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INTRODUÇÃO
Os opiáceos (compostos puros, derivados do ópio) ou opioides (qualquer substância, natural ou sintética, que
produza  efeitos  semelhantes  aos  da  morfina),  além  de  hipnoanalgésicos,  são  também  denominados
analgésicos narcóticos ( do grego narcosis, estado de sonolência, torpor, desligamento), analgésicos fortes
ou morfinossímiles.
O  uso  do  ópio  para  combater  a  dor  data  dos  primórdios  da  civilização.  Assim,  pergaminhos  sumérios
descrevem o  cultivo  da  papoula  e  a  utilização  do  ópio,  já  ao  redor  de  5000  a.C.  Em uma  tumba  egípcia  do
século 15 a.C. foram descobertos resquícios de ópio. Aproximadamente na mesma época, havia plantações de
ópio ao redor de Tebas, justificando que o produto de origem egípcia fosse conhecido como “ópio tebaico” e que
um  alcaloide  descoberto  séculos  mais  tarde  recebesse  o  nome  de  tebaína.  O  papiro  de  Ebers  (1552  a.C.)
descreve uma mistura de substâncias, entre as quais o ópio, que era empregada para promover a sedação de
crianças.  Os  gregos  também  conheciam  esta  substância,  sendo  a  palavra  ópio  (suco)  atribuída  ao  médico
Theopharstus  (século  3  a.C.),  para  referir­se  ao  líquido  leitoso  obtido  das  sementes  maduras  da  papoula
(Papaver somniferum). Romanos e árabes também usavam o ópio em suas medicinas e, apesar do amplo uso
desta  substância  durante  séculos,  foi  somente  em  1806  que  Frederick  Serturner,  um  farmacêutico  alemão,
isolou e descreveu uma substância pura no ópio, que denominou de “morfina” (alusão ao deus grego do sonho
Morfeu).  Seguindo­se  a  esta  descoberta,  outros  alcaloides  do  ópio  foram  isolados;  assim,  Robiquet  (1832)
obteve  a  codeína  e  Merck  (1848),  a  papaverina.  Posteriormente,  outros  compostos  foram  isolados  do  ópio,
sendo atualmente conhecidos cerca de 24 alcaloides, embora apenas a morfina e a codeína tenham amplo uso
na clínica. No final do século 19, o uso de alcaloides puros, em vez do ópio, estava amplamente difundido no
meio médico. Além destes alcaloides naturais, a heroína, quimicamente conhecida como diacetilmorfina, obtida
semissinteticamente pela adição de dois grupos acetil à molécula da morfina, foi também intensamente utilizada
no século passado, sendo especialmente encontrada em preparações de xaropes para a tosse.
Com  a  descoberta  de  que  estes  alcaloides  poderiam  causar  dependência,  estimulou­se  intensamente  a
pesquisa visando à síntese de substâncias tão potentes quanto ou mais que a morfina, sem que produzissem
este  efeito.  Embora,  até  o  momento,  ainda  não  se  tenha  encontrado  um  hipnoanalgésico  ideal,  a  pesquisa
empreendida  levou  à  descoberta  de  alguns medicamentos  que  vêm  sendo  amplamente  utilizados  na  clínica,
como  a  naloxona,  um  antagonista  opioide  puro,  e  também de  alguns  compostos  com  ações mistas,  como  o
butorfanol e a pentazocina.
CLASSIFICAÇÃO DOS OPIOIDES
Os opioides podem ser classificados em cinco grupos conforme descrito a seguir.
  
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Alcaloides do ópio
Podem ser divididos em dois grupos, conforme sua estrutura química:
Derivados fenantrênicos: morfina, codeína (3­metil­morfina é atualmente sintetizada a partir da morfina) e
tebaína
Derivados benzilisoquinolínicos: papaverina e noscapina.
O Quadro 15.1 mostra os principais alcaloides opioides com as porcentagens de ópio e seus principais usos.
QUADRO 15.1 Características dos alcaloides do ópio.
Alcaloides Derivado % presente no ópio Principal uso na clínica
Morfina Fenantrênico 10 Analgésico
Codeína Fenantrênico 0,5 Antitussígeno
Tebaína Fenantrênico 0,2 –
Papaverina Benzilisoquinolínico 1 Relaxante da musculatura lisa arterial
Noscapina Benzilisoquinolínico 6 Estimulante do centro respiratório
Compostos semissintéticos
Hidromorfona
Heroína
Dionina
Dilaudid
Metopon.
Compostos sintéticos
Meperidina (petidina)
Fentanila
Levorfanol
Metadona
Pentazocina
Propoxifeno
Etorfina.
Antagonistas dos narcóticos
Naloxona
Diprenorfina
Nalorfina
Levalorfano.
Compostos de ação mista | Agonista-antagonista
Buprenorfina
Butorfanol
■ Pentazocina.
RECEPTORES OPIOIDES
A  partir  de  estudos  empregando­se  radioligantes  com  atividade  opioide  (peptídios  endógenos,  alcaloides  ou
análogos  sintéticos)  em  locais  específicos  do  sistema  nervoso  central  (SNC)  e  outros  tecidos  (como  sistema
nervoso autônomo, coração, rins, canal deferente, pâncreas, plexo mioentérico no trato gastrintestinal, glândulas
adrenais,  células  adiposas  e  linfócitos),  observou­se  que,  enquanto  alguns  agonistas  provocavam  respostas
típicas em determinadas  regiões,  isto  não ocorria  em outras. Além disso,  estudos  com antagonistas opioides
mostraram que estes eram extremamente eficazes em contrapor certos efeitos dos opioides em alguns tecidos,
sem causar qualquer alteração em outros. Assim, com base nos efeitos da relação agonista/antagonista, tem­se
sugerido que existam diferentes tipos de receptores opioides. No SNC foram identificadas, por meio de técnicas
de biologia molecular (clonagem de receptores) várias categorias de receptores opioides, designados por letras
gregas.  Assim,  tem­se  o  receptor  μ  (mi),  letra  grega  “m”,  referência  ao  receptor  de  morfina;  atualmente  é
denominada de MOP. O receptor κ (kappa), letra grega “k”, referência à substância ketociclazocina, o primeiro
grupo de medicamentos utilizados para definir a funcionalidade do receptor; atualmente denominada de KOP. O
receptor δ (delta), letra grega “d”, relacionada à letra inicial de deferente, porque foi a partir de estudos no canal
deferente  de  camundongos  que  se  definiram  as  funcionalidades  deste  receptor,  e,  atualmente,  recebe  a
denominação de DOP. Cada um destes  três receptores é codificado por um gene  independente. Além destes
três  receptores  clássicos,  foi  reconhecido  um  quarto  receptor.  Assim,  determinou­se  um  quarto  gene
relacionado, que codifica um receptor semelhante ao opioidérgico, o qual foi denominado de NOP, ou também
ORL­1;  este  receptor  interage  com  alguns  peptídios  semelhantes  aos  opioides  e  são  denominados  de
nociceptina ou orfanina­FQ (N/OFQ).O papel potencial deste receptor para o controle da dor ainda está sendo
estudado; desta maneira, estudos iniciais em roedores mostraram que a estimulação do receptor NOP promove
inibição  da  analgesia;  no  entanto,  estudos  posteriores,  em primatas  não  humanos, mostraram que  agonistas
NOP  promovem  analgesia.  Assim  sendo,  claramente  há  diferenças  espécie­específicas  na  “circuitaria”  do
receptor NOP e muito ainda precisa ser estudado para melhor compreender estas diferenças entre as espécies.
De  fato,  apesar  de  haver  diferenças  na  distribuição  anatômica  dos  receptores  opioides  entre  as  espécies
animais,  tem­se  verificado  que  cada  tipo  de  receptor,  quando  estimulado,  produz  efeitos  farmacológicos
específicos.
Alguns opioides atuam com grande eficácia e potência em um determinado tipo de receptor, enquanto em
outros  receptores  com  eficácia  e  potência  muito  menor.  Por  exemplo,  a  morfina  tem  grande  afinidade  por
receptor  MOP;  neste  caso  a  morfina  é  denominada  de  agonista  completo  de  receptor,  no  entanto,  esta
substância tem baixa afinidade por receptores KOP e DOP. Existem também certos opioides que têm atividade
agonista em um receptor e antagonista em outro, como é o caso do butorfanol que é agonista parcial MOP e
antagonista. O Quadro 15.2 mostra a afinidade de algumas substâncias opioides em diferentes receptores.
PEPTÍDIOS OPIOIDES ENDÓGENOS
Desde a descoberta de receptor para a morfina, houve um grande impulso na pesquisa relativa à existência de
uma substância endógena capaz de atuar no organismo animal, pois seria impossívelconceber que receptores
opiáceos  teriam se desenvolvido apenas para combinar­se com os alcaloides da planta do ópio. Assim, após
anos de  intensas pesquisas, Hughes et al.  (1975)  isolaram, a partir  de cérebro do porco, dois pentapeptídios
com potente atividade agonista opioide, que  foram denominados encefalinas. Posteriormente,  foram  isoladas
da hipófise a betaendorfina e a dinorfina. Mais recentemente, foram identificados os neuropeptídios nociceptina
e  orfanina  FQ.  Cada  um  destes  compostos  é  derivado  de  precursor  geneticamente  distinto  e  tem  uma
distribuição  anatômica  característica.  São  denominados  de  pró­encefalina  (ou  pró­encefalina  A),  pró­
opiomelanocortina (POMC), pró­dinorfina (ou pró­encefalina B) e pré­pró­nociceptina.
QUADRO 15.2 Efeitos de alguns opioides nos três receptores opioides clássicos.
Tipo de receptor Principais efeitos Agonistas Antagonistas
MOP Analgesia supraespinal, depressão
respiratória, euforia e dependência
física
Morfina (+++)
Etorfina (+++)
Fentanila (+++)
Meperidina (+++)
Metadona (+++)
Codeína (++)
Buprenorfinaa (+++)
Naloxona (+++)
Naltrexona (+++)
Nalorfina (++)
Pentazocina (+)
KOP Analgesia medular, miose, sedação e
disforia
Morfina (+)
Butorfanol (+++)
Etorfina (+++)
Meperidina (++)
Codeína (+)
Fentanila (+)
Nalorfinaa (++)
Naloxona (++)
Naltreoxona (++)
DOP Analgesia espinal, depressão
respiratória, redução da motilidade
gástrica
Morfina (++)
Pentazocina (+)
Nalorfina (+)
Fentanila (+)
Meperidina (+)
Metadona (+)
Naloxona (+)
Naltreoxona (+)
Afinidade pelo receptor: (+) discreta; (++) moderada; (+++) grande. aAgonista parcial.
O Quadro 15.3 mostra a seletividade de peptídios opioides nos diferentes receptores.
MECANISMO DE AÇÃO
Os opioides atuam na maioria das células nervosas, promovendo hiperpolarização,  inibição da deflagração do
potencial de ação e  inibição pré­sináptica da  liberação de neurotransmissor. Verifica­se, em alguns neurônios,
despolarização, mas provavelmente este efeito seria  indireto, por meio da supressão de uma determinada via
inibitória. A ativação do receptor opioide causa o fechamento de canais de cálcio voltagem­sensíveis, a abertura
dos  canais  de  potássio  e  subsequente  hiperpolarização  celular;  além  disso,  a  inibição  da  atividade  da
adenilciclase, acarretando, consequentemente, na inibição do monofosfato cíclico de adenosina (cAMP).
QUADRO 15.3 Afinidade dos peptídios opioides pelos receptores.
Peptídios Receptor
MOP KOP DOP NOP
  
Betaendorfina +++ +++ +++ –
Encefalina + – +++ –
Dinorfina ++ +++ + –
Nociceptina/orfanina – – – +++
Afinidade pelo receptor: (–) sem atividade; (+) discreta; (++) moderada; (+++) grande.
PRINCIPAIS MEDICAMENTOS OPIOIDES USADOS EM MEDICINA VETERINÁRIA
Morfina
Dentre  os  hipnoanalgésicos,  a  morfina  é  a  droga  padrão,  pois,  embora  inúmeras  medicações  analgésicas
tenham  sido  sintetizadas  nestes  últimos  anos,  até  o momento  nenhuma  delas  provou  ser mais  eficaz  que  a
morfina no alívio da dor. Além disto, a utilização deste opioide é bastante segura, bem tolerada nas diferentes
espécies  animais  e  tem baixo  custo. Devido  à  dificuldade  de  síntese  laboratorial  da morfina,  ainda  hoje  este
medicamento é extraído do ópio. A morfina é encontrada na forma de cloridrato e sulfato.
Vias de administração
A morfina e demais derivados fenantrênicos do ópio produzem melhor efeito quando administrados pelas vias
parenterais.  Prefere­se  a  via  subcutânea  porque  o  efeito  analgésico  ocorre  rapidamente  e  a  curva  de  efeito
máximo  se  mantém  por  um  período  mais  longo.  A  via  intramuscular  (IM)  também  pode  ser  utilizada.  A  via
intravenosa (IV) deverá ser utilizada somente quando houver necessidade de efeito muito rápido, não devendo a
dose ultrapassar a metade daquela utilizada pelas vias SC e  IM. A morfina é  também bem absorvida quando
usada por via oral; no entanto, ocorre biotransformação em sua primeira passagem pelo fígado, reduzindo seu
efeito; por isto, não se recomenda a sua administração, por esta via, em nenhuma espécie animal, a menos que
seja de formulação para liberação controlada (LC). No entanto, no Brasil, devido à dificuldade de aquisição de
morfina LC pelo profissional veterinário, a administração de morfina para animais por esta via não é praticada. A
morfina  pode  ainda  ser  administrada  por  via  extradural  (epidural),  intratecal  (subaracnóidea),  interpleural  ou
intra­articular.
Distribuição, biotransformação e eliminação
Após a absorção, a morfina se distribui pelos diferentes tecidos; em particular atinge SNC, fígado, rins, pulmões
e músculos.
No  sistema  microssomal  hepático,  a  morfina  é  conjugada  com  glicuronídeo,  formando  morfina­3­
glicuronídeio  (75 a 85%) e morfina­6­glicuronídeo  (5 a 10%),  sendo que este último metabólito  tem ação em
receptores  μ,  promovendo  analgesia  e  depressão  respiratória;  portanto,  a  morfina­6­glicuronídeo  tem  papel
importante  na  eficácia  clínica  da  morfina.  É  mínima  a  quantidade  de  morfina  excretada  sem  sofrer
biotransformação.
A maior parte da morfina biotransformada é excretada pela urina  (90%), por  isto, deve­se considerar que
seus  metabólitos  podem  se  acumular  em  pacientes  com  insuficiência  renal.  O  restante  dos  metabólitos  é
eliminado pelas fezes (7 a 10%); sua excreção pelo suor é desprezível.
Efeitos terapêuticos, colaterais e/ou tóxicos
Analgesia
O efeito  farmacológico mais  importante da morfina e dos opioides correlatos é a analgesia que ocorre sem a
perda  da  consciência,  porém,  até  o  momento,  não  se  conhecem  perfeitamente  os  mecanismos  centrais
envolvidos. No ser humano, a dor se manifesta de duas formas: como sensação específica (i. e., a percepção da
dor  é  transmitida  por  caminhos  neurofisiológicos  distintos)  e  como  sofrimento,  no  qual  existe  o  componente
“psicológico”. Este último é muito difícil de ser mensurado em animais; no entanto, sabe­se que a morfina, como
os demais hipnoanalgésicos, é capaz de aumentar o limiar à dor e ainda causar uma indiferença a ela, fazendo
desaparecer o medo, a ansiedade e a apreensão.
A morfina e seus derivados produzem efeitos analgésicos mais evidentes em dores surdas e prolongadas
que nas dores agudas. Além disso, estes compostos  têm efeito específico na dor, sem alterar qualquer outra
sensação como tato, visão e audição.
Um efeito que limita o uso de morfina e grande parte dos opioide é a tolerância aos efeitos analgésicos. Tem
sido  proposto  que  a  tolerância  não  estaria  relacionada  a  um  fenômeno  farmacocinético  e  sim  ao  nível  de
receptores,  de  segundos  mensageiros  e  de  outros  sistemas  de  neurotransmissão.  No  que  se  refere  aos
receptores,  propõe­se  que  a  tolerância  se  deva  à  dessensibilização,  que  pode  ocorrer  devido  a  algumas
alterações adaptativas como a regulação negativa (down­regulation), que se caracteriza pela perda generalizada
de  receptores,  tanto  aqueles  de  superfície,  como  intracelulares.  Outro mecanismo  que  leva  à  tolerância  é  a
internalização, e esta ocorre devido à fosforilação do receptor, que leva uma proteína, a arrestina, a se unir a
este  receptor,  e  assim  incapacitando­o. Uma última  teoria  que  explicaria  a  tolerância  aos  efeitos  analgésicos
devido ao uso prolongado dos opioides é a de que ocorreria o desacoplamento de proteínas G aos receptores,
tornando o receptor impossibilitado de transmitir o sinal.
Sedação e excitação
A depressão do SNC é observada no homem, no macaco e no cão, ao passo que gatos, cavalos, porcos, vacas,
caprinos e ovinos têm maior suscetibilidade ao aparecimento de disforia e hiperexcitabilidade. Doses elevadas
do hipnoanalgésico nestas últimas espécies animais podem causar convulsões.A explicação para esses efeitos
díspares entre as diferentes espécies animais parece estar  relacionada à distribuição dos  receptores opioides
em  certas  regiões  do  cérebro,  independentemente  da  farmacocinética  do  opioide.  Assim,  verifica­se  que  a
distribuição de receptores opioides no cérebro de animais que são sedados pela morfina (p. ex., cães) é maior
que no cérebro de animais que são mais propensos à excitação (p. ex., gatos).
Náuseas e vômito
As náuseas e o vômito ocasionados pela morfina estão relacionados com a estimulação da zona deflagradora
dos quimiorreceptores localizada nas paredes laterais do terceiro ventrículo (área postrema), possivelmente por
meio  da  liberação  de  dopamina.  É  interessante  observar  que  ocorre  grande  variação  ao  efeito  emético  da
morfina  entre  as  diferentes  espécies  animais.  Assim,  suínos  e  aves  domésticas  não  respondem  à  morfina,
enquanto em cães este medicamento produz potente efeito emético; no gato, há necessidade de uma elevada
dose de morfina para produzir o vômito. O vômito ocorre comumente quando a morfina é administrada como
pré­medicação antes da cirurgia e, menos frequentemente, quando administrada ao paciente para o tratamento
da  dor.  É  interessante  ainda  observar  que  pacientes  tratados  prolongadamente  com  morfina  desenvolvem
tolerância,  isto é, passam a não mais apresentar náuseas e vômitos. A apomorfina, um derivado da morfina e
agonista  dopaminérgico  (ver Capítulo  14),  tem  efeito  emético  muito  mais  potente  que  a  morfina,  sendo,  no
entanto, desprovida de efeito analgésico.
Inibição do reflexo da tosse e depressão respiratória
O  reflexo  da  tosse  é  reduzido  ou  abolido  pela  morfina  e  por  opioides  correlatos,  mediante  ação  destes
compostos no centro da tosse. A supressão da tosse não está relacionada com o efeito analgésico nem com a
depressão  respiratória  provocados  pelos  opioides.  De  maneira  geral,  a  substituição  da  hidroxila  do  grupo
fenólico da morfina aumenta a atividade antitussígena em relação à analgésica e a codeína suprime a tosse em
doses subanalgésicas (para detalhes de dose de codeína, ver Capítulo 26). Geralmente, a ação antitussígena
ocorre em doses muito mais baixas que aquelas necessárias para produzir analgesia. O receptor responsável
por esta ação antitussígena não é ainda conhecido, já que o dextrometorfano não se liga a receptores opioides
conhecidos, mas é um potente antitussígeno.
O efeito adverso mais perigoso ao se utilizarem a morfina e seus congêneres é a depressão respiratória, a
qual pode promover a morte do animal. Tal efeito deve­se à ação agonista da morfina nos  receptores MOP,
  
localizados  dentro  de  centros  respiratórios  da  medula,  promovendo  a  diminuição  da  sensibilidade  de
quimiorreceptores ao dióxido de carbono. Da mesma maneira que os vômitos, tem sido verificado que pacientes
humanos que recebem prolongadamente opioides como a morfina, que têm ação predominante em receptores
MOP, desenvolvem tolerância à depressão respiratória.
Miose/midríase
Os efeitos produzidos pela morfina na pupila variam de espécie para espécie. A miose é observada em seres
humanos e na maioria das espécies em que a morfina é sedativa, exceto em macacos, nos quais este opioide
causa midríase; nas espécies em que ocorre excitação, observa­se midríase.
Termorregulação
Há variação do efeito da morfina na  termorregulação, conforme a espécie animal. Assim, em seres humanos,
macacos  e  cães  observa­se  hipotermia,  enquanto  em  bovinos,  ovinos,  caprinos,  equinos  e  gatos  verifica­se
hipertermia.
Efeitos endócrinos
No cão e no homem, a morfina produz, por meio da estimulação do núcleo supraóptico do hipotálamo, aumento
da secreção de hormônio antidiurético (ADH) e, consequentemente, retenção de água pelos rins. Além disso, no
homem,  verifica­se que a morfina e opioides,  de maneira  geral,  inibem a  secreção do hormônio  liberador  de
gonadotrofina  (GnRH)  e,  consequentemente,  haverá  queda  significativa  dos  hormônios  luteinizante  (LH)  e
foliculoestimulante (FSH). Por outro lado, o nível sérico de prolactina é aumentado pela morfina.
Outros efeitos
A morfina  e  derivados  opioides  produzem  constipação  intestinal.  Este  efeito  é  consequência  da  redução  da
motilidade da musculatura lisa intestinal e contração dos esfíncteres. A constipação intestinal é exacerbada pela
redução das secreções biliares, gástrica e pancreática. O efeito constipante dos opioides constitui a base para o
uso destes medicamentos como agentes antidiarreicos (para maiores informações, ver Capítulo 32).
A  bradicardia  e  a  vasodilatação  são  um  dos  efeitos mais  comuns  em  animais  que  receberam morfina  e
derivados opioides. Esta bradicardia normalmente não representa perigo à vida. Devido ao fato de a bradicardia
produzida  pelos  opioides  ser mediada  pelo  sistema  colinérgico,  o  uso  de medicamentos  anticolinérgicos,  tais
como a atropina ou o glicopirrolato, reverterá este efeito.
A morfina pode  liberar histamina,  por ação não  relacionada com os  receptores opioides,  e  isto permite o
aparecimento  de  efeitos  locais  como  urticária  e  prurido  no  local  da  injeção;  pode  também  causar  efeitos
sistêmicos como broncoconstrição e hipotensão.
Usos
Em Medicina Veterinária, a morfina é usada principalmente em cães, uma vez que em outras espécies animais,
como gatos, cavalos, porcos e vacas, doses relativamente baixas produzem, como mencionado anteriormente,
efeitos  indesejáveis –  inquietação, medo, hiperatividade e  febre. No entanto, apesar destes efeitos, a morfina
pode  ser  empregada  em  gatos  e  equinos  e  ruminantes  e,  neste  caso,  recomenda­se  associar  a  um
tranquilizante para reduzir a disforia produzida por este medicamento. A morfina também pode ser utilizada em
animais de laboratório e em primatas (Quadro 15.4).
O  uso  da morfina  é  indicado  em  qualquer  situação  na  qual  se  deseje  obter  alívio  da  dor,  bem  como  na
medicação pré­anestésica e durante o período  transoperatório. Deve­se evitar a utilização deste opioide para
tratamento  da  diarreia,  bem  como  na  supressão  da  tosse,  em  qualquer  espécie  animal,  em  virtude  de  já
existirem medicamentos  que  atuam mais  especificamente  e  que  são  desprovidos  de  outros  efeitos  colaterais
produzidos pela morfina.
Derivados da morfina
A seguir são apresentados os principais opioides, derivados da morfina, empregados em Medicina Veterinária
em diferentes espécies animais (Quadro 5.6).
QUADRO 15.4 Posologia da morfina para produção de analgesia em diferentes espécies animais.
Espécie animal Dose (mg/kg) Via de administração Duração da analgesia (horas)
Cão 0,5 a 1,0 SC, IM 3 a 4
0,1 a 0,2 Epidural 12 a 24
0,1 a 1,0 Intra-articular 8 a 12
Gato 0,1 a 0,3 SC, IM 4 a 6
0,05 IV 1 a 4
0,25* SC, IM 3 a 4
Equino 0,1 a 0,3 IV, IM 3 a 4
0,1** Epidural 12 a 24
0,2* Epidural 12 a 24
0,1*** Intra-articular –
Ruminantes 0,05 a 0,4 IV,† IM 6 a 8
0,1& Intra-articular –
Primatas 0,1 a 0,3 IM, SC 4 a 6
Coelho 0,3 a 0,7 IM, SC 4
Rato/camundongo 0,3 a 0,7 IM, SC 4
IM: via intramuscular; IV: via intravenosa; SC: via subcutânea. * Dose para associação com detomidina (30 µg/kg). ** Diluído com 15 a 30 mℓ  de
salina. *** Diluído em 5 a 20 mℓ de salina. †Administrar por via intravenosa (IV) lentamente diluído com 0,05 a 0,2 mℓ/kg.
Codeína
A  codeína  (3­metilmorfina)  é  produzida  comercialmente  a  partir  da  morfina.  Como  o  efeito  analgésico  da
codeína  é  bem  menor  do  que  aquele  produzido  pela  morfina,  este  opioide  não  é  utilizado  com  finalidades
analgésicas  em  animais.  A  codeína  é  amplamente  utilizada  para  deprimir  o  centro  da  tosse,  com  menores
efeitos colaterais quando comparada àqueles produzidos pela morfina; no entanto, este medicamentotem efeito
constipante muito pronunciado.
A codeína normalmente é associada a expectorantes, sendo utilizada principalmente na clínica veterinária
em cães (para detalhes, ver Capítulo 26).
Butorfanol
Esta substância de ação mista atua de maneira agonista em receptores KOP, entretanto atua como antagonista
mais fraco ou parcial em receptor MOP. Esta combinação de antagonismo MOP e agonismo KOP caracteriza
este  agente  como  agonista/antagonista.  O  butorfanol  é  um  analgésico  muito  eficaz  em  dores  moderadas,
possuindo 4 a 7 vezes maior potência analgésica do que a morfina. Produz de 2 a 4 h de analgesia, sendo em
geral  utilizado na dor  aguda pós­operatória  e  administrado por  via  intramuscular  ou  intravenosa 10 a 15 min
antes do término da cirurgia. Além destas vias, o butorfanol pode ser usado pelas vias SC e oral. O butorfanol
apresenta potente efeito antitussígeno, possuindo, aproximadamente, 20 vezes maior efeito supressor da tosse
que  a  codeína;  por  outro  lado,  ao  contrário  deste  último  opioide,  não  deprime  o  centro  respiratório.  Outra
vantagem é que o butorfanol não produz liberação de histamina. O risco de promover dependência física parece
ser mínimo em pacientes veterinários.
Utilizado como único medicamento, o butorfanol promove ligeira sedação em cães e quase nula sedação em
gatos; portanto, deve­se utilizar com um tranquilizante quando for empregado na pré­medicação.
O butorfanol é utilizado em cães, para o alívio de tosse não produtiva (ver Capítulo 26); em cães e gatos, na
medicação pré­anestésica e, também, como antiemético, no uso prévio ao medicamento antitumoral cisplatina.
Em  equinos,  vem  sendo  usado  no  alívio  de  cólicas;  no  entanto,  deve­se  lembrar  que  estes  animais  podem
apresentar  estimulação.  Em  bovinos,  também  vem  sendo  bastante  empregado,  porém  não  há muitos  dados
quanto à eficácia e à segurança do uso do butorfanol nesta espécie animal.
Buprenorfina
A buprenorfina, um composto semissintético, altamente lipofílico, é um agonista parcial de receptores MOP, mas
tem ações antagônicas em  receptores KOP. Tem­se verificado que este hipnoanalgésico alivia eficazmente a
dor,  leve à moderada, associada a procedimentos cirúrgicos abdominais, torácicos, ortopédicos, bem como na
histerectomia. A buprenorfina é administrada pelas vias intravenosa, intramuscular ou subcutânea 10 a 15 min
antes do término da cirurgia. A buprenorfina não possui formulação farmacêutica para administração oral, haja
vista que há grande efeito de primeira passagem no fígado, o que promoveria a inativação de grande parte do
medicamento. O efeito analgésico da buprenorfina é, aproximadamente, 30 vezes maior do que o da morfina;
entretanto, a grande vantagem de seu uso é a sua  longa duração de efeito (aproximadamente 8 a 12 h). Em
estudos clínicos, conduzidos em cães e gatos, verificou­se que a buprenorfina produz melhor efeito analgésico,
quando  comparado ao da morfina. A buprenorfina produz menor  depressão  respiratória  que outros opioides.
Outra  vantagem  quando  da  utilização  deste  analgésico  é  a  pequena  frequência  de  relatos  de  vômitos  e  de
outros efeitos indesejáveis no trato gastrintestinal.
A buprenorfina é comumente utilizada no ser humano, para o qual foi lançado há algum tempo o sistema de
liberação transdérmica (emplastro) deste opioide, no entanto, a utilização em cães e gatos por esta forma tem
se mostrado ineficiente. Recentemente, nos EUA, a agência americana de controle de medicamentos (Food and
Drug  Administration  –  FDA),  aprovou  a  formulação  de  buprenorfina  de  liberação  contínua  (Simbadol®,
indisponível no Brasil), para aplicação SC, para uso em felinos, que permite a administração a cada 24 h, por
até 3 dias consecutivos.
Poucos são poucos os dados disponíveis relativos aos efeitos da buprenorfina em outras espécies animais
que não em cães e gatos; em equinos, deve­se usar este medicamento somente na neuroleptoanalgesia.
Etorfina
A etorfina (Immobilon™, M99™ – não produzidos nem comercializados no Brasil) é um análogo semissintético
da morfina, obtido a partir da tebaína, porém apresenta potência analgésica muito maior que a morfina; assim,
calcula­se que a etorfina seja de 3.000 a 4.000 vezes mais potente que este último hipnoanalgésico. Sua grande
potência analgésica não lhe confere vantagem clínica específica; entretanto, a etorfina vem sendo amplamente
utilizada  em  Medicina  Veterinária  para  imobilizar  animais  silvestres  (ver Capítulo  17),  uma  vez  que  a  dose
empregada, mesmo para grandes animais como o elefante e o rinoceronte, é veiculada através de dardo. Pode
também ser utilizada na neuroleptoanalgesia em equinos (ver adiante neste mesmo capítulo).
Recomenda­se proceder, o mais rapidamente possível, à reversão dos efeitos da etorfina, empregando­se
para tal o antagonista diprenorfina (M50/50® – não produzido nem comercializado no país), sendo preconizada a
administração de 2 mg de diprenorfina para cada 1 mg de etorfina administrada. A etorfina tem potente efeito no
homem, devendo­se ter cuidado extremo ao manipular este hipnoanalgésico. Assim, sugere­se que os animais
que  receberão  a  etorfina  sejam  contidos  fisicamente  antes  da  administração  deste  opioide,  tanto  por  via
intravenosa quanto intramuscular, prevenindo­se, desta forma, a autoadministração pelo aplicador. Além disto,
sugere­se  fortemente que a etorfina nunca deva ser manipulada por  indivíduos sem experiência prévia e este
opioide nunca deve ser utilizado sem que haja um antagonista disponível, tanto para o aplicador, como para o
animal (que neste caso deverá ser preferencialmente a diprenorfina). Calcula­se que a dose letal de diprenorfina
para seres humanos seja em torno de 30 a 120 μg.* O Quadro 15.5 apresenta as doses de etorfina empregadas
em animais silvestres para a imobilização.
Hidromorfona
A  hidromorfona  é  um  opioide  semisintético,  com  grande  afinidade  em  receptores MOP  e  KOP,  promovendo
efeito analgésico 6 a 7 vezes maior que a morfina. Outra vantagem da hidromorfona em relação à morfina se
refere  ao  fato  de  que  este  analgésico  estimula  o  centro  do  vômito  em  um  grau  bem menor.  Além  disto,  a
hidromorfona  produz  pouca  liberação  de  histamina,  portanto,  há  pouca  probabilidade  de  este  opioide  causar
hipotensão. A hidromorfona também produz depressão respiratória, porém o animal que recebeu este opioide
pode apresentar­se ofegante, dando a impressão de estimulação respiratória, no entanto, este efeito se refere à
queda da temperatura corpórea que a hidromorfona pode promover.
Este opioide vem sendo utilizado para produzir analgesia, sedação e como adjunto na anestesia em cães e
gatos.
QUADRO 15.5 Doses de etorfina (não é produzida nem comercializada no Brasil) empregadas em diferentes
espécies animais silvestres para promover imobilização.
Família Dose (mg/45 kg)
Equidae 0,44
Ursidae 0,5
Cervidae 0,98
Bovidae 0,09
Metadona
A metadona é um opioide sintético, com ação agonista em receptor MOP. É uma mistura  racêmica de D e L
enantiômeros;  assim,  além  de  sua  ação  em  receptor  MOP,  o  D­isômero  exerce  uma  ação  antagônica  no
receptor  n­metil­d­aspartato  (NMDA).  A  metadona  também  desempenha  um  papel  importante  nas  vias
descendentes  da  dor,  inibindo  a  receptação  de  norepinefrina  e  serotonina.  Apresenta  efeito  analgésico
farmacologicamente semelhante à morfina e duração de efeito consideravelmente maior, apresentando meia­
vida plasmática de 15 a 20 h. Por outro lado, este medicamento possui menor efeito sedativo que a morfina. A
metadona vem sendo amplamente utilizada em cães como medicação pré­anestésica, especialmente quando se
utiliza barbitúrico. Da mesma maneira que a morfina, este medicamento pode ser utilizado em doses baixas em
felinos; no entanto, sempre deve estar associado a tranquilizante,evitando, assim, a excitação. A metadona tem
menor efeito nauseante e produz menos vômitos se comparada à morfina, bem como menor probabilidade de
promover liberação de histamina quando administrada por via intravenosa; no entanto, produz, como a morfina,
depressão respiratória e bradicardia. Este opioide possui ainda um potente efeito antitussígeno.
Fentanila
A  fentanila  é  um  potente  opioide  sintético,  agonista  MOP,  com  propriedade  analgésica  de  80  a  100  vezes
superior à da morfina; porém, apresenta duração ultracurta (60 a 90 min). A principal vantagem deste opioide é
que, quando administrado por via intravenosa, apresenta efeito quase imediato. Em Medicina Veterinária, este
opioide é utilizado principalmente na neuroleptoanalgesia (ver adiante). A fentanila é utilizada através de bolus
intravenosa, ou por meio de infusão constante em animais para alívio da dor ou principalmente como adjunto na
anestesia. A fentanila pode também ser utilizada no espaço epidural com rápido aparecimento do efeito, porém
com igualmente curta duração deste efeito, uma vez que este opioide tem alta  lipossolubilidade. A eficácia da
fentanila,  quando  administrada  por  via  epidural,  aumenta  quando  esta  é  administrada  associada  a  um
anestésico local (p. ex., a bupivacaína).
Quando  do  emprego  da  fentanila  por  via  parenteral,  deve­se  atentar  à  profunda  sedação  e  depressão
respiratória que produz. Pode produzir também sensibilidade auditiva e promover alteração da termorregulação.
Doses altas de  fentanila podem causar bradicardia, particularmente se administrada rapidamente. Deve­se  ter
grande precaução quando se associa este opioide com α2­agonistas, pois pode haver intensa bradicardia.
QUADRO 15.6 Dose (em mg/kg) de alguns opioides para produção de analgesia, bem como a naloxona, em
animais domésticos.
Opioides Cão Gato Cavalo Bovinos Especialidades
farmacêuticas
Buprenorfina (mg/kg) 0,005 a 0,02
(IV, IM, SC)
0,05 a 0,01
(IV, IM, SC)
0,01 a 0,02
(oral, transmucosa)
0,004*
(IV)
  Restiva®
Butorfanol (mg/kg) 0,1 a 0,2 (IM)
0,25* (epidural)
0,1 a 0,4
(IM, IM, SC)
0,25 (epidural)
0,01 a 0,2 (IV, IM) 0,01 a 0,1 Torbugesic®,** Torbutrol®,*
Stadol®*
Codeína (mg/kg) 0,5 a 4 (oral)
1 codeína + 5
paracetamol
0,5 a 4
(oral)
Não deve ser
empregada em
associação ao
paracetamol em gatos
    Codein®
Tylex®&
Fentanila (mg/kg) 0,04
(IV)
0,004#
(epidural)
0,05 a 0,1 (IV, IM)
0,004# (epidural)
    Anesfent®, Biofent®, citrato
de fentanila (genéricos)
Fendrop®, Fentabbott®,
Fentaneo®, Fentanest®,
Fentanila®, Fentalix®,
Fentanolax®, Inoval®,***#
Nilafen®, Nilperidol®,***
Sefentanil®, Tranil®
Hidromorfona (mg/kg) 0,2 (IM)
0,1 a 0,2 (IV)
0,02 (epidural)
0,02 a 0,1 (IM)
0,05 a 0,1 (IV)
0,02 (epidural)
    Dilaudid®, Jurnista®
Meperidina (mg/kg) 2 a 5 (IM, SC) 2 a 5 (IM, SC) 2 a 4 (IV, IM) 1 (IV, IM) Dolosal®, Dolantina®,
Dornot®, Petinan®
Metadona (mg/kg) 1 (IV, SC) 0,1 (IV, IM, SC) 0,25 (IV SC)   Metadon®
Naloxona+ (mg/kg) 0,04 (IV, IM, SC) 0,04 (IV, IM, SC) 0,02 a 0,1   Narcan®, cloridrato de
naloxona (genéricos)
(IV)
Oximorfona (mg/kg) 0,05 a 0,2
(IV, IM)
0,01 (IV) 0,02 a 0,03
(IV, IM)
  P/M oxymorphone®,*
Numorphan®*
Pentazocina (mg/kg) 1,5 a 3 (IM) 2 a 3 (IV, IM, SC) 0,2 a 1
(IV, IM, SC)
   
Tramadol (mg/kg) 2,5 a 5
(oral)
2
(oral)
2 a 3 (oral)
1 (epidural)
  Dorless®, cloridrato de
tramadol (genéricos),
Megadol®, Sylador®, Tramal®,
Tramadon®, Tramaliv®,
Timassen®, Tramaden®
IM:  via  intramuscular;  IV:  via  intravenosa; SC:  via  subcutânea.  ↓Dose de naloxona para  reversão dos efeitos dos opioides.  *Não produzido no
Brasil. **Especialidade farmacêutica veterinária. No Brasil, o produto comercial está disponível apenas para uso em equinos, com apresentação
somente  para  administração  por  via  IV.  ***Utilizado  na  neuroleptoanalgesia,  associado  ao  droperidol.  #  Efeito  predominantemente  supraespinal.
&Associação com paracetamol.
Há para este opioide a apresentação farmacêutica na forma de emplastro (patches), que permite a aplicação
transdérmica em pequenos animais. O sistema transdérmico da fentanila (Durogesic®) contém um reservatório
com a fentanila em um adesivo. A fentanila é absorvida através da pele em uma taxa constante, sendo liberada
na  razão  aproximada  de  100  μg/h,  que  é  equivalente  à  administração  IM  de  60 mg  de morfina. O  efeito  do
opioide, nesta forma de aplicação, dura pelo menos 72 h. A retirada do adesivo, em pacientes que apresentam
sinais de sensibilidade à  fentanila,  faz com que a concentração do opioide decline  rapidamente. Este adesivo
está disponível para a liberação de fentanila nas taxas de 25, 50, 75 e 100 μg/h. Devido ao tempo necessário
para  que  o  hipnoanalgésico  atinja  a  concentração  plasmática  adequada,  deve­se  aplicar  o  adesivo
aproximadamente 24 h antes da cirurgia. A desvantagem da aplicação da fentanila nesta formulação refere­se à
grande variabilidade entre os indivíduos na taxa de absorção, variando este valor de 27 a 99%. Um ponto que
deve  ser  lembrado  pelo  médico­veterinário  refere­se  ao  fato  de  se  considerar  que,  ao  prescrever  este
medicamento, neste tipo de formulação, há a possibilidade de ocorrência de acidentes (p. ex., crianças podem
ingerir o adesivo) ou mesmo de se permitir o acesso deste opioide a dependentes químicos. As recomendações
de doses de fentanila na formulação de adesivo são as seguintes: gatos – 25 a 50 mg/h; cães: 3 a 10 kg = 25
mg/h, 10 a 20 kg = 50 mg/h, 20 a 30 kg = 75 mg/h; e aqueles cães com peso superior a 30 kg, 100 mg/h. Vários
são os sítios de aplicação deste adesivo, entretanto os locais mais adequados seriam a parte lateral do tórax ou
atrás do pescoço. É  importante  ressaltar que não se deve cortar o emplastro; assim, em situações nas quais
será necessário utilizar metade do emplastro (p. ex., quando o animal for muito pequeno), deve­se cobrir a outra
metade do gel com uma fita adesiva ou esparadrapo não poroso.
Recentemente,  foi  lançado  nos EUA  uma  formulação  da  fentanila  de  aplicação  transdérmica  em  solução
(Recuvyra™,  não  produzido  no  Brasil),  para  uso  em  cães,  cuja  aplicação  se  faz  na  área  escapular  dorsal,
promovendo o controle da dor por 4 dias. Portanto, esse medicamento é destinado principalmente para cirurgias
maiores, sejam ortopédicas ou em tecidos moles, controlando a dor por vários dias após a cirurgia.
Alfentanila (Alfast®), remifentanila (Ultiva®) e sufentanila (Sufenta®)
A alfentanila,  a  remifentanila  e  a  sufentanila  são  potentes  agonistas MOP e  têm  como  característica  comum
duração de ação mais fugaz que a fentanila e, por causa disso, vêm sendo usadas, em cães, tanto para indução
de anestesia para procedimentos cirúrgicos rápidos, bem como durante a cirurgia, por infusão. A sufentanila e a
remifentanila  foram  desenvolvidas  com  o  objetivo  de  obter  melhora  na  farmacocinética  para  administração
intravenosa; assim, a  reversão dos efeitos destes opioides é obtida  rapidamente após as  suas  retiradas. Por
outro  lado,  os  dados  disponíveis  são  apenas  experimentais  em  cães,  sendo,  portanto,  necessária  melhor
avaliação sobre seus usos em outras espécies animais.
Estes analgésicos  (incluindo a  fentanila)  são usados principalmente no  transoperatório, graças a algumas
características, como potência, tempo de latência e tempo de ação.
Carfentanila (Wildnil®)
A carfentanila é um potente derivado da fentanila. Estima­se que seja de 8.000 a 10.000 vezes mais potente que
a morfina. Da mesma maneira que a etorfina, a carfentanila é utilizada primariamente para sedação e captura de
animais  de  zoológico  ou  em  animais  selvagens  de  grande  porte.  Também  se  recomenda  proceder,  o  mais
rapidamente  possível,  à  reversãodos  seus  efeitos;  no  entanto,  neste  caso  o  antagonista  a  ser  utilizado  é  a
naltrexona, administrando­se 100 mg deste antagonista, para cada miligrama de carfentanila. A partir da dose
calculada  do  antagonista,  administra­se  um  quarto  da  dose,  por  via  intravenosa,  e  os  restantes  por  via
subcutânea. A reversão dos efeitos da carfentanila será observada após 2 a 10 min.
Meperidina | Petidina
A meperidina  é  um agonista  total  de  receptores MOP.  Inicialmente,  esta  substância  foi  introduzida  na  clínica
como agente espasmolítico do tipo atropina. Depois, verificou­se que a meperidina tinha efeito hipnoanalgésico
semelhante ao da morfina, porém com potência analgésica cerca de 10 vezes menor. Possui  também menor
atividade hipnótica, efeito constipante e ação no centro da tosse, quando comparada à morfina.
Com  relação  à  via  de  administração  da meperidina,  aconselha­se  o  uso  por  via  intramuscular,  podendo
também  ser  administrada  pelas  vias  subcutânea,  intravenosa  e  oral.  Este  hipnoanalgésico  é  rapidamente
biotransformado no fígado, fato que torna seus efeitos pouco duradouros (1 a 2 h, no máximo).
Com  relação  aos  efeitos  excitatórios,  característicos  dos  hipnoanalgésicos  em  algumas  espécies  animais
como o gato e o cavalo, verifica­se que a meperidina produz estes efeitos, porém com intensidade muito menor
do  que  a  morfina;  por  isto,  a  meperidina  é  o  medicamento  de  uso  rotineiro  nestas  espécies  animais.  Pode
também ser utilizada em bovinos. A meperidina apresenta efeitos espasmolíticos, sendo, por  isto, comumente
empregada  em  casos  de  cólica  equina.  Por  outro  lado,  deve­se  considerar  que  a  meperidina  possui  maior
propensão  para  liberação  de  histamina,  quando  comparada  com  a  morfina,  e,  por  isso,  não  deve  ser
administrada por via intravenosa, principalmente em pequenos animais. A meperidina é comumente utilizada na
medicação pré­anestésica ou como analgésico, particularmente no pós­operatório imediato.
Oximorfona
A oximorfona é um opioide semissintético, potente agonista de receptores MOP. Apresenta potência analgésica
10  a  15  vezes  superior  à  da  morfina,  porém  o  tempo  de  duração  de  seu  efeito  analgésico  é  similar  ao  da
morfina. A oximorfona não produz  liberação de histamina quando administrada por via  intravenosa, mas pode
causar  depressão  respiratória  quando administrada durante a anestesia. Além disto,  pode promover  também
hipersensibilidade auditiva e o animal mostrar­se ofegante, haja vista que este opioide produz desequilíbrio do
centro termorregulador hipotalâmico. A oximorfona vem sendo empregada há alguns anos, nos EUA, em gatos,
mostrando ser um medicamento bastante seguro para uso nesta espécie animal, os quais apresentam excitação
dose­dependente a este hipnoanalgésico. O grande empecilho para o uso mais amplo deste medicamento é o
seu alto custo. A duração do efeito da oximorfona é de 2 a 4 h, entretanto, se utilizado por via intravenosa, este
período de  tempo é menor. Tem efeito  bastante  semelhante à hidromorfona,  sendo este último opioide mais
barato.
Pentazocina
A pentazocina é um derivado benzomorfânico sintético com seletiva ação agonística em receptores KOP; por
outro  lado,  apresenta  fraca  ação  antagônica  em  receptores  MOP.  A  pentazocina  é  bem  absorvida  após  a
administração oral,  intramuscular, subcutânea ou intravenosa. Em relação ao efeito analgésico, possui metade
da potência da morfina. Este opioide promove pequeno período de analgesia; por outro lado, deve­se considerar
que  a  meia­vida  plasmática  varia  muito  entre  as  diferentes  espécies  animais;  assim,  em  cães,  esta  é  de
aproximadamente 22 min, enquanto em gatos é de 84 min e, em equinos, de 97 min. A pentazocina não causa
depressão  respiratória  e  produz  pequena  sedação  em  doses  terapêuticas.  Este  opioide  pode  produzir
diminuição  da  motilidade  do  trato  gastrintestinal.  A  principal  indicação  para  uso  da  pentazocina  é  no  pós­
  
operatório e na cólica, em equinos.
Tramadol
O tramadol é um analgésico de ação central, exercendo seus efeitos por ser um fraco agonista de receptores
MOP.  É  similar,  em  muitos  aspectos,  à  meperidina,  além  disso,  o  tramadol  apresenta  efeitos  relativos  à
captação de norepinefrina e  liberação de serotonina das vesículas na  terminação nervosa. Esta característica
faz com que haja um aumento do efeito analgésico. O tramadol é uma mistura racêmica; o (+) enantiômero tem
a  ação  opioide  e  serotoninérgica,  enquanto  o  (–)  enantiômero  tem  a  ação  noradrenérgica  (i.  e.,  inibe  a
captação). O sinergismo desses três mecanismos parece ser o responsável pelo efeito analgésico. O tramadol é
um medicamento alternativo aos opioides puros e é empregado em pacientes que  requerem  tratamento para
dores de leves a moderadas. O tramadol é considerado um analgésico moderado, entretanto pode ser utilizado
com segurança com outros analgésicos,  incluindo­se os anti­inflamatórios não esteroidais, quando de  terapias
multimodais.  O  tramadol,  por  meio  de  sua  ação  no  sistema  serotoninérgico,  pode  ser  um  medicamento
modificador de comportamento, semelhante aos antidepressivos, e isto tem sido verificado em seres humanos,
porém em animais  tais efeitos não  foram ainda  investigados. É um analgésico de grande  interesse na clínica
veterinária, haja vista que pode ser administrado por via oral, pelos proprietários em domicílio.
Antagonistas narcóticos
Naloxona
A  naloxona  (  Narcan®)  se  liga  firmemente  a  todos  os  receptores  opioides,  particularmente  possui  grande
afinidade por receptores MOP, entretanto não produz efeito; assim, esta substância desloca, competitivamente,
a  substância agonista. É o medicamento de escolha para antagonizar efeitos dos hipnoanalgésicos,  já que é
isento de qualquer efeito agonista. Os usos mais comuns para a naloxona são para reverter os efeitos sedativos
dos  opioides  e  impedir  a  depressão  respiratória  e  a  excitação.  Após  a  administração  por  via  intravenosa,
observam­se  rapidamente  seus  efeitos  (1  a  2 min);  por  outro  lado,  duram  apenas  cerca  de  1  h.  Assim,  em
alguns casos em que a meia­vida do opioide é longa, pode­se verificar o reaparecimento dos efeitos agonistas;
portanto, se necessário, pode­se administrar novamente a naloxona, mas desta vez este procedimento deve ser
realizado por via subcutânea.
Recentemente,  desenvolveu­se  o  nalmefene  (Revex®,  não  produzido  no  país),  que  é  também  um
antagonista  opioide  puro,  entretanto,  tem  como  vantagem  adicional  à  naloxona  a meia­vida maior  (até  4  h).
Existem muitos dados disponíveis deste medicamento para o ser humano; entretanto, em Medicina Veterinária
eles ainda são escassos.
Naltrexona
A naltrexona é um antagonista que atua em todos os receptores opioides. A naltrexona parece ser mais efetiva
no  bloqueio  dos  efeitos  euforizantes  produzidos  pelos  opioides  que  no  bloqueio  da  depressão  respiratória;
portanto,  este  antagonista  opioide  vem  sendo  usado  com  outras  finalidades,  como  no  tratamento  do
comportamento de automutilação, em cães e gatos, mais do que na reversão dos efeitos de agonistas opioides.
Nalorfina
É um agonista parcial, antagonizando todos os efeitos da morfina e de seus congêneres; seu principal uso é no
combate  à  depressão  respiratória  produzida  pelos  opioides.  Esta  substância  caracteriza­se  por  atuar  como
antagonista  na  presença  de  um  agonista;  assim,  quando  se  administra  somente  a  nalorfina,  este  opioide
produzirá efeito também agonista, promovendo depressão do SNC e analgesia. É usada principalmente por via
intravenosa, promovendo efeito imediato. A nalorfina foi o primeiro antagonista usado clinicamente; no entanto,
atualmente, tem caído em desuso, devido aos efeitos disfóricos.Levalorfano
Seus efeitos  são muito  semelhantes aos da nalorfina,  produzindo efeitos de antagonista  somente quando da
presença de agonistas opioides.
NEUROLEPTOANALGESIA
Define­se neuroleptoanalgesia como o efeito produzido pela combinação de um opioide com um tranquilizante.
Quando  se  associam  estes  dois  grupos  de  medicamentos,  haverá,  em  algumas  espécies  animais,  profunda
sedação  e  analgesia,  sem  perda  da  consciência.  Seu  uso  tem  como  principal  finalidade  proporcionar  a
realização de cirurgias, evitando­se os efeitos metabólicos e depressores centrais indesejáveis produzidos pelos
anestésicos.
Na  clínica  veterinária,  utiliza­se  a  neuroleptoanalgesia  principalmente  em  cães,  podendo  também  ser
utilizada  em  macacos  e  em  algumas  espécies  de  animais  de  laboratório.  Em  gatos  e  equinos,  a
neuroleptoanalgesia vem sendo introduzida; porém, deve­se ter precaução na escolha do analgésico, bem como
na  dose  a  ser  administrada.  Não  se  recomenda  o  uso  desta  associação  em  bovinos,  devido  aos  efeitos
estimulantes  dos  hipnoanalgésicos  nesta  espécie  animal.  O  Quadro  15.7  mostra  algumas  das  associações
comumente utilizadas, bem como as vias de administração e espécies animais nas quais se recomenda o uso da
neuroleptoanalgesia.
QUADRO 15.7 Principais associações utilizadas na neuroleptoanalgesia em Medicina Veterinária.
Associação Vias de administração Dose (mg/kg) Espécie animal
Fentanila + droperidol IV 0,01 a 0,04 + 0,7 Cão
IM 0,8 a 0,04 + 2,2 Cão
Oximorfona + acepromazina IV, IM 0,05 a 0,2 + 0,05 a 0,1 Gato
Meperidina + acepromazina IV 0,6 + 0,04 Cavalo
Butorfanol + acepromazina IV 0,044 a 0,088 + 0,04 a 0,088 Cavalo
Butorfanol + xilazina IV 0,02 + 0,8 Cavalo
Morfina + xilazina IV 0,6 + 0,6 Cavalo
Etorfina + acepromazina IM 0,005 + 0,02 Cavalo
Fentanila + droperidol IV 0,03 a 0,05 + 0,7 Coelho
IM 0,01 + 0,32 Rato
IM 0,005 + 0,012 Camundongo
IM: via intramuscular; IV: via intravenosa.
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