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FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO Tássio Acosta GUIA DA DISCIPLINA 2019 1 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. REFLEXÕES SOBRE A EDUCAÇÃO A PARTIR DOS PRESSUPOSTOS FILOSÓFICOS1 Objetivo Propor a reflexão da Filosofia da Educação para a formação Docente de alunos de Licenciaturas pelo entendimento de que uma prática educadora se faz necessária a partir do desenvolvimento da criticidade que, consequentemente, faz-se urgente o conhecimento do processo filosófico existente. Introdução Ao contrário do que algumas pessoas podem achar, a disciplina de Filosofia da Educação não fará com que você, aluna/o, conclua-a e se torne uma grande filósofa da educação, da sociedade, etc. Ela servirá para lhe dar embasamento teórico suficiente e compreender as evoluções educacionais que a sociedade desenvolveu em toda a sua história. Será, portanto, uma linha do tempo dos episódios, fatos e vivências. Para tanto, alguns pontos são extremamente necessários de serem compreendidos, são eles: I) conhecimento da educação clássica, medieval, moderna e contemporânea, II) as teorias e práticas pedagógicas existentes na contemporaneidade e III) as tendências atuais e as éticas imbricadas com as novas possibilidades educacionais. Estes 3 eixos serão centrais no desenvolvimento de nossa disciplina. Ao primeiro, caberá uma propagação de suas objetividades e ideias, como se deram as suas formações e seus meios de divulgação para serem compreendidos como os corretos a serem seguidos. Ao segundo, servirá para que possamos conhecer as tendências da educação na contemporaneidade, em como a sociedade influencia o processo de escolarização e como as questões ideológico-político-econômicas também estão presentes na escola. Ao fim, o terceiro eixo terá como objetivo propagar a ação ética do processo educacional e como o docente deve se portar frente a heterogeneidade discente, docente e institucional. Afirma-se, por fim, que não existe professor apolítico, neutro e isento. 1Tássio Acosta é Doutorando em Educação pela UNICAMP, Mestre em Educação pela UFSCar, Especialista em Ética, Valores e Cidadania na Escola pela USP e Graduado em História pela UniSantos. Suas áreas de pesquisa são: relações de gêneros, sexualidades e diferenças na escola e seus consequentes processos de subjetivação. 2 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A educação é um ato político (Freire, 1983: p. 27) 1.1. O processo educacional Olhar para a educação é compreender que ela não se trata apenas daquele discurso que costumeiramente ouvimos em todos os lugares, de que ‘a educação é a formação da sociedade e por isso a parte mais importante para o desenvolvimento de uma sociedade, assim como não existe uma sociedade que não seja educada, que não tenha passado pela escola, etc.’, olhar para a educação é compreender que há muito mais do que esse discurso facilmente vendável. A educação é, antes de mais nada, um processo de disciplinarização e normatização dos sujeitos. É na escola onde as pessoas vivenciam dispositivos de regras, sobre o que pode e o que não pode, sobre disciplinas e normas, etc. E é justamente em todos estes signos que estão presentes as mais diversas formas de disciplinarizações e normatizações que não apenas formam os sujeitos, como também cerceiam as suas liberdades individuais, amordaçam seus pensamentos insurgentes e diminuem as possibilidades de mudanças efetivas na sociedade. Pois, a qualquer momento em que um professor identifica um aluno que vá contra as normas impostas e que desestabilize o controle institucional, este aluno é posto na categoria de aluno bagunceiro (ou aluno problema) e passa a sofrer uma série de processos disciplinares que o coloca às margens do processo educativo por meio de inúmeras penalidades: expulsão da sala de aula, torna-se alvo de piadas pejorativas por parte do professor, muitas vezes têm suas dúvidas ignoradas e não respondidas, etc. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termo econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma aptidão, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. (FOUCAULT, 2013: 134) Olhar para a escola e para a forma como ela produz esses corpos dóceis são urgentes para que possamos compreende-la para além das questões estruturais, e possamos melhor analisar as questões institucionais, filosóficas e sociais. Estas três formas de se analisar possibilitarão uma compreensão mais crítica do dispositivo escolar, dos seus objetivos e modus operandi. Desmistificar a escola enquanto um local de 3 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância formação da sociedade e que esta sociedade não existiria sem a escola é um posicionamento que devemos ter para que possamos olhar para ela, a escola, de forma crítica e que, com tal criticidade, possamos perceber as suas nuances. 1.2. O processo filosófico O convite feito no subcapítulo anterior serviu para que pudéssemos entrar neste novo subcapítulo já com um olhar mais crítico e mais apurado, compreendendo que a escola tem nuances que necessitam ser mais bem avaliadas e analisadas. Nuances essas que têm objetivos muito específicos na formação dos sujeitos e que vêm de um processo histórico muito anterior à escola tal qual a conhecemos hoje em dia. Desde a sua formação na Grécia, quando a educação tinha como propósito preparar guerreiros com o intuito de se formar o que se compreendia como cidadão, a escola sofre críticas e mudanças. Aristóteles, por exemplo, afirmou que a escola deveria ter como função educar crianças para que se tornassem legisladoras, cidadãs – e justamente por isso, a Grécia é compreendida até hoje como o berço da civilização ocidental, pois passou a compreender que uma sociedade solidificada era aquela que tinha uma boa escolarização. Em momento algum podemos desqualificar o fazer cultural existente em cada aluna, escola e comunidade. Conhecer as suas especificidades e peculiaridades são de fundamental importância para que a professora possa olhar para aquela determinada sala de aula e conhecer os valores que a fundamentam, sem que os desrespeite – obviamente que no caso de um valor local que atente contra os Direitos Humanos como, por exemplo, racismos, LGBTfobias, gordofobias, etc., a professora deverá intervir e criar um projeto específico de intervenção para mitigar a existência de episódios semelhantes. A escola não pode ser um local em que se perpetua impunemente a intolerância. Cada comunidade local tem o seu fazer cultural e nós, enquanto docentes, devemos conhecê-los e trabalhar os assuntos de nossas disciplinas dialogando diretamente com as suas realidades pois, assim, haverá inteligibilidade entre discentes e o conhecimento trabalhado. Imaginemos uma aula para Ensino Fundamental I onde a professora está abordando as questões de desigualdades sociais e ela exemplifica a temática a partir de fotos de um outro país, mostrando a Índia e a Rússia, a China e o Afeganistão, etc. Dificilmente a criança conseguirá compreender a desigualdade existente. 4 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Agora, se a professora mostrar fotos do bairro onde a escola está inserida (ou da comunidade local onde as crianças estudam) e as fotos de um bairro que contraponha à escola e/ou comunidade, com certeza a criança terá maiores condições de reconhecer tais desigualdades. Isso se dará porque a criança foi inserida no processo filosóficoda construção do conhecimento e começou a desenvolver o seu próprio senso crítico perante a sua vida, sua localidade e sociedade num modo geral. Na imagem ao lado, temos um condomínio de luxo, localizado no Bairro do Morumbi, em São Paulo, ao lado de uma das maiores favelas do Brasil, a Paraisópolis. 1.3 . O processo filosófico na educação A junção do processo educacional trabalhado no primeiro subcapítulo para com o processo filosófico trabalhado no segundo subcapítulo possibilitou a construção deste terceiro subcapítulo: o processo filosófico na educação. A sua junção se deu porque pudemos compreender todos os dispositivos existentes em cada um destes processos, suas nuances e entrelinhas. Tendo domínio destes conhecimentos, a nossa prática docente resultará muito mais crítica e apurada, possibilitando que nossas alunas desenvolvam os saberes necessários para que se vejam na sociedade, não enquanto apenas receptoras do conhecimento, mas também enquanto construtoras e partícipes do processo de escolarização. Afinal de contas, qual aluna não gosta de se ver inserida na produção do conhecimento? Quem de nós nunca olhou para uma aula (normalmente aquela monótona, com didática desinteressante) e nos perguntamos: para que que eu quero aprender isso e se nunca usarei em minha vida? Possibilitar uma construção coletiva do conhecimento, desenvolvendo a criticidade da aluna e, de forma conjunta e cooperativa, desenvolver saberes e competências são fundamentais para que a nossa prática educativa dê os resultados esperados. Sobretudo quando estamos muito bem embasados e referenciados, fazendo com que o processo de construção do conhecimento seja realmente um processo filosófico. Compreender que a escola é um dispositivo disciplinar é de fundamental importância para que tentemos diminuir esta interferência no processo de desenvolvimento infanto-juvenil para 5 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância possibilitarmos uma construção diferente, dialogando com aquilo que a juventude espera de fato da escola. Um dos grandes problemas da educação contemporânea é a busca insana pelos resultados institucionais aferidos pelas provas governamentais e processos avaliativos aos quais as alunas são impostas, como se realmente fosse possível avaliar o conhecimento desenvolvido a partir de um conceito numérico. Mudanças estão por vir, e devemos participar delas a partir de proposições de melhorias. 6 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2. A PAIDÉIA GREGA, SÓCRATES, PLATÃO E O MITO DA CAVERNA Objetivo Conhecer como a terminologia Paidéia significou a junção de uma série de saberes que, para os gregos, eram imprescindíveis para a formação do cidadão e o que vem a ser para eles um cidadão e a construção da cidadania Introdução Antes de pensarmos na educação em si, a terminologia Paidéia nos remete mais à questão da formação, visto que ela significa uma junção de saberes com o objetivo de se criar o cidadão grego – condição essa que influenciou significativamente o nosso entendimento sobre educação e escolarização da sociedade. A educação grega ia além do simples aprendizado de uma determinada disciplina, pois abrangia todo o processo formativo multidisciplinar para que o sujeito fosse um cidadão e assim, com condições de viver em sociedade, ou seja, na Polis. A formação se dava a partir do interesse do indivíduo em ser educado, e não algo imposto pelo Estado. A sua liberdade de escolha sobre as áreas do saber a seguir era de fundamental importância para que se desenvolvesse a produção do conhecimento. Os valores centrais da educação estavam pautados no conceito de belo e bom, não obstante, ao olharmos para as esculturas, pinturas e arquiteturas gregas, remetemos automaticamente a imagens belas e quando pensamos na formação dos cidadãos gregos, também projetamos uma imaginação de homens bons. Esta formação de um cidadão é compreendida enquanto uma formação aristocrática, ou seja, uma formação que coloca aquele sujeito além de sua época, uma pessoa para além de seus semelhantes. Pois, assim, os homens gregos passavam a ser sujeitos com condições de trazerem as melhorias esperadas a que neles foram investidas: suas virtuosidades. 7 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2.1. A formação do cidadão A formação deixa de ser aquela pontuada ao sujeito para centra-se ao cidadão, ou seja, a formação passa a ser mais complexa, multidisciplinar e visando o bem comum: a coletividade. A partir do momento em que começou a ocorrer a diferenciação dos homens estudados e dos não estudados, solidificou-se a noção de Aristocracia e o seu consequente domínio perante aquela parcela social não estudada. Um grande exemplo para se conhecer mais a questão da Paidéia, está nas obras Ilíada e Odisseia, de Homero. Nelas, há ricas informações sobre a organização da sociedade grega, a sua relação para com a religiosidade, a formação e a influência da filosofia no desenvolvimento das ciências, etc. A própria forma escrita dessa obra mostra como se desenvolveu as artes gregas. Não obstante, estas escritas tinham como objetivo mitificar os homens, criar heróis, mostrar poderes e valorizar os Deuses. Afinal de contas, ao falarmos sobre a Grécia, projetamos imagens das esculturas, dos deuses, das arquiteturas e das batalhas. Foi justamente a partir dos contos deixados pelos homens gregos que podemos conhecer, com tamanha riqueza, toda a sua cultura e história. O mito possui um valor educativo vindo dos exemplos dos personagens da narrativa. [...] os mitos constituem exemplos de modelos da nação, normas para a vida e ideais para quem se instrui pelo seu pensamento. A épica é o mundo ideal e a obra de Homero é inspirada pelo pensamento das leis que governam o mundo, e o que é essencial à vida humana. (Silvio, 2010: p. 3) A formação do cidadão grego estava muito referenciada pelos valores humanos da educação, a questão ética, do respeito e da constituição de um sentimento de nação, a mesma maneira em que as divindades religiosas estavam sempre presentes – criando uma espécie de sinergia entre cidadãos e deuses. A influência dos pensadores gregos para a filosofia contemporânea se dá pelo fato de que naquele contexto histórico, algumas questões que não eram pensadas passaram a ser pautadas sistematicamente aos debates. Afinal de contas, se a educação era uma forma para se chegar a aristocracia e se o poder se concentrava a ela, à aristocracia, o ato do pensar passou a ser de suma 8 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância importância para o desenvolvimento da sociedade grega, principalmente pelo fato de que a Grécia era dividida em Polis, ou seja, em cidades-estados distintas entre si. 2.2. O legado da Paidéia Ainda que pesquisas arqueológicas vêm descobrindo inúmeras civilizações antigas de grandes importâncias, afirma-se que a escola grega foi fortemente influenciada pela escola egípcia, sobretudo nas questões sociais e de conhecimentos específicos como, por exemplo, a astronomia, teologia, arquitetura, medicina, etc. Não obstante, muitos patronos das mais diversas áreas do saber são de origem egípcias ou greco-romana. A Cidade-Estado de Atenas, entre o séc. VI e V a.C., colocou a educação para a intelectualidade ao mesmo nível de importância da educação física com o intuito de formar cidadãos intelectuais e corporalmente aptos para as mais diversas funções. Para tanto, o Estado deixou de se colocar enquanto uma máquina de conquista territorial por meio de guerras para se preocupar com o bem-estar e a liberdade individual de seus cidadãos – um exemplo forte sobre esta mudança é a de que, ao contrário do que ocorriaem Esparta, onde uma criança de 7 anos era entregue ao Estado para servir ao exército espartano, em Atenas, uma criança de 7 anos passou a ser entregue aos cuidados de um pedagogo. No meio dessas mudanças filosóficas sobre a importância e a função do Estado, Atenas enfrentava uma guerra contra os Persas. A mudança estrutural do Estado requisitou uma nova missão educacional: os sofistas. Seus ensinamentos eram passados nas praças públicas, o que não obteve grandes resultados por ser conhecimentos fragmentados. Os sofistas exigiam pagamento de seus ensinamentos, elencavam a valorização individual, desprezavam a existência de ideias universais, não mantinham uma relação de integração com seus discentes e para eles a moralidade devia se fundamentar na razão e não nos costumes e tradições apregoadas em períodos anteriores. (Xavier, 2016: p. 90) Nesse contexto surge Sócrates propagando a ideia de que o desenvolvimento educacional se dava a partir do momento em que o homem passasse a ter contato consigo mesmo e, assim, criaria um fortalecimento das relações humanas. O humanismo torna-se central neste período! Sócrates propôs que os cidadãos se preocupassem com 9 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância as suas almas, pois, a partir do momento em que não se preocupassem com o Estado, passariam a ter condições de atingirem a felicidade. Sócrates trouxe ao debate a questão do cuidado de si, a partir do momento em que propõe que os cidadãos olhassem para si com o objetivo de atingir seus ideias e anseios. Um de seus maiores discípulos, Platão, traz ao debate a questão da ética na vida pública. Não obstante, sua obra mais conhecida é a que fala sobre a República, onde sintetiza a ideia da impossibilidade de um Estado que não se atentasse às necessidades de seus cidadãos. Nesta obra, dividida em 10 livros, ele disserta a respeito do conceito e princípio de justiça, a diferenciação existente entre a justiça para o cidadão e para o Estado, as três proposições centrais de Sócrates, as questões acerca da racionalidade da Justiça conjuntamente com a alegoria da caverna, a decadência da cidade enquanto ordem natural dos regimes políticos e, por fim, em seu último livro, sobre as questões relacionadas à arte, moral e filosofia. 10 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância https://www.resumoescolar.com.br/wp-content/imagens/o-mito-da-caverna-de-platao.jpg 11 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. A EDUCAÇÃO MEDIEVAL A PARTIR DE SANTO AGOSTINHO E TOMÁS DE AQUINO Objetivo Conhecer os aspectos educacionais de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino a partir do escolasticismo, que foi o fomento ao pensamento crítico existentes nas universidades medievais que buscava tirar a centralidade do saber e do conhecimento à Deus e, de forma dialética, a proposição do conhecimento entre o homem e Deus. Introdução Conforme pudemos ver no capítulo anterior, a filosofia tinha forte influência clássica, o que na idade medieval passou a se contrapor a alguns valores tidos como corretos. A exemplo disso, cito o fato da influência cada vez maior da igreja católica e judaica, a partir do séc. V, conjuntamente com o aprofundamento do pensamento filosófico que já passava a contestar alguns valores que outrora não obtinham respostas como, por exemplo, as questões acerca da fé e da razão. Em total harmonia com a igreja católica, os modelos educativos e as práticas de formações eram propostas pela própria instituição religiosa, dificultando que uma criticidade contrária a ela fosse bem desenvolvida – não obstante, no campo teórico, há um histórico embate sobre a idade média ser a idade das trevas ou não. De acesso restrito aos filhos dos nobres, os estudos eram dedicados ao latim, ensinamentos religiosos e à guerra, ao mesmo tempo em que a maioria da sociedade não tinha condições e/ou acesso aos estudos e era analfabeta. Sua produção artística também era de forte influência da igreja e quaisquer que fossem as produções culturais que não fossem de interesse dela, seus criadores eram perseguidos, torturados e assassinados. O livro mais conhecido do final do Período Medieval é o Martelo das Feiticeiras, que consistia em um manual para identificar e torturar hereges. 12 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3.1. Contribuições de Santo Agostinho Nascido na atual Argélia, converte-se ao cristianismo e se destaca pela intersecção feita entre a filosofia grega com a influência religiosa em suas leituras de mundo, onde afirma que de nada adiantaria a racionalidade se não houvesse a fé. Esta intersecção é presente na centralidade da Idade Média: religião sempre presente em todas as produções dos saberes. Para ele, a divisão entre o bem e o mal, razão e fé, eram princípios ontológicos dos sujeitos, ou seja, princípios que estavam presentes na constituição de todas as pessoas. Sendo assim, interpretava que uma ação pecaminosa não era por inferência de deus ou de diabo, sim de uma consequência da maldade presente nas pessoas a mesma maneira que há a bondade, condições presentes em todos os sujeitos. Ao afirmar a dualidade entre o bem e o mal no mundo, reconhece também a dualidade nas pessoas. Entender essa articulação dos postulados agostinianos nos permite compreender o alcance das suas proposições. Ele aliou o conhecimento à mensagem cristã, tornando-se referência para outros padres e leigos que recorreriam às suas explicações nos sermões e livros escritos por Santo Agostinho para darem continuidade ao trabalho de difusão do cristianismo durante séculos na Idade Média. (Peinado, 2009: p. 4) Em seu livro O Livre Arbítrio, tece diversos pensamentos sobre a origem do mal e conclui que, a partir do momento em que o Homem tinha ciência de que determinadas ações eram maldosas e maléficas para si ou para terceiros, mas que ainda assim as fazia, era uma consequência de suas escolhas individuais, de seu próprio livre arbítrio e não de responsabilidade divina. Suas contribuições perduram até os tempos atuais, sobretudo pela sua grande oratória e textos escritos de forma fáceis a serem lidos e interpretados. Ao difundir as ideias pedagógicas existentes em seus pensamentos, priorizava por uma educação que ensinasse comportamentos compreendidos como os corretos pelo cristianismo. Justamente por conta dessa leitura feita da filosofia clássica concomitantemente às leituras sobre o cristianismo, Santo Agostinho tornou-se uma referência na educação medieval. 13 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3.2 Contribuições de São Tomás de Aquino Outro grande nome da escolástica, Tomás de Aquino, valoriza mais o processo racional do que Santo Agostinho – ainda que vale a pena ressaltar, em momento algum ele desqualifica a crença na religião – ao afirmar que é necessário entender o mundo, a sociedade e a vida para então desenvolver a crença religiosa. Essa sua relação entre o entender (a racionalidade, a filosofia) e o crer (a crença, a religião), não diminui o saber religioso, pois afirma que para que o homem possa compreender a si, ele necessita, obrigatoriamente, voltar a Deus. É nesse momento que há uma diferenciação, para Tomás de Aquino, entre a Filosofia e a Teologia. Enquanto o primeiro possibilita um conhecimento racional sobre o mundo, a teologia possibilita uma compreensão metafísica. Sendo assim, ele afirma que, ainda que a filosofia possibilite a racionalidade das coisas, é um conhecimento imperfeito e incompleto, pois o homem só é completo quando a razão e a crença, a filosofia e ateologia, estão imbricadas. A partir do momento em que a filosofia não se coloca enquanto teologia, ela se torna diferente e incapacitada de trazer todas as respostas necessárias. Santo Tomás apregoa a evolução, como fundamento da educação. Aprender é passar da potência ao ato, por determinação e atividade própria. Fatores extrínsecos, como sejam mestres, livros, tradução social são coisas auxiliares do desenvolvimento autônomo. (VAN ACKER, 1935. p. 17) Essa evolução se dará a partir do momento em que os Homens permitirem que a fé auxilie no melhor desenvolvimento da razão pelo entendimento de que, como a filosofia é imperfeita e a teologia é a sua completude, faz-se necessário que a teologia esteja presente nos estudos filosóficos com o objetivo de que a filosofia se torne completa e com condições de responder aos anseios cotidianos. Sua postura em falar que a racionalidade se fazia necessária para interpretações dos problemas cotidianos o pôs em cheque frente aos padres da época, pois muitos o consideraram pagão. Visto que, para ele, a racionalidade era a possibilidade de unir diversos povos a partir do diálogo. 14 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Havendo esse diálogo a partir da racionalidade, a filosofia passaria a servir para a teologia como um plano de fundo para divulgar as ideias do cristianismo para a sociedade. Algo incompreendido por alguns padres. 15 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4. A EDUCAÇÃO MODERNA E AS INFLUÊNCIAS DE DESCARTES, LOCKE E KANT Objetivo Conhecer os princípios fundantes da modernidade, a partir do Iluminismo que tinha como característica o predomínio das ciências em detrimento da fé, tento a tríade Descartes, Locke e Newton como filósofos centrais do período. Introdução O declínio do poder de influência da Igreja Católica foi acentuado por uma série de fatores, dentre todos, cito quatro: I) renascimento cultural, II) reforma protestante, III) formação do estado moderno e IV) ascensão da classe burguesa. O primeiro fator, o renascimento cultural, se deu pela saturação que a influência da igreja católica impôs à sociedade, buscando novas possibilidades obtidas a partir da oposição ao teocentrismo e ao misticismo, fortalecendo a racionalismo e do antropocentrismo. Ao segundo fator, a reforma protestante, reconhece-se que se deu a partir da oposição feita por estudantes e professores de Wittemberg às práticas da igreja católica, sobretudo pelo controle do conhecimento, e Lutero, seu nome mais expoente, traduziu a bíblia para o alemão iniciando a reforma luterana. Ao terceiro fator, a formação do estado moderno, reconhece- se que a fragilidade do sistema feudal e do controle da igreja, conjuntamente com os altos impostos que os comerciantes da época tinham que pagar, possibilitou a ascensão do absolutismo monárquico. Por fim, o quarto fator, a ascensão da classe burguesa, se deu conjuntamente com a formação do absolutismo monárquico e fortalecimento do mercantilismo. Portanto, o contexto histórico em que o Iluminismo estava inserido corresponde ao enfraquecimento da instituição católica, oposição às altas taxas de impostos, necessidade de industrialização para aumento do comércio e o consequente fortalecimento de uma nova classe social, a burguesia, que detinha os meios de produção da época. Com o aumento da influência das pessoas em detrimento da perda de influência religiosa, o Estado passou a se fortalecer mais e consequentemente a escola passou a servir aos interesses deste Estado e desta nova classe social, a burguesa. 16 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4.1. Descartes e o método cartesiano Conhecido como responsável pela filosofia moderna, Descartes propunha o racionalismo, uma forma de ver o mundo a partir da racionalidade, sem influência da religiosidade ou da subjetividade pois, para ele, os sentidos eram capazes de ocultar aquilo que apenas a razão poderia ver. Duvidou também da própria filosofia pelo fato de que ele não via os filósofos realizarem proposições e mudanças efetivas no cotidiano da época, algo possibilitado pelas ciências – enquanto a filosofia se detinha ao campo das discussões conceituais, as ciências se debruçavam naquilo que era palpável, ou seja, uma ciência mecanicista, esvaziando as questões filosóficas e subjetivas contidas na sociedade. A teologia deixa de ser central ou influenciadora na construção do conhecimento e passa a ter a matemática como ponto de análise universal, visto que era considerada como uma ciência com condições de construir análises incontestáveis, enquanto a teologia ficava no campo da suposição de acordo com a crença de cada um. Ao propor a ciência enquanto ponto de análise central, discorre sobre a necessidade de se ter um método de análise eficaz que responda as questões. Para isso, lança a obra que o tornou mundialmente conhecido até os dias de hoje: Discurso do Método (2005). Dividido em quatro partes, propunha a necessidade de se duvidar de qualquer coisa que poderia se duvidar: i) Verificar se realmente existe evidências reais daquilo a ser estudado para que se possa conhecer as suas singularidades; ii) Analisar a possibilidade de fracionar o que será estudado para que todas as partes que compõem o estudo possam ser de fato estudadas; iii) Sintetizar estas frações em algo único, com condições de dar materialidade verdadeira daquilo estudado; iv) Enumerar todos os passos realizados durante a pesquisa e consolidação dos resultados para se manter a ordem que ocorreu a construção o pensamento. Perpassando por estas quatro partes, afirmava que então se poderia chegar nas verdades incontestáveis. Não obstante, sua frase mais célebre é a “Penso, logo existo” pois, para ele, os sujeitos só poderiam chegar ao reconhecimento de suas existências a 17 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância partir do momento que eles de fato pensassem racionalmente, seguindo seus métodos específicos para se chegar a verdade incontestável. 4.2. Locke e o direito à propriedade privada Contrário ao absolutismo que centralizava todo o Estado em suas mãos, propôs o liberalismo político, onde o Estado chefiado pelo Rei passou a exercer uma influência mínima e, após a Revolução Gloriosa – influenciada pelo seu livro Segundo tratado sobre o governo civil (2014),discorria sobre os limites que o Estado deveria ter ao governar uma sociedade. Acreditava que antes da invenção do Estado (seja ele absolutista ou liberal), a sociedade vivia livre com seus direitos naturais (à vida, à liberdade, à propriedade e à felicidade) pois, como são dotados de racionalidade, conseguiam viver em harmonia. A partir dos direitos naturais que ele fundamenta a sua teoria do homem ser sujeito de si e de seu trabalho, permitindo realizar a aquisição de propriedade e consequentemente ter domínio do dinheiro (do capital). Neste Estado de Natureza, antes da consolidação do Estado de Direito, Locke falava que uma pessoa poderia ver uma terra improdutiva e, se abandonada, cerca-la, trabalhar naquela terra para que a terra passasse a ser dela pelo fato de ter desenvolvido algum trabalho produtivo e, consequentemente, com autonomia para vender seus produtos (quanto mais se vende, mais terras poderá adquirir a partir da compra daquelas já ocupadas). Embora a terra e todos os seus frutos sejam propriedades comuns a todos os homens, cada homem tem uma propriedade particular em sua própria pessoa; a esta ninguém tem qualquer direito senão ele mesmo. O trabalho de seus braços e a obra de suas mãos, pode-se afirmar, são propriamente dele. Seja o que for que ele retire da natureza no estado em que lho forneceu e no qual o deixou, mistura- se e superpõe-seao próprio trabalho, acrescentando-lhe algo que pertence ao homem e, por isso mesmo, tornando-o propriedade dele. (LOCKE, 2014, p.38). Com a evolução das aquisições da propriedade privada, Locke propõe a necessidade da criação de um Estado para que sirva como mediador dos contratos sociais com condições de resolver quaisquer conflitos de forma imparcial, respeitando os direitos naturais dos sujeitos e protegendo a sociedade num modo geral. Portanto, esse contrato social possibilitaria a boa convivência entre a vida pública da sociedade e o direito à propriedade privada dos sujeitos. Cabe ao estado, ainda, a proteção aos seus cidadãos para que não sejam prejudicados com as guerras que outrora vivenciaria e nem com as crises corriqueiras que todo sistema passa. 18 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4.3. Kant e a moralidade universal Um dos maiores filósofos do iluminismo, fez duras críticas ao sistema feudal e ao controle da Igreja perante a liberdade individual e às ciências, compreende que a mesma maneira em que existe uma lei universal que serve para todos com o objetivo de se ter maior organização social, também pode ocorrer com a moral: uma moral universal. Entende que a moralidade independe de quaisquer questões sociais, econômica, crença, etc. Para ele, a moralidade é algo que faz parte de todo e qualquer ser racional e, consequentemente, torna-se uma legisladora da sociedade e dos sujeitos. Consecutivamente a moralidade universal, Kant afirma que a racionalidade possibilita ao homem que ele tenha princípios em virtude de sua própria liberdade de escolha, a partir de sua consciência moral. Ou seja, caberá ao homem determinar e escolher quais caminhos (ou escolhas) ele deverá seguir, visto que a vontade e o desejo são inatos aos sujeitos. Para isso, reconhece o poder decisório individual perante as ações, independentemente de a escolha ser benéfica ou maléfica, tanto para si como para a sociedade. A razão nos foi proporcionada como razão prática, isto é, como algo que deve ter influência sobre a vontade, então a verdadeira destinação da mesma tem de ser a de produzir uma vontade boa, não certamente enquanto meio em vista de outra coisa, mas, sim, em si mesma – para o que a razão era absolutamente necessária (KANT, 2007, p. 113) A base da moralidade, para Kant, se dá a partir do imperativo hipotético e do imperativo categórico. Ao primeiro, o imperativo hipotético, a sua ocorrência se dá em virtude de nossas necessidades futuras, objetivando conseguir algo futuramente como, por exemplo, atingir a felicidade, o emprego desejado, o prazer naquilo que faz, etc. Já ao segundo, o imperativo categórico, é quando os sujeitos agem de um determinado jeito por compreender que aquilo é a forma correta a ser agida como, por exemplo, o cumprimento de uma determinada lei, a manutenção da ética pelo professor, etc. Portanto, será a partir deste imperativo categórico que Kant completou a sua ideia sobre a moralidade universal: a partir do momento em que todos seguem uma ação pelo entendimento coletivo de que aquilo é o correto, a sociedade atingiu a moralidade universal. 19 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5. A EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA E SUAS CORRENTES FILOSÓFICAS Objetivo Conhecer as principais correntes presentes no fazer escola e como elas influenciam as tomadas de decisões existentes na instituição escolar, assim como compreender como subjetivamos e fomos subjetivados por esta escola, tanto quando éramos alunos como quando somos professores. Introdução Passando o período clássico e moderno que estudamos até o momento nesta disciplina, entramos agora no período contemporâneo. A partir deste capítulo, e até o nosso nono capítulo, nos debruçaremos sobre as questões centrais envolvendo a educação contemporânea em suas correntes filosóficas, as contribuições de filósofos brasileiros, as três tendências educacionais mais presentes, a eticidade educacional e um paradigma que recentemente vem ganhando espaços nas discussões acadêmicas, que é o paradigma anarquista aplicado à educação. Como pudemos ver lá no início do primeiro capítulo, a escola não é apenas um local bonito de formação das crianças e juventudes, sim um local em que disciplinariza, normatiza, cerceia e censura seus sujeitos – o que também possibilita que esses sujeitos acionem resistências diversas para subverterem a norma. Será justamente sobre estas questões que nos debruçaremos nos próximos capítulos. Obviamente que não partiremos de achismos para sustentar tais afirmações, sim de correntes teórico-filosóficas que dão sustentação epistemológica. Olhar para a escola de forma crítica é essencial para que possamos extrair dela o que há de melhor, eliminar o que há de pior e possibilitar que os sujeitos ali presentes tenham as suas potências fortalecidas suficientemente ao ponto que se tornem sujeitos de si. Entretanto, não podemos incorrer no erro de achar que a escola e nós, professores, realmente somos capazes disso. Não podemos nos esquecer de que fomos subjetivados por esta mesma escola quando éramos alunos e somos subjetivados por ela enquanto professor – a mesma maneira que também subjetivamos outros professores, alunos e a 20 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância própria construção institucional e formativa dessa escola. Portanto, o exercício reflexivo sobre a prática docente se faz mais do que necessário, faz-se urgência. Duas correntes poderão permitir que pensemos de forma crítica o fazer escola e o fazer educacional, são elas: a corrente marxista e a corrente foucaultiana. Obviamente que não é intenção desta disciplina que vocês saiam filósofos da educação, marxistas, foucaultianos ou qualquer coisa do tipo, sim que tenham o conhecimento dos principais pensadores e correntes existentes na prática escolar. 5.1. Correntes marxistas aplicadas à educação Para Marx, a sociedade é dividida em duas categorias: Burgueses e Proletariado (dominadores e dominados) e, para que haja uma mudança nesta estrutura social, faz-se necessário uma revolução onde o Estado passaria a ser dominado pela classe proletária (os trabalhadores). Sua crítica central ao sistema capitalista compreendia também uma crítica à escola que, para ele, atendia aos interesses da burguesia pois, enquanto classe dominante, queria manter o controle perante a sociedade a partir da escolarização de seus sujeitos. Por estar inserido no momento das revoluções e mudanças políticas da então União Soviética (URSS), defendia que a educação fosse tecnicista e industrial – necessidades da época para que a URSS pudesse se tornar a potência que de fato se tornou. Além de sua contribuição positiva ao olhar para a sociedade e perceber as questões de classes como centrais, contribuiu também para comprovar que as transformações podem ocorrer sistematicamente a partir da tomada do controle por parte da sociedade, possibilitando novas transformações. É a partir do processo vital e do conjunto de relações sociais produzidas que nascem as representações ideológicas, o imaginário social, enfim, o que o homem pensa de si e do mundo a sua volta. Em outras palavras, falar de educação implica explicitar conceitos como trabalho, mercadoria, alienação, democracia, liberdade, Estado, burocracia, etc., todos visando esclarecer a ideia de emancipação no contexto da luta por uma nova ordem social e política (Schlesener, 2016: 47) Muitos teóricos brasileiros seguem o paradigma marxiano e marxista na educação pelo entendimento de que o Estado controla a produção do saber contemplando um amplo domínio sobre os sujeitos, impedindo suas emancipações por meio da alienação. A propósito, a terminologia alienação está extremamente presenteem sua teoria pois, em 21 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância seu entendimento, afirma-se que as práticas repetitivas (seja de trabalho ou de estudo controlado pelo Estado) produz sujeitos alienados, sem condições emancipatórias. Sua contribuição foi extremamente significativa para teóricos da educação pela proposição de que se faz necessário uma constante reavaliação e tensionamento da educação, seja ela privada ou pública, para que os sujeitos presentes na escola tenham condições de reivindicar suas forças a partir da união e criticidade ao modelo econômico, político e social da sociedade num modo geral. 5.2. Correntes pós-estruturalistas aplicadas à educação O pós-estruturalismo, sobretudo da escola francesa a partir de Foucault, Derrida, Deleuze e Guatarri, vem ganhando cada vez mais espaço na formação do pensamento de teóricos da educação no Brasil. Sua principal contribuição se dá pelo fato de pensar a sociedade a partir de alguns conceitos-chaves como, por exemplo, da relação de poder, subjetividade e rizoma. Para Foucault, a relação de poder se dá a partir do momento em que há um controle sobre a produção do saber, não obstante, foi justamente a partir desse entendimento que ele passou a pesquisar as instituições disciplinares como os manicômios, exércitos, presídios, etc. Seus estudos contribuem para que possamos olhar para a escola e perceber como há um intenso processo de disciplinarização e normatização dos alunos ao mesmo tempo em que eles acionam uma série de resistências para insurgir às normas. Partindo desse entendimento, compreende-se que todos os sujeitos presentes nas instituições são subjetivados por elas, a mesma maneira que também subjetivam estas instituições. Ou seja, quando estamos inseridos num local, interagimos com ele (o que cai por terra aquela máxima popular de que eu sou assim e ninguém vai me mudar!). O conceito de rizoma de Deleuze e Guatarri torna-se cada vez mais central na educação contemporânea pelo entendimento de que tudo está interligado. O melhor exemplo para se dar sobre este conceito é o da raiz de gramas que, interligada entre si, possibilita que ela vá aumentando de tamanho. Um agenciamento é precisamente este crescimento das dimensões numa multiplicidade que muda necessariamente de natureza à medida que ela aumenta suas conexões. Não existem pontos ou posições num rizoma como se encontra 22 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância numa estrutura, numa árvore, numa raiz. Existem somente linhas" (Deleuze e Guatarri, 1995: 23-24) A sua contribuição para o pensamento de multiplicidade fez com os teóricos recentes passassem a olhar para eles com bons olhos visto que nós temos múltiplas realidades, múltiplos currículos, múltiplos conhecimentos e consequentemente as suas produções, além de extremamente heterogêneas, criam inúmeras conexões entre si e produzem diversos tipos de saberes, espalhando-se de forma incontrolável. 23 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6. A TEORIA E A PRÁTICA PEDAGÓGICA Objetivo A partir do ponto de partida sobre ser docente, busca-se analisar quais valores a escola espera que o docente tenha e, assim, inserir as contribuições de Paulo Freire e Dermeval Saviani às suas práticas. Introdução Dois teóricos brasileiros são centrais no pensamento da educação: Paulo Freire e Dermeval Saviani. Contemporâneos entre si, Paulo Freire é o teórico brasileiro mais pesquisado no mundo inteiro e o terceiro mais citados em trabalhos acadêmicos a nível mundial. Falecido em 1997, vem sendo criticado e perseguido politicamente por setores conservadores do cenário político brasileiro contemporâneo – críticas essas infundadas e sem o mínimo de embasamento necessário. Já Saviani, pedagogo e filósofo brasileiro, continua com extensa e intensa produção acadêmica sobre a educação brasileira, do período jesuíta até a contemporaneidade, onde hoje é Prof. Emérito na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Reconhecer as suas importâncias é saber que o Brasil tem uma qualidade teórico- metodológica sem igual, a nível mundial, e que, infelizmente, a real teoria de Paulo Freire jamais foi aplicada em sua completude. Em entrevista à BBC Brasil2, o Historiador e Prof. Dr. José Eustáquio Romão, afirmou: Paulo Freire nunca foi aplicado na educação brasileira. Estamos lutando para ver se ele entra nas universidades até hoje. Ele entra como frase de efeito, como título de biblioteca, nome de salão. Isso eu já vi no Brasil inteiro. Mas o pensamento dele não entrou até hoje. [...] Lendo com mais calma e profundidade a obra dele, vejo que ele faz uma inversão intelectual tão violenta que os intelectuais tremem nas bases. Todos eles têm a mania de considerar que devemos partir da teoria para iluminar a realidade, e Paulo Freire desmonta isso. Ele diz que a legitimidade do conhecimento só vem da prática. 2 Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150719_entrevista_romao_paulofreire_cc Visualizado em 26 de abr. de 2018 http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150719_entrevista_romao_paulofreire_cc 24 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Paulo Freire e Saviani têm pensamentos convergentes e divergentes. Ainda que ambos partam do sujeito enquanto possibilidade para mudanças na sociedade, eles têm posicionamentos que se contradizem e, justamente por conta disso que se faz necessário nos debruçarmos um pouco mais perante as suas contribuições intelectuais para que possamos conhece-los. 6.1. Contribuições de Paulo Freire Responsável por um dos métodos mais eficazes de alfabetização de adultos e amplamente utilizado a nível mundial, utiliza-se do cotidiano do aluno para mostrar as grafias das palavras e suas derivações. Reconhece que a educação tem uma função social e política na sociedade e, justamente por isso, recomenda que devamos reconhecer a condição de oprimida da sociedade para que, a partir e por meio da educação, possamos liberta-la. Sua obra mais conhecida é a Pedagogia do Oprimido (2005), onde faz uma série de críticas ao sistema educacional tradicional, sobretudo das escolas burguesas pelo fato de tratar os alunos como receptores do conhecimento, motivo esse que ele cunhou o termo de educação bancária. Somente os oprimidos podem libertar os seus opressores, libertando-se a si mesmos. Eles, enquanto classe opressora, não podem nem libertar-se, nem libertar os outros. É, pois, essencial que os oprimidos levem a termo um combate que resolva a contradição em que estão presos, e a contradição não será resolvida senão pela aparição de um homem novo [itálico do autor]: nem o opressor, nem o oprimido, mas um homem em fase de libertação. Se a finalidade dos oprimidos é chegar a ser plenamente humanos, não a alcançarão contentando-se com inverter os termos da contradição, mudando somente os pólos. Para o opressor, a consciência, a humanização dos outros, não aparece como a procura da plenitude humana, mas como uma subversão (Freire, 2001, p. 69). A partir do momento em que os alunos são despertados ao conhecimento, uma série de mudanças estruturais na sociedade passam a ser possíveis de serem realizadas, algo que é o objetivo central da educação. Crítico a ideia de que o ensinamento é uma forma de transmissão do conhecimento, propunha que sua função era a de criação do conhecimento – sendo o professor um mediador crítico desta construção. Utilizar da realidade e do cotidiano do aluno para alfabetiza-lo foi chave para que seu método desse resultado, que é dividido em três etapas centrais: I) a interação do 25 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância professor àrealidade cotidiana do aluno, II) partir do senso comum do aluno para a construção do olhar crítico para o seu cotidiano e III) problematização do conhecimento adquirido e, a partir da criticidade, ter condições de mudar o seu cotidiano. As críticas infundadas ao seu método de ensino se devem ao fato dele propor que a educação é capaz de oportunizar as mudanças sociais necessárias para que os trabalhadores tenham condições de serem sujeitos de si. A propósito, de que serve a educação se não for para muda o mundo? 6.2. Contribuições de Dermeval Sanviani Sua maior contribuição se dá a partir da constituição da pedagogia histórico-crítica onde, ainda em sua tese de doutorado, pesquisou sobre a existência de um sistema educacional no Brasil, tendo como ponto de partida a LDB e concluindo que o Brasil não contava com um pela ausência das normas de funcionamento desse sistema expresso na LDB. Para ele, a práxis educativa se dá a partir da efetivação do trabalho, entre a produção e reprodução. Ao situar a educação dentro de um determinado tempo-espaço, ele compreende que, ainda que a educação tenha como objetivo possibilitar a autonomia, independência e liberdade dos sujeitos, a escola, por ser uma instituição e estar inserida num determinado momento histórico da sociedade, tem como objetivo oposto: o de alienar, controlar e é utilizada como um dispositivo de controle social. Pois, como a escola é uma produtora de cultura e de conhecimento e está inserida num determinado momento histórico, ela acaba por reproduzir o controle, a dominação social e alienação. Acredita na pedagogia revolucionária como propulsora para a liberdade dos sujeitos a partir de um olhar crítico aos conteúdos obrigatórios curriculares enquanto forma de combater a alienação existente na própria instituição escolar. Alerta para o fato de que emancipar o aluno a partir da cultura erudita não é desqualificar a sua cultura popular, que a tem enquanto bagagem de história de vida e necessária para seus alicerces sociais. [...] o acesso à cultura erudita possibilita a apropriação de novas formas por meio das quais se podem expressar os próprios conteúdos do saber popular. Cabe, pois, não perder de vista o caráter derivado da cultura erudita em relação à cultura 26 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância popular, cuja primazia não é destronada. Sendo uma determinação que se acrescenta, a restrição do acesso à cultura erudita conferirá àqueles que dela se apropriam uma situação de privilégio, uma vez que o aspecto popular não lhes é estranho. A recíproca, porém, não é verdadeira: os membros da população marginalizados da cultura letrada tenderão a encará-la como uma potência estranha que os desarma e domina (SAVIANI, 2008, p. 22). A partir do momento em que houver por parte das camadas populares o domínio da cultura erudita, haverá totais condições de imporem as mudanças necessárias para que a sociedade seja mais justa. E, para que isso seja possível, o professor necessita compreender a totalidade de sua teoria para que possa de fato aplica-la. A esse ponto, ele determina que a prática docente não é apenas a partir dos conteúdos obrigatórios impostos pelo governo, mas também a partir do domínio docente sobre questões políticas, sociais, econômicas, etc. para que, havendo esse domínio, o professor poderá desenvolver um olhar crítico-emancipatório aos estudantes. Reconhece-se que a educação necessita servir aos interesses do povo, da sociedade, e não de uma parcela ínfima da sociedade que detém o poder, o controle e os meios de produção e, consequentemente, determina as normas sociais. Quando a educação possibilitar uma ascensão social, não em perspectiva capitalista, sim em social, aí sim a educação terá atingido a capacidade de propor as mudanças estruturais necessárias para que seus cidadãos tenham vidas mais justas e dignas. 27 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 7. AS TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS I Objetivo Conhecer as três principais e mais presentes tendências pedagógicas nas escolas brasileiras para que se possa pensá-la e, a partir de um pensamento crítico, problematizar qual tem maior condição de escolarizar positivamente a sociedade. Introdução Conforme estamos vendo ao longo de nossa disciplina, a educação é um processo extremamente complexo, denso e cheio de caminhos, escolhas e possibilidades. Acredito que ao fim desta disciplina, poderemos ter a certeza que o fazer educacional requer uma criticidade demasiadamente elevada e, para isso, debruçarmos nas tendências pedagógicas é o pilar mais importante de toda a formação docente. Afirmo isso pela minha própria trajetória enquanto docente e acadêmico. Conhecer o local onde estamos pisando (onde trabalhamos) possibilita que já tenhamos noções de quais são os valores que sustentam aquela instituição de ensino, quais passos podemos dar e quais embates vivenciaremos. Isso ocorre em toda e qualquer instituição de ensino, pois a prática docente é dialética, dá-se na coletividade e na construção cooperativa e democrática do conhecimento. Nós temos duas tendências principais, que são subdividas em tendências secundárias, são elas: tendências liberais e tendências progressistas. À primeira, estão relacionadas as tradicionais, renovada progressista, renovada não diretiva e tecnicista. Já à segunda, estão relacionadas as libertadoras, libertárias e crítico-social dos conteúdos. As suas diferenças são extremamente presentes e fáceis de serem identificadas, tanto a nível teórico (para estudo desta disciplina) como a nível prático (para vivência no cotidiano profissional). Entretanto, vale lembrar que não é porque uma escola segue uma tendência específica que você não poderá ter a sua própria tendência, a liberdade de cátedra é uma garantia constitucional a qual todos nós devemos sempre lembrar e lutar pela sua manutenção. Com o objetivo de sintetizar todas essas tendências pedagógicas, ao fim deste capítulo eu disponibilizei um organograma compartilhado pela Me. Vera Lucia Oliveira Cardoso. 28 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 7.1. Pedagogia Liberal tradicional Trazida com os jesuítas durante a invasão de Portugal às terras brasileiras, tem como objetivo fazer a manutenção das estruturas sociais a partir do controle do conhecimento e ausência da criticidade. Esta manutenção se dá pela necessidade de fazer com que a escola seja uma mera reprodutora das estruturas sociais, sem proporcionar possibilidades de mudanças. As aulas são pautadas pela memorização de datas específicas, decorebas de tabuadas e os alunos compreendidos como papéis em branco. Muito combatida e criticada contemporaneamente, pessoas que estudaram anteriormente à década de 90 muito provavelmente vivenciaram este tipo de prática pedagógica. Os mapas geográficos deveriam ser feitos em folha vegetal para se decorar os estados e capitais, as margens marítimas e caminhos dos rios a partir dos mapas fluviais, aulas expositivas onde a professora falava e o aluno escrevia, lousas cheias de textos para os alunos apenas copiarem em silêncio, ditados de livros copiadas nos cadernos, ‘redações’ sobre temas específicos sem qualquer diálogo e manifestação de interesse prévio discente, inúmeras chamadas orais sobre assuntos abordados durante as aulas, alunos severamente punidos quando não sabiam as respostas, folhas e mais folhas escritas com a tabuada ou conjugações intermináveis onde os alunos em nenhum momento eram consultados sobre a importância e viabilidade daqueles assuntos para as suas vidas. Aqueles que estudaram neste tipo de escola com toda a certeza do mundo conseguiram se transportar aos seus passados de estudantes enquanto liam essas linhas, há aquelesque nunca estudaram nestas escolas e se horrorizaram com tais práticas, mas necessita-se saber que tudo isso era considerado normal e muitos defendiam (e ainda defendem!) esta prática pedagógica. Os conteúdos, os procedimentos didáticos, a relação professor-aluno não têm nenhuma relação com o cotidiano do aluno e muito menos com as realidades sociais. É a predominância da palavra do professor, das regras impostas, do cultivo exclusivamente intelectual. (Libâneo, 1992: p. 3) Ainda que os indicadores qualitativos e quantitativos demonstrem que esse tipo de ensino tradicional não obteve os resultados esperados, é comum encontrar pessoas defendendo a partir de senso comum como, por exemplo, ao falar que ‘naquele tempo, o professor era respeitado’, embora diversos estudos genealógicos comprovem que em outros tempos a educação também vivenciava uma crise, os salários eram inferiores a 29 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância outras categorias e diversos episódios de violências eram registrados na escola – a grande diferença é que décadas atrás existia a censura imposta pela Ditadura Militar e o controle da informação pelos grandes grupos de comunicação e mídia, o que não ocorre em tempos atuais com o compartilhamento de informações por meio de celulares, tablets e redes sociais, que fazem de nós mesmos agentes da comunicação. 7.2. Pedagogia Tecnicista Influenciada pela teoria de Skinner sobre a obtenção de resultados a partir da repetição de suas ações, nem o professor e nem o aluno tinha liberdade para trabalhar seus assuntos a sua maneira. Difundida a partir dos tele ensinos (no Brasil ficou muito conhecido o Telecurso 2000), tinha como objetivo desenvolver mão de obra específica para trabalhar no mercado de trabalho – ao mesmo tempo que algumas escolas burguesas desenvolviam outro tipo de ensino para formar outro tipo de mão de obra, com o objetivo de se manter o domínio social. A tendência tecnicista ignorava os saberes trazidos pelos alunos enquanto bagagem cultural pelo entendimento de que apenas os saberes desenvolvidos nas escolas, ou seja, os saberes eruditos, tinham condições de propor as melhorias necessárias. Propagandeou-se que apenas na escola as pessoas tinham condições de aprender sobre qualquer coisa, ignorando que a aprendizagem se dá por um ato contínuo da vida e aprendemos a todo instante e em todos os lugares. Manuais eram desenvolvidos para os professores aplicarem seus conteúdos sem quaisquer autonomias a mesma maneira que também não competia ao aluno o desenvolvimento de suas liberdades emancipatórias pois, quaisquer que fossem os posicionamentos contrários, eram desqualificados. A fragmentação do conhecimento criou uma geração com baixa escolaridade, forte desinteresse pela leitura e ausência de criticidade pois, como a escola não dialogava com as suas realidades cotidianas e não criava pontes entre a cultura popular e a cultura erudita, a escola (ou os centros de ensino) passaram a formar apenas mãos de obras técnicas para o mercado de trabalho – nesse fato, afirma-se e se reconhece que a educação tecnicista criou uma geração fortemente alienada. Desta forma, o trabalho docente resume-se em estabelecer a ligação entre a verdade científica e o aluno, através do emprego de métodos instrucionais 30 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância previstos. O aluno é um sujeito responsivo em sala de aula, mas que não interage com a definição dos objetivos e conteúdos instrucionais, pois ambos, professor e aluno, são meros expectadores frente à verdade científica. (Azevedo, Bonadiman, Gutirres, Souza, 2013: p. 4) 7.3. Pedagogia Libertária Parte-se do enfrentamento direto ao sistema pelo entendimento de que as suas opressões prejudicam e oprimem os subalternos. Seus estudos propagam a ideia de que, a partir do momento em que os subalternos se unirem, haverá condições reais de mudanças estruturais na sociedade sem que haja uma definição específica de modelo a ser seguido para que os resultados sejam obtidos. Esta corrente chegou ao Brasil a partir da década de 80, com a volta dos exilados políticos da Ditadura Militar e influenciados fortemente pelas correntes italianas e francesas de educação. Propagar a democracia é central nesta teoria e compreende que cabe a escola muito mais do que simplesmente passar os conteúdos obrigatórios, possibilitando um amplo e denso debate sobre as questões sociais do cotidiano de cada aluno, daquela comunidade em que a escola está inserida e, a partir da conscientização de todos os participantes, propor mudanças reais para seus cotidianos. A proposição desse estudo requer uma ampla participação popular a partir de comunidades de bairro, responsáveis dos alunos, ONGs, sindicatos, etc. Uma escola decidida e politicamente participativa, aos moldes que ocorreu durante as ocupações dos estudantes secundaristas, sobretudo no Estado de São Paulo, em 2015/2016, é uma síntese do que se prega na educação libertária: autogestão, participação popular e horizontalidade nas decisões. Assim como a extremização da gestão democrática da escola leva ao rompimento com a estrutura de poder sustentada pelo Estado capitalista e, consequentemente, a um necessário rompimento com esse próprio Estado, a realização de um processo educacional que seja responsável pela formação de um cidadão de fato e não apenas de direito, representa, também, o acirramento de um confronto com o Estado que, enquanto provedor e gerenciador dessa educação, não teria o mínimo interesse em mantê-la nessas condições. (GALLO, 1990, p. 144) Ainda que se tenha debruçado sobre a temática de forma introdutória, o capítulo 9 se dedica exclusivamente ao paradigma anarquista com o objetivo de melhor detalhar as suas especificidades e possibilidades educacionais. 31 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 7.4. Organograma das tendências Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAfLe0AE/tendencias-pedagogicas> 32 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 8. AS TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS II Objetivo: Conhecer o paradigma anarquista e ver como ele vem influenciando - ainda que sutil e indiretamente - o cotidiano escolar, para que a partir de então, seja possível pensar em possibilidades de utilizá-lo para a melhoria educacional, descentralizando, desburocratizando e permitindo a autonomia e o protagonismo juvenis. Introdução: Os diversos movimentos de insurgência estudantil e descrença no sistema político vêm influenciando jovens a buscar outras relações, consigo mesmos ou para com a sociedade de um modo geral. Tais posicionamentos foram percebidos durante as ocupações escolares, movimento durante o qual os alunos ocupadores resolviam em assembleia as atividades do dia, as atividades culturais desempenhadas nas escolas e as oficinas diversas que recebiam de pessoas solidárias às ocupações. Durante as assembleias, diversas temáticas eram debatidas e definidas como, por exemplo, a proibição de atividades generificadas (alunos na vigilância escolar e alunas na limpeza e na cozinha), a permissão para a entrada limitada de repórteres e civis, toda e qualquer oficina a ser desenvolvida era debatida previamente para decidir se a sua realização seria ou não aprovada, etc. Essa mudança na relação de poder, outrora centralizada na mão da direção e secretaria de educação, e depois passando às mãos dos alunos ocupadores, fez com que uma série de protestos ocorressem em todo o Estado de São Paulo. Paradigma anarquista na educação é sinônimo de atitude. Atitude contra o sistema centralizado, contra o sistema burocratizado e contra o sistema hierarquizado. É uma forma de mostrar que a escolapode muito mais do que se propõe, e ela justamente se propõe a ser como é porque tem como objetivo manter a disciplinarização e normatização dos sujeitos, tornando-os dóceis. Entretanto, muitas vezes ouvimos que não cabe à escola discutir questões políticas, partidárias, ideológicas e de outras esferas sociais – mas, de antemão, logo afirmo: cabe sim! A LDB é clara quanto à função da escola como local de construção do conhecimento, da criticidade e do amplo debate a partir da liberdade de cátedra. 33 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 8.1. A prática docente enquanto posicionamento político Cada vez mais estudantes secundaristas estão com discursos politizados em suas línguas: discussões sobre machismos, LGBTfobias, misoginia, gordofobia, racismo e uma série de outras discriminações que eram silenciadas no cotidiano escolar até poucos anos atrás, hoje estão ocupando centralmente as discussões juvenis. Concomitantemente a esta realidade dos estudantes secundaristas, os estudantes universitários das licenciaturas também estão encabeçando discussões significativas no currículo universitário ao reivindicarem a presença de teóricas mulheres, negras, latinas, etc. Professores mais desavisados não se atentam a estas reivindicações e não trazem para as suas aulas estas discussões, não reconhecem a validades delas e as possibilidades que apresentam, mantendo-a tradicional e pouco (ou nada!) dialética – isto se não buscar impor o seu posicionamento social, moral e/ou religioso. Ora, as consequências disso não são surpresas para ninguém. Quando Paulo Freire afirmou que a educação é um ato político, ele também afirmou em entrevista3 que “o sonho do educador é que a escola virasse uma atração sem perder a seriedade, a disciplina e o rigor intelectual, enquanto centro de produção de conhecimento”. Não obstante, vemos cada vez mais vereadores e setores da sociedade civil se opondo a uma educação política e libertária, visto que este paradigma educacional possibilitará que mudanças sejam colocadas em prática e antigos privilégios sejam revistos (e possivelmente revogados). A principal acusação libertária diz respeito ao caráter ideológico da educação: procuram mostrar que as escolas dedicam-se a reproduzir a estrutura da sociedade de exploração e dominação, ensinando os alunos a ocuparem seus lugares sociais pré-determinados.5 A educação assumia, assim, uma importância política bastante grande, embora ela se encontrasse devidamente mascarada sob uma aparente e propalada *neutralidade”. (Gallo, 2007: 23) Portanto, a educação é um ato político: seja ela alienante, mantendo a estrutura social e impondo espaços predeterminados aos alunos, ou libertária, permitindo que os alunos tenham autonomia. Independentemente de qual caminho seja escolhido para utilizar em sala de aula, ambos são norteados por posicionamentos políticos. As mudanças estruturais significativas estão partindo do posicionamento político dos próprios 3 Disponível em: < https://goo.gl/kLuJwB> Visualizado em 11/02/2018 34 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância alunos – mais precisamente, das próprias alunas –, que estão trazendo as suas pautas sociais sobre feminismo, machismo, misoginia e LGBTfobia para dentro da sala de aula e obrigando a escola a lidar com a temática, visto que seus históricos silenciamentos não surtem mais os efeitos esperados no cotidiano escolar. 8.2. Emancipações e potências juvenis A preocupação que a escola tem em formar uma pessoa para uma boa universidade, para o mercado de trabalho, para estar adequada ao sistema, etc., faz com que uma série de cobranças seja imposta a estes alunos e esqueça de que ali há uma pessoa com suas demandas, necessidades e objetivos. Ao impormos a ela que a importância dos estudos se dá para que ela alcance um local de poder na sociedade, esvaziamos outras características que o ensino e a escola poderiam propiciar. Cria-se, portanto, um dever da escola e para com a escola, assim como uma falsa vocação dos profissionais da educação em formar pessoas – quando, na verdade, estas pessoas (ou seja, os alunos) têm suas subjetividades formadas a todo instante pelos mais diversos dispositivos sociais. Seus cotidianos, escolhas, amizades, leituras, entretenimento, posicionamento, etc., forjam suas identidades. A escola é apenas um pilar de formação das identidades juvenis. Emancipar a juventude é reconhecer que ela forja suas identidades e é forjada por elas, que se estas se constituem por meio de suas escolhas e amizades, desejos e objeções. Ao contrário do que muitos pensam, o aluno não é um ser alienado que não se interessa pelos estudos porque não tem perspectiva de futuro. Muitos não se interessam pelos estudos porque não veem nestes mesmos estudos as possibilidades necessárias para a própria emancipação. Parece ser vital, para o processo pedagógico, neste contexto de amorfismo, de apatia diante do real, de indiferença ao outro, de crescimento do individualismo materialista, de indiferença perante tudo e todos, que o colorido do real seja retomado em sala de aula. Por isso, a educação desafiada deve, sobretudo, sensibilizar, agindo de modo a ser mais que instrutiva (somatória de informações acumuladas), enfatizando-se o seu aspecto formativo (geradora da autonomia do pensar). (Bittar, s/d: 4) Permitir que o livre pensar esteja inserido dentro da sala de aula é fazer com que a aula se torne mais interessante, que a participação seja sincera, verdadeira e interessada, 35 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância que as demandas sociais estejam, de fato, representadas em sala de aula e que o amplo debate seja cada vez mais valorizado. Ouvir os alunos, respeitar seus posicionamentos e desconstruir os seus preconceitos e as suas discriminações fará com que a aula seja plural, diversificada e, sobretudo, contemporânea. 8.3 Organograma das tendências Conclusão A escola precisa olhar para seus alunos e valorizar as suas subjetividades, compreender que eles são sujeitos de direito e devem ter seus posicionamentos respeitados. Em momentos de ataque aos Direitos Humanos por meio de violências diversas, a escola deverá criar projetos específicos que atendam às questões e possibilitem que seja um espaço de respeito às diferenças. Falar de autonomia juvenil é falar diretamente de protagonismo, de liderança e de participação democrática de forma conjunta e coletiva, é horizontalizar as tomadas de 36 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância decisão e ampliar o debate sobre como as regras são (im)postas pela escola e por quem se beneficia dela. Uma escola contemporânea é uma escola antenada, preparada e com condições de fazer a diferença na vida de quem ali dentro está – seja do professor, do aluno ou de qualquer outro funcionário – e também da comunidade, que está ao seu redor. Essa escola possibilitará mudanças diversas para todos os envolvidos no processo educacional brasileiro. 37 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 9. ÉTICA PROFISSIONAL DA EDUCAÇÃO Objetivo Reconhecer a importância da escola no debate da sociedade e compreender o papel social do profissional da educação enquanto facilitador das mudanças estruturais necessárias para uma sociedade mais justa e igualitária, respeitando as diferenças. Introdução Cada vez mais nós vemos a discussão sobre o que cabe ou não a escola e ao professor, há um latente discurso cobrando uma impossível instituição apolítica, um posicionamento neutro por parte dos professores – o que, conforme já vimos, é simplesmente impossível de se existir. Justamente a partir disso que necessitamospensar sobre o papel ético do profissional da educação, seja ele professor, coordenador, diretor e/ou supervisor escolar. Não obstante, o debate sobre a eticidade na sociedade se faz presente de tal maneira que se tornou pauta de reuniões familiares, de grupos de whatsapp e mesas de bares e restaurantes: não sai da boca do brasileiro as questões envolvendo a corrupção e a constante vigilância e tutelamento da vida alheia. Em tempos de facebook, com uma virtualidade que faz de nossas vidas algo efêmero, com validade curta e valorizando a quantidade de compartilhamento e curtidas que uma postagem adquire, uma série de pessoas fazem uso de críticas rasas à profissionais da educação que emitem seus pontos de vista e posicionamentos políticos. Tai críticas são no âmbito de que, segundo elas, não cabe ao professor levantar tais discussões, sim ministrar suas aulas e conteúdos obrigatórios. O que é um grande engano! Ao profissional da educação compete o fomento ao pensamento crítico embasado científico e academicamente para que a partir do senso comum se construa um conhecimento teórico sólido. A função social da escola é discutir a sociedade, pura e simplesmente isso. Logo, ir contra a correnteza quando for perceptível algum erro ocorrendo na sociedade, levantar o debate para as mais diversas questões e possibilitar que o aluno se emancipe a partir de suas potências fazem parte da função da escola. Para que isso ocorra, faz-se necessário que haja um amplo debate e discussão, 38 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância contrariando, inclusive, os interesses daqueles que detêm o controle, o poder e defendem a dita moral e bons costumes. 9.1 Valorizar as diferenças para uma escola democrática e participativa Uma escola que respeita as diferenças é aquela que está preocupada em formar cidadãos pensantes e traz para si a responsabilidade e reconhecimento de que educar é um ato político. Em tempos de conservadorismos, como o que vivenciamos contemporaneamente, a profissão docente se encontra em grande risco por propor debates que a sociedade busca censurar: questões das opressões contra as mulheres por meio de silenciamento, invisibilização e machismos diversos (academicamente conhecido como estudos de gêneros), questões das discriminações contra a comunidade LGBTs (academicamente conhecimento como estudos sobre as dissidências sexuais), os racismos, as gordofobias, etc. Se à escola cabe o debate sobre a sociedade e as injustiças que nela ocorre, consequentemente caberá à escola o debate sobre todas estas questões, mas quando uma série de agressões são impostas contra a liberdade de cátedra por meio das mídias sociais e censuras diversas, cabe aos professores terem total conhecimento dos Parâmetros Curriculares Nacionais, em seu caderno sobre temas transversais, para que possam comprovar que suas aulas e temáticas foram embasadas a partir destes cadernos. A reflexão ética traz à luz a discussão sobre a liberdade de escolha. A ética interroga sobre a legitimidade de práticas e valores consagrados pela tradição e pelo costume. Abrange tanto a crítica das relações entre os grupos, dos grupos nas instituições e perante elas, quanto a dimensão das ações pessoais. Trata-se portanto de discutir o sentido ético da convivência humana nas suas relações com várias dimensões da vida social: o ambiente, a cultura, a sexualidade e a saúde. (Brasil, 1997: p. 25) A gestão escolar democrática e participativa é aquela que convida a comunidade a participar da construção do conhecimento sob a luz da ciência, da academia e não do senso comum. Olhar para as minorias socialmente excluídas e reconhecer que a sociedade precisa parar para pensar o que ela faz com o outro, quais são as violências cotidianas presentes na vida destas pessoas, assim como olhar para a comunidade local e reconhecer como a escola pode ajudar a melhorar a vida de todos ao seu entorno são urgências contemporâneas. 39 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Falar de uma escola democrática e participativa é falar de uma escola horizontal, com direitos igualitários a fala e que todos possam realizar proposições de ideias com o intuito de melhorar a escola, a comunidade e tudo o que faz parte do cotidiano escolar, inclusive dos assuntos a serem debatidos e dos projetos a serem desenvolvidos. A escola precisa se horizontalizar para que ela se torne um local mais agradável e com comunhão do saber. 9.2 Tensionamentos em tempos de conservadorismos e a inexistente neutralidade Conforme pudemos ver ao longo da nossa disciplina, encontramo-nos em um contexto histórico extremamente perigoso para a prática docente, onde uma série de dispositivos sociais querem interferir na prática docente e fazer com que ela volte a ser uma instituição alienante. Será justamente sobre o sujeito Professor que discorrerei brevemente neste subcapítulo. Todos nós temos as nossas histórias de vida que nos contextualizam enquanto sujeitos, olhar para nós é reconhecer o nosso lugar de fala. Eu nunca terei o mesmo lugar de fala de você, aluna/o, pois a minha vivência foi diferente da sua, a minha escolaridade, estrutura familiar, realidade socioeconômica diferente da sua pelo fato de que todos nós somos diferentes entre si. Justamente por isso o lugar de fala é extremamente importante na construção do conhecimento, seja na escola ou na sociedade. Reconhecermos os lugares de fala é reconhecer que a partir do momento em que eu abro a minha boca para dar uma aula, abro meu computador para escrever um artigo, faço uma palestra para um auditório de estudantes escolares, universitários ou empresariado, sou eu, Tássio, falando para um público-alvo específico e peculiar. As minhas vivências são diferentes das suas. Reconhecer os nossos privilégios é saber que temos muito o que fazer por aqueles que foram subalternizados pelo sistema e reconhecer que necessitamos valorizar as diferenças e fortalecer as potências dos sujeitos para que eles possam ascender àquilo que eles quiserem e, assim, os privilégios comecem a diminuir. É justamente por conta disso que a dita neutralidade inexiste, tanto na escola como na sociedade, na mídia tradicional ou na mídia social, no mercado e/ou em qualquer lugar que seja. Todos nós somos serem políticos, toda fala é política, toda expressão está 40 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância carregada de olhares, vivências múltiplas e sensações diferentes. Isso enriquece o saber pedagógico, a prática docente e a formação dos sujeitos. Sermos diferentes e valorizarmos as nossas diferenças fortalece a democracia. Silenciar estas diferenças e criar um entendimento de que temos que ser apolíticos, neutros e isentos além de enfraquecer as instituições sociais, subalterniza ainda mais as nossas vivências. Valorizemos as diferenças, sejamos diferentes, respeitemo-nos!4 4 Lembre-se, ainda, que discurso de ódio não é liberdade de expressão. 41 Filosofia da Educação Universidade Santa Cecília - Educação a Distância AZEVEDO, Prof. Dr. Antulio José de; BONADIMAN, Claudia; GUTIERRES, Ivenis Rosa Magalhães; SOUZA, Aparecida Amelia de. A influência da pedagogia tecnicista na prática docente de uma escola de educação básica. 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