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Abordagens Alternativas ao Letramento e Desenvolvimento

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Abordagens Alternativas ao Letramento e Desenvolvimento 
Apresentado durante a Teleconferência Unesco Brasil sobre ‘Letramento e 
Diversidade’, outubro de 2003.1 
Brian Street: King’s College, Londres 
 
Os principais relatos sobre os programas de letramento permanecem ainda enraizados 
naquilo que Freire (1972) denunciou como a teoria “bancária” do letramento, um 
discurso de “eficácia” medida freqüentemente através das estatísticas referentes aos 
resultados em termos de qualificações, freqüência, etc., e justificada através de 
correlações com índices de desenvolvimento do tipo saúde, produção agrícola e impulso 
econômico (Abadzi, 1996). Essas abordagens costumavam estar baseadas em suposições 
hoje ultrapassadas sobre a “modernização”, e na idéia simples de que o letramento em si 
mesmo redundaria em desenvolvimento (Street, 1985). Em contraste a essas posições 
mecanicistas e bastante criticadas, vou propor duas perspectivas novas para o letramento 
e para o desenvolvimento, baseadas em expansão das contribuições alternativas 
oferecidas pelos métodos etnográficos, e o que prefiro denominar de modelo ideológico 
do letramento. 
 
Perspectivas Etnográficas sobre o Letramento 
 
Em muitos projetos que focalizaram o letramento, os “especialistas em alfabetização” e 
os planejadores adotaram suposições prévias sobre as necessidades e sobre os anseios dos 
beneficiários. Ao longo dos últimos anos, vários projetos relacionados ao letramento vêm 
questionando essas premissas, enfatizando o fato de que antes de fazer deslanchar 
programas e intervenções em alfabetização é necessário compreender as práticas de 
letramento em que já estejam envolvidos os grupos e as comunidades alvo (Prinsloo e 
Breier, 1996; Yates, 1994; Freebody e Welch, 1993). Como argumenta Yates, 
ao longo dos últimos anos vem-se desenvolvendo uma consciência do valor das 
abordagens qualitativas e etnográficas em relação à pesquisa em educação e de suas 
possíveis contribuições para o planejamento do desenvolvimento. A pesquisa de caráter 
etnográfico pode ser utilizada em todas as etapas do ciclo do projeto, desde a sua 
identificação até a avaliação, e pode auxiliar na complementação de pesquisas estatísticas 
mais positivistas, ao revelar as dimensões culturais e sociais que possam vir a afetar 
positiva ou adversamente a aceitação de um projeto (Yates, 1994). 
 
Pesquisadores com especialização em “etnografia” – ou seja, que empreguem métodos 
associados a trabalho de campo e que sejam sensíveis a formas de descobrir e de observar 
os usos e os significados das práticas do letramento de acordo com os pontos de vista das 
 
1 Partes do presente artigo foram publicadas na Introdução a Street , B ed. 2001 Literacy and Development: 
Ethnographic Perspectives (Letramento e Desenvolvimento: Perspectivas Etnográficas) Routledge: 
Londres. 
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próprias populações locais – já vêm desenvolvendo estudos dessas práticas cotidianas e 
de sua relação com os programas desenhados para alterá-las. Suas conclusões estão hoje 
em dia sendo incluídas desde as primeiras etapas dos projetos (Yates, 1994; Prinsloo e 
Breier, 1996), tornando-se parte do desenho e do desenvolvimento das campanhas. A 
abordagem etnográfica preocupa-se mais em tentar compreender aquilo que realmente 
acontece do que em tratar de provar o sucesso de uma intervenção específica, ou em 
“vender” uma determinada metodologia de ensino ou de gestão. As conclusões da 
abordagem etnográfica poderão levar a diferentes avaliações daquilo que conta como 
fornecimento “eficaz” de letramento, a diferentes exigências quanto a resultados e a 
currículos e a formas pedagógicas distintas, em comparação com muitos programas 
tradicionais (Hill e Parry, 1994; Holland e Street, 1994; Black e Wiliam, 1998). Um 
exemplo atual dessa abordagem é o Projeto de Letramento Comunitário do Nepal (CLPN, 
com recursos do DfID do Reino Unido, de acordo com Street, 2000a), que oferece uma 
estrutura aberta para projetos de letramento e desenvolvimento. Para isso, torna-se 
necessário a participação da resposta de uma parceria com iniciativas locais, que visem a 
elaboração baseada em práticas já existentes de letramento e de comunicação: o objetivo 
não é simplesmente aumentar o número de alunos aprovados em testes de alfabetização, 
mas expandir as práticas comunitárias na área do letramento. Para que o esforço seja bem 
sucedido e sustentável, foi necessária pesquisa prévia de caráter etnográfico dos níveis 
locais de letramento, seguida da negociação de projetos que fossem adequados às 
necessidades locais, para em seguida promover a “expansão” através de uma abordagem 
setorial, em que as organizações locais passassem a disseminar o modelo através de suas 
próprias instituições, em lugar da abordagem mais usual, centralizada e desenvolvida de 
cima para baixo. O CLPN está atualmente no processo de desenvolvimento de 
indicadores qualitativos (Williams, 2000) que possam fugir das medidas fixas e 
prescritivas que costumam dominar os projetos de letramento e desenvolvimento. 
Projetos como o CLPN (e também como o Projeto de Letramento para a População Mais 
Idosa e o Projeto de Letramento em Casa e na Escola da África do Sul ) vêm 
representando evidência prática da aplicação das abordagens etnográficas ao letramento. 
O seu sucesso deverá depender tanto do envolvimento do trabalho prático local e 
cuidadoso quanto da conceitualização criteriosa da estrutura e das idéias em que se 
baseiam. O meu propósito nesta apresentação é tentar assistir na descrição mais precisa 
dessas idéias e conceitos de base. 
 
A abordagem etnográfica do letramento em programas de desenvolvimento deriva-se de 
argumentos teóricos recentes que, como no caso do trabalho de Freire (1972), 
argumentam que o letramento não é pura e simplesmente um conjunto de “habilidades 
técnicas” uniformes a serem transmitidas àqueles que não as possuem – o modelo 
“autônomo” -, mas sim que existem vários tipos de letramento nas comunidades, e que as 
práticas associadas a esse letramento têm base social (Barton 1994; Barton, Hamilton e 
Ivanic, 1999; Heath 1983; Street 1993, 1995). A pesquisa acadêmica que resulta desse 
novo campo de interesse é assim de considerável significado prático, tendo implicações 
para os programas de letramento especificamente e para os que focalizem o 
desenvolvimento, de modo mais geral (Doronilla 1996; Hornberger 1998; Kalman 
1999; King 1994; Prinsloo & Breier, 1996; Robinson-Pant, 1997; Wagner, 1993). Minha 
apresentação será marcada daquele espírito de engajamento entre a teoria e a prática, com 
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preocupações acadêmicas e aplicadas. Gostaria de oferecer a minha própria e pequena 
contribuição para a superação das distâncias, tentando esclarecer aspectos conceituais por 
um lado e ajudar na elaboração de políticas e na construção de programas, por outro. 
Tratarei de discutir as questões em meio a um espírito de busca reflexiva e crítica, com 
menos preocupação de defender abordagens, metodologias e teorias específicas do que de 
estender o pensamento atual, contribuindo dessa forma para a prática informada. De 
acordo com esse espírito, gostaria de iniciar oferecendo-lhes um breve histórico pessoal 
do meu envolvimento na área em questão, e assim deixando claros desde o começo as 
origens e os limites das minhas próprias idéias. Em seguida, examinarei algumas das 
respostas teóricas e metodológicas ao trabalho de desenvolvimento derivado daquilo que 
hoje é chamado de “Novos Estudos em Letramento” (Barton et. al.1999; Gee 1990; Street 
1993;). Alguns dos mais importantes termos nesse novo campo incluem o contraste entre 
os “modelos” de letramento