A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
22 pág.
4a_relacao_familia_escola_e_def (3)

Pré-visualização | Página 5 de 6

ser trabalhadas questões relacionadas à autonomia, 
às diferentes formas de linguagens, à concentração, atenção, 
memória, organização, análise e síntese, classificação, 
orientação espacial e temporal, resolução de problemas, 
textualidade (SANTA CATARINA, 2009, p. 33). 
Quando as pessoas com deficiência intelectual se tornam mais autônomas, 
podemos considerar como grande avanço; e quando conseguem se inserir na 
sociedade, podemos reconhecer como forma de aprendizagem.
A seguir, queremos compartilhar com você uma experiência de inclusão.
79
Reflexões sobRe a Inclusão escolaR Capítulo 4 
Os relatos de experiência apresentados neste site devem 
ser entendidos como uma possível fonte de pesquisa para outros 
projetos educacionais comprometidos com a educação inclusiva. 
Não são, portanto, receitas prontas, passíveis de mera replicação 
com expectativas de um mesmo resultado.
Paloma Sá Carvalho 23/07/2012 
Conheci P. em 2011, um menino de oito anos de idade, 
muito simpático e arteiro. P. é um garoto muito esperto que adora 
esportes, principalmente surf e futebol. Fui indicada para fazer a 
mediação escolar devido a algumas questões relacionadas à sua 
deficiência intelectual e pelo fato dele ingressar em um colégio 
novo. Em função disso, alguns desafios teriam que ser enfrentados 
por todos aqueles que eram ligados a ele: família, escola e equipe 
transdisciplinar (psicopedagoga, fonoaudióloga e professores de 
esportes). Acredito que o maior desafio seria para o próprio P. que 
estava começando a estudar num ambiente totalmente novo, com 
colegas, professores e funcionários que ele nunca tinha tido contato 
antes. P. frequentou a mesma escola desde a primeira infância, por 
isso, estava acostumado com a rotina e as pessoas daquele lugar. 
O antigo colégio, por ser muito menor proporcionava um conforto 
muito grande para ele e para sua família. P. seria a primeira criança 
com Síndrome de Down a frequentar aquele ambiente educacional. 
No início daquele mesmo ano todos tinham muita curiosidade e 
até receio de falar/ aproximar dele, perguntas como: “Ele é de 
outro país?”, “Você é mãe dele?”, “Que língua ele fala?” foram 
constantes no nosso cotidiano. Tanto a minha presença quanto 
a de P. estavam despertando uma série de questionamentos por 
parte dos alunos. Pouco a pouco, aqueles dois estranhos (eu e P.) 
foram sendo incorporados a rotina escolar.
A família muito atenta a esta questão enviou para a turma 
uma revista em quadrinhos da turma da Mônica em que a 
temática sobre Síndrome de Down era discutida. Esse dia foi 
muito rico e interessante, todas as crianças da turma ganharam 
um exemplar da revista e levaram para casa. Também pude 
observar o despreparo dos funcionários para lidar com ele, as 
pessoas pareciam ter um excesso de cuidado em colocar limites 
em certos comportamentos inadequados do aluno. P. como todo 
garoto de oito anos de idade, adora uma bagunça, desse modo, 
é necessário que toda a equipe trabalhe e lide com ele como um 
80
 A Relação Família, Escola e Deficiência Intelectual
menino comum da sua faixa etária. A partir dessas observações 
foram conversadas e informadas formas de como se dirigir ao P. 
de forma que ele pudesse entender e respeitar. Minha relação 
com o P. foi construída muito rapidamente e de uma forma muito 
afetuosa, P. é um menino muito carinhoso e perspicaz, em 
poucas semanas senti muita cumplicidade na nossa parceria. 
Sempre conversamos sobre a importância do meu trabalho 
para sua autonomia pessoal e escolar. A família também é 
fundamental nesse diálogo, pois conversas sobre a Síndrome 
de Down e a mediação escolar são uma constante na vida do 
P. Acho extremamente importante P. ter conhecimento sobre as 
próprias dificuldades e a necessidade da presença do mediador 
escolar no seu cotidiano. A família tem uma preocupação e um 
engajamento na questão da inclusão escolar. Tenho contato 
direto com seus pais, através de uma espécie de diário, no qual, 
anoto a rotina do P: como foi seu dia na escola, suas bagunças, 
vitórias diárias, matérias dadas entre outros assuntos. O ano de 
2011 foi um período de muitos desafios e novidades para todos.
No início do meu trabalho vivi um período que chamo de 
“diagnóstico”, no qual pude perceber algumas lacunas na sua 
alfabetização. P. escrevia muito pouco, trocava muitos fonemas 
e lia muito devagar. A partir dessas observações, junto com a 
equipe pedagógica e sua família estabelecemos algumas metas: 
P. teria que ler e escrever melhor. Na matemática também 
trabalhamos adição e subtração simples, sequência numérica e 
quadro valor - lugar.
Como já mencionei anteriormente, a inclusão escolar de P. é 
uma questão extremamente importante para a sua família, logo ele 
seria avaliado da mesma forma que seus colegas de turma. Minha 
função neste momento era adaptar as avaliações de cada matéria. 
Nos dias de testes e provas saíamos de sala e nos dirigíamos à 
biblioteca da escola para fazer tais avaliações. Eu lia junto com 
ele cada questão e o auxiliava no que era pedido. P. realizava 
avaliações bimestrais que valiam nota e que visavam avaliar seu 
desenvolvimento ao longo do ano letivo.
Em 2011 P. fazia duas avaliações formais por período, essa 
experiência não foi boa, porque ele ficava muito estressado e 
pressionado pelo ritmo e datas dos testes e provas. Observamos 
também, que ele não aprendia bem os conteúdos, ou seja, ele 
os decorava para fazer as avaliações e os esquecia logo após 
a realização destas. A partir dai, decidimos que em 2012 P. iria 
81
Reflexões sobRe a Inclusão escolaR Capítulo 4 
fazer trabalhos de pesquisa que valeriam nota. E faria apenas 
uma avaliação formal por bimestre. Temos obtido muito sucesso 
com esse novo formato de estudos, P. adora montar os cartazes e 
maquetes, fica muito satisfeito em apresentá-los para sua turma e 
professoras. É notável o orgulho que seus colegas de classe têm 
dele e dos seus trabalhos.
Essa mudança de atitude no planejamento pedagógico foi 
muito satisfatória para P. que sente muito mais prazer com os 
estudos e pode participar de forma mais dinâmica do seu processo 
de aprendizagem. P. é uma criança muito concreta, ele precisa de 
objetos variados e ilustrações diversas para melhor compreender 
a matéria dada. Ter construído essa nova forma de trabalho foi 
ótimo, porque a partir da construção dos cartazes e das maquetes, 
o aluno aprende de forma mais coerente e unificada. P. é muito 
querido por todos, hoje em dia não vejo mais dificuldades dos 
professores e funcionários em pontuar suas bagunças. P. participa 
de quase todas as atividades propostas em sala de aula, é claro 
que com as devidas adaptações. Procuro sempre deixá-lo mais 
próximo do conteúdo dado em sala, porém respeitando o seu ritmo 
de aprendizagem. Prezo muito os seus limites e estou sempre 
preocupada em lançar novos desafios para ele. Entretanto, é preciso 
estar atenta à linha que divide a pressão escolar da aprendizagem 
eficaz. Foco mais na qualidade do conteúdo aprendido do que na 
quantidade. Costumo usar muitas brincadeiras, jogos educativos, 
vídeos e material de apoio, como por exemplo: material dourado, 
quebra cabeça, jogo da memória, entre outros.
Minha presença é extremamente importante na rotina do P. 
mas minha maior preocupação é estar no lugar de mediadora que 
faz a ponte entre a criança e o meio social que a cerca. Não tenho a 
menor intenção de estar no lugar de apoio para o P. Pelo contrário, 
busco auxiliá-lo no seu dia-a-dia para que ele consiga de forma 
gradual dar conta dos seus afazeres de forma mais autônoma e 
responsável. Meu trabalho é um constante aprendizado, todos os 
dias são surpreendentes. Muitas vezes me frustro em construir 
uma série de expectativas, porém cada pequena conquista é uma 
alegria imensurável. Trabalhar com mediação escolar na luta pela 
inclusão é muito desafiador e engrandecedor.
Fonte: Disponível em: <http://diversa.org.br/acervo-de-relatos/acervo-de-