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HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Cosme Freire Marins , 2 SUMÁRIO 1 A Educação através dos tempos .............................................................. 3 2 A Educação durante os períodos colonial e imperial ............................. 11 3 A Educação no Brasil durante a Primeira República............................... 19 4 A Educação brasileira no período de 1930 a 1960 ................................. 27 5 A Educação brasileira de João Goulart a Fernando Henrique Cardoso .. 36 6 A formação docente ao longo da História da Educação do Brasil .......... 48 , 3 1 A Educação através dos tempos Neste bloco serão abordadas, em linhas gerais, as características dos marcos principais da História da Educação no Ocidente. A Educação hoje resulta de um processo histórico que remonta à Antiguidade clássica, sofrendo alterações durante a Idade Média, quando a Igreja tinha o domínio sobre as mentes de todos. Posteriormente, foi transformada novamente com o Renascimento e os novos valores que defendia, alinhados com os interesses burgueses. Com a Revolução Industrial a sociedade ocidental mudou drasticamente e o capitalismo foi consolidado. Por fim, ideais muito presentes, até hoje, foram defendidos por pensadores durante o Iluminismo, movimento que inspirou os líderes da Revolução Francesa. Cada um desses momentos foi significativo para a evolução da Educação ocidental, os quais serão aqui apresentados. 1.1 A Educação na Antiguidade Clássica: o modelo grego O modelo de Educação desenvolvido pelos gregos está diretamente relacionado ao conceito de paideia, isto é, a formação integral da criança. No decorrer da vida, o indivíduo precisava aprender a argumentar e a expor as ideias, assim como dominar as artes da música e da guerra. Paideia se relaciona a outro conceito diretamente relacionado à educação e bastante usado até a atualidade: Pedagogia. Esta, por sua vez, deriva de dois radicais gregos: paidos, que significa criança e agoge, que pode ser traduzido como condução. Assim, o pedagogo é o condutor da criança, aquele que ensina a criança. Nessa concepção de formação integral do sujeito há a ideia de corpo sadio e mente sã. A preocupação dos gregos com relação à educação pressupunha o desenvolvimento do corpo e da mente de seus cidadãos, cujas virtudes deviam estar a serviço da cidade- estado em que nascia, a polis. , 4 Outra característica forte da educação grega se liga a seu apreço pela Filosofia, raiz da racionalidade, tão marcante no desenvolvimento da cultura ocidental. Um dos maiores expoentes da filosofia grega foi Sócrates, que viveu no século V a.C. Um aspecto marcante de sua filosofia diz respeito ao emprego da maiêutica. A maiêutica diz respeito a um procedimento por meio do qual o professor não responde diretamente o que lhe é perguntado. Ele faz outra pergunta ao interlocutor buscando levar este último a encontrar por si só as respostas que procura. Sócrates gostava de conversar com pessoas de todas as classes sociais, sempre lhes fazendo perguntas a ponto de deixar todos em dúvida em relação as suas concepções. 1.2 A Educação durante a Idade Média Uma das principais características do período medieval (séculos V ao XV) foi o predomínio da Igreja Católica e a imposição de seus valores à sociedade europeia. Sua influência foi marcante na política, sociedade, manifestações culturais e, inclusive, na economia, haja vista a instituição concentrar sob seus domínios cerca de um terço de todas as terras daquele continente. A Igreja Católica guardava e reproduzia, por meio de monges copistas, a maior parte dos textos conhecidos pelos europeus à época, muitos dos quais remontandos à Antiguidade, oriundos de diversas partes da Europa, Ásia e África. Dessa forma, a Igreja transmitia os conhecimentos que considerava importantes para a manutenção de seu poder, da mesma forma que omitia outros, os quais poderiam colocar em questão alguns dogmas ou ideias por ela defendidas. Foi por esta razão que pessoas como Galileu Galilei (1564-1642) foram perseguidas pela Inquisição, num período em que os dogmas passaram a ser questionados em razão de descobertas feitas por meio de observações científicas sobre os fenômenos. O erro de Galileu: afirmar que a Terra gira em torno do Sol e não o contrário – ele precisou negar suas ideias para não ser condenado à morte. A educação, na maior parte do período medieval, ficou a cargo da Igreja, cujo ensino tinha um forte componente religioso e era realizado nos mosteiros. Aquela Educação , 5 tinha como objetivos educar, formar e conformar, ou seja, conduzir um processo pedagógico que influenciasse nos conhecimentos, na moral e na socialização dos sujeitos em conformidade com a sociedade da época. Foi durante a Idade Média que se deram as bases para a constituição do que atualmente se chama escola tradicional, caracterizada na centralidade do professor no processo pedagógico; ênfase no ensino enciclopédico preocupado com os aspectos intelectuais, em detrimento do cuidado com o corpo; sistema de avaliação punitivo, cuja ênfase se dá na memorização de dados que são cobrados em sabatinas; e na ausência de questionamento em privilégio de uma obediência dócil. Não havia um olhar preocupado com as peculiaridades das crianças, pois não havia a concepção de infância, a qual só foi se desenvolver na modernidade. A educação era concebida como um processo de transmissão de conhecimentos das gerações mais velhas para as gerações mais novas. Como se tratava de uma sociedade estamental, em que não havia mobilidade social, ou seja, não havia a possibilidade de uma pessoa nascer em um estamento e no decorrer da vida mudar para outro, as preocupações giravam em torno do que as crianças de um determinado estamento deveriam saber para permanecer nele até sua morte. 1.3 A Educação na Modernidade O período conhecido como Modernidade se caracteriza por profundas transformações políticas, econômicas, sociais, religiosas, científicas e culturais que se seguiram ao fim da Idade Média. Fazem parte de sua inauguração o Renascimento Comercial; Renascimento Urbano; surgimento e desenvolvimento da classe burguesa, inicialmente formada por comerciantes, os quais depois passaram a atuar também como banqueiros e produtores de artigos manufaturados. Outros renascimentos foram significativos para o campo da Educação: o Renascimento Científico, que reuniu vários pesquisadores de diversas partes, incorporando conhecimentos que já haviam sido desenvolvidos por outros povos, como os árabes, a , 6 outros que eles realizavam. Nesse processo se desenvolveram novas técnicas de cultivo, de atrelamento dos animais; de construção de embarcações, de navegação, entre outras. As mudanças introduzidas pelo Renascimento Científico foram imprescindíveis para que os europeus se lançassem aos mares e encontrassem novas rotas, o que teve como principal consequência a descoberta e colonização do continente americano. Aliam-se a esse processo as transformações promovidas pelo Renascimento Cultural, o qual introduziu novas técnicas nas artes, como a representação em perspectiva, mas também incorporou novos conceitos, sobretudo, relacionados ao novo homem que surgia dentro de um amplo movimento chamado Humanismo. A ênfase passou a se concentrar no homem (antropocentrismo) ao contrário do que ocorria anteriormente, cuja ênfase recaía sobre Deus (teocentrismo), ao mesmo tempo em que a busca pelo prazer (hedonismo) tomou o lugar da austeridade medieval.Não obstante os avanços provocados pelo Renascimento Científico-Cultural houve poucas transformações no campo educacional. A Igreja continuou ainda por um tempo sendo a responsável pela alfabetização dos mais jovens nos países em que não foi questionada pela Reforma Religiosa. A desigualdade de condições permaneceu, deixando as crianças oriundas das camadas populares, em sua maioria, analfabetas. Posteriormente, ocorreram outros movimentos importantes ligados à burguesia na Europa, que repercutiram no campo educacional: A Revolução Industrial e a Revolução Francesa. 1.4 A Educação e a consolidação da burguesia: A Revolução Industrial Tanto a Revolução Industrial quanto a Francesa marcam a consolidação da burguesia, a primeira no campo econômico; a segunda, no político. A primeira fase da Revolução Industrial ocorreu por volta de 1760 na Inglaterra e a base para as grandes transformações que provocou dizem respeito à introdução das máquinas no processo produtivo. Até então, tudo era produzido por artesãos que usavam ferramentas para realizar seu trabalho. A introdução das máquinas alterou radicalmente a relação entre , 7 os trabalhadores e os meios usados para realizar a produção; a quantidade de artigos produzidos por hora de trabalho; a distribuição demográfica da população que, cada vez mais foi expulsa do campo para as cidades; as condições a que os trabalhadores eram submetidos; a acumulação de riqueza por parte dos detentores dos meios de produção (donos das fábricas, componentes da burguesia industrial). Com a industrialização o trabalho é compartimentado e o trabalhador não conhece mais todas as etapas do processo produtivo. Passa a sobreviver da venda da única coisa que lhe resta: sua capacidade de produzir, chamada força de trabalho. Como pagamento por seu trabalho ele recebe um salário. O trabalho assalariado é a principal característica do sistema, ou modo de produção, que domina o mundo praticamente inteiro a partir do século XX e se mantém até a atualidade: o capitalismo. Nesse contexto, do ponto de vista da educação das crianças, os filhos dos trabalhadores não tiveram acesso à alfabetização, pois desde pequenos ajudaram a família a compor a renda trabalhando também nas indústrias, com um agravante: assim como as mulheres, recebiam menos do que os homens adultos, cujos salários já eram baixos. Os filhos de trabalhadores que furavam o bloqueio e se escolarizavam, se tornavam técnicos para trabalhar nas indústrias, já os filhos dos burgueses recebiam formação que lhes garantia ocupar os cargos de controle das corporações. A escola que se formou no século XIX atendia às necessidades da indústria. A compartimentação das aulas em disciplinas, a organização do espaço escolar, o sinal que indica o fim ou início das aulas, a padronização dos comportamentos e ações, e a rigidez dos horários são algumas das características que apontam a concepção de educação presente nas escolas como uma preparação para o mundo da fábrica – a escola disciplina os corpos dos futuros trabalhadores. , 8 1.5 A Educação e a consolidação da burguesia: A Revolução Francesa e o Ideário Iluminista Enquanto a Inglaterra iniciava seu processo de industrialização, o contexto francês era bastante tenso, marcado por grave crise financeira e profundo descontentamento da maioria da população. A sociedade francesa era dividida em três grupos de pessoas, chamados estados. O primeiro estado era composto pelos membros da Igreja Católica, os clérigos; o segundo, pelos nobres; o terceiro, pelo restante da população – um grupo heterogêneo que tinha entre seus componentes desde membros da alta burguesia até camponeses miseráveis. Naquela sociedade havia, além da desigualdade social, uma desigualdade jurídica, ou seja, a lei era diferente para as pessoas, dependendo do estado a que pertenciam. Assim, só o terceiro estado pagava impostos e este, em meio a outros aspectos, foi o principal combustível para que o terceiro estado se rebelasse, pois, num contexto de grave crise financeira, a única saída que se via para o Estado francês conseguir recursos era por meio do aumento de impostos, porém preservando a isenção dos membros do clero e da nobreza. A Revolução Francesa foi fortemente influenciada pelos ideais iluministas, defendidos, entre outros, por pensadores como Rousseau, Montesquieu e Voltaire. A Revolução passou por diferentes fases e teve como um de seus feitos mais importantes a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. Ali se apresenta, pela primeira vez, o reconhecimento de direitos que são de todos (cabe lembrar, contudo, que a Declaração se referiu aos “homens e cidadãos”, o que evidencia que, não obstante os avanços, a mentalidade patriarcal ainda manteria as mulheres em segundo plano por um período considerável). Outro importante marco da Revolução Francesa foi a constituição civil do clero, por meio da qual a Igreja perdeu seus bens e direitos em território francês, além de se ver separada do Estado, pelo princípio que o estabelece como laico. No período napoleônico a Educação recebeu atenção por parte do governo, quando foram criadas escolas públicas, cujo ensino era laico e preconizava a formação de cidadãos favoráveis , 9 aos ideais revolucionários em conjunto com os defendidos pelos iluministas, que preconizavam a razão em detrimento da fé. Conclusão A Educação ocidental, da qual a brasileira faz parte, tem uma história que remonta à Antiguidade. Pode-se considerar a influência do mundo grego como a primeira a compor aquele processo, valorizando o equilíbrio entre corpo e mente, buscando a formação integral do sujeito. A Filosofia também teve importante papel para o desenvolvimento da Educação na Grécia Antiga, pelo menos em cidades como Atenas, onde era mais cultivada. Posteriormente, durante a Idade Média, a Europa se viu imersa em um contexto marcado pelo predomínio da Igreja, que monopolizou a conservação, produção e transmissão do conhecimento por praticamente um milênio. A Educação medieval tinha forte componente religioso e foi fundamental para a manutenção do status quo. Ela ocorria nos mosteiros e os religiosos compunham o grupo de pessoas letradas da época. Mudanças profundas foram trazidas pela Modernidade. Inovações técnicas e aumento da produção acabaram por fortalecer o comércio, fazendo as antigas cidades crescerem e outras novas surgirem. O fortalecimento dos comerciantes foi acompanhado pelo surgimento de novos valores, diferentes dos medievais, que influenciaram as artes profundamente. Os experimentos e observações científicas, por sua vez, trouxeram novas teorias acerca dos fenômenos da natureza, não obstante as perseguições religiosas. A burguesia se fortaleceu e conseguiu realizar a Revolução Industrial, a qual transformou a economia e a sociedade, consolidando o capitalismo no mundo. Por outro lado, seus ideais foram defendidos pelos pensadores do Iluminismo, os quais criticavam a desigualdade jurídica, a forte intervenção do Estado na economia e o governo absolutista. , 10 A Educação passou a sofrer influência em razão das necessidades desse novo mundo industrial que se formava, cujas escolas foram concebidas como uma preparação para o mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que os ideais iluministas também se fizerem presentes, sobretudo em razão da primazia da ciência e da razão como orientadores do currículo. Referências MANACORDA, Mário Alighiero. História da Educação: da antiguidade aos nossos dias. 12ª ed. São Paulo: Cortez, 2006. SAVIANI, Dermeval. Marxismoe pedagogia. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, SP. 2011. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8639892/74 55Acesso em: 10 ago. 2019. , 11 2 A Educação durante os períodos colonial e imperial A história do Brasil se divide em três períodos: colonial (1500-1822), imperial (1822- 1889) e republicano (1889 até a atualidade). Embora o mais extenso corresponda ao período colonial (mais de trezentos anos), as grandes transformações econômicas e políticas ocorreram a partir da proclamação da independência e, com mais intensidade, a partir da proclamação da república. Esse bloco é dedicado ao estudo da educação pública no Brasil de 1500 a 1822, cujos marcos significativos podem ser reconhecidos pela atuação dos jesuítas; pelas mudanças provocadas em decorrência das reformas pombalinas; pela vinda da família real ao Brasil; pelas alterações introduzidas em consequência da primeira constituição do Brasil e pelas reformas educacionais durante o império. Esses assuntos comporão as seções deste bloco. 2.1 Pedagogia jesuítica A educação institucional no Brasil só foi implementada quase cinquenta anos após o descobrimento oficial, ocorrido em 1500. De 1532 a 1549 o Brasil foi submetido ao regime de capitanias hereditárias, substituídas pelo Governo Geral, o qual teve como primeiro governador Tomé de Souza. Na mesma viagem em que o novo governador aportou em terras brasileiras, desembarcaram três jesuítas, dos quais o que merece destaque por sua atuação no Brasil foi o padre Manoel da Nóbrega. Posteriormente, outros jesuítas para auxiliar os esforços de Nóbrega. A atuação dos jesuítas naquele período foi marcada pela criação de escolas de ordenação, cujo objetivo era a formação de mais padres e, ao mesmo tempo, instruir conforme a ordem jesuítica os filhos de colonos brancos e dos mestiços. , 12 O plano desenhado por Nóbrega para o ensino das crianças, numa primeira etapa, era composto pelo ensino de Língua Portuguesa, Doutrina Cristã e Escola de Ler e Escrever. Numa segunda etapa, previa o ensino de Música Instrumental e de Canto orfeônico. Os estudantes egressos dessa segunda etapa tinham dois caminhos a seguir: concluir os estudos com o aprendizado profissional agrícola ou prosseguir em aulas de Gramática e concluir os estudos na Europa. A partir de Nóbrega, os jesuítas praticamente monopolizaram o ensino regular escolar. Os filhos das elites estudavam em seus colégios, mesmo quando não desejavam entrar para a carreira eclesiástica, por falta de opção, pois praticamente não havia outras instituições escolares na colônia. A Companhia de Jesus desenvolveu um plano de estudos chamado Ratio Studiorum, que articulava um curso básico de Humanidades com outro de Filosofia, seguido por outro de Teologia. A conclusão dessas etapas culminava com uma viagem à Europa. Muitas famílias abastadas se responsabilizaram pela educação dos filhos contratando preceptores ou ainda os deixando sob a responsabilidade de um familiar mais letrado – assim, as instituições escolares jesuíticas se especializaram mais na educação de jovens já basicamente instruídos. Segundo Ghiraldelli Júnior (2009), os colégios jesuíticos foram muito influentes no período colonial e os padres jesuítas gozaram de um respeito considerável. No momento em que a Companhia de Jesus foi expulsa do Brasil, em 1759, havia mais de cem estabelecimentos de ensino sob sua responsabilidade, considerando-se as escolas de ler e escrever, os seminários, as missões, as residências e os colégios. , 13 2.2 A Educação e as Reformas Pombalinas O Marquês de Pombal, primeiro-ministro de D. José I, concentrou muito poder enquanto permaneceu no cargo e empreendeu uma série de reformas visando modernizar Portugal e suas colônias (econômica, política e culturalmente), as quais receberam o nome de reformas pombalinas. Dentre suas reformas, o Marquês de Pombal expulsou a Companhia de Jesus de todas as possessões de Portugal por temer que a ordem ficasse muito poderosa e pudesse ameaçar a integridade territorial dos domínios portugueses. Com a expulsão dos jesuítas das possessões portuguesas teve início um projeto do que se pode chamar de ensino público, isto é, um ensino mantido pelo Estado e voltado para a formação dos cidadãos em conformidade com os interesses estatais, ao contrário do que ocorria antes, cujo ensino era vinculado a uma ordem religiosa que estava preponderando em relação ao Estado. Com a assunção da educação por parte do Estado, desapareceu o curso de Humanidades, sendo substituído pelas “aulas régias”, as quais eram avulsas e versavam sobre Retórica, Filosofia, Grego e Latim. Os professores ensinavam em suas próprias casas e recebiam uma subvenção do Estado, que representava um valor bem baixo. Assim como durante a educação jesuítica, os egressos do sistema de educação terminavam seus estudos na Europa, em geral em Portugal. Alguns intelectuais que iniciaram seus estudos naquele sistema de ensino, ao retornarem ao Brasil fundaram escolas e instituições que alcançaram prestígio considerável. Um exemplo disso é o Seminário de Olinda, fundado em 1800 por José Joaquim de Azeredo Coutinho, o qual foi responsável pela formação dos futuros padres que desenvolveram muito conhecimento nas áreas de Matemática e Ciências, contribuindo para o desenvolvimento intelectual no período final da colônia e durante o império. , 14 2.3 A vinda da família real e as consequências para a Educação Outro marco significativo da História do Brasil que trouxe consequências para a Educação realizada nestas terras foi a vinda da família real e da corte portuguesa para o Brasil, os quais fugiam das invasões napoleônicas com proteção inglesa, deixando a população portuguesa sem governo, a enfrentar as tropas invasoras. A vinda da família real ao Brasil proporcionou mudanças consideráveis no quadro das instituições educacionais da época. A sede do reino português passou a ser o Brasil, quando houve a criação da Academia Real da Marinha (1808), da Academia Médico- Cirúrgica da Bahia (1808), da Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro (1809) e da Academia Real Militar (1810); além de outros estabelecimentos, como o Jardim Botânico (1808), a Imprensa Régia (1808), a Biblioteca Real (1810) e o Museu Real (1818). Contudo, a população em geral continuou iletrada e sem acesso às instituições educacionais. Durante a permanência de D. João VI, segundo Ribeiro (1993), não obstante a criação de todas aquelas instituições, o ensino primário não recebeu maior atenção do Estado. De acordo com Ghiraldelli Júnior (2009), o ensino foi estruturado em três níveis: primário, secundário e superior. Cabia ao primário a responsabilidade pela escola de ler e escrever, enquanto o secundário se manteve dentro do esquema das aulas régias com o acréscimo de novas disciplinas. Foram criados vários cursos profissionalizantes de nível médio e superior bem como voltados à carreira militar. Surgiram os Cursos de Cirurgia na Bahia, Cirurgia e Anatomia no Rio de Janeiro e Curso de Medicina no Rio de Janeiro. Em 1821, pressionada pelos portugueses após a derrota de Napoleão, a Corte retornou para Portugal, quando permaneceu no Brasil D. Pedro I na condição de regente. No ano seguinte, D. Pedro I proclama a independência do Brasil, outorgando a Constituição de 1824. , 15 2.4 A Constituição de 1824 e a Educação O texto da primeira Constituição brasileira continhaum tópico específico dedicado à Educação, o qual concebia a ideia de um sistema nacional de educação, discriminando que o Império deveria possuir escolas primárias, ginásios e universidades. Contudo, manteve-se o descompasso entre as necessidades e os objetivos propostos, o que pode ser exemplificado pela adoção do método lancasteriano de ensino, por lei em outubro de 1827. O método lancasteriano, também conhecido por sistema de ensino mútuo ou sistema monitorial, foi uma prática iniciada na Índia pelo pastor protestante Andrew Bell (1753-1832). Em 1798, em razão de carência de recursos, Joseph Lancaster (1778- 1838) o recriou na Inglaterra, obtendo certo êxito. A ideia básica é a de usar alunos mais adiantados para ensinar grupos de alunos menos adiantados, sob a supervisão de um inspetor (que não necessariamente precisaria ter qualquer experiência em magistério). Com isso, um professor poderia conduzir o ensino em turmas numerosas, fato que revelava a insuficiência de professores, de escolas e de uma organização mínima para a educação nacional. O império só se consolidou efetivamente em 1850, com a diminuição das divisões internas e a economia cafeeira engrenou após a decadência da mineração. Essas mudanças no quadro político possibilitaram transformações importantes para a educação institucional. Dessa forma foi criada em 1854 a Inspetoria-Geral da Instrução Primária e Secundária do Município da Corte (Rio de Janeiro), que tinha a atribuição de orientar e supervisionar o ensino, tanto público quanto particular. Além disso, cabia à inspetoria o estabelecimento das regras para o exercício da liberdade de ensino e para a preparação dos professores primários; a reformulação dos estatutos da Academia de Belas-Artes; a reorganização do Conservatório de Música; e a reformulação da Aula de Comércio da Corte. Contudo, cabe notar que o aparato institucional de ensino era carente com a formação científica. Nessa época, segundo Ghiraldelli Júnior (2009) quem procurava uma boa formação devia recorrer a algumas instituições que se destacavam. No caso dos cursos , 16 jurídicos, deveriam se deslocar para Olinda e Rio de Janeiro; da carreira médica, Bahia e Rio de Janeiro; de engenharia, Escola Politécnica do Rio de janeiro. Havia ainda os cursos militares do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Fortaleza; o curso da Marinha, no Rio de Janeiro; o ensino artístico, também no Rio de Janeiro; e o ensino religioso, em seis seminários. O destaque do período imperial na educação foi, sem dúvida, a criação do Colégio Pedro II em 1838, cujo destino foi se apresentar como modelo de ensino. Entretanto, a instituição nunca se consolidou realmente como modelo de ensino secundário, mas como uma instituição preparatória para o ensino superior. Sofreu várias reformas curriculares durante o império, que ora acentuaram a formação literária dos alunos em detrimento da sua formação científica, ora inverteram a ênfase, conforme as disputas entre o ideal humanista e o ideário positivista. Quando este último estava em vantagem, o colégio incorporava mais disciplinas científicas; quando perdia terreno, o currículo privilegiava a literatura. 2.5 As reformas educacionais durante o Império Além do Colégio Pedro II, outro ponto que merece destaque com relação à Educação do Império foi a chamada Reforma Leôncio de Carvalho, que entrou em vigor com a promulgação do Decreto 7.247 de 1879. Com o decreto, o ministro Leôncio de Carvalho, que também era professor da Faculdade de Direito de São Paulo, instituiu a liberdade do ensino primário e secundário no município da Corte e a liberdade do Ensino Superior em todo o país. Por liberdade de ensino, a nova norma entendia que todos os que se considerassem capacitados a ensinar, poderiam expor suas ideias e adotar os métodos que lhes conviessem. O decreto ainda concebia como incompatíveis o trabalho do magistério com aquele exercido em cargos públicos ou administrativos. Por fim, entendia que a frequência aos cursos secundários e superiores era livre, que os alunos poderiam aprender com quem lhes conviesse e, ao fim, deveriam se submeter a exames de seus estabelecimentos. , 17 Especificamente em relação ao Colégio Pedro II, um ano antes, o mesmo Leôncio de Carvalho havia instituído a frequência livre, os exames vagos e a isenção do estudo de religião para não católicos. O império, assim procedendo, tornou o ensino brasileiro mais um sistema de exames e menos um projeto educacional público. Conclusão Neste bloco vimos como a educação foi realizada no Brasil durante os períodos colonial e imperial, o que corresponde a mais de 350 anos. É de se ressaltar a importância dos jesuítas com relação ao ensino, até sua expulsão da colônia, cujo vazio tentou-se completar em parte com preceptores que ensinavam em suas próprias casas ou, no caso de famílias abastadas, iam até a dos alunos. A vinda da família real ao Brasil promoveu a criação de várias instituições de cunho científico, cultural ou educacional sem garantir acesso à maior parte da população. Com a proclamação da independência e a consequente outorga da primeira constituição brasileira, em 1824, não houve avanços significativos em termos educacionais, destacando-se a adoção do método lancasteriano com o propósito paliativo de compensar a carência de docentes e escolas no país. Posteriormente, a principal reforma realizada durante o período imperial, sob autoria do ministro Leôncio de Carvalho, pode ser considerada um retrocesso ao privilegiar os exames em detrimento do processo pedagógico. No próximo bloco será abordada a educação na Primeira República. , 18 Referências GHIRALDELLI, Paulo. Filosofia e história da educação brasileira: da colônia ao governo Lula. 2ª ed. Barueri, São Paulo: Manole, 2009. MARINS, Cosme Freire. Currículo de História no Ensino Médio e avaliação de egressos: a relação entre os documentos orientadores da disciplina e os exames oficiais (Enem e Vestibulares) – 2009-2013. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação – Universidade de São Paulo, São Paulo. 2016. NASCIMENTO, Maria Isabel Moura et. al. Instituições escolares no Brasil Colonial e Imperial. Histedbr, pag. 1-28. Disponível em: <http://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/artigos_ frames/artigo_ 075.html > Acesso em: 10 ago. 2019. RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da educação escolar no Brasil: notas para uma reflexão. Paideia, Ribeirão Preto (SP), n.4, fev./jul. 1993. , 19 3 A Educação no Brasil durante a Primeira República Neste bloco será abordada a educação durante a Primeira República. É importante destacar que o movimento que derrubou a monarquia e instituiu o regime republicano não teve caráter popular. Foi realizado por meio de um movimento militar com apoio de setores da economia cafeeira. Assim, pode-se imaginar que as transformações ocorridas na educação continuaram a não atender às necessidades das camadas populares. Abordaremos também a organização do ensino de 1889 a 1920, os ideários educacionais em disputa, as reformas educacionais federais, a situação do ensino de 1920 a 1930, e os ideários da Escola Nova e Conservador Católico. 3.1 A situação do ensino de 1889 a 1920 O ensino primário no período republicano até 1912 era caracterizado por ter apenas um professor, cujos alunos de diferentes níveis ficavam em apenas uma classe: o grande dilema que se colocava aos professores dizia respeito ao atendimento de mais alunos com menor qualidade, ou de maior qualidade com menor número de alunos. A partirdos anos 1920 a educação passou a ser tema de debates entre políticos e educadores, cujo principal ponto de preocupação foi a escola primária. Assim, alguns setores passaram a defender sua obrigatoriedade e seu caráter democrático e republicano. Contudo, durante as primeiras décadas da República a escola primária se manteve nos mesmos moldes da velha “Escola de Primeiras Letras” do período imperial. Por outro lado, havia a preocupação que mobiliza discursos até a atualidade – a necessidade de garantir educação de qualidade a todos, a fim de diminuir o fosso existente entre as elites e as classes trabalhadoras. Em razão daquelas preocupações e das necessidades econômicas, em 1906 o governo federal criou o ensino profissionalizante, sob a responsabilidade do ministério da Agricultura, Indústria e , 20 Comércio – pelo nome da pasta é possível deduzir os principais objetivos que o governo tinha com a criação daquela modalidade de ensino. Com relação à escola secundária não houve mudanças significativas nos primeiros anos da República, a qual foi objeto de disputas conceituais em torno da ênfase nas humanidades literárias ou nas humanidades científicas. Continuou sendo ocupada por alunos das elites econômicas, cujo intuito das famílias era que seus filhos atingissem o ensino superior. Dessa forma, ocorreram mudanças que visavam atender às demandas do mercado com a criação do ensino profissionalizante, mas com relação à escola primária houve poucos avanços, apesar das diversas tentativas de reforma na Educação brasileira que serão analisadas mais adiante. 3.2 Ideários educacionais em disputa na Primeira República Uma das características sociais do período inicial da República foi a ampliação das classes médias, concomitantemente ao aumento da urbanização. A classe média apoiou a proclamação da república e tinha aspirações para seus filhos, as quais concebiam um destino que os livrasse do trabalho comum, braçal. Assim, desejavam a escolarização que os formasse para exercer cargos burocráticos. Em razão disso, passou-se a discutir muito a questão da educação para as crianças. Naquele momento surgiram dois movimentos em torno da questão da educação: um primava pela abertura de escolas, o outro se preocupava com os métodos e conteúdos de ensino. Ambos os movimentos disputaram a cena durante a Primeira República, envolvendo pensadores, políticos e outros setores da sociedade. No início da República houve a primazia do movimento que preconizava o aspecto quantitativo, que se repetiu por volta do período da Primeira Guerra Mundial (1914- 1918), associado ao trabalho das Ligas Nacionalistas, as quais surgiram em razão da guerra e tinham por propósito incentivar o patriotismo. Segundo Ribeiro (1993), com a , 21 industrialização crescente e sua demanda por trabalhadores, as Ligas pressionaram o governo pela escolarização. De acordo com Ribeiro (1993), após a Primeira Guerra Mundial, por volta de 1920, surgiu um movimento de descontentamento com os rumos da República, haja vista o termo ser definido como “coisa pública”, ou seja, num regime republicano as decisões do governo devem atender ao interesse público. Um dado que reforça a ideia de que a coisa pública não havia se instalado no Brasil é representado pela taxa de 75% da população em idade escolar ser analfabeta. Naquele mesmo período, o mundo assistiu à emergência dos EUA como potência mundial. Isso se explica pelo fato de o país não ter sofrido destruição em razão da guerra e de que o conflito, ocorrido principalmente na Europa, havia potencializado sua capacidade industrial, ao mesmo tempo em que o parque industrial europeu fora aniquilado. A partir de então, os EUA passaram a exercer forte influência sobre o Brasil em vários campos. Assim, o Brasil passou a absorver de modo mais intenso a produção acadêmica voltada à Educação, produzida nos EUA. Dessa forma ganha força o movimento mais preocupado com a qualidade da Educação. Esse movimento não se preocupava apenas com a abertura de escolas, mas também com os livros adotados, metodologia empregada, arquitetura escolar, relação ensino- aprendizagem, gestão, maneiras de avaliar e com os demais aspectos que envolvem o fazer escolar. Esses ideários, de alguma maneira, influenciaram as reformas propostas para a Educação durante a Primeira República, cujo principal problema dizia respeito à imensa massa de pessoas analfabetas naquele período. Cabe lembrar que o positivismo também exerceu influência no pensamento pedagógico da Primeira República. Caracterizado pelo cientificismo e pragmatismo, cujo método deveria orientar todas as ciências, o positivismo alcançou bastante expressão no período, o que se observa em algumas reformas propostas. , 22 3.3 Reformas Educacionais Federais na Primeira República Ghiraldelli (2009) afirma que os primeiros anos do período republicano foram marcados pela apresentação de várias reformas educacionais. A Reforma Benjamin Constant (1890), de caráter muito amplo, propunha, entre outras mudanças, a inclusão de disciplinas científicas nos currículos e buscou organizar de forma mais eficiente os vários níveis do sistema educacional. A reforma não saiu do papel, pois para que se concretizasse faltava infraestrutura administrativa que lhe assegurasse a implantação e o apoio político das elites, as quais viam com receio ideias que pudessem colocar em xeque os valores e padrões da velha mentalidade aristocrático-rural. Outra reforma ficou conhecida como Código Epitácio Pessoa, exposta no Decreto nº 3.390, de 1º de janeiro de 1901, a qual propunha a revisão dos currículos, buscando dar mais ênfase à literatura que às matérias científicas, introduzindo a Lógica e retirando a Biologia, a Sociologia e a Moral. Em 5 de maio de 1911 foi publicado o Decreto nº 8.659, conhecido como Reforma Rivadávia, a qual tinha orientação positivista e que tentou infundir um critério prático no estudo das disciplinas, defendendo a liberdade de ensino e de frequência, abolindo o diploma em favor de um certificado de assistência e aproveitamento e transferindo os exames de admissão no ensino superior para a faculdade, com o objetivo de que o secundário se tornasse formador do cidadão e não do candidato ao nível seguinte. Seus resultados foram desastrosos, o que levou a outras reformas segundo Ghiraldelli (2009). A Reforma Carlos Maximiliano (1915) anulou as alterações realizadas pela Reforma Rivadávia. Criou exames de vestibular aos cursos superiores, a obrigação do curso secundário para ingresso nas faculdades, retirou as alterações feitas no ensino superior e recuperou a oficialização do ensino, resolveu o problema da expansão controlada com a criação do vestibular e a obrigatoriedade do diploma do curso secundário para a matrícula no superior. No processo de oscilação característico dessas reformas, revelando as disputas de projetos educacionais por parte dos diferentes agentes, em 1925 surgiu a Reforma Rocha Vaz, de caráter elitista, mantendo o controle ideológico da Educação sob o , 23 Estado por meio da inspeção escolar e do cerceamento das atividades dos professores e alunos, inclusive criando a disciplina “Moral e Cívica” como obrigatória nas escolas. Essa reforma liquidou, definitivamente, qualquer possibilidade de autonomia didática e administrativa, fixando o currículo no Ensino Superior e alterando o vestibular. 3.4 A situação do Ensino de 1920 a 1930 As reformas pedagógicas não foram suficientes para a resolução dos problemas educacionais. A Educação manteve-se como reflexo do modelo socioeconômico, que nãohavia sido alterado substancialmente com o advento da República. Assim a educação acabou se mantendo preponderantemente com um caráter tradicional, de forma a não atender as necessidades da população oriunda das camadas populares. Efetivamente houve certa ampliação do ensino secundário, contudo apenas no ensino particular. Houve um pequeno aumento do pessoal docente no ensino público, mas foi acompanhado de diminuição nas escolas e matrículas. As elites econômicas, cientes da precariedade do ensino público, passaram a matricular seus filhos nas escolas particulares. Num país cuja base da economia era a agricultura, do ponto de vista econômico, não havia necessidade de se escolarizar toda a população, pois bastava a elite dominante ser letrada. Dessa forma, o governo não se empenhou em ampliar a rede secundária. Segundo Ribeiro (1993), a elite, detentora dos meios materiais, matriculava seus filhos nas escolas particulares vislumbrando que atingissem o ensino superior e se tornassem os futuros administradores do país. Isso explica porque a estrutura educacional não foi alterada no período. As mudanças ocorridas na economia, com a crise do modelo agrário-comercial- exportador e o impulso à industrialização, com o modelo nacional-desenvolvimentista fazem com que a burguesia se fortaleça e demonstre seu descontentamento com o pensamento e ideologia dominantes, os quais não atendem a seus interesses. Assim, , 24 os anos 1920 são marcados por movimentos políticos, artísticos e intelectuais que expõem as mudanças em curso. Do ponto de vista político, o período assistiu à revolta do Forte de Copacabana (1922), à liderada por Isidoro Dias Lopes (1924) e à Coluna Prestes (1924-1927). Do ponto de vista artístico, a Semana de Arte Moderna de 1922 marcou um momento significativo em que se propôs romper com os valores até então reinantes no país, buscando lhe perscrutar sua verdadeira essência, marcada pela desigualdade social, miséria e analfabetismo. Esse contexto inspirou movimentos intelectuais preocupados com a Educação no país, dos quais o mais significativo foi a Escola Nova. 3.5 A Educação e os ideários da Escola Nova e Conservador Católico O escolanovismo se inspirou em debates educacionais que ocorriam na Europa, onde desde o século XIX havia a preocupação com a individualidade do aluno. No Brasil, os defensores desse ideal ficaram conhecidos por pioneiros da Escola Nova e suas principais defesas giravam em torno do ensino leigo, universal, gratuito e obrigatório. Também preconizavam a reorganização do sistema escolar, enfatizavam a importância do Estado para a Educação, da mesma forma que enalteciam o papel desta para a reconstrução nacional. Visando solucionar os problemas do país, os escolanovistas apelavam para o humanismo científico-pedagógico, isto é, a convivência harmoniosa do homem com as máquinas, de tal forma a criar condições para que os indivíduos convivessem com a ciência e a tecnologia, a partir da concepção de que tudo o que existe está a serviço e disponibilidade do homem. Entre 1924 e 1929 houve reformas educacionais promovidas pelos estados, voltadas para o nível primário. Essas reformas foram muito influenciadas pelo escolanovismo, destacando-se a de Lourenço Filho, em 1923, no Ceará; a de Anísio Teixeira, em 1925, na Bahia; a de Francisco Campos e Mário Casassanta, em 1927, em Minas Gerais; a de Fernando de Azevedo, em 1928, no Distrito Federal; e a de Carneiro Leão, também em , 25 1928, em Pernambuco. Em todas essas reformas houve uma junção entre o modelo econômico, político e educacional. Eram as ideias liberais pragmáticas da Escola Nova que influenciava as reformas, cujas principais características podem ser assim resumidas: a) A Escola Primária Integral buscava exercitar nos alunos os hábitos de educação e raciocínio, noções de Literatura, História e Língua Portuguesa, desenvolvendo a higiene e o físico; b) O Ensino Médio integrava o Primário e o Superior, desenvolvendo o espírito científico com vários tipos de cursos; c) A defesa da organização universitária voltada para o ensino, a pesquisa e a formação profissional, e a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de acordo com Ribeiro (1993). Embora houvesse diretrizes desejáveis para o Ensino Médio e Superior, essas reformas ficaram restritas ao curso Primário. Nas disputas ideológicas no campo da Educação, o ideário escolanovista acabou sendo contraposto ao pensamento conservador católico. A ideologia católica remonta ao tempo em que a Igreja dominava as relações sociais e concebe o desmoronamento das instituições vigentes como consequência do afastamento do homem em relação a Deus. A visão dos pensadores da educação de origem católica tem uma filosofia pedagógica coerente com a visão cristã de mundo, a qual defende um ensino religioso para a formação cristã, colocando a criança na centralidade do processo educacional e preconizando a separação de alunos e alunas. , 26 Conclusão Neste bloco foi abordada a situação da Educação na Primeira República, com destaque para o fato de que, durante todo o período, a escolarização não foi efetivada como um direito, deixando parcelas significativas da população no analfabetismo, reproduzindo assim as desigualdades sociais herdadas desde o período imperial, não obstante o fortalecimento de novos atores, vinculados à burguesia, enquanto as elites agrárias entraram em declínio. Neste contexto foram propostas muitas reformas, influenciadas por diferentes interesses e correntes de pensamento. Assim, positivistas, liberais, desenvolvimentistas e conservadores católicos protagonizavam as disputas em torno dos projetos educacionais, os quais visavam ao atendimento de setores também em disputa: elites agrárias, burguesia, classes médias e classes trabalhadoras – estas últimas muito mais numerosas e com menos poder na correlação de forças que se estabeleceu durante todo o período, no tocante à Educação. O próximo bloco é dedicado à situação da Educação durante o período que se estende do início da Era Vargas, em 1930, até o governo de Juscelino Kubitschek, em 1960. Referências GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Filosofia e história da educação brasileira; da colônia ao governo Lula. 2ª ed. Barueri, SP: Manole, 2009. RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da educação escolar no Brasil: notas para uma reflexão. Paideia, Ribeirão Preto, SP, n.4, fev./jul. 1993. , 27 4 A Educação brasileira no período de 1930 a 1964 O ano de 1930 é marcado pela Revolução que acabou com o predomínio das oligarquias no cenário político brasileiro. Práticas fraudulentas nas eleições, as quais impediam que outras forças conseguissem subir ao poder, aliadas à crise econômica mundial provocada pela queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929 e a forte insatisfação de setores urbanos e militares com os rumos da política, levaram à revolução. Com a vitória dos revolucionários, Getúlio Vargas subiu ao poder, permanecendo como presidente da república até 1945 (Era Vargas) e depois retornando, pelo voto, de 1951 a 1954, momento em que cometeu suicídio. Os debates em torno da Educação continuaram intensos nesse período marcado por importantes transformações de ordem administrativa, econômica, política e social as quais influenciaram significativamente os rumos da Educação. Neste bloco são abordados aspectos referentes à Educação na Segunda República (1930-1937) e durante o Estado Novo (1937-1945), o Manifesto dos Pioneiros da Educação (1932) e as mudanças relacionadasà Educação nas constituições de 1934, 1937 e 1946. 4.1 A Educação na Segunda República (1930-1937) Um dos marcos da Educação na Segunda República foi a criação do Ministério da Educação e Saúde, que teve como primeiro responsável o ministro Francisco Campos, o qual fez uma reforma no ensino superior em 1931, quando foi organizado o sistema universitário brasileiro. Logo em seguida, foi reformado o ensino secundário. Contudo essas reformas não foram tão amplas quanto era necessário. A reforma do ensino secundário proporcionou maior organicidade àquele segmento de ensino, estabelecendo definitivamente o currículo seriado, a frequência obrigatória, o estabelecimento de dois ciclos (um fundamental de cinco anos e outro complementar de dois anos), e a exigência de habilitação neles para ingresso no ensino superior. No , 28 ensino superior a reforma teve mais caráter administrativo, a qual criou órgãos universitários, tais como reitoria, conselho universitário, assembleia universitária e direção de cada escola. A instabilidade política do início dos anos 1930, em conjunto com a insatisfação das camadas populares, e com o descontentamento de setores políticos levou o governo federal a não tomar medidas imediatas mais profundas. Essa demora na tomada de decisões levou ao descontentamento daqueles educadores que participaram das reformas dos anos 1920, os quais assinaram em 1932 o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. 4.2 O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova O Manifesto dos pioneiros da Educação Nova foi escrito em 1932, o qual apresentou propostas para inovações no sistema educacional da época. Até a atualidade o Manifesto é grande referência, pois alguns dos pontos em que tocou ainda são sensíveis na realidade atual. A frase de abertura do Manifesto, escrita por Fernando de Azevedo, já demonstra a importância da Educação para os signatários do Manifesto: “Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade o da educação. Nem mesmo os de caráter econômico podem disputar a primazia nos planos de reconstrução nacional” (AZEVEDO, 2006, p. 188). O Manifesto foi publicado nos principais veículos de comunicação da época e, além de Fernando de Azevedo, foi subscrito por mais 25 intelectuais de renome na educação brasileira, dentre os quais Afrânio Peixoto, Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Roquete Pinto, Júlio de Mesquita Filho, Almeida Junior, Cecília Meireles e Edgar de Mendonça. Entre suas principais propostas, o documento apontava a necessidade de a educação ser uma ferramenta para a redução das desigualdades, o fortalecimento do papel do Estado na condução dos assuntos educacionais e, consequentemente, o fortalecimento da escola pública além do ensino laico, gratuito e obrigatório oferecido , 29 em sistema de coeducação (meninos e meninas estudando no mesmo ambiente escolar). Como se percebe, muito do que os signatários do Manifesto reivindicaram para a Educação ainda encontra ecos no século XXI. Se por um lado a coeducação e o fortalecimento do papel do Estado na condução e fiscalização do processo escolar hoje é uma realidade, as desigualdades sociais e fragilidades educacionais ainda se fazem presentes. Algumas conquistas anteriores são questionadas como a obrigatoriedade da Educação em instituições de ensino para crianças e adolescentes e a laicidade do ensino, aliadas a outros questionamentos sobre a validade do conhecimento científico – o movimento terraplanista é um claro exemplo disso. Saiba Mais O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova pode ser consultado pelo link: http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/edicoes/22e/doc1_22e.pdf 4.3 A Educação durante o Estado Novo (1937-1945) A história política do Brasil é permeada por incontáveis golpes de Estado, os quais quando questionados por seus opositores sempre são justificados como legítimos por seus apoiadores. Durante a Era Vargas houve um governo provisório que, com a Constituição de 1934, foi seguido pelo governo constitucional, o qual seria liderado por Vargas até 1938, quando haveria novas eleições. Com o intuito de permanecer no poder, em 1937, Vargas simulou uma tentativa de golpe de Estado que sofreria, realizada pelos comunistas. Antecipando-se ao suposto golpe, Vargas estabeleceu o Estado Novo, regime ditatorial de tendências fascistas, que lhe proporcionou permanecer no poder como ditador até 1945, quando então foi deposto, colocando fim à Era Vargas. , 30 Como o novo regime atendeu aos interesses da burguesia industrial, que se encontrava em plena ascensão, essa lhe rendeu apoio. Essa fase se caracterizou pela crise do café e decadência do setor agrário exportador, pelo processo de urbanização e intensa repressão às manifestações populares e à oposição como um todo. Em razão das mudanças estruturais pelas quais a sociedade passava com a instauração de um modelo nacional-desenvolvimentista baseado na industrialização, a educação sofreu mudanças em resposta às novas necessidades que surgiam, a saber, demanda por mão de obra para as funções que se abriam no mercado de trabalho. No início da década de 1940 houve estabilização do regime em razão de dois aspectos: a intensa repressão à oposição e a política de conciliação entre as classes – o populismo. Nesse período, as atenções governamentais no tocante à Educação se voltaram mais para o ensino primário e secundário, em detrimento do ensino superior. A Reforma Capanema, de forte tendência fascista, foi implantada em 1942. A ideologia preconizada por ela era voltada ao nacionalismo e patriotismo, difundindo ideias relacionadas a ordem e disciplina por meio dos cursos de Moral e Civismo e de Educação Militar para os alunos do sexo masculino das escolas secundárias. O ensino secundário passou a ser ministrado em dois ciclos de quatro e três anos. O ginasial correspondia aos quatro primeiros anos enquanto os últimos três correspondiam ao curso colegial, que apresentava duas opções: o clássico e o científico. O ensino continuou a ter caráter humanista, enciclopédico e aristocrático. Os cursos científicos e clássicos não apresentaram diferenças substanciais entre si. Houve ainda o estabelecimento do ensino comercial e o industrial. A Reforma Capanema estava em sintonia com as necessidades do empresariado, fato demonstrado pelo estabelecimento do ensino industrial e comercial. A reforma representou uma reafirmação de muitos pontos da reforma Francisco Campos e um recuo a alguns princípios proclamados pelo Manifesto dos Pioneiros. , 31 4.4 A Educação no período de 1946 a 1964 O período de 1946 a 1964 é definido por parte da historiografia que se dedica à história do Brasil como democrático-populista. Ele é composto pelos governos de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951); Getúlio Vargas (1951-1954); Café Filho, Carlos Luz, e Nereu Ramos (1954-1955, completando o mandato de Vargas); Juscelino Kubitschek (1956-1961); Jânio Quadros (janeiro-agosto de 1961); e Ranieri Mazzilli e João Goulart (1961-1964, completando o mandato de Jânio). Com a posse de Dutra foi assinada a Lei Orgânica do Ensino Primário por meio do Decreto-Lei nº 8.529, de 2 de janeiro de 1946, a qual estabeleceu uma reformulação naquele segmento educacional, retomando princípios estabelecidos pelos pioneiros da Educação em seu Manifesto de 1932. Outra reformulação importante ocorreu no ensino normal, que anteriormente era da alçada dos Estados e foi centralizado na União, por meio do Decreto-Lei nº 8.530, também de 2 de janeiro de 1946, a Lei Orgânica do Ensino Normal. Nascia maisuma das instituições constituintes do que depois ficou conhecido como “Sistema S”. O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), foi criado pelo Decreto-Lei nº 8.621, de 10 de janeiro de 1946, com estrutura semelhante ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Contudo, enquanto o Senai se subordinava à Confederação Nacional da Indústria, o Senac ficou sob a responsabilidade da Confederação Nacional do Comércio. Reformas mais profundas seriam levadas adiante pelo Ministro da Educação, Clemente Mariani, que constituiu uma comissão de educadores com a missão de propor um projeto para uma reforma geral na Educação do país. Coube a Lourenço Filho a presidência da referida comissão que em 1948 apresentou um anteprojeto de reforma a ser submetido à votação na Câmara e no Senado, o que só ocorreu em 1961, resultando na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A contraposição de ideias entre católicos e liberais teve um novo momento de disputa, cujo principal ponto de divergência foi a oposição entre escola pública e escola particular. Essa última foi defendida pela Igreja e pelos donos de escolas privadas. A , 32 Igreja argumentava que a escola pública não via seus alunos integralmente, limitando- se a desenvolver aspectos relacionados ao conhecimento formal, ao passo que apenas a escola confessional estava apta a educar, ou seja, a desenvolver não só a inteligência, como também o caráter, a partir de uma filosofia integral de vida, inexistente na escola pública. Os católicos defendiam o direito das famílias na formação integral de seus filhos e subvenções públicas para as escolas particulares, além de considerar os defensores da escola pública como comunistas, o que implica em serem inimigos de Deus, da família e da Pátria. Já os defensores da escola pública fundamentavam suas ideias na doutrina liberal-pragmática por meio da qual a Educação ajusta o indivíduo à sociedade. Quando a Lei 4.024 de 1961 foi aprovada, estabelecendo as diretrizes e bases da educação nacional, tanto tendências liberais quanto dos católicos foram contempladas. 4.5 A educação nas constituições de 1934, 1937 e 1946 A principal característica do Estado Democrático de Direito é a existência e observação de uma constituição por parte de todos os poderes instituídos, instituições, corporações e indivíduos. Quanto mais a Constituição representa os anseios da sociedade e é observada, mais se pode dizer que o país encarna a noção de Estado Democrático de Direito. O Brasil, que atualmente tem menos de duzentos anos de existência como um Estado independente, está em sua sétima constituição, cujas promulgações ou outorgas sempre acompanharam rupturas políticas. 1824: proclamação da independência (1822); 1891: proclamação da república (1889); 1934: Revolução de 1930 (1930); 1937: estabelecimento do Estado Novo (1937); 1946: redemocratização; 1967: estabelecimento do regime civil-militar (1964); 1988: redemocratização. A Constituição de 1934 inaugurou uma nova fase da história constitucional brasileira, na medida em que se dedicou a enunciar normas que extrapolam a temática , 33 tipicamente constitucional, o que se traduz na constitucionalização de direitos econômicos, sociais e culturais. Dessa forma, a constituição de 1934 estabeleceu a competência legislativa da União para traçar diretrizes da educação nacional. Dedicou seu capítulo II à Educação e à Cultura, definindo a primeira como direito de todos, correspondendo a dever da família e dos poderes públicos, voltada para consecução de valores de ordem moral e econômica. Pela primeira vez uma constituição brasileira apresentou dispositivos que organizam a educação nacional. Para tanto, determinou a previsão e especificação de linhas gerais de um plano nacional de educação e competência do Conselho Nacional de Educação para elaborá-lo; a criação dos sistemas educativos nos estados, prevendo os órgãos de sua composição como corolário do próprio princípio federativo e a destinação de recursos para a manutenção e desenvolvimento do ensino. Também instituiu a garantia de imunidade de impostos para estabelecimentos particulares, de liberdade de cátedra, de auxílio a alunos necessitados e provimento de cargos do magistério oficial mediante concurso. A Constituição de 1937, que inaugurou o Estado Novo chefiado por Getúlio Vargas, representou retrocesso nos avanços observados na anterior. A Educação foi vinculada a valores cívicos e econômicos. Não apresentou preocupação com o ensino público, que seria complementar à iniciativa privada conforme o Art. 125: “A educação integral da prole é o primeiro dever e o direito natural dos pais. O Estado não será estranho a esse dever, colaborando, de maneira principal ou subsidiária, para facilitar a sua execução ou suprir as deficiências e lacunas da educação particular” e o Art. 129: À infância e à juventude, a que faltarem os recursos necessários à educação em instituições particulares, é dever da Nação, dos Estados e dos Municípios assegurar, pela fundação de instituições públicas de ensino em todos os seus graus, a possibilidade de receber uma educação adequada às suas faculdades, aptidões e tendências vocacionais (BRASIL, 1937). Em pleno regime ditatorial, a centralização foi reforçada pela previsão de competência material e legislativa privativa da União em relação às diretrizes e bases da educação nacional, sem referência aos sistemas de ensino dos estados. , 34 A Constituição de 1946, promulgada com a redemocratização no período subsequente ao Estado Novo, retomou os princípios das edições de 1891 e 1934. A competência legislativa da União foi circunscrita às diretrizes e bases da educação nacional, enquanto aos Estados coube a legislação de aspectos locais e a gestão de seus respectivos sistemas de ensino. A educação foi definida novamente como direito de todos, prevalecendo a ideia de educação pública, a despeito de franqueada à livre iniciativa. Foram definidos princípios norteadores da educação, dentre os quais ensino primário obrigatório e gratuito, liberdade de cátedra e concurso para seu provimento, não só nos estabelecimentos superiores oficiais, mas também nos livres, merecendo destaque a inovação da previsão de criação de institutos de pesquisa. A vinculação de recursos para a manutenção e o desenvolvimento do ensino foi restabelecida. Conclusão Neste bloco abordamos a Educação num período de profundas transformações políticas, econômicas e sociais, as quais repercutiram bastante no campo educacional. Destacam-se as necessidades do mercado de trabalho que se transforma e exige adequações no sistema educacional, com a formulação de várias reformas e o estabelecimento de novos segmentos e sistemas de ensino, como o Ensino Profissionalizante e a criação do Senai e Senac. Os debates entre intelectuais com diferentes concepções educacionais também foram significativos para a formulação de reformas e de leis específicas que normatizaram a educação. Os debates mais significativos representam uma continuidade em relação às disputas ideológicas presentes no campo educacional na Primeira República, contrapondo católicos a liberais. , 35 Referências AZEVEDO, Fernando de. et. al. Manifesto dos pioneiros da educação nova. Revista Histedbr On-line Campinas, SP, n. especial, p.188–204, ago. 2006. Disponível em: http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/edicoes/22e/doc1_22e.pdf. Acesso em: 10 ago. 2019. BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. 16 jul. 1934. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao34.htm. Acesso em: 17 ago. 2019. BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil do Brasil. 10 nov. 1937. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ Constituicao/Constituicao37.htm. Acesso em: 17 ago. 2019. BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. 18 de set. 1946. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ Constituicao46.htm. Acesso em: 17 ago. 2019. GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Filosofia e história da educação brasileira; da colônia ao governo Lula. 2ª ed. Barueri, SP: Manole, 2009. MARINS, Cosme Freire. Currículo de História no Ensino Médio e avaliação de egressos: a relação entre os documentos orientadores da disciplina e os exames oficiais (Enem e Vestibulares) – 2009-2013. 2016. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação – Universidade de São Paulo, São Paulo. RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da educação escolar no Brasil: notas para uma reflexão. Paideia, Ribeirão Preto, SP, n.4, fev./jul. 1993. , 36 5 A Educação brasileira de João Goulart a Fernando Henrique Cardoso Neste bloco serão abordados os eventos relacionados à Educação no período de 1961 a 2000, a partir do contexto sociopolítico que antecedeu o estabelecimento do regime civil-militar. Castello Branco foi o primeiro presidente do regime que tomou o poder em 1964 por meio de um golpe de Estado, derrubando João Goulart, sob a acusação de que estava levando o Brasil ao comunismo. A ditadura deixou marcas profundas em todas as dimensões sociais, inclusive na Educação. Estudaremos o contexto que antecedeu o golpe, a primeira LDB, a influência de Paulo Freire na Educação, as ações dos movimentos como o Centro Popular de Cultura, o Movimento de Cultura Popular e o Movimento de Educação de Base, bem como o contexto pós-redemocratização, quando houve a promulgação da nova Constituição, da Nova LDB e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os quais serão analisados de forma a apresentar as principais conquistas que representaram no campo educacional. 5.1 O contexto social e político que antecedeu o golpe civil-militar de 1964 Em plena Guerra Fria, a ditadura que se instaurou no país não pode ser compreendida deslocada do contexto mais amplo, marcado pela disputa por áreas hegemônicas entre as duas superpotências que emergiram após a Segunda Guerra Mundial: EUA e URSS. Sendo a América, desde o século XIX, área de influência dos EUA, com o crescimento de movimentos de esquerda na América Latina e a vitória dos revolucionários em Cuba, que levaram seu líder Fidel Castro ao poder, os EUA e as elites econômicas latino-americanas temeram a reprodução da situação cubana nos demais países da região. Assim, houve uma sequência de golpes de Estado instaurando regimes pró-EUA em todo o subcontinente, sendo o primeiro deles aquele ocorrido no Brasil, em 1964. , 37 No início dos anos 1960 os movimentos sociais estavam em ascensão. Os trabalhadores do campo se organizaram em torno das Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião. Os trabalhadores urbanos estavam se organizando em torno dos sindicatos, reunidos na Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT). Os estudantes, tanto secundaristas quanto universitários, também se articulavam em torno de suas entidades representativas maiores, a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), respectivamente. No interior desses movimentos, embora houvesse segmentos conservadores, havia a hegemonia de setores de esquerda, muitos ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) ou ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). Os movimentos sociais pressionaram por mudanças, que foram chamadas reformas de base. O governo João Goulart, no dia 13 de março de 1964, acabou cedendo e anunciou que faria as reformas no histórico comício que realizou na Central, na então Capital Federal. As reformas de base se relacionavam à estrutura agrária, administrativa, financeira, tributária e universitária. Dentre as medidas, havia a previsão de desapropriação de terras para fins de reforma agrária, a limitação de remessa de lucros ao exterior e a nacionalização do subsolo nacional. Os setores conservadores da sociedade viram o anúncio como uma clara ameaça a seus interesses, acusando-as de comunistas. Houve a mobilização de grande número de pessoas as quais saíram às ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, exigindo a retirada de Goulart do poder. No dia 1º de abril ele foi deposto, inaugurando um período de vinte anos de ditadura, com fortes impactos na área da Educação. 5.2 A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Outro aspecto importante no período que precedeu o golpe militar de 1964 foi a publicação da Lei 4.024, primeira LDB, prevista na Constituição de 1934, mas só publicada em 20 de dezembro de 1961. Em seu Art. 1º descreve os fins da Educação Nacional, a qual é “inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade , 38 humana”. Reconheceu, no Art. 2º, a Educação como direito de todos, cuja oferta “será dada no lar e na escola”. O Art 3º, incisos I e II, garantiu tanto ao poder público quanto à iniciativa particular ministrar o ensino em todos os graus, na forma de lei em vigor, e sobre o financiamento da Educação determinava que o Estado devia fornecer recursos indispensáveis para que a família e, na falta desta, os demais membros da sociedade se desobriguem dos encargos da educação, quando provada a insuficiência de meios, de modo que sejam asseguradas iguais oportunidades a todos. Os Art. 8º e 9º regulamentaram a existência dos Conselhos Estaduais de Educação e do Conselho Federal de Educação enquanto o Art. 10 deu mais autonomia aos órgãos estaduais, diminuindo a centralização do poder no MEC. A obrigatoriedade do ensino primário foi anunciada no Art. 27, enquanto sua duração de quatro a seis anos foi apresentada no Art. 26. Com relação ao financiamento, o Art. 92 limitou o investimento mínimo em Educação em 12% do orçamento da União e em 20% do orçamento dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Apesar dos avanços, o conteúdo enunciado pela LDB de 1961 representava um grande desafio a ser enfrentado num país em que 55% da população total habitava a zona rural (na região Nordeste essa taxa chegava a 65%) e com 45% da população na condição de analfabetos (na região Nordeste essa taxa era de 65%), conforme dados disponíveis na página oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 5.3 Paulo Freire e sua influência na Educação Atualmente está ocorrendo uma polêmica intensa em torno do nome de Paulo Freire e de seu legado para a Educação, inclusive com o esforço de setores que desejam o destituir do patronato da Educação Brasileira, sob a alegação de se tratar de um doutrinador comunista. Contudo, muito do que se fala sobre o educador não encontra coerência com seu pensamento e concepções pedagógicas, os quais são muito valorizados e objeto de pesquisa em diversos países dos vários continentes. , 39 Seus estudos, muito voltados para a Educação de Jovens e Adultos em razão do alto índice de analfabetos quando o educador viveu, têm como princípio promover a alfabetização de tal forma que o educando seja sujeito nesse processo. Para tanto, preconizava a mobilização de situações do cotidiano no processo pedagógico. Assim, em vez de partir da silabação para ensinar a ler e escrever, defendia a abordagem de palavras geradoras, a partir das quais se realizava o processo de alfabetização,considerando o domínio do código escrito, mas dando ênfase não àquela codificação e sim à vida, aos anseios, às dificuldades e aos sonhos do sujeito que aprende. Esse princípio pode ser sintetizado na ideia de que o sujeito se alfabetiza primeiro na leitura de mundo, nas palavras de Freire (2008), a leitura de mundo antecede a leitura da palavra. Essa concepção deveria orientar toda ação alfabetizadora, conforme Freire, que substituiu a ideia de palavra geradora para tema gerador no aprimoramento de seus escritos. Contrário ao que chamou de “educação bancária”, caracterizada pelo depósito de informações nas cabeças dos educandos sem garantir sentido algum, além da decodificação das letras e palavras em si, o pensador pernambucano defendia que o processo de alfabetização deveria ser um momento de reflexão e debate sobre as condições da realidade social e de vida do educando. O pensamento de Paulo Freire foi muito influente em movimentos de educação popular, principalmente naqueles voltados a desenvolver a alfabetização de jovens e adultos. Até hoje seus escritos constituem referência importante no campo da Educação. Isso aponta duas evidências: não é por acaso que se tornou o patrono da Educação Brasileira; e, justamente, devido às suas ideias e ao seu legado, é tão combatido por setores que não desejam a promoção de um modelo educacional que realmente provoque a reflexão sobre os problemas sociais que assolam o país. , 40 5.4 O Movimento de Cultura Popular, o Movimento de Educação de Base e o Centro Popular de Cultura As concepções de alfabetização de Paulo Freire influenciaram alguns movimentos como o Movimento de Cultura Popular (MCP), o Movimento de Educação de Base (MEB) e o Centro Popular de Cultura (CPC). O MCP foi criado no dia 13 de maio de 1960, como uma instituição sem fins lucrativos durante a primeira gestão de Miguel Arraes como prefeito do Recife. Era formado por três departamentos: o de Documentação e Informação (DDI), o de Difusão da Cultura (DDC) e o de Formação da Cultura (DFC), dos quais o último foi o mais atuante, dirigido por Paulo Freire. O MCP tinha como uma de suas propostas básicas a alfabetização de adultos. Entre as principais ações do movimento se destacam a criação de escolas de rádio, que visavam, sobretudo, atender a ao público adulto, e a organização de uma publicação intitulada Livro de leitura para adultos ou Cartilha do MCP. Os programas eram veiculados pelas rádios Clube de Pernambuco e Continental. Paralelamente havia aulas presenciais, as quais eram ministradas à noite, nos mesmos espaços ocupados por crianças e adolescentes durante o dia. Já o MEB remonta à transmissão de programas educativos por meio da emissora católica da Diocese de Natal em 1958. Suas ações eram coordenadas por entidades ligadas à Igreja Católica, como a Juventude Estudantil Católica (JEC) e a Juventude Universitária Católica (JUC). Em 1960 houve em Aracaju o I Seminário de Educação de Base, em que foi discutida a criação de um Movimento Nacional de Educação de Base, o que resultou em um pedido feito pelo arcebispo de Aracaju ao então presidente da República, João Goulart. Em 21 de março de 1961 foi publicado o Decreto nº 50.370, que previa o repasse de recursos do orçamento da União para o MEB, gerido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que faria uso de Escolas Radiofônicas nas áreas carentes das regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte. , 41 A ação não se restringiu aos programas educativos, pois integrantes da Ação Católica Brasileira (ACB) foram até as comunidades alfabetizar as pessoas que não haviam tido oportunidade de estudar anteriormente. Seu principal público era formado por trabalhadores rurais. A realização do processo de alfabetização tinha como baliza a conscientização dos educandos com o intuito de transformar do mundo. Com relação ao CPC, sua criação ocorreu em 1961, por um grupo de intelectuais e artistas ligado à UNE. O CPC da UNE foi o mais conhecido, contudo havia diversos CPCs espalhados pelo país, cuja atuação era muito ampla. Paulo Freire o influenciou a partir da experiência do MCP do Recife, no tocante à cultura popular. Sua preocupação maior residia em conscientizar a classe trabalhadora- sobre a opressão a que era submetida. É importante lembrar o contexto em que se vivia e como as ideias de transformação social por meio da eliminação das desigualdades eram intensas naquele momento. Os integrantes do CPC se viam com a missão de levar a consciência à classe trabalhadora que, a partir disso, realizaria as transformações sociais tão necessárias. Para atingir esse objetivo, o CPC atuou em vários campos. Porém, uma diferença básica entre o CPC e o MCP é que este era ligado ao Estado, recebendo recursos públicos, enquanto o CPC original não tinha nenhum vínculo com organismos estatais, partidos políticos ou outras organizações – apesar de ser sediado na UNE, era independente em relação àquela entidade. Sendo assim, para captar recursos, o CPC agiu como uma empresa. Todos os serviços executados por aquele órgão eram pagos, exceto o teatro de rua, o teatro para camponeses e os poucos espetáculos efetuados com a carreta-teatro (construída para viabilizar as apresentações de rua onde houvesse algum motivo importante, como uma manifestação ou greve). A não vinculação a organizações que lhe dessem subsídios não impediu o CPC de se desenvolver. Foram criados vários departamentos, a saber: a) Teatro, que reuniu, entre outros: Oduvaldo Viana Filho, Gianfrancesco Guarnieri, Francisco de Assis, Flávio Migliaccio, Armando Costa, Helena , 42 Sanches, João das Neves, Carlos Miranda, Arnaldo Jabor, Joel Barcelos, Claudio Cavalcante e Cecil Thiré – este departamento depois se dividiu em dois: convencional e de rua; b) Cinema, reunindo, entre outros: Leon Hirsman, Carlos Diegues, Marcos Faria, Miguel Borges e Teresa Aragão; c) Música, que entre outros reuniu: Carlos Castilho, Carlos Lira, Nelson Lins e Barros, Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré; d) Arquitetura e Artes Plásticas; e) Administração; f) Alfabetização de adultos, que logo depois foi desligado do CPC e incorporado ao MEC; g) Literatura. Com o golpe de 1964 as atividades foram cerceadas e seu projeto de educação popular, juntamente com o do MCP e o do MEB, foi impedido de continuar sob a alegação de que se tratava de doutrinação comunista. 5.5 A legislação e a Educação: a Constituição de 1988, a LDB e o ECA O tratamento constitucional dedicado à Educação reflete a conjuntura política e a correlação de forças tanto no campo legislativo quanto no campo educacional. A Constituição Federal (CF) de 1988 foi promulgada num período de redemocratização e ascensão dos movimentos sociais, quando a luta pela liberdade de opinião e de expressão foi acrescida da luta pelo alargamento dos direitos sociais, incluindo o direito à Educação pública e gratuita em todos os níveis. Dessa forma, a correlação de forças no campo legislativo, durante a Assembleia Nacional Constituinte, repercutiu a ascensão dos movimentos sociais, resultando na incorporação de vários direitos sociais no texto constitucional. No tocante à Educação, a CF de 1988 determina minucioso regramento. Enuncia a educação como um direito social; dedica parte considerável do título da Ordem Social para responsabilizar o Estado e a família, tratar do acesso e da qualidade, organizar o , 43 sistema educacional, vincular o financiamento e distribuir encargos e competências para os entes federados. Esse regramento minucioso é reflexo do caráterdemocrático do texto, que é reforçado pela preocupação em prever instrumentos voltados para a efetividade dos direitos previstos. A CF de 1988 reconhece uma tríplice função da Educação em seu Art. 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Captar toda a dimensão do direito à educação pressupõe situá-lo previamente no contexto dos direitos sociais, econômicos e culturais, os chamados direitos de 2ª dimensão, no âmbito dos direitos fundamentais, os quais receberam atenção inédita no Brasil na CF 1988. O texto constitucional apresenta preocupação com a qualidade da Educação, como nos Arts. 206, inciso VII: “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: garantia de padrão de qualidade”; 208, inciso V: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um”; 209, inciso II: “O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público”; 210: “Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais” (BRASIL, 1988). Visando ao cumprimento do princípio de educação de qualidade, a CF de 1988 disciplinou a articulação entre os entes federados e os deveres da União no tocante à Educação e a limitação do piso de financiamento da Educação em cada esfera de poder. Outro aspecto relevante trazido pela CF de 1988 diz respeito à gratuidade do ensino. O §1º do Art. 208 descreve: “O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo”. O §2º do mesmo artigo trata da responsabilização do Poder Público pela oferta do ensino obrigatório: “O não oferecimento [sic] do ensino obrigatório pelo , 44 Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente”. Por fim, o artigo final da Seção dedicada à Educação, cuja redação foi dada pela EC 59/2009, reforça os princípios enunciados no Art. 205, que inicia a seção dedicada à Educação: Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a: I - erradicação do analfabetismo; II - universalização do atendimento escolar; III - melhoria da qualidade do ensino; IV - formação para o trabalho; V - promoção humanística, científica e tecnológica do País; VI - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto. (BRASIL, 1988) Outro marco do contexto do movimento de redemocratização do país foi a publicação em 1990 da Lei 8.069/90, que instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A inovação trazida pelo ECA está na concepção que enfatiza as especificidades da criança e do adolescente, compreendidos como sujeitos de direitos, destinatários de proteção integral, contrariamente à legislação anterior, sobretudo a constante no Decreto 5.083 e na Lei 6.697, que instituíram o Código de Menores (CM) em 1926 e 1979, respectivamente. No Capítulo IV, o ECA tratou da Educação como condição básica de existência digna da criança e do adolescente, bem como da imprescindibilidade daquela para desenvolvimento pessoal e social destes. Da mesma forma que a CF de 1988, o ECA declara que toda criança e adolescente tem direito à Educação, cujo papel triplo do Art. 205 da CF é retomado: “Art. 53. A criança e o adolescente têm direito à educação, , 45 visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”. Por fim, a Lei 9.394/96, atual LDB, promulgada em 1996, teve uma versão que tramitou por mais de dez anos sem ser aprovada, recebendo mais de 2.000 emendas além de outras cerca de 2.000 sugestões da sociedade civil organizada, até ser substituída por projeto de lei de autoria do então senador Darcy Ribeiro. A versão aprovada desconsiderou o debate empreendido para a formulação da proposta anterior. A LDB em vigor define em seu artigo 1º: “A Educação abrange os processos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”. Assim, a Educação foi reconhecida para além daquela oferecida nas instituições escolares. Em seu Art. 2º, em consonância com a CF, a LDB expressa: “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Entre os avanços alcançados pela LDB, destacam-se o inciso Art. 4º, I, e o artigo 5º, a partir da redação dada pela Lei nº 12.796, de 2013: Artigo 4º - O dever do Estado com educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de: I - educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, organizada da seguinte forma: a) pré-escola; b) ensino fundamental; c) ensino médio. Assim, o Ensino Médio passou a ser considerado como uma etapa da Educação Básica, que é oferecida pelo poder público de forma gratuita e, a partir de emendas posteriores, passou a ter sua oferta obrigatória por parte do Estado, sob pena de crime de responsabilidade para os respectivos gestores públicos. , 46 O Art. 4º, IX, menciona a preocupação com a qualidade da educação: “padrões mínimos de qualidade de ensino, definidos como a variedade e quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino- aprendizagem”. Enquanto o Art. 5º garantiu o acesso à Educação Básica: O acesso à educação básica obrigatória é direito público subjetivo, podendo qualquer cidadão, grupo de cidadãos, associação comunitária, organização sindical, entidade de classe ou outra legalmente constituída e, ainda, o Ministério Público, acionar o poder público para exigi-lo. (BRASIL, 2013) Em muitos dispositivos a LDB de 1996 prevê a articulação dos entes federados para a execução dos objetivos da Educação, tanto com relação ao financiamento, quanto aos aspectos de planejamento e apoio técnico necessários, cabendo à União a realização do Plano Nacional de Educação, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Conclusão Este bloco apresentou o contexto intenso que antecedeu o golpe de 1964, demonstrando a ascensão dos movimentos sociais, do campo e da cidade, com destaque para aqueles preocupados em combater o analfabetismo, inspirados pelas ideias de Paulo Freire. Durante o regime civil-militar aqueles projetos foram impedidos e a educação foi bastante cerceada com a transformação do currículo, que eliminou disciplinas como História e Geografia, introduzindo Estudos Sociais e Educação Moral e Cívica. Ainda foi analisado o processo de redemocratização, o qual proporcionou conquistas em vários campos. As conquistas específicasdo campo educacional foram expressas primeiramente na Constituição de 1988 e depois foram reforçadas no Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996. , 47 No momento atual observamos no Brasil uma ascensão de movimentos e pensamentos conservadores, os quais atacam muitas conquistas dos últimos trinta anos, da mesma forma que buscam desqualificar a ciência como um todo, bem como as instituições públicas de ensino e pesquisa. Esses grupos são os mesmos que atacam o legado de Paulo Freire e negam que o Brasil viveu um período ditatorial. Novamente se percebem disputas no campo educacional, opondo conservadores a progressistas, tal como tem acontecido desde o início do período republicano. Referências BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> Acesso em: 18 set. 2019. BRASIL. Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961. Fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/LEIS/L4024.htm>. Acesso em: 18 set. 2019. BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências (ECA). Disponível em: http://www.planalto.gov.br /ccivil_03/Leis/L8069.htm. Acesso em: 18 ago. 2019. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Brasília. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf. Acesso em: 18 set. 2019. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 49ª ed. São Paulo: Cortez, 2008. GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Filosofia e história da educação brasileira; da colônia ao governo Lula. 2ª ed. Barueri, SP: Manole, 2009. MARINS, Cosme Freire. Currículo de História no Ensino Médio e avaliação de egressos: a relação entre os documentos orientadores da disciplina e os exames oficiais (Enem e Vestibulares) – 2009-2013. 2016. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação – Universidade de São Paulo, São Paulo. RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da educação escolar no Brasil: notas para uma reflexão. Paideia, Ribeirão Preto, SP, n.4, fev./jul. 1993. , 48 6 A formação docente ao longo da História da Educação do Brasil Um dos aspectos mais relevantes para a qualidade da Educação oferecida aos alunos em um determinado contexto se liga diretamente à qualidade da formação dos professores, bem como às concepções de Educação defendidas pelos educadores, as quais, muitas vezes, estão em estreita sintonia com aquela formação. Assim, a análise do processo de formação de professores pode ser muito reveladora de outros aspectos relacionados ao ensino. Esse bloco aborda seis momentos importantes que caracterizaram a formação docente no Brasil durante a República, por meio do estabelecimento: a) das Escolas Normais; b) dos Institutos de Pesquisa; c) dos cursos de Pedagogia e de Licenciatura; d) da substituição da Escola Normal pela Habilitação Específica do Magistério; e) dos Institutos Superiores de Educação e das Escolas Normais Superiores. 6.1 As Escolas Normais A preocupação com a formação dos professores no Brasil surgiu com a promulgação da Lei das Escolas de Primeiras Letras, de 1827, a qual determinou que os professores fossem treinados para o uso do método, às próprias custas, nas capitais das províncias. Com isso, percebe-se que a formação dos professores não contava com investimentos públicos, acentuando seu caráter de privilégio, em detrimento do caráter de direito. Em 1834 foi publicado o Ato Adicional, estabelecendo que as províncias adotassem o modelo dos países europeus para a formação dos professores: as Escolas Normais. Assim, foram criadas diversas Escolas Normais nas províncias, na seguinte ordem: Bahia (1836); Mato Grosso (1842); São Paulo (1846); Piauí (1864); Rio Grande do Sul (1869); Paraná e Sergipe (1870); Espírito Santo e Rio Grande do Norte (1873); Paraíba (1879); Rio de Janeiro (DF) e Santa Catarina (1880); Goiás (1884); Ceará (1885); Maranhão (1890). Essas escolas eram abertas, , 49 fechadas e reabertas periodicamente, tendo existências intermitentes (BORGES, et al, 2011, p. 97). As Escolas Normais, inicialmente, privilegiavam uma formação em que predominava a preocupação dos conhecimentos a serem transmitidos nas Escolas de Primeiras Letras. De acordo com Saviani (2009) currículo de ambas as instituições era constituído pelas mesmas matérias, isto é, propunha-se que os professores deveriam ter o domínio daqueles conteúdos que lhes caberia ensinar às crianças, desconsiderando-se o preparo didático-pedagógico. Entre 1890 e 1931 houve o estabelecimento e expansão do padrão das Escolas Normais, tendo como marco inicial a reforma da instrução pública do estado de São Paulo, que teve os custos de instalação assumidos pelos reformadores, a qual definiu o modelo de organização e funcionamento das Escolas Normais. A reforma preconizou o enriquecimento dos conteúdos curriculares anteriores ao mesmo tempo em que enfatizou exercícios práticos de ensino. De acordo com Borges (2011), a Escola Normal deveria garantir o preparo dos professores por meio da organização curricular, com preparação dos conteúdos científicos em conjunto com a preparação didático-pedagógica, para garantir, efetivamente, boa formação aos professores. O modelo de Escola Normal tendeu a se fortalecer e se expandir por todo o país. Contudo, o ímpeto reformador se enfraqueceu após a primeira década, prevalecendo a preocupação com o domínio dos conhecimentos a serem transmitidos em detrimento da preparação didático- pedagógica. 6.2 Os Institutos de Educação A Educação no período de 1932 a 1939 foi marcada, do ponto de vista da formação dos educadores, pela organização dos Institutos de Educação. Aquelas instituições foram concebidas como locais dedicados ao ensino e à pesquisa em Educação. Inspirados no ideário da Escola Nova foram criados o Instituto de Educação do Distrito , 50 Federal, concebido e implantado por Anísio Teixeira, em 1932, e o Instituto de Educação de São Paulo, implantado por Fernando Azevedo, em 1933. A proposta escolanovista para a formação de professores pressupunha a criação da Universidade com a função tríplice de produzir ciência, transmiti-la e vulgarizá-la, destacando a formação de docentes para escolas primárias (correspondentes à primeira fase do Ensino Fundamental atual), escolas secundárias (correspondentes à segunda fase do Ensino Fundamental e ao Ensino Médio atual), escolas profissionalizantes e superiores. Anísio Teixeira, por meio do Decreto 3.810, de 19 de março de 1932, buscou reorganizar as Escolas Normais, contemplando a cultura profissional e a cultura geral. Dessa forma, os Institutos de Educação procuraram incorporar as exigências da Pedagogia, que buscava conquistar um status científico, trilhando o caminho para a consolidação de um modelo pedagógico-didático de formação docente, tentando corrigir as insuficiências e distorções praticadas pelas Escolas Normais originais. No entanto, a aplicação do ideário da Escola Nova não se concretizou, pois encontrou uma série de obstáculos para isso, tais como a falta de preparo dos professores, a ausência de recurso didático-pedagógico, o choque com as ideias vivas da prática pedagógica consagrada. Por outro lado, segundo Borges (2011) a ideologia norteadora da época tinha um caráter liberal que reafirmava a manutenção do sistema capitalistae não considerava os aspectos sociais, políticos e econômicos que afetavam a vida das pessoas. Dessa forma, a exclusão e o elitismo que marcavam a Educação até aquele momento prevaleceram. 6.3 A implantação dos cursos de Pedagogia e de Licenciatura Em meados da década de 1930 os Institutos de Educação de São Paulo e do Distrito Federal foram elevados ao nível universitário, os quais se tornaram a base dos estudos superiores de Educação. O paulista foi incorporado à Universidade de São Paulo, fundada em 1934; e o carioca, à Universidade do Distrito Federal, criada em 1935. , 51 O Decreto nº 1.190, de 4 de abril de 1939, organizou definitivamente a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e os cursos de formação de professores para as escolas secundárias. Esse decreto resultou no que ficou conhecido como “esquema 3+1”, ou seja, três anos dedicados ao estudo das disciplinas específicas ou conteúdos cognitivos e um ano destinado à formação didática. O esquema 3+1 foi adotado nos cursos de Pedagogia e de Licenciaturas. Posteriormente, o Decreto-Lei nº 8.530, de 2 de janeiro de 1946 – Lei Orgânica do Ensino Normal –, reorganizou a estrutura daquele segmento de ensino, que foi dividido em dois ciclos: o primeiro correspondia ao ciclo ginasial do curso secundário e tinha duração de quatro anos e o segundo, com duração de três anos, correspondia ao curso colegial do ensino secundário. Em 1968 entrou em vigor a Lei nº 5.540, que realizou a Reforma Universitária, a qual definiu normas e funcionamento do Ensino Superior, influenciada pela tendência liberal tecnicista, cuja concepção implica na formação de técnicos profissionais, de forma rápida, para atender às demandas do mercado. Assim, seu objetivo central consistia em adequar o sistema educacional à orientação política e econômica do regime militar: inserir a escola nos modelos de racionalização do sistema capitalista. Se, por um lado, evidenciam-se avanços nos discursos, por outro, o sistema educacional continuou excludente e dual, proporcionando ensino propedêutico às elites e, consequentemente, preparando-as para a Universidade, enquanto destina às camadas populares o ensino profissionalizante. 6.4 A substituição da Escola Normal pela Habilitação Específica do Magistério Com a publicação da segunda Lei de Diretrizes e Bases da Educação (nº 5.692, de 1971) houve uma reestruturação nos ensinos primário e médio. Na nova estrutura foram extintas as Escolas Normais e instituída a habilitação específica de 2º grau para o exercício do magistério de 1º grau. O Parecer nº 349, de 6 de abril de 1972, organizou a Habilitação do Magistério em duas modalidades básicas: uma com carga de 2.200 , 52 horas distribuídas em três anos, que habilitaria a lecionar até a 4ª série do 1º grau; e outra com carga de 2.900 horas, distribuídas em quatro anos, habilitando ao magistério até a 6ª série do 1º grau. Assim, de acordo com Borges (2011), o currículo mínimo pressupunha o núcleo comum, obrigatório em todo o território nacional, para todo o ensino de 1º e 2º graus. O Curso Normal antigo cedeu lugar a uma Habilitação de 2º grau e a formação de professores para o antigo ensino primário foi reduzida a uma habilitação dispersa em meio a tantas outras, configurando um quadro de precariedade preocupante. Em 1982 foram criados os Centros de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério (Cefam´s), visando à revitalização da Escola Normal, numa tentativa de atenuação dos problemas relacionados à formação de professores. Entretanto o aproveitamento e abrangência do projeto foram restritos, não obstante algumas experiências de excelência realizadas no Estado de São Paulo. A LDB de 1971 previu ainda a formação em cursos de Licenciatura para os professores das quatro últimas séries do ensino de 1º grau, bem como para o 2º grau. Foram instituídos cursos de Licenciatura Curta (3 anos de duração) e Licenciatura Plena (4 anos de duração). O curso de Pedagogia, além da formação de professores para Habilitação Específica do Magistério, recebeu a atribuição de formar os especialistas em Educação, divididos em diretores de escola, orientadores educacionais, supervisores escolares e inspetores de ensino. Nos anos 1980, sob influência da Pedagogia Progressista Libertadora, cujo maior ícone foi Paulo Freire, surgiu um movimento pela reformulação dos cursos de Pedagogia e de Licenciatura, adotando o princípio da “docência como base da identidade profissional de todos os profissionais da educação” (SILVA, 2003, p. 68). Naquele período houve certa ruptura com o pensamento tecnicista preponderante na área da Educação até então. Nesse contexto, vários educadores produziram e divulgaram concepções avançadas sobre a formação docente, destacando: “o caráter sócio-histórico da formação, a necessidade de um profissional com formação ampla, com pleno domínio e compreensão da realidade de , 53 seu tempo, desenvolvimento da consciência crítica que lhe permita interferir nas condições da escola, da educação, da sociedade e transformá- las” (BORGES et al, 2011, p. 101). Segundo Borges (2011) essa concepção emancipadora de educação e formação avançou na superação de dicotomias generalistas, ao passo que a escola também avançava na democratização de seus espaços, possibilitando a revisão das relações de poder e trabalhando para a construção de novos projetos coletivos. Esse processo possibilitou a construção da concepção de profissional da Educação que tem na docência e no trabalho pedagógico suas particularidades e especificidades. 6.5 O advento dos Institutos Superiores de Educação e das Escolas Normais Superiores Segundo Borges (2011), com a redemocratização do Brasil, o movimento de mobilização dos educadores alimentava a esperança de que o problema da formação docente seria resolvido com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394/96). No entanto, a nova LDB não atendeu às expectativas, uma vez que introduziu como alternativa aos cursos de Pedagogia e de Licenciaturas os Institutos de nível Superior de segunda categoria, promovendo uma formação mais aligeirada e barata, por meio de cursos de curta duração Porém, em 2002 foi promulgado o documento com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Docente, quando se estabeleceram as primeiras adaptações nos currículos de formação docente. Posteriormente, foram promulgadas as diretrizes curriculares específicas para cada curso de Licenciatura. As universidades tiveram então a possibilidade de organizar seus cursos de formação de professores, de acordo com seus projetos institucionais, com a condição de que , 54 estes fossem realizados em Licenciaturas Plenas, com liberdade para incorporar ou não a figura dos Institutos Superiores de Educação (ISEs). Segundo Borges (2011), os ISEs representaram um novo formato de formação docente e ofereceram a possibilidade de integração, com base comum, na formação de professores para os diversos níveis de ensino e especialidades, institucionalizando a Escola Normal Superior no âmbito dos ISEs. Essa fase da História da Educação no Brasil, no que tange à formação docente, indica uma mudança substancial em que tanto a estrutura curricular, quanto a articulação formativa dos currículos e a preocupação com a qualificação dos formadores de formadores demonstram um cuidado maior com o processo de formação dos professores. Contudo, foram autorizados posteriormente cursos de formação de professores isolados em Escolas Normais Superiores, perdendo a organicidade de formação docente. As orientaçõesdas Diretrizes Nacionais para a formação de professores foram colocadas em segundo plano e se criaram cursos de licenciaturas independentes, perdendo as articulações previstas. Conclusão Nesse bloco foram abordadas as características legais, epistemológicas e práticas que orientaram as mudanças no processo de formação de professores durante o período republicano brasileiro. Cabe ressaltar que, se por um lado a formação docente é um dos principais elementos responsáveis pela maior ou menor qualidade da educação oferecida, por outro, as concepções subjacentes e os interesses em jogo também são fundamentais para o maior ou menor êxito das reformas propostas. Percebe-se o quanto as disputas ideológicas e de interesses influenciam a estrutura curricular da Educação Básica, bem como aquela destinada aos futuros profissionais do magistério. Os interesses do mercado, defendidos por representantes do ideário liberal, em muitos momentos se chocam com propostas de caráter progressista. As , 55 conquistas, do ponto de vista da formação docente, em alguns casos, perdem vigor com o passar dos anos, como ocorreu com o modelo de Escola Normal. Em outros casos são flexibilizadas, como ocorre com a autorização de funcionamento de Escolas Normais Superiores, fazendo com que todo o esforço empreendido na constituição das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Docente seja desconsiderado, relegando aquelas Diretrizes a segundo plano, ao atender interesses privados em detrimento da Educação e da formação dos futuros professores. Referências GADOTTI, Moacir. História das Ideias Pedagógicas. 7ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1999. BORGES, Maria Célia; AQUINO, Orlando Fernández; PUENTES, Roberto Valdés. Formação de professores no Brasil: História, políticas e perspectivas. Revista HISTEDBR. [online], Campinas, SP, n. 42, pp. 94-112, jun. 2011. SAVIANI, Dermeval. Formação de professores: aspectos históricos do problema no contexto brasileiro. Revista Brasileira de Educação. [online]. 2009. Vol.14, n. 40, pp. 143-155. SILVA, Carmem Silvia Bissoli da. Curso de Pedagogia no Brasil: história e identidade. 2ª ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.