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INTRODUÇÃO Os opiáceos (compostos puros, derivados do ópio) ou opioides (qualquer substância, natural ou sintética, que produza efeitos semelhantes aos da morfina), além de hipnoanalgésicos, são também denominados analgésicos narcóticos ( do grego narcosis, estado de sonolência, torpor, desligamento), analgésicos fortes ou morfinossímiles. O uso do ópio para combater a dor data dos primórdios da civilização. Assim, pergaminhos sumérios descrevem o cultivo da papoula e a utilização do ópio, já ao redor de 5000 a.C. Em uma tumba egípcia do século 15 a.C. foram descobertos resquícios de ópio. Aproximadamente na mesma época, havia plantações de ópio ao redor de Tebas, justificando que o produto de origem egípcia fosse conhecido como “ópio tebaico” e que um alcaloide descoberto séculos mais tarde recebesse o nome de tebaína. O papiro de Ebers (1552 a.C.) descreve uma mistura de substâncias, entre as quais o ópio, que era empregada para promover a sedação de crianças. Os gregos também conheciam esta substância, sendo a palavra ópio (suco) atribuída ao médico Theopharstus (século 3 a.C.), para referirse ao líquido leitoso obtido das sementes maduras da papoula (Papaver somniferum). Romanos e árabes também usavam o ópio em suas medicinas e, apesar do amplo uso desta substância durante séculos, foi somente em 1806 que Frederick Serturner, um farmacêutico alemão, isolou e descreveu uma substância pura no ópio, que denominou de “morfina” (alusão ao deus grego do sonho Morfeu). Seguindose a esta descoberta, outros alcaloides do ópio foram isolados; assim, Robiquet (1832) obteve a codeína e Merck (1848), a papaverina. Posteriormente, outros compostos foram isolados do ópio, sendo atualmente conhecidos cerca de 24 alcaloides, embora apenas a morfina e a codeína tenham amplo uso na clínica. No final do século 19, o uso de alcaloides puros, em vez do ópio, estava amplamente difundido no meio médico. Além destes alcaloides naturais, a heroína, quimicamente conhecida como diacetilmorfina, obtida semissinteticamente pela adição de dois grupos acetil à molécula da morfina, foi também intensamente utilizada no século passado, sendo especialmente encontrada em preparações de xaropes para a tosse. Com a descoberta de que estes alcaloides poderiam causar dependência, estimulouse intensamente a pesquisa visando à síntese de substâncias tão potentes quanto ou mais que a morfina, sem que produzissem este efeito. Embora, até o momento, ainda não se tenha encontrado um hipnoanalgésico ideal, a pesquisa empreendida levou à descoberta de alguns medicamentos que vêm sendo amplamente utilizados na clínica, como a naloxona, um antagonista opioide puro, e também de alguns compostos com ações mistas, como o butorfanol e a pentazocina. CLASSIFICAÇÃO DOS OPIOIDES Os opioides podem ser classificados em cinco grupos conforme descrito a seguir. ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ Alcaloides do ópio Podem ser divididos em dois grupos, conforme sua estrutura química: Derivados fenantrênicos: morfina, codeína (3metilmorfina é atualmente sintetizada a partir da morfina) e tebaína Derivados benzilisoquinolínicos: papaverina e noscapina. O Quadro 15.1 mostra os principais alcaloides opioides com as porcentagens de ópio e seus principais usos. QUADRO 15.1 Características dos alcaloides do ópio. Alcaloides Derivado % presente no ópio Principal uso na clínica Morfina Fenantrênico 10 Analgésico Codeína Fenantrênico 0,5 Antitussígeno Tebaína Fenantrênico 0,2 – Papaverina Benzilisoquinolínico 1 Relaxante da musculatura lisa arterial Noscapina Benzilisoquinolínico 6 Estimulante do centro respiratório Compostos semissintéticos Hidromorfona Heroína Dionina Dilaudid Metopon. Compostos sintéticos Meperidina (petidina) Fentanila Levorfanol Metadona Pentazocina Propoxifeno Etorfina. Antagonistas dos narcóticos Naloxona Diprenorfina Nalorfina Levalorfano. Compostos de ação mista | Agonista-antagonista Buprenorfina Butorfanol ■ Pentazocina. RECEPTORES OPIOIDES A partir de estudos empregandose radioligantes com atividade opioide (peptídios endógenos, alcaloides ou análogos sintéticos) em locais específicos do sistema nervoso central (SNC) e outros tecidos (como sistema nervoso autônomo, coração, rins, canal deferente, pâncreas, plexo mioentérico no trato gastrintestinal, glândulas adrenais, células adiposas e linfócitos), observouse que, enquanto alguns agonistas provocavam respostas típicas em determinadas regiões, isto não ocorria em outras. Além disso, estudos com antagonistas opioides mostraram que estes eram extremamente eficazes em contrapor certos efeitos dos opioides em alguns tecidos, sem causar qualquer alteração em outros. Assim, com base nos efeitos da relação agonista/antagonista, temse sugerido que existam diferentes tipos de receptores opioides. No SNC foram identificadas, por meio de técnicas de biologia molecular (clonagem de receptores) várias categorias de receptores opioides, designados por letras gregas. Assim, temse o receptor μ (mi), letra grega “m”, referência ao receptor de morfina; atualmente é denominada de MOP. O receptor κ (kappa), letra grega “k”, referência à substância ketociclazocina, o primeiro grupo de medicamentos utilizados para definir a funcionalidade do receptor; atualmente denominada de KOP. O receptor δ (delta), letra grega “d”, relacionada à letra inicial de deferente, porque foi a partir de estudos no canal deferente de camundongos que se definiram as funcionalidades deste receptor, e, atualmente, recebe a denominação de DOP. Cada um destes três receptores é codificado por um gene independente. Além destes três receptores clássicos, foi reconhecido um quarto receptor. Assim, determinouse um quarto gene relacionado, que codifica um receptor semelhante ao opioidérgico, o qual foi denominado de NOP, ou também ORL1; este receptor interage com alguns peptídios semelhantes aos opioides e são denominados de nociceptina ou orfaninaFQ (N/OFQ).O papel potencial deste receptor para o controle da dor ainda está sendo estudado; desta maneira, estudos iniciais em roedores mostraram que a estimulação do receptor NOP promove inibição da analgesia; no entanto, estudos posteriores, em primatas não humanos, mostraram que agonistas NOP promovem analgesia. Assim sendo, claramente há diferenças espécieespecíficas na “circuitaria” do receptor NOP e muito ainda precisa ser estudado para melhor compreender estas diferenças entre as espécies. De fato, apesar de haver diferenças na distribuição anatômica dos receptores opioides entre as espécies animais, temse verificado que cada tipo de receptor, quando estimulado, produz efeitos farmacológicos específicos. Alguns opioides atuam com grande eficácia e potência em um determinado tipo de receptor, enquanto em outros receptores com eficácia e potência muito menor. Por exemplo, a morfina tem grande afinidade por receptor MOP; neste caso a morfina é denominada de agonista completo de receptor, no entanto, esta substância tem baixa afinidade por receptores KOP e DOP. Existem também certos opioides que têm atividade agonista em um receptor e antagonista em outro, como é o caso do butorfanol que é agonista parcial MOP e antagonista. O Quadro 15.2 mostra a afinidade de algumas substâncias opioides em diferentes receptores. PEPTÍDIOS OPIOIDES ENDÓGENOS Desde a descoberta de receptor para a morfina, houve um grande impulso na pesquisa relativa à existência de uma substância endógena capaz de atuar no organismo animal, pois seria impossívelconceber que receptores opiáceos teriam se desenvolvido apenas para combinarse com os alcaloides da planta do ópio. Assim, após anos de intensas pesquisas, Hughes et al. (1975) isolaram, a partir de cérebro do porco, dois pentapeptídios com potente atividade agonista opioide, que foram denominados encefalinas. Posteriormente, foram isoladas da hipófise a betaendorfina e a dinorfina. Mais recentemente, foram identificados os neuropeptídios nociceptina e orfanina FQ. Cada um destes compostos é derivado de precursor geneticamente distinto e tem uma distribuição anatômica característica. São denominados de próencefalina (ou próencefalina A), pró opiomelanocortina (POMC), pródinorfina (ou próencefalina B) e préprónociceptina. QUADRO 15.2 Efeitos de alguns opioides nos três receptores opioides clássicos. Tipo de receptor Principais efeitos Agonistas Antagonistas MOP Analgesia supraespinal, depressão respiratória, euforia e dependência física Morfina (+++) Etorfina (+++) Fentanila (+++) Meperidina (+++) Metadona (+++) Codeína (++) Buprenorfinaa (+++) Naloxona (+++) Naltrexona (+++) Nalorfina (++) Pentazocina (+) KOP Analgesia medular, miose, sedação e disforia Morfina (+) Butorfanol (+++) Etorfina (+++) Meperidina (++) Codeína (+) Fentanila (+) Nalorfinaa (++) Naloxona (++) Naltreoxona (++) DOP Analgesia espinal, depressão respiratória, redução da motilidade gástrica Morfina (++) Pentazocina (+) Nalorfina (+) Fentanila (+) Meperidina (+) Metadona (+) Naloxona (+) Naltreoxona (+) Afinidade pelo receptor: (+) discreta; (++) moderada; (+++) grande. aAgonista parcial. O Quadro 15.3 mostra a seletividade de peptídios opioides nos diferentes receptores. MECANISMO DE AÇÃO Os opioides atuam na maioria das células nervosas, promovendo hiperpolarização, inibição da deflagração do potencial de ação e inibição présináptica da liberação de neurotransmissor. Verificase, em alguns neurônios, despolarização, mas provavelmente este efeito seria indireto, por meio da supressão de uma determinada via inibitória. A ativação do receptor opioide causa o fechamento de canais de cálcio voltagemsensíveis, a abertura dos canais de potássio e subsequente hiperpolarização celular; além disso, a inibição da atividade da adenilciclase, acarretando, consequentemente, na inibição do monofosfato cíclico de adenosina (cAMP). QUADRO 15.3 Afinidade dos peptídios opioides pelos receptores. Peptídios Receptor MOP KOP DOP NOP Betaendorfina +++ +++ +++ – Encefalina + – +++ – Dinorfina ++ +++ + – Nociceptina/orfanina – – – +++ Afinidade pelo receptor: (–) sem atividade; (+) discreta; (++) moderada; (+++) grande. PRINCIPAIS MEDICAMENTOS OPIOIDES USADOS EM MEDICINA VETERINÁRIA Morfina Dentre os hipnoanalgésicos, a morfina é a droga padrão, pois, embora inúmeras medicações analgésicas tenham sido sintetizadas nestes últimos anos, até o momento nenhuma delas provou ser mais eficaz que a morfina no alívio da dor. Além disto, a utilização deste opioide é bastante segura, bem tolerada nas diferentes espécies animais e tem baixo custo. Devido à dificuldade de síntese laboratorial da morfina, ainda hoje este medicamento é extraído do ópio. A morfina é encontrada na forma de cloridrato e sulfato. Vias de administração A morfina e demais derivados fenantrênicos do ópio produzem melhor efeito quando administrados pelas vias parenterais. Preferese a via subcutânea porque o efeito analgésico ocorre rapidamente e a curva de efeito máximo se mantém por um período mais longo. A via intramuscular (IM) também pode ser utilizada. A via intravenosa (IV) deverá ser utilizada somente quando houver necessidade de efeito muito rápido, não devendo a dose ultrapassar a metade daquela utilizada pelas vias SC e IM. A morfina é também bem absorvida quando usada por via oral; no entanto, ocorre biotransformação em sua primeira passagem pelo fígado, reduzindo seu efeito; por isto, não se recomenda a sua administração, por esta via, em nenhuma espécie animal, a menos que seja de formulação para liberação controlada (LC). No entanto, no Brasil, devido à dificuldade de aquisição de morfina LC pelo profissional veterinário, a administração de morfina para animais por esta via não é praticada. A morfina pode ainda ser administrada por via extradural (epidural), intratecal (subaracnóidea), interpleural ou intraarticular. Distribuição, biotransformação e eliminação Após a absorção, a morfina se distribui pelos diferentes tecidos; em particular atinge SNC, fígado, rins, pulmões e músculos. No sistema microssomal hepático, a morfina é conjugada com glicuronídeo, formando morfina3 glicuronídeio (75 a 85%) e morfina6glicuronídeo (5 a 10%), sendo que este último metabólito tem ação em receptores μ, promovendo analgesia e depressão respiratória; portanto, a morfina6glicuronídeo tem papel importante na eficácia clínica da morfina. É mínima a quantidade de morfina excretada sem sofrer biotransformação. A maior parte da morfina biotransformada é excretada pela urina (90%), por isto, devese considerar que seus metabólitos podem se acumular em pacientes com insuficiência renal. O restante dos metabólitos é eliminado pelas fezes (7 a 10%); sua excreção pelo suor é desprezível. Efeitos terapêuticos, colaterais e/ou tóxicos Analgesia O efeito farmacológico mais importante da morfina e dos opioides correlatos é a analgesia que ocorre sem a perda da consciência, porém, até o momento, não se conhecem perfeitamente os mecanismos centrais envolvidos. No ser humano, a dor se manifesta de duas formas: como sensação específica (i. e., a percepção da dor é transmitida por caminhos neurofisiológicos distintos) e como sofrimento, no qual existe o componente “psicológico”. Este último é muito difícil de ser mensurado em animais; no entanto, sabese que a morfina, como os demais hipnoanalgésicos, é capaz de aumentar o limiar à dor e ainda causar uma indiferença a ela, fazendo desaparecer o medo, a ansiedade e a apreensão. A morfina e seus derivados produzem efeitos analgésicos mais evidentes em dores surdas e prolongadas que nas dores agudas. Além disso, estes compostos têm efeito específico na dor, sem alterar qualquer outra sensação como tato, visão e audição. Um efeito que limita o uso de morfina e grande parte dos opioide é a tolerância aos efeitos analgésicos. Tem sido proposto que a tolerância não estaria relacionada a um fenômeno farmacocinético e sim ao nível de receptores, de segundos mensageiros e de outros sistemas de neurotransmissão. No que se refere aos receptores, propõese que a tolerância se deva à dessensibilização, que pode ocorrer devido a algumas alterações adaptativas como a regulação negativa (downregulation), que se caracteriza pela perda generalizada de receptores, tanto aqueles de superfície, como intracelulares. Outro mecanismo que leva à tolerância é a internalização, e esta ocorre devido à fosforilação do receptor, que leva uma proteína, a arrestina, a se unir a este receptor, e assim incapacitandoo. Uma última teoria que explicaria a tolerância aos efeitos analgésicos devido ao uso prolongado dos opioides é a de que ocorreria o desacoplamento de proteínas G aos receptores, tornando o receptor impossibilitado de transmitir o sinal. Sedação e excitação A depressão do SNC é observada no homem, no macaco e no cão, ao passo que gatos, cavalos, porcos, vacas, caprinos e ovinos têm maior suscetibilidade ao aparecimento de disforia e hiperexcitabilidade. Doses elevadas do hipnoanalgésico nestas últimas espécies animais podem causar convulsões.A explicação para esses efeitos díspares entre as diferentes espécies animais parece estar relacionada à distribuição dos receptores opioides em certas regiões do cérebro, independentemente da farmacocinética do opioide. Assim, verificase que a distribuição de receptores opioides no cérebro de animais que são sedados pela morfina (p. ex., cães) é maior que no cérebro de animais que são mais propensos à excitação (p. ex., gatos). Náuseas e vômito As náuseas e o vômito ocasionados pela morfina estão relacionados com a estimulação da zona deflagradora dos quimiorreceptores localizada nas paredes laterais do terceiro ventrículo (área postrema), possivelmente por meio da liberação de dopamina. É interessante observar que ocorre grande variação ao efeito emético da morfina entre as diferentes espécies animais. Assim, suínos e aves domésticas não respondem à morfina, enquanto em cães este medicamento produz potente efeito emético; no gato, há necessidade de uma elevada dose de morfina para produzir o vômito. O vômito ocorre comumente quando a morfina é administrada como prémedicação antes da cirurgia e, menos frequentemente, quando administrada ao paciente para o tratamento da dor. É interessante ainda observar que pacientes tratados prolongadamente com morfina desenvolvem tolerância, isto é, passam a não mais apresentar náuseas e vômitos. A apomorfina, um derivado da morfina e agonista dopaminérgico (ver Capítulo 14), tem efeito emético muito mais potente que a morfina, sendo, no entanto, desprovida de efeito analgésico. Inibição do reflexo da tosse e depressão respiratória O reflexo da tosse é reduzido ou abolido pela morfina e por opioides correlatos, mediante ação destes compostos no centro da tosse. A supressão da tosse não está relacionada com o efeito analgésico nem com a depressão respiratória provocados pelos opioides. De maneira geral, a substituição da hidroxila do grupo fenólico da morfina aumenta a atividade antitussígena em relação à analgésica e a codeína suprime a tosse em doses subanalgésicas (para detalhes de dose de codeína, ver Capítulo 26). Geralmente, a ação antitussígena ocorre em doses muito mais baixas que aquelas necessárias para produzir analgesia. O receptor responsável por esta ação antitussígena não é ainda conhecido, já que o dextrometorfano não se liga a receptores opioides conhecidos, mas é um potente antitussígeno. O efeito adverso mais perigoso ao se utilizarem a morfina e seus congêneres é a depressão respiratória, a qual pode promover a morte do animal. Tal efeito devese à ação agonista da morfina nos receptores MOP, localizados dentro de centros respiratórios da medula, promovendo a diminuição da sensibilidade de quimiorreceptores ao dióxido de carbono. Da mesma maneira que os vômitos, tem sido verificado que pacientes humanos que recebem prolongadamente opioides como a morfina, que têm ação predominante em receptores MOP, desenvolvem tolerância à depressão respiratória. Miose/midríase Os efeitos produzidos pela morfina na pupila variam de espécie para espécie. A miose é observada em seres humanos e na maioria das espécies em que a morfina é sedativa, exceto em macacos, nos quais este opioide causa midríase; nas espécies em que ocorre excitação, observase midríase. Termorregulação Há variação do efeito da morfina na termorregulação, conforme a espécie animal. Assim, em seres humanos, macacos e cães observase hipotermia, enquanto em bovinos, ovinos, caprinos, equinos e gatos verificase hipertermia. Efeitos endócrinos No cão e no homem, a morfina produz, por meio da estimulação do núcleo supraóptico do hipotálamo, aumento da secreção de hormônio antidiurético (ADH) e, consequentemente, retenção de água pelos rins. Além disso, no homem, verificase que a morfina e opioides, de maneira geral, inibem a secreção do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) e, consequentemente, haverá queda significativa dos hormônios luteinizante (LH) e foliculoestimulante (FSH). Por outro lado, o nível sérico de prolactina é aumentado pela morfina. Outros efeitos A morfina e derivados opioides produzem constipação intestinal. Este efeito é consequência da redução da motilidade da musculatura lisa intestinal e contração dos esfíncteres. A constipação intestinal é exacerbada pela redução das secreções biliares, gástrica e pancreática. O efeito constipante dos opioides constitui a base para o uso destes medicamentos como agentes antidiarreicos (para maiores informações, ver Capítulo 32). A bradicardia e a vasodilatação são um dos efeitos mais comuns em animais que receberam morfina e derivados opioides. Esta bradicardia normalmente não representa perigo à vida. Devido ao fato de a bradicardia produzida pelos opioides ser mediada pelo sistema colinérgico, o uso de medicamentos anticolinérgicos, tais como a atropina ou o glicopirrolato, reverterá este efeito. A morfina pode liberar histamina, por ação não relacionada com os receptores opioides, e isto permite o aparecimento de efeitos locais como urticária e prurido no local da injeção; pode também causar efeitos sistêmicos como broncoconstrição e hipotensão. Usos Em Medicina Veterinária, a morfina é usada principalmente em cães, uma vez que em outras espécies animais, como gatos, cavalos, porcos e vacas, doses relativamente baixas produzem, como mencionado anteriormente, efeitos indesejáveis – inquietação, medo, hiperatividade e febre. No entanto, apesar destes efeitos, a morfina pode ser empregada em gatos e equinos e ruminantes e, neste caso, recomendase associar a um tranquilizante para reduzir a disforia produzida por este medicamento. A morfina também pode ser utilizada em animais de laboratório e em primatas (Quadro 15.4). O uso da morfina é indicado em qualquer situação na qual se deseje obter alívio da dor, bem como na medicação préanestésica e durante o período transoperatório. Devese evitar a utilização deste opioide para tratamento da diarreia, bem como na supressão da tosse, em qualquer espécie animal, em virtude de já existirem medicamentos que atuam mais especificamente e que são desprovidos de outros efeitos colaterais produzidos pela morfina. Derivados da morfina A seguir são apresentados os principais opioides, derivados da morfina, empregados em Medicina Veterinária em diferentes espécies animais (Quadro 5.6). QUADRO 15.4 Posologia da morfina para produção de analgesia em diferentes espécies animais. Espécie animal Dose (mg/kg) Via de administração Duração da analgesia (horas) Cão 0,5 a 1,0 SC, IM 3 a 4 0,1 a 0,2 Epidural 12 a 24 0,1 a 1,0 Intra-articular 8 a 12 Gato 0,1 a 0,3 SC, IM 4 a 6 0,05 IV 1 a 4 0,25* SC, IM 3 a 4 Equino 0,1 a 0,3 IV, IM 3 a 4 0,1** Epidural 12 a 24 0,2* Epidural 12 a 24 0,1*** Intra-articular – Ruminantes 0,05 a 0,4 IV,† IM 6 a 8 0,1& Intra-articular – Primatas 0,1 a 0,3 IM, SC 4 a 6 Coelho 0,3 a 0,7 IM, SC 4 Rato/camundongo 0,3 a 0,7 IM, SC 4 IM: via intramuscular; IV: via intravenosa; SC: via subcutânea. * Dose para associação com detomidina (30 µg/kg). ** Diluído com 15 a 30 mℓ de salina. *** Diluído em 5 a 20 mℓ de salina. †Administrar por via intravenosa (IV) lentamente diluído com 0,05 a 0,2 mℓ/kg. Codeína A codeína (3metilmorfina) é produzida comercialmente a partir da morfina. Como o efeito analgésico da codeína é bem menor do que aquele produzido pela morfina, este opioide não é utilizado com finalidades analgésicas em animais. A codeína é amplamente utilizada para deprimir o centro da tosse, com menores efeitos colaterais quando comparada àqueles produzidos pela morfina; no entanto, este medicamentotem efeito constipante muito pronunciado. A codeína normalmente é associada a expectorantes, sendo utilizada principalmente na clínica veterinária em cães (para detalhes, ver Capítulo 26). Butorfanol Esta substância de ação mista atua de maneira agonista em receptores KOP, entretanto atua como antagonista mais fraco ou parcial em receptor MOP. Esta combinação de antagonismo MOP e agonismo KOP caracteriza este agente como agonista/antagonista. O butorfanol é um analgésico muito eficaz em dores moderadas, possuindo 4 a 7 vezes maior potência analgésica do que a morfina. Produz de 2 a 4 h de analgesia, sendo em geral utilizado na dor aguda pósoperatória e administrado por via intramuscular ou intravenosa 10 a 15 min antes do término da cirurgia. Além destas vias, o butorfanol pode ser usado pelas vias SC e oral. O butorfanol apresenta potente efeito antitussígeno, possuindo, aproximadamente, 20 vezes maior efeito supressor da tosse que a codeína; por outro lado, ao contrário deste último opioide, não deprime o centro respiratório. Outra vantagem é que o butorfanol não produz liberação de histamina. O risco de promover dependência física parece ser mínimo em pacientes veterinários. Utilizado como único medicamento, o butorfanol promove ligeira sedação em cães e quase nula sedação em gatos; portanto, devese utilizar com um tranquilizante quando for empregado na prémedicação. O butorfanol é utilizado em cães, para o alívio de tosse não produtiva (ver Capítulo 26); em cães e gatos, na medicação préanestésica e, também, como antiemético, no uso prévio ao medicamento antitumoral cisplatina. Em equinos, vem sendo usado no alívio de cólicas; no entanto, devese lembrar que estes animais podem apresentar estimulação. Em bovinos, também vem sendo bastante empregado, porém não há muitos dados quanto à eficácia e à segurança do uso do butorfanol nesta espécie animal. Buprenorfina A buprenorfina, um composto semissintético, altamente lipofílico, é um agonista parcial de receptores MOP, mas tem ações antagônicas em receptores KOP. Temse verificado que este hipnoanalgésico alivia eficazmente a dor, leve à moderada, associada a procedimentos cirúrgicos abdominais, torácicos, ortopédicos, bem como na histerectomia. A buprenorfina é administrada pelas vias intravenosa, intramuscular ou subcutânea 10 a 15 min antes do término da cirurgia. A buprenorfina não possui formulação farmacêutica para administração oral, haja vista que há grande efeito de primeira passagem no fígado, o que promoveria a inativação de grande parte do medicamento. O efeito analgésico da buprenorfina é, aproximadamente, 30 vezes maior do que o da morfina; entretanto, a grande vantagem de seu uso é a sua longa duração de efeito (aproximadamente 8 a 12 h). Em estudos clínicos, conduzidos em cães e gatos, verificouse que a buprenorfina produz melhor efeito analgésico, quando comparado ao da morfina. A buprenorfina produz menor depressão respiratória que outros opioides. Outra vantagem quando da utilização deste analgésico é a pequena frequência de relatos de vômitos e de outros efeitos indesejáveis no trato gastrintestinal. A buprenorfina é comumente utilizada no ser humano, para o qual foi lançado há algum tempo o sistema de liberação transdérmica (emplastro) deste opioide, no entanto, a utilização em cães e gatos por esta forma tem se mostrado ineficiente. Recentemente, nos EUA, a agência americana de controle de medicamentos (Food and Drug Administration – FDA), aprovou a formulação de buprenorfina de liberação contínua (Simbadol®, indisponível no Brasil), para aplicação SC, para uso em felinos, que permite a administração a cada 24 h, por até 3 dias consecutivos. Poucos são poucos os dados disponíveis relativos aos efeitos da buprenorfina em outras espécies animais que não em cães e gatos; em equinos, devese usar este medicamento somente na neuroleptoanalgesia. Etorfina A etorfina (Immobilon™, M99™ – não produzidos nem comercializados no Brasil) é um análogo semissintético da morfina, obtido a partir da tebaína, porém apresenta potência analgésica muito maior que a morfina; assim, calculase que a etorfina seja de 3.000 a 4.000 vezes mais potente que este último hipnoanalgésico. Sua grande potência analgésica não lhe confere vantagem clínica específica; entretanto, a etorfina vem sendo amplamente utilizada em Medicina Veterinária para imobilizar animais silvestres (ver Capítulo 17), uma vez que a dose empregada, mesmo para grandes animais como o elefante e o rinoceronte, é veiculada através de dardo. Pode também ser utilizada na neuroleptoanalgesia em equinos (ver adiante neste mesmo capítulo). Recomendase proceder, o mais rapidamente possível, à reversão dos efeitos da etorfina, empregandose para tal o antagonista diprenorfina (M50/50® – não produzido nem comercializado no país), sendo preconizada a administração de 2 mg de diprenorfina para cada 1 mg de etorfina administrada. A etorfina tem potente efeito no homem, devendose ter cuidado extremo ao manipular este hipnoanalgésico. Assim, sugerese que os animais que receberão a etorfina sejam contidos fisicamente antes da administração deste opioide, tanto por via intravenosa quanto intramuscular, prevenindose, desta forma, a autoadministração pelo aplicador. Além disto, sugerese fortemente que a etorfina nunca deva ser manipulada por indivíduos sem experiência prévia e este opioide nunca deve ser utilizado sem que haja um antagonista disponível, tanto para o aplicador, como para o animal (que neste caso deverá ser preferencialmente a diprenorfina). Calculase que a dose letal de diprenorfina para seres humanos seja em torno de 30 a 120 μg.* O Quadro 15.5 apresenta as doses de etorfina empregadas em animais silvestres para a imobilização. Hidromorfona A hidromorfona é um opioide semisintético, com grande afinidade em receptores MOP e KOP, promovendo efeito analgésico 6 a 7 vezes maior que a morfina. Outra vantagem da hidromorfona em relação à morfina se refere ao fato de que este analgésico estimula o centro do vômito em um grau bem menor. Além disto, a hidromorfona produz pouca liberação de histamina, portanto, há pouca probabilidade de este opioide causar hipotensão. A hidromorfona também produz depressão respiratória, porém o animal que recebeu este opioide pode apresentarse ofegante, dando a impressão de estimulação respiratória, no entanto, este efeito se refere à queda da temperatura corpórea que a hidromorfona pode promover. Este opioide vem sendo utilizado para produzir analgesia, sedação e como adjunto na anestesia em cães e gatos. QUADRO 15.5 Doses de etorfina (não é produzida nem comercializada no Brasil) empregadas em diferentes espécies animais silvestres para promover imobilização. Família Dose (mg/45 kg) Equidae 0,44 Ursidae 0,5 Cervidae 0,98 Bovidae 0,09 Metadona A metadona é um opioide sintético, com ação agonista em receptor MOP. É uma mistura racêmica de D e L enantiômeros; assim, além de sua ação em receptor MOP, o Disômero exerce uma ação antagônica no receptor nmetildaspartato (NMDA). A metadona também desempenha um papel importante nas vias descendentes da dor, inibindo a receptação de norepinefrina e serotonina. Apresenta efeito analgésico farmacologicamente semelhante à morfina e duração de efeito consideravelmente maior, apresentando meia vida plasmática de 15 a 20 h. Por outro lado, este medicamento possui menor efeito sedativo que a morfina. A metadona vem sendo amplamente utilizada em cães como medicação préanestésica, especialmente quando se utiliza barbitúrico. Da mesma maneira que a morfina, este medicamento pode ser utilizado em doses baixas em felinos; no entanto, sempre deve estar associado a tranquilizante,evitando, assim, a excitação. A metadona tem menor efeito nauseante e produz menos vômitos se comparada à morfina, bem como menor probabilidade de promover liberação de histamina quando administrada por via intravenosa; no entanto, produz, como a morfina, depressão respiratória e bradicardia. Este opioide possui ainda um potente efeito antitussígeno. Fentanila A fentanila é um potente opioide sintético, agonista MOP, com propriedade analgésica de 80 a 100 vezes superior à da morfina; porém, apresenta duração ultracurta (60 a 90 min). A principal vantagem deste opioide é que, quando administrado por via intravenosa, apresenta efeito quase imediato. Em Medicina Veterinária, este opioide é utilizado principalmente na neuroleptoanalgesia (ver adiante). A fentanila é utilizada através de bolus intravenosa, ou por meio de infusão constante em animais para alívio da dor ou principalmente como adjunto na anestesia. A fentanila pode também ser utilizada no espaço epidural com rápido aparecimento do efeito, porém com igualmente curta duração deste efeito, uma vez que este opioide tem alta lipossolubilidade. A eficácia da fentanila, quando administrada por via epidural, aumenta quando esta é administrada associada a um anestésico local (p. ex., a bupivacaína). Quando do emprego da fentanila por via parenteral, devese atentar à profunda sedação e depressão respiratória que produz. Pode produzir também sensibilidade auditiva e promover alteração da termorregulação. Doses altas de fentanila podem causar bradicardia, particularmente se administrada rapidamente. Devese ter grande precaução quando se associa este opioide com α2agonistas, pois pode haver intensa bradicardia. QUADRO 15.6 Dose (em mg/kg) de alguns opioides para produção de analgesia, bem como a naloxona, em animais domésticos. Opioides Cão Gato Cavalo Bovinos Especialidades farmacêuticas Buprenorfina (mg/kg) 0,005 a 0,02 (IV, IM, SC) 0,05 a 0,01 (IV, IM, SC) 0,01 a 0,02 (oral, transmucosa) 0,004* (IV) Restiva® Butorfanol (mg/kg) 0,1 a 0,2 (IM) 0,25* (epidural) 0,1 a 0,4 (IM, IM, SC) 0,25 (epidural) 0,01 a 0,2 (IV, IM) 0,01 a 0,1 Torbugesic®,** Torbutrol®,* Stadol®* Codeína (mg/kg) 0,5 a 4 (oral) 1 codeína + 5 paracetamol 0,5 a 4 (oral) Não deve ser empregada em associação ao paracetamol em gatos Codein® Tylex®& Fentanila (mg/kg) 0,04 (IV) 0,004# (epidural) 0,05 a 0,1 (IV, IM) 0,004# (epidural) Anesfent®, Biofent®, citrato de fentanila (genéricos) Fendrop®, Fentabbott®, Fentaneo®, Fentanest®, Fentanila®, Fentalix®, Fentanolax®, Inoval®,***# Nilafen®, Nilperidol®,*** Sefentanil®, Tranil® Hidromorfona (mg/kg) 0,2 (IM) 0,1 a 0,2 (IV) 0,02 (epidural) 0,02 a 0,1 (IM) 0,05 a 0,1 (IV) 0,02 (epidural) Dilaudid®, Jurnista® Meperidina (mg/kg) 2 a 5 (IM, SC) 2 a 5 (IM, SC) 2 a 4 (IV, IM) 1 (IV, IM) Dolosal®, Dolantina®, Dornot®, Petinan® Metadona (mg/kg) 1 (IV, SC) 0,1 (IV, IM, SC) 0,25 (IV SC) Metadon® Naloxona+ (mg/kg) 0,04 (IV, IM, SC) 0,04 (IV, IM, SC) 0,02 a 0,1 Narcan®, cloridrato de naloxona (genéricos) (IV) Oximorfona (mg/kg) 0,05 a 0,2 (IV, IM) 0,01 (IV) 0,02 a 0,03 (IV, IM) P/M oxymorphone®,* Numorphan®* Pentazocina (mg/kg) 1,5 a 3 (IM) 2 a 3 (IV, IM, SC) 0,2 a 1 (IV, IM, SC) Tramadol (mg/kg) 2,5 a 5 (oral) 2 (oral) 2 a 3 (oral) 1 (epidural) Dorless®, cloridrato de tramadol (genéricos), Megadol®, Sylador®, Tramal®, Tramadon®, Tramaliv®, Timassen®, Tramaden® IM: via intramuscular; IV: via intravenosa; SC: via subcutânea. ↓Dose de naloxona para reversão dos efeitos dos opioides. *Não produzido no Brasil. **Especialidade farmacêutica veterinária. No Brasil, o produto comercial está disponível apenas para uso em equinos, com apresentação somente para administração por via IV. ***Utilizado na neuroleptoanalgesia, associado ao droperidol. # Efeito predominantemente supraespinal. &Associação com paracetamol. Há para este opioide a apresentação farmacêutica na forma de emplastro (patches), que permite a aplicação transdérmica em pequenos animais. O sistema transdérmico da fentanila (Durogesic®) contém um reservatório com a fentanila em um adesivo. A fentanila é absorvida através da pele em uma taxa constante, sendo liberada na razão aproximada de 100 μg/h, que é equivalente à administração IM de 60 mg de morfina. O efeito do opioide, nesta forma de aplicação, dura pelo menos 72 h. A retirada do adesivo, em pacientes que apresentam sinais de sensibilidade à fentanila, faz com que a concentração do opioide decline rapidamente. Este adesivo está disponível para a liberação de fentanila nas taxas de 25, 50, 75 e 100 μg/h. Devido ao tempo necessário para que o hipnoanalgésico atinja a concentração plasmática adequada, devese aplicar o adesivo aproximadamente 24 h antes da cirurgia. A desvantagem da aplicação da fentanila nesta formulação referese à grande variabilidade entre os indivíduos na taxa de absorção, variando este valor de 27 a 99%. Um ponto que deve ser lembrado pelo médicoveterinário referese ao fato de se considerar que, ao prescrever este medicamento, neste tipo de formulação, há a possibilidade de ocorrência de acidentes (p. ex., crianças podem ingerir o adesivo) ou mesmo de se permitir o acesso deste opioide a dependentes químicos. As recomendações de doses de fentanila na formulação de adesivo são as seguintes: gatos – 25 a 50 mg/h; cães: 3 a 10 kg = 25 mg/h, 10 a 20 kg = 50 mg/h, 20 a 30 kg = 75 mg/h; e aqueles cães com peso superior a 30 kg, 100 mg/h. Vários são os sítios de aplicação deste adesivo, entretanto os locais mais adequados seriam a parte lateral do tórax ou atrás do pescoço. É importante ressaltar que não se deve cortar o emplastro; assim, em situações nas quais será necessário utilizar metade do emplastro (p. ex., quando o animal for muito pequeno), devese cobrir a outra metade do gel com uma fita adesiva ou esparadrapo não poroso. Recentemente, foi lançado nos EUA uma formulação da fentanila de aplicação transdérmica em solução (Recuvyra™, não produzido no Brasil), para uso em cães, cuja aplicação se faz na área escapular dorsal, promovendo o controle da dor por 4 dias. Portanto, esse medicamento é destinado principalmente para cirurgias maiores, sejam ortopédicas ou em tecidos moles, controlando a dor por vários dias após a cirurgia. Alfentanila (Alfast®), remifentanila (Ultiva®) e sufentanila (Sufenta®) A alfentanila, a remifentanila e a sufentanila são potentes agonistas MOP e têm como característica comum duração de ação mais fugaz que a fentanila e, por causa disso, vêm sendo usadas, em cães, tanto para indução de anestesia para procedimentos cirúrgicos rápidos, bem como durante a cirurgia, por infusão. A sufentanila e a remifentanila foram desenvolvidas com o objetivo de obter melhora na farmacocinética para administração intravenosa; assim, a reversão dos efeitos destes opioides é obtida rapidamente após as suas retiradas. Por outro lado, os dados disponíveis são apenas experimentais em cães, sendo, portanto, necessária melhor avaliação sobre seus usos em outras espécies animais. Estes analgésicos (incluindo a fentanila) são usados principalmente no transoperatório, graças a algumas características, como potência, tempo de latência e tempo de ação. Carfentanila (Wildnil®) A carfentanila é um potente derivado da fentanila. Estimase que seja de 8.000 a 10.000 vezes mais potente que a morfina. Da mesma maneira que a etorfina, a carfentanila é utilizada primariamente para sedação e captura de animais de zoológico ou em animais selvagens de grande porte. Também se recomenda proceder, o mais rapidamente possível, à reversãodos seus efeitos; no entanto, neste caso o antagonista a ser utilizado é a naltrexona, administrandose 100 mg deste antagonista, para cada miligrama de carfentanila. A partir da dose calculada do antagonista, administrase um quarto da dose, por via intravenosa, e os restantes por via subcutânea. A reversão dos efeitos da carfentanila será observada após 2 a 10 min. Meperidina | Petidina A meperidina é um agonista total de receptores MOP. Inicialmente, esta substância foi introduzida na clínica como agente espasmolítico do tipo atropina. Depois, verificouse que a meperidina tinha efeito hipnoanalgésico semelhante ao da morfina, porém com potência analgésica cerca de 10 vezes menor. Possui também menor atividade hipnótica, efeito constipante e ação no centro da tosse, quando comparada à morfina. Com relação à via de administração da meperidina, aconselhase o uso por via intramuscular, podendo também ser administrada pelas vias subcutânea, intravenosa e oral. Este hipnoanalgésico é rapidamente biotransformado no fígado, fato que torna seus efeitos pouco duradouros (1 a 2 h, no máximo). Com relação aos efeitos excitatórios, característicos dos hipnoanalgésicos em algumas espécies animais como o gato e o cavalo, verificase que a meperidina produz estes efeitos, porém com intensidade muito menor do que a morfina; por isto, a meperidina é o medicamento de uso rotineiro nestas espécies animais. Pode também ser utilizada em bovinos. A meperidina apresenta efeitos espasmolíticos, sendo, por isto, comumente empregada em casos de cólica equina. Por outro lado, devese considerar que a meperidina possui maior propensão para liberação de histamina, quando comparada com a morfina, e, por isso, não deve ser administrada por via intravenosa, principalmente em pequenos animais. A meperidina é comumente utilizada na medicação préanestésica ou como analgésico, particularmente no pósoperatório imediato. Oximorfona A oximorfona é um opioide semissintético, potente agonista de receptores MOP. Apresenta potência analgésica 10 a 15 vezes superior à da morfina, porém o tempo de duração de seu efeito analgésico é similar ao da morfina. A oximorfona não produz liberação de histamina quando administrada por via intravenosa, mas pode causar depressão respiratória quando administrada durante a anestesia. Além disto, pode promover também hipersensibilidade auditiva e o animal mostrarse ofegante, haja vista que este opioide produz desequilíbrio do centro termorregulador hipotalâmico. A oximorfona vem sendo empregada há alguns anos, nos EUA, em gatos, mostrando ser um medicamento bastante seguro para uso nesta espécie animal, os quais apresentam excitação dosedependente a este hipnoanalgésico. O grande empecilho para o uso mais amplo deste medicamento é o seu alto custo. A duração do efeito da oximorfona é de 2 a 4 h, entretanto, se utilizado por via intravenosa, este período de tempo é menor. Tem efeito bastante semelhante à hidromorfona, sendo este último opioide mais barato. Pentazocina A pentazocina é um derivado benzomorfânico sintético com seletiva ação agonística em receptores KOP; por outro lado, apresenta fraca ação antagônica em receptores MOP. A pentazocina é bem absorvida após a administração oral, intramuscular, subcutânea ou intravenosa. Em relação ao efeito analgésico, possui metade da potência da morfina. Este opioide promove pequeno período de analgesia; por outro lado, devese considerar que a meiavida plasmática varia muito entre as diferentes espécies animais; assim, em cães, esta é de aproximadamente 22 min, enquanto em gatos é de 84 min e, em equinos, de 97 min. A pentazocina não causa depressão respiratória e produz pequena sedação em doses terapêuticas. Este opioide pode produzir diminuição da motilidade do trato gastrintestinal. A principal indicação para uso da pentazocina é no pós operatório e na cólica, em equinos. Tramadol O tramadol é um analgésico de ação central, exercendo seus efeitos por ser um fraco agonista de receptores MOP. É similar, em muitos aspectos, à meperidina, além disso, o tramadol apresenta efeitos relativos à captação de norepinefrina e liberação de serotonina das vesículas na terminação nervosa. Esta característica faz com que haja um aumento do efeito analgésico. O tramadol é uma mistura racêmica; o (+) enantiômero tem a ação opioide e serotoninérgica, enquanto o (–) enantiômero tem a ação noradrenérgica (i. e., inibe a captação). O sinergismo desses três mecanismos parece ser o responsável pelo efeito analgésico. O tramadol é um medicamento alternativo aos opioides puros e é empregado em pacientes que requerem tratamento para dores de leves a moderadas. O tramadol é considerado um analgésico moderado, entretanto pode ser utilizado com segurança com outros analgésicos, incluindose os antiinflamatórios não esteroidais, quando de terapias multimodais. O tramadol, por meio de sua ação no sistema serotoninérgico, pode ser um medicamento modificador de comportamento, semelhante aos antidepressivos, e isto tem sido verificado em seres humanos, porém em animais tais efeitos não foram ainda investigados. É um analgésico de grande interesse na clínica veterinária, haja vista que pode ser administrado por via oral, pelos proprietários em domicílio. Antagonistas narcóticos Naloxona A naloxona ( Narcan®) se liga firmemente a todos os receptores opioides, particularmente possui grande afinidade por receptores MOP, entretanto não produz efeito; assim, esta substância desloca, competitivamente, a substância agonista. É o medicamento de escolha para antagonizar efeitos dos hipnoanalgésicos, já que é isento de qualquer efeito agonista. Os usos mais comuns para a naloxona são para reverter os efeitos sedativos dos opioides e impedir a depressão respiratória e a excitação. Após a administração por via intravenosa, observamse rapidamente seus efeitos (1 a 2 min); por outro lado, duram apenas cerca de 1 h. Assim, em alguns casos em que a meiavida do opioide é longa, podese verificar o reaparecimento dos efeitos agonistas; portanto, se necessário, podese administrar novamente a naloxona, mas desta vez este procedimento deve ser realizado por via subcutânea. Recentemente, desenvolveuse o nalmefene (Revex®, não produzido no país), que é também um antagonista opioide puro, entretanto, tem como vantagem adicional à naloxona a meiavida maior (até 4 h). Existem muitos dados disponíveis deste medicamento para o ser humano; entretanto, em Medicina Veterinária eles ainda são escassos. Naltrexona A naltrexona é um antagonista que atua em todos os receptores opioides. A naltrexona parece ser mais efetiva no bloqueio dos efeitos euforizantes produzidos pelos opioides que no bloqueio da depressão respiratória; portanto, este antagonista opioide vem sendo usado com outras finalidades, como no tratamento do comportamento de automutilação, em cães e gatos, mais do que na reversão dos efeitos de agonistas opioides. Nalorfina É um agonista parcial, antagonizando todos os efeitos da morfina e de seus congêneres; seu principal uso é no combate à depressão respiratória produzida pelos opioides. Esta substância caracterizase por atuar como antagonista na presença de um agonista; assim, quando se administra somente a nalorfina, este opioide produzirá efeito também agonista, promovendo depressão do SNC e analgesia. É usada principalmente por via intravenosa, promovendo efeito imediato. A nalorfina foi o primeiro antagonista usado clinicamente; no entanto, atualmente, tem caído em desuso, devido aos efeitos disfóricos.Levalorfano Seus efeitos são muito semelhantes aos da nalorfina, produzindo efeitos de antagonista somente quando da presença de agonistas opioides. NEUROLEPTOANALGESIA Definese neuroleptoanalgesia como o efeito produzido pela combinação de um opioide com um tranquilizante. Quando se associam estes dois grupos de medicamentos, haverá, em algumas espécies animais, profunda sedação e analgesia, sem perda da consciência. Seu uso tem como principal finalidade proporcionar a realização de cirurgias, evitandose os efeitos metabólicos e depressores centrais indesejáveis produzidos pelos anestésicos. Na clínica veterinária, utilizase a neuroleptoanalgesia principalmente em cães, podendo também ser utilizada em macacos e em algumas espécies de animais de laboratório. Em gatos e equinos, a neuroleptoanalgesia vem sendo introduzida; porém, devese ter precaução na escolha do analgésico, bem como na dose a ser administrada. Não se recomenda o uso desta associação em bovinos, devido aos efeitos estimulantes dos hipnoanalgésicos nesta espécie animal. O Quadro 15.7 mostra algumas das associações comumente utilizadas, bem como as vias de administração e espécies animais nas quais se recomenda o uso da neuroleptoanalgesia. QUADRO 15.7 Principais associações utilizadas na neuroleptoanalgesia em Medicina Veterinária. Associação Vias de administração Dose (mg/kg) Espécie animal Fentanila + droperidol IV 0,01 a 0,04 + 0,7 Cão IM 0,8 a 0,04 + 2,2 Cão Oximorfona + acepromazina IV, IM 0,05 a 0,2 + 0,05 a 0,1 Gato Meperidina + acepromazina IV 0,6 + 0,04 Cavalo Butorfanol + acepromazina IV 0,044 a 0,088 + 0,04 a 0,088 Cavalo Butorfanol + xilazina IV 0,02 + 0,8 Cavalo Morfina + xilazina IV 0,6 + 0,6 Cavalo Etorfina + acepromazina IM 0,005 + 0,02 Cavalo Fentanila + droperidol IV 0,03 a 0,05 + 0,7 Coelho IM 0,01 + 0,32 Rato IM 0,005 + 0,012 Camundongo IM: via intramuscular; IV: via intravenosa. BIBLIOGRAFIA Andraus, M.H.; Siqueira, M.E.P.B. Aspectos farmacológicos do butorfanol. Rev Port Cien Vet. v. 95, p. 1524, 2000. Bennett, R.C.; Steffey, E.P. Use of opioids for pain and anesthetic management in horses. Vet Clin Equine, v. 18, p. 4760, 2002. Benson, G.J.; Thurmon, J.C. Species difference as consideration in alleviation of animal pin and distress. JAVMA, v. 191, p. 12271230, 1987. Berry, S. Analgesia in the Perioperative Period. Vet Clin Small Anim, v. 45, p. 10131027, 2015. Blass, E.M.; Cramer, C.P.; Fanselow. The development of morphineinduced antinociception in neonatal rats: a comparison of forepaw, hindpaw and tail retraction from a thermal stimulus. Pharmacol Bioch Beh., v. 44, p. 643649, 1993. Bortolami, E.; Love, E.J. Practical use of opioids in cats: a stateoftheart, evidencebased review. J Feline Med Surg., v. 17, p. 283311, 2015.