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01.MA.Elemento Textual - História da Educação (2)

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HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO 
Cosme Freire Marins 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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2 
 
 
SUMÁRIO 
 
1 A Educação através dos tempos .............................................................. 3 
2 A Educação durante os períodos colonial e imperial ............................. 11 
3 A Educação no Brasil durante a Primeira República............................... 19 
4 A Educação brasileira no período de 1930 a 1960 ................................. 27 
5 A Educação brasileira de João Goulart a Fernando Henrique Cardoso .. 36 
6 A formação docente ao longo da História da Educação do Brasil .......... 48 
 
 
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3 
 
 
1 A Educação através dos tempos 
Neste bloco serão abordadas, em linhas gerais, as características dos marcos principais 
da História da Educação no Ocidente. A Educação hoje resulta de um processo 
histórico que remonta à Antiguidade clássica, sofrendo alterações durante a Idade 
Média, quando a Igreja tinha o domínio sobre as mentes de todos. Posteriormente, foi 
transformada novamente com o Renascimento e os novos valores que defendia, 
alinhados com os interesses burgueses. Com a Revolução Industrial a sociedade 
ocidental mudou drasticamente e o capitalismo foi consolidado. Por fim, ideais muito 
presentes, até hoje, foram defendidos por pensadores durante o Iluminismo, 
movimento que inspirou os líderes da Revolução Francesa. Cada um desses momentos 
foi significativo para a evolução da Educação ocidental, os quais serão aqui 
apresentados. 
 
1.1 A Educação na Antiguidade Clássica: o modelo grego 
O modelo de Educação desenvolvido pelos gregos está diretamente relacionado ao 
conceito de paideia, isto é, a formação integral da criança. No decorrer da vida, o 
indivíduo precisava aprender a argumentar e a expor as ideias, assim como dominar as 
artes da música e da guerra. Paideia se relaciona a outro conceito diretamente 
relacionado à educação e bastante usado até a atualidade: Pedagogia. Esta, por sua 
vez, deriva de dois radicais gregos: paidos, que significa criança e agoge, que pode ser 
traduzido como condução. Assim, o pedagogo é o condutor da criança, aquele que 
ensina a criança. 
Nessa concepção de formação integral do sujeito há a ideia de corpo sadio e mente sã. 
A preocupação dos gregos com relação à educação pressupunha o desenvolvimento 
do corpo e da mente de seus cidadãos, cujas virtudes deviam estar a serviço da cidade-
estado em que nascia, a polis. 
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4 
 
Outra característica forte da educação grega se liga a seu apreço pela Filosofia, raiz da 
racionalidade, tão marcante no desenvolvimento da cultura ocidental. Um dos maiores 
expoentes da filosofia grega foi Sócrates, que viveu no século V a.C. Um aspecto 
marcante de sua filosofia diz respeito ao emprego da maiêutica. A maiêutica diz 
respeito a um procedimento por meio do qual o professor não responde diretamente 
o que lhe é perguntado. Ele faz outra pergunta ao interlocutor buscando levar este 
último a encontrar por si só as respostas que procura. Sócrates gostava de conversar 
com pessoas de todas as classes sociais, sempre lhes fazendo perguntas a ponto de 
deixar todos em dúvida em relação as suas concepções. 
 
1.2 A Educação durante a Idade Média 
Uma das principais características do período medieval (séculos V ao XV) foi o 
predomínio da Igreja Católica e a imposição de seus valores à sociedade europeia. Sua 
influência foi marcante na política, sociedade, manifestações culturais e, inclusive, na 
economia, haja vista a instituição concentrar sob seus domínios cerca de um terço de 
todas as terras daquele continente. 
A Igreja Católica guardava e reproduzia, por meio de monges copistas, a maior parte 
dos textos conhecidos pelos europeus à época, muitos dos quais remontandos à 
Antiguidade, oriundos de diversas partes da Europa, Ásia e África. Dessa forma, a Igreja 
transmitia os conhecimentos que considerava importantes para a manutenção de seu 
poder, da mesma forma que omitia outros, os quais poderiam colocar em questão 
alguns dogmas ou ideias por ela defendidas. Foi por esta razão que pessoas como 
Galileu Galilei (1564-1642) foram perseguidas pela Inquisição, num período em que os 
dogmas passaram a ser questionados em razão de descobertas feitas por meio de 
observações científicas sobre os fenômenos. O erro de Galileu: afirmar que a Terra gira 
em torno do Sol e não o contrário – ele precisou negar suas ideias para não ser 
condenado à morte. 
A educação, na maior parte do período medieval, ficou a cargo da Igreja, cujo ensino 
tinha um forte componente religioso e era realizado nos mosteiros. Aquela Educação 
, 
 
 
5 
 
tinha como objetivos educar, formar e conformar, ou seja, conduzir um processo 
pedagógico que influenciasse nos conhecimentos, na moral e na socialização dos 
sujeitos em conformidade com a sociedade da época. 
Foi durante a Idade Média que se deram as bases para a constituição do que 
atualmente se chama escola tradicional, caracterizada na centralidade do professor no 
processo pedagógico; ênfase no ensino enciclopédico preocupado com os aspectos 
intelectuais, em detrimento do cuidado com o corpo; sistema de avaliação punitivo, 
cuja ênfase se dá na memorização de dados que são cobrados em sabatinas; e na 
ausência de questionamento em privilégio de uma obediência dócil. 
Não havia um olhar preocupado com as peculiaridades das crianças, pois não havia a 
concepção de infância, a qual só foi se desenvolver na modernidade. A educação era 
concebida como um processo de transmissão de conhecimentos das gerações mais 
velhas para as gerações mais novas. Como se tratava de uma sociedade estamental, 
em que não havia mobilidade social, ou seja, não havia a possibilidade de uma pessoa 
nascer em um estamento e no decorrer da vida mudar para outro, as preocupações 
giravam em torno do que as crianças de um determinado estamento deveriam saber 
para permanecer nele até sua morte. 
 
1.3 A Educação na Modernidade 
O período conhecido como Modernidade se caracteriza por profundas transformações 
políticas, econômicas, sociais, religiosas, científicas e culturais que se seguiram ao fim 
da Idade Média. Fazem parte de sua inauguração o Renascimento Comercial; 
Renascimento Urbano; surgimento e desenvolvimento da classe burguesa, 
inicialmente formada por comerciantes, os quais depois passaram a atuar também 
como banqueiros e produtores de artigos manufaturados. 
Outros renascimentos foram significativos para o campo da Educação: o Renascimento 
Científico, que reuniu vários pesquisadores de diversas partes, incorporando 
conhecimentos que já haviam sido desenvolvidos por outros povos, como os árabes, a 
, 
 
 
6 
 
outros que eles realizavam. Nesse processo se desenvolveram novas técnicas de 
cultivo, de atrelamento dos animais; de construção de embarcações, de navegação, 
entre outras. As mudanças introduzidas pelo Renascimento Científico foram 
imprescindíveis para que os europeus se lançassem aos mares e encontrassem novas 
rotas, o que teve como principal consequência a descoberta e colonização do 
continente americano. 
Aliam-se a esse processo as transformações promovidas pelo Renascimento Cultural, o 
qual introduziu novas técnicas nas artes, como a representação em perspectiva, mas 
também incorporou novos conceitos, sobretudo, relacionados ao novo homem que 
surgia dentro de um amplo movimento chamado Humanismo. A ênfase passou a se 
concentrar no homem (antropocentrismo) ao contrário do que ocorria anteriormente, 
cuja ênfase recaía sobre Deus (teocentrismo), ao mesmo tempo em que a busca pelo 
prazer (hedonismo) tomou o lugar da austeridade medieval.Não obstante os avanços provocados pelo Renascimento Científico-Cultural houve 
poucas transformações no campo educacional. A Igreja continuou ainda por um tempo 
sendo a responsável pela alfabetização dos mais jovens nos países em que não foi 
questionada pela Reforma Religiosa. A desigualdade de condições permaneceu, 
deixando as crianças oriundas das camadas populares, em sua maioria, analfabetas. 
Posteriormente, ocorreram outros movimentos importantes ligados à burguesia na 
Europa, que repercutiram no campo educacional: A Revolução Industrial e a Revolução 
Francesa. 
 
1.4 A Educação e a consolidação da burguesia: A Revolução Industrial 
Tanto a Revolução Industrial quanto a Francesa marcam a consolidação da burguesia, a 
primeira no campo econômico; a segunda, no político. A primeira fase da Revolução 
Industrial ocorreu por volta de 1760 na Inglaterra e a base para as grandes 
transformações que provocou dizem respeito à introdução das máquinas no processo 
produtivo. Até então, tudo era produzido por artesãos que usavam ferramentas para 
realizar seu trabalho. A introdução das máquinas alterou radicalmente a relação entre 
, 
 
 
7 
 
os trabalhadores e os meios usados para realizar a produção; a quantidade de artigos 
produzidos por hora de trabalho; a distribuição demográfica da população que, cada 
vez mais foi expulsa do campo para as cidades; as condições a que os trabalhadores 
eram submetidos; a acumulação de riqueza por parte dos detentores dos meios de 
produção (donos das fábricas, componentes da burguesia industrial). 
Com a industrialização o trabalho é compartimentado e o trabalhador não conhece 
mais todas as etapas do processo produtivo. Passa a sobreviver da venda da única 
coisa que lhe resta: sua capacidade de produzir, chamada força de trabalho. Como 
pagamento por seu trabalho ele recebe um salário. O trabalho assalariado é a principal 
característica do sistema, ou modo de produção, que domina o mundo praticamente 
inteiro a partir do século XX e se mantém até a atualidade: o capitalismo. 
Nesse contexto, do ponto de vista da educação das crianças, os filhos dos 
trabalhadores não tiveram acesso à alfabetização, pois desde pequenos ajudaram a 
família a compor a renda trabalhando também nas indústrias, com um agravante: 
assim como as mulheres, recebiam menos do que os homens adultos, cujos salários já 
eram baixos. Os filhos de trabalhadores que furavam o bloqueio e se escolarizavam, se 
tornavam técnicos para trabalhar nas indústrias, já os filhos dos burgueses recebiam 
formação que lhes garantia ocupar os cargos de controle das corporações. 
A escola que se formou no século XIX atendia às necessidades da indústria. A 
compartimentação das aulas em disciplinas, a organização do espaço escolar, o sinal 
que indica o fim ou início das aulas, a padronização dos comportamentos e ações, e a 
rigidez dos horários são algumas das características que apontam a concepção de 
educação presente nas escolas como uma preparação para o mundo da fábrica – a 
escola disciplina os corpos dos futuros trabalhadores. 
 
 
 
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8 
 
1.5 A Educação e a consolidação da burguesia: A Revolução Francesa e o Ideário 
Iluminista 
Enquanto a Inglaterra iniciava seu processo de industrialização, o contexto francês era 
bastante tenso, marcado por grave crise financeira e profundo descontentamento da 
maioria da população. A sociedade francesa era dividida em três grupos de pessoas, 
chamados estados. O primeiro estado era composto pelos membros da Igreja Católica, 
os clérigos; o segundo, pelos nobres; o terceiro, pelo restante da população – um 
grupo heterogêneo que tinha entre seus componentes desde membros da alta 
burguesia até camponeses miseráveis. 
Naquela sociedade havia, além da desigualdade social, uma desigualdade jurídica, ou 
seja, a lei era diferente para as pessoas, dependendo do estado a que pertenciam. 
Assim, só o terceiro estado pagava impostos e este, em meio a outros aspectos, foi o 
principal combustível para que o terceiro estado se rebelasse, pois, num contexto de 
grave crise financeira, a única saída que se via para o Estado francês conseguir recursos 
era por meio do aumento de impostos, porém preservando a isenção dos membros do 
clero e da nobreza. 
A Revolução Francesa foi fortemente influenciada pelos ideais iluministas, defendidos, 
entre outros, por pensadores como Rousseau, Montesquieu e Voltaire. A Revolução 
passou por diferentes fases e teve como um de seus feitos mais importantes a 
Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. Ali se apresenta, pela 
primeira vez, o reconhecimento de direitos que são de todos (cabe lembrar, contudo, 
que a Declaração se referiu aos “homens e cidadãos”, o que evidencia que, não 
obstante os avanços, a mentalidade patriarcal ainda manteria as mulheres em segundo 
plano por um período considerável). 
Outro importante marco da Revolução Francesa foi a constituição civil do clero, por 
meio da qual a Igreja perdeu seus bens e direitos em território francês, além de se ver 
separada do Estado, pelo princípio que o estabelece como laico. No período 
napoleônico a Educação recebeu atenção por parte do governo, quando foram criadas 
escolas públicas, cujo ensino era laico e preconizava a formação de cidadãos favoráveis 
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aos ideais revolucionários em conjunto com os defendidos pelos iluministas, que 
preconizavam a razão em detrimento da fé. 
 
Conclusão 
A Educação ocidental, da qual a brasileira faz parte, tem uma história que remonta à 
Antiguidade. Pode-se considerar a influência do mundo grego como a primeira a 
compor aquele processo, valorizando o equilíbrio entre corpo e mente, buscando a 
formação integral do sujeito. A Filosofia também teve importante papel para o 
desenvolvimento da Educação na Grécia Antiga, pelo menos em cidades como Atenas, 
onde era mais cultivada. 
Posteriormente, durante a Idade Média, a Europa se viu imersa em um contexto 
marcado pelo predomínio da Igreja, que monopolizou a conservação, produção e 
transmissão do conhecimento por praticamente um milênio. A Educação medieval 
tinha forte componente religioso e foi fundamental para a manutenção do status quo. 
Ela ocorria nos mosteiros e os religiosos compunham o grupo de pessoas letradas da 
época. 
Mudanças profundas foram trazidas pela Modernidade. Inovações técnicas e aumento 
da produção acabaram por fortalecer o comércio, fazendo as antigas cidades 
crescerem e outras novas surgirem. O fortalecimento dos comerciantes foi 
acompanhado pelo surgimento de novos valores, diferentes dos medievais, que 
influenciaram as artes profundamente. Os experimentos e observações científicas, por 
sua vez, trouxeram novas teorias acerca dos fenômenos da natureza, não obstante as 
perseguições religiosas. 
A burguesia se fortaleceu e conseguiu realizar a Revolução Industrial, a qual 
transformou a economia e a sociedade, consolidando o capitalismo no mundo. Por 
outro lado, seus ideais foram defendidos pelos pensadores do Iluminismo, os quais 
criticavam a desigualdade jurídica, a forte intervenção do Estado na economia e o 
governo absolutista. 
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A Educação passou a sofrer influência em razão das necessidades desse novo mundo 
industrial que se formava, cujas escolas foram concebidas como uma preparação para 
o mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que os ideais iluministas também se 
fizerem presentes, sobretudo em razão da primazia da ciência e da razão como 
orientadores do currículo. 
 
Referências 
MANACORDA, Mário Alighiero. História da Educação: da antiguidade aos nossos dias. 
12ª ed. São Paulo: Cortez, 2006. 
 
SAVIANI, Dermeval. Marxismoe pedagogia. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, SP. 
2011. Disponível em: 
https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8639892/74
55Acesso em: 10 ago. 2019. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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2 A Educação durante os períodos colonial e imperial 
A história do Brasil se divide em três períodos: colonial (1500-1822), imperial (1822-
1889) e republicano (1889 até a atualidade). Embora o mais extenso corresponda ao 
período colonial (mais de trezentos anos), as grandes transformações econômicas e 
políticas ocorreram a partir da proclamação da independência e, com mais 
intensidade, a partir da proclamação da república. 
Esse bloco é dedicado ao estudo da educação pública no Brasil de 1500 a 1822, cujos 
marcos significativos podem ser reconhecidos pela atuação dos jesuítas; pelas 
mudanças provocadas em decorrência das reformas pombalinas; pela vinda da família 
real ao Brasil; pelas alterações introduzidas em consequência da primeira constituição 
do Brasil e pelas reformas educacionais durante o império. Esses assuntos comporão 
as seções deste bloco. 
 
2.1 Pedagogia jesuítica 
A educação institucional no Brasil só foi implementada quase cinquenta anos após o 
descobrimento oficial, ocorrido em 1500. De 1532 a 1549 o Brasil foi submetido ao 
regime de capitanias hereditárias, substituídas pelo Governo Geral, o qual teve como 
primeiro governador Tomé de Souza. 
Na mesma viagem em que o novo governador aportou em terras brasileiras, 
desembarcaram três jesuítas, dos quais o que merece destaque por sua atuação no 
Brasil foi o padre Manoel da Nóbrega. Posteriormente, outros jesuítas para auxiliar os 
esforços de Nóbrega. A atuação dos jesuítas naquele período foi marcada pela criação 
de escolas de ordenação, cujo objetivo era a formação de mais padres e, ao mesmo 
tempo, instruir conforme a ordem jesuítica os filhos de colonos brancos e dos 
mestiços. 
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O plano desenhado por Nóbrega para o ensino das crianças, numa primeira etapa, era 
composto pelo ensino de Língua Portuguesa, Doutrina Cristã e Escola de Ler e Escrever. 
Numa segunda etapa, previa o ensino de Música Instrumental e de Canto orfeônico. Os 
estudantes egressos dessa segunda etapa tinham dois caminhos a seguir: concluir os 
estudos com o aprendizado profissional agrícola ou prosseguir em aulas de Gramática 
e concluir os estudos na Europa. 
A partir de Nóbrega, os jesuítas praticamente monopolizaram o ensino regular escolar. 
Os filhos das elites estudavam em seus colégios, mesmo quando não desejavam entrar 
para a carreira eclesiástica, por falta de opção, pois praticamente não havia outras 
instituições escolares na colônia. 
A Companhia de Jesus desenvolveu um plano de estudos chamado Ratio Studiorum, 
que articulava um curso básico de Humanidades com outro de Filosofia, seguido por 
outro de Teologia. A conclusão dessas etapas culminava com uma viagem à Europa. 
Muitas famílias abastadas se responsabilizaram pela educação dos filhos contratando 
preceptores ou ainda os deixando sob a responsabilidade de um familiar mais letrado 
– assim, as instituições escolares jesuíticas se especializaram mais na educação de 
jovens já basicamente instruídos. 
Segundo Ghiraldelli Júnior (2009), os colégios jesuíticos foram muito influentes no 
período colonial e os padres jesuítas gozaram de um respeito considerável. No 
momento em que a Companhia de Jesus foi expulsa do Brasil, em 1759, havia mais de 
cem estabelecimentos de ensino sob sua responsabilidade, considerando-se as escolas 
de ler e escrever, os seminários, as missões, as residências e os colégios. 
 
 
 
 
 
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2.2 A Educação e as Reformas Pombalinas 
O Marquês de Pombal, primeiro-ministro de D. José I, concentrou muito poder 
enquanto permaneceu no cargo e empreendeu uma série de reformas visando 
modernizar Portugal e suas colônias (econômica, política e culturalmente), as quais 
receberam o nome de reformas pombalinas. Dentre suas reformas, o Marquês de 
Pombal expulsou a Companhia de Jesus de todas as possessões de Portugal por temer 
que a ordem ficasse muito poderosa e pudesse ameaçar a integridade territorial dos 
domínios portugueses. 
Com a expulsão dos jesuítas das possessões portuguesas teve início um projeto do que 
se pode chamar de ensino público, isto é, um ensino mantido pelo Estado e voltado 
para a formação dos cidadãos em conformidade com os interesses estatais, ao 
contrário do que ocorria antes, cujo ensino era vinculado a uma ordem religiosa que 
estava preponderando em relação ao Estado. 
Com a assunção da educação por parte do Estado, desapareceu o curso de 
Humanidades, sendo substituído pelas “aulas régias”, as quais eram avulsas e 
versavam sobre Retórica, Filosofia, Grego e Latim. Os professores ensinavam em suas 
próprias casas e recebiam uma subvenção do Estado, que representava um valor bem 
baixo. 
Assim como durante a educação jesuítica, os egressos do sistema de educação 
terminavam seus estudos na Europa, em geral em Portugal. Alguns intelectuais que 
iniciaram seus estudos naquele sistema de ensino, ao retornarem ao Brasil fundaram 
escolas e instituições que alcançaram prestígio considerável. 
Um exemplo disso é o Seminário de Olinda, fundado em 1800 por José Joaquim de 
Azeredo Coutinho, o qual foi responsável pela formação dos futuros padres que 
desenvolveram muito conhecimento nas áreas de Matemática e Ciências, contribuindo 
para o desenvolvimento intelectual no período final da colônia e durante o império. 
 
 
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2.3 A vinda da família real e as consequências para a Educação 
Outro marco significativo da História do Brasil que trouxe consequências para a 
Educação realizada nestas terras foi a vinda da família real e da corte portuguesa para 
o Brasil, os quais fugiam das invasões napoleônicas com proteção inglesa, deixando a 
população portuguesa sem governo, a enfrentar as tropas invasoras. 
A vinda da família real ao Brasil proporcionou mudanças consideráveis no quadro das 
instituições educacionais da época. A sede do reino português passou a ser o Brasil, 
quando houve a criação da Academia Real da Marinha (1808), da Academia Médico-
Cirúrgica da Bahia (1808), da Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro (1809) e da 
Academia Real Militar (1810); além de outros estabelecimentos, como o Jardim 
Botânico (1808), a Imprensa Régia (1808), a Biblioteca Real (1810) e o Museu Real 
(1818). Contudo, a população em geral continuou iletrada e sem acesso às instituições 
educacionais. Durante a permanência de D. João VI, segundo Ribeiro (1993), não 
obstante a criação de todas aquelas instituições, o ensino primário não recebeu maior 
atenção do Estado. 
De acordo com Ghiraldelli Júnior (2009), o ensino foi estruturado em três níveis: 
primário, secundário e superior. Cabia ao primário a responsabilidade pela escola de 
ler e escrever, enquanto o secundário se manteve dentro do esquema das aulas régias 
com o acréscimo de novas disciplinas. 
Foram criados vários cursos profissionalizantes de nível médio e superior bem como 
voltados à carreira militar. Surgiram os Cursos de Cirurgia na Bahia, Cirurgia e 
Anatomia no Rio de Janeiro e Curso de Medicina no Rio de Janeiro. 
Em 1821, pressionada pelos portugueses após a derrota de Napoleão, a Corte retornou 
para Portugal, quando permaneceu no Brasil D. Pedro I na condição de regente. No 
ano seguinte, D. Pedro I proclama a independência do Brasil, outorgando a 
Constituição de 1824. 
 
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15 
 
2.4 A Constituição de 1824 e a Educação 
O texto da primeira Constituição brasileira continhaum tópico específico dedicado à 
Educação, o qual concebia a ideia de um sistema nacional de educação, discriminando 
que o Império deveria possuir escolas primárias, ginásios e universidades. Contudo, 
manteve-se o descompasso entre as necessidades e os objetivos propostos, o que 
pode ser exemplificado pela adoção do método lancasteriano de ensino, por lei em 
outubro de 1827. 
O método lancasteriano, também conhecido por sistema de ensino mútuo ou sistema 
monitorial, foi uma prática iniciada na Índia pelo pastor protestante Andrew Bell 
(1753-1832). Em 1798, em razão de carência de recursos, Joseph Lancaster (1778-
1838) o recriou na Inglaterra, obtendo certo êxito. A ideia básica é a de usar alunos 
mais adiantados para ensinar grupos de alunos menos adiantados, sob a supervisão de 
um inspetor (que não necessariamente precisaria ter qualquer experiência em 
magistério). Com isso, um professor poderia conduzir o ensino em turmas numerosas, 
fato que revelava a insuficiência de professores, de escolas e de uma organização 
mínima para a educação nacional. 
O império só se consolidou efetivamente em 1850, com a diminuição das divisões 
internas e a economia cafeeira engrenou após a decadência da mineração. Essas 
mudanças no quadro político possibilitaram transformações importantes para a 
educação institucional. Dessa forma foi criada em 1854 a Inspetoria-Geral da Instrução 
Primária e Secundária do Município da Corte (Rio de Janeiro), que tinha a atribuição de 
orientar e supervisionar o ensino, tanto público quanto particular. Além disso, cabia à 
inspetoria o estabelecimento das regras para o exercício da liberdade de ensino e para 
a preparação dos professores primários; a reformulação dos estatutos da Academia de 
Belas-Artes; a reorganização do Conservatório de Música; e a reformulação da Aula de 
Comércio da Corte. 
Contudo, cabe notar que o aparato institucional de ensino era carente com a formação 
científica. Nessa época, segundo Ghiraldelli Júnior (2009) quem procurava uma boa 
formação devia recorrer a algumas instituições que se destacavam. No caso dos cursos 
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jurídicos, deveriam se deslocar para Olinda e Rio de Janeiro; da carreira médica, Bahia 
e Rio de Janeiro; de engenharia, Escola Politécnica do Rio de janeiro. Havia ainda os 
cursos militares do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Fortaleza; o curso da Marinha, 
no Rio de Janeiro; o ensino artístico, também no Rio de Janeiro; e o ensino religioso, 
em seis seminários. 
O destaque do período imperial na educação foi, sem dúvida, a criação do Colégio 
Pedro II em 1838, cujo destino foi se apresentar como modelo de ensino. Entretanto, a 
instituição nunca se consolidou realmente como modelo de ensino secundário, mas 
como uma instituição preparatória para o ensino superior. Sofreu várias reformas 
curriculares durante o império, que ora acentuaram a formação literária dos alunos em 
detrimento da sua formação científica, ora inverteram a ênfase, conforme as disputas 
entre o ideal humanista e o ideário positivista. Quando este último estava em 
vantagem, o colégio incorporava mais disciplinas científicas; quando perdia terreno, o 
currículo privilegiava a literatura. 
 
2.5 As reformas educacionais durante o Império 
Além do Colégio Pedro II, outro ponto que merece destaque com relação à Educação 
do Império foi a chamada Reforma Leôncio de Carvalho, que entrou em vigor com a 
promulgação do Decreto 7.247 de 1879. Com o decreto, o ministro Leôncio de 
Carvalho, que também era professor da Faculdade de Direito de São Paulo, instituiu a 
liberdade do ensino primário e secundário no município da Corte e a liberdade do 
Ensino Superior em todo o país. 
Por liberdade de ensino, a nova norma entendia que todos os que se considerassem 
capacitados a ensinar, poderiam expor suas ideias e adotar os métodos que lhes 
conviessem. O decreto ainda concebia como incompatíveis o trabalho do magistério 
com aquele exercido em cargos públicos ou administrativos. Por fim, entendia que a 
frequência aos cursos secundários e superiores era livre, que os alunos poderiam 
aprender com quem lhes conviesse e, ao fim, deveriam se submeter a exames de seus 
estabelecimentos. 
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17 
 
Especificamente em relação ao Colégio Pedro II, um ano antes, o mesmo Leôncio de 
Carvalho havia instituído a frequência livre, os exames vagos e a isenção do estudo de 
religião para não católicos. O império, assim procedendo, tornou o ensino brasileiro 
mais um sistema de exames e menos um projeto educacional público. 
 
Conclusão 
Neste bloco vimos como a educação foi realizada no Brasil durante os períodos 
colonial e imperial, o que corresponde a mais de 350 anos. É de se ressaltar a 
importância dos jesuítas com relação ao ensino, até sua expulsão da colônia, cujo vazio 
tentou-se completar em parte com preceptores que ensinavam em suas próprias casas 
ou, no caso de famílias abastadas, iam até a dos alunos. 
A vinda da família real ao Brasil promoveu a criação de várias instituições de cunho 
científico, cultural ou educacional sem garantir acesso à maior parte da população. 
Com a proclamação da independência e a consequente outorga da primeira 
constituição brasileira, em 1824, não houve avanços significativos em termos 
educacionais, destacando-se a adoção do método lancasteriano com o propósito 
paliativo de compensar a carência de docentes e escolas no país. 
Posteriormente, a principal reforma realizada durante o período imperial, sob autoria 
do ministro Leôncio de Carvalho, pode ser considerada um retrocesso ao privilegiar os 
exames em detrimento do processo pedagógico. No próximo bloco será abordada a 
educação na Primeira República. 
 
 
 
 
 
, 
 
 
18 
 
Referências 
GHIRALDELLI, Paulo. Filosofia e história da educação brasileira: da colônia ao 
governo Lula. 2ª ed. Barueri, São Paulo: Manole, 2009. 
MARINS, Cosme Freire. Currículo de História no Ensino Médio e avaliação de 
egressos: a relação entre os documentos orientadores da disciplina e os exames 
oficiais (Enem e Vestibulares) – 2009-2013. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade 
de Educação – Universidade de São Paulo, São Paulo. 2016. 
NASCIMENTO, Maria Isabel Moura et. al. Instituições escolares no Brasil Colonial e 
Imperial. Histedbr, pag. 1-28. Disponível em: 
<http://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/artigos_ frames/artigo_ 075.html > 
Acesso em: 10 ago. 2019. 
RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da educação escolar no Brasil: notas para 
uma reflexão. Paideia, Ribeirão Preto (SP), n.4, fev./jul. 1993. 
 
, 
 
 
19 
 
 
3 A Educação no Brasil durante a Primeira República 
Neste bloco será abordada a educação durante a Primeira República. É importante 
destacar que o movimento que derrubou a monarquia e instituiu o regime republicano 
não teve caráter popular. Foi realizado por meio de um movimento militar com apoio 
de setores da economia cafeeira. Assim, pode-se imaginar que as transformações 
ocorridas na educação continuaram a não atender às necessidades das camadas 
populares. Abordaremos também a organização do ensino de 1889 a 1920, os ideários 
educacionais em disputa, as reformas educacionais federais, a situação do ensino de 
1920 a 1930, e os ideários da Escola Nova e Conservador Católico. 
 
3.1 A situação do ensino de 1889 a 1920 
O ensino primário no período republicano até 1912 era caracterizado por ter apenas 
um professor, cujos alunos de diferentes níveis ficavam em apenas uma classe: o 
grande dilema que se colocava aos professores dizia respeito ao atendimento de mais 
alunos com menor qualidade, ou de maior qualidade com menor número de alunos. 
A partirdos anos 1920 a educação passou a ser tema de debates entre políticos e 
educadores, cujo principal ponto de preocupação foi a escola primária. Assim, alguns 
setores passaram a defender sua obrigatoriedade e seu caráter democrático e 
republicano. Contudo, durante as primeiras décadas da República a escola primária se 
manteve nos mesmos moldes da velha “Escola de Primeiras Letras” do período 
imperial. 
Por outro lado, havia a preocupação que mobiliza discursos até a atualidade – a 
necessidade de garantir educação de qualidade a todos, a fim de diminuir o fosso 
existente entre as elites e as classes trabalhadoras. Em razão daquelas preocupações e 
das necessidades econômicas, em 1906 o governo federal criou o ensino 
profissionalizante, sob a responsabilidade do ministério da Agricultura, Indústria e 
, 
 
 
20 
 
Comércio – pelo nome da pasta é possível deduzir os principais objetivos que o 
governo tinha com a criação daquela modalidade de ensino. 
Com relação à escola secundária não houve mudanças significativas nos primeiros anos 
da República, a qual foi objeto de disputas conceituais em torno da ênfase nas 
humanidades literárias ou nas humanidades científicas. Continuou sendo ocupada por 
alunos das elites econômicas, cujo intuito das famílias era que seus filhos atingissem o 
ensino superior. 
Dessa forma, ocorreram mudanças que visavam atender às demandas do mercado 
com a criação do ensino profissionalizante, mas com relação à escola primária houve 
poucos avanços, apesar das diversas tentativas de reforma na Educação brasileira que 
serão analisadas mais adiante. 
 
3.2 Ideários educacionais em disputa na Primeira República 
Uma das características sociais do período inicial da República foi a ampliação das 
classes médias, concomitantemente ao aumento da urbanização. A classe média 
apoiou a proclamação da república e tinha aspirações para seus filhos, as quais 
concebiam um destino que os livrasse do trabalho comum, braçal. Assim, desejavam a 
escolarização que os formasse para exercer cargos burocráticos. Em razão disso, 
passou-se a discutir muito a questão da educação para as crianças. 
Naquele momento surgiram dois movimentos em torno da questão da educação: um 
primava pela abertura de escolas, o outro se preocupava com os métodos e conteúdos 
de ensino. Ambos os movimentos disputaram a cena durante a Primeira República, 
envolvendo pensadores, políticos e outros setores da sociedade. 
No início da República houve a primazia do movimento que preconizava o aspecto 
quantitativo, que se repetiu por volta do período da Primeira Guerra Mundial (1914-
1918), associado ao trabalho das Ligas Nacionalistas, as quais surgiram em razão da 
guerra e tinham por propósito incentivar o patriotismo. Segundo Ribeiro (1993), com a 
, 
 
 
21 
 
industrialização crescente e sua demanda por trabalhadores, as Ligas pressionaram o 
governo pela escolarização. 
De acordo com Ribeiro (1993), após a Primeira Guerra Mundial, por volta de 1920, 
surgiu um movimento de descontentamento com os rumos da República, haja vista o 
termo ser definido como “coisa pública”, ou seja, num regime republicano as decisões 
do governo devem atender ao interesse público. Um dado que reforça a ideia de que a 
coisa pública não havia se instalado no Brasil é representado pela taxa de 75% da 
população em idade escolar ser analfabeta. 
Naquele mesmo período, o mundo assistiu à emergência dos EUA como 
potência mundial. Isso se explica pelo fato de o país não ter sofrido destruição em 
razão da guerra e de que o conflito, ocorrido principalmente na Europa, havia 
potencializado sua capacidade industrial, ao mesmo tempo em que o parque industrial 
europeu fora aniquilado. A partir de então, os EUA passaram a exercer forte influência 
sobre o Brasil em vários campos. Assim, o Brasil passou a absorver de modo mais 
intenso a produção acadêmica voltada à Educação, produzida nos EUA. Dessa forma 
ganha força o movimento mais preocupado com a qualidade da Educação. 
Esse movimento não se preocupava apenas com a abertura de escolas, mas também 
com os livros adotados, metodologia empregada, arquitetura escolar, relação ensino-
aprendizagem, gestão, maneiras de avaliar e com os demais aspectos que envolvem o 
fazer escolar. 
Esses ideários, de alguma maneira, influenciaram as reformas propostas para a 
Educação durante a Primeira República, cujo principal problema dizia respeito à 
imensa massa de pessoas analfabetas naquele período. Cabe lembrar que o 
positivismo também exerceu influência no pensamento pedagógico da Primeira 
República. Caracterizado pelo cientificismo e pragmatismo, cujo método deveria 
orientar todas as ciências, o positivismo alcançou bastante expressão no período, o 
que se observa em algumas reformas propostas. 
 
, 
 
 
22 
 
3.3 Reformas Educacionais Federais na Primeira República 
Ghiraldelli (2009) afirma que os primeiros anos do período republicano foram 
marcados pela apresentação de várias reformas educacionais. A Reforma Benjamin 
Constant (1890), de caráter muito amplo, propunha, entre outras mudanças, a inclusão 
de disciplinas científicas nos currículos e buscou organizar de forma mais eficiente os 
vários níveis do sistema educacional. A reforma não saiu do papel, pois para que se 
concretizasse faltava infraestrutura administrativa que lhe assegurasse a implantação 
e o apoio político das elites, as quais viam com receio ideias que pudessem colocar em 
xeque os valores e padrões da velha mentalidade aristocrático-rural. 
Outra reforma ficou conhecida como Código Epitácio Pessoa, exposta no Decreto nº 
3.390, de 1º de janeiro de 1901, a qual propunha a revisão dos currículos, buscando 
dar mais ênfase à literatura que às matérias científicas, introduzindo a Lógica e 
retirando a Biologia, a Sociologia e a Moral. Em 5 de maio de 1911 foi publicado o 
Decreto nº 8.659, conhecido como Reforma Rivadávia, a qual tinha orientação 
positivista e que tentou infundir um critério prático no estudo das disciplinas, 
defendendo a liberdade de ensino e de frequência, abolindo o diploma em favor de 
um certificado de assistência e aproveitamento e transferindo os exames de admissão 
no ensino superior para a faculdade, com o objetivo de que o secundário se tornasse 
formador do cidadão e não do candidato ao nível seguinte. Seus resultados foram 
desastrosos, o que levou a outras reformas segundo Ghiraldelli (2009). 
A Reforma Carlos Maximiliano (1915) anulou as alterações realizadas pela Reforma 
Rivadávia. Criou exames de vestibular aos cursos superiores, a obrigação do curso 
secundário para ingresso nas faculdades, retirou as alterações feitas no ensino 
superior e recuperou a oficialização do ensino, resolveu o problema da expansão 
controlada com a criação do vestibular e a obrigatoriedade do diploma do curso 
secundário para a matrícula no superior. 
No processo de oscilação característico dessas reformas, revelando as disputas de 
projetos educacionais por parte dos diferentes agentes, em 1925 surgiu a Reforma 
Rocha Vaz, de caráter elitista, mantendo o controle ideológico da Educação sob o 
, 
 
 
23 
 
Estado por meio da inspeção escolar e do cerceamento das atividades dos professores 
e alunos, inclusive criando a disciplina “Moral e Cívica” como obrigatória nas escolas. 
Essa reforma liquidou, definitivamente, qualquer possibilidade de autonomia didática 
e administrativa, fixando o currículo no Ensino Superior e alterando o vestibular. 
 
3.4 A situação do Ensino de 1920 a 1930 
As reformas pedagógicas não foram suficientes para a resolução dos problemas 
educacionais. A Educação manteve-se como reflexo do modelo socioeconômico, que 
nãohavia sido alterado substancialmente com o advento da República. Assim a 
educação acabou se mantendo preponderantemente com um caráter tradicional, de 
forma a não atender as necessidades da população oriunda das camadas populares. 
Efetivamente houve certa ampliação do ensino secundário, contudo apenas no ensino 
particular. Houve um pequeno aumento do pessoal docente no ensino público, mas foi 
acompanhado de diminuição nas escolas e matrículas. As elites econômicas, cientes da 
precariedade do ensino público, passaram a matricular seus filhos nas escolas 
particulares. 
Num país cuja base da economia era a agricultura, do ponto de vista econômico, não 
havia necessidade de se escolarizar toda a população, pois bastava a elite dominante 
ser letrada. Dessa forma, o governo não se empenhou em ampliar a rede secundária. 
Segundo Ribeiro (1993), a elite, detentora dos meios materiais, matriculava seus filhos 
nas escolas particulares vislumbrando que atingissem o ensino superior e se tornassem 
os futuros administradores do país. Isso explica porque a estrutura educacional não foi 
alterada no período. 
As mudanças ocorridas na economia, com a crise do modelo agrário-comercial-
exportador e o impulso à industrialização, com o modelo nacional-desenvolvimentista 
fazem com que a burguesia se fortaleça e demonstre seu descontentamento com o 
pensamento e ideologia dominantes, os quais não atendem a seus interesses. Assim, 
, 
 
 
24 
 
os anos 1920 são marcados por movimentos políticos, artísticos e intelectuais que 
expõem as mudanças em curso. 
Do ponto de vista político, o período assistiu à revolta do Forte de Copacabana (1922), 
à liderada por Isidoro Dias Lopes (1924) e à Coluna Prestes (1924-1927). Do ponto de 
vista artístico, a Semana de Arte Moderna de 1922 marcou um momento significativo 
em que se propôs romper com os valores até então reinantes no país, buscando lhe 
perscrutar sua verdadeira essência, marcada pela desigualdade social, miséria e 
analfabetismo. Esse contexto inspirou movimentos intelectuais preocupados com a 
Educação no país, dos quais o mais significativo foi a Escola Nova. 
 
3.5 A Educação e os ideários da Escola Nova e Conservador Católico 
O escolanovismo se inspirou em debates educacionais que ocorriam na Europa, onde 
desde o século XIX havia a preocupação com a individualidade do aluno. No Brasil, os 
defensores desse ideal ficaram conhecidos por pioneiros da Escola Nova e suas 
principais defesas giravam em torno do ensino leigo, universal, gratuito e obrigatório. 
Também preconizavam a reorganização do sistema escolar, enfatizavam a importância 
do Estado para a Educação, da mesma forma que enalteciam o papel desta para a 
reconstrução nacional. 
Visando solucionar os problemas do país, os escolanovistas apelavam para o 
humanismo científico-pedagógico, isto é, a convivência harmoniosa do homem com as 
máquinas, de tal forma a criar condições para que os indivíduos convivessem com a 
ciência e a tecnologia, a partir da concepção de que tudo o que existe está a serviço e 
disponibilidade do homem. 
Entre 1924 e 1929 houve reformas educacionais promovidas pelos estados, voltadas 
para o nível primário. Essas reformas foram muito influenciadas pelo escolanovismo, 
destacando-se a de Lourenço Filho, em 1923, no Ceará; a de Anísio Teixeira, em 1925, 
na Bahia; a de Francisco Campos e Mário Casassanta, em 1927, em Minas Gerais; a de 
Fernando de Azevedo, em 1928, no Distrito Federal; e a de Carneiro Leão, também em 
, 
 
 
25 
 
1928, em Pernambuco. Em todas essas reformas houve uma junção entre o modelo 
econômico, político e educacional. Eram as ideias liberais pragmáticas da Escola Nova 
que influenciava as reformas, cujas principais características podem ser assim 
resumidas: 
 
a) A Escola Primária Integral buscava exercitar nos alunos os hábitos de educação 
e raciocínio, noções de Literatura, História e Língua Portuguesa, desenvolvendo 
a higiene e o físico; 
b) O Ensino Médio integrava o Primário e o Superior, desenvolvendo o espírito 
científico com vários tipos de cursos; 
c) A defesa da organização universitária voltada para o ensino, a pesquisa e a 
formação profissional, e a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras 
de acordo com Ribeiro (1993). 
 
Embora houvesse diretrizes desejáveis para o Ensino Médio e Superior, essas reformas 
ficaram restritas ao curso Primário. Nas disputas ideológicas no campo da Educação, o 
ideário escolanovista acabou sendo contraposto ao pensamento conservador católico. 
A ideologia católica remonta ao tempo em que a Igreja dominava as relações sociais e 
concebe o desmoronamento das instituições vigentes como consequência do 
afastamento do homem em relação a Deus. A visão dos pensadores da educação de 
origem católica tem uma filosofia pedagógica coerente com a visão cristã de mundo, a 
qual defende um ensino religioso para a formação cristã, colocando a criança na 
centralidade do processo educacional e preconizando a separação de alunos e alunas. 
 
 
 
 
, 
 
 
26 
 
Conclusão 
Neste bloco foi abordada a situação da Educação na Primeira República, com destaque 
para o fato de que, durante todo o período, a escolarização não foi efetivada como um 
direito, deixando parcelas significativas da população no analfabetismo, reproduzindo 
assim as desigualdades sociais herdadas desde o período imperial, não obstante o 
fortalecimento de novos atores, vinculados à burguesia, enquanto as elites agrárias 
entraram em declínio. 
Neste contexto foram propostas muitas reformas, influenciadas por diferentes 
interesses e correntes de pensamento. Assim, positivistas, liberais, 
desenvolvimentistas e conservadores católicos protagonizavam as disputas em torno 
dos projetos educacionais, os quais visavam ao atendimento de setores também em 
disputa: elites agrárias, burguesia, classes médias e classes trabalhadoras – estas 
últimas muito mais numerosas e com menos poder na correlação de forças que se 
estabeleceu durante todo o período, no tocante à Educação. 
O próximo bloco é dedicado à situação da Educação durante o período que se estende 
do início da Era Vargas, em 1930, até o governo de Juscelino Kubitschek, em 1960. 
 
 
 
Referências 
GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Filosofia e história da educação brasileira; da colônia ao 
governo Lula. 2ª ed. Barueri, SP: Manole, 2009. 
RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da educação escolar no Brasil: notas para 
uma reflexão. Paideia, Ribeirão Preto, SP, n.4, fev./jul. 1993. 
 
 
 
 
, 
 
 
27 
 
 
4 A Educação brasileira no período de 1930 a 1964 
O ano de 1930 é marcado pela Revolução que acabou com o predomínio das 
oligarquias no cenário político brasileiro. Práticas fraudulentas nas eleições, as quais 
impediam que outras forças conseguissem subir ao poder, aliadas à crise econômica 
mundial provocada pela queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929 e a forte 
insatisfação de setores urbanos e militares com os rumos da política, levaram à 
revolução. Com a vitória dos revolucionários, Getúlio Vargas subiu ao poder, 
permanecendo como presidente da república até 1945 (Era Vargas) e depois 
retornando, pelo voto, de 1951 a 1954, momento em que cometeu suicídio. 
Os debates em torno da Educação continuaram intensos nesse período marcado por 
importantes transformações de ordem administrativa, econômica, política e social as 
quais influenciaram significativamente os rumos da Educação. Neste bloco são 
abordados aspectos referentes à Educação na Segunda República (1930-1937) e 
durante o Estado Novo (1937-1945), o Manifesto dos Pioneiros da Educação (1932) e 
as mudanças relacionadasà Educação nas constituições de 1934, 1937 e 1946. 
 
4.1 A Educação na Segunda República (1930-1937) 
Um dos marcos da Educação na Segunda República foi a criação do Ministério da 
Educação e Saúde, que teve como primeiro responsável o ministro Francisco Campos, 
o qual fez uma reforma no ensino superior em 1931, quando foi organizado o sistema 
universitário brasileiro. Logo em seguida, foi reformado o ensino secundário. Contudo 
essas reformas não foram tão amplas quanto era necessário. 
A reforma do ensino secundário proporcionou maior organicidade àquele segmento de 
ensino, estabelecendo definitivamente o currículo seriado, a frequência obrigatória, o 
estabelecimento de dois ciclos (um fundamental de cinco anos e outro complementar 
de dois anos), e a exigência de habilitação neles para ingresso no ensino superior. No 
, 
 
 
28 
 
ensino superior a reforma teve mais caráter administrativo, a qual criou órgãos 
universitários, tais como reitoria, conselho universitário, assembleia universitária e 
direção de cada escola. 
A instabilidade política do início dos anos 1930, em conjunto com a insatisfação das 
camadas populares, e com o descontentamento de setores políticos levou o governo 
federal a não tomar medidas imediatas mais profundas. Essa demora na tomada de 
decisões levou ao descontentamento daqueles educadores que participaram das 
reformas dos anos 1920, os quais assinaram em 1932 o Manifesto dos Pioneiros da 
Educação Nova. 
 
4.2 O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova 
O Manifesto dos pioneiros da Educação Nova foi escrito em 1932, o qual apresentou 
propostas para inovações no sistema educacional da época. Até a atualidade o 
Manifesto é grande referência, pois alguns dos pontos em que tocou ainda são 
sensíveis na realidade atual. 
A frase de abertura do Manifesto, escrita por Fernando de Azevedo, já demonstra a 
importância da Educação para os signatários do Manifesto: “Na hierarquia dos 
problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade o da educação. 
Nem mesmo os de caráter econômico podem disputar a primazia nos planos de 
reconstrução nacional” (AZEVEDO, 2006, p. 188). 
O Manifesto foi publicado nos principais veículos de comunicação da época e, além de 
Fernando de Azevedo, foi subscrito por mais 25 intelectuais de renome na educação 
brasileira, dentre os quais Afrânio Peixoto, Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Roquete 
Pinto, Júlio de Mesquita Filho, Almeida Junior, Cecília Meireles e Edgar de Mendonça. 
Entre suas principais propostas, o documento apontava a necessidade de a educação 
ser uma ferramenta para a redução das desigualdades, o fortalecimento do papel do 
Estado na condução dos assuntos educacionais e, consequentemente, o 
fortalecimento da escola pública além do ensino laico, gratuito e obrigatório oferecido 
, 
 
 
29 
 
em sistema de coeducação (meninos e meninas estudando no mesmo ambiente 
escolar). 
Como se percebe, muito do que os signatários do Manifesto reivindicaram para a 
Educação ainda encontra ecos no século XXI. Se por um lado a coeducação e o 
fortalecimento do papel do Estado na condução e fiscalização do processo escolar hoje 
é uma realidade, as desigualdades sociais e fragilidades educacionais ainda se fazem 
presentes. Algumas conquistas anteriores são questionadas como a obrigatoriedade 
da Educação em instituições de ensino para crianças e adolescentes e a laicidade do 
ensino, aliadas a outros questionamentos sobre a validade do conhecimento científico 
– o movimento terraplanista é um claro exemplo disso. 
 
Saiba Mais 
O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova pode ser consultado pelo link: 
http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/edicoes/22e/doc1_22e.pdf 
 
4.3 A Educação durante o Estado Novo (1937-1945) 
A história política do Brasil é permeada por incontáveis golpes de Estado, os quais 
quando questionados por seus opositores sempre são justificados como legítimos por 
seus apoiadores. Durante a Era Vargas houve um governo provisório que, com a 
Constituição de 1934, foi seguido pelo governo constitucional, o qual seria liderado por 
Vargas até 1938, quando haveria novas eleições. Com o intuito de permanecer no 
poder, em 1937, Vargas simulou uma tentativa de golpe de Estado que sofreria, 
realizada pelos comunistas. Antecipando-se ao suposto golpe, Vargas estabeleceu o 
Estado Novo, regime ditatorial de tendências fascistas, que lhe proporcionou 
permanecer no poder como ditador até 1945, quando então foi deposto, colocando 
fim à Era Vargas. 
, 
 
 
30 
 
Como o novo regime atendeu aos interesses da burguesia industrial, que se 
encontrava em plena ascensão, essa lhe rendeu apoio. Essa fase se caracterizou pela 
crise do café e decadência do setor agrário exportador, pelo processo de urbanização e 
intensa repressão às manifestações populares e à oposição como um todo. 
Em razão das mudanças estruturais pelas quais a sociedade passava com a instauração 
de um modelo nacional-desenvolvimentista baseado na industrialização, a educação 
sofreu mudanças em resposta às novas necessidades que surgiam, a saber, demanda 
por mão de obra para as funções que se abriam no mercado de trabalho. 
No início da década de 1940 houve estabilização do regime em razão de dois aspectos: 
a intensa repressão à oposição e a política de conciliação entre as classes – o 
populismo. Nesse período, as atenções governamentais no tocante à Educação se 
voltaram mais para o ensino primário e secundário, em detrimento do ensino superior. 
A Reforma Capanema, de forte tendência fascista, foi implantada em 1942. A ideologia 
preconizada por ela era voltada ao nacionalismo e patriotismo, difundindo ideias 
relacionadas a ordem e disciplina por meio dos cursos de Moral e Civismo e de 
Educação Militar para os alunos do sexo masculino das escolas secundárias. 
O ensino secundário passou a ser ministrado em dois ciclos de quatro e três anos. O 
ginasial correspondia aos quatro primeiros anos enquanto os últimos três 
correspondiam ao curso colegial, que apresentava duas opções: o clássico e o 
científico. O ensino continuou a ter caráter humanista, enciclopédico e aristocrático. 
Os cursos científicos e clássicos não apresentaram diferenças substanciais entre si. 
Houve ainda o estabelecimento do ensino comercial e o industrial. 
A Reforma Capanema estava em sintonia com as necessidades do empresariado, fato 
demonstrado pelo estabelecimento do ensino industrial e comercial. A reforma 
representou uma reafirmação de muitos pontos da reforma Francisco Campos e um 
recuo a alguns princípios proclamados pelo Manifesto dos Pioneiros. 
 
 
, 
 
 
31 
 
4.4 A Educação no período de 1946 a 1964 
O período de 1946 a 1964 é definido por parte da historiografia que se dedica à 
história do Brasil como democrático-populista. Ele é composto pelos governos de 
Eurico Gaspar Dutra (1946-1951); Getúlio Vargas (1951-1954); Café Filho, Carlos Luz, e 
Nereu Ramos (1954-1955, completando o mandato de Vargas); Juscelino Kubitschek 
(1956-1961); Jânio Quadros (janeiro-agosto de 1961); e Ranieri Mazzilli e João Goulart 
(1961-1964, completando o mandato de Jânio). 
Com a posse de Dutra foi assinada a Lei Orgânica do Ensino Primário por meio do 
Decreto-Lei nº 8.529, de 2 de janeiro de 1946, a qual estabeleceu uma reformulação 
naquele segmento educacional, retomando princípios estabelecidos pelos pioneiros da 
Educação em seu Manifesto de 1932. Outra reformulação importante ocorreu no 
ensino normal, que anteriormente era da alçada dos Estados e foi centralizado na 
União, por meio do Decreto-Lei nº 8.530, também de 2 de janeiro de 1946, a Lei 
Orgânica do Ensino Normal. 
Nascia maisuma das instituições constituintes do que depois ficou conhecido como 
“Sistema S”. O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), foi criado pelo 
Decreto-Lei nº 8.621, de 10 de janeiro de 1946, com estrutura semelhante ao Serviço 
Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Contudo, enquanto o Senai se 
subordinava à Confederação Nacional da Indústria, o Senac ficou sob a 
responsabilidade da Confederação Nacional do Comércio. 
Reformas mais profundas seriam levadas adiante pelo Ministro da Educação, Clemente 
Mariani, que constituiu uma comissão de educadores com a missão de propor um 
projeto para uma reforma geral na Educação do país. Coube a Lourenço Filho a 
presidência da referida comissão que em 1948 apresentou um anteprojeto de reforma 
a ser submetido à votação na Câmara e no Senado, o que só ocorreu em 1961, 
resultando na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 
A contraposição de ideias entre católicos e liberais teve um novo momento de disputa, 
cujo principal ponto de divergência foi a oposição entre escola pública e escola 
particular. Essa última foi defendida pela Igreja e pelos donos de escolas privadas. A 
, 
 
 
32 
 
Igreja argumentava que a escola pública não via seus alunos integralmente, limitando-
se a desenvolver aspectos relacionados ao conhecimento formal, ao passo que apenas 
a escola confessional estava apta a educar, ou seja, a desenvolver não só a inteligência, 
como também o caráter, a partir de uma filosofia integral de vida, inexistente na 
escola pública. 
Os católicos defendiam o direito das famílias na formação integral de seus filhos e 
subvenções públicas para as escolas particulares, além de considerar os defensores da 
escola pública como comunistas, o que implica em serem inimigos de Deus, da família 
e da Pátria. Já os defensores da escola pública fundamentavam suas ideias na doutrina 
liberal-pragmática por meio da qual a Educação ajusta o indivíduo à sociedade. 
Quando a Lei 4.024 de 1961 foi aprovada, estabelecendo as diretrizes e bases da 
educação nacional, tanto tendências liberais quanto dos católicos foram 
contempladas. 
 
4.5 A educação nas constituições de 1934, 1937 e 1946 
A principal característica do Estado Democrático de Direito é a existência e observação 
de uma constituição por parte de todos os poderes instituídos, instituições, 
corporações e indivíduos. Quanto mais a Constituição representa os anseios da 
sociedade e é observada, mais se pode dizer que o país encarna a noção de Estado 
Democrático de Direito. 
O Brasil, que atualmente tem menos de duzentos anos de existência como um Estado 
independente, está em sua sétima constituição, cujas promulgações ou outorgas 
sempre acompanharam rupturas políticas. 1824: proclamação da independência 
(1822); 1891: proclamação da república (1889); 1934: Revolução de 1930 (1930); 1937: 
estabelecimento do Estado Novo (1937); 1946: redemocratização; 1967: 
estabelecimento do regime civil-militar (1964); 1988: redemocratização. 
A Constituição de 1934 inaugurou uma nova fase da história constitucional brasileira, 
na medida em que se dedicou a enunciar normas que extrapolam a temática 
, 
 
 
33 
 
tipicamente constitucional, o que se traduz na constitucionalização de direitos 
econômicos, sociais e culturais. Dessa forma, a constituição de 1934 estabeleceu a 
competência legislativa da União para traçar diretrizes da educação nacional. Dedicou 
seu capítulo II à Educação e à Cultura, definindo a primeira como direito de todos, 
correspondendo a dever da família e dos poderes públicos, voltada para consecução 
de valores de ordem moral e econômica. 
Pela primeira vez uma constituição brasileira apresentou dispositivos que organizam a 
educação nacional. Para tanto, determinou a previsão e especificação de linhas gerais 
de um plano nacional de educação e competência do Conselho Nacional de Educação 
para elaborá-lo; a criação dos sistemas educativos nos estados, prevendo os órgãos de 
sua composição como corolário do próprio princípio federativo e a destinação de 
recursos para a manutenção e desenvolvimento do ensino. Também instituiu a 
garantia de imunidade de impostos para estabelecimentos particulares, de liberdade 
de cátedra, de auxílio a alunos necessitados e provimento de cargos do magistério 
oficial mediante concurso. 
A Constituição de 1937, que inaugurou o Estado Novo chefiado por Getúlio Vargas, 
representou retrocesso nos avanços observados na anterior. A Educação foi vinculada 
a valores cívicos e econômicos. Não apresentou preocupação com o ensino público, 
que seria complementar à iniciativa privada conforme o Art. 125: “A educação integral 
da prole é o primeiro dever e o direito natural dos pais. O Estado não será estranho a 
esse dever, colaborando, de maneira principal ou subsidiária, para facilitar a sua 
execução ou suprir as deficiências e lacunas da educação particular” e o Art. 129: 
À infância e à juventude, a que faltarem os recursos necessários à educação 
em instituições particulares, é dever da Nação, dos Estados e dos Municípios 
assegurar, pela fundação de instituições públicas de ensino em todos os 
seus graus, a possibilidade de receber uma educação adequada às suas 
faculdades, aptidões e tendências vocacionais (BRASIL, 1937). 
Em pleno regime ditatorial, a centralização foi reforçada pela previsão de competência 
material e legislativa privativa da União em relação às diretrizes e bases da educação 
nacional, sem referência aos sistemas de ensino dos estados. 
, 
 
 
34 
 
A Constituição de 1946, promulgada com a redemocratização no período subsequente 
ao Estado Novo, retomou os princípios das edições de 1891 e 1934. A competência 
legislativa da União foi circunscrita às diretrizes e bases da educação nacional, 
enquanto aos Estados coube a legislação de aspectos locais e a gestão de seus 
respectivos sistemas de ensino. 
A educação foi definida novamente como direito de todos, prevalecendo a ideia de 
educação pública, a despeito de franqueada à livre iniciativa. Foram definidos 
princípios norteadores da educação, dentre os quais ensino primário obrigatório e 
gratuito, liberdade de cátedra e concurso para seu provimento, não só nos 
estabelecimentos superiores oficiais, mas também nos livres, merecendo destaque a 
inovação da previsão de criação de institutos de pesquisa. A vinculação de recursos 
para a manutenção e o desenvolvimento do ensino foi restabelecida. 
 
Conclusão 
Neste bloco abordamos a Educação num período de profundas transformações 
políticas, econômicas e sociais, as quais repercutiram bastante no campo educacional. 
Destacam-se as necessidades do mercado de trabalho que se transforma e exige 
adequações no sistema educacional, com a formulação de várias reformas e o 
estabelecimento de novos segmentos e sistemas de ensino, como o Ensino 
Profissionalizante e a criação do Senai e Senac. 
Os debates entre intelectuais com diferentes concepções educacionais também foram 
significativos para a formulação de reformas e de leis específicas que normatizaram a 
educação. Os debates mais significativos representam uma continuidade em relação às 
disputas ideológicas presentes no campo educacional na Primeira República, 
contrapondo católicos a liberais. 
 
 
 
, 
 
 
35 
 
Referências 
AZEVEDO, Fernando de. et. al. Manifesto dos pioneiros da educação nova. Revista 
Histedbr On-line Campinas, SP, n. especial, p.188–204, ago. 2006. Disponível em: 
http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/edicoes/22e/doc1_22e.pdf. Acesso em: 10 
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Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao34.htm. Acesso em: 17 ago. 2019. 
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1937. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ 
Constituicao/Constituicao37.htm. Acesso em: 17 ago. 2019. 
BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. 18 de set. 1946. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ 
Constituicao46.htm. Acesso em: 17 ago. 2019. 
GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Filosofia e história da educação brasileira; da colônia ao 
governo Lula. 2ª ed. Barueri, SP: Manole, 2009. 
MARINS, Cosme Freire. Currículo de História no Ensino Médio e avaliação de 
egressos: a relação entre os documentos orientadores da disciplina e os exames 
oficiais (Enem e Vestibulares) – 2009-2013. 2016. Tese (Doutorado em Educação). 
Faculdade de Educação – Universidade de São Paulo, São Paulo. 
RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da educação escolar no Brasil: notas para 
uma reflexão. Paideia, Ribeirão Preto, SP, n.4, fev./jul. 1993. 
 
 
 
 
 
 
 
, 
 
 
36 
 
 
5 A Educação brasileira de João Goulart a Fernando Henrique Cardoso 
Neste bloco serão abordados os eventos relacionados à Educação no período de 1961 
a 2000, a partir do contexto sociopolítico que antecedeu o estabelecimento do regime 
civil-militar. Castello Branco foi o primeiro presidente do regime que tomou o poder 
em 1964 por meio de um golpe de Estado, derrubando João Goulart, sob a acusação 
de que estava levando o Brasil ao comunismo. 
A ditadura deixou marcas profundas em todas as dimensões sociais, inclusive na 
Educação. Estudaremos o contexto que antecedeu o golpe, a primeira LDB, a influência 
de Paulo Freire na Educação, as ações dos movimentos como o Centro Popular de 
Cultura, o Movimento de Cultura Popular e o Movimento de Educação de Base, bem 
como o contexto pós-redemocratização, quando houve a promulgação da nova 
Constituição, da Nova LDB e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os quais 
serão analisados de forma a apresentar as principais conquistas que representaram no 
campo educacional. 
 
5.1 O contexto social e político que antecedeu o golpe civil-militar de 1964 
Em plena Guerra Fria, a ditadura que se instaurou no país não pode ser compreendida 
deslocada do contexto mais amplo, marcado pela disputa por áreas hegemônicas entre 
as duas superpotências que emergiram após a Segunda Guerra Mundial: EUA e URSS. 
Sendo a América, desde o século XIX, área de influência dos EUA, com o crescimento 
de movimentos de esquerda na América Latina e a vitória dos revolucionários em 
Cuba, que levaram seu líder Fidel Castro ao poder, os EUA e as elites econômicas 
latino-americanas temeram a reprodução da situação cubana nos demais países da 
região. Assim, houve uma sequência de golpes de Estado instaurando regimes pró-EUA 
em todo o subcontinente, sendo o primeiro deles aquele ocorrido no Brasil, em 1964. 
, 
 
 
37 
 
No início dos anos 1960 os movimentos sociais estavam em ascensão. Os 
trabalhadores do campo se organizaram em torno das Ligas Camponesas, lideradas por 
Francisco Julião. Os trabalhadores urbanos estavam se organizando em torno dos 
sindicatos, reunidos na Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT). Os estudantes, 
tanto secundaristas quanto universitários, também se articulavam em torno de suas 
entidades representativas maiores, a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas 
(Ubes) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), respectivamente. No interior desses 
movimentos, embora houvesse segmentos conservadores, havia a hegemonia de 
setores de esquerda, muitos ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) ou ao 
Partido Comunista do Brasil (PC do B). 
Os movimentos sociais pressionaram por mudanças, que foram chamadas reformas de 
base. O governo João Goulart, no dia 13 de março de 1964, acabou cedendo e 
anunciou que faria as reformas no histórico comício que realizou na Central, na então 
Capital Federal. As reformas de base se relacionavam à estrutura agrária, 
administrativa, financeira, tributária e universitária. Dentre as medidas, havia a 
previsão de desapropriação de terras para fins de reforma agrária, a limitação de 
remessa de lucros ao exterior e a nacionalização do subsolo nacional. 
Os setores conservadores da sociedade viram o anúncio como uma clara ameaça a 
seus interesses, acusando-as de comunistas. Houve a mobilização de grande número 
de pessoas as quais saíram às ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo na Marcha da 
Família com Deus pela Liberdade, exigindo a retirada de Goulart do poder. No dia 1º 
de abril ele foi deposto, inaugurando um período de vinte anos de ditadura, com fortes 
impactos na área da Educação. 
 
5.2 A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação 
Outro aspecto importante no período que precedeu o golpe militar de 1964 foi a 
publicação da Lei 4.024, primeira LDB, prevista na Constituição de 1934, mas só 
publicada em 20 de dezembro de 1961. Em seu Art. 1º descreve os fins da Educação 
Nacional, a qual é “inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade 
, 
 
 
38 
 
humana”. Reconheceu, no Art. 2º, a Educação como direito de todos, cuja oferta “será 
dada no lar e na escola”. 
O Art 3º, incisos I e II, garantiu tanto ao poder público quanto à iniciativa particular 
ministrar o ensino em todos os graus, na forma de lei em vigor, e sobre o 
financiamento da Educação determinava que o Estado devia fornecer recursos 
indispensáveis para que a família e, na falta desta, os demais membros da sociedade 
se desobriguem dos encargos da educação, quando provada a insuficiência de meios, 
de modo que sejam asseguradas iguais oportunidades a todos. 
Os Art. 8º e 9º regulamentaram a existência dos Conselhos Estaduais de Educação e do 
Conselho Federal de Educação enquanto o Art. 10 deu mais autonomia aos órgãos 
estaduais, diminuindo a centralização do poder no MEC. A obrigatoriedade do ensino 
primário foi anunciada no Art. 27, enquanto sua duração de quatro a seis anos foi 
apresentada no Art. 26. Com relação ao financiamento, o Art. 92 limitou o 
investimento mínimo em Educação em 12% do orçamento da União e em 20% do 
orçamento dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. 
Apesar dos avanços, o conteúdo enunciado pela LDB de 1961 representava um grande 
desafio a ser enfrentado num país em que 55% da população total habitava a zona 
rural (na região Nordeste essa taxa chegava a 65%) e com 45% da população na 
condição de analfabetos (na região Nordeste essa taxa era de 65%), conforme dados 
disponíveis na página oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 
 
5.3 Paulo Freire e sua influência na Educação 
Atualmente está ocorrendo uma polêmica intensa em torno do nome de Paulo Freire e 
de seu legado para a Educação, inclusive com o esforço de setores que desejam o 
destituir do patronato da Educação Brasileira, sob a alegação de se tratar de um 
doutrinador comunista. Contudo, muito do que se fala sobre o educador não encontra 
coerência com seu pensamento e concepções pedagógicas, os quais são muito 
valorizados e objeto de pesquisa em diversos países dos vários continentes. 
, 
 
 
39 
 
Seus estudos, muito voltados para a Educação de Jovens e Adultos em razão do alto 
índice de analfabetos quando o educador viveu, têm como princípio promover a 
alfabetização de tal forma que o educando seja sujeito nesse processo. Para tanto, 
preconizava a mobilização de situações do cotidiano no processo pedagógico. Assim, 
em vez de partir da silabação para ensinar a ler e escrever, defendia a abordagem de 
palavras geradoras, a partir das quais se realizava o processo de alfabetização,considerando o domínio do código escrito, mas dando ênfase não àquela codificação e 
sim à vida, aos anseios, às dificuldades e aos sonhos do sujeito que aprende. Esse 
princípio pode ser sintetizado na ideia de que o sujeito se alfabetiza primeiro na leitura 
de mundo, nas palavras de Freire (2008), a leitura de mundo antecede a leitura da 
palavra. 
Essa concepção deveria orientar toda ação alfabetizadora, conforme Freire, que 
substituiu a ideia de palavra geradora para tema gerador no aprimoramento de seus 
escritos. Contrário ao que chamou de “educação bancária”, caracterizada pelo 
depósito de informações nas cabeças dos educandos sem garantir sentido algum, além 
da decodificação das letras e palavras em si, o pensador pernambucano defendia que 
o processo de alfabetização deveria ser um momento de reflexão e debate sobre as 
condições da realidade social e de vida do educando. 
O pensamento de Paulo Freire foi muito influente em movimentos de educação 
popular, principalmente naqueles voltados a desenvolver a alfabetização de jovens e 
adultos. Até hoje seus escritos constituem referência importante no campo da 
Educação. Isso aponta duas evidências: não é por acaso que se tornou o patrono da 
Educação Brasileira; e, justamente, devido às suas ideias e ao seu legado, é tão 
combatido por setores que não desejam a promoção de um modelo educacional que 
realmente provoque a reflexão sobre os problemas sociais que assolam o país. 
 
 
 
, 
 
 
40 
 
5.4 O Movimento de Cultura Popular, o Movimento de Educação de Base e o Centro 
Popular de Cultura 
As concepções de alfabetização de Paulo Freire influenciaram alguns movimentos 
como o Movimento de Cultura Popular (MCP), o Movimento de Educação de Base 
(MEB) e o Centro Popular de Cultura (CPC). 
O MCP foi criado no dia 13 de maio de 1960, como uma instituição sem fins lucrativos 
durante a primeira gestão de Miguel Arraes como prefeito do Recife. Era formado por 
três departamentos: o de Documentação e Informação (DDI), o de Difusão da Cultura 
(DDC) e o de Formação da Cultura (DFC), dos quais o último foi o mais atuante, dirigido 
por Paulo Freire. 
O MCP tinha como uma de suas propostas básicas a alfabetização de adultos. Entre as 
principais ações do movimento se destacam a criação de escolas de rádio, que 
visavam, sobretudo, atender a ao público adulto, e a organização de uma publicação 
intitulada Livro de leitura para adultos ou Cartilha do MCP. Os programas eram 
veiculados pelas rádios Clube de Pernambuco e Continental. Paralelamente havia aulas 
presenciais, as quais eram ministradas à noite, nos mesmos espaços ocupados por 
crianças e adolescentes durante o dia. 
Já o MEB remonta à transmissão de programas educativos por meio da emissora 
católica da Diocese de Natal em 1958. Suas ações eram coordenadas por entidades 
ligadas à Igreja Católica, como a Juventude Estudantil Católica (JEC) e a Juventude 
Universitária Católica (JUC). 
Em 1960 houve em Aracaju o I Seminário de Educação de Base, em que foi discutida a 
criação de um Movimento Nacional de Educação de Base, o que resultou em um 
pedido feito pelo arcebispo de Aracaju ao então presidente da República, João Goulart. 
Em 21 de março de 1961 foi publicado o Decreto nº 50.370, que previa o repasse de 
recursos do orçamento da União para o MEB, gerido pela Conferência Nacional dos 
Bispos do Brasil (CNBB), que faria uso de Escolas Radiofônicas nas áreas carentes das 
regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte. 
, 
 
 
41 
 
A ação não se restringiu aos programas educativos, pois integrantes da Ação Católica 
Brasileira (ACB) foram até as comunidades alfabetizar as pessoas que não haviam tido 
oportunidade de estudar anteriormente. Seu principal público era formado por 
trabalhadores rurais. A realização do processo de alfabetização tinha como baliza a 
conscientização dos educandos com o intuito de transformar do mundo. 
Com relação ao CPC, sua criação ocorreu em 1961, por um grupo de intelectuais e 
artistas ligado à UNE. O CPC da UNE foi o mais conhecido, contudo havia diversos CPCs 
espalhados pelo país, cuja atuação era muito ampla. Paulo Freire o influenciou a partir 
da experiência do MCP do Recife, no tocante à cultura popular. 
Sua preocupação maior residia em conscientizar a classe trabalhadora- sobre a 
opressão a que era submetida. É importante lembrar o contexto em que se vivia e 
como as ideias de transformação social por meio da eliminação das desigualdades 
eram intensas naquele momento. Os integrantes do CPC se viam com a missão de 
levar a consciência à classe trabalhadora que, a partir disso, realizaria as 
transformações sociais tão necessárias. 
Para atingir esse objetivo, o CPC atuou em vários campos. Porém, uma diferença 
básica entre o CPC e o MCP é que este era ligado ao Estado, recebendo recursos 
públicos, enquanto o CPC original não tinha nenhum vínculo com organismos estatais, 
partidos políticos ou outras organizações – apesar de ser sediado na UNE, era 
independente em relação àquela entidade. 
Sendo assim, para captar recursos, o CPC agiu como uma empresa. Todos os serviços 
executados por aquele órgão eram pagos, exceto o teatro de rua, o teatro para 
camponeses e os poucos espetáculos efetuados com a carreta-teatro (construída para 
viabilizar as apresentações de rua onde houvesse algum motivo importante, como 
uma manifestação ou greve). A não vinculação a organizações que lhe dessem 
subsídios não impediu o CPC de se desenvolver. Foram criados vários departamentos, 
a saber: 
a) Teatro, que reuniu, entre outros: Oduvaldo Viana Filho, Gianfrancesco 
Guarnieri, Francisco de Assis, Flávio Migliaccio, Armando Costa, Helena 
, 
 
 
42 
 
Sanches, João das Neves, Carlos Miranda, Arnaldo Jabor, Joel Barcelos, Claudio 
Cavalcante e Cecil Thiré – este departamento depois se dividiu em dois: 
convencional e de rua; 
b) Cinema, reunindo, entre outros: Leon Hirsman, Carlos Diegues, Marcos Faria, 
Miguel Borges e Teresa Aragão; 
c) Música, que entre outros reuniu: Carlos Castilho, Carlos Lira, Nelson Lins e 
Barros, Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré; 
d) Arquitetura e Artes Plásticas; 
e) Administração; 
f) Alfabetização de adultos, que logo depois foi desligado do CPC e incorporado 
ao MEC; 
g) Literatura. 
Com o golpe de 1964 as atividades foram cerceadas e seu projeto de educação 
popular, juntamente com o do MCP e o do MEB, foi impedido de continuar sob a 
alegação de que se tratava de doutrinação comunista. 
 
5.5 A legislação e a Educação: a Constituição de 1988, a LDB e o ECA 
O tratamento constitucional dedicado à Educação reflete a conjuntura política e a 
correlação de forças tanto no campo legislativo quanto no campo educacional. A 
Constituição Federal (CF) de 1988 foi promulgada num período de redemocratização e 
ascensão dos movimentos sociais, quando a luta pela liberdade de opinião e de 
expressão foi acrescida da luta pelo alargamento dos direitos sociais, incluindo o 
direito à Educação pública e gratuita em todos os níveis. Dessa forma, a correlação de 
forças no campo legislativo, durante a Assembleia Nacional Constituinte, repercutiu a 
ascensão dos movimentos sociais, resultando na incorporação de vários direitos sociais 
no texto constitucional. 
No tocante à Educação, a CF de 1988 determina minucioso regramento. Enuncia a 
educação como um direito social; dedica parte considerável do título da Ordem Social 
para responsabilizar o Estado e a família, tratar do acesso e da qualidade, organizar o 
, 
 
 
43 
 
sistema educacional, vincular o financiamento e distribuir encargos e competências 
para os entes federados. Esse regramento minucioso é reflexo do caráterdemocrático 
do texto, que é reforçado pela preocupação em prever instrumentos voltados para a 
efetividade dos direitos previstos. 
A CF de 1988 reconhece uma tríplice função da Educação em seu Art. 205: “A 
educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e 
incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da 
pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. 
Captar toda a dimensão do direito à educação pressupõe situá-lo previamente no 
contexto dos direitos sociais, econômicos e culturais, os chamados direitos de 2ª 
dimensão, no âmbito dos direitos fundamentais, os quais receberam atenção inédita 
no Brasil na CF 1988. 
O texto constitucional apresenta preocupação com a qualidade da Educação, como nos 
Arts. 206, inciso VII: “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: 
garantia de padrão de qualidade”; 208, inciso V: “O dever do Estado com a educação 
será efetivado mediante a garantia de: acesso aos níveis mais elevados do ensino, da 
pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um”; 209, inciso II: “O 
ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: autorização e 
avaliação de qualidade pelo Poder Público”; 210: “Serão fixados conteúdos mínimos 
para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito 
aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais” (BRASIL, 1988). 
Visando ao cumprimento do princípio de educação de qualidade, a CF de 1988 
disciplinou a articulação entre os entes federados e os deveres da União no tocante à 
Educação e a limitação do piso de financiamento da Educação em cada esfera de 
poder. 
Outro aspecto relevante trazido pela CF de 1988 diz respeito à gratuidade do ensino. O 
§1º do Art. 208 descreve: “O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público 
subjetivo”. O §2º do mesmo artigo trata da responsabilização do Poder Público pela 
oferta do ensino obrigatório: “O não oferecimento [sic] do ensino obrigatório pelo 
, 
 
 
44 
 
Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade 
competente”. 
Por fim, o artigo final da Seção dedicada à Educação, cuja redação foi dada pela EC 
59/2009, reforça os princípios enunciados no Art. 205, que inicia a seção dedicada à 
Educação: 
Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração 
decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em 
regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de 
implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino 
em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas 
dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a: 
I - erradicação do analfabetismo; 
II - universalização do atendimento escolar; 
III - melhoria da qualidade do ensino; 
IV - formação para o trabalho; 
V - promoção humanística, científica e tecnológica do País; 
VI - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em 
educação como proporção do produto interno bruto. (BRASIL, 1988) 
Outro marco do contexto do movimento de redemocratização do país foi a publicação 
em 1990 da Lei 8.069/90, que instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A 
inovação trazida pelo ECA está na concepção que enfatiza as especificidades da criança 
e do adolescente, compreendidos como sujeitos de direitos, destinatários de proteção 
integral, contrariamente à legislação anterior, sobretudo a constante no Decreto 5.083 
e na Lei 6.697, que instituíram o Código de Menores (CM) em 1926 e 1979, 
respectivamente. 
No Capítulo IV, o ECA tratou da Educação como condição básica de existência digna da 
criança e do adolescente, bem como da imprescindibilidade daquela para 
desenvolvimento pessoal e social destes. Da mesma forma que a CF de 1988, o ECA 
declara que toda criança e adolescente tem direito à Educação, cujo papel triplo do 
Art. 205 da CF é retomado: “Art. 53. A criança e o adolescente têm direito à educação, 
, 
 
 
45 
 
visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da 
cidadania e qualificação para o trabalho”. 
Por fim, a Lei 9.394/96, atual LDB, promulgada em 1996, teve uma versão que 
tramitou por mais de dez anos sem ser aprovada, recebendo mais de 2.000 emendas 
além de outras cerca de 2.000 sugestões da sociedade civil organizada, até ser 
substituída por projeto de lei de autoria do então senador Darcy Ribeiro. A versão 
aprovada desconsiderou o debate empreendido para a formulação da proposta 
anterior. 
A LDB em vigor define em seu artigo 1º: “A Educação abrange os processos que se 
desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de 
ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas 
manifestações culturais”. Assim, a Educação foi reconhecida para além daquela 
oferecida nas instituições escolares. 
Em seu Art. 2º, em consonância com a CF, a LDB expressa: “A educação, dever da 
família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade 
humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para 
o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Entre os avanços 
alcançados pela LDB, destacam-se o inciso Art. 4º, I, e o artigo 5º, a partir da redação 
dada pela Lei nº 12.796, de 2013: 
Artigo 4º - O dever do Estado com educação escolar pública será efetivado 
mediante a garantia de: 
I - educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) 
anos de idade, organizada da seguinte forma: 
a) pré-escola; 
b) ensino fundamental; 
c) ensino médio. 
Assim, o Ensino Médio passou a ser considerado como uma etapa da Educação Básica, 
que é oferecida pelo poder público de forma gratuita e, a partir de emendas 
posteriores, passou a ter sua oferta obrigatória por parte do Estado, sob pena de crime 
de responsabilidade para os respectivos gestores públicos. 
, 
 
 
46 
 
O Art. 4º, IX, menciona a preocupação com a qualidade da educação: “padrões 
mínimos de qualidade de ensino, definidos como a variedade e quantidade mínimas, 
por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino-
aprendizagem”. Enquanto o Art. 5º garantiu o acesso à Educação Básica: 
O acesso à educação básica obrigatória é direito público subjetivo, podendo 
qualquer cidadão, grupo de cidadãos, associação comunitária, organização 
sindical, entidade de classe ou outra legalmente constituída e, ainda, o 
Ministério Público, acionar o poder público para exigi-lo. (BRASIL, 2013) 
Em muitos dispositivos a LDB de 1996 prevê a articulação dos entes federados para a 
execução dos objetivos da Educação, tanto com relação ao financiamento, quanto aos 
aspectos de planejamento e apoio técnico necessários, cabendo à União a realização 
do Plano Nacional de Educação, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e 
os Municípios. 
 
Conclusão 
Este bloco apresentou o contexto intenso que antecedeu o golpe de 1964, 
demonstrando a ascensão dos movimentos sociais, do campo e da cidade, com 
destaque para aqueles preocupados em combater o analfabetismo, inspirados pelas 
ideias de Paulo Freire. Durante o regime civil-militar aqueles projetos foram impedidos 
e a educação foi bastante cerceada com a transformação do currículo, que eliminou 
disciplinas como História e Geografia, introduzindo Estudos Sociais e Educação Moral e 
Cívica. 
Ainda foi analisado o processo de redemocratização, o qual proporcionou conquistas 
em vários campos. As conquistas específicasdo campo educacional foram expressas 
primeiramente na Constituição de 1988 e depois foram reforçadas no Estatuto da 
Criança e do Adolescente, de 1990, e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação 
Nacional, de 1996. 
, 
 
 
47 
 
No momento atual observamos no Brasil uma ascensão de movimentos e 
pensamentos conservadores, os quais atacam muitas conquistas dos últimos trinta 
anos, da mesma forma que buscam desqualificar a ciência como um todo, bem como 
as instituições públicas de ensino e pesquisa. Esses grupos são os mesmos que atacam 
o legado de Paulo Freire e negam que o Brasil viveu um período ditatorial. Novamente 
se percebem disputas no campo educacional, opondo conservadores a progressistas, 
tal como tem acontecido desde o início do período republicano. 
 
Referências 
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Disponível em: 
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> 
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FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 49ª ed. 
São Paulo: Cortez, 2008. 
GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Filosofia e história da educação brasileira; da colônia ao 
governo Lula. 2ª ed. Barueri, SP: Manole, 2009. 
MARINS, Cosme Freire. Currículo de História no Ensino Médio e avaliação de 
egressos: a relação entre os documentos orientadores da disciplina e os exames 
oficiais (Enem e Vestibulares) – 2009-2013. 2016. Tese (Doutorado em Educação). 
Faculdade de Educação – Universidade de São Paulo, São Paulo. 
RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da educação escolar no Brasil: notas para 
uma reflexão. Paideia, Ribeirão Preto, SP, n.4, fev./jul. 1993. 
 
, 
 
 
48 
 
 
6 A formação docente ao longo da História da Educação do Brasil 
Um dos aspectos mais relevantes para a qualidade da Educação oferecida aos alunos 
em um determinado contexto se liga diretamente à qualidade da formação dos 
professores, bem como às concepções de Educação defendidas pelos educadores, as 
quais, muitas vezes, estão em estreita sintonia com aquela formação. Assim, a análise 
do processo de formação de professores pode ser muito reveladora de outros 
aspectos relacionados ao ensino. 
Esse bloco aborda seis momentos importantes que caracterizaram a formação docente 
no Brasil durante a República, por meio do estabelecimento: a) das Escolas Normais; b) 
dos Institutos de Pesquisa; c) dos cursos de Pedagogia e de Licenciatura; d) da 
substituição da Escola Normal pela Habilitação Específica do Magistério; e) dos 
Institutos Superiores de Educação e das Escolas Normais Superiores. 
 
6.1 As Escolas Normais 
A preocupação com a formação dos professores no Brasil surgiu com a promulgação 
da Lei das Escolas de Primeiras Letras, de 1827, a qual determinou que os professores 
fossem treinados para o uso do método, às próprias custas, nas capitais das províncias. 
Com isso, percebe-se que a formação dos professores não contava com investimentos 
públicos, acentuando seu caráter de privilégio, em detrimento do caráter de direito. 
Em 1834 foi publicado o Ato Adicional, estabelecendo que as províncias adotassem o 
modelo dos países europeus para a formação dos professores: as Escolas Normais. 
Assim, foram criadas diversas Escolas Normais nas províncias, na seguinte ordem: 
Bahia (1836); Mato Grosso (1842); São Paulo (1846); Piauí (1864); Rio 
Grande do Sul (1869); Paraná e Sergipe (1870); Espírito Santo e Rio Grande 
do Norte (1873); Paraíba (1879); Rio de Janeiro (DF) e Santa Catarina (1880); 
Goiás (1884); Ceará (1885); Maranhão (1890). Essas escolas eram abertas, 
, 
 
 
49 
 
fechadas e reabertas periodicamente, tendo existências intermitentes 
(BORGES, et al, 2011, p. 97). 
As Escolas Normais, inicialmente, privilegiavam uma formação em que predominava a 
preocupação dos conhecimentos a serem transmitidos nas Escolas de Primeiras Letras. 
De acordo com Saviani (2009) currículo de ambas as instituições era constituído pelas 
mesmas matérias, isto é, propunha-se que os professores deveriam ter o domínio 
daqueles conteúdos que lhes caberia ensinar às crianças, desconsiderando-se o 
preparo didático-pedagógico. 
Entre 1890 e 1931 houve o estabelecimento e expansão do padrão das Escolas 
Normais, tendo como marco inicial a reforma da instrução pública do estado de São 
Paulo, que teve os custos de instalação assumidos pelos reformadores, a qual definiu o 
modelo de organização e funcionamento das Escolas Normais. A reforma preconizou o 
enriquecimento dos conteúdos curriculares anteriores ao mesmo tempo em que 
enfatizou exercícios práticos de ensino. 
De acordo com Borges (2011), a Escola Normal deveria garantir o preparo dos 
professores por meio da organização curricular, com preparação dos conteúdos 
científicos em conjunto com a preparação didático-pedagógica, para garantir, 
efetivamente, boa formação aos professores. O modelo de Escola Normal tendeu a se 
fortalecer e se expandir por todo o país. Contudo, o ímpeto reformador se 
enfraqueceu após a primeira década, prevalecendo a preocupação com o domínio dos 
conhecimentos a serem transmitidos em detrimento da preparação didático-
pedagógica. 
 
6.2 Os Institutos de Educação 
A Educação no período de 1932 a 1939 foi marcada, do ponto de vista da formação 
dos educadores, pela organização dos Institutos de Educação. Aquelas instituições 
foram concebidas como locais dedicados ao ensino e à pesquisa em Educação. 
Inspirados no ideário da Escola Nova foram criados o Instituto de Educação do Distrito 
, 
 
 
50 
 
Federal, concebido e implantado por Anísio Teixeira, em 1932, e o Instituto de 
Educação de São Paulo, implantado por Fernando Azevedo, em 1933. 
A proposta escolanovista para a formação de professores pressupunha a criação da 
Universidade com a função tríplice de produzir ciência, transmiti-la e vulgarizá-la, 
destacando a formação de docentes para escolas primárias (correspondentes à 
primeira fase do Ensino Fundamental atual), escolas secundárias (correspondentes à 
segunda fase do Ensino Fundamental e ao Ensino Médio atual), escolas 
profissionalizantes e superiores. 
Anísio Teixeira, por meio do Decreto 3.810, de 19 de março de 1932, buscou 
reorganizar as Escolas Normais, contemplando a cultura profissional e a cultura geral. 
Dessa forma, os Institutos de Educação procuraram incorporar as exigências da 
Pedagogia, que buscava conquistar um status científico, trilhando o caminho para a 
consolidação de um modelo pedagógico-didático de formação docente, tentando 
corrigir as insuficiências e distorções praticadas pelas Escolas Normais originais. 
No entanto, a aplicação do ideário da Escola Nova não se concretizou, pois encontrou 
uma série de obstáculos para isso, tais como a falta de preparo dos professores, a 
ausência de recurso didático-pedagógico, o choque com as ideias vivas da prática 
pedagógica consagrada. Por outro lado, segundo Borges (2011) a ideologia norteadora 
da época tinha um caráter liberal que reafirmava a manutenção do sistema capitalistae não considerava os aspectos sociais, políticos e econômicos que afetavam a vida das 
pessoas. Dessa forma, a exclusão e o elitismo que marcavam a Educação até aquele 
momento prevaleceram. 
 
6.3 A implantação dos cursos de Pedagogia e de Licenciatura 
Em meados da década de 1930 os Institutos de Educação de São Paulo e do Distrito 
Federal foram elevados ao nível universitário, os quais se tornaram a base dos estudos 
superiores de Educação. O paulista foi incorporado à Universidade de São Paulo, 
fundada em 1934; e o carioca, à Universidade do Distrito Federal, criada em 1935. 
, 
 
 
51 
 
O Decreto nº 1.190, de 4 de abril de 1939, organizou definitivamente a Faculdade 
Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e os cursos de formação de professores 
para as escolas secundárias. Esse decreto resultou no que ficou conhecido como 
“esquema 3+1”, ou seja, três anos dedicados ao estudo das disciplinas específicas ou 
conteúdos cognitivos e um ano destinado à formação didática. O esquema 3+1 foi 
adotado nos cursos de Pedagogia e de Licenciaturas. 
Posteriormente, o Decreto-Lei nº 8.530, de 2 de janeiro de 1946 – Lei Orgânica do 
Ensino Normal –, reorganizou a estrutura daquele segmento de ensino, que foi 
dividido em dois ciclos: o primeiro correspondia ao ciclo ginasial do curso secundário e 
tinha duração de quatro anos e o segundo, com duração de três anos, correspondia ao 
curso colegial do ensino secundário. 
Em 1968 entrou em vigor a Lei nº 5.540, que realizou a Reforma Universitária, a qual 
definiu normas e funcionamento do Ensino Superior, influenciada pela tendência 
liberal tecnicista, cuja concepção implica na formação de técnicos profissionais, de 
forma rápida, para atender às demandas do mercado. Assim, seu objetivo central 
consistia em adequar o sistema educacional à orientação política e econômica do 
regime militar: inserir a escola nos modelos de racionalização do sistema capitalista. 
Se, por um lado, evidenciam-se avanços nos discursos, por outro, o sistema 
educacional continuou excludente e dual, proporcionando ensino propedêutico às 
elites e, consequentemente, preparando-as para a Universidade, enquanto destina às 
camadas populares o ensino profissionalizante. 
 
6.4 A substituição da Escola Normal pela Habilitação Específica do Magistério 
Com a publicação da segunda Lei de Diretrizes e Bases da Educação (nº 5.692, de 1971) 
houve uma reestruturação nos ensinos primário e médio. Na nova estrutura foram 
extintas as Escolas Normais e instituída a habilitação específica de 2º grau para o 
exercício do magistério de 1º grau. O Parecer nº 349, de 6 de abril de 1972, organizou 
a Habilitação do Magistério em duas modalidades básicas: uma com carga de 2.200 
, 
 
 
52 
 
horas distribuídas em três anos, que habilitaria a lecionar até a 4ª série do 1º grau; e 
outra com carga de 2.900 horas, distribuídas em quatro anos, habilitando ao 
magistério até a 6ª série do 1º grau. 
Assim, de acordo com Borges (2011), o currículo mínimo pressupunha o núcleo 
comum, obrigatório em todo o território nacional, para todo o ensino de 1º e 2º graus. 
O Curso Normal antigo cedeu lugar a uma Habilitação de 2º grau e a formação de 
professores para o antigo ensino primário foi reduzida a uma habilitação dispersa em 
meio a tantas outras, configurando um quadro de precariedade preocupante. 
Em 1982 foram criados os Centros de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério 
(Cefam´s), visando à revitalização da Escola Normal, numa tentativa de atenuação dos 
problemas relacionados à formação de professores. Entretanto o aproveitamento e 
abrangência do projeto foram restritos, não obstante algumas experiências de 
excelência realizadas no Estado de São Paulo. 
A LDB de 1971 previu ainda a formação em cursos de Licenciatura para os professores 
das quatro últimas séries do ensino de 1º grau, bem como para o 2º grau. Foram 
instituídos cursos de Licenciatura Curta (3 anos de duração) e Licenciatura Plena (4 
anos de duração). O curso de Pedagogia, além da formação de professores para 
Habilitação Específica do Magistério, recebeu a atribuição de formar os especialistas 
em Educação, divididos em diretores de escola, orientadores educacionais, 
supervisores escolares e inspetores de ensino. 
Nos anos 1980, sob influência da Pedagogia Progressista Libertadora, cujo maior ícone 
foi Paulo Freire, surgiu um movimento pela reformulação dos cursos de Pedagogia e de 
Licenciatura, adotando o princípio da “docência como base da identidade profissional 
de todos os profissionais da educação” (SILVA, 2003, p. 68). 
Naquele período houve certa ruptura com o pensamento tecnicista preponderante na 
área da Educação até então. Nesse contexto, vários educadores produziram e 
divulgaram concepções avançadas sobre a formação docente, destacando: 
 “o caráter sócio-histórico da formação, a necessidade de um profissional 
com formação ampla, com pleno domínio e compreensão da realidade de 
, 
 
 
53 
 
seu tempo, desenvolvimento da consciência crítica que lhe permita 
interferir nas condições da escola, da educação, da sociedade e transformá-
las” (BORGES et al, 2011, p. 101). 
 
Segundo Borges (2011) essa concepção emancipadora de educação e formação 
avançou na superação de dicotomias generalistas, ao passo que a escola também 
avançava na democratização de seus espaços, possibilitando a revisão das relações de 
poder e trabalhando para a construção de novos projetos coletivos. Esse processo 
possibilitou a construção da concepção de profissional da Educação que tem na 
docência e no trabalho pedagógico suas particularidades e especificidades. 
 
 
6.5 O advento dos Institutos Superiores de Educação e das Escolas Normais 
Superiores 
Segundo Borges (2011), com a redemocratização do Brasil, o movimento de 
mobilização dos educadores alimentava a esperança de que o problema da formação 
docente seria resolvido com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 
9.394/96). No entanto, a nova LDB não atendeu às expectativas, uma vez que 
introduziu como alternativa aos cursos de Pedagogia e de Licenciaturas os Institutos de 
nível Superior de segunda categoria, promovendo uma formação mais aligeirada e 
barata, por meio de cursos de curta duração 
Porém, em 2002 foi promulgado o documento com as Diretrizes Curriculares Nacionais 
para a Formação Docente, quando se estabeleceram as primeiras adaptações nos 
currículos de formação docente. Posteriormente, foram promulgadas as diretrizes 
curriculares específicas para cada curso de Licenciatura. 
As universidades tiveram então a possibilidade de organizar seus cursos de formação 
de professores, de acordo com seus projetos institucionais, com a condição de que 
, 
 
 
54 
 
estes fossem realizados em Licenciaturas Plenas, com liberdade para incorporar ou não 
a figura dos Institutos Superiores de Educação (ISEs). 
Segundo Borges (2011), os ISEs representaram um novo formato de formação docente 
e ofereceram a possibilidade de integração, com base comum, na formação de 
professores para os diversos níveis de ensino e especialidades, institucionalizando a 
Escola Normal Superior no âmbito dos ISEs. 
Essa fase da História da Educação no Brasil, no que tange à formação docente, indica 
uma mudança substancial em que tanto a estrutura curricular, quanto a articulação 
formativa dos currículos e a preocupação com a qualificação dos formadores de 
formadores demonstram um cuidado maior com o processo de formação dos 
professores. 
Contudo, foram autorizados posteriormente cursos de formação de professores 
isolados em Escolas Normais Superiores, perdendo a organicidade de formação 
docente. As orientaçõesdas Diretrizes Nacionais para a formação de professores 
foram colocadas em segundo plano e se criaram cursos de licenciaturas 
independentes, perdendo as articulações previstas. 
 
Conclusão 
Nesse bloco foram abordadas as características legais, epistemológicas e práticas que 
orientaram as mudanças no processo de formação de professores durante o período 
republicano brasileiro. Cabe ressaltar que, se por um lado a formação docente é um 
dos principais elementos responsáveis pela maior ou menor qualidade da educação 
oferecida, por outro, as concepções subjacentes e os interesses em jogo também são 
fundamentais para o maior ou menor êxito das reformas propostas. 
Percebe-se o quanto as disputas ideológicas e de interesses influenciam a estrutura 
curricular da Educação Básica, bem como aquela destinada aos futuros profissionais do 
magistério. Os interesses do mercado, defendidos por representantes do ideário 
liberal, em muitos momentos se chocam com propostas de caráter progressista. As 
, 
 
 
55 
 
conquistas, do ponto de vista da formação docente, em alguns casos, perdem vigor 
com o passar dos anos, como ocorreu com o modelo de Escola Normal. Em outros 
casos são flexibilizadas, como ocorre com a autorização de funcionamento de Escolas 
Normais Superiores, fazendo com que todo o esforço empreendido na constituição das 
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Docente seja desconsiderado, 
relegando aquelas Diretrizes a segundo plano, ao atender interesses privados em 
detrimento da Educação e da formação dos futuros professores. 
 
Referências 
GADOTTI, Moacir. História das Ideias Pedagógicas. 7ª ed. São Paulo: Editora Ática, 
1999. 
BORGES, Maria Célia; AQUINO, Orlando Fernández; PUENTES, Roberto Valdés. 
Formação de professores no Brasil: História, políticas e perspectivas. Revista 
HISTEDBR. [online], Campinas, SP, n. 42, pp. 94-112, jun. 2011. 
SAVIANI, Dermeval. Formação de professores: aspectos históricos do problema no 
contexto brasileiro. Revista Brasileira de Educação. [online]. 2009. Vol.14, n. 40, pp. 
143-155. 
SILVA, Carmem Silvia Bissoli da. Curso de Pedagogia no Brasil: história e identidade. 
2ª ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.

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