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AULA 4 ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO ESCOLAR Profª Desiré Luciane Dominschek 2 CONVERSA INICIAL Conforme indicado na temática anterior, é necessário compreendermos o que caracteriza as funções de supervisão e orientação no espaço escolar, para entendermos a dimensão do trabalho do pedagogo. Nesta aula, apresentaremos de forma específica o trabalho do pedagogo nas funções de orientação escolar e também a dimensão histórica de seu trabalho, considerando-o um profissional que necessita estar em formação contínua. CONTEXTUALIZANDO A função orientadora, exercida pelo pedagogo escolar, tem como ponto de partida a relação professor/aluno, no âmbito da escola e na apropriação dos conteúdos. Nesta perspectiva, várias ações podem ser desenvolvidas pelo pedagogo, relacionadas à aprendizagem escolar. Nesta aula, o foco será voltado para as dimensões do trabalho do pedagogo a partir da orientação escolar, de modo a discutir essa função do pedagogo, como fizemos no debate da função supervisora. Traremos perspectiva do trabalho do pedagogo e da função orientadora a partir da formação continuada, do planejamento escolar, da avaliação e da gestão democrática. Reitera-se que as especificidades do trabalho pedagógico, em relação aos processos de ensino ou de aprendizagem, devem ser compreendidas de forma integrada, ou seja, as funções orientadora e supervisora devem estar alinhadas na condução do PPP de uma escola. TEMA 1 – A FUNÇÃO ORIENTADORA NO TRABALHO DO PEDAGOGO E NO ESPAÇO ESCOLAR É tarefa do pedagogo escolar, em sua ação orientadora, identificar dificuldades no processo de ensino-aprendizagem. Ele busca, junto com os professores, formas de superação das dificuldades em relação ao processo ensino-aprendizagem. A realização de um diagnóstico sobre as dificuldades no processo de ensino-aprendizagem pode ser entendida como uma investigação a respeito dos aspectos relevantes desses processos educativos no interior da escola. Cabe ao orientador educacional assessorar o professor na relação teórica/prática/realidade. É preciso criar estratégias para investigação da realidade individual dos alunos e a história dessa comunidade. 3 Redimensionar os espaços de reuniões pedagógicas como forma de análise crítica dessa realidade diagnosticada, aprofundamento teórico e busca da superação dessa realidade, significa comprometer-se e comprometer os professores a uma ação político-pedagógica efetiva voltada às classes populares. (Escott, 1996, p. 66) Nesta direção, percebe-se que a formação continuada, no interior da escola, está ligada a diagnósticos e elementos que interferem no processo ensino- aprendizagem. Tais diagnósticos podem viabilizar o redimensionamento da prática pedagógica e ressaltá-la em proposições metodológicas diferenciadas, que busquem a superação das dificuldades enfrentadas no ambiente escolar. Pertinente destacar ainda a necessidade de o pedagogo manter-se atualizado em relação aos avanços científicos, principalmente no que diz respeito às teorias do desenvolvimento humano e da aprendizagem. Ainda é válido ressaltar que, na especificidade da formação continuada dos professores, o pedagogo, em sua ação orientadora, pode ter um papel importante na reflexão sobre a identidade profissional do docente. As discussões e os estudos realizados no interior da escola sob o direcionamento do pedagogo podem contribuir para a construção da autonomia do professor. De acordo com Soares (2008), alguns autores defendem a ideia de que, na medida em que ocorre o desenvolvimento profissional do professor, haveria a possibilidade de constituir sua identidade docente. Assim, as formas de ser, de sentir, de “estar professor”, (Nòvoa, 1997), e os significados atribuídos à docência e ao trabalho na escola, seriam parte da identidade profissional construída pelo professor no desenvolvimento de seu trabalho. A identidade docente seria resultado de variadas práticas culturais e discursivas, uma identidade construída historicamente em relações interculturais. Portanto, os professores constituem uma coletividade de trabalhadores que possuem uma identidade: formação específica, reconhecimento pessoal, uma categoria profissional. (Almeida; Soares, 2010, p.87) As reuniões pedagógicas e os momentos de hora-atividade podem ser espaços importantes para que o pedagogo acompanhe o trabalho dos professores e o seu envolvimento nas discussões e definições que são tomadas. 4 TEMA 2 – A ATIVIDADE DO PEDAGOGO E O PLANEJAMENTO ESCOLAR NA FUNÇÃO ORIENTADORA Com relação ao papel do pedagogo em sua ação orientadora, no que se refere à seleção/organização dos conteúdos escolares, Pimenta (1995, p. 161) nos orienta que Verificar se os conteúdos ensinados levam em consideração a experiência dos alunos e o grau de conhecimentos que já possuem. Se isto ocorre, verificar de que maneira a experiência do aluno é incorpora danos novos conteúdos propostos e se tem avançado para além dela. Se isto não ocorre, quais as consequências que se pode observar. Como se dá esta incorporação (ou não) nas diferentes disciplinas. Levar em consideração as experiências do aluno é considerar o seu conhecimento, de modo a garantir na escola uma perspectiva transformadora. Conforme ressalta Duarte (2001, p. 10), Assim, contra uma educação centrada na cultura presente no cotidiano imediato dos alunos que constitui, na maioria dos casos, resultados da alienante cultura de massas, devemos lutar por uma educação que amplie os horizontes culturais desses alunos; contra uma educação voltada para a satisfação das necessidades imediatas e pragmáticas impostas pelo cotidiano alienado dos alunos, devemos lutar por uma educação que produza nesses alunos necessidades de nível superior, necessidades que apontem para o efetivo desenvolvimento da individualidade como um todo ;contra uma educação apoiada em concepções do conhecimento humano como algo particularizado, fragmentado, subjetivo, relativo e parcial que, no limite, negam a possibilidade de um conhecimento objetivo e eliminam de seu vocabulário a palavra “verdade”, devemos lutar por uma educação que transmita aqueles conhecimentos que, tendo sido produzidos por seres humanos concretos em momentos históricos específicos, alcançaram validade universal, e, dessa forma, tornaram-se mediadores indispensáveis na compreensão da realidade social e natural o mais objetivamente que for possível no estágio histórico no qual se encontra atualmente o gênero humano. Sem esse nível de compreensão da realidade social e natural, é impossível o desenvolvimento de ações coletivas conscientemente dirigidas para a meta de superação da sociedade capitalista. A escola deve garantir ao aluno o seu aprendizado, a partir de conhecimentos historicamente construídos. Os encaminhamentos metodológicos são os meios pelos quais se possibilita o acesso aos conhecimentos escolares; a prática pedagógica assim exige que sejam escolhidas as formas mais adequadas para a apropriação de determinados conteúdos. O pedagogo, em parceria com a direção da escola, é o responsável por proporcionar espaços nos quais seja possível discutir o plano de escola, envolvendo professores, funcionários, pais e alunos. Na atuação do pedagogo, em conjunto com o professor no processo de 5 planejamento escolar, a ação orientadora se dá quando analisamos o processo de aprendizagem dos alunos. Portanto, o pedagogo precisa conhecer os avanços científicos no campo das teorias da aprendizagem, para a partir delas compreender o aluno concreto no campo escolar. Segundo Almeida e Soares (2010), é na relação entre teórica prática que o pedagogo e o professorpodem fazer escolhas metodológicas mais adequadas para propiciar a aprendizagem do aluno. TEMA 3 – O TRABALHO DO PEDAGOGO E A FUNÇÃO ORIENTADORA: A AVALIAÇÃO ESCOLAR No processo de avaliação escolar, o pedagogo necessita considerar o espaço real da escola entre o professor e o aluno. Afinal, é na qualidade dessa relação e no aprimoramento das condições efetivas de trabalho que é possível favorecer ou não o processo de ensino-aprendizagem. No que diz respeito à avaliação, o pedagogo deve discutir com os professores a sua forma e o seu conteúdo, os instrumentos e os critérios para realizá-la: Historicamente, no que diz respeito à avaliação da aprendizagem, a ação orientadora do pedagogo sempre esteve relacionada a algumas tarefas, entre elas: a elaboração de gráficos de rendimento e frequência escolar que poderiam servir de subsídios para os alunos e professores; a participação nos conselhos de classe procurando compreender e discutir com os professores os aspectos subjetivos da aprendizagem e trazendo informações sobre o aluno que possibilitassem entender suas ações e reações. Essas tarefas ainda hoje são necessárias no sentido de organizar dados e informações a respeito da aprendizagem dos alunos. (Almeida; Soares, 2010, p.90) Porém, mais do que elaborar gráficos e traçar quadros de rendimento escolar, o pedagogo deve se voltar para a aprendizagem e a avaliação significativa do aluno (Both, 2005) – a aprendizagem ocorre de forma mais significativa quanto maior for a interação de ações entre o ato de ensinar e o de avaliar. Para o autor, avaliar a aprendizagem do aluno significa, concomitantemente, avaliar o ensino oferecido (Both, 2005, p. 55): Não havendo a aprendizagem esperada, o ensino não cumpriu sua finalidade de fazer aprender. Não se avalia o aluno para saber se ele "aprendeu" a informação que lhe foi repassada pelo professor e, sim, para saber se ele, além dos conhecimentos construídos a partir das informações transmitidas pelo professor ou buscadas por ele próprio, adquiriu as competências habilidades essenciais para sua participação efetiva na sociedade, que deveriam ser desenvolvidas pela escola, diante de sua responsabilidade de formar integralmente os alunos, para que eles possam viver o hoje e se preparem para Avaliar em atitude 6 processual não requer o emprego de (muitos) instrumentos, no entanto eles não ficam banidos na avaliação-ensino. A avaliação ocorre ao longo de todo o processo de ensino-aprendizagem, sendo sujeitos seus professor e aluno, enquanto os conteúdos constituem o seu objeto. A avaliação estabelece muitas vezes relação complexa entre avaliador e avaliado, revelando-se questão subjetiva. Sim, mesmo que se baseando em parâmetros específicos, a subjetividade na avaliação permanece, e como tal deve ser levada em consideração. Gostos, maneiras diferentes de ser, de comportar-se, de sentir e de perceber variam de pessoa para pessoa. Por exemplo, no parâmetro degustação, um vinho branco seco pode cair no gosto do aluno, mas não necessariamente no do avaliador e vice-versa, carregando o fator avaliação forte teor subjetivo. Em qualquer dos níveis escolares, representa o processo avaliativo uma das questões de grande dificuldade, sendo utilizado mais como instrumento do que como processo ou agente inserido no ensino, como que por osmose. Both (2005) defende que compreender a avaliação como forma de ensino não anula a utilização de dados quantitativos; contudo os dados devem servir de apoio e instrumento auxiliar do ensino/aprendizagem. A avaliação dever ser concebida como um processo a serviço da formação, uma maneira de favorecer a aprendizagem. Segundo Both (2011), avaliar o processo de aprendizagem do aluno significa avaliar o ensino oferecido. As informações contidas na avaliação podem oferecer elementos a partir dos quais será possível modificar a forma de conduzir as aulas, avaliar o planejamento, conhecer as dificuldades e as preferências dos alunos, identificar os conteúdos que deverão ser retomados e refletir sobre os métodos de ensino, detectando o que não foi apreendido. Na mediação desses processos, o papel do pedagogo é fundamental. É necessário identificar no que consiste o ato de avaliar: trata-se da coleta, análise e síntese dos dados do objeto que está sendo avaliado, atribuindo valor ou qualidade para que haja uma comparação daquilo que foi previamente estabelecido como significado e resposta. Luckesi (2002, p. 33) entende: avaliação pode ser caracterizada como uma forma de ajuizamento da qualidade do objeto avaliado, fator que implica uma tomada de posição a respeito do mesmo, para aceitá-lo ou para transformá-lo. A avaliação é um julgamento de valor sobre manifestações relevantes da realidade, tendo em vista uma tomada de decisão. Não importa qual é o padrão ou a norma em que se baseia o sistema educacional, pois a necessidade de avaliar sempre se fará presente. Não há como fugir dela, e assim devemos torná-la eficaz naquilo em que se propõe: a melhoria do processo de ensino e aprendizagem. Luckesi (2002) ressalta que a prática escolar usualmente denominada avaliação da aprendizagem pouco tem a ver com 7 avaliação. Ela se fundamenta muito mais em provas e exames do que em avaliação efetiva. Essa prática é antiga na sociedade burguesa. Sua origem remonta à escola moderna (séculos XVI e XVII). Ainda hoje essa prática é bastante utilizada, tendo sido herdeira da referida época, quando se pregava a marginalização e a exclusão da maioria das pessoas da sociedade. Segundo Luckesi (2002), no século XXI o conceito de avaliação foi amplamente utilizado, ainda que, na prática, a aplicação de instrumentos de avaliação tem se resumido à aplicação de provas e exames. Afinal, elas são mais fáceis de executar, e já existe o costume de aplicá-las, havendo ainda resistência para mudanças. Na atualidade, a avaliação tem aparecido com destaque nos mais diversos âmbitos, sobretudo nas políticas educacionais, com vistas a assegurar um padrão de qualidade, considerando as exigências do mundo globalizado. Ela tem um caráter sistematizado, valendo-se de pressupostos que variam quanto ao grau de complexidade. Diante disso, vários estudiosos buscam analisar os mecanismos e as especificidades que envolvem a avaliação, organizando o conceito de acordo com os objetivos e as especificidades da avaliação. Para Vasconcelos (1995, p. 43): A avaliação deve ser um processo abrangente de existência humana, que implica uma reflexão crítica sobre a prática no sentido de captar seus avanços e possibilitar uma tomada de decisões, acompanhando a pessoa em seu processo de crescimento. É necessário enfatizar que os professores devem adotar diferentes instrumentos avaliativos, para que possam dar oportunidades a todos, com clareza do que precisa ser aperfeiçoado. Assim, obtemos mais e melhores dados para organizar o trabalho, ressaltando que a orientação dessa atividade junto ao corpo docente é atribuição do pedagogo. Para avaliar o rendimento apresentado pelo seu aluno, o professor precisa utilizar diversos instrumentos e técnicas porque, quanto maior for a amostragem, melhor será a avaliação da aprendizagem. A avaliação fornece elementos para que o aluno reflita sobre seu processo de aprendizagem, suas conquistas, dificuldades e possibilidades, o que facilitará a reorganização (trazendo, portanto, mais clareza) quanto ao que o professor espera com determinado instrumento de avaliação. O processo de avaliação da aprendizagem escolar, segundo Luckesi (2005), se faz presente ao longo de toda vida do ser humano, e assim devemos estar cada vez mais comprometidos e preocupados com esse fenômeno.8 A avaliação pode fornecer ao professor subsídios para uma reflexão constante de sua prática, bem como favorecer a utilização de novos instrumentos de trabalho. Para a escola, possibilita a definição de prioridades e dos aspectos das ações educacionais que demandam maior apoio. Segundo Libâneo (1994), a avaliação é uma tarefa necessária e permanente do professor, pois deve acompanhar o processo de ensino e aprendizagem. Por meio dos resultados obtidos, o professor e os alunos são comparados com os objetivos propostos, a fim de constatar progressos e dificuldades e orientar para as correções necessárias. As avaliações devem ocorrer em várias situações, que envolvem não só os instrumentos, como também o ambiente e os recursos. De maneira alguma a avaliação deve ficar restrita a provas escritas; ela deve ser contínua, ou seja, fazer parte do processo de ensino e aprendizagem como um todo. Segundo Luckesi (2005), o objetivo do ato de avaliar é conseguir diagnosticar, pela experiência, um resultado mais satisfatório, propondo encaminhamentos e elementos para a aprendizagem, favorecendo decisões com vistas a resultados mais satisfatórios. Em suas observações, chama atenção para a diferença entre avaliação e exames. Há três características básicas entre todos os exames: pontual, que destaca os vestibulares (o que está acontecendo naquele momento); classificatório, considerando notas, histórico, médias; e seletivo, que deixa de fora a população escolar (média de aproveitamento). Por outro lado, a avaliação tem como característica: não ser pontual (leva em consideração o que o aluno ainda não sabe); ser dinâmica (diagnostica a possibilidade de melhoria); e includente (você não sabe, mas eu te ajudarei a compreender). Podemos observar que a avaliação cumpre tanto melhor a sua função no processo de ensino e da aprendizagem na medida que é aceita de forma pacífica como elemento positivo no surgimento da autoestima e como aliado do ser humano em seu esforço de competência, capacidade, habilidade e de convivência social. Avaliar é muito mais que identificar erros e acertos do aluno, mas apoiar intensamente o ser humano em suas dificuldades de aprendizagem. A avaliação deve permear todo o processo de ensino aprendizagem; se for entendida em todas as suas dimensões (aluno, professor, escola), possibilitará ajustes que contribuirão para que a tarefa educativa tenha êxito. 9 A avaliação, enquanto processo contínuo, em função da aprendizagem, também é uma percepção de cada aluno: quanto mais informações sobre o aluno, mais poderei ajudá-lo em seu desenvolvimento cognitivo. A avaliação deve também ser considerada como instrumento que subsidiará tanto o aluno, no seu desenvolvimento cognitivo, quanto o professor na reflexão de sua prática pedagógica. Portanto, avaliar é muito mais do que identificar os erros ou acertos dos alunos durante o processo de aprendizagem: daí a importância primordial do pedagogo em sua função orientadora. A avaliação consiste em apoiar o ser humano em todas as suas dificuldades, sejam elas de qualquer natureza, procedência ou causa, para que o aluno seja capaz de identificar as saídas mais honrosas pelo seu esforço. Se, para avaliar, é preciso responsabilidade e bom senso, concluímos que o processo deve ser conduzido em prol do desenvolvimento comportamental, colaborativamente, em ritmo discente – um justo diagnóstico da realidade, que auxilia em decisões e soluções, pois não serve só para comparar desempenhos. Ele deve apontar potencialidades, contribuir e facilitar a interrelação, o diálogo do aluno com o conhecimento. A avaliação conduz pelos caminhos que levam à aprendizagem, sendo vista como a voz da consciência, investigativa, em busca da qualidade, identificando falhas, colhendo informações sobre o aprendido e sobre o rendimento escolar. Portanto, não pode ser instrumento punitivo, em função de aprovar ou reprovar; deve estimular o avaliador e o avaliado para melhorias em um processo simultâneo. A práxis avaliativa e docente deve ser reflexiva, estabelecendo critérios: não é só tarefa didática, é mais do que a seleção de instrumentos, pois ela retoma resultados adequados, precisando para tanto ser clara e objetiva. TEMA 4 – O TRABALHO DO PEDAGOGO E A FUNÇÃO ORIENTADORA: O CONSELHO DE CLASSE Nesta direção, o conselho de classe deve ser participativo, como uma de suas instâncias avaliativas. A ação orientadora do pedagogo não deve se limitar à elaboração de uma lista de alunos com dificuldades de aprendizagem e/ou com problemas comportamentais. O pedagogo deve agir no sentido de organizar as possibilidades de participação dos alunos e dos pais no conselho de classe. 10 Na organização escolar atual, o pedagogo passou a ser o organizador dos processos educativo, superando a dicotomização entre atender crianças (orientador educacional) ou atender professores (supervisor escolar). É ele quem, de maneira, bem flexível, vai dando conta desse processo, articulando as relações humanas dentro da escola. (Urbanetz; Silva, 2008, p. 55) Na dimensão da gestão escolar, é pertinente enfatizar que o conselho de escola é um espaço privilegiado para a ação orientadora do pedagogo. Vasconcellos (2007) indica que cabe a esse profissional incentivar os diferentes segmentos que compõem o conselho de escola a explicitar suas percepções do cotidiano da instituição, confrontando diferentes pontos de vista para, a partir deles, possibilitar a definição de um encaminhamento comum para a organização do trabalho pedagógico: É parte do trabalho do pedagogo incentivar e subsidiar a participação dos integrantes do conselho de escola, bem como discutir com eles sobre o atendimento de representatividade numa perspectiva democrática: é preciso incentivar a participação, bem como manter um vínculo mais orgânico entre representante e representados, pois alguns membros, depois de eleitos, passam a falar por si, sem ter o cuidado de dialogar com seus pares. (Vasconcellos, 2007, p. 84) O papel do pedagogo, na função de orientador escolar, ainda está relacionado a outras atividades afora as descritas. Todas as suas funções se relacionam com o papel do aluno dentro da escola. Almeida e Soares (2010) destacam algumas ações específicas: a) organização da representatividade estudantil; b) processo de inclusão dos alunos com deficiência e necessidades educativas especiais; c) orientação de estudos; d) avaliação e encaminhamento de alunos com dificuldades especiais de aprendizagem para atendimento especializado e serviços de apoio pedagógico; e) definição de critérios para a composição das turmas e para a escolha dos professores de cada uma delas; f) discussão e encaminhamento de questões disciplinares. Estas ações colaboram com uma escola democrática e de transformação social. A representatividade estudantil, dentre todas essas ações, merece destaque, pois a ação do pedagogo de orientar e possibilitar a organização dos alunos para a participação na vida escolar apresenta a possibilidade de discussão da proposta de conteúdos à elaboração do projeto político-pedagógico, além da 11 elaboração das normas de trabalho em sala de aula e das normas de convivência da escola. Consideramos também nesse escopo a prática didática cotidiana nas decisões do Conselho da escola. Assim, colaborando com a representação estudantil, o pedagogo pode ajudar os alunos a visualizem possibilidades para expressar suas opiniões, seus posicionamentos, suas defesas e suas críticas em relação à organização escolar e pedagógica. TEMA 5 – A FUNÇÃO ORIENTADORA NO TRABALHO DO PEDAGOGOE A REALIDADE ESCOLAR: A RELAÇÃO PROFESSOR/ALUNO O trabalho do pedagogo como orientador educacional toma um rumo diferente do trabalho do supervisor. O orientador educacional era aquele que se ocupava de desenvolver o atendimento aos alunos que apresentavam dificuldades de aprendizagem, de relacionamentos e de socialização, ou seja, era o profissional que se dedicava ao aluno. Na compreensão de Almeida e Soares (2010, p. 30-31) “é possível afirmar que, nesse período, as ações do orientador educacional tinham por base os princípios de uma teoria escolanovista de educação, na qual o aluno é o centro do processo de ensino-aprendizagem, devendo ser respeitado sua individualidade e seu ritmo próprio de aprender”. O orientador educacional também foi compreendido, nesse período, como um especialista em relações interpessoais, ou seja, como o profissional responsável pelo trabalho de provocar mudanças nas atitudes de professores e alunos, visando efetivar o projeto educacional de desenvolvimento integral destes últimos (Almeida; Soares, 2010, p. 30-31). Nesta contextualização do trabalho do pedagogo, é possível perceber a fragmentação do trabalho em habilitações, conforme já retratamos nas aulas anteriores. Nesse quadro, é possível apreender as funções exercidas pelo supervisor escolar e orientador escolar. As características, de certo modo, dependem da tomada de decisões, do controle, da verificação e do atendimento aos alunos com dificuldades. Nas concepções tradicionais, caracterizadas como liberais, a Orientação Educacional tinha o papel de ajustar o aluno à escola, à família e à sociedade, levando em consideração um modelo de homem, de sociedade, de escola e até de Orientação. Na pedagogia tradicional o orientador tinha a responsabilidade de aplicar testes e instrumentos de medida. Já na pedagogia renovada o orientador tinha o papel de consultor, identificando as mudanças no desenvolvimento do aluno através de atividades de estimulo. Nas concepções progressistas, a orientação trabalha com a realidade social do aluno, diante as contradições e conflitos, fazendo a mediação entre indivíduo e 12 sociedade. O indivíduo é construído no processo histórico e social da vida humana. (Freitas; Oliveira, 2009, p. 2) Para Freitas e Oliveira (2009), na atualidade é necessário que o orientador educacional tenha uma boa formação política-pedagógica, psicológica e cultural, pois o sujeito/aluno não é sempre o mesmo, de modo que é preciso considerar o contexto de cada tempo. Os autores apontam os seguintes questionamentos: Quem é o sujeito/aluno, hoje? Como ele se forma? O que é preciso para se educar para o futuro? São perguntas que o pedagogo, na função orientadora, deve sempre fazer para a adequada atribuição de suas atividades. Conforme a Lei de Diretrizes e Bases, LDB n. 9.394, de 1996, extinguiram- se dos cursos de Pedagogia as habilitações de Orientação e Supervisão Educacional. Ficou concluído que o curso de Pedagogia estava fragmentado dentro do atual contexto educacional. A orientação educacional viu-se segmentada em seu trabalho, principalmente quando se evidenciou o fracasso escolar. Para Grinspun (2001), a orientação educacional, atualmente, caminha na busca da totalidade do aluno, preocupando-se com a ampliação do conhecimento do discente como pessoa, construindo sua personalidade e participando consciente e ativamente de sua própria história de vida, valorizando a realidade de cada aluno. A orientação educacional tinha como foco o atendimento ao aluno- problema, à sua família e aos seus desajustes escolares; atualmente, a perspectiva é dialógica, e sem foco no “aluno-problema”. Conforme destaca Libâneo (2012, p. 420): O que as famílias, a comunidade e os próprios alunos esperam de uma escola? Que características dela fazem diferença no que diz respeito ao nível da qualidade de ensino e a reputação da comunidade? Muito provavelmente os pais desejam que seus filhos aprendam bem, que não aprendam coisas erradas, que os conhecimentos, habilidades, valores tenham serventia para a vida -ou seja, desejam uma escola em que os alunos estejam motivados para estar nas aulas e se envolvam com afinco nas atividades da classe. Para Libâneo (2012), as instituições escolares diferenciam-se entre si pelo nível de ensino-aprendizagem que oferecem aos seus alunos, e este aspecto é mediado diretamente pelo trabalho do pedagogo, supondo que ele entenda que o ponto de partida desse processo é a relação professor/aluno. Se o trabalho do pedagogo é organizar o trabalho pedagógico da escola na função orientadora, é primordial: Concluir que as escolas precisam ser mais organizadas e administradas para melhorar a qualidade da aprendizagem escolar dos alunos. Uma 13 escola bem organizada e gerida é aquela que cria e assegura condições organizacionais, operacionais e pedagógico-didáticas que permitam o bom desempenho dos professores em sala de aula, de modo que todos os seus alunos sejam bem-sucedidos em suas aprendizagens. (Libâneo, 2012, p. 420-421) Neste sentido, a atividade orientadora trabalha em um outro eixo, no horizonte da totalidade do aluno e seu desenvolvimento. Os pedagogos que atuam na função orientadora discutem a perspectiva do olhar discente nos currículos escolares, na seleção de materiais didáticos, nos procedimentos de avaliação e na relação metodológica e didática, alinhando nesses debates os contextos social, político e econômico da comunidade escolar, com vistas a determinar suas práticas. O pedagogo, na função orientadora, necessita estar consciente de sua prática. É preciso que esteja engajado com as novas tendências da educação, para que possa elaborar projetos que promovam a participação do aluno no planejamento das atividades escolares. O aluno aqui é considerado sujeito participante do processo educacional e social. Para Grinspun (2001), quando a escola trabalha as questões sociais, ela está exercendo o seu real papel pedagógico. Todo projeto político dentro de uma escola deve estar em consonância com o avanço da própria sociedade. O trabalho do orientador educacional, nessa dimensão, é contínuo, dinâmico e permanente. Sua atuação na escola contribuirá para a aquisição do conhecimento que deverá ser construído, com os meios necessários para tal atividade. FINALIZANDO Por fim, resgatamos a importância da relação entre teoria e prática no trabalho do pedagogo, especificamente na função orientadora. Importante destacarmos que a articulação da função orientadora na escola perpassa a intencionalidade nos encaminhamentos e na elaboração e execução do Projeto Político Pedagógico, feito em conjunto com os professores e com a comunidade escolar. O trabalho de pedagogo escolar, na função orientadora, relaciona-se com a formação continuada dos professores, com o planejamento escolar, com a avaliação do processo de ensino-aprendizagem e com a gestão da escola. A partir da práxis, o pedagogo faz a mediação entre a organização do trabalho pedagógico no interior da escola. Esta mediação se estabelece em todos os processos educativos: no planejamento, na avaliação, no conselho e na gestão democrática. 14 LEITURA OBRIGATÓRIA Textos de abordagem teórica DUARTE, N. As pedagogias do "aprender a aprender" e algumas ilusões da assim chamada sociedade do conhecimento. Revista Brasileira de Educação, n. 18, set./out./nov./dez. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n18/n18a04>. Acesso em: 22 maio 2018. Textos de abordagem prática MÜLLER, L. de S. A interação professor-aluno no processo educativo. Integração Ensino Pesquisa Extensão, ano VIII, n. 31, nov. 2002. Disponívelem: <https://www.usjt.br/proex/arquivos/produtos_academicos/276_31.pdf>. Acesso em: 22 maio 2018. Saiba mais TV UNESP. Diálogos: relação professor-aluno, 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=nksw4yrVb8Y>. Acesso em: 22 maio 2018. 15 REFERÊNCIAS ALMEIDA, C. M. de; SOARES, K. C. D. Pedagogo escolar: as funções supervisora e orientadora. Curitiba: Ibpex, 2010. ALVES, N.; GARCIA, R. L. O fazer e o pensar dos supervisores e orientadores educacionais. 6. ed. São Paulo: Loyola, 1994. BOTH, I. J. Avaliação planejada, aprendizagem consentida: é ensinando que se avalia, é avaliando que se aprende. 3. ed. ampl. Curitiba: Ibpex, 2011. ________. Ensinar e avaliar são de domínio público: resta saber se ensinar avaliando e avaliar ensinando também o são. Revista Histedbr On-line, Campinas, n.18, p. 54-64, jun. 2005. DALBEN, A. I. L. de F. Conselhos de classe e avaliação: perspectivas na gestão pedagógica da escola. 3. ed. Campinas: Papirus, 2006. DUARTE, N. Educação escolar, teoria do cotidiano e a escola de Vigotski. Campinas: Autores Associados, 1996. FREITAS, A. C. dos S.; OLIVEIRA, H. S. L. A orientação educacional nas escolas atualmente. Goiânia: Centro Científico Conhecer, 2009. GARCIA, R. L. (Org.). Orientação educacional: o trabalho na escola. São Paulo: Loyola, 1990. GRINSPUN, M. P. S. Z. et al. (Org.). A prática dos orientadores educacionais 4. ed. São Paulo: Cortez, 2001. LUCKESI, C. C. Avaliação da aprendizagem... mais uma vez. ABC educativo, n. 46, jun. 2005. ________. Maneiras de avaliar a aprendizagem. Pátio, São Paulo, ano 3, n. 12, p. 7-11, 2000. ________. Avaliação da aprendizagem escolar. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2002. RANGEL, M. (Org.). Supervisão pedagógica: princípios e práticas. Campinas: Papirus, 2001. SAVIANI, D. Educação: do senso comum à consciência filosófica. Campinas: Autores Associados, 1980. 16 URBANETZ, S. T.; SILVA, S. Z. da. Orientação e supervisão escolar: caminhos e perspectivas. Curitiba: Ibpex, 2008.