que foi projetado diante de si 
como seu ideal “... é o substituto do narcisismo perdido de sua infância, na qual ele foi 
seu próprio ideal”80. O ideal erigido pelo eu visaria à recuperação de uma satisfação 
gozada um dia, a uma perfeição narcisista infantil, da qual o eu não quer privar-se, 
tentando recobrá-la na forma do ideal. É, em suma, um ideal de satisfação sexual: 
“ Ser de novo, como na infância, seu próprio ideal, também no que diz respeito às 
aspirações sexuais: eis aí a felicidade a que aspiram os homens”81. 
Portanto, se podemos afirmar que na perversão o eu não se regula por um ideal  
na medida em que é seu ideal  não poderemos, contudo, furtar-nos à consideração de 
que, nos seres humanos em geral, esta seria a meta de felicidade. E o eu, caso fique 
empobrecido em favor de um ideal de si não realizado, “... volta a enriquecer-se através 
das satisfações de objeto e da realização do ideal”82. 
Por isso Freud dirá que o enamoramento, que consiste num fluir da libido do eu 
sobre o objeto, “ tem a virtude de cancelar recalcamentos e de restabelecer 
perversões”83, caso eleve o objeto sexual a ideal sexual. 
Onde a satisfação narcisista tropeça com impedimentos reais o objeto, tomado como 
ideal sexual, pode ser usado como satisfação substitutiva. Este remédio, diz Freud, tem 
uma importância especial para o neurótico, sendo “...a cura pelo amor, que ele, por regra 
 
79
 _________________. Tres ensayos de teoría sexual. Ibid. op.cit. v.7. p.217. 
80
 _________________. Introducción del narcisismo. Ibid. op.cit. p. 91. 
81
 Idem. p. 97. 
82
 Idem. 
83
 Idem. 
 
 
43
geral, prefere à analítica”84; amor de base narcísica que, não suportando a falta, tem, 
propriamente falando, valor de sintoma, de retorno do recalcado, de sutura. 
Portanto, neurótico e perverso, por vias diversas, visam a cumprir, ao final, uma 
mesma meta pulsional, a recuperação do narcisismo perdido. A diferença entre os 
dois não reside, assim, em tentar alcançar a meta última da pulsão, a satisfação, mas nas 
vias adotadas: o neurótico insiste na trilha da idealização eu-objeto, ao passo que o 
perverso persegue o caminho da idealização da pulsão. 
Ambos, no entanto, procuram um amor pra-curar-falta, um amor pra-curar-dor. E 
aqui lembramos Besset85, que evoca o canto popular “Mora na filosofia: prá que rimar 
amor com dor?” e destaca, em seu artigo, a importância de operar o corte nesse amor 
que se pretende completo. É preciso, então, extrair desse amor o seu verso ideal, 
perpassando aí o verso de corte. 
Operação que, pensamos nós, Freud fazia todo o tempo. Ele era dado a rimas 
insólitas, como quando afirma que talvez seja “... justamente nas mais horripilantes 
perversões que é preciso admitir a mais vasta contribuição psíquica à transmutação da 
pulsão sexual”, acrescentando: 
“ Eis aqui uma obra do trabalho anímico à qual não se 
pode negar, apesar de seu horrível resultado, o valor de 
uma idealização da pulsão. Talvez em nenhuma parte a 
onipotência do amor se mostre com maior força que 
nesses seus desvios. Na sexualidade, o mais sublime e o 
mais nefandoaparecem sempre em íntima 
dependência...”86 
Esse verso, o avesso nefando do amor e do sexo, o neurótico não quer nomear. Mas 
é desse avesso, que o per-verso é feito; ele é afeito a esse abominável e, por isso, causa 
horror ao neurótico. 
 
84
 Idem. 
85
 BESSET, V.L. Amor e dor: rima do gozo? Inédito. 2001. 
86
 FREUD, S. Tres ensayos de teoría sexual. Ibid. op.cit. p.147. 
 
 
44
A onipotência do amor manifestar-se-á, no neurótico, através da pretensão em 
atingir os ternos e sublimes ideais do eu e do objeto. Já o perverso afirmará essa 
onipotência pela busca, no abominável, de seu ideal de realização pulsional. Afinal, 
existe maior prova de amor que o “dizer sim” ao objeto maximamente degradado? A 
diferença  sutil, mas não tão sutil assim  é que ao primeiro, lhe apetece a terna 
compaixão pelo depreciado, sendo que ao segundo, o que lhe apetece é o sexualmente 
denegrido. 
Pode-se conceber que, na neurose, o ideal que o eu formula para si e para o objeto 
contradiz a tendência da satisfação pulsional. Há uma divisão do sujeito, operada pelo 
processo de defesa, o recalcamento. 
No entanto, no caso da perversão, poder-se-ia dizer, simplesmente, que não há 
contradição entre o ideal formulado pelo eu e a tendência da satisfação pulsional? 
Encontraríamos aqui um sujeito não-dividido? Ou tratar-se-ia de um outro plano de 
divisão? 
 
 
45
CAPÍTULO II 
Quem bate? 
 
Desenvolvemos o capítulo anterior a partir da versão do neurótico acerca de um 
outro perverso e demoníaco, que age sobre ele, contra a sua vontade. Outro que 
carrega87 a neurose, que a afeta e a energiza, dividindo o sujeito e causando-lhe 
sofrimento. Faz-se, então, necessária a formulação de uma versão que a ele se oponha, o 
contradiga e o acuse. Na neurose o sujeito acusa88 a um outro, seja este referido como 
estando dentro ( neurose obsessiva ) ou fora dele ( histeria ). 
O perverso89, entretanto, simplesmente acusa  revela  sem qualquer 
recriminação, a sua versão, uma satisfação pulsional da qual não abre mão. Ele é per-
feito90 ao prazer. Como situar aí uma divisão? 
Antes de abordar essa questão, deveremos perguntar-nos sobre como o sujeito é 
afetado pelas versões nas quais se apoia e que usos pode ou não fazer delas. Tomaremos 
como paradigma a versão “bate-se numa criança”, presente tanto na neurose como na 
perversão. 
Apesar de sub-titular seu artigo como sendo uma “contribuição ao conhecimento da 
gênese das perversões sexuais”, Freud observa que a fantasia “bate-se numa criança” 
era confessada, com freqüência surpreendente, por neuróticos em tratamento 
psicanalítico. A confissão vinha acompanhada de vacilação, vergonha ou sentimento de 
culpa mas, quando feita, revelava que à fantasia se ligavam intensos sentimentos 
prazerosos, que desembocavam em atos de satisfação auto-erótica. Além disso, tal 
 
87
 CARREGAR ( do lat. vulgar carricare ): pôr carga; levar; transportar; trazer consigo; acumular 
eletricidade . In: Novo Dicionário Aurélio, 1975. 
88
 ACUSAR ( do lat. accusare ): imputar falta, delito ou crime a; incriminar, culpar; revelar, indicar, 
mostrar. In: Novo Dicionário Aurélio, 1975. 
89
 Segundo Barcia ( 1879): 
PERVERSO ( do lat.perversus): feito ao revés. De per: através e versus: volto, voltado, virado. 
PERVERTER ( do lat.perversio): a ação de inverter a ordem. 
90
 Segundo Barcia ( 1879): 
Per (lat): por, pelo, por meio de; é também o prefixo pejorativo por excelência, posto que a ação de 
atravessar um objeto dá muitas vezes por resultado rasgá-lo, destroçá-lo, desorganizá-lo e até matá-lo, se 
é um ser animado ( p.ex., per-verter ). Per equivale também a muito, do todo, inteiramente ( P.ex. per-
fecto: muito bem feito ). 
Segundo Bueno, Franciso da Silveira ( 1996 ) 
Per ( lat): idéia de completo, perfeito, acabado. 
 
 
 
46
fantasia era reproduzida inúmeras vezes pelo sujeito, inicialmente por vontade própria e 
posteriormente como compulsão e contra a sua vontade. 
Freud irá dizer que uma fantasia como essa, surgida na primeira infância e enlaçada 
a uma satisfação auto-erótica, “... só admite ser concebida como um traço91 primário de 
perversão”92, que pode mais tarde “... sucumbir ao recalcamento, ser substituída por 
uma formação reativa ou ser transformada por uma sublimação”93. Porém, se faltam 
esses processos, a perversão conserva-se na maturidade. 
O fato de tal fantasia geralmente ficar separada do conteúdo restante da neurose e 
não ocupar um lugar legítimo dentro de sua estrutura poderia levar-nos a concluir, 
apressadamente, que se trata apenas de uma fantasia perversa na neurose ou, 
simplesmente, de traços de perversão numa estrutura neurótica. Mas, a constatação de 
que fantasias de espancamento não se encaixam na estrutura neurótica deveria, isto sim, 
levantar a suspeita de que “ ... o problema não ficou resolvido com isso”94. 
O que chamava a atenção de Freud era que o sujeito, quando inquirido sobre as 
fantasias, fornecia “... esta única, esquiva, resposta: ´Não sei de nada sobre isso; batem 
numa criança´ ”95. Quando muito dizia serem meninos os espancados ... ou meninas ... 
ou ainda, que isso era indiferente. 
Sem dúvida, tal posição diante da fantasia difere, em muito, das exaltadas 
descrições histéricas de ataques sexuais sofridos na infância, bem como das auto-
acusações obsessivas, relacionadas às más ações infantis. Nesses casos o sujeito, mesmo 
que não queira implicar-se, está no centro da cena fantasmática. Nas fantasias de 
espancamento, pelo contrário, tudo parece ser indiferente, impessoal, não-familiar; o 
sujeito está fora da cena. 
Freud irá colocar-se a trabalho, descrevendo as diferentes fases  versões, diríamos 
nós  da fantasia de espancamento, inicialmente na menina e depois no menino. 
 
91
 Na edição argentina encontramos rasgo (esp.): traço, vestígio, rastro, sinal. Traçar: arrastar, marcar, 
delimitar. 
92
 FREUD, S. “Pegan a un niño”. Contribución al conocimiento de la génesis de las perversiones 
sexuales. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.17. p.179. 
93
 Idem. 
94
 Idem. p.181. 
 
 
47
Recorre, como base, a uma casuística restrita e a descreve de maneira vaga: são seis 
casos (quatro mulheres e dois homens ), três de neurose obsessiva, um de histeria, outro 
considerado como psicastenia e, curiosamente, não se refere ao sexto caso. Chama a 
atenção o fato de que, entre quatro mulheres e dois homens, só haja um caso de histeria. 
Apesar de, em princípio, contar com uma amostragem neurótica, Freud faz uso de 
dois parâmetros clínicos, a neurose e a perversão. Ao descrever as fantasias da menina 
toma como referência a neurose; no entanto, na descrição das fantasias do menino seu 
modelo é a perversão: “meu material masculino incluía [...] um grande número de 
pessoas que deviam ser qualificadas de masoquistas genuínos, no sentido da perversão 
sexual”96. Portanto, os seis casos iniciais, como ele mesmo esclarece, não esgotam o seu 
material de estudo. 
Em relação às versões relatadas, a menina formula a fantasia da primeira fase como 
sendo “o pai bate na criança”, à qual Freud acrescenta: “... na criança que eu odeio”97. 
Nessa fase, a criança espancada nunca é aquela que fantasia e a narrativa é marcada por 
algo indeterminado e indiferente. 
Na segunda fase “... a criança espancada torna-se outra; comumente é a criança 
fantasiadora mesma.”98 A fantasia ganha prazer em alto grau e sua versão agora é “eu 
sou batida pelo meu pai”, versão que tem um caráter indubitavelmente masoquista e 
que, sendo a mais importante e de maiores conseqüências, jamais é, no entanto, 
recordada.Fica apartada do sujeito. É Freud quem se encarrega de construi-la. 
Na fantasia da terceira fase a menina observa meninos desconhecidos sendo 
espancados e isso se faz acompanhar de intensa excitação sexual. Por que caminho essa 
fantasia, agora sádica,“... converteu-se em patrimônio duradouro da aspiração libidinal 
da menina pequena?”99  pergunta Freud . 
Antes de procurarmos uma resposta, voltemos ao primeiro tempo da fantasia: a 
autora da versão não se compromete; apenas supõe, com indiferença, que não sendo a 
 
95
 Idem. p.179. 
96
 Idem. p. 193. 
97
 Idem. p.182. 
98
 Idem. p.183. 
99
 Idem. p.183. 
 
 
48
criança espancada, não é a odiada, mas sim, a amada pelo pai. Digamos que, sub-
repticiamente, extrai dessa suposição uma ponta de prazer sádico. Prazer mesquinho e 
apagado  não ligado, propriamente, a “eu sou a amada”, mas a “ela é a odiada”  e 
que, por estar apoiado em vigorosos interesses egoístas, satisfaz-se basicamente da 
fruição do dano causado ao outro rival; prazer “não indubitavelmente sexual, não sádico 
tampouco, porém sim, o material a partir do qual ambas as coisas estão destinadas a 
nascer depois”100. 
Entretanto, diante do ódio à criança rival e quando castigada e frustrada em seu 
amor incestuoso, sobrevem a decepção: sendo castigada não é, agora, amada. É nesse 
ponto  na derrocada do amor onipotente  que incide o recalcamento e, a partir daí, 
a única compensação para a perda desse amor será extrair do que seria a confirmação de 
que o pai não a ama  ou seja, do espancamento  o seu contrário, “meu pai me ama”. 
Pela via da regressão e através do masoquismo, tenta recuperar esse amor e ressarcir-se 
da perda, fazendo do “não”, “sim”. 
Freud supõe que o sadismo esboçado na primeira fase reverte, pela intervenção da 
punição do pai e pelo sentimento de culpa advindo daí, em masoquismo. No entanto, tal 
reversão não pode ser compreendida apenas a partir do sentimento de culpa. O “ser 
batido” é agora “... uma conjunção de consciência de culpa e erotismo; não é só o 
castigo pela relação genital proibida, mas também seu [dela]substituto regressivo.”101. 
Se a versão “sou batida pelo meu pai” serve como ponto de ancoragem e de 
recuperação da satisfação libidinal perdida resulta, em princípio, incompreensível Freud 
dizer que ela sofre recalcamento, uma vez que recupera uma satisfação libidinal. No 
entanto, sabemos bem o quanto de afronta pode representar para uma mulher o fato de 
obter satisfação sexual sendo batida. Pensamos ser plausível sustentar que o 
recalcamento obedece, aqui, ao respeito do eu por si mesmo, o qual não pode admitir 
para si tal degradação. Assim, ser açoitada significará uma destituição de amor e uma 
humilhação, em que pese a carga erótica aí envolvida. 
 
100
 Idem. p.184. 
101
 Idem. p.186. 
 
 
49
A versão “sou batida pelo meu pai” poderia, no entanto, “... aventurar-se de novo 
até a consciência toda vez que o próprio eu se tornasse irreconhecível, mediante um 
ligeiro disfarce”102. A partir daí, ganha sentido a versão do terceiro tempo da fantasia de 
espancamento: a menina assiste, com prazer, a meninos sendo espancados por 
substitutos paternos e a excitação sexual associada à cena, embora na aparência seja 
sádica é, na verdade, masoquista pois, ao tomar meninos batidos como substitutos de 
seu próprio eu, usufrui do prazer de ser, ela própria, açoitada. A excitação sexual, 
associada originalmente ao “ser espancada”, desloca-se para o “olhar meninos sendo 
espancados”. 
O curioso é que, nessa versão fantasiada da menina, a cena sadomasoquista 
desenrola-se num universo exclusivamente masculino, sendo que a menina não encontra 
aí lugar, senão como espectadora. 
Contudo, mais intrigante ainda é a análise que Freud faz das versões de açoitamento 
nos meninos. Aqui o sujeito não apenas formula conscientemente a fantasia “eu estou 
sendo batido”, como pode também realizá-la. Porém, quem bate é a mãe. Tanto nas 
fantasias conscientes como nas encenações que as realizam , eles se situam no papel de 
mulheres sendo espancados(as) por mulheres, coincidindo seu masoquismo com uma 
atitude feminina. O menino “... sente-se todavia como mulher em sua fantasia 
consciente e dota as mulheres espancadoras com propriedades e atributos masculinos 
”
103
. 
Porém, o universo criado aí, longe de ser feminino, é ostensivamente transvestido: 
um homem assume uma atitude feminina diante de uma mulher dotada, por sua vez, de 
atributos masculinos e, sob esta condição, obtém satisfação sexual. Esses homens, 
definidos por Freud como masoquistas genuínos, só conseguem uma performance 
sexual satisfatória quando se aderem a esse recurso fantasmático, mostrando-se 
impotentes na falta dessa condição. Por que, no caso desses homens, a obtenção de 
satisfação sexual, sendo batidos, não se constitui em afronta? Por que essa fantasia não 
é recalcada? 
 
102
 Idem. p.187. 
103
 Idem. p. 196. 
 
 
50
Segundo Freud, na base da mudança da fantasia incestuosa do menino para seu 
correspondente masoquista se produz uma inversão a mais que no caso da menina, ou 
seja, a substituição da atividade pela passividade. Não deixa de ser surpreendente o fato 
de um menino consentir em ser colocado numa posição passiva. No entanto, “talvez seja 
esse adicional104 de desfiguração {deslocamento} aquilo que salve a fantasia de 
permanecer inconsciente como resultado do recalcamento”.105 
Tal passagem, bastante enigmática, possivelmente só possa ser compreendida a 
partir da atividade masturbatória associada à fantasia masoquista. Freud refere-se a um 
dos casos em que o paciente lembrava-se claramente de que utilizava a fantasia de “ser 
batido pela mãe” com fins onanistas. Esta montagem fantasmática funcionava como um 
engenhoso desmentido: ser batido pela mãe lhe garantiria, ao final, a convicção de que 
ainda era ele quem tinha o falo, sendo sua satisfação masturbatória a prova, o atestado e 
ostentação disso. Portanto, o que precisava ser desmentido não era, na verdade, o fato de 
a mulher não ter o falo, mas  isto sim  a possibilidade de que ele não viesse a 
perdê-lo. Devido a isso, a fantasia, apesar de colocá-lo numa posição passiva, 
constituía-se numa gratificação suplementar e, longe de precisar ser recalcada, deveria 
permanecer ostensivamente consciente; não implicava em qualquer humilhação, mas 
sim num triunfo. 
À luz dessas considerações pode-se entender porque o “ser batido”, na menina, 
além de permanecer inconsciente, costuma não associar-se ao prazer masturbatório. 
Para ela, o onanismo pode representar “... a afronta narcisista enlaçada com a inveja do 
pênis”106, comportando humilhação, e não, ostentação fálica; além do mais, “o menino 
golpeado-acariciado nela não pode ser outro, no fundo, que o clitóris mesmo”107. Se na 
primeira fase a menina alimentava a intenção de que o rival odiado fosse espancado, a 
 
104
 Na edição argentina encontramos plus (esp. ): gratificação que se costuma dar à tropa em campanha ou 
em outras circunstâncias extraordinárias. Qualquer dinheiro suplementar. 
105
 FREUS, S. Pegan a un niño. Contribución al conocimiento de la génesis de las perversiones sexuales. 
op.cit. p. 187. 
106
 FREUD, S. Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre los sexos. In: Obras 
completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.19. p.274. 
107
 Idem. p.273. 
 
 
51
punição, advinda daí, foi severa demais e, a cadamasturbação, poderia ser reeditada. 
Por isso, há uma “remoção da sexualidade clitoridiana”108 . 
A menina, no entanto, procurará sair da desvantagem pela terceira fase da fantasia, 
onde não é batida e pode vingar-se dos meninos que vê sendo espancados. Além do que, 
estar ali como espectadora não é propriamente estar fora da cena pois, como voyeur, ela 
compõe também o cenário. Pensamos não ser à toa que Freud equipara essa fase àquela 
do menino espancado pela mãe. Ambas visam a um reasseguramento narcísico. 
Freud observa ainda que a versão consciente do menino batido pela mãe oculta 
uma outra  ser batido pelo pai  a qual sucumbe ao recalcamento pelo fato de 
comportar, também, “... um ´ser amado´ em sentido genital”109 e remeter a uma atitude 
feminina em relação ao pai. É justamente esta fantasia que comporta uma afronta para o 
menino e que, portanto, sucumbe ao recalcamento. 
Tanto na menina quanto no menino, a fantasia de espancamento que cai sob 
recalcamento deriva da ligação incestuosa com o pai . Esta ligação é sempre 
masoquista resultando, na menina, da postura edípica normal e no menino, da invertida, 
e estando, portanto, no marco do complexo de Édipo. 
Se Freud sustentava, com firmeza, a idéia de ser o complexo de Édipo o “... genuíno 
núcleo da neurose” 110 e a sexualidade infantil  que atinge seu ápice no período 
edípico  a condição efetiva da neurose, agora afirmará que é possível “... derivar do 
complexo de Édipo as perversões”111. Isso implica em ter que se rever a relação 
exclusiva entre complexo de Édipo e neurose, mantida até então. 
Ao recorrer a anamneses de perversos adultos, Freud constata que “... a impressão 
decisiva, a ´primeira vivência´ de todos estes perversos,”112 quase sempre remontava a 
uma data posterior aos seis anos, época em que o complexo já estaria arrefecido. 
Conclui, contudo, que a vivência relatada por esses sujeitos como sendo a primária e 
 
108
 Idem. p.273. 
109
 FREUD, S. Pegan a un niño. Contribución al conocimiento de la génesis de las perversiones sexuales. 
op.cit. v.17. p.194. 
110
 Idem. p.190. 
111
 Idem. p.190. 
112
 Idem. p.189. 
 
 
52
decisiva era, ela própria, apenas um legado daquele complexo, sendo forçoso que “... os 
nexos entre ela e o complexo agora recalcado permaneçam obscuros enquanto a análise 
não tenha lançado luz sobre o período que se estende atrás da primeira impressão 
´patógena´ ”113. 
Vale lembrar a nota agregada a “Três ensaios” em 1920: 
“Por trás da primeira recordação da emergência do fetiche 
há uma fase sepultada e esquecida do desenvolvimento 
sexual, que é substituída pelo fetiche, como se [ aquela ] 
fosse uma ´recordação encobridora´, cujo resto e 
precipitado é então o fetiche”.114 
Eis aí algo surpreendente: a perversão não apenas tem a sua gênese no complexo de 
Édipo como, também, é um precipitado de seu recalcamento. As ligações amorosas que 
este complexo despertou estão destinadas ao sepultamento talvez porque: 
 “...seu tempo tenha expirado, porque as crianças entram 
numa nova fase de desenvolvimento na qual se vêem 
obrigadas a repetir, desde a história da humanidade, o 
recalcamento {esforço de desalojamento} da escolha 
incestuosa de objeto, da mesma maneira que antes se 
viram forçadas a empreendê-la”.115 
As escolhas objetais incestuosas, antes empreendidas, restam agora como seqüelas 
do recalcamento do complexo de Édipo, podendo constituir a predisposição do adulto a 
contrair mais tarde uma neurose. 
“Então, a fantasia de espancamento e outras fixações 
perversas análogas seriam apenas precipitados do 
complexo de Édipo, por assim dizer as cicatrizes 116que o 
 
113
 Idem. p.189. 
114
 FREUD, S. Tres ensayos de teoría sexual. op.cit. p.140. 
115
 _________. “Pegan a un niño”. Contribución al conocimiento de la génesis de las perversiones 
sexuales. op.cit. pp.185-186. 
116
 CICATRIZ ( do lat. cicatrice ). In: Novo Dicionário Aurélio, 1975 
1- marca deixada numa estrutura anatômica pelo tecido fibroso, que recompõe as partes lesadas. 
2- Fig: sinal ou vestígio de danificação ou destruição. 
3- Fig: lembrança ou impressão duradoura de uma ofensa, de uma dor moral. 
4- Bot: vestígios deixados em certos órgãos pela queda de outros a ele ligados. 
 
 
53
processo deixa após sua expiração, do mesmo modo como 
a tristemente célebre ´inferioridade´ corresponde a uma 
cicatriz narcisista dessa índole[...] É bem sabido que esse 
delírio de insignificância dos neuróticos é apenas parcial e 
por inteiro conciliável com a existência de uma 
supervalorização de si mesmo, oriunda de outras 
fontes”117. 
Neurose e perversão são, portanto, cicatrizes de uma perda. Mas se, conforme 
escreve Freud, o delírio de insignificância dos neuróticos é apenas parcial e inteiramente 
conciliável com uma supervalorização de si mesmo, neurose e perversão 
representariam não apenas a marca118 da castração mas, também, a sua tentativa de 
recomposição119. 
Uma conduta sexual “inferior”  masoquista, por exemplo  cumpre, na 
perversão, o mesmo objetivo que a “ tristemente célebre inferioridade” na neurose. 
Ambas são estratégias de, simultaneamente, lembrar e esquecer uma ofensa, abrir e 
fechar uma ferida, evocar e dissipar um dano narcísico. Por isso, tanto o sintoma quanto 
o fetiche são formações de compromisso erguidas para, num e só movimento, negar e 
afirmar a castração. Ambos têm valor de monumentos que, como bem sabemos, evocam 
uma perda mas, também, o triunfo sobre ela. 
Os sintomas são restos e símbolos mnêmicos de certas vivências traumáticas assim 
como “... também os monumentos com que adornamos nossas grandes cidades são tais 
símbolos mnêmicos”120. Da mesma forma, no caso da perversão fetichista, “... o horror 
à castração erigiu para si um monumento recordatório com a criação deste 
substituto”121, o fetiche. 
Curiosa semelhança, essa do neurótico com o perverso... Entretanto, posicionam-se 
diferentemente. O neurótico, diante de seu monumento, tem a sua impotência evocada. 
O perverso, pelo contrário, vangloria-se dele. Ambos, porém, enganam-se, pois no 
 
CICATRIZAR : fazer que se forme cicatriz; Fig: desfazer, dissipar [ a cicatriz ]; transformar-se (uma 
ferida ) em cicatriz; desaparecer, dissipar-se [ a cicatriz ]. 
117
 FREUD, S. “Pegan a un niño”. Contribución al conocimiento de la génesis de las perversiones 
sexuales. op.cit. p. 190. 
118
 Vide sentido 4 da nota n.116. 
119
 Vide sentido 1 da nota n. 116. 
120
 FREUD,S. Cinco Conferencias sobre psicoanálisis. op.cit. v.11. p.13. 
121
 ________. Fetichismo. op.cit. v.21. p.149. 
 
 
54
aparente desprazer e inferioridade neuróticos há supervalorização narcísica, ao passo 
que no evidente prazer e potência perversos há degradação e impotência. 
Não deixa de ser curiosa a observação de Freud sobre sujeitos que, portando a 
fantasia inconsciente de “ser batido pelo pai”, são especialmente suscetíveis e irritáveis 
em relação a pessoas que eles podem inserir na série paterna: “... é fácil que se façam 
afrontar por elas e assim realizem a situação fantasiada, a de serem açoitados pelo pai, 
produzindo-a em seu próprio prejuízo e para seu sofrimento”122. 
Assim, na neurose, a conotação erótica do “ser batido”, apesar de realizada, fica 
apagada e encoberta pela versão do sofrimento. Contudo, é digno de nota que, eles 
próprios, se façam afrontar. 
Já os masoquistas perversos procuram, abertamente, ser açoitados  bem como, 
humilhados, afrontados e degradados visando, com isso, à obtenção de satisfação 
erótica. Pode-se constatar que não opõem diante de si, como fazem os neuróticos, 
restrições à satisfação da fantasia masoquista, sendo  eles próprios  vertidos e 
afeitos, em sua prática sexual, ao prazer masoquista. Portanto, a satisfação da fantasia 
perversa, rejeitada e camuflada pelo neurótico, é assumida e procurada pelo perverso. O 
que nos levaria a pensar que não haveria defesa na perversão. 
Contudo, como vimos, Freud refere-se a um recalcamento na perversão. Digamos 
que, da fantasia “uma criança é batida pelo pai”, o que sofre intervenção da defesa não é 
“uma criança é batida”, mas sim, o “ ... pelo pai”, enquanto agente da castração. 
Afinal, 
este não está presente na fantasia masoquista consciente do perverso, mas é substituído 
- desmentido, diríamos nós  por uma mulher dotada de atributos masculinos, 
diante da qual o sujeito assume uma atitude feminina. Poder-se-ia dizer que essa 
montagem visaria também a uma degradação e feminização do pai e não, 
simplesmente, a uma falicização materna? 
 
122
 _______. “Pegan a un niño”. Contribución al conocimiento de la génesis de las perversiones sexuales. 
op.cit. v.17. p.192. 
 
 
55
Ao abordar um caso de neurose demoníaca, Freud refere-se ao pintor Christoph 
Haizmann, o qual elege o diabo como substituto de seu amado pai. 
Que Deus é um substituto do pai  um pai enaltecido  já o sabemos. Que o pai, 
posteriormente, diminui aos olhos do filho, isso também se constata. Além do que, há 
um sentimento ambivalente do filho em relação ao pai que é “não só de submissão terna 
mas, também, de desejo hostil”123. E o que parece estar destinado ao recalcamento é a 
submissão terna diante do pai, a qual deve ser encoberta pela hostilidade. 
O diabo é considerado como a contrapartida de Deus e, como tal, a Ele se opõe, 
bem como, a Ele se eqüivale e corresponde. De resto, “os deuses podem converter-se 
em demônios malignos quando novos deuses os suplantam { verdrangen }”124, sendo 
isso verificado não somente nas batalhas entre pai e filho, como naquelas entre povos, 
onde os vencedores transformam em demônios os deuses dos vencidos. 
Tudo isso soa como algo familiar. Todavia, o diabo aparece, diante do pintor, como 
um ser dotado de grandes mamas e um longo pênis arrematado em serpente, o que é 
inusitado pois, em se tratando do Senhor do Inferno e contraditor de Deus  em se 
tratando desse ser único e individualizado  talvez não se pudesse figurá-lo “...senão 
como macho, e mesmo, super-macho: com chifres, rabo e uma grande serpente-
pênis”125. 
Freud se pergunta sobre o porquê da degradação do pai a diabo trazer a marca da 
mulher. Supõe que o filho recalcou a sua atitude feminina  sua submissão terna em 
relação ao pai  e, como expressão da revolta frente à condição de castrado, forjou 
uma fantasia oposta, na qual colocou o pai como castrado, ao transformá-lo em mulher. 
E, por mais estranha que seja a figuração do diabo com grandes tetas, ela apazigua, 
pois “os grandes peitos são os sinais sexuais positivos da mãe, numa época em que o 
menino ignora o caráter negativo da mulher, a falta de pênis”126. Portanto, temos aqui 
 
123
 _____________. Una neurosis demoníaca en el siglo XVII. In: Obras completas. Buenos Aires: 
Amorrortu, 1996. v.19. p.87. 
124
 Idem. 
125
 Idem. p.91. 
126
 Idem. p.92. 
 
 
56
uma imagem perfeita e completa, destinada a desmentir a castração. Nada lhe falta, 
senão o fato de não ser homem, nem mulher. 
Um homem, seja pai ou filho, que se insurge contra a sua atitude feminina diante de 
outro homem se equivoca, no mínimo, duas vezes: uma, por se julgar  desde essa 
posição  como castrado; outra, por fazer eqüivaler a mulher com o castrado e o 
degradado. Sua revolta constitui-se numa defesa frente a ser submetido passivamente 
por outro homem, tendo um valor de afirmação fálica. 
Não pensamos ser à toa que Freud situa a maior resistência ao trabalho analítico, em 
homens, na revolta contra a sua atitude passiva em relação a outro homem a qual, 
segundo ele, é uma conduta frente à castração: 
“O homem não quer submeter-se a um substituto do pai, 
não quer estar obrigado a agradecer-lhe e, por isso, não 
quer aceitar do médico a cura. [...] o decisivo é que a 
resistência não permite que se produza mudança alguma, 
tudo permanece como é”127. 
 
Tal é a “rocha de base” 128, ponto máximo de resistência, representada pelo protesto 
masculino no homem e pela inveja do pênis na mulher e que Freud situa, mais 
propriamente, como sendo uma “desautorização da feminilidade”129. O curioso é Freud 
afirmar que: 
“A designação ´protesto masculino´ não deve induzir ao 
erro de supor que a desautorização do homem recaia sobre 
a atitude passiva, sobre o aspecto, por assim dizer, social 
da feminilidade. Isso é contraditado pela observação, fácil 
de corroborar, de que tais homens costumam exibir uma 
conduta masoquista para com a mulher, uma clara e 
franca servidão. O homem só se defende da passividade 
frente ao homem, não da passividade em geral. Em outras 
palavras: ´o protesto masculino´ não é de fato outra coisa 
que uma angústia de castração”130. 
 
Necessário será, agora, distinguir o registro genital  marca da diferença sexual  
do fálico. É extremamente ambígua a forma como Freud concebe a fase fálica: 
 
127
 ________. Análisis terminable e interminable. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 
1996. v.23 . p.253. 
128
 Idem. 
129
 Idem. 
130
 Idem. p.254. 
 
 
57
“O caráter principal dessa ´organização genital infantil´ é, ao 
mesmo tempo, sua diferença em relação à organização genital 
definitiva do adulto. Reside em que, para ambos os sexos, só 
desempenha um papel um genital, o masculino. Portanto, não há 
um primado genital, mas um primado do falo”131. 
O menino, a despeito de perceber a diferença entre homens e mulheres, não a 
relaciona, de início, a uma diversidade de seus genitais. Ou seja, sabe que existem 
homens e mulheres mas, para ele, todos têm um pênis como o seu. Além disso, dispensa 
a essa parte de seu corpo atenção especial, uma vez que ela lhe traz ricas sensações. 
Quando é confrontado pela visão do genital feminino  de uma irmãzinha, por 
exemplo  o menino desconhece132 a falta de pênis nela e justifica a contradição entre 
observação e preconceito dizendo, para si, que “viu um pênis lá” ou que “é pequeno, 
mas vai crescer”. Faz, portanto, um primeiro desmentido, antes de chegar à conclusão 
de que “havia lá um pênis, mas foi perdido”, sendo a falta do pênis entendida agora 
como castração. 
As coisas, colocadas assim, parecem até muito simples. Contudo, quando Freud diz 
ser notório, “... quanto menosprezo pela mulher, horror a ela e disposição à 
homossexualidade derivam do convencimento final da falta de pênis na mulher”133, 
convida-nos a pensar que a convicção acerca da falta de pênis na mulher não coincide, 
necessariamente, com o acesso à genitalidade podendo, pelo contrário, ser expressão de 
uma posição fálica. Mesmo porque, por associar a castração a um castigo, o menino crê 
que só mulheres depreciáveis, culpáveis por alguma ação proibida, foram punidas com 
a perda do pênis; mulheres que ele leva em conta, como sua mãe, conservam o pênis. 
Por isso, para ele, ser mulher não coincide, ainda, com a falta do pênis. 
Portanto, a oposição “genital masculino ou castrado”134 mantém o sujeito no 
registro fálico, onde se considera apenas um genital, o masculino. A descoberta dos 
genitais femininos fica impedida, sendo isso corroborado pelas teorias sexuais infantis,através das quais a criança se convence de que o bebê vive nos intestinos e é parido pelo 
 
131
 FREUD, S. La organización genital infantil. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. 
v.19. p.146. 
132
 O termo usado aqui por Freud é “leugnen” e, logo depois, será substituído por “ verleugnen”. 
133
 FREUD, S. La organización genital infantil. op.cit. p.148. 
134
 Idem. p. 149. 
 
 
58
ânus. Este ponto deverá ser retomado mas, por ora, acompanhemos o menino com o seu 
pênis. 
Ele nem sempre dá crédito às ameaças de castração formuladas. Estas só terão 
efeito se ele puder representar a perda de seu próprio pênis. A partir daí, a bem do 
interesse narcisista na preservação de seu órgão, abandona os investimentos libidinais 
dirigidos aos objetos incestuosos, afasta-se do complexo de Édipo e entra no período de 
latência. O processo “... salvou, por sua vez, os genitais, afastou deles o perigo da perda 
e, ademais, os paralisou, cancelou sua função”135. 
Assim, o menino preserva seus genitais à custa de cancelar a sua função. Ou 
melhor, cancelando sua função fálica, salva a sua função genital. Talvez nisso resida o 
salto entre fálico e genital, marcado pelo naufrágio136 do complexo de Édipo e 
caracterizado pela “investida em dois tempos do desenvolvimento sexual”137; salto em 
que justamente o que se perde do fálico se destina ao genital ... mas, só depois 
(nachtraglich). 
A passagem do fálico ao genital implicaria, portanto, na queda do primado fálico. 
Talvez, por isso, Freud insista em diferenciar o recalcamento do complexo de Édipo  
caracterizado pela manutenção da primazia do falo  de seu naufrágio, o qual, segundo 
ele, é bem mais que um recalcamento, pois consiste não em conservação, mas em 
destruição. Acrescenta que “no caso normal  dito melhor: no caso ideal  já não 
subsiste, tampouco no inconsciente, nenhum complexo de Édipo, o supereu tornou-se 
seu herdeiro”138. 
Passemos, contudo, à situação da menina. 
Se o menino, ao ver os genitais femininos, desmente a sua percepção, a menina, 
diante da visão do pênis, “no ato faz seu julgamento e toma a sua decisão. Viu, sabe que 
 
135
 FREUD,S. El sepultamiento del complejo de Edipo. In: Obras completas. Buenos Aires: 
Amorrortu, 1996. v.19. p.184. 
136
 O termo usado por Freud é untergang: naufrágio, afundamento; fig: ocaso; fig: queda, declínio. 
137
 FREUD, S. La organización genital infantil. op.cit. v.19. p.145. 
138
 _________. Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre los sexos. Ibid. op.cit. 
v.19. p.275. 
 
 
59
não o tem e quer tê-lo”139. Apesar de, em princípio, não fazer um desmentido  e nem 
tem motivo para tal, pois só se desmente o que não se quer perder, nunca o que se quer 
ganhar  está, por querer ter um pênis, posicionada falicamente. Não é sem razão que 
Freud refere-se a um complexo de masculinidade na mulher . 
Tal complexo conduz a duas soluções: ou a menina mantém a esperança de, apesar 
de tudo, receber um pênis, para se igualar ao homem ou opera um desmentido, 
afirmando que possui um pênis e passando a comportar-se como um homem. No 
entanto, ao comparar seu clitóris, demasiado pequeno e escondido, com o pênis do 
menino, “... cai vítima da inveja do pênis”140. Isso terá as seguintes conseqüências: 
1- Admitindo sua ferida narcísica, “... se estabelece na mulher  como cicatriz, 
por assim dizer um sentimento de inferioridade”141 . Passa a compartilhar com o 
homem do desprezo pelas mulheres, criaturas mutiladas, e, “... pelo menos nesse 
julgamento, se mantém em paridade com o homem”142. Portanto, a tão conhecida 
inferioridade feminina constitui-se, mais propriamente, numa posição fálica, na medida 
em que se valoriza apenas um sexo, o masculino. 
2- Desenvolve intensos ciúmes em relação aos rivais, ciúmes que consistem numa 
“... relíquia do período fálico da menina”143 e têm como base a já descrita fantasia “ 
meu pai bate na criança... que eu odeio”. 
3- Afrouxa seus vínculos ternos com a mãe, responsabiliza-a pela falta do pênis e a 
acusa de dar preferência a outra criança, com a qual rivaliza. Aqui, os ciúmes têm 
também como suporte a fantasia da criança rival espancada. 
4- Toma o clitóris como um órgão inferior, o que contribui para que se afaste da 
masturbação, que pode representar, para ela, uma humilhação. No entanto, muitas 
vezes, apresenta-se uma compulsão ao onanismo. Nesse caso, estaria ela, através da 
masturbação clitoridiana, vingando-se do seu pequeno rival, o clitóris, justamente por 
este ser demasiado pequeno? 
 
139
 Idem. p.271. 
140
 Idem. p.270 
141
 Idem. p.272. 
142
 Idem. p.272. 
 
 
60
Se na menina a castração é vivida como um fato consumado, no menino é temida 
como uma possibilidade de consumação. Portanto, a ameaça de castração força o 
menino a abandonar o complexo de Édipo, sendo que o complexo de castração  a 
castração consumada  introduz a menina no complexo de Édipo. 
Seja como for, na medida em que tanto o menino quanto a menina tomarem o pênis 
como o único genital, não operarão a demolição do complexo de Édipo. Estarão apenas 
tentando garantir a primazia fálica, o menino pela tentativa de manutenção do que 
supõe ter ganho, a menina pela tentativa de ressarcimento do que supõe ter perdido. Nos 
dois casos, o feminino permanecerá desconhecido, o registro genital restará inacessível. 
O primado do falo, cujo apogeu situa-se no complexo de Édipo, encontra seus 
antecedentes em organizações onde os principais papéis são desempenhados pelo 
sadismo e pelo erotismo anal. Fezes, pênis e filho são tratados por Freud como 
elementos que se eqüivalem no inconsciente e podem ser substituídos um pelo outro. 
Quando aborda os vínculos entre filho e pênis, Freud diz que ambos podem ser 
substituídos por um símbolo comum, tanto na linguagem simbólica do sonho como na 
da vida cotidiana. São denominados “o pequeno” ( “ das Kleine”) 144. Se usarmos um 
termo comum no português  pinto  veremos as conseqüências que isso pode ter. 
Além disso, “o pequeno”, que originalmente significava o membro masculino, “... 
pode passar a designar secundariamente o genital feminino”145. Não deixa de ser curiosa 
a associação, na língua portuguesa, entre pinto146, periquita e pomba  esta última 
podendo designar tanto o pênis quanto a vulva  mais ainda, em se tratando da 
pomba-gira. 
 
143
 Idem. p.272. 
144
 Segundo Langescheidts KG ( 1982 ): 
KLEIN : pequeno, miúdo. 
KLEINGELD: dinheiro miúdo, troco 
KLEINHANDEL: comércio a retalho. 
KLEINIGKEIT: bagatela, pormenor, insignificância 
145
 ______________. Sobre las trasposiciones de la pulsión, en particular del erotismo anal. In: Obras 
completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.17. p.119 
146
 PINTO [ De uma raiz onom. pitt, atr. de pito, forma esta que, passando a significar “partes pudendas 
da mulher”, foi eufemicamente nasalada]. In: Novo Dicionário Aurélio, 1975. 
 
 
61
Se, em algumas mulheres neuróticas, não é raro que se manifeste um desejo 
recalcado de possuir um pênis como o do homem, em outras esse desejo pode ser 
substituído pelo desejo de um filho, como se a natureza “... tivesse dado à mulher o filho 
como substituto do outro que se viu levada a negar-lhe”147. Sabe-se que a menina entra 
no complexo de Édipo quando abandona o desejo de um pênis pelo desejo de um filho 
“e, com esse propósito, toma o pai comoobjeto de amor”148. Assim, o desejo de ter um 
filho seria idêntico ao desejo de ter um pênis sendo, ambos, tentativas de ressarcimento 
narcísico e, portanto, posições fálicas. 
Quando, porém, estão ausentes as condições de neurose, há um deslizamento do 
desejo de um pênis para o desejo de um homem e “o homem é aceito como um apêndice 
do pênis”149. É mediante essa mudança que “ uma moção contrária à função sexual 
feminina converte-se em uma favorável a ela”150. E, provavelmente, tal conversão só 
possa ocorrer através da passagem do desejo de ser um homem para o desejo de ter um 
homem. Dessa maneira  e nisso consiste o paradoxo  uma mulher é capaz de ter “... 
uma vida amorosa segundo o tipo masculino do amor de objeto, a qual pode afirmar-se 
junto ao genuinamente feminino, derivado do narcisismo”151, sendo-lhe possível 
conjugar “amar” e “ser amada”. 
Eis aí o genuíno desejo feminino: receber um homem “caído de seu pênis”, para 
dele gozar e  por que não dizer?  gozar de que ele caia sobre ela, com toda a sua 
potência viril. 
E, no que tange ao homem, talvez somente aquele caído de seu pênis, despojado de 
seu ideal de identificação paterna e simplesmente apenso a seu próprio membro viril 
possa, também, gozar e ser gozado por uma mulher. 
No caso do neurótico, contudo, há uma impossibilidade pois, para ele, sair do 
complexo de Édipo “como um homem”  identificado ao pai  resultaria em perda de 
potência viril, implicaria num pênis caído da identificação-pai, uma vez que a 
 
147
 FREUD, S. Sobre las trasposiciones de la pulsión en particular del erotismo anal. op.cit. p.119. 
148
 _________. Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre los sexos. op.cit. 
p.274. 
149
 ______________. Sobre las trasposiciones de la pulsión, en particular del erotismo anal. op.cit. p.119. 
150
 Idem. 
151
 Idem. 
 
 
62
identificação ao ideal paterno comportaria, necessariamente, um abandono do 
investimento libidinal em direção à mãe. É nesse sentido  pensamos nós  que 
Freud152 concebe o supereu como uma enérgica formação reativa contra os 
investimentos libidinais: “assim ( como o pai ) deves ser”  identificação com o pai  
“assim ( como o pai ) não te é lícito ser”  renúncia pulsional. A partir daí, poderemos 
entender também que haja uma defasagem entre o ideal do eu (dever ser como o pai ) e 
o eu real ( não poder ser como o pai ), tão característica na neurose obsessiva, que se 
expressa numa dívida impossível de ser liquidada. Isso, sabemos, só pode resultar em 
impotência psíquica. 
Já no caso da menina “o supereu nunca se torna tão implacável, tão impessoal, tão 
independente de suas origens afetivas como o exigimos no caso do menino”153. E nem 
teria que ser assim pois, nesse caso, não é o pai que força a entrada para interditar a 
relação da menina com a mãe  esse comércio entre mulheres, da filha com sua mãe, 
ocorre à revelia do pai  mas é a filha que, decepcionada com a mãe, aborda o pai, para 
tentar obter dele o que não obteve da mãe, o falo. E essa entrada no complexo de Édipo 
é enérgica: viu, sabe que não tem e quer tê-lo! Afinal, não conhecemos tão bem as 
histéricas decididas? 
Portanto, no complexo de Édipo do menino, é o pai que aborda o filho, arrefecendo 
a sua potência fálica. Mas, no caso do complexo de Édipo da menina, é a filha que 
aborda o pai, reivindicando dele  a qualquer preço  o falo, na forma de um filho. 
Nesse ponto, convém pensarmos o deslizamento pênis-bebê-fezes. 
O excremento, como algo que se desprende do intestino, adquire, de acordo com a 
teoria sexual infantil do parto pelo ânus, valência de filho. É também o presente que a 
criança pode oferecer, “deixar cair”, em benefício do amado. Contudo, em função do 
erotismo associado ao enchimento da mucosa retal, o bastão fecal cobra estatuto de ser, 
 
152
 FREUD, S. El yo y el ello. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.19. p.36. 
153
 ______________. Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre los sexos. op.cit. 
v.19. p.276 
 
 
63
“... por assim dizer, o primeiro pênis”154; portanto, retê-lo possibilita satisfação auto-
erótica e expulsá-lo pode adquirir valor de desafio. 
Ora, a menina verifica que nela  por mais que o bastão se forme  nunca está 
“lá” e que nele  por mais que seja expelido  sempre permanece “lá”. Terá, então, 
motivos de sobra para reivindicá-lo do pai ou mesmo, quando frustrada, vingar-se com 
um “afinal, isso não passa de merda”. O pai, sem dúvida, terá muito trabalho, mas pode 
sair-se bem nessa história porque a menina continua em desvantagem por não ter o 
pênis. Ademais, vigora a proibição do incesto. 
Portanto, um homem não estará ameaçado diante da mulher que quer ser como ele, 
ter um pênis como ele. A mulher que o ameaça é aquela que, deslocando o desejo de ter 
um pênis, para o desejo de ter aquele  um homem  que o possui, transforma fezes 
em ouro. Se o homem estiver muito preocupado em guardar  ou exibir  seu 
tesouro, não suportará que a mulher, em sua posição verdadeiramente feminina, goze 
dele. 
Assim, o horror do homem à mulher não advém do fato de ela não ter o pênis  
isso pode até tranquilizá-lo  mas do fato de ela desejar desfrutar de seu pênis, em 
toda a sua plenitude. É nesse ponto que o homem pode falhar em atender ao desejo 
feminino. A comunidade dos homens terá que procurar recursos... 
 
154
 ______________. Sobre las trasposiciones de la pulsión, en particular del erotismo anal. op.cit. 
p.121. 
 
 
64
CAPÍTULO III 
O gigantesco falo de Príapo 
 
Iniciemos com um peculiar regulamento seguido por alguns povos primitivos, 
segundo o qual o futuro marido de uma donzela era obrigado a abster-se de deflorar a 
esposa prometida. 
O defloramento da jovem obedecia a normas rigidamente observadas, sendo 
efetuado por um substituto paterno, o qual poderia ser o próprio pai da noiva, um 
ancião, um sacerdote, um homem branco estrangeiro ou, até mesmo, uma mulher mais 
velha. Muitas vezes se usava um lingam155 de madeira ou “o gigantesco falo de pedra 
de Príapo” 156. Em muitas comunidades, ao defloramento artificial seguia-se a cópula, 
praticada, de acordo com uma hierarquia estabelecida, por vários homens designados 
para aquela função. 
Enormes falos de madeira e pedra ... homens que se perfilam, aguardando a sua vez 
de possuir a virgem. Eis aí ótimos ingredientes para o fetichismo e o sado-masoquismo! 
Entretanto, aquilo que poderia ser tomado como perversão patológica, naquelas 
comunidades era concebido como prescrição religiosa. Constituía-se num ato 
apotropaico157 e, como tal, destacava muito mais o horror ao objeto tabu  a virgem  
que o movimento libidinal em relação a ele. Torna-se, contudo, ininteligível que o 
horror possibilite o defloramento; esperar-se-ia, nesse caso, uma impotência. 
Freud, recorrendo à figura mitológica da cabeça de Medusa decepada, assinala que 
ela provoca horror. Mas esta reação, embora pareça ser proveniente da visão da cabeça 
decepada, tem sua fonte no próprio ato da decapitação ( decapitar = castrar ). A cabeça 
 
155
 Em Sânscrito: “símbolo”, por referência ao símbolo fálico usado no culto do deus Siva. 
156
 FREUD, S. El tabú de la virginidad. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.11. 
p.199. 
157
 APOTROPAICO ( do grego ) remete à idéia de afastar, lançar para longe, esconjurar um mal ou 
desgraça. 
APOTROPLUS ( do latim ): certos conjuros em versos para prevenir males e aplacar os deuses; espécie de 
amuletoverbal; deuses que tinham o poder de deter os males que ameaçavam. 
 
 
65
horripilante com serpentes, por terrorífica que pareça ser, na verdade contribui para 
mitigar o horror “... pois substitui o pênis, cuja falta é a causa do horror”158 . 
A visão da cabeça de Medusa deixa petrificado de horror a quem a mira. 
Entretanto, é a petrificação mesma que se constitui no esconjuro: “o petrificar-se 
significa a ereção [...] ele possui, não obstante, um pênis e o assegura por sua 
petrificação”159. Torna-se claro ser, portanto, necessário que o homem, diante da 
virgem, tenha que recorrer ao gigantesco e consistente falo de pedra. Da mesma forma, 
exibir o membro ereto tem um efeito apotropaico: “não tenho medo de ti, eu te desafio, 
tenho um pênis”160. 
Portanto, o homem mitiga seu horror ao feminino  em outras palavras, ao desejo 
da mulher  não, propriamente, dotando a mulher de um falo, mas dotando-se de um 
falo. Aí está um modo de se formular o mecanismo perverso. 
Assim, o objetivo do tabu à virgindade seria poupar e proteger o homem. 
Delegando o defloramento ao pai simbólico  não esqueçamos de que lingam significa 
símbolo  todos os homens ficam protegidos contra a mulher, seja ela a que quer 
gozar do seu pênis, seja a que quer tomar o seu pênis. Nessa medida, o ritual seguido 
entre os primitivos pode ser lido como estando a serviço não só da interdição  o 
caráter violento da lei  como também da proteção  seu caráter apaziguador. No 
entanto, os pressupostos legais revelam-se paradoxais. Senão, vejamos... 
O preceito “todo homem deve abster-se do defloramento de sua esposa” para nós, 
civilizados, soa como piada. Porém, entre os primitivos, sua transgressão implicava em 
graves conseqüências. O transgressor  pobre coitado que não fez mais que deflorar 
sua própria esposa !  era acusado, condenado, punido e, certamente, passaria a ocupar 
o lugar de perverso naquela comunidade. Contudo, seus inquisidores talvez tivessem 
que confessar, como fez o castigador da famosa paródia de Tannhauser, lembrada por 
Freud: 
 
158
 FREUD, S. La cabeza de Medusa. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.18. 
p.270. 
159
 Idem. 
160
 Idem. p.271. 
 
 
66
“No monte de Vênus esqueceu honra e dever 
que estranho, coisa assim a nós não ocorrer!”161. 
Sendo assim, o caráter perverso de um comportamento não será conotado pelo 
comportamento em si, mas pela sua inserção num determinado sistema legal. 
O grande falo de pedra era o amuleto usado cerimonialmente entre os primitivos 
como proteção contra a virgem. Esta, uma vez devastada  pois, convenhamos, o ato 
era violento e degradante  era entregue ao seu legítimo esposo. Porém, nos estágios 
mais elevados da cultura, a virgindade é considerada como um bem a que o marido tem 
direito e ao qual não deve renunciar. Teria sido, então, sepultado o tabu da virgindade? 
Freud162 cita a peça “O veneno das donzelas”, de Anzengruber, na qual o campesino 
se abstém de esposar a noiva prometida por achar que o primeiro a desposá-la perderia 
sua vida. Admite que ela se case com outro e só a tomará como mulher quando ela se 
enviuvar e já não for mais perigosa. Mais incisiva ainda, a Judith da tragédia de Hebbel 
tinha a formosura de uma beladona e, após ter sido deflorada pelo poderoso marechal 
assírio, corta a sua cabeça. 
O defloramento, além de trazer como conseqüência o desencadeamento da 
hostilidade da mulher em direção ao homem pode, paradoxalmente, torná-la dependente 
desse homem para sempre. Por isso, Freud dirá que a servidão é muito mais freqüente 
na mulher que no homem, podendo ficar firmemente enlaçada à hostilidade. Muitas 
mulheres dependem como servas de seu primeiro marido, mas não mais por ternura; não 
conseguem se libertar “... porque não consumaram sua vingança contra ele e, nos casos 
mais acusados, a moção vingativa sequer chegou à sua consciência”163 . 
Já nos homens, a servidão sexual traz as marcas da humilhação, da terna falta de 
pretensões e “do silenciamento dos desejos sensuais mais atrevidos”164 , como no caso 
da primeira paixão de um jovem por uma artista célebre, “... que ele acredita estar muito 
 
161
 FREUD, S. Conferencias de introducción al psicoanálisis. op.cit. v.16. p.293. 
162
 _________. El tabú de la virginidad. op.cit. v.11. p.201. 
163
 Idem. p.203. 
164
 FREUD, S. Sobre la psicogénesis de un caso de homosexualidad femenina. In: Obras completas. 
Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.18. p.153. 
 
 
67
acima e até a qual, coibido, quase não ousa elevar os olhos”165. Esses homens 
supervalorizam seu objeto sexual e, uma vez que neles a servidão sexual é “o resultado 
da superação de uma impotência psíquica por obra de uma determinada mulher...”166, 
permanecerão duradouramente ligados a ela. No entanto, parece-nos que outro elemento 
deve ser inserido aí. 
Freud observa que, para muitos homens, a mesma mulher que antes era ignorada ou 
até rejeitada porque não pertencia a ninguém, converte-se prontamente em objeto 
amoroso quando, sobre ela, “... outro homem possa pretender direitos de propriedade 
em sua condição de marido, prometido ou amigo”167. Estes são homens para os quais o 
mandamento “não desejar a mulher do próximo” funciona ao avesso. O que lhes aguça a 
libido é a mulher do próximo. 
A essa condição amorosa conjuga-se uma segunda, a de elevar à categoria de objeto 
amoroso apenas a mulher infiel e de má fama. Tais homens comprazem-se em arrebatar 
a mulher de seu legítimo possuidor  o pai ou seu substituto  mas, paradoxalmente, 
necessitam  para que possam amá-la plenamente  tê-la arrebatada por outros 
homens, provocando, inclusive, situações propícias a isso. Ademais, colocam-se diante 
dessas mulheres como salvadores e protetores, recusando-se a abandoná-las. Pretendem, 
assim, regenerá-las, torná-las virtuosas, dedicando-se inteiramente a essa causa. 
Freud relaciona essa peculiar modalidade de escolha objetal a uma fixação infantil 
de ternura em relação à mãe e o fato de a mãe pertencer ao pai “... passa a ser uma peça 
inseparável do ser daquela”168, convertendo-a em objeto predileto. Porém, diante do 
cerceamento de suas pretensões incestuosas em direção à mãe, só restaria ao pequeno 
amante entregar-se a fantasias nas quais aquele com quem a mãe comete adultério tem 
“... os traços do próprio eu, melhor dizendo, da própria personalidade, idealizada e 
figurada em idade madura, para ser elevada ao nível do pai”169. 
 
 
 
165
 Idem. 
166
 FREUD, S. El tabú de la virginidad. op.cit. v.11. p.190. 
167
 _________. Sobre un tipo particular de elección de objeto en el hombre. Ibid. op.cit. v.11. p.160. 
168
 Idem. p. 163. 
169
 Idem. p.165. 
 
 
68
Ao formular a origem do ideal do eu, Freud dirá que “... por trás deste esconde-se a 
identificação primeira e de maior valência do indivíduo: a identificação com o pai da 
pré-história pessoal”170, identificação que é direta e imediata. No entanto, “ao começo 
de tudo, na fase primitiva oral do in-divíduo171, é por completo impossível distinguir 
entre investimento de objeto e identificação”172, sendo este um tempo mítico, passível 
apenas de ser construído por Freud. 
Ambos os vínculos, identificação e investimento objetal, “... caminham, por um 
tempo, um junto ao outro”173, até que o pai coloca-se como obstáculo, deslocando o 
“naquele tempo pai” de sua identificação-pai, bem como de seu investimento-mãe. O 
interdito paterno abre a ferida edípica que o menino, pela via do complexo de Édipo 
positivo, tenta fechar, ao colocar-se diante do pai como rival, pelaposse da mãe. Este é 
um destino seguido por muitos homens por toda a vida: recusam-se a resignar-se ao pai, 
mesmo que contraiam com ele uma dívida impagável  como no caso do obsessivo  
qual seja, a de reconhecer no pai um direito e um legado. 
Assim, esses homens, ao escolherem seus objetos amorosos, por um lado, 
competem com o pai, mas  por outro  situam-se como seus ordenanças. Através 
das mulheres, substitutas da mãe, que elegem para amar, colocam em jogo “apenas este 
desejo, o de ser seu próprio pai”174. 
É pelo eterno embate com o pai que tais homens estão impedidos de decretá-lo 
morto e caído de seu ideal. No caso do Homem dos Ratos isso torna-se claro. Vários 
anos após a morte do pai e quando pela primeira vez experimentou a sensação de prazer 
de um coito, irrompeu-lhe a idéia: “Isto é grandioso! Em troca disso alguém poderia 
matar seu pai”175. Portanto, nele, o complexo de Édipo foi apenas recalcado e ainda 
estava por ser sepultado. 
 
170
 ___________. El yo y el ello. op.cit. v.19. p.33. 
171
 O termo é traduzido exatamente assim na edição argentina das obras de Freud. 
Indivíduo ( do lat individuu ): indiviso ( não dividido, não divíduo ). 
172
 _____________. El yo y el ello . op.cit. v.19. p.31. 
173
 Idem. p.33. 
174
 FREUD, S. Sobre un tipo particular de elección de objeto en el hombre. op.cit. v.11. p.166. 
175
 ______________. A propósito de un caso de neurosis obsesiva. op.cit. v.10. p.158. 
 
 
69
Se o sujeito não pode cair do ideal paterno, se não tolera o só depois marcado 
pelos dois tempos da sexualidade, guardará fatalmente, como seqüela, a marca da 
primazia fálica. Uma delas é  por contraditório que possa parecer  a impotência 
psíquica, tão evidente nos neuróticos. 
Freud refere-se a homens de natureza intensamente libidinosa que, diante de 
mulheres às quais amam ternamente, têm a sua potência viril inibida. Esses homens 
apresentam uma limitação na escolha de seu objeto de amor e uma cisão na sua vida 
amorosa: as mulheres a quem amam ternamente não os excitam sexualmente e aquelas 
que lhes despertam a sensualidade não podem ser amadas ternamente. 
Tal modalidade de amor é relacionada à fixação incestuosa à mãe. Se na infância 
precoce as correntes terna e sensual não se diferenciavam e precipitavam-se, ambas, 
sobre o mesmo objeto, com a interdição do incesto “... entra em ação o mecanismo 
universal da formação de neurose”176, ficando a corrente sensual relegada ao 
inconsciente. 
Esses homens precisam, assim, manter a sua sensualidade afastada dos objetos que 
amam ternamente, sendo levados a buscar compulsivamente objetos sexuais aos quais 
não precisem amar. Porém, se os objetos procurados, por um traço mínimo que seja, 
evocam o objeto incestuoso a ser evitado “... sobrevem, de acordo com as leis da 
´sensibilidade de complexo´ e do ´retorno do recalcado´, essa estranha denegação que é 
a impotência psíquica”177. Impotência concebida por Freud não apenas no sentido 
estrito  o malogro na realização do coito pretendido  mas, também, na sua ampla 
acepção  muito mais freqüente  ou seja, aquela presente em homens que nunca 
falham na execução do ato sexual, mas que não obtêm prazer do coito. 
A impotência psíquica, enquanto marca do recalcado e tributo pago ao seu retorno, 
mostra ser também, em termos de economia libidinal, o resultado da degradação178 da 
 
176
 ______________________. Sobre la más generalizada degradación de la vida amorosa. In: Obras 
completas. Buenos Aires: Amorrortu. v.11. p.175. 
177
 Idem. pp. 176-177. 
178
 DEGRADAR: aviltar, estragar, denegrir, depreciar; desgastar, atenuar, privar, rebaixar, diminuir. In: 
Novo Dicionário Aurélio, 1975. 
 
 
70
própria essência pulsional qual seja, o seu Drang179  seu ímpeto, sua força, sua 
pressão. 
Para proteger-se dessa perturbação, “o principal recurso de que se vale o homem 
que se encontra nessa cisão amorosa consiste na degradação psíquica do objeto 
sexual.”180. Assim, aviltando as excelências psíquicas do objeto e colocando em 
funcionamento metas sexuais perversas, “cujo não cumprimento é sentido como uma 
notável perda de prazer”181, o homem pode afirmar sua potência sexual. 
Tomando a impotência psíquica como característica universal da conduta amorosa 
do homem de cultura, Freud assinala que a limitação de sua atividade sexual deve-se ao 
respeito pela mulher. Este só ousa satisfazer suas metas sexuais perversas e, portanto, 
atingir a potência plena, diante da mulher que degrada, jamais sobre a que respeita. O 
respeito seria, assim, uma base favorecedora de neurose e limitadora de perversão. 
Entretanto, dirá que “quem há de ser realmente livre e, desse modo, também feliz em 
sua vida amorosa, tem que haver superado o respeito pela mulher e admitido a 
representação do incesto com sua mãe ou irmã”182. 
Tal afirmativa, audaciosa e aparentemente paradoxal, poderia erroneamente sugerir 
que a felicidade no amor teria como condição a perversão. Mas Freud convida-nos a 
refletir sobre algo diverso, ou seja, sobre o nosso julgamento  e este é um 
julgamento de condenação  a respeito do ato sexual “como algo degradante, que 
mancha e suja não apenas o corporal”183. 
 Pois bem, no neurótico a obtenção de prazer sexual, por si mesma, torna 
automaticamente degradado o objeto da pulsão. É como se o atingimento do ideal de 
prazer sexual implicasse, necessariamente, numa perda, por degradação, do objeto. É 
no ponto em que o objeto satisfaz sexualmente  é nesse exato ponto  que ele se 
torna denegrido enquanto objeto de amor. 
O neurótico, ao supervalorizar  idealizar  psiquicamente o objeto, perde a 
excelência do desempenho pulsional: impotência sexual. O perverso, supervalorizando 
 
179
 Em “Pulsiones y destinos de pulsión ( 1915, p.117) Freud concebe a pressão ( Drang ) de uma pulsão 
como sendo o seu fator motor: “ este caráter forçante é uma propriedade universal das pulsões e, ademais, 
sua essência mesma”. 
180
 FREUD, S. Sobre la más generalizada degradación de la vida amorosa. op.cit. v.11. p.177. 
181
 Idem. p.177. 
182
 Idem. p.179. 
183
 Idem. p.179. 
 
 
71
 ou seja, idealizando  a libido, perde a excelência do objeto da pulsão: degradação 
do objeto. Em ambos os casos, se ganha num aspecto e se perde em outro. 
Porém, o respeito excessivo, evidente na neurose, é na verdade um respeito 
venéreo184, misto de honradez e veneração, culto e adoração  a um só tempo  à 
virtude e à sensualidade. O virtuoso assegura, pelo anverso, seu venéreo, fatalmente 
recalcado e, nessa medida, a neurose é o negativo da perversão . E é disso que, no 
neurótico, o eu  ao construir, para si e para o objeto, um ideal  não pode dar-se 
conta. 
Do que ele se dá conta, até pagando por isso, é de seu desprezo à prostituta, pela 
qual alimenta uma mistura de desejo e horror. Desprezo que guarda, entretanto, a face 
recalcada da mãe, enquanto objeto de desejo perdido: 
 
“Toda vez que o objeto originário de uma moção de desejo perdeu-se por 
obra de um recalcamento, costuma ser sub-rogado por uma série 
interminável de objetos substitutos dos quais, porém, nenhum satisfaz 
plenamente”185. 
 
Talvez seja por isso que o objeto, seja ele degradado ou elevado, nunca se adeque à 
pulsão e haja algo, “... na natureza mesma da pulsão sexual, desfavorável à obtenção da 
satisfação plena”186. O respeito à mulher amada ganharia então todo o seu sentido na 
neurose: um “olhar muitas vezes para trás”, procurando indefinidamente, em todos os 
outros objetos, o traço perdido daquele inatingível, a mãe. Situaçãodelicada para as 
mulheres  objetos substitutivos de desejo, por excelência  para as quais “... é tão 
desfavorável que o homem não as aborde com toda a sua potência como que, à inicial 
supervalorização do enamoramento, suceda, após a posse, o menosprezo”187. 
 
184
 RESPEITO ( Do lat. respectu ): reverência, veneração; obediência, submissão, acatamento. 
RESPEITAR ( Do lat. respectare “ olhar muitas vezes para trás” ): venerar, honrar; temer; cumprir, 
observar. 
VENÉREO ( Do lat. venereu ): referente a Vênus; relativo à aproximação sexual; sensual, erótico. 
VÊNUS ( Do mit. lat. Venus, “ deusa da formosura, do amor, dos prazeres” ) 
185
 FREUD, S. Sobre la más generalizada degradación de la vida amorosa. Ibid. op.cit. p.182. 
186
 Idem. 
187
 Idem. pp.179-180. 
 
 
72
É na confluência entre a mãe virtuosa e a prostituta degradada que se pode 
compreender que: 
“... os objetos prediletos dos homens, seus ideais, provenham 
das mesmas percepções que os mais abominados por eles e, na 
origem, se distinguam uns dos outros apenas por ínfimas 
modificações. E ainda pode ocorrer, segundo encontramos na 
gênese do fetiche, que a agência originária representante de 
pulsão se tenha decomposto em dois fragmentos; deles, um 
sofreu o recalcamento, ao passo que o restante, precisamente 
devido a esse íntimo enlace, experimentou o destino da 
idealização”188. 
Portanto, é pelo ínfimo189 que algo gira e opera a viragem, seja no plano do afeto, 
seja no da representação. E não deixa de ser surpreendente que Freud encontre, na 
gênese do fetiche, tanto o recalcado  o abominável  quanto o desmentido  o 
predileto. Assim, do recalcamento ao desmentido, há apenas a passagem de um olhar 
horrorizado a uma caprichosa piscadela. 
Do salto de “Glanz auf der Nase”190 para “glance at the nose”191 não há senão o 
ponto mínimo do contorno e da entonação. O brilho no nariz, em princípio um nada 
sobre o nariz, aponta, no entanto, para o nariz. Freud, em “Fetichismo”, lembra que o 
fetiche era o nariz. Mas não seria o brilho  esse aparente “nada” sobre o nariz  o 
que daria a ele a resplandescência fálica, tornando-o especial? 
Se Freud enuncia que o fetiche é um substituto do pênis, é para dizer que não é 
qualquer pênis, mas aquele perdido da infância, “o falo da mulher ( da mãe )”192, em 
que o menino acreditou e que não quer abandonar, recusando-se a fazê-lo porque trata-
se de se preservar narcisicamente. 
O texto vai sendo delineado com nuances caprichosas, difíceis. Tomando um termo 
de Laforgue, Freud diz que “... o menino ´escotomiza´ a percepção da falta de pênis na 
 
188
 FREUD, S. La represión. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.14. p.145. 
189
 Ínfimo ( Do lat. infimu ): o mais baixo de todos; que está no último lugar, inferior; o maior dos limites 
inferiores de um conjunto de números reais, extremo inferior. 
190
 “brilho no nariz”. 
191
 “olhadela no nariz “ 
192
 FREUD, S. Fetichismo. op.cit. v.21. p.148. 
 
 
73
mulher”193. Mas, não satisfeito com termo, propõe usar “a peça mais antiga de nossa 
terminologia psicanalítica, a palavra ´recalcamento´ {´Verdrangung´, 
´desalojamento´}”194. A ambigüidade atinge seu ponto máximo quando ele diz: 
“Se neste [ processo ] se quer separar de maneira mais nítida o destino da 
representação do destino do afeto e reservar o termo ´recalcamento´ para o afeto, 
´desmentido´ {´Verleugnung´} seria a designação alemã correta para o destino da 
representação”195. 
Tal passagem coloca-nos em dificuldades. Restar-nos-á refletir sobre o 
problemático que é pensar a correspondência estrita entre neurose-recalcamento e 
perversão-desmentido. 
Necessário será reportarmo-nos à figura mitológica de Medusa. A cabeça 
decapitada  evocação da castração  por terrorífica que seja, contribui para mitigar o 
horror. Se não é possível ter Medusa completa pode-se, no entanto, ficar justamente 
com o que lhe falta, a cabeça cortada. Substitui-se o todo pela parte perdida. Trata-se do 
desmentido, destino dado à representação. 
Por outro lado, diante da horripilante cabeça, a petrificação de horror garante a 
ereção e, portanto, a excitação sexual. Temos aqui “a mesma origem no complexo de 
castração e a mesma mudança de afeto!”196 Trata-se do recalcamento, destino dado ao 
afeto. 
Lacan lembra-nos que “o fetiche, nos diz a análise, é um símbolo. Nesse sentido, ele 
é quase colocado, de saída, em pé de igualdade com qualquer outro sintoma 
neurótico”197. 
Sobre a formação do fetiche, Freud afirma que “no conflito entre o peso da 
percepção indesejada e a intensidade do desejo contrário chegou-se a um 
 
193
 Idem. 
194
 Idem. 
195
 Idem. 
196
 FREUD, S. La cabeza de Medusa. op.cit. v.18. p.270. 
197
 LACAN, Jacques. O Seminário: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995, p.157. 
 
 
74
compromisso...” 198 Se, pelo fetiche, o sujeito mantém a convicção da presença do falo 
na mulher, é por essa mesma via que ele confirma o seu contrário, a sua ausência. Ele 
está lá, tomando, porém, o lugar de algo perdido, o falo materno. 
Ao condensar todo o interesse sexual, antes dirigido a um objeto que teve que ser 
abandonado, ele se constitui como cicatriz de uma perda, mas apresenta-se como triunfo 
sobre essa perda, pois “... o horror à castração erigiu para si um monumento 
recordatório com a criação deste substituto”199 . 
O curioso é que Freud  mesmo relacionando prioritariamente o fetiche ao 
desmentido  assinala que a marca do recalcamento persiste em todo fetichista na 
forma de um “alheamento200 em relação aos reais genitais femininos”201. 
Freud concebe o fetiche como um precipitado de uma recordação encobridora. Ao 
referir-se às lembranças infantis, nas quais os componentes essenciais de uma vivência 
são substituídos pelos não essenciais, dirá que o deslocamento de uma intensidade 
psíquica de uma representação sobre outra desperta em nós um efeito tão estranho como 
certos traços dos mitos gregos, a saber: 
“... que os deuses revistam um homem de beleza, como se esta fosse um envoltório 
a partir do qual nós só notaríamos a transfiguração por uma mudança no jogo 
mímico”202. 
Há aí algo difícil de apreender. Freud, porém, segue na trilha, referindo-se à “... 
atitude bi-cindida do fetichista frente ao problema da castração na mulher”203. O fetiche 
encerra tanto o desmentido, quanto a admissão da castração. Assim, o ato do cortador 
de tranças reúne duas afirmações reciprocamente inconciliáveis: “ a mulher conservou 
seu pênis e meu pai castrou a mulher”204. Mais insólito ainda seria o costume dos 
 
198
 FREUD, S. Fetichismo. op.cit. v.21. p.149. 
199
 Idem. 
200
 Na edição argentina ( Amorrortu ) encontramos: 
ENAJENACIÓN (esp. ): alienação, distração, alheamento, enlevo, embevecimento; afastamento, 
distanciamento. 
201
 FREUD, S. Fetichismo. op.cit. v.21. p.149. 
202
 FREUD, S. Sobre los recuerdos encubridores. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 
1996. v.3. p.302. 
203
 _________. Fetichismo. op.cit. v.21. p.151. 
204
 Idem. p.152. 
 
 
75
chineses de primeiro mutilar o pé feminino para depois venerá-lo como a um fetiche, 
“como se o homem chinês quisesse agradecer à mulher por ela ter se submetido à 
castração”205. 
Assim, o perverso dá um trato ao objeto  bem como se deixa tratar pelo objeto  
de modo francamente insuportável para um neurótico. 
Vale lembrar a nota de 1910, apensa a “Três ensaios”: 
“A diferença mais profunda entre a vida sexualdos 
antigos e a nossa reside no fato de que eles punham o 
acento na pulsão mesma, enquanto que nós o colocamos 
sobre seu objeto. Eles celebravam a pulsão e estavam 
dispostos a enobrecer com ela inclusive um objeto 
inferior, ao passo que nós menosprezamos a atividade 
pulsional mesma e a desculpamos apenas pelas 
excelências do objeto”206 ( grifos nossos ). 
 
Poder-se-ia dizer que o perverso celebra a atividade pulsional em si, ao passo que 
o neurótico a menospreza em benefício de uma dignidade pretendida para o eu e o 
objeto? Eis aí algo a ser pensado. Do nariz, fica-se com o brilho; da mulher, com o 
sapatinho e, na série, a roupa suja, os maus odores, os excrementos... 
Lacan afirma que todas as perversões põem sempre em jogo um verdadeiro 
significante, sendo que “quando se o apreende, quando se o encontra e se fixa nele 
definitivamente, como é o caso na perversão das perversões, que chamamos de 
fetichismo  é ela realmente que mostra não apenas onde ele de fato está, mas o que 
ele realmente é  o objeto é exatamente nada”207. 
Se, da depuração do objeto, o neurótico reivindica  mesmo que não ouse formulá-
lo  o trigo, ao perverso, lhe agrada bem o joio208. Nesse sentido, ele está fora do 
circuito das mercadorias apreciáveis, não sendo sem razão que muitas vezes se concebe 
a perversão como uma entidade na qual a pulsão não se elaborou. 
Lacan, entretanto, inclui a perversão no circuito do desejo quando diz que: 
 
205
 Idem. 
206
 FREUD, S. Tres ensayos de teoría sexual. op.cit. v.7. p.136. 
207
 LACAN, Jacques. A relação de objeto. p.198. 
208
 JOIO (Fig): coisa daninha, ruim, que surge entre as boas e as corrompe. In: Novo Dicionário Aurélio, 
1975. 
 
 
76
 “O psicótico é normal em sua psicose [...] porque o psicótico 
em seu desejo tem relação com o corpo; o perverso é normal em 
sua perversão porque tem relação em sua variedade ao falo e o 
neurótico porque tem relação ao Outro, ao grande Outro como 
tal. É nisso que são normais, porque são os três termos normais 
da constituição do desejo”209. 
Em “Neurose e psicose” Freud refere-se ao fato de essas duas entidades clínicas 
serem resultantes de conflitos do eu com as diversas instâncias que o governam e 
constituirem-se como malogros do funcionamento daquele. Ele se pergunta sobre as 
circunstâncias e meios possíveis ao eu para sair vitorioso de conflitos sem adoecer. 
Sem dúvida é possível que o eu supere os seus conflitos, desde que cumpra esta 
condição: a de que ele próprio se deforme, “... consentindo em depreciações à sua 
unidade e, eventualmente, segmentando-se e partindo-se”210. Caso procedesse assim, 
todas as inconseqüências, extravagâncias e loucuras dos homens “... apareceriam sob 
uma luz semelhante à de suas perversões sexuais; com efeito, aceitando-as, eles se 
poupam recalcamentos”211. 
Inevitável será voltar ao Freud de 1914, quando formula que o recalcamento é 
proveniente do respeito do eu por si mesmo, sendo a formação de ideal a condição dessa 
defesa. Temos aqui uma divisão entre o eu e o seu ideal , marcada pelo recalcamento. 
Esse modelo aplica-se à neurose, na qual o eu, ao se exigir um ideal de perfeição, 
fracassa; o eu está dividido pela exigência de ideal que se impõe. 
No entanto, Freud tomará a perversão para situar nela um tipo diverso de divisão, 
muito mais enigmático. Nesse caso, falta a formação de um ideal, o eu está dividido, 
apartado, da sua exigência de ideal. 
Freud irá, mais uma vez, distinguir perversão e neurose segundo duas situações: 
aquelas em que “... os investimentos amorosos sejam acordes com o eu ou, ao contrário, 
tenham experimentado um recalcamento”212. No primeiro caso  perversão  o amar 
é apreciado como qualquer outra função do eu, constituindo-se num interesse egoístico. 
 
209
 LACAN, Jacques. La identificación. Inédito mimeo. Aula de 20/06/1962. 
210
 FREUD, S. Neurosis y psicosis. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.19. 
p.158. 
211
 Idem. 
212
 FREUD, S. Introducción del narcisismo. op.cit. v.14. p.96. 
 
 
77
Entretanto, quando os investimentos pulsionais sofrem recalcamento, o amar é sentido 
como grave redução do eu, pois comporta uma excessiva idealização. 
Se, na perversão, o eu não se impõe um ideal, haverá também pouca tendência à 
idealização de seu objeto de amor. No entanto, resta por explicar porque o eu, para 
atingir posição tão favorável  ou seja, ver-se livre de conflitos e desacordos com o 
seu ideal  precisa depreciar a sua própria unidade. 
Em “Esquema de psicanálise” Freud relaciona o intolerável da falta de pênis na 
mulher à possibilidade de castração no próprio sujeito. Se o sujeito, diante da mulher, 
“... não tem a ousadia de afirmar que viu efetivamente um pênis”213  e, nesse ponto, 
leva em conta a realidade objetiva  por outro lado, “ recorre a algo diverso, uma parte 
do corpo ou uma coisa”214, conferindo-lhe o papel do pênis do qual não pode se privar. 
Temos aí o fetiche, que Freud concebe como “... uma formação de compromisso com a 
ajuda de um deslocamento”215. Portanto, sua função é, como no sintoma, livrar o sujeito 
da angústia de castração. 
O fetiche, no entanto, não garante a obtenção de prazer e de potência fálica. Freud 
referiu-se, várias vezes, à impotência dos sujeitos perversos. Não deixa de ser curioso 
verificar que sujeitos dados a extravagâncias sexuais sejam, freqüentemente, 
impotentes. 
Ao constatar a existência de fetichistas “que desenvolveram a mesma angústia de 
castração que os não-fetichistas e reagiram frente a ela de igual modo”216, Freud conclui 
pela presença, em seu comportamento, de duas premissas contrapostas: desmentem o 
fato de sua percepção, a falta de pênis na mulher, mas também a reconhecem. As duas 
atitudes persistem uma junto à outra durante toda a vida, sem se influenciarem 
reciprocamente. Isso “... é o que se tem direito a denominar uma cisão do eu”217 . 
 
213
 _________. Esquema del psicoanálisis. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. 
v.23. p.204. 
214
 Idem. 
215
 Idem. 
216
 Idem. 
217
 Idem. p.205. 
 
 
78
O inusitado é Freud dizer que é justamente devido a essa cisão que o sujeito não 
seria  e aqui, nós o dizemos  todo fetichista. Com freqüência, o fetichismo está 
parcialmente desenvolvido e não governa a escolha de objeto de uma maneira 
excludente “... mas deixa espaço para uma extensão maior ou menor de conduta sexual 
normal e ainda, muitas vezes, retira-se para um papel modesto ou para a condição de 
mero indício”218. 
Este, pensamos nós, é o aspecto monstruoso da perversão: o fato de uma aberração 
sexual, por mais abominável que seja, deixar lugar para a normalidade. Convenhamos, 
isso só seria possível à custa de uma divisão radical, onde o mais nefando para o eu 
pode conviver, sem conflito, com o mais sublime. 
Mais surpreendente, contudo, é constatar que o fetichismo não se constitui em 
exceção, no que toca a essa radical divisão do eu, sendo apenas um objeto 
particularmente favorável para seu estudo. Tal divisão encontra-se presente também na 
neurose. 
Não resulta difícil compreender, a partir da neurose, que o eu, na infância, 
comumente se defende das suas exigências pulsionais através do recalcamento. Porém, 
Freud acrescentará que o eu, nesse mesmo período, pode defender-se das exigências do 
mundo exterior, sentidas como penosas, mediante o desmentido. 
Portanto, o desmentido sobrevem, muito amiúde, também em sujeitos neuróticos. É 
sabido que, em relação a determinada conduta neurótica, podem subsistir duas posturas 
contrapostas e independentes entresi. Essa é uma característica universal das neuroses, 
basta que nos lembremos dos obsessivos e das histéricas. Mas, nesses casos, “... uma 
[postura] pertence ao eu e a contraposta, como recalcada, ao isso”219. 
Assim, há desmentido e recalcamento, tanto na perversão quanto na neurose. Como, 
então, distinguir as duas estruturas? 
Freud tenta discerni-las a partir da divisão do eu no processo defensivo. Contudo, 
em relação à distinção entre as duas modalidades de divisão, aquela que ocorre na 
 
218
 Idem. 
219
 Idem. 
 
 
79
neurose e aquela da perversão, mostra-se reservado, dizendo apenas que ela é “... no 
essencial, tópica ou estrutural”220. Observação, diga-se de passagem, muito bem vinda, 
pois marca uma diferença estrutural entre neurose e perversão e alerta para o abuso da 
fraseologia “traços perversos numa estrutura neurótica”, levando-nos também a refletir 
sobre o porquê de não nos referirmos a “traços neuróticos numa estrutura perversa”. 
No entanto, mesmo situando a questão, Freud só consegue explicitá-la no caso da 
neurose, onde a divisão, marcada pelo recalcamento, é operada entre o eu e seu isso, 
assemelhando-se a uma divisão “interior”. A questão da divisão do eu na perversão resta 
por ser elucidada, talvez porque, sendo “exterior”, superponha-se ao eu. 
No início de sua 31º conferência Freud adverte que sua exposição produzirá 
um efeito diferente daquele provocado pelas suas conferências anteriores (as de 
1916-1917) que tratavam “... da introdução no mundo psíquico subterrâneo”221, 
devido ao caráter do próprio material a ser abordado. A dificuldade resultaria de se 
tomar como tema o eu, “... o nosso mais próprio eu”222. Freud se pergunta sobre como 
isso pode ser feito se o eu, por certo, “é o sujeito mais genuíno”223 e, sendo assim, como 
ele, esse genuíno sujeito, poderia se tomar como tema, como objeto? 
Sabe-se que o sintoma provem do recalcado, sendo o seu substituto perante o eu. O 
recalcado, entretanto, é para o eu “... terra estrangeira, uma terra estrangeira interior, 
assim como a realidade  permitam-me a expressão insólita  é terra estrangeira 
exterior”224. 
A divisão na neurose já não pode ser concebida, então, como algo tão simples. 
Sendo a neurose “o resultado de um conflito entre o eu e seu isso”225, não haveria aí um 
desconhecimento radical do eu em relação a seu isso? 
 
220
 Idem. 
221
 FREUD, S. Nuevas conferencias de introducción al psicoanálisis. In: Obras completas. Buenos 
Aires: Amorrortu, 1996. v.22. p.54. 
222
 Idem. 
223
 Idem. 
224
 Idem. p.53. 
225
 FREUD, S. Neurosis y psicosis. op.cit. v.19. p.155. 
 
 
80
A radicalidade da divisão do sujeito  seja ele neurótico ou perverso  parece 
revelar-se justamente no ponto em que ele se toma como objeto de análise. Talvez seja 
exatamente nesse ponto que se situa a divisão, na passagem de sujeito a objeto. E, a 
despeito do que o eu possa fazer em seu esforço defensivo  seja desmentindo um 
fragmento do mundo exterior, seja recalcando uma exigência pulsional do mundo 
interior  o resultado “... nunca é perfeito, sem resíduo”226. 
Diante da difícil formulação sobre os processos anímicos inconscientes, Freud 
propõe comparar a sua percepção pela consciência com a percepção do mundo exterior 
pelos órgãos dos sentidos e, evocando o filósofo, lembra que: 
 “Assim como Kant alertou-nos para que não julgássemos a 
percepção como idêntica ao percebido incognoscível, 
descuidando do condicionamento subjetivo dela, da mesma 
forma a psicanálise nos adverte que não temos que substituir o 
processo psíquico inconsciente, que é o objeto da consciência, 
pela percepção que esta faz dele”227. 
Freud acredita que a correção da percepção interior não oferece dificuldades tão 
grandes quanto a da percepção exterior e que “... o objeto interior é menos 
incognoscível que o mundo exterior”228. No entanto, já havia marcado em “A 
interpretação dos sonhos” que o aparelho psíquico “... é, ele mesmo, mundo exterior 
para o órgão sensorial da Cc”229. 
 
 
 
 
 
 
 
226
 _________. Esquema del psicoanálisis. op.cit. v.23. p. 206. 
227
 FREUD. S. Lo inconciente. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v.14. p.167. 
228
 Idem. 
229
 FREUD, S. La interpretación de los sueños. op.cit. v.5. p.603. 
 
 
81
 
CONCLUSÃO 
Percorrendo o texto freudiano constatamos a dificuldade em se trabalhar com os 
conceitos de neurose e perversão. Freud os trata de maneira ambígua, sendo que o seu 
famoso aforismo “a neurose é o negativo da perversão” vai adquirindo nuances diversas 
ao longo de sua obra. 
Inicialmente, mesmo não se utilizando explicitamente do conhecido aforismo, 
Freud aborda a neurose como sendo uma perversão em negativo, melhor dizendo, uma 
perversão sob recalcamento. Ao descrever a perversão histérica do caráter apresenta-a 
como uma compulsão, uma vontade contrária às intenções conscientes do sujeito, que 
sai à luz como sintoma, apoderando-se do corpo. A histeria é assim definida como uma 
aberração do conflito, na qual se fazem presentes reações afetivas intensas e penosas, 
que resultam de um conflito entre duas tendências contrárias. Haveria, por um lado, uma 
necessidade sexual hipertrofiada e, por outro, uma excessiva desautorização do sexual. 
Apoiado nos relatos de sedução, insistentemente trazidos por suas pacientes, Freud 
chega a acreditar que a histeria seja conseqüência de uma perversão por parte de um 
adulto sedutor. No entanto, nota que os histéricos, mesmo durante a infância, estimulam 
os ataques sexuais e isto o conduz à conclusão de que, no mesmo sujeito, opera-se uma 
metamorfose: perverso quando criança, torna-se posteriormente histérico. Formula, a 
partir daí, que a histeria não é, propriamente, uma sexualidade desautorizada, mas uma 
perversão desautorizada. 
A versão histérica objetiva desimplicar o sujeito de sua atividade sexual, através da 
acusação a um outro perverso. Já a versão obsessiva mostra algo diferente: o sujeito 
relata ter causado dano sexual a outrem e as recriminações desmedidas que se inflige 
conduzem Freud a definir a neurose obsessiva como sendo uma aberração da auto-
acusação. Note-se que o obsessivo, mesmo quando se refere a uma atividade sexual 
pervertida na infância, não a autoriza; prova disso são as suas auto-recriminações 
excessivas. 
 
 
82
De qualquer modo  tanto na histeria quanto na neurose obsessiva  uma 
vivência de excitação sexual precoce, quando ativada posteriormente, passa a despertar 
desprazer, seja devido ao conflito entre tendências opostas, seja devido às auto-
acusações. Disso decorre a sintomatologia neurótica. 
Freud condiciona a geração da neurose a uma defesa  cujo modelo é o 
recalcamento  que consiste fundamentalmente numa inversão do afeto, a 
transformação de prazer em desprazer. Aquilo que, do sexual, era prazeroso transmuta-
se, após o recalcamento, em repulsivo. No entanto, em relação à perversão, Freud 
afirma que, ou não ocorreu qualquer defesa, ou a defesa não sobreveio antes que o 
aparelho psíquico tenha se completado. 
Sendo assim, os sintomas neuróticos são concebidos como expressão de tendências 
que poderiam ser consideradas perversas caso não estivessem submetidas ao 
recalcamento e pudessem se manifestar diretamente. Porém, o sintoma, enquanto 
retorno do recalcado, torna-se não apenas um veículo para o desvio e disfarce dos 
componentes pulsionais perversos, como também a via privilegiada através da qual 
esses mesmos componentes se afirmam. As ações obsessivas, ao mesmo tempo que dão 
testemunhode arrependimento e esforço de expiação, ressarcem a pulsão pelo que foi 
proibido. O fato de tais ações trabalharem cada vez mais a serviço da pulsão e se 
aproximarem da ação originalmente proibida constitui-se numa lei de contração da 
neurose. Portanto, o sintoma neurótico  mesmo que comportando sofrimento  é, em 
última instância, uma tentativa de ressarcimento de um prazer sexual não admitido pelo 
sujeito. 
Freud relaciona o recalcamento à formação do ideal do eu. Assinala ainda que, onde 
não se desenvolveu tal ideal, a aspiração sexual ingressa inalterada na personalidade 
como perversão. Aquilo que, da pulsão, desperta no perverso excitação sexual, traduz-
se, no neurótico, como afronta a seu ideal. É nessa medida que a repugnância, a 
vergonha e a moralidade operam, no neurótico, como forças que restringem a pulsão 
sexual. Entretanto, a formação de ideal, que aparentemente visa à obtenção de 
propósitos anímicos elevados, aspira, na verdade, à recuperação de um ideal de 
satisfação sexual, sendo o substituto do narcisismo perdido da infância. 
 
 
83
Necessário será evocar, a partir desse ponto, a fantasia “bate-se numa criança”, 
concebida por Freud como um traço primário de perversão, que pode posteriormente ser 
recalcado, ser substituído por uma formação reativa, ser sublimado ou ainda conservar-
se inalterado na maturidade. Uma fantasia dessa natureza, mesmo quando confessada 
com vacilação, vergonha ou sentimento de culpa, denuncia a presença de uma atividade 
sexual auto-erótica na infância, situando-se na base tanto de uma neurose como de uma 
perversão. 
Contudo, se essa fantasia subsiste à parte do restante do conteúdo da neurose  e 
Freud baseia-se aqui em relatos de mulheres  não ocupando lugar legítimo dentro de 
sua estrutura, na perversão  onde Freud ancora-se em relatos de homens  ela 
funciona como um indisfarçável suporte para práticas sexuais masoquistas. Note-se 
que, nos relatos, as meninas se colocam nas cenas fantasiadas como espectadoras e os 
meninos participam delas como protagonistas. 
Todavia, para além das versões lembradas e relatadas pelo sujeito, seja ele homem 
ou mulher, Freud constrói a fantasia que havia sofrido recalcamento e jamais era 
lembrada. A criança, ela própria, está sendo espancada, sempre pelo pai, e obtém disso 
prazer masoquista. 
Semelhante construção abre uma perspectiva inteiramente nova e Freud, que até 
então não levava em conta uma defesa na perversão, passa agora a concebê-la como um 
produto do recalcamento do complexo de Édipo. A fórmula “a neurose é o negativo da 
perversão” não poderá mais ser sustentada pelo marco diferencial do recalcamento. 
Neurose e perversão serão definidas como sendo, ambas, cicatrizes narcisistas do 
complexo de Édipo e passarão a ser distinguidas muito mais pelo seu modo de retorno 
do que pela sua base inicial. 
Tomando as práticas perversas e os sintomas neuróticos como seqüelas do 
complexo de Édipo, Freud equipara a fantasia de espancamento, bem como outras 
fixações perversas análogas, ao célebre sentimento de inferioridade dos neuróticos. 
Acrescenta ainda que tais seqüelas de inferioridade são perfeitamente conciliáveis com 
uma supervalorização de si mesmo. Nessa medida, tanto um sintoma neurótico quanto 
um fetiche poderão ser concebidos como formações de compromisso , monumentos 
 
 
84
que, ao mesmo tempo, evocam a perda mas, também, o triunfo sobre ela. Representam 
a marca da castração, bem como a sua tentativa de recomposição. São, ambos, 
estratégias de defesa diante da castração. 
Tal paralelismo poderia sugerir um apagamento da distinção entre as duas 
estruturas. No entanto, se na neurose o sintoma é o altar da penitência e do desprazer, o 
fetiche é, na perversão, o tabernáculo do prazer. 
Ademais, no ponto em que seríamos conduzidos a considerar o recalcamento como 
a defesa de base  tanto para a neurose quanto para a perversão  é nesse exato 
ponto que deveremos retomar a ambigüidade mesma do conceito de recalcamento. Isto 
porque, quando no “Projeto de psicologia”, Freud se refere ao recalcamento como 
defesa primária, destaca não apenas a repulsa pela imagem mnêmica do objeto hostil 
mas, também, a emergência de outro objeto em lugar daquele que foi repelido. Assim, 
na base da defesa primária já estariam presentes tanto o recalcamento  marcado pela 
aversão ao objeto hostil  quanto o desmentido  indicado pela emergência de outro 
objeto em lugar do repulsivo. Pensamos estar aí, sutilmente antecipada, a concepção de 
desmentido, explicitada muitos anos depois. 
Freud, que durante muito tempo tomou o recalcamento como paradigma da defesa, 
irá dar ênfase, a partir de 1908, a esse outro tipo de defesa, o desmentido, recurso que 
consiste em colocar algo no lugar daquilo que é repulsivo para o eu. Assim, o menino, 
quando confrontado com a visão do genital feminino, desmente a percepção da falta de 
pênis na mulher. Dizendo que “ela o tem, mas é ainda pequeno e vai crescer”, insere, 
através desse argumento, algo no lugar da falta inadmissível. É nessa medida que dota a 
mulher de um pênis e, com isso, faz valer a primazia do falo, na qual só tem papel um 
genital, o masculino. 
Esse argumento, entretanto, não pode ser mantido sem um apoio, pois pretender que 
“ele cresça” implica num tempo de espera e, portanto, de angústia. O menino, não tendo 
a ousadia de afirmar que viu efetivamente um pênis na mulher, precisa sustentar seu 
desmentido, recorrendo a outra coisa  o fetiche  à qual possa conferir o papel do 
pênis do qual não pode ser privado. 
 
 
85
Sendo o fetiche, enquanto recurso perverso, o sustentáculo do desmentido, como 
conciliar esta nova concepção àquela segundo a qual a perversão é uma cicatriz do 
recalcamento? 
Ora, Freud afirma, em “Fetichismo”230, que o menino conserva, mas também 
abandona a sua crença no falo da mulher. Isso poderia induzir-nos a pensar que, no 
tocante à manutenção da crença no falo feminino estaria em jogo o desmentido e, no 
que tange ao seu abandono, o recalcamento. No entanto, parece-nos que a questão não 
pode ser situada nessa perspectiva. 
Necessário será retomar a passagem onde Freud  ao referir-se à defesa à qual 
recorre o menino quando percebe a falta de pênis na mulher  não encontra a palavra 
certa ( o menino escotomiza... recalca ... desmente? ) Decide então usar seu velho e caro 
termo recalcamento para descrever o processo. Entretanto,  e aí encontra-se a 
ambigüidade intrigante  embute no “velho termo” o desmentido, ao dizer que no 
processo em questão deve-se distinguir o destino do afeto, para o qual propõe o uso 
estrito do termo recalcamento, do destino da representação, onde desmentido passa a 
ser a designação correta. 
Não deixa de ser surpreendente tamanha exatidão, não obstante Freud, em relação 
ao recalcamento, estar apenas resgatando uma idéia sobre a qual sempre insistiu, a de 
que na essência do recalcamento encontra-se a transformação do afeto, a inversão de 
prazer em desprazer. A surpresa consiste no fato de Freud, ao referir-se aos destinos da 
pulsão, introduzir este novo termo, o desmentido, relacionando-o precisamente ao 
destino da representação. A questão, contudo, deve ser situada em relação à angústia de 
castração  essa sim, causa de genuíno impacto  contra a qual o sujeito terá que se 
defender, seja pela via do afeto ( recalcamento) seja pela da representação (desmentido). 
Diante da cabeça decepada de Medusa  evocação da castração  o neurótico, 
ao petrificar-se de horror, defende-se, encobrindo e garantindo, pelo endurecimento, a 
excitação sexual. Devido ao terror paralisante, a potência pulsional fica degradada e 
rebaixada, há suspensão da energia, impotência e conseqüente desprazer mas,230
 FREUD, S. Fetichismo. op.cit. v.21. p. 149. 
 
 
86
paradoxalmente, a ereção não fica impedida, pois a posse do falo é assegurada pelo 
próprio horror petrificante. E esse é o sentido precípuo que Freud concede à 
impotência, presente em homens que nunca falham na execução do ato sexual  
portanto, têm ereção  mas que não obtêm, de sua realização qualquer prazer sexual; 
pelo contrário, têm desprazer. Assim, não seria essa inversão de afeto, na forma de 
horror petrificante, o que permitiria, a um só tempo, o abandono e a manutenção da 
crença no falo da mulher? 
Quanto ao perverso, esse, diante de Medusa decapitada, mantém sua potência 
pulsional. Porém, à custa de deslocar a excitação sexual do objeto a que almejava para 
aquilo que restou da operação de corte, a cabeça decepada. Nesse sentido, satisfaz-se 
com o resto degradado e estragado do objeto. Não pensamos ser à toa que Freud irá 
marcar que o fetiche é aquilo que se desprende do objeto visado, passando a ser um 
objeto sexual por si mesmo. Através da pena de Goethe, Freud traduz, em “Três 
ensaios”231, o apelo do fetichista: 
“consiga-me um lenço de seu seio 
uma liga para o amor que sinto”. 
Em outras palavras, o fetichista faz apelo a algo do objeto que possa fazer liga para 
um amor que não admite falta, algo que, do objeto, é justamente o que falta ao objeto, o 
falo: “se não for possível o nariz, dê-me o seu brilho”. Trata-se da destinação dada à 
representação e temos aqui, novamente, manutenção e abandono da crença no falo da 
mulher. 
Tudo isso não faria ressonância com o contraste que Freud, em “Três ensaios”, 
estabelece entre a sexualidade dos antigos e a nossa, ao dizer que eles celebravam a 
própria atividade pulsional, enobrecendo-a até mesmo com um objeto inferior, ao passo 
que nós menosprezamos a pulsão, em função das excelências do objeto? Tal contraste 
não poderia ser mais exatamente estabelecido entre perversão  a celebração da 
excelência pulsional  e neurose  a celebração da excelência do objeto? E não 
seria pelo fato da potência pulsional incidir exatamente sobre o mais ínfimo e 
 
231
 FREUD, S. Tres ensayos de teoría sexual. Ibid. op.cit. v.7. p. 140. 
 
 
87
degradado do objeto que se tenderia a tomar a perversão como aquilo que é pouco 
elaborado, primitivo e monstruoso? 
Contudo, mais monstruoso ainda é pensar, com Freud, que justamente nas mais 
horríveis perversões é que se deve admitir a mais vasta contribuição psíquica à 
transmutação da pulsão sexual, sendo que não se deveria negar ao trabalho anímico 
operado na perversão  apesar de seu horripilante resultado  o valor de uma 
idealização da pulsão. De quebra, Freud ainda acrescenta que, provavelmente, em 
nenhuma outra parte a onipotência do amor se manifesta tão fortemente como na 
perversão. 
Todavia, idealização e onipotência do amor  enquanto recursos de amor “pra-
curar-falta”  não são, para Freud, privilégio da perversão. A distância da perversão à 
neurose reside apenas na passagem da pulsão a seu objeto. Se o amor perverso é 
marcado pela idealização da pulsão e pela degradação do objeto, o amor neurótico 
caracteriza-se pela idealização do objeto e pela degradação da pulsão. 
O curioso é Freud dizer, a propósito do apaixonamento, que quando o objeto é 
elevado a ideal sexual há cancelamento dos recalcamentos e restabelecimento de 
perversões. De fato, no estado de gozo apaixonado e de felicidade plena não há lugar 
para qualquer falta no objeto, sendo que este, enquanto satisfação substitutiva, irá 
preencher aquilo que, da plenitude narcísica, foi perdido. Nessa medida, a ilusão 
amorosa, tão característica na neurose, deve pagar seu quinhão à perversão, assim como 
o recalcamento deve retribuir o seu ônus ao desmentido, uma vez que todo objeto de 
amor idealizado é, necessariamente, um objeto desmentido. 
Entretanto, é por demais sabido que o estado de apaixonamento porta, por outro 
lado, a marca da escravidão, da humilhação e, inclusive, do silenciamento de qualquer 
aspiração à satisfação sexual. Nesse caso o objeto, tendo se tornado extremamente 
poderoso, absorve totalmente o eu e o apaixonado será capaz de fazer qualquer coisa 
pelo seu objeto de amor, até mesmo deixar-se pisar e se degradar ao máximo. 
A semelhança com a perversão tornar-se-ia cristalina não fosse pelo fato de que 
render-se ao máximo da degradação é algo que, na perversão, está acorde com o eu 
 
 
88
mas, na neurose  devido ao conflito entre o excessivo respeito do eu por si mesmo e 
as exigências pulsionais  resulta em afronta e sofrimento. 
Assim, na neurose, o eu está dividido pelo conflito entre as aspirações de ideal e as 
exigências pulsionais, divisão marcada pela operação do recalcamento. 
Freud, no entanto, ao se perguntar, em “Neurose e psicose”, sobre se é possível ao 
eu sair vitorioso de seus conflitos sem adoecer, afirma que esse pode fazê-lo desde que 
ele próprio se deforme e se degrade, consentindo com imperfeições na sua própria 
unidade e, mesmo, dividindo-se. Ou seja, desde que ele próprio, servil à pulsão, usurpe 
a sua aspiração de ideal, seja em relação a si, seja em relação ao objeto. A partir dessa 
posição não estaria submetido aos sofrimentos do amor, pois o amar, livre das 
exigências de ideal, seria apreciado como qualquer outra função do eu, constituindo-se 
em mero interesse egoístico. Esta é uma condição da perversão. 
Mas, para além disso, pode-se também constatar que, enquanto na neurose duas 
tendências ou atitudes contrárias tornam-se incompatíveis  motivo pelo qual se 
estabelece o conflito  na perversão as tendências contrapostas subsistem uma junto à 
outra sem qualquer conflito e sem se influenciarem reciprocamente, sendo que é nesse 
registro que Freud situa a divisão do eu na perversão. Isto daria à perversão um aspecto, 
digamos, monstruoso pois, num mesmo sujeito, poderiam conviver, sem se 
influenciarem mutuamente, o mais sublime ao lado do mais nefando, o que para um 
neurótico, convenhamos, seria francamente insuportável. 
Ora, poderíamos ser levados a pensar que a posição perversa seria vantajosa, não 
fosse pelo fato de que o perverso, estando livre das imposições de ideal feitas ao eu e ao 
objeto, encontra-se, entretanto, escravo da exigência pulsional. E isso porque há algo na 
própria natureza da pulsão sexual que é desfavorável à obtenção de satisfação plena, não 
existindo objeto que possa a ela se adequar. O encontro com o objeto será, por isso, 
necessariamente traumático. 
Não pensamos ser sem razão que Freud afirma, em “Fetichismo”232, que o fetiche se 
apropria da última impressão, anterior à estranha e traumática, para se constituir. Sendo 
 
232
 FREUD, S. Fetichismo. Ibid. op.cit. v.21. p.150. 
 
 
89
assim, em nenhum fetichista se acha ausente um alheamento dos reais genitais 
femininos, sendo essa a marca indelével do recalcamento que se efetuou. 
Formularemos, então, que por um lado, na base de um desmentido encontra-se um 
recalcamento  é o caso da perversão  mas, por outro, na base de um recalcamento 
situa-se um desmentido  e que isso valha para a neurose. Portanto, o perverso, que 
tanto insiste no seu desmentido, defende-se, no fundo , de sua aversão ao encontro com 
o real da falta no objeto. Já o neurótico, ao propalar sua aversão, não faz disso senão 
um desmentido para, assim, evitar esse mesmo encontro com o real da falta no objeto. 
Neurose e perversão, enquanto relações entre negativo e positivo, são, 
fundamentalmente, conceitos que, em sua oposição mesma, são gêmeos. E como 
gêmeos idênticos, nascidos do mesmo parto, esforçam-se em se fazer contrastar. Tendo 
se alimentado damesma fonte  o leito pulsional  , são levados ainda a co-operar 
a divisão de suprimento. Afinal, o que seria do trigo se não se pudesse dar um emprego 
ao joio? Dito de outra maneira, que destinação daria o neurótico a seu horror, se não 
existissem as abomináveis práticas perversas e que lugar no mundo teria o perverso, 
caso não despertasse o horror do neurótico? 
Para finalizar, uma última questão: se a monstruosidade perversa consiste 
exatamente no fato de seu mais sublime andar de mãos dadas com o seu mais nefando, 
não residiria a monstruosidade neurótica precisamente no fato de seu mais sublime 
resistir tenazmente a dar as mãos ao seu mais nefando? 
 
 
 
 
 
90
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v.1. 
 
_________________. Carta 52. Ibid. op.cit. v.1. 
 
_________________. Carta 61. Ibid. op.cit. v.1. 
 
_________________. Carta 69. Ibid. op.cit. v.1. 
 
_________________. Carta 75. Ibid. op.cit. v.1. 
 
_________________. Manuscrito K. Ibid. op.cit. v.1. 
 
_________________. Manuscrito L. Ibid. op.cit. v.1. 
 
 
91
 
_________________. Manuscrito N. Ibid. op.cit. v.1. 
 
_________________. Proyecto de psicología. Ibid. op.cit. v.1. 
 
_________________. Un caso de curación por hipnosis. Ibid. op.cit. v.1. 
 
_________________. La etiología de la histeria. Ibid. op.cit. v.3. 
 
_________________. La herencia y la etiología de las neurosis. Ibid. op.cit. v.3. 
 
_________________. La sexualidad en la etiología de las neurosis. ibid. op.cit. v.3. 
 
_________________. Nuevas puntualizaciones sobre las neuropsicosis de defensa. 
Ibid. op.cit. v.3. 
 
_________________. Sobre los recuerdos encubridores. Ibid. op.cit. v.3. 
 
_________________. La interpretación de los sueños. Ibid. op.cit. v.4./ v.5. 
 
_________________. Fragmento de análisis de un caso de histeria. Ibid. op.cit. v.7. 
 
_________________. Mis tesis sobre el papel de la sexualidad en la etíologia de las 
neurosis. Ibid. op.cit. v.7. 
 
_________________. Tres ensayos de teoría sexual. Ibid. op.cit. v.7. 
 
_________________. Carácter y erotismo anal. Ibid. op.cit. v.9. 
 
_________________. El creador literario y el fantaseo. Ibid. op.cit. v.9. 
 
_________________. El delirio y los sueños en la “Gradiva” de W. Jensen. Ibid. 
op.cit. v.9. 
 
_________________. La moral sexual “ cultural” y la nerviosidad moderna. Ibid. 
op.cit. v.9. 
 
_________________. Las fantasías histéricas y su relación con la bisexualidad. Ibid. 
op.cit. v.9. 
 
_________________. Sobre las teorías sexuales infantiles. Ibid. op.cit. v.9. 
 
_________________. A propósito de un caso de neurosis obsesiva. Ibid. op.cit. v.10. 
 
_________________. Análisis de la fobia de un niño de cinco años. Ibid. op.cit. v.10. 
 
_________________. Cinco conferencias sobre psicoanálisis. Ibid. op.cit. v.11. 
 
 
 
92
_________________. El tabú de la virginidad. Ibid. op.cit. v.11. 
 
_________________. Sobre el sentido antitético de las palabras primitivas. Ibid. op.cit. 
v.11. 
 
_________________. Sobre la más generalizada degradación de la vida amorosa. Ibid. 
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_________________. Sobre un tipo particular de elección de objeto en el hombre. 
Ibid. op.cit. v.11. 
 
_________________. Un recuerdo infantil de Leonardo da Vinci. Ibid. op.cit. v.11. 
 
_________________. Formulaciones sobre los dos principios del acaecer psíquico. 
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_________________. Tótem y tabú. Ibid. op.cit. v.13. 
 
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_________________. Lo inconciente. Ibid. op.cit. v.14. 
 
_________________. Pulsiones y destinos de pulsión. Ibid. op.cit. v.14. 
 
_________________. Conferencias de introducción al psicoanálisis. Ibid. op.cit. 
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_________________. Conferencias de introducción al psicoanálisis. Ibid. op.cit. 
v.16. 
 
_________________. De la historia de una neurosis infantil. Ibid. op.cit. v.17. 
 
_________________. Lo ominoso. Ibid. op.cit. v.17. 
 
_________________. “Pegan a un niño”. Contribución al conocimiento de la génesis 
de las perversiones sexuales. Ibid. op.cit. v.17. 
 
_________________. Sobre las trasposiciones de la pulsión, en particular del erotismo 
anal. Ibid. op.cit. v.17. 
 
_________________. La cabeza de Medusa. Ibid. op.cit. v.18. 
 
_________________. Más allá del principio de placer. Ibid. op.cit. v.18. 
 
_________________. Psicología de las masas y análisis del yo. Ibid. op.cit. v.18. 
 
 
 
93
_________________. Sobre la psicogénesis de un caso de homosexualidad femenina. 
Ibid. op.cit. v.18. 
 
_________________. Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre 
los sexos. Ibid. op.cit. v.19. 
 
_________________. El problema económico del masoquismo. Ibid. op.cit. v.19. 
 
_________________. El sepultamiento del complejo de Edipo. Ibid. op.cit. v.19. 
 
_________________. El yo y el ello. Ibid. op.cit. v.19. 
 
_________________. La negación. Ibid. op.cit. v.19. 
 
_________________. La organización genital infantil: (Una interpolación en la teoría 
de la sexualidad). Ibid. op.cit. v. 19. 
 
_________________. Neurosis y psicosis. Ibid. op.cit. v.19. 
 
_________________. Una neurosis demoníaca en el siglo XVII. Ibid. op.cit. v.19. 
 
_________________. Inhibición, síntoma y angustia. Ibid. op.cit. v.20. 
 
_________________. Dostoievski y el parricidio. Ibid. op.cit. v.21. 
 
_________________. El humor. Ibid. op.cit. v.21. 
 
_________________. El malestar en la cultura. Ibid. op.cit. v.21. 
 
_________________. El porvenir de una ilusión. Ibid. op.cit. v.21. 
 
_________________. Fetichismo. Ibid. op.cit. v.21. 
 
_________________. Sobre la sexualidad femenina. Ibid. op.cit. v.21. 
 
_________________. Nuevas conferencias de introducción al psicoanálisis. Ibid. 
op.cit. v.22. 
_________________. Análisis terminable e interminable. Ibid. op.cit. v.23. 
 
_________________. Esquema del psicoanálisis. Ibid. op.cit. v.23. 
 
_________________.La escisión del yo en el proceso defensivo. Ibid. op.cit. v.23. 
 
_________________. Moisés y la religión monoteísta. Ibid. op.cit. v.23. 
 
 
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_________________. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Ibid. op.cit. 
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_________________. A angústia. Seminário inédito. 
 
__________________. D´un Autre à l´autre. Seminário inédito. 
 
__________________. La identificación. Seminário inédito. 
 
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