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Antonio Octávio Cintra - Sistema de Governo no Brasil (2)

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foram-lhe retiradas mui- 
tas prerrogativas. Essa diminuição do poder 
presidencial, negociada num contexto de 
veto militar ao vice-presidente, colou um 
estigma gol pista ao parlamentarismo, do qual 
se valem até hoje seus oponentes. 
O parlamentarismo de 1961, nascido sob 
maus auspícios e numa situação de crise, 
operou mal, sabotado pelo presidente e pe- 
los próprios ministros, não tendo sido difí- 
cil convencer a população a rejeitá-lo, pela 
opinião majoritária a favor da volta dos po- 
deres do presidente, expressa em plebiscito 
realizado, por antecipação, em janeiro de 
1963.
8
 
O Ato Adicional de 1961 instituía um 
parlamentarismo puro, com presidente elei- 
to pelo parlamento, mas com uma fase de 
transição. Só depois de findo o mandato de 
Goulart os presidentes passariam a eleger-se 
indiretamente, pelo Congresso Nacional. 
Incumbir-Ihes-ia nomear o primeiro-minis- 
tro - chamado presidente do Conselho de 
Ministros - e, por indicação deste, os res- 
tantes ministros de Estado. A exoneração dos 
ministros dependeria, no entanto, da retira- 
da de confiança pela Câmara e não de deci- 
são presidencial. Para ter validade, os atos 
do presidente requereriam a referenda do 
presidente do Conselho e dos ministros com- 
petentes. A iniciativa dos projetos de lei do 
governo era do presidente do Conselho, não 
do presidente da República. Não se previam 
decretos-lei ou medidas provisórias. Uma 
seqüência de moções de desconfiança auto- 
rizaria o presidente a dissolver a Câmara dos 
Deputados e a convocar novas eleições. 
7. Emenda Constitucional n. 4 à Constituição de 1946, de 2.9.1961. 
8. Segundo observa Alberto Carlos Almeida, a "questão pública mais relevante durante o período parlamenta- 
rista foi o sistema de governo. Todos os atores políticos se comportaram tendo em vista a antecipação, ou 
não, do referendo que iria abolir o parlamentarismo ( ... ) A posição política das principais lideranças com 
relação ao parlamentarismo foi determinada por suas ambições políticas, por seus cálculos de poder. O 
presidente Goulart desejava a readoção do presidencialismo simplesmente porque queria governar com 
plenos poderes, isto é, não queria dividir as atribuições de Poder Executivo com primeiros-ministros e gabi- 
netes parlamentaristas. Por seu turno, o movimento trabalhista, o CGT e os sindicatos de uma maneira geral, 
acompanhados pela esquerda radical, lutaram pela abolição do parlamentarismo porque consideravam que 
apenas o sistema presidencial de governo asseguraria a implementação das reformas de base. Na realidade, 
o sistema de governo poderia funcionar ou como um obstáculo às reformas, ou como um meio para obtê- 
 Ias. Já os candidatos à eleição presidencial de 1965 ( ............ ) não estavam particularmente preocupados em faci- 
 litar ou dificultar a realização de reformas de base ( ............. ) Um outro apoio importante ao presidencialismo foi 
dado pelos militares ( ... ) Os militares preferiam o presidencialismo ao parlamentarismo também por causa 
de questões de poder: o sistema parlamentar de governo abria caminho para a diminuição do poder militar 
por meio da criação do Ministério da Defesa. Todos os militares ( ... ) sentiam-se ameaçados pelo parlamen- 
tarismo" (ALMEIDA, 1998:168-9). Sobre a experiência parlamentarista, veja-se também Skidmore (1982). 
A oposição militar ao sistema parlamentarista de que fala Almeida é observada também em outros países, 
pelo temor de se perder a unidade de comando (comunicação pessoal de Marcelo Lacombe). 
62 
4. 
 
Com o regime autoritário instalado em 
1964, afastou-se qualquer perspectiva de re- 
considerar o modelo parlamentarista para o 
país, pois o pensamento militar rejeitava a 
idéia de compartilhar poderes com um parla- 
mento, menos ainda numa situação definida 
pelos líderes militares como de "guerra revo- 
lucionária". A classe política a custo era tole- 
rada, pois o estilo parlamentar de agir, com 
negociações e arrastadas deliberações, era 
considerado politiquice. Um regime centrado 
no parlamento e nos políticos era a antítese 
do que os novos governantes defendiam. 
A redemocratização, porém, deu novo 
alento aos parlamentaristas, que se anima- 
ram com a convocação da Assembléia Nacio- 
nal Constituinte. A comissão constituída para 
elaborar o anteprojeto da nova Carta foi pre- 
sidida por Afonso Arinos de Mello Franco, 
parlamentarista de peso." 
No seio da Comissão Arinos - informa- 
nos Lamounier, que dela participou - con- 
frontaram-se defensores de posições diferen- 
tes sobre o sistema de governo, que ele as- 
sim agrupa: os presidencialistas puros, os 
parlamentaristas mitigados.l? os adeptos do 
parlamentarismo dual, no molde francês, 
"contanto que o mecanismo de escolha do 
primeiro-ministro e sua esfera de atuação 
fossem mais claramente parlamentaristas do 
que o previsto na Constituição francesa", 11 
e os parlamentaristas puros. 
Na versão final do anteprojeto, prevale- 
ceu a idéia do parlamentarismo dual.F O 
 
 
presidente da República seria eleito direta- 
mente, por maioria absoluta, para mandato 
de seis anos. Caber-lhe-ia indicar o presidente 
do Conselho de Ministros, "após consulta 
às correntes político-partidárias que com- 
põem a maioria do Congresso Nacional". O 
presidente da República poderia exonerar 
por iniciativa própria o presidente do Con- 
selho (art. 233), que também poderia cair 
por moção de censura ou recusa de confian- 
ça votada pela maioria absoluta da Câmara 
dos Deputados. 
Nesse ponto - o poder do presidente da 
República de exonerar o primeiro-ministro 
-, o anteprojeto da Comissão se afastava do 
semipresidencialismo francês, no qual, ape- 
sar de a indicação do primeiro-ministro ca- 
ber ao presidente, apenas a Assembléia Na- 
cional pode derrubá-lo. Ou seja, na propos- 
ta Arinos, teríamos o gabinete duplamente 
responsável, perante a Câmara, mas também 
perante o presidente da República. Não se 
contemplavam decretos-lei ou medidas pro- 
visórias no processo legislativo. 
A escolha de um sistema parlamenta- 
rista (mesmo mantendo a figura de um 
presidente eleito diretamente e com amplos 
poderes, até mesmo o de exonerar motu 
proprio o primeiro-ministro) teria sido "uma 
das razões por que o presidente Sarney 
engavetou o relatório da Comissão, em vez 
de mandá-Io oficialmente, como subsídio 
para futuros debates, ao Congresso Consti- 
tuinre"." 
9. LAMOUNIER,1991:45-6. 
10. Defensores da presença de um ministro-coordenador ou de um gabinete com forte influência presidencial 
(modelo finlandês), mas sem um primeiro-ministro dependente da confiança parlamentar. 
11. LAMOUNIER,1991:46-7. 
12. Anteprojeto Constitucional, Brasília: Câmara dos Deputados, 1987. 
13. LAMOUNIER, 1991:47 . 
63 
5. 
A opção final da Assembléia Nacional 
Constituinte foi pelo sistema presidencialista. 14 
Os constituintes, porém, aparentemente in- 
seguros quanto a essa decisão, atenuaram- 
na com a estipulação de que haveria um ple- 
biscito, cinco anos depois de promulgada a 
Carta, no qual o eleitorado deveria opinar 
sobre o sistema de governo - presidencial 
ou parlamentar - e sua forma - república ou 
monarquia constitucional. 
Para o plebiscito, os congressistas defen- 
sores do sistema parlamentar cuidaram de 
elaborar detalhada proposta de sua estrutu- 
ra, que orientasse a escolha do eleitorado e 
expressasse um compromisso público quan- 
to ao que seria implantado, caso