Prévia do material em texto
MIOPATIA EM AVES 1. Introdução O Brasil é o maior exportador e terceiro maior produtor mundial de frangos de corte. Dados publicados pela União Brasileira de Avicultura (UBABEF) demonstram que no ano de 2015 o Brasil produziu 13,1 milhões de toneladas de carne de frango, assumindo o segundo lugar mundial, que antes era da China, ficando atrás apenas dos EUA (17,4 milhões tonelada). No ano de 2004 o Brasil passou a liderar o ranking das exportações mundiais desse produto e mantém esta posição até o presente momento. Nesse contexto, a região sul do país é responsável por mais de 73% das exportações nacionais de carne de frango (Ubabef 2015/2016). Deste modo, toda fonte de perda quando somada aos demais problemas da cadeia avícola, favorece para a formação de prejuízos significativos, refletindo, inclusive, para a economia de toda uma região. Dentre as diversas causas, pode–se citar algumas, causadas por alterações musculares como as miopatias em aves, tema do presente trabalho. As miopatias são um assunto emergente na avicultura industrial, tendo em vista que ambas estão estreitamente ligadas à seleção genética de frangos de corte que apresentam um rápido crescimento, elevado ganho de peso, rendimento e peso de peito, assegurando uma competitividade e padronização para o setor. Porém, essas alterações musculares causam condenações de carcaças e rejeição por parte do mercado, resultando em grandes perdas econômicas. De acordo com Selani et al., (2010), a cor da carne é o mais importante atributo de qualidade que afeta a aceitabilidade da carne do peito pelos consumidores, pois é uma característica que influência tanto a escolha inicial do produto, como a aceitação no momento do consumo, sendo que as condições e o estado em que se encontram os animais podem vir a afetar a mesma. No Brasil há crescentes condenações em carcaças que apresentam miopatias. Entretanto, como não há categoria específica para esses distúrbios musculares, as carcaças são condenadas por aspecto repugnante, visto que há alterações na aparência da carne. Neste contexto, objetiva-se com o presente trabalho, apresentar as principais miopatias que acometem os frangos de corte na atualidade, sendo elas miopatia peitoral profunda, miopatia dorsal, estriações brancas, degeneração peitoral, bem como as suas consequências e possíveis causas. 2. Miopatia Peitoral Profunda A Miopatia peitoral profunda foi descrita pela primeira vez em 1968, em perus e matrizes pesadas. No entanto, ao longo dos anos, tornou-se mais comum em frangos de corte, especialmente em frangos selecionados geneticamente para desenvolvimento dos músculos peitorais. Apesar da incidência ser maior em frangos pesados, também pode ocorrer em qualquer idade ou peso e depende do manejo e do sistema de criação utilizado (Martins et al., 2015). Devido ao melhoramento das práticas vindas da genética, associadas a nutrição, manejo e sanidade para frangos de corte, tem-se a necessidade de abater aves com menor tempo de vida, com máximo potencial produtivo. Porém esse melhoramento tem ocasionado as aves danos ao tecido muscular (Olivo & Shimokomaki, 2002). A Miopatia Peitoral Profunda (MPP) conhecida como síndrome do músculo verde (ou Doença de Oregon), é uma doença degenerativa, que se caracteriza pela presença de necrose e atrofia do filezinho ou também denominado de sasami. É causada pelos movimentos excessivo das asas ocorrendo quando as fibras musculares se tornam deficientes em oxigênio (Bilgilie & Hess, 2008). 2.1. Etiologia A doença é caracterizada pela necrose do músculo supracoracóideo de frangos de corte e perus comerciais. Tal lesão é causada pela isquemia local, o aumento da massa muscular, associado às condições sedentária das aves e/ou a prolongada pressão intramuscular a níveis acima da pressão do sangue, levam a uma diminuição significativa do gradiente de pressão arteriovenosa e consequente diminuição do fluxo sanguíneo capilar. Isto compromete o fornecimento de nutriente, tal como a limpeza dos metabólicos gerado pelas fibras musculares assim como o dióxido de carbono e o lactato. A falta de limpeza destes metabólicos induz distúrbios iônicos, como a regulação do cálcio necessário à contração muscular. Em consequência, surgem miopatias e necrose (Sosnick, 1993). Sendo assim, o sangue fornecido para dentro do músculo cessa a atividade muscular peitoral continua, e consequentemente ocorre uma rápida deficiência de oxigênio nas fibras musculares. Sendo assim a parte nobre do peito fica comprometida, deixando-a com uma coloração indesejável. As cores das lesões podem variar indo de uma aparência hemorrágica rosada até uma descoloração cinza-esverdeada como mostra a Figura 1. É de difícil visualização no início e nota-se apenas com o corte do peito. Figura 1. Miopatia Peitoral Profunda 2.2. Desenvolvimento da doença Segundo Bilgilie & Hess (2008), o desenvolvimento da doença pode ser dividido em três categorias. A primeira categoria é a lesão inflamatória aguda, onde o músculo peitoral profundo mostra hemorragia difusa (Figura 2). Já a segunda categoria representa o estágio em que a lesão no filé interno está bem definida e circundada por um halo hemorrágico evidente (Figura 3). Por fim a terceira categoria é caracterizada por uma degeneração progressiva com um aspecto esverdeado do tecido muscular danificado (Figura 4). Figura 2. Filé de peito de frango com hiperemia e hemorragia. Fonte: Bilgilie & Hess (2008). Figura 3. Lesões em filé de peito com halo hemorrágico evidente. Fonte: Bilgilie & Hess (2008). Figura 4. Miopatia Peitoral Profunda com áreas esverdeadas (necrose). Fonte: Paschoal & Santos (2013). 2.3. Fatores que contribuem para a ocorrência da MPP A Miopatia Peitoral Profunda pode estar relacionada a várias causas, dentre elas está o movimento excessivo das asas, ocasionado por um manejo incorreto ou até mesmo o fluxo excessivo de pessoas, gerando maior agitação e consequentemente estresse desses animais. Outro fator está relacionado ao sexo, sendo de maior incidência nos machos, quando comparado as fêmeas. O melhoramento genético também está relacionado como possíveis causas, pois contribuiu com uma rápida taxa de crescimento, alto rendimento de carne branca e um maior mercado de aves pesadas (Martin et al., 2015). Para controle, é necessário que o manejo, tais como, pesagem, captura de aves e uso de equipamentos com sonoridade alta, seja feito corretamente para que não haja estresse nas aves e também, evitar a movimentação excessiva de pessoas ou animais ao redor, para que a movimentação e a atividade dos frangos não sejam influenciadas (Martin et al., 2015). 3. Estriação Branca (white striping) A miopatia de estriação branca caracteriza-se por apresentar estrias brancas paralelas no mesmo sentido das fibras musculares. Essas estrias são visíveis na superfície ventral do músculo e normalmente ocorre na musculatura peitoral maior, podendo também se apresentar na musculatura peitoral menor e na musculatura da coxa, correspondente aos cortes comerciais valorizados como peito, filezinho do peito e sobrecoxa, respectivamente. (Santiago, 2015 apud Kuttappan et al., 2013) Tal miopatia ainda é considerada recente e é muito relacionada à qualidade de carne. Também apresentam um considerável aumento em sua gravidade em resposta ao avanço da idade do animal. (Mckee et al., 2010; Petracci & Cavani, 2011). Atualmente, existem três classificações para a estriação branca, em peitos de frango considerados “normais” não existe a presença de linhas brancas distintas; os considerados “moderados” exibem estrias finas, com espessura menor que 1 mm, e os classificados como “severos” apresentam estrias grossas, com mais de 1 mm de espessura. Segundo Santiago (2015) (apud Kuttappan et al., 2012), esta miopatia afeta diretamente o consumo por parte do mercado, estando ligado a severidade com que se apresenta em cortes nobres como o filé do peito. Um estudo relatou que 50% dos consumidores entrevistados não adquiririam o corte se o mesmoapresentasse estriações brancas consideradas de graus moderado ou severo. Entre todos os problemas relacionados à carne de aves, acredita-se que, similarmente a suínos, a ocorrência de problemas de coloração na carne acomete cerca de 5-40 % das carcaças e afeta principalmente a aparência geral do produto final, tendo em vista que é umacaracterística de grande valor principalmente em mercados como o europeu (Barbut, 1998). 3.1. Etiologia Existem dois tipos de músculos esqueléticos: o vermelho e o branco. O vermelho é formado principalmente por fibras oxidativas e o branco por fibras glicolíticas (Prata & Fukuda, 2001). As fibras podem ser divididas histoquimicamente, em fibras dos tipos I ou SO (metabolismo oxidativo e de contração lenta), IIA ou FOG (metabolismo oxidativo-glicolítico e de contração rápida) e IIB ou FG (metabolismo glicolítico e de contração rápida) (Peter et al., 1972; Banks, 1992). Madeira et al. (2006) apontaram que machos possuem mais massa muscular e musculatura mais glicolítica que as fêmeas, e que a maior massa muscular das aves selecionadas para altas taxas de crescimento está ligada a elevação da área dos três tipos de fibras musculares (SO, FOG e FG). Remignon et al. (1995) também demonstrou que aves de crescimento rápido possuíam o músculo Anterior latissimus dorsi com até 20% a mais de fibras, influenciando também o diâmetro destas fibras (área transversal) em comparação com os de crescimento lento. Por isso os músculos da região do peito são os mais vulneráveis a alterações histopatológicas (Soike & Bergmann, 1998). Em uma seleção para linhagens de alto crescimento, as fibras musculares tiveram acréscimos no tamanho, diâmetro e comprimento, sendo esta mudança ligada ao aumento no número de fibras gigantes, as quais possuem áreas de secção transversal de três a cinco vezes maiores que as normais. (Aberle & Stewart, 1983). Segundo Macrae et al. (2006), a ampliação do tamanho, diâmetro e densidade da fibra muscular somados ao inadequado suprimento capilar podem levar a um estresse metabólico intermediário graças à grande distância para difusão do oxigênio, metabólitos e eliminação de resíduos, estando esses fatos ligados à qualidade da carne, atributo que, juntamente com elementos nutricionais, está entre as principais preocupações dos consumidores com relação às características da carne de frango (Dransfield e Sosnicki, 1999). A etiologia da white striping ainda é desconhecida, mas avaliações histológicas mostraram que esta alteração é usualmente associada à degeneração muscular e alterações miopáticas. 3.2. Estriações Brancas e Sua Relação Com a Espessura Muscular O surgimento de maiores graus de estriação branca vem sendo ligados a cortes com a porção cranial mais espessa e também frangos que demonstram em sua carcaça um maior rendimento de peito. Tal miopatia também demonstra uma conexão entre a espessura e o peso do peito. Foi comprovado que mais da metade das aves demonstram determinado grau de estriação, cerca de 55,8%, onde 47,5% das estriações foram consideradas moderada e 8,3% foram classificadas como severas (Kuttappan et al., 2013). 3.3. Estriações Brancas e Sua Relação Com Dietas de Baixo e Alto Valor Energético Através da comparação entre aves alimentadas com dietas possuindo diferentes níveis de energia, foi comprovado que as aves que receberam dietas mais energéticas apresentaram uma conversão alimentar menor, peso vivo elevado e maior peso de peito em comparação com as aves alimentadas com baixa energia. Porém a maioria das aves que receberam dietas de baixa energia apresentaram níveis normais para estriação branca, enquanto as alimentados com alta energia apresentaram níveis consideravelmente maiores de estriação. Também ocorreu um aumento do tecido adiposo e queda do tecido proteico quando havia um aumento do nível de estriações de normal para severo. Em síntese, as estriações brancas peitorais em frangos de corte tem sido relacionada ao maior rendimento do peito, peso do peito e dietas de alta energia. Não há relação com condição infecciosa ou inflamatória e níveis elevados de enzimas, como creatina quinase, alanina transaminase, aspartato aminotransferase e desidrogenase de lactato, confirmam o dano muscular causado pelas miopatias regenerativas. 3.4. Consequências das Estriações Brancas Baseando-se em exames microbiológicos em cortes com estrias com graus moderados e severos, observou-se que peitos de frangos de corte com estriação branca confirmam uma perda das estriações transversais, variabilidade do tamanho da fibra muscular, degeneração flocular e vacuolar, análise das fibras musculares, necrose, mineralização, regeneração (fileiras de células e células multinucleadas), lipidiose inflamação do interstício e fibrose (Kuttappan et al., 2013). Também foi observado um aumento nos níveis de degeneração, necrose, lipidose e fibrose conforme as estriações avançavam do nível normal para o nível severo. Resultados da histopatologia comprovaram que os lipídeos do tecido muscular aumentaram, enquanto que as proteínas diminuíram, conforme o aumento do grau das estriações. (Kuttappan et al.,2013) Por meio de comparações de análises sorológicas de frangos com diferentes graus de estriação, foi possível observar uma variação em diversos parâmetros hematológicos, principalmente no nível de leucócitos. Frangos com grau severo de estriações demonstraram altos níveis de creatina quinase, alanina transaminase, aspartato aminotransferase e desidrogenase de lactato. Tais resultados demonstram que não existe nenhum quadro infeccioso ou inflamatório ligada às estriações e o nível elevado de tais enzimas comprovam que o dano muscular está ligado a miopatia degenerativa. (Kuttappan et al., 2013). 3.5. Influência de White Striping na Qualidade de Carne São poucos os relatos de mudança na qualidade de carne que sejam causadas pelo surgimento de estriações no musculo peitoral das aves. Kuttappan et al. (2012a) verificaram que a intenção de compra pelo consumidor descreveu significativamente (50%) com o aparecimento de qualquer grau de white striping, sendo a recusa atribuída a aparência gordurosa do produto. Avaliando as características físico-químicas de filés de peito de aves com estriações, Kuttappan et al. (2013) mensuraram as dimensões dos filés (comprimento, largura, espessura cranial e caudal), o pH, a cor, a perda de peso por cozimento e a força de cisalhamento e concluíram que o grau de white striping não interferiu (P>0,05) nos valores dos parâmetros aferidos. Entretanto, nas amostras consideradas de grau severo de white striping foram observados aumentos significativos na espessura cranial e no tom de amarelado, o que pode comprometer a qualidade estética do produto comercializado. 3.6. Estratégias Nutricionais Para Diminuir a Incidência de Estriações Brancas Dietas de baixa energia se mostram eficientes na redução da incidência das estriações, porém, também afetam o desenvolvimento do animal, diminuindo sua eficiência na produção. Segundo Vieira et al.(2015) as miopatias não parecem estar associados a aminoácidos, tais como a lisina, mas com peso e rendimento do peito que pode aumentar com a adição. Também demonstraram que as chances de apresentar estriações classificadas como severas (ao invés de normal) foi até três vezes maior nos animais que consumiram dieta que apresentasse altos níveis de nutrientes. Foi cogitada a possibilidade de que dietas com baixo incremento de vitamina E poderiam influenciar no aparecimento de miopatias. Porém no caso da white striping a suplementação com vitamina E não apresentou efeito. 4. Miopatia Dorsal Cranial De acordo com Zimermann (2008) a miopatia dorsal cranial (MDC) começou a ser observada em frigoríficos do sul do país a partir de 2000 e é responsável por um número que é considerado significativo de condenações de carcaças. A mesma autora em 2011 notou que em visitas à frigoríficos, a maioria das carcaças detectadas com esse problema são parcialmente condenadas, descartando-se o músculo afetadoe seus adjacentes, assim como uma parte da asa e uma porção do peito desses frangos. Casos de condenação total da carcaça também ocorrem, quando além da lesão muscular, detecta-se presença de edema difusamente distribuído no tecido subcutâneo. Roso e Dickel (2010) realizaram um estudo sobre condenações de carcaças acometidas com a miopatia dorsal cranial e observaram que ocorriam perdas significativas no rendimento de frango. Os mesmos autores encontraram um valor de aproximadamente R$ 125.557, 07 que equivale a 0, 083% de perdas nas condenações totais de frangos abatidos. A maioria das carcaças com miopatia dorsal cranial são carcaças em bom estado corporal, pesadas e que não apresentam outras patologias aparentes. Além de serem carcaças aparentemente saudáveis, a lesão quando avaliada na rapidez da linha de abate e sem abertura da pele que recobre o local afetado, é considerada de difícil detecção (Zimermann, F.C, 2008). 4.1. Histologia A miopatia dorsal cranial é uma lesão muscular e acomete aves de crescimento rápido, lesionando o músculo grande dorsal ou latissimus dorsi cranialis, que é um músculo superficial, bilateral, localizado na região dorsal das aves, entre as asas. Apresenta duas porções independentes: a cranial que é a anterior latissimus dorsi (ALD) e a porção caudal a posterior latissimus dorsi (PLD) ( Vanden Berge1975). De acordo com Zimermann (2008) a porção anterior é composta por fibras lentas ou vermelhas, ou seja, tipo I; enquanto a porção posterior é composta por fibras rápidas ou brancas a tipo II. A função do anterior latissimus dorsi (ALD) é tracionar a asa caudamente, flexionando e elevando o úmero, participando nos movimentos de contração do musculo do vôo (pectoralis thoracicus e supracoracoideus). Tanto a ALD e a PLD são finos e achatados. Hodges (1974) cita algumas diferenças morfológicas entre o ALD e o PLD, onde o anterior latissimus dorsi apresenta suas linhas Z em zigue-zague, enquanto que o posterior latissimus dorsi possui suas linhas Z retas; como também o reticulo sarcoplasmático é menos abundante no musculo ADL e suas fibrilas são mais próximas umas das outras do que as dos PLD que são separadas. Figura 6: Localização anatômica do músculo anterior latissimus dorsi (ALD) Fonte: Vanden Berge, 1975. Assim, a mesma autora cita que a miopatia dorsal cranial é uma lesão degenerativa do músculo grande dorsal, onde a pele apresenta características de coloração amarelada e edemaciada, onde há presença de fluído gelatinoso, amarelo e inodoro, sendo que o músculo acometido possui coloração pálida e com hemorragias superficiais. Figura 7: Musculo ALD de carcaça de frango normal (esquerda). E músculo ALD de carcaça de frango acometido com miopatia dorsal cranial (direita). Fonte: Hamerski, 2014 4.2. Etiologia Zimermann (2008) cita que há a possibilidade de que a miopatia dorsal cranial seja mais uma síndrome metabólica dos frangos de corte, em que se juntam as características fisiológicas do próprio músculo aos déficits de oxigenação ocorridos do melhoramento genético, manejos podem ser as possíveis causas. Coates (2003) descreveu a ocorrência de uma lesão degenerativa incomum em frangos de corte, semelhante à miopatia dorsal cranial e mencionou possíveis causas para o problema, tais como: miopatia por exercício, uma possível deficiência de vitamina E e Selênio, predisposição genética ou ainda envolvimento de algum estímulo estressante. 4.3. Miopatia Dorsal Cranial e sua relação com exercícios Diferente da miopatia peitoral profunda (MPP) que ocorre por exercícios físicos como o bater de asas (Siller et. al., 1979a). Giacomin et al., (2011) citam que uma das hipóteses para o não desenvolvimento da miopatia dorsal cranial através de exercícios é a ocorrência de uma possível adaptação muscular, já que o experimento foi induzido semanalmente, desde a primeira até a última semana de vida das aves. Assim o protocolo de exercício que induziu a frequências altas de MPP (96,9%) não reproduzindo à miopatia dorsal cranial, demonstrando que não há associação experimental entre as miopatias peitoral e dorsal. Em 2013 o autor realizou um protocolo onde se aumentava a frequência do exercício (bater de asa) no terço final do período de criação dos animais. Porém o resultado obtido não pôde concluir que o protocolo de exercício utilizado no experimento foi capaz de reproduzir a Miopatia Dorsal Cranial. Um fator relevante segundo Page (1995) está na composição do músculo anterior latissimus dorsi, composto exclusivamente por fibras vermelhas e, portanto, mais resistente ao exercício do que os músculos brancos e mistos, como é o caso do músculo supracoracoideus acometido na miopatia peitoral profunda. 4.4. Miopatia Dorsal Cranial com relação ao Selênio e vit E Fatores como o crescimento rápido podem causar várias doenças que estão relacionadas individualmente ou em combinação com a deficiência de Se e vitamina E (Radostits, 2010 apud Zimermann, 2011). As empresas fornecedoras das principais linhagens de frangos de corte recomendam dosagens de vitamina E que variam entre 50-80 UI/Kg (Ross Nutrition Supplement, 2009). Roman et al., (2008) verificou se os níveis de Se e vitamina E, do músculo ALD com miopatia dorsal cranial apresentava níveis menores desses antioxidantes em relação ao musculo normal, porém essa hipótese de que músculos lesados teriam menores níveis de Se e vitamina E não foi confirmada. Além disto os resultados encontrados foram de níveis de Se mais elevados em músculos com lesão. Contudo não foi possível afirmar se esta elevação seria uma possível resposta adaptativa a lesão, ou se estaria relacionada com a causa da miopatia dorsal cranial. 4.5. Miopatia Dorsal Cranial com relação a região da frequência da lesão Em frangos de corte a vacina de Marek é a única vacina via intramuscular, sendo em alguns casos está associada a vacina de bouba aviária. Com tudo Zimermann et al., (2012) relata que não foram encontrados trabalhos avaliando o efeito dessas vacinas, nem de seus diluentes sobre a indução de lesão muscular em aves. A miopatia dorsal cranial está localizada na região dorsal, próximo ao local de vacinação nos pintinhos de um dia, onde a mesma autora considerou esta possibilidade etiológica. Assim buscou verificar se a lesão acometeria um lado ou se é bilateral, já que a vacina é fornecida apenas de um dos lados do pescoço. Sendo que a lesão bilateral se encontrou com maior frequência (89%) e observou-se a diferença entre os lados acometidos quando a presença ou ausência de hemorragias, consistência gelatinosa, aumento de volume subcutâneo e coloração amarelada. Então a autora sugere que a diferenças entre os lados indica que a MDC pode ter início em períodos diferentes. 4.6. Soluções para Minimizar os Problemas da Miopatia Dorsal Cranial A miopatia dorsal cranial ainda é uma patologia com causa ainda desconhecida, sendo necessário mais estudos sobre a etiologia que acometem os frangos de corte. Segundo o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (apud Roso & Dickel, 2011) as carcaças de aves que apresentam evidencias de miopatia dorsal cranial devem ter rejeitada a parte atingida ou quando a condição geral da carcaça estiver comprometida pelo tamanho, posição ou da natureza da lesão, assim carcaças e vísceras deverão ser condenadas. 5. Peito amadeirado A miopatia do peito amadeirado geralmente acomete a musculatura peitoral maior e consequentemente, o músculo peitoral menor de frangos. A miopatia se caracteriza por causar um enrijecimento ao toque ou saliências ao longo da porção ventral da musculatura peitoral, tornando visível a presença de transudato nas porções mais densas da musculatura (Bilgili, 2013). A parte mais afetada pela miopatia é porção superficial do corte, onde tais lesões podem ser detectadas clinicamente através de palpação em aves vivas a partir de três semanas de idade (Mutryn, 2015). O desenvolvimento muscular acima da capacidade corporal da ave, o sedentarismo que muitas das vezes é uma condição à qual são submetidas emprolongados períodos e uma grande pressão que incide diretamente na região peitoral da ave, acarretam em uma condição muito desfavorável, levando à uma diminuição do gradiente de pressão arteriovenoso. Com esse quadro, ocorre uma diminuição do fluxo sanguíneo capilar, prejudicando o transporte de nutrientes, diminuindo também, a liberação de resíduos metabólicos (produtos das fibras musculares) como o dióxido de carbono e quando em quadro de característica isquêmica (falta de oxigenação celular), o lactato (Soike Bergmann, 1988). 5.1. Etiologia Segundo Bilgili (2013) essa condição deficiente de oxigenação na região peitoral, desencadeia o quadro chamado de peito amadeirado, ocorrendo na musculatura peitoral maior e concomitantemente na musculatura peitoral menor de frangos de corte. A musculatura peitoral que se encontra nesse estado apresenta-se enrijecida ao toque, apresentando também, áreas rígidas com protuberâncias evidentes que se estende pela porção ventral da musculatura peitoral, possibilitando notar a presença de líquidos séricos sem conteúdo inflamatório, conduzidas pela força do aumento da pressão sanguínea. Sihvo et al. (2014) conduziu um estudo com frangos de corte, onde 10 peitos de aves foram avaliados, chegando a conclusão de que os peitos amadeirados apresentavam endurecimento difuso focal em áreas extensas. Estas regiões que estavam endurecidas, possuíam ainda características, tais como palidez e evidentes protuberâncias. Em suma, as regiões peitorais com este quadro patológico apresentavam líquido claro que possuíam coloração que se estendia desde o claro, até levemente turvo e com viscosidade, como apresentado na figura 8. Figura 8: 1- músculo peitoral maior de frangos de corte, controle, macroscopicamente normal; 2- músculo peitoral de frangos de corte, peito amadeirado, pálido e coberto de fluído viscoso claro, com protuberância na extremidade caudal do músculo (Sihvo et al., 2014). Através desde estudo e posteriormente submetido à uma avaliação histológica, Sihvo et al. (2014) verificou padrões diferentes de diâmetros das miofibras, e que as mesmas apresentaram a perda de suas características estruturais e morfológicas. Na Figura 8: fica evidente a degeneração e a necrose, caracterizada por fibras amorfas e hipereosinofílicas e a infiltração de células inflamatórias ao redor da região degenerada das fibras do músculo. 6. Considerações Finais As miopatias são consideradas um grave problema em linhas de abate de aves, tendo em vista que em alguns casos os cortes podem apresentar um aspecto visual repugnante ao consumidor, e ser facilmente confundida com hematomas que podem ser decorrentes de um mau manejo. Por isso se faz necessário o diagnóstico preciso da patologia. Tendo em vista que a maior parte das miopatias é influenciada pelo alto grau de desenvolvimento muscular, surge o impasse entre o rápido desenvolvimento ocasionado pela genética das aves e a tentativa de frear o aparecimento das miopatias. Atualmente o rápido desenvolvimento animal é uma das principais e mais importantes características das linhas de produção da avicultura. Em conjunto com a nutrição animal, a genética predispõe a ave ao ápice de seu desenvolvimento, gerando dúvidas se compensaria retroagir todo avanço até agora alcançado em função do aparecimento das miopatias. Devido ao baixo número de trabalhos realizados, ainda não foram identificadas soluções para minimizar as patologias, sendo tema principal de diversos congressos, gerando diversas discussões. 7. Referências Bibliográficas Billgilie, S. F.; Hess, J. H. Miopatia peitoral profunda. Informativo traduzido do original Ross Tech 08/48, 2008.Aviagen Brasil: Tecnologia, Campinas, v. 1, n. 3, jun. 2008. Coates, J. An unusual degenerative muscle lesion (myopathy) in broilers. Diagnostic Diary, v. 13, n. 2, Aug. 2003. Giacomin, L.; Tochetto, C.; Roman, L.I.; Testolin, G.; Barreta, M.H.; Zimermann, F.C. O Papel do Exercício na Indução da Miopatia Dorsal Cranial em Frangos de Corte. In: Mostra de Iniciação Científica – MIC, 1. Concórdia. Anais eletrônicos... Concórdia: Instituto Federal Catarinense, 2011. Giacomin, L.; Tochetto, C.; Olivo, R.; LorenzettI, M.P.; Salvadego, T.A.; Testolin, G.; Barreta, M.H.; Zimermann, F.C.; Pereira, W.A.B. A miopatia dorsal cranial (mdc) em frangos de corte pode ser induzida pelo exercício físico no terço final do período de criação? In: Mostra Nacional de Iniciação Científica e Tecnológica Interdisciplinar – VI MICTI, Instituto Federal Catarinense – Câmpus Camboriú, 2013. Gough, R.E. A new strain of infectious bronchitis virus infecting domestic fowl in Great Britain. Veterinary Record, London, v. 130, n. 11, p. 493-494, 30 May 1992. Hamerski, A.C.M. Caracterização do musculo anterior latissimus dorsi e avaliação de marcadores enzimáticos de frangos de cortes acometidos com miopatia dorsal cranial (MDC). Trabalho de conclusão de curso. Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2014. Hodges, R.D. The muscular and skeletal systems. In: The histology of the fowl. New York: Academic Press Inc, 1974. 5, p. 243-299. Lilburn, M. S. Skeletal growth of commercial poultry species. Poutry Science, n. 73, p. 897-903, 1994. Kuttappan apud Santiago, Gabriela de Oliveira. Caracterização das principais lesões peitoraisem frangos de corte. 2015. 24 f.Dissertação (Graduação em Medicina Veterinária) – Faculdade de Veterinária, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul MAPA, Ministério de Agricultura, Abastecimento e Pecuária, Mensagem Via Eletrônica (MVE) Nº30/2010/SICAO/SIPOA/DDA/SFA-RS. Aos SIFs de AVES do RS. Miopatia Dorsal Cranial (MDC). Porto Alegre, 2010. Martins, N. R. C.; Santos, R. L. S.; Junior, A. P. M. et al. Sanidade Avícola. Caderno Técnico de Veterinária e Zootecnia, n. 76, p. 117-125, 2015. Disponível em:< https://issuu.com/escoladeveterinariaufmg/docs/volume_76_sanidade_av__cola).> Acesso em: 5 de outubro de 2016. Mckee et al., apud Ferreira, Tamara Zinn. Caracteristicas histopatológicas da miopatia White Striping de frangos de corte. 2012, 25 f. Monografia (Especialidade em Produção, Tecnologia e Higiene de Alimentos de Origem Animal) – Faculdade de Veterinária, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. . Olivo, R & Shimokomaki, M. Carnes: no caminho da pesquisa, 2°. Edição, Cocal do Sul: Imprint, 2002. p.155. Page, P. Pathophysiology of acute exercise-induced muscular injury: clinical implications. Journal of athletic traing, Carrollton, v.30, n.1, p. 29-34, Mar. 1995. Paschoal, E. C.; DOS Santos, J. M. G. Miopatia peitoral profunda como causa de condenação em abatedouro de aves. Revista em Agronegócios e Meio Ambiente, v. 6, n. 2, p. 223-233, 2013. Pereira, R.A.; Rodrigues, L.B.; Allgayer, M.C. et al. Miopatia peitoral profunda em frangos de corte. Veterinária em foco, v. 3, n. 1, p. 11-15, 2005. Disponível em: < http://revistas.bvs-vet.org.br/vetfoco/article/viewFile/27771/29158>. Acesso em 4 outubro de 2016. Roso, K & Dickel, E. Estudo da prevalência da miopatia dorsal cranial e perdas economias ocorridas em um matadouro de aves localizado no norte do estado do Rio Grande do Sul nos meses de abril a novembro de 2010. In: Congresso brasileiro de medicina vterinaria, 38., 2011, Florianópolis. Anais... Florianópolis: SOVERGS, 2011. 3p. Disponível em: <http://www.sovergs.com.br/site/38conbravet/resumos/69.pdf> Acesso em 15 de setembro de 2016. Ross Nutrition Supplement, 2009. Disponível em: <http://pt.aviagen.com/assets/Tech_Center/Ross_Broiler/Ross_Nutrition_Supplement.pdf >. Acesso em: 18 de setembro de 2016. Roman, L.I.; Giacomin, L.; Tochetto, C.; Barreta, M.H.; Zimermann, F.C. Quantificação dos níveis de selênio e vitamina e no músculo anterior latissimus dorsi de frangos de corte com miopatia dorsal cranial. I Mostra de Iniciação Científica – I MIC. Instituto Federal Catarinense – Campus Concórdia. 2011, Concórdia – SC. Selani, M. M. Extrato de bagaço de uva como antioxidante natural em carne de frango processada e armazenada sob congelamento. Dissertação de Mestrado,Universidade de São Paulo, 2010. Siller, W.G.; Martindale, L.; Wight, P.A.L. Prevention of experimental deep pectoral myopathy of the fowl by fasciotomy. Avian Pathology, v. 8, n. 3, p. 301-307, 1979a. Sihvo, H. K.; Immonen, K; Puolanne, E. Myodegeneration with Fibriosis and Regeneration in the Pectoralis Major Muscle of Broilers. Veterinary Pathology, n.51, v.3, p.619-623, 2014. Soike, D. & Bergmann, V. Comparision of skeletal muscle characteristics in chicken bred for meat or egg production. I. Histophatolocical and electron microscopic exanimation. J. Vet. Med A, v.45, p.161-167, 1998). Sosnicki, A. A. Focal myonecrosis effects in turkey muscle tissue. In: RECIPROCAL MEAT CONFERENCE, 46, 1993. Proceedings…Chicago, EUA: American Meat Science Association/National Live Stock and Meat Board, 1993. p.97-102. Disponível em: < http://wiki.meatscience.org/docs/default-source/publications-resources/rmc/1993/focal-myonecrosis-effects-in-turkey-muscle-tissue.pdf?sfvrsn=2>. Acesso em: 24 de Outubro de 2016. Vanden Berge, J.C. Myology. In: Getty, R. Sisson/Grossman The Anatomy of the Domestic Animals. 5th ed. Philadelphia: W.B. Saunders, 1975, v. 2, 59, 61, p. 1802-1848. Ubabef. Relatório Anual 2015/2016. Disponível em: http://abpa-br.com.br/setores/avicultura/publicacoes/relatorios-anuais. 2016. Acesso em: 21 de Outubro de 2016. .Zimermann, F.C. Miopatia Dorsal Cranial em Frangos de Corte: Caracterização anatomopatológica, colheita e análise de dados. Dissertação (Mestrado em Sanidade Avícola) - Curso Pós-Graduação em Ciências Veterinárias. Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Porto Alegre, 2008. 76p. Zimermann, F.C.; Roman, L.I.; Giacomin, L.; Tochetto, C.; Barreta, M.H. Quantificação dos níveis de selênio e vitamina e no músculo anterior latissimus dorsi de frangos de corte com miopatia dorsal cranial. I Mostra de Iniciação Científica – I MIC. Instituto Federal Catarinense – Campus Concórdia. 2011, Concórdia – SC. Zimermann, F.C.; Fallavena, L.C.B.; Salle, C.T.P.; Moraes, H.L.S.; Soncini, R.A.; Barreta, M.H.; Nascimento, V.P. Downgrading of heavy broiler chicken carcasses due to myodegeneration of the anterior laissimus dorsi: pathologic and epidemiologic studies. Avian diseases, Ithaca, v. 56, n.2, p. 418 – 421, June 2012. 15