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Termodinâmica e Física Molecular Ensino à distância Universidade Pedagógica Rua Comandante Augusto Cardoso nº 135 Direitos de autor Este módulo não pode ser reproduzido para fins comerciais. Caso haja necessidade de reprodução deverá ser mantida a referência à Universidade Pedagógica e aos seus Autores Universidade Pedagógica Departamento de Física Av. de Moçambique, Maputo Nr.62 Caixa Posta 4040 Moçambique Agradecimentos À COMMONWEALTH of LEARNING (COL) pela disponibilização do Template usado na produção dos Módulos. Ao Instituto Nacional de Educação a Distância (INED) pela orientação e apoio prestados. Ao Magnífico Reitor, Directores de Faculdade e Chefes de Departamento pelo apoio prestado em todo o processo. Ficha Técnica Autor: Gil Gabriel Mavanga Desenho Instrucional: Suzete Lourenço Buque Revisão Linguistica: Ernesto Junior Maquetização: Anilda Ibrahimo Khan Edição: Anilda Ibrahimo Khan Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica i Índice Visão geral 1 Bem-vindo ao Módulo de Física Molecular e Termodinâmica. ....................................... 1 Objectivos do curso .......................................................................................................... 2 Quem deveria estudar este módulo................................................................................... 2 Como está estruturado este módulo .................................................................................. 3 Ícones de actividade.......................................................................................................... 4 Acerca dos ícones .......................................................................................... 4 Habilidades de estudo ....................................................................................................... 5 Precisa de apoio? .............................................................................................................. 6 Tarefas (avaliação e auto-avaliação)................................................................................. 6 Avaliação .......................................................................................................................... 7 Unidade 1 9 Resumo Histórico e Introdução a conceitos básicos......................................................... 9 Introdução................................................................................................................ 9 Lição nº1 11 Desenvolvimento histórico e objecto de estudo da Termódinâmica .............................. 11 Introdução.............................................................................................................. 11 Lição nº 2 23 Conceitos Básicos da Termodinâmica e Grandezas físicas ............................................ 23 Introdução.............................................................................................................. 23 Lição nº 3 30 Temperatura e sua medição ............................................................................................ 30 Introdução.............................................................................................................. 30 Feedback ......................................................................................................................... 31 Feedback ......................................................................................................................... 39 Lição nº 4 41 Efeitos térmicos sobre corpos sólidos, líquidos e gases. ................................................ 41 Introdução.............................................................................................................. 41 Sumário........................................................................................................................... 54 Exercícios........................................................................................................................ 57 Feedback ......................................................................................................................... 58 Unidade 2 59 Gases Perfeitos................................................................................................................ 59 Introdução.............................................................................................................. 59 ii Índice Lição nº 5 61 Modelo gás ideal. Lei de Gay-Lussac e Boile-Mariotte ................................................. 61 Introdução.............................................................................................................. 61 Modelo gás ideal ou gás perfeito ................................................................. 62 Feedback ......................................................................................................................... 66 Lição nº6 66 Gases perfeitos (continução). Equação de estado do gás ideal....................................... 66 Introdução.............................................................................................................. 66 Feedback ......................................................................................................................... 70 Lição nº 7 71 Isoprocessos .................................................................................................................... 71 Introdução.............................................................................................................. 71 Sumário........................................................................................................................... 75 Exercícios........................................................................................................................ 76 Feedback ......................................................................................................................... 77 Unidade 3 78 Calorimetria e 1o Princípio Termodinâmico................................................................... 78 Introdução.............................................................................................................. 78 Lição nº 8 81 Quantidade de calor e Calor específico .......................................................................... 81 Introdução.............................................................................................................. 81 Feedback ......................................................................................................................... 87 Lição nº 9 88 Capacidade calorífica ou Capacidade térmica de um corpo. .......................................... 88 Introdução.............................................................................................................. 88 Feedback ......................................................................................................................... 92 Lição nº 10 93 1º Princípio Termodinâmico. Trabalho e Calor como formas de troca de energia......... 93 Introdução.............................................................................................................. 93 Feedback ......................................................................................................................... 99 Lição nº 11 100 Trabalho nos Isoprocessos ............................................................................................ 100 Introdução............................................................................................................100 Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica iii Feedback ....................................................................................................................... 103 Lição nº12 104 Formulação do 1o Princípio Termodinâmico................................................................ 104 Introdução............................................................................................................ 104 Feedback ....................................................................................................................... 107 Lição nº 13 108 Calor específico (cv) a volume e (cp) a pressão constantes. Equação de Mayer.......... 108 Introdução............................................................................................................ 108 Feedback ....................................................................................................................... 111 Lição nº14 112 Expansão Adiabática e Noção de Entalpia ................................................................... 112 Introdução............................................................................................................ 112 Lição nº 15 119 Formas de Transmição de Calor ................................................................................... 119 Introdução............................................................................................................ 119 Sumário......................................................................................................................... 124 Exercícios...................................................................................................................... 127 Feedback ....................................................................................................................... 128 Unidade 4 129 Teoria Cinético-molecular ............................................................................................ 129 Introdução............................................................................................................ 129 Lição nº 16 131 Definição microscópica do modelo gás ideal ............................................................... 131 Introdução............................................................................................................ 131 Lição nº17 137 Energia cinética das moléculas ..................................................................................... 137 Feedback ....................................................................................................................... 141 Exercícios...................................................................................................................... 142 Feedback ....................................................................................................................... 142 Lição nº 18 143 Relação entre a temparatura e a teoria cinético molecular ........................................... 143 Introdução............................................................................................................ 143 iv Índice Exercícios...................................................................................................................... 145 Feedback ....................................................................................................................... 145 Lição nº 19 146 Distribuição de Maxwell das velocidades moleculares ................................................ 146 Introdução............................................................................................................ 146 Lição nº20 150 Energia interna de um gás............................................................................................. 150 Introdução............................................................................................................ 150 Sumário......................................................................................................................... 152 Unidade 5 155 Segunda Lei da Termodinâmica ................................................................................... 155 Introdução............................................................................................................ 155 Lição nº21 157 Máquinas térmicas ........................................................................................................ 157 Introdução............................................................................................................ 157 Exercícios...................................................................................................................... 163 Feedback ....................................................................................................................... 163 Lição nº 22 164 Máquina e ciclo de Carnot ............................................................................................ 164 Introdução............................................................................................................ 164 Exercícios...................................................................................................................... 170 Feedback ....................................................................................................................... 170 Lição nº 23 171 Processos reversíveis e irreversíveis. 2ª Lei da Termodinâmica .................................. 171 Introdução............................................................................................................ 171 Lição nº24 176 Entropia e a sua lei de crescimento............................................................................... 176 Introdução............................................................................................................ 176 Exercícios...................................................................................................................... 184 Feedback ....................................................................................................................... 185 Lição nº 25 186 Entropia e Desordem. 3º Princípio da Termodinâmica ................................................ 186 Introdução............................................................................................................ 186 Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica v Sumário......................................................................................................................... 190 Unidade 6 193 Gases Reais e Mudanças de fase................................................................................... 193 Introdução............................................................................................................ 193 Lição nº 26 195 Gases reais e suas características .................................................................................. 195 Introdução............................................................................................................ 195 Feedback ....................................................................................................................... 198 Lição nº 27 201 Liquefacção dos gases. Efeito de Joule - Thomson ...................................................... 201 Introdução............................................................................................................ 201 Lição nº 28 206 Mudanças de Fase. Diagrama de Fase .......................................................................... 206 Introdução............................................................................................................ 206 Sumário......................................................................................................................... 208 Exercícios......................................................................................................................209 Feedback ....................................................................................................................... 209 Bibliografia ................................................................................................................... 210 Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 1 Visão geral Bem-vindo ao Módulo de Física Molecular e Termodinâmica. Caro estudante, o módulo de Termodinâmica e Física Molecular foi desenvolvido no âmbito do programa de Ensino à Distância do Centro de Educação Aberta e a Distância (CEAD) da Universidade Pedagógica. O presente módulo constitui parte integrante do currículo do curso de Bacharelato e Licenciatura em Ensino de Física, para professores do 1º e 2º Ciclo do Ensino Secundário. O módulo de Termodinâmica e Física Molecular apresenta uma visão geral da abordagem micro- e macroscópica dos fenómenos e grandezas térmicos. O módulo é composto por um total de 6 Unidades e 28 Lições, O módulo tem como objectivo oferecer aos estudantes do curso de Física à Distância, professores de Física, subsídios sobre aspectos das metodologias de ensino da disciplina assim como discutir alguns temas da actualidade. Na unidade um, é feita uma introdução histórica da evolução da Termodinâmica como ciência e discutidos alguns conceitos básicos e fenómenos térmicos. Na unidade dois, são abordadas as leis que regulam o comportamento macroscópico dos gases ideais. A unidade três debruça- se sobre a Calorimetria e sobre o 1º Princípio Termodinâmico. Na unidade quadro, é feita a abordagem da teoria cinético molecular que descreve o comportamento dos gases ideias do ponto de vista microscópico. A unidade quatro discute o 2º Princípio Termodinâmico associando-o aos conceitos de Entropia e Desordem. Na sexta e última unidade do módulo, abordam-se as caracteríticas dos gases reais, em que se dá ênfase a respectiva equação de estado. Ainda nesta unidade são abordados os processos de mudanças de fase das substâncias. 2 Para além do conteúdo teórico, o módulo oferece ao culminar de cada unidade temática um número razoável de tarefas com ajuda das quais o formando pode exercitar as matérias em causa. Esperamos que tenha o maior prazer em estudar Física a partir deste módulo e que se dedique o suficiente ao longo do mesmo. Objectivos do curso Quando terminar o estudo deste módulo você será capaz de: Objectivos Interpretar os conceitos Física molecular e Termodinâmica como ciências; Diferenciar e explicar os métodos de estudo da Física Molecular e da Termódiâmica; Reconhecer a diferença entre os conceitos fundamentais de calor e temperatura do ponto de vista físico; Compreender a utilizaçâo de modelos no estudo e explicação de fenómenos termodinâmicos do ponto de vista microscópico ; Compreender e operar com as leis gerais da termodinâmica na resolução de problemas concretos; Dominar as experiências escolares básicas e realizá-las usando materiais locais e de fácil acesso. Quem deveria estudar este módulo Este Módulo foi concebido para professores em exercício e para recém graduados da 12ª Classe que estejam frequentando, em regime de ensino à distância, o curso de formação de professores de Física para aquisição do nível de Bacharelato em Ensino de Física. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 3 Como está estruturado este módulo O presente módulo de Termodinâmica e Física Molecular encontra-se estruturado da seguinte maneira: Páginas introdutórias Um índice completo. Este módulo apresenta seis Unidades. Uma visão geral detalhada do curso/módulo, resumindo os aspectos-chave que você precisa conhecer para completar o estudo. Recomendamos vivamente que leia esta secção com atenção antes de começar o seu estudo. Conteúdo do módulo O módulo está estruturado em unidades e estas em lições. Cada unidade inclui uma breve introdução, objectivos da unidade, conteúdo da unidade incluindo actividades de aprendizagem, um sumário da unidade e uma ou mais actividades para auto-avaliação. Outros recursos Para quem esteja interessado em aprender mais, apresentamos uma lista de recursos adicionais para explorar, nomeadamente livros, artigos e sites na internet. Tarefas de avaliação e/ou Auto-avaliação Tarefas de avaliação para este módulo encontram-se no final de cada lição e de unidade. Sempre que necessário, dão-se folhas individuais para desenvolver as tarefas, assim como instruções para as completar. Estes elementos encontram-se no final do modulo. 4 Comentários e sugestões Esta é a sua oportunidade para nos dar sugestões e fazer comentários sobre a estrutura e o conteúdo do curso/ módulo. Os seus comentários serão úteis para nos ajudar a avaliar e melhorar este curso/ módulo. Ícones de actividade Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones nas margens das folhas. Estes icones servem para identificar diferentes partes do processo de aprendizagem. Podem indicar uma parcela específica de texto, uma nova actividade ou tarefa, uma mudança de actividade, etc. Acerca dos ícones Pode ver o conjunto completo de ícones deste manual já a seguir, cada um com uma descrição do seu significado e da forma como nós interpretámos esse significado para representar as várias actividades ao longo deste módulo. Comprometimento/ perseverança Actividade Resistência, perseverança Auto-avaliação “Qualidade do trabalho” (excelência/ autenticidade) Avaliação / Teste “Aprender através da experiência” Exemplo / Estudo de caso Paz/harmonia Debate Unidade/relações humanas Actividade de grupo Vigilância / preocupação Tome Nota! “Eu mudo ou transformo a minha vida” Objectivos Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 5 [Ajuda-me] deixa- me ajudar-te” Leitura “Pronto a enfrentar as vicissitudes da vida” (fortitude / preparação) Reflexão “Nó da sabedoria” Terminologia Apoio / encorajamento Dica Habilidades de estudo Caro estudante! Para frequentar com sucesso este módulo recomendamo-lo a programar sessões de estudo diárias que podem variar entre 1 hora e 30 minutos a 2 horas. Não o aconselhamos a estudar mais do que duas horas porque o entusiasmo em querer completar o estudo pode frustrar-lhe. Realize com calma as tarefas propostas. É mais frutífero que estude continuamente durante curto tempo do que estudos semanais de longa duração. Procure um lugar tranquilo, na sua casa, numa sala de uma escola perto da sua casa, ou outro lugar que disponha de espaço e iluminação apropriados. Todas as actividades propostas ao longo do manual incluindo as de auto avaliação deverão ser resolvidas no caderno de exercícios. Por fim, tente resolver todos os exemplos outra vez de forma a assimilar devidamente as lições. Passe para os exercícios quando tiver a certeza de que entendeu o conteúdo e os procedimentos para a sua resolução. 6 Realize individualmente ou com colegas que vivam junto de si as experiências sugeridas neste módulo. Todas as experiências são simples e exigem apenas matérias que você pode juntar dentro da sua própria casa. Programe devidamente o seu tempo para que o estudo seja uma experiência gratificante e excitante. Desejamos-lhe muito sucesso! Precisa de apoio? Dúvidas e problemas são comuns ao longo de qualquer estudo. Em caso de dúvida numa matéria tente consultar a bibliografia sugerida no fim de cada lição e disponíveis no centro de recurso mais próximos. Se tiver dúvidas na resolução de algum exercício, procure estudar os exemplos semelhantes apresentados no módulo. Se a dúvida persistir,consulte a orientação que aperece no fim dos exercícios. Se a dúvida persistir, veja a resolução do exercício. Sempre que julgar pertinente, pode consultar o tutor que está à sua disposição no centro de recursos mais próximo. Não se esqueça de consultar também colegas da escola que tenham feito a cadeira de Física Molecular e Termodinámica, vizinhos e até estudantes de universidades que vivam na sua zona e tenham ou estejam a fazer cadeiras relacionadas com Física. Tarefas (avaliação e auto- avaliação) Ao longo deste módulo, irá encontrar várias actividades que acompanham o seu estudo. Tente sempre solucioná-las. Consulte a resolução para confrontar o seu método e a solução apresentada. Você deve promover o hábito de pesquisa e a capacidade de selecção de fontes de informação, Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 7 tanto na internet como em livros. Consulte manuais disponíveis e referenciados no fim do módulo e para obter mais informações acerca do conteúdo que esteja a estudar. Se usar livros de outros autores ou parte deles na elaboração de algum trabalho deverá citá-los e indicar estes livros na bibliografia. Não se esqueça que usar um conteúdo, livro ou parte do livro em algum trabalho, sem referenciá-lo é plágio e pode ser penalizado por isso. As citações e referências são uma forma de reconhecimento e respeito pelo pensamento de outros. Estamos cientes de que o estimado estudante não gostaria de ver uma ideia sua ser usada sem que fosse referenciado, não é? Na medida do possível, procure alargar competências relacionadas com o conhecimento científico, as quais exigem um desenvolvimento de competências, como auto-controle da sua aprendizagem. As tarefas colocadas nas actividades de avaliação e de auto-avaliação deverão ser realizadas num caderno à parte ou em folha de formato A4. Você deve produzir documentos sobre as tarefas realizadas em suporte diverso, pois a qualquer momento o seu tutor poderá solicitá-los Avaliação O Módulo de Física Molecular e Termodinámica terá dois testes e um exame final que deverá ser feito no Centro de Recursos mais próximo, ou em local a ser indicado pela administração do curso. O calendário das avaliações será também apresentado oportunamente. A avaliação visa não só informar-nos sobre o seu desempenho nas lições, mas também estimular-lhe a rever alguns aspectos e a seguir em frente. A matéria a ser avaliada no 1º teste será da Unidade 1 a 3 e o 2º teste da unidade 4 a 6. 8 Durante o estudo deste módulo o estudante será avaliado com base na realização de actividades e tarefas de auto-avaliação previstas em cada Unidade, dois testes escritos, e um exame. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 9 Unidade 1 Resumo Histórico e Introdução a conceitos básicos. Introdução Caro estudante, esta Unidade destina-se a fazer uma introdução ao estudo da Termodinâmica, começando por lhe apresentar um resumo histórico do desenvovimento desta área do saber como uma ciência. Você poderá ler assim sobre os cientistas que contribuiram para esse desenvolvimento. Mais adiante, o módulo apresenta-lhe definições de vários conceitos básicos cuja aprendizagem é um importante requisito para a compreensão dos assuntos a serem abordados neste módulo. A unidade é constituída por 4 lições nas quais são abordados de forma resumida os seguintes assuntos: História da Termódinâmica, conceitos básicos: sistema termodinâmico, grandezas termodinâmicas, temperatura e calor, equilíbrio térmico, a lei zero da Termodinâmica, medição da temperatura, tipos de termómetros e escalas termométricas, efeitos térmicos sobre corpos sólidos, líquidos e gases( dilatação e mudanças de fase). São recomendadas no módulo experiências escolares simples a serem realizadas com material de baixo custo. Você poderá necessitar de aproximadamente 10 horas para o estudo da unidade incluindo a resolução dos problemas e realização das experiências. Ao completar esta unidade, você será capaz de: Objectivos Destacar a diferença entre os conceitos de temperatura e calor; Medir a temperatura de um corpo ou de uma substância com ajuda de um termómetro analógico; Exprimir a temperatura de um corpo nas 3 escalas termométricas 10 Kelvin, Celcius e Farenheit; Explicar, fisicamente, o fenómeno de dilatação dos corpos com o aumento de temperatura; Aplicar as equações de dilatação linear, superficial e volumetrica para determiner a dilatação ou contracção de um corpo devido a recepção ou cedência de calor; Fazer experiências simples para mostrar a dilatação superficial e volumétrica dos materiais. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 11 Lição nº1 Desenvolvimento histórico e objecto de estudo da Termódinâmica Introdução Caro estudante, nesta primeira lição, você vai poder resumidamente inteirar-se sobre os feitos históricos que contribuíram grandemente para o desenvolvimento da Termodinâmica como ciência física. Para além da descrição dos factos desde a 1ª Lei até a 3ª Lei da Termodinâmica a, presente lição| faz referência aos vários cientistas, que com as suas descobertas experimentais e teóricas foram uma referência para o desenvolvimento desta ciência. Você poderá precisar cerca de 4 horas de estudo desta 1ª Lição. Isso não significa que deve estudar continuamente durante as 4 Horas. Poderá fazer um intervalo sempre que se sentir fatigado. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Explicar as causas principais que contribuiram para o desenvolvimento da Termodinâmica; Reconhecer o factores principais que constituiem a história da Termodinâmica; Identificar os principais cientistas que contribuíram para o desenvolvimento da Termodinâmica como ciência. 12 Terminologia Termos novos de destaque nesta lição: Energia interna, calórico, máquina a vapor, equivalente mecânico do calor, entropia, processos reversíveis e irreversíveis Evolução Histórica da Termodinâmica A Termodinâmica nasceu no século XIX, como resultado das preocupações relativas ao aperfeiçoamento das primeiras máquinas a vapor, dos laços entre os fenómenos mecânicos e os térmicos assim como da evolução da calorimetria. Ela é a área das ciências físicas que estabelece uma estreita ligação entre a ciência e a sociedade e cujos primeiros passos do seu desenvolvimento tiveram como factores impulcionadores os problemas da sociedade e não propriamente os problemas físicos. A história da Termodinâmica se baseia nas descobertas das suas três leis. A história da 1ª Lei da Termodinâmica. A 1ª lei da Termodinâmica, uma das maiores descobertas da Física do século XIX, traduz a conservação da energia. Ela estabelece que “Num sistema isolado a energia interna permanece constante.” Definição: A energia interna é a energia que existe no interior do sistema e é igual à soma da energia cinética e potencial das moléculas que compõem o sistema. Contribuíram decisivamente para o aparecimento da primeira Lei da Termodinâmica os seguintes cientistas: Nicolas Léonard Sadi Carnot (1791-1832), físico francês, considerado o pai da Termodinâmica. Carnot apresentou em 1824 um trabalho (Reflexões sobre a potência motriz do fogo e sobre as máquinas Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 13 preparadas para desenvolver essa potência) que depois de ter sido inicialmente ignorado, constitui actualmente uma das obras-primas da História das Ciências. Nessa sua obra Carnot escreveu a seguinte frase: “Ninguém ignora que o calor pode ser a causa do movimento. Que ele possui até uma grande potência motriz: as máquinas a vapor, hoje tão espalhadas, são uma prova eloquente para quem tiver olhos para ver.”É em torno do desempenho das máquinas a vapor que Carnot estabelece uma das mais importantes sistematizações da Termodinâmica, delimitando a transformação de energia térmica (calor) em energia mecânica (trabalho). Ele acreditava na criação de energia mecânica por simples transporte de calórico. Por exemplo, a máquina a vapor realizava trabalho quando o calor passava da fonte quente (caldeira) para a fonte fria (condensador). Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794), químico francês que em 1789 introduz na tabela de substâncias simples (elementos químicos) o calórico e a luz é o dono da teoria do calórico. Lavoisier considerava o calor como um fluído elástico, indestrutível e imponderável, e dava-lhe o nome de calórico. Um corpo mais quente tinha mais calórico do que um mais frio e os fenómenos térmicos explicavam-se por trocas de calórico entre os corpos. Esta teoria denominada teoria do calórico foi sendo posta em causa desde a sua apresentação. Benjamin Thompson (1753-1814), conde de Rumford, cientista americano, é quem contribui para que se abandonasse, nos finais do século XVIII, a falsa concepção de que o calor era algo material. Os trabalhos de Rumford levaram à substituição da teoria do calórico pelo conceito de calor como energia em movimento. Thompson observou que ao brocar os metais para fabricar peças de artilharia, que estes aqueciam consideravelmente. O aquecimento era assim produzido pela broca, o que significava que o calor poderia ser produzido pelo trabalho, o que desmentia eficazmente a teoria do calórico. 14 Nos seus estudos Carnot também admitiu como correcta a teoria do calórico, o que significava para ele, que no processo que ocorre na máquina a vapor devia haver “conservação de calor”. Ele descreveu uma máquina térmica na qual comparou a queda do calórico com a queda de água de um tanque de água. Ao considerar o facto de que essa água podia voltar ao tanque por intermédio de uma bomba, concluiu que a sua máquina poderia trabalhar de modo reversível, isto é, ora deixando o calórico cair da fonte quente para a fonte fria, ora elevando-o da fria para a quente. A figura 1 mostra o esquema de uma máquina térmica em que o calórico cai da fonte quente para a fonte fria. Carnot veio a morrer em 1832 vítima de cólera. Após a sua morte descobriu-se uma série de notas, nas quais descreveu novas experiências com a sua máquina, em que se veio a verificar que ele tinha posto de lado a Teoria do Calórico e sugeriu que o que havia era conservação de energia e não de calor. “Podemos estabelecer como tese geral que a potência motriz existe em quantidade invariável na Natureza, que ela nunca é, propriamente falando, nem produzida nem destruída. Na verdade ela muda de forma, isto é, ela produz umas vezes um tipo de movimento outras vezes um tipo diferente, mas nunca é destruída. Este princípio deduz-se por si só, digamos assim, da teoria mecânica.” Eis esboçada a 1ª Lei da Termodinâmica ao apresentar a conservação da energia e a possibilidade de transformações recíprocas das diferentes formas de energia. Esta conclusão já tinha sido estabelecida anteriormente graças aos trabalhos de Mayer, Joule e Helmholtz, mas só 40 anos após a morte de Carnot é que se publicou a obra em que se tornou evidente que ele já tinha chegado à 1ª Lei da Termodinâmica antes de todos os outros. Por isso mesmo que actualmente é considerado o pai da Termodinâmica. Fig.1: Funcionamento de uma máquina térmica. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 15 Julius Robert Mayer (1814-1878), físico e médico alemão, interessou-se também com a relação existente entre o calor e o trabalho. Julius Robert Mayer foi quem, em 1842, estabeleceu pela primeira vez de maneira clara a 1ª Lei da Termodinâmica, de acordo com a qual calor e trabalho são mutuamente interconversíveis. “Quando um sistema material apenas troca trabalho mecânico e calor com o exterior, e volta de seguida ao seu estado inicial: se o sistema recebeu trabalho, cedeu calor; se o sistema recebeu calor, forneceu trabalho; há uma razão constante entre o trabalho (W) e a quantidade de calor (q) trocadas: q W = constante = J, em que J é designado por equivalente mecânico do calor.” Mayer concluiu que a relação existente entre o calor e o trabalho também existia entre várias formas de energia: a química, a eléctrica, etc. Ele obteve para J um valor em torno de 3,56 J cal -1. Se ele tivesse usado os dados experimentais actuais teria chegado ao valor conhecido actualmente 4,184 J cal -1. O equivalente mecânico do calor é a quantidade de energia, sob a forma de trabalho mecânico, equivalente a 1 caloria. James Prescott Joule (1818-1889), físico inglês convenceu em 1843, os cépticos de que o calor não era uma substância, finalizando com a teoria do calórico e conduzindo à Teoria Mecânica do Calor. Segundo esta teoria o calor é a energia transferida de um corpo para outro, devido à diferença de temperaturas entre os corpos. A partir de um grande número de experiências, Joule chegou à mesma conclusão que Mayer, de que o mesmo efeito podia ser conseguido quer fornecendo calor, quer fornecendo trabalho. Com todo o seu trabalho Joule verificou que o equivalente mecânico do calor é 4,154 J. Ao comparar o valor do equivalente mecânico do calor 16 conhecido actualmente e o obtido por Joule, verifica-se que o erro experimental de Joule é de aproximadamente 1%. Em sua homenagem a unidade do sistema internacional (SI) de energia, sob todas as formas, é o Joule, embora se utilize ainda, por tradição, a caloria. Joule concluiu que a energia potencial podia transformar-se em energia cinética e a energia cinética podia transformar-se em calor. Mas, de uma maneira geral era impossível que a energia se gerasse do nada. O calor e a energia mecânica podem portanto ser consideradas como manifestações diferentes da mesma quantidade física: a energia. Experiência de Joule Por meio de experiências bem planeadas, idealizando e construindo calorímetros apropriados, Joule pôde determinar a quantidade de calor que se gerava por agitação, fornecendo uma quantidade conhecida de trabalho. Num recipiente bem isolado colocou uma certa quantidade de água a 14,5 ºC. Um conjunto de pás no interior desse recipiente, ligadas a um sistema de pesos, permitia realizar trabalho sobre a água. A água aquecia à medida que as pás iam rodando e, portanto, o trabalho mecânico era equivalente ao calor. Medindo o trabalho fornecido à água e a temperatura final, calculou o equivalente mecânico do calor. Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz (1821-1894), fisiologista e físico alemão, publicou em 1847, um artigo baseado nos trabalhos de Carnot e Joule. Nesse artigo expôs as bases científicas e filosóficas da 1ª Lei da Termodinâmica, fundamentando-a em bases matemáticas, onde estabeleceu claramente a conversão da energia como um princípio de validade universal aplicável a todos os fenómenos. Helmholtz partiu da experiência que mostrava que é impossível gerar calor a partir do nada e deduziu que entre o calor e o trabalho existia uma relação invariável. Fig 2 Esquema do dispositivo experimental utilizado por Joule. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 17 Ao tentar generalizar o conceito Newtoniano de movimento, de um grande número de corpos submetidos a atracções mútuas, mostrou que a energia interna permanecia constante. A energia interna pode aumentar através da realização de trabalho (W) sobre o sistema, ou por meio da passagem de calor (Q) do exterior para o sistema. Assim, a variação da energia interna (ΔU) é dada pela seguinte equação, que traduz a 1ª Lei da Termodinâmica: QWU +=Δ Um dos possíveis enunciados desta lei é: “A variaçãoda energia interna de um sistema é igual à energia transferida através da fronteira, tanto pela realização de trabalho como pela ocorrência de um fluxo de calor.” Num sistema isolado, Q = 0 e W = 0, a variação da energia interna é zero, ΔU=0 e a energia interna permanece constante. Rudolf Julius Emanuel Clausius (1822-1888), físico alemão, apresentou ideias que tiveram influência na formulação da 1ª Lei da Termodinâmica e também na 2ª Lei da Termodinâmica. Clausius apresentou o critério segundo o qual quer o trabalho quer o calor fornecidos pelo exterior ao sistema são positivos. Pelo contrário, quer o trabalho quer o calor fornecidos pelo sistema ao exterior são negativos. Germain Henri Hess (1802-1850), um químico russo/suíço aplicou em 1840, a 1ª Lei da Termodinâmica às reacções químicas. Este químico formulou a lei de Hess que permite prever o calor libertado ou absorvido numa reacção cujas entalpias são conhecidas. A lei de Hess diz que “Quando, numa reacção química, os reagentes são 18 convertidos em produtos da reacção a variação de entalpia é a mesma, quer a reacção se dê num só passo ou numa série de passos.” A variação de entalpia (ΔH ) de um sistema é igual ao calor libertado ou absorvido a pressão constante. Dependendo do sinal de ΔH, a reacção pode ser endotérmica (ΔH>0) havendo absorção de energia sob a forma de calor ou exotérmica (ΔH < 0) havendo libertação de energia sob a forma de calor. Depois de ter visto a história da 1ª lei passa-se a seguir para a 2ª lei da Termodinámica. A história da 2ª Lei da Termodinâmica Apesar de ser denominada “2ª Lei da Termodinâmica”, esta foi a primeira a ser formulada. A 2ª Lei da Termodinâmica expressa a relação entre a entropia e a espontaneidade de uma transformação. A lei diz que “a entropia do Universo aumenta numa transformação espontânea e mantém-se constante numa situação de equilíbrio.” A entropia do Universo Como o Universo é constituído pelo sistema e pelo exterior, a variação da entropia no Universo (ΔSuniv ) para qualquer processo é a soma das variações de entropia no sistema (ΔSsist ) e do exterior (ΔSext ). extsistuniv SSS Δ+Δ=Δ Vários pesquisadores pretenderam esclarecer o que determinava a direcção única dos processos espontâneos. Marcelin-Pierre Berthelot (1827-1907), químico francês, sugeriu que a variação de energia medida pelo calor libertado numa reacção fosse o critério de Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 19 espontaneidade da reacção química. Em apoio a esta hipótese Berthelot apresentou uma série de reacções em que havia libertação de calor (reacções exotérmicas), mas que eram espontâneas. Contudo, a hipótese de que só as reacções exotérmicas seriam espontâneas, teve de ser posta de lado, pois a experiência mostrou haver uma série de reacções espontâneas em que se dá a absorção de calor (reacções endotérmicas), como por exemplo, a dissolução do nitrato de amónio em água. Assim, tornou-se necessário procurar outra grandeza termodinâmica para ajudar a prever a direcção das reacções químicas. Rudolf Clausius foi quem, a partir das ideias de Carnot, clarificou muitos dos conceitos da 2ª Lei da Termodinâmica dando-lhe a forma actual. “É impossível que uma máquina frigorífica que trabalhe ciclicamente transfira energia como calor, de um corpo frio para outro quente, sem que um agente externo realize trabalho.” Ao considerar que existia uma equivalência entre calor e trabalho e que era impossível realizar um processo cíclico em que se transfira calor de um corpo mais frio para um corpo mais quente, Clausius descrevia, respectivamente, a primeira e a segunda Lei da Termodinâmica. Em 1854, Clausius introduziu o conceito do valor de equivalência de uma transformação térmica e que era medido pela relação entre a quantidade de calor (q) e a temperatura (T) na qual ocorria a transformação. Por intermédio desse conceito físico, fez a distinção entre processos reversíveis e irreversíveis. Assim, assumiu arbitrariamente que a transformação de calor de um corpo quente para um frio tinha um valor de equivalência positivo. Em 1865, publicou um trabalho no qual propôs o termo entropia (do grego entropé significa mudança, volta), representado por S, em lugar do termo valor de equivalência, que havia usado em 1854. Em 1865, publicou um trabalho no qual propôs o termo entropia (do grego entropé significa mudança, volta), representado por S , em lugar do termo valor de equivalência, que havia usado em 1854. 20 A capacidade de dedução de Clausius, baseada em análises matemáticas relativamente simples, permitiu-lhe chegar a uma equação que relaciona a entropia com a transferência de calor, para um processo reversível ⎟ ⎠ ⎞⎜ ⎝ ⎛ = T dQdS rev e para um processo irreversível ⎟ ⎠ ⎞⎜ ⎝ ⎛ > T dQdS rev . Estas expressões são um desenvolvimento das ideias de Carnot e permitem concluir que: Esta é uma das formas de exprimir a actual 2ª Lei da Termodinâmica que resultou, principalmente, dos esforços de dois cientistas: Carnot e Clausius. “Em qualquer transformação que se produza num sistema isolado, a entropia do sistema aumenta ou permanece constante. Não há portanto qualquer sistema térmico perfeito no qual todo o calor é transformado em trabalho. Existe sempre uma determinada perda de energia”. Entende-se por processos irreversíveis os processos que ocorrem espontaneamente num dado sentido e que não podem ser revertidos por uma mudança infinitesimal,como, por exemplo, o arrefecimento espontâneo num sistema isolado. William Thomson (Lord Kelvin) (1824-1907), físico e matemático escocês, deduziu a 2ª Lei da Termodinâmica, apresentando-a com um enunciado distinto daquele de Clausius. “Nenhum processo é possível em que o único resultado seja a absorção de calor de um recipiente e a sua completa conversão em trabalho.” Pelos seus notáveis contributos na Ciência, Thomson foi agraciado pelo Rei com o título de Lord em 1892, passando a partir de então a ser mais conhecido por Lord Kelvin. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 21 Em sua memória foi estabelecida uma unidade e escala termométrica denominada graus e escala Kelvin. Apesar da origem termodinâmica da entropia, introduzida por Clausius em 1865, actualmente utiliza-se muito a interpretação estatística. James Clerk Maxwell (1831-1879), físico e matemático escocês, foi quem em 1860 deu os primeiros passos na direcção da interpretação estatística da Termodinâmica, através do estudo da distribuição das velocidades das moléculas de um gás. Em 1867, Maxwell escreveu uma carta na qual apresentou o carácter probabilístico da 2ª Lei da Termodinâmica, através do seguinte exemplo: “Um recipiente que possui uma parede no meio com uma janela que poderá ser manipulada por um porteiro (denominado Demónio de Maxwell por William Thomson), contém um gás a uma determinada temperatura. Através dessa janela, o porteiro deixaria passar partículas que tivessem velocidade alta e impediria a passagem das partículas que tivessem velocidade baixa, já que, segundo a sua distribuição de velocidades, num gás em equilíbrio, as partículas distribuem-se com as mais variadas velocidades.” Assim, depois de um certo tempo, um lado do recipiente estaria mais quente que o outro, mostrando, assim, que o fluxo de calor poderia ocorrer em dois sentidos, e não em apenas um, conforme indicava a 2ª Lei da Termodinâmica. O Demónio de Maxwell possibilitaria o fluxo de calor em dois sentidos, e não em apenas um. Ludwig Edward Boltzmann (1844-1906), físico austríaco, introduziu, em 1872, a interpretação estatística da entropia. A entropia do sistema (S) é relacionada com a constante de Boltzmann (k) e com o Fig. 3:O Demónio de Maxwell22 número de diferentes meios de distribuição de átomos e moléculas da amostra e que podem dar origem à mesma energia (W ). WKS ln×= A terceira Lei da Termodinâmica Os cientistas seguintes contribuíram para a formulação da terceira Lei da Termodinâmica: Walther Hermann Nerst (1864-1941), físico- químico polaco e Max Karl Ernst Ludwig Planck (1858-1947), físico alemão enunciaram, em 1912, a 3ª Lei da Termodinâmica. A 3ª Lei da Termodinâmica pode ser enunciada da seguinte forma: “A entropia de todos os cristais perfeitos é igual no zero absoluto de temperatura.” Responda as questões abaixo como forma de testar os seus conhecimentos sobre o conteúdo abordado nesta lição. Actividade 1. Quais foram as principais realizações que conduziram à descoberta das três leis da Termodinâmica? 2. Sistematize, em forma de uma grelha, os nomes dos cientistas, os seus períodos de vida e as suas principais contribuições para o desenvolvimento da Termodinâmica! Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 23 Lição nº 2 Conceitos Básicos da Termodinâmica e Grandezas físicas Introdução Caro estudante, nesta segunda lição, você vai rever e aprofundar conceitos e terminologias básicos que lhe ajudarão a entender os conteúdos subsequentes da Termodinâmica. Você poderá consultar outra literatura para aprofundar alguns aspectos. Tempo de estudo Para esta lição você poderá precisar cerca de 2 horas de estudo. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Caracterizar um sistema termodinâmico, um estado termodinâmico e o equilíbrio térmico; Diferenciar entre temperatura, energia interna e calor; Interpretar a lei zero da Termodinâmica; 24 Terminologia Sistema termodinâmico, estado termodinâmica, equilíbrio térmico ou termodinâmico, temperatura, calor, lei zero da Termodinâmica, sistema aberto e fechado, sistemas macroscópicos e microscópicos, massa atómica e molecular, massa específica, mole e massa molar, peso específico, volume específico e volume molar. • Objecto de estudo da Termodinâmica A Termodinâmica estuda os processos que ocorrem em porções de matéria sólida, líquida ou gasosa, os quais implicam trocas de energia entre estas porções e o ambiente. Definição: Entende-se por porção de matéria um sistema composto por um grande número de particulas que podem ser átomos ou moléculas. Portanto, está-se em presença de um sistema termodinâmico sempre que tivermos um objecto ou um conjunto de objectos que podem entrar em intercâmbio térmico como outros objectos da vizinhança ou com o ambiente. Por exemplo, uma pedra, um pedaço de gelo, um volume de ar, um gás num recipiente; uma quantidade de água, etc. Qualquer porção de matéria capaz de sofrer trocas de calor com outros corpos ou com ambiente pode ser considerado sistema termodinâmico. Os sistemas termodâmicos podem ser classificados em macroscópicos e microscópicos. São macroscópicos aqueles cujas dimensões são muito grandes em relação às de um átomo ou de uma simples molécula (dimensão de uma molécula 10-8cm). Por sua vez, denominam-se sistemas microscópicos aqueles cujos elementos apresentam dimensões comparáveis à de um átomo ou de uma molécula. Um sistema termodâmico pode ser considerado fechado (isolado) ou aberto. É fechado sempre que o seu intercâmbio energético com a vizinhança for menosprezível. Nesta situação as características Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 25 termodinâmicas do sistema permacem invariáveis. É considerado aberto quando entre ele e a vizinhança há trocas recíprocas de energia. Por exemplo, uma chávena de chá quente abandonada sobre a mesa acaba esfriando depois de algum tempo. Diz-se que durante esse tempo ouve trocas de energia, por exemplo, entre o chá e o ambiente. As qualidades de um sistema termodinâmica macroscópico são caracterizadas por grandezas termodinâmicas macroscópicas também denominadas parâmetros termodinâmicos. São, por exemplo, o volume, a densidade, a temperatura, a pressão, etc. Os parâmetros termodinâmicos são grandezas directamente mensuráveis ou calculáveis a partir de outras grandezas directamente medidas. Os parâmetros termodinâmicos caracterizam um determinado estado do sistema termodinâmico a que se dá o nome de estado termodinâmico. Por outras palavras, entende-se por estado termodinâmico de um sistema uma situação específica em que os parâmetros termodinâmicos permanecem invariáveis e podem ser caracterizados quantitativamente por um conjunto de propriedades mensuráveis que definem a condição térmica do sistema. Note que, no exemplo da chávena de chá sobre a mesa, após algum tempo cessa o resfriamento. Do mesmo modo, uma bebida saída fresquinha da geleira aquece quando abandonada sobre a mesa, mas após algum tempo essa transformação cessa. Quando isto acontece diz-se que o chá ou a bebida entram em equilíbrio térmico com a vizinhança. Chama-se equilíbrio térmico a situação ou estado em que no sistema termodinâmico ou na vizinhaça já não ocorrem mudanças térmicas. 26 • Mas porque ocorre esta mudança? No primeiro caso, o chá que estava mais quente que o ambiente esfriou e no segundo caso a bebida da geleira que estava mais fria que o ambiente aqueceu. Pode-se concluir que a diferença de temperaturas entre o chá e o ambiente ou entre a bebida e o ambiente, é a razão das mudanças térmicas. Durante as mudanças ocorre variação das temperaturas dos corpos envolvidos devido à troca de energia entre eles. Quando a diferença de temperaturas desaparece, igualam-se as temperaturas do chá e do ambiente e, por consequência, cessam as mudanças. • De que tipo de energia se trata? Chama-se a esta energia de energia interna. Caro estudante, imagine que você segura uma pedra de gelo na mão. Ela irá com certeza derreter depois de um certo tempo. Qual dos dois corpos estava com uma temperatura maior, a sua mão ou o gelo? Sem dúvida você dirá que sua mão estava mais "quente". Na verdade a temperatura da sua mão era maior que a temperatura do gelo e ela, a mão, perdeu um pouco de energia térmica que tinha para o gelo. • O que é temperatura? A temperatura é uma propriedade dos corpos que mede quão um corpo está quente ou frio. • E o que é energia interna? Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 27 Todos os corpos possuem energia interna. Esta energia está de certa maneira "armazenada" nos corpos, e é, entre outras coisas, resultante do movimento ou da vibração dos átomos e moléculas que formam o corpo. Quanto maior for a vibração, maior será a energia interna contida no material, e maior será sua temperatura. Quando se encostam dois corpos com temperaturas diferentes, ou seja, com níveis de vibração diferentes, a tendência é que parte da energia do corpo de maior temperatura passe para o corpo de menor temperatura. Ao trânsito dessa energia do corpo de maior temperatura para o de menor temperatura dá-se o nome de calor. Por outras palavras, o calor é uma forma de energia em trânsito devido à diferença de temperaturas. Note que na linguagem quotidiana é frequente ouvirmos dizer que está calor quando o ambiente está quente. Mas na linguagem física diríamos correctamente que a temperatura está alta. • Definições de algumas grandezas Conheça mais algumas grandezas úteis no estudo da Termodinâmica. Massa atômica: É a massa de um átomo expressa em relação a 1/12 da massa do átomo de carbono 12. Importante: “Sempre que encostarmos dois corpos, ou sistemas, que estejam com temperaturas diferentes, haverá troca de calor entre eles. O calor sempre passará do corpo de maior temperatura para o corpode menor temperatura, até que ambos atinjam a mesma temperatura.” 28 Massa específica/ densidade: É a massa de um corpo por unidade de volume ρ = m/V (kg/m3). Massa molecular: É a soma das massas atômicas de todos os átomos da molécula. Massa molar: É a massa por mol de uma substância, simbolizado por μ, n m =μ (kg/kmol) ou (g/mol), onde n é o número de moles. Mol: É a quantidade em gramas de uma substância igual à sua massa molecular. O número de moléculas em 1 mol de qualquer substância é constante e é chamado de constante de Avogadro Na (aproximadamente Na= 6,022 1023). Peso específico: É o peso de um corpo por unidade de volume. Se o corpo tem P N e V m3, então o peso específico γ = P/V (N/m3). Relação com massa específica γ = ρ g , onde g≈ 9,81 m/s2 (aceleração da gravidade). Volume específico: É o volume de 1 kg de massa de um corpo. Se o corpo tem m kg e V m3, então o volume específico v = V/m (m3/kg). Volume molar: É o Volume ocupado por 1 kmol de uma substância em determinada temperatura e pressão. Assim, μμ Vv = (m3/kmol) ou (dm3/mol). Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 29 Actividade Depois do estudo que você acaba de fazer tente responder às seguintes perguntas 1. Como percebemos que está quente ou frio? 2. O que pode ser considerado como sendo fonte de calor? 3. Qual é para si a diferença entre calor e temperatura? 4. Quando o calor vai de um corpo para outro, o que acontece com os átomos? Apoio Dicas: Para responder a primeira pergunta pense nas condições para que haja transferência de calor entre o nosso corpo e o ambiente. 1. Note que nem sempre a fonte de calor tem que ser uma fogueira. 2. Você encontra a resposta no meio do texto. 3. Responda com base no conceito de energia interna 30 Lição nº 3 Temperatura e sua medição Introdução Como continuação do tema anterior, esta lição destina-se ao estudo dos métodos de medição da temperatura e escalas termométricas. Você deverá se familiarizar com pelo menos 3 escalas termométricas diferentes, conhecer a relação entre elas, assim como fazer a converções de uma escala para outra. Tempo de estudo Você poderá precisar de 3 horas de estudo para esta lição, incluindo a realização das actividades aqui sugeridas. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Interpretar o significado da formulação da lei Zero da Termodinâmica; Diferenciar termómetros com base na substância termométrica e na aplicação; Descrever o funcionamento de um termómetro; Explicar a base do funcionamento do termómetro; Efectuar a conversão da temperatura entre as três escalas termométricas, Celcius, Farenheit e Kelvin; Medir a temperatura de um corpo usando um termómetro analógico. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 31 Terminologia Lei zero da Termodinâmica, termómetro, substâncias termométricas, grandeza termométrica, escala termométrica, Celcius, Farenheit, Kelvin; pontos físicos. • Como você acha que se mede a temperatura de um corpo? Você, sem dúvida, já presenciou situações em que uma mãe aflita pelo facto de seu filho estar doente, lhe coloca a mão na testa para verificar se este está ou não quente (com febre). Em alguns casos ela chega a concluir que o filho “tem ou não tem temperaturatura”. E no caso afirmativo ela corre preocupada com o seu filho para a unidade sanitária mais próxima. • O que você acha deste procedimento? Chega a mãe a colher uma informação exacta sobre a situação febril do seu filho? Se achar que não, como ela devia proceder? • Pode-se dizer que a criança tem ou não tem temperatura? O que seria de uma criança sem temperatura? Justifique! Actividade Realize a seguinte experiência que lhe ajudará a tirar conclusões mais correctas. Experiência 1 Prepare três tinas com água, uma mais quente, outra morna e outra fria.Mergulhe a mão esquerda na águra fria e a direita na água quente. Mantenha as suas mãos alguns minutos nas tinas. Depois mergulhe as duas mãos em simultâneo na tina de água morna. O que você sente? A que conclusão é que chega? Descreva os resultados da sua experiência. Feedback Provavelmente, você irá concluir da sua experiência que o sentido do tacto não constitui o método mais adequado para a medição da 32 temperatura. A sensação de quente ou frio pode levar a conclusões diferentes dependendo da situação inicial do nosso corpo. • Medição da temperatura A medição da temperatura baseia-se num princípio denominado “Lei Zero da Termodiâmica” A lei Zero da Termodinâmica diz-nos que sempre que um corpo A estiver em equilíbrio térmico com o corpo B e estiver em equilíbrio com um outro C, então A e C estarão em equiíbrio térmico entre si. Exemplo Quando se pretende medir a temperatura de um paciente febril, coloca-se o invólcro de vidro do termómetro em contacto com o corpo deste. O invólcro de vidro aquece e, por consequência, aquece também a substância termométrica (o mercúrio) nele contido e que se dilata. A dilatação do mercúrio cessa quando o vidro e o álcool tiverem atingido entre si o equilíbrio térmico, isto é, quando já tiverem a mesma temperatura. Assim, a temperatura indicada pela coluna de mercúrio é a temperatura do paciente. • O que são termómetros? Serão todos eles iguais? Termométros são instrumentos com ajuda dos quais se mede a temperatura ou as variações de temperatura. Na técnica existem diferentes tipos de termómetros. Vários factores contribuiem para a sua diferenciação, como por exemplo, o formato do termómetro, a substância temométrica, a grandeza termométrica, a escala termométrica e a finalidade. Fig. 4: Exemplificando a lei zero da Termodinâmica sobre equilíbrio dos corpos Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 33 Os termómetros comuns são os usados para a medição da temperatura corporal entre os 35º C e 40º C. Estes termómetros utilizam como substância termométrica o mercúrio. O termômetro de mercúrio consiste basicamente num tubo capilar (fino como cabelo) de vidro, fechado a vácuo, e um bulbo (espécie de bolha arredondada) numa das extremidades contendo mercúrio. O mercúrio, como todos os materiais, dilata-se quando aumenta a temperatura. Por ser extremamente sensível, ele aumenta de volume à menor variação de temperatura, mesmo próxima à do corpo humano. O volume do mercúrio aquecido se expande no tubo capilar do termômetro. E essa expansão é medida pela variação do comprimento, numa escala graduada que pode ter uma precisão de 0,05oC. É dessa forma, pela expansão do líquido, que observamos a variação da temperatura. Para a medição da temperatura ambiente, que varia numa escala maior dos 0º C a 50º C utiliza-se normalmente o álcool. Para além de termómetros que utilizam líquidos como substâncias termométricas existem os termómetros metálicos, cuja medição de temperatura se baseia no fenômeno da dilatação ou na termoeletricidade. Os do primeiro tipo podem ser construídos de forma semelhante aos termômetros a líquido: uma barra, rectilínea ou não, ao dilatar-se, move um ponteiro registrador. Os mais usados e precisos termômetros desse tipo exploram a diferença de Fig. 5: Exemplo de um termómetro de mercúrio para medição da temperatura corporal. 34 dilatação entre materiais como latão, ferro, cobre, etc. Para isso, constroem-se lâminas bimetálicas de forma espiral que se curvam conforme aumenta ou diminue a temperatura. Nesse movimento, a lâmina arrasta, em sua extremidade, um ponteiro que percorre uma escala graduada e regista a variação de temperatura. Existem também os termómetros digitais. São instrumentos amplamente utilizados em empresas,destinados a medir temperatura em processos e produtos diversos, que não necessitam de uma medição constante, apenas esporádica. Exemplo Aplicações de termômetros digitais: medição de temperatura em fundições, em alimentos em restaurantes ou indústrias alimentares, em processos químicos, em estruturas, em fornos, em produtos diversos, etc. Os termômetros digitais em geral podem ter aplicação industrial ou não, para monitoração constante e precisa das temperaturas de determinados equipamentos que sejam sensíveis a alterações de seu funcionamento, em função de sua temperatura e/ou ambientes que necessitam de cuidados com a temperatura como, por exemplo, na conservação de alimentos a baixas temperaturas em supermercados, como também em laboratórios biológicos para cultivo de bactérias ou outras espécies. Outro tipo de termómetro é o termômetro infravermelho (também denominado de pirómetro óptico). É um dispositivo que mede temperatura sem contacto com o corpo/meio do qual se pretende conhecer a temperatura. Geralmente este termo é aplicado a instrumentos que medem temperaturas superiores a 600 graus celsius. Uma utilização típica é a medição da temperatura de metais incandescentes em fundições. Há também modelos de termómetros por contacto, que utilizam pontas sensoras, geralmente intercambiáveis, com modelos diferentes de sensores para cada aplicação. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 35 Debate Procure discutir com os seus colegas mais próximos sobre o porquê da utilização de diferentes tipos de substâncias termométricas, que dão origem a difentes tipos de termómetros. Depois da discussão registe a conclusão no seu caderno pois poderá ser solicitado pelo seu tutor a apresentar durante as sessões de agrupamento ou por outras vias de comunicação. O que são escalas termométricas? Você sabe que se quiser medir a largura de uma mesa, por exemplo, vai ter que decidir qual das escalas vai usar. Talvez use o metro, talvez o centímetro. Pois bem, quando você precisar de medir a temperatura também terá que escolher uma escala. As três escalas termométricas mais conhecidas e utilizadas são de Celsius (ºC), Fahrenheit (ºF) e Kelvin (K). Saiba um pouco da História do aparecimento das três escalas termométricas mais comuns. • Escala Kelvin Você deve saber que temperatura é uma grandeza que mede o nível de agitação das moléculas de um corpo. Quanto maior a agitação maior a temperatura, e quanto menor a agitação, menor a temperatura. O que seria então lógico pensar a respeito da temperatura quando as moléculas de um corpo qualquer não tivessem agitação nenhuma? Logicamente, a temperatura deveria ser igual a zero. Se não há agitação então também não tem temperatura. Este estado de ausência de agitação é conhecido como zero absoluto, o que não pode ser experimentalmente alcançado, embora possa se chegar muito próximo dele. 36 A temperatura expressa em Kevin (K) é também denominada temperatura absoluta. É usualmente representada pela letra T (maiúscula). A escala Kelvin adopta como ponto de partida (0 K) o zero absoluto, ou seja, o ponto onde ocorre esta ausência total de vibração das moléculas, que corresponde aproximadamente a - 273°C. Nesta escala o gelo se forma a 273K e a água ferve a 373K (ao nível do mar). Esta escala foi criada em 1847 por William Thomson, depois conhecido como Lorde Kelvin e é muito usada no meio científico. Ela é a escala do Sistema Internacional (SI). • Escala Fahrenheit A escala Fahrenheit foi criada pelo inventor do termômetro de mercúrio, Daniel Gabriel Fahrenheit, lá pelos anos de 1714. Para isso ele escolheu dois pontos de partida, chamados actualmente de pontos fixos. Inicialmente ele colocou o seu termômetro, ainda sem nenhuma escala, dentro de uma mistura de água, gelo e sal de amônio. O mercúrio ficou estacionado em determinada posição, a qual ele marcou e chamou de zero. Depois ele colocou este mesmo termômetro para determinar um segundo ponto, a temperatura do corpo humano. Quando o mercúrio novamente estacionou em determinada posição ele a marcou e chamou de 100. Depois foi só dividir o espaço entre o zero e o 100 em cem partes iguais. Estava criada a escala Fahrenheit. Depois disso, quando Fahrenheit colocou seu termômetro graduado numa mistura de água e gelo, obteve o valor de 32ºF, e quando colocou-o em água fervendo obteve o valor de 212ºF. Portanto, na escala Fahrenheit a água transfoma-se em gelo a 32ºF e ferve a 212ºF. Esta escala é mais usada nos países de língua inglesa, com excepção da Inglaterra, que já adotou o Celsius. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 37 • Escala Celsius A escala Celsius foi criada por Anders Celsius, um astrônomo sueco, em 1742. Ele escolheu como pontos fixos, os pontos de fusão do gelo (quando o gelo se torna água) e de ebulição da água (quando a água ferve). Ele colocou um termômetro dentro de uma mistura de água e gelo, em equilíbrio térmico, e na posição onde o mercúrio estabilizou marcou o ponto zero. Depois colocou o termômetro na água em ebulição e onde o mercúrio estabilizou marcou o ponto 100. Estava criada a escala Celsius. Sua vantagem era que ela poderia ser reproduzida em qualquer canto do planeta, afinal, ao nível do mar, a água sempre se transforma em gelo e ferve no mesmo ponto e, consequentemente, na mesma temperatura. A escala Celsius é a mais comum de todas as escalas termométricas e nesta escala a temperatura é indicada por t (minúsculo) o que significa normalmente grau Celsius (ºC). A figura 3 mostra a relação existente entre as três escalas levando- se em conta o ponto de ebulição da água e fusão do gelo. Note que estes pontos mudam dependendo da escala adoptada. Os três valores 0ºC, 32ºF ou 273K representam a temperatura de fusão do gelo. Seria mais ou menos mesmo se uma pessoa disesse que andou 2 metros e outra dizendo que andou 200 centímetros. Embora os números sejam diferentes, a distância é a mesma nos dois casos. Ponto de ebulição da água Ponto de fusão do gelo Fig. 6: Relação entre as três escalas termométricas mais comuns 38 Se alguém lhe disser que a temperatura na cidade de Tete é de 59ºF, como poderá saber realmente se lá está muito quente ou frio, já que você está acostumado a usar a escala Celsius? Como fazer para transformar uma escala noutra ? Existe uma equação que pode ser usada para fazer estas conversões. Com base nela você pode transformar ºF em ºC, K em ºC e ºF em K, e vice-versa. 5 273 9 32 5 − = − = Ttt fC Ou seja )32( 9 5 −= FC tt e KtT C 15,273+= Exemplo 1. Convirta 59º F em oC! 9 32 5 − = fC tt ; 9 5).32( − = fC t t ; Ctc 015 9 135 9 527 9 5)3259( == ⋅ = ⋅− = 2. Qual é a temperatura em Kelvin correspondente a 70º F? Converter primeiro os 70º F para escala Celsius e depois o resultado para a escala Kelvin: i) Ctt ooFC 1,21)32(9 5 =−= e ii) KKtT C 2942731,21)273 =+=+= Depois desses exemplos procure resolver as seguintes tarefas. Actividade Convirta agora as seguintes temperaturas de: 1. 10°C para F; 2. 50°F para K; 3. 283K para C; 4. Forneça as temperaturas de fusão do gelo e ebulição da água, tanto em graus Célcius como em Kelvin. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 39 Feedback Resultados 1. Ft f º50= 2. KT 15,283= 3. CtC º10= 4. Veja a escala de conversão na página 26, (fig. 6) Como você pode criar uma escala termométrica? Para construir uma escala devemos primeiro escolher uma grandeza termométrica, ou seja, qualquer grandeza que varie com a temperatura. São exemplos de grandezas termométricas o comprimento de uma coluna de mercúrio, o tamanho de uma barra de ferro,a pressão exercida por um gás num recipiente de volume constante, a resistência eléctrica de um fio, entre outras. A relação entre a grandeza termométrica e a temperatura deve ser tal que cada valor da grandeza corresponda a uma única temperatura. A medida da temperatura de um corpo será feita indirectamente, pelo efeito provocado na grandeza termométrica quando estiver em equilíbrio térmico com o corpo. Procedimentos: 1. Escolhemos a substância e a grandeza termométrica que varia linearmente com a temperatura. Por exemplo, o álcool colorizado (substância termométrica) colocado num reservatório (bulbo) ligado a um tubo capilar de vidro; o comprimento atingido pela coluna de álcool no tubo capilar é a (grandeza térmica). Essa grandeza - comprimento da coluna de álcool - varia linearmente com a temperatura. 2. Esse dispositivo é colocado em contato com dois estados térmicos diferentes, denominados pontos físicos. Os mais utilizados são a ebulição da água (100°C) e a fusão da água (0°C), ambos sob pressão de 1 atm. 40 3. É feita a marcação da altura, no momento em que a água estava em fusão, dando a esse ponto a altura h1 e um número, o T1. O momento da ebulição da água é marcado por outro ponto na escala, o h2 e por outro número, T2. O intervalo entre os dois pontos físicos (h2-h1) é dividido por (T1-T2) e resulta em partes iguais e unitárias. Cada unidade recebe o nome de grau da escala. Actividade Tente fazer: 1. Arranje uma garrafa de soro vazia e encha-a de água. Corte o tubo do conta-gotas de modo a ficar apenas com 20 cm. Aqueça a água em banho-maria num pequeno fogão. Espere alguns minutos e observe a dilatação da água. Também pode usar uma pequena lata vazia de leite em pó, de milo ou café com um orifício na parte superior, através do qual deve introduzir um tubo de esferográfica BIC. Feiche bem o orifício de modo que a água não se escape através dele. 2. Com ajuda de um termómetro meça a temperatura do gelo contido num copo de vidro, da água tirada da torneira, da água morna, da água quente e da água em ebulição. Registe os valores medidos numa tabela. 3. Determine experimentalmente a temperatura da mistura de duas quantidades de água, uma fria e outra quente. Meça primeiro as temperaturas iniciais das duas quantidades de água. Compare os valores Com a realização das actividades experimentais anteriores você poderá perceber melhor o funcionamento de um termómetro que usa como substãncia termométrica um líquido, assim como vai poder desenvolver as suas habilidades de medição de temperatura. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 41 Lição nº 4 Efeitos térmicos sobre corpos sólidos, líquidos e gases. Introdução Caro estudante nesta lição você vai estudar fenómenos térmicos que resultam da variação (aumento ou diminuição) da temperatura de um corpo. São, por exemplo, a dilatação térmica e as mudanças de fase. Tempo de estudo Você poderá precisar de 6 horas de estudo para esta lição incluíndo a resolução de tarefas e realização de experiências aqui recomendadas. Você poderá distribuir as seis horas da forma como lhe convier. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Explicar as razões da dilatção dos materiais quando aquecidos ou da sua contracção quando arrefecidos; Determinar a dilatação liner, superficial e volumétrica sofrida por um corpo graças ao aumento da temperatura; Determinar a dilação volumétrico dos líquidos que se deferencia dos sólidos por estes não terem forma própria; Explicar as mudanças de fase que podem ocorrer com materiais quando a estes for cedido ou retirado calor. 42 Terminologia Dilatação térmica, dilatação linear, superficial e volumétrica, recalescência, coeficiente de dilatação linear, superficial e volumétrica, dilatação real e aparente, coeficiente real de dilatação volumétrica, mudanças de fase, vaporização (evaporação, ebulição, calefação), fusão e solidificação, condensação e sublimação, estados físicos sólido, líquido e gasoso. É sem dúvida do seu conhecimento que um corpo quando aquecido pode aumentar as suas dimensões ou dimuir quando esfriado (p. ex. quando altura de uma coluna de mercúrio aumenta quando se mede a temperatura de uma pessoa febril), assim como uma dada substância pode passar de um estado físico para o outro (p.ex. quando o gelo derrete, passando do estado sólido para o líquido). Para além das dimensões uma variação de temperatura pode também alterar o valor de grandezas como a pressão de um gás, cor de um metal, a resistência eléctrica de um condutor de electricidade, etc. Note que, na construção de termómetros, todas estas grandezas são utilizadas como grandezas termométricas. A dilatação térmica permite, além da construção de termômetros, outras inúmeras aplicações, entre as quais se pode citar a lâmina bimetálica empregue em dispositivos de segurança contra incêndio e em chaves automáticas (relé termostático) que desligam um circuito eléctrico quando ocorre uma elevação indesejável da temperatura, assim como na rebitagem de chapas metálicas. Muitas vezes, porém, a dilatação térmica dos corpos pode causar danos. É o que ocorre, por exemplo, quando os trilhos de uma linha férria ficam deformados após uma grande Fig.7: Efeitos da dilatação sobre os trilhos de uma linha férria. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 43 elevação de temperatura. Nesse caso, as juntas de dilatação (pequenos espaços entre os trechos de um trilho) terão sido insuficientes. Nas linhas mais modernas, assim como nos trilhos dos metrôs das grandes cidades, já não se usam intervalos de litação, pois novas técnicas de engenharia permitem impedir que os efeitos dessa dilatação se manifestem. Uma delas é a fixação rígida dos trilhos no solo, utilizando- se dormentes de concreto. Na engenharia, esse fenômeno deve ser considerado na construção de algumas edificações, como por exemplo, na construção de pontes e viadutos. Essas construções costumam ser feitas em partes e, entre essas partes, existe uma pequena folga para que, nos dias quentes, ocorra a dilatação sem nenhuma resistência, pois do contrário, teríamos algum comprometimento da estrutura. Entende-se por dilatação térmica o fenómeno pelo qual o corpo sofre uma variação nas suas dimensões, por influência do calor que lhe é transmitido. Todos os corpos na natureza estão sujeitos a este fenômeno, uns mais outros menos. OBS.: Existem alguns materiais que em condições especiais fazem o contrário, ou seja, quando esquentam contraem e quando esfriam dilatam. É o caso da água quando está na pressão atmosférica e entre 0ºC e 4ºC. Para uma dada massa de água, a 4ºC ela apresenta um volume mínimo. Lembrando que a densidade é dada pela relação entre a massa e seu volume (d= m/v), concluímos que a 4ºC a água apresenta densidade máxima. Mas estes casos são excepções e, embora tenham também sua importância, não serão estudados aqui neste capítulo. Fig. 8: Esboço do comportamento anómalo da água aos 4 graus centígrados 44 Outros exemplos são: o de um fio de aço que apresenta a curiosa anormalidade de dilatação, pois quando a temperatura atinge cerca de 700 oC o fio experimenta uma contração para voltar a dilatar-se pouco depois. O fenómeno, reversível, denomina-se recalescência e o da borracha e da argila que se contraem quando a temperatura se eleva. De um modo geral, os sólidos se dilatam menos do que os líquidos e estes menos do que os gases. Por exemplo, uma barra de ferro com um metro de comprimento a 0 oC dilata-se apenas 1,2mm se a temperatura aumenta para 100 oC. Já pensou por que é que os materiais variam as suas dimensões com a variação da temperatura? Ésobejamente por você bem conhecido que os objectos que nos cercam, assim como nós mesmos, somos formados por pequenas partículas conhecidas como moléculas ou átomos. Quando aquecemos algum objecto ou alguma substância estamos aumentando a agitação de suas moléculas, e isso faz com que elas se afastem umas das outras, aumentando logicamente o espaço entre elas. Para uma molécula é mais fácil, quando esta está vibrando com mais intensidade, afastar-se das suas vizinhas do que aproximar-se delas. Isso acontece por causa da maneira como as forças moleculares agem no interior da matéria. Então,"... se o espaço entre elas aumenta, o volume final do corpo acaba aumentando também" Quando esfriamos uma substância ocorre exactamente o inverso. Diminuímos a agitação interna das mesmas o que faz com que o espaço entre as moléculas diminua, ocasionando uma diminuição do volume do corpo. Então,"... se o espaço entre as moléculas diminui, o volume final do corpo acaba diminuindo também" Existem três tipos de dilatação, a linear, a superficial e a volumétrica. Os três tipos de dilação podem ocorrer nos corpos sólidos, porém, como os líquidos e os gases não possuem forma própria, mas sim a do recipiente onde se encontram contidos, neles falamos apenas da dilatação volumétrica. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 45 • Dilatação linear, superficial e volumétricas dos sólidos Os sólidos que melhor se dilatam são os metais, principalmente o alumínio e o cobre. Temos um bom exemplo disso num vidro de conserva com a tampa metálica muito ajustada. Para abri-lo, basta mergulhar a tampa na água quente; como o metal se dilata mais que o vidro, a tampa logo fica frouxa. O aquecimento leva os sólidos a se dilatarem em todas as direcções; no entanto, às vezes, a dilatação predomina, ou é mais notória, numa só direcção – a dilatação diz-se linear. Quando duas direcções são predominantes, temos a dilatação superficial e, quando ela ocorre de igual modo em todas as direcções, considera-se a dilatação volumétrica. • Dilatação linear A dilatação linear, ocorre em corpos em que a medida do comprimento é a mais importante, como por exemplo, em cabos e vigas metálicas. Por esse motivo, corpos com esse formato, quando estão sujeitos a variações de temperatura sofrerão principalmente variações no seu comprimento. Tais variações dependem directamente de três factores: • Do comprimento inicial do objecto (L0); • Do material com que ele é feito (α); • Da variação de temperatura sofrida por ele (ΔT). Dos três factores citados, pode-se chegar a uma relação matemática que mostra como determinar a variação de comprimento sofrida devido a variações de temperatura. Consideremos uma barra de ferro de trilho de uma linha férrea. Suponha que ela tem um comprimento inicial L0 , à temperatura inicial t0 (figura abaixo). Aumentando a temperatura da barra para t, o seu comprimento passa a L. ΔL = L - L0 é a variação de comprimento da barra, isto é, a dilatação linear da barra, na variação de temperatura Δt = t- t0. Fig. 9: Barra de ferro de comprimento inicial Lo dilata e aumenta um comprimento ΔL. 46 As experiências mostram que: • ΔL é directamente proporcional ao comprimento inicial L0. • ΔL é directamente proporcional à variação de temperatura Δt. • ΔL depende do material que constitui a barra α. A partir dessas constatações podemos escrever: tLL Δ⋅⋅=Δ α0 Onde α é uma constante de proporcionalidade, característica do material que constitui a barra, denominada coeficiente de dilatação linear. Note que se ΔL = L - L0, então tLLL Δ⋅⋅=− α00 ; tLLL Δ⋅⋅+= α00 ou )1(0 tLL Δ⋅+= α O valor do coeficiente de dilatação linear pode ser calculado experimentalmente para cada tipo de material bastando para isso conhecer por medição L0, ΔL e Δt. Assim: tL L Δ⋅ Δ = 0 α Unidades Observe que ΔL e L0 têm unidade de comprimento, que simplifica. Assim resta apenas a unidade de Δt, isto é, da temperatura no denomenador. Portanto a unidade do coeficiente de dilatação linear é o inverso da unidade de temperatura. Conheça valores de coeficientes de dilatação linear de algumas substâncias: Substância Coeficiente de dilatação linear 10-5/oC Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 47 Aço 1,1 Alumínio 2,4 Bronze 1,8 Chumbo 2,9 Concreto 0,7-1,2 Cobre 1,7 Ferro 1,2 Latão 2,0 Ouro 1,4 Prata 1,9 Vidro comum 0,9 Vidro pirex 0,3 Exemplo Seja dado um fio de cobre com 6 metros de comprimento a uma temperatura de 10ºC. Determinar seu comprimento quando aquecido a 50ºC. Resolução: )1(0 tLL Δ⋅+= α ; ( )[ ];1 00 ttLL −+= α ( )[ ];1050101716 00106 CCCmL −⋅+= −− [ ];40101716 0106 CCmL ⋅⋅+= −− [ ];40101716 0106 CCmL ⋅⋅+= −− [ ] [ ];000680,0161068016 6 +=⋅+= − mmL mmmL 004,6004080,6000680,16 ≅=⋅= • Dilatação superficial e volumétrica A Dilatação Superficial refere-se ao aumento das dimensões da área do sólido dilatado, isto é, sua largura e seu comprimento. Tab. 1: Tabela de valores de coeficientes de dilatação de algumas substâncias. Fig. 10: A moeda deixa de passar entre os pregos depois de aquecida. 48 Uma experiência bem simples pode comprovar a dilatação superficial dos sólidos, como mostra a figura ao lado. Pregue sobre uma pequena tábua de madeira dois pregos distanciados de modo a que uma moeda de 5 meticais possa passar justamente entre eles. Segurando a moeda com uma pinça, aqueça-a com ajuda de uma vela, durante alguns minutos. Sem deixá-la esfriar tente de novo fazê-la passar entre os pregos. Descreva o que você observa. Tente explicar as causas da sua observação. Verifica-se, também experimentalmente, que o acréscimo na área de uma superfície que apresenta variações de temperatura é diretamente proporcional à sua área inicial So e à correspondente variação de temperatura Δt. A constante de proporcionalidade é o coeficiente de dilatação superficial β tal que teremos: tSS Δ⋅⋅=Δ β0 Note que αβ 2= Por sua vez a dilatação volumétrica refere-se ao aumento do volume do sólido, isto é, do seu comprimento, da sua altura e largura. O dispositivo usado para comprovar a dilatação volumétrica de um corpo é chamado de anel de Gravezande (figura 12). Fig. 12: A esfera aquecida já não passa pelo anel por ter aumentado seu volume. Fig. 11: Na dilatação superficial aumentam as duas dimensões linearess Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 49 O corpo sofre variação nas suas três dimensões: comprimento, largura e espessura de modo que: ΔV = V - V0, e Δt = t - t0, Assim tVVV Δ⋅⋅=− γ00 ; tVV Δ⋅⋅=Δ γ0 Por sua vez )1(0 tVV Δ⋅+= γ , onde γ é o coeficiente de dilatação volumétrica e é aproximadamente igual ao triplo do coeficiente de dilatação linear a , isto é: αγ 3= . Exemplo Um recipiente de vidro tem uma capacidade de 600cm3 a 15ºC. Sabendo- se que a vidro α= 27 . 10 -6 oC -1 determine a capacidade desse recipiente a 25ºC. Resolução: )1(0 tVV Δ⋅+⋅= γ .Considerando αγ 3= então: )31(0 tVV Δ⋅+⋅= α ( )[ ]CCCcmV 001063 152510.2731600 −⋅⋅+⋅= −− [ ]CCcmV 01063 1010.81600 ⋅⋅= −− ; ⋅= 3486,600 cmV R: A capacidade do recipiente a 25ºC é de 600,486 cm³. Fig. 13: Na dilatação volumétrica aumentam as duas dimensões lineares 50 Dilatação volumétrica nos líquidos e gases Como os líquidos não apresentam forma própria, para estes só tem significado o estudo de sua dilatação volumétrica. Você bem sabe que a forma dos líquidos como a dos gases é sempre a do recipiente onde eles se encontram contidos. Por isso, ao estudar a dilatação dos líquidos tem de se levar em conta a dilatação do recipiente. De maneira geral, os líquidos dilatam-se sempre mais do que os sólidosao serem igualmente aquecidos. No aquecimento de um líquido contido num recipiente, o líquido irá, ao dilatar-se juntamente com o recipiente, ocupar parte da dilatação sofrida pelo recipiente, além de mostrar uma dilatação própria, chamada dilatação aparente. A dilatação aparente é aquela diretamente observada e a dilatação real é aquela que o líquido sofre realmente. Consideremos um recipiente totalmente cheio de um líquido à temperatura inicial to. Aumentando a temperatura do conjunto (recipiente + líquido) até uma temperatura t, nota-se um extravasamento do líquido, pois este se dilata mais que o recipiente. A dilatação aparente do líquido é igual ao volume que foi extravasado. Fig. 14: Líquido aquecido dilata até extravasar-se no recipiente Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 51 A dilatação real do líquido é dada pela soma da dilatação aparente do líquido e da dilatação volumétrica sofrida pelo recipiente. recipapreal VVV Δ+Δ=Δ donde tVV apap Δ⋅=Δ γ0 … é a dilatação aparente do líquido Assim como também é válido escrever tVV realreal Δ⋅=Δ γ0 … Dilatação real do líquido O coeficiente de dilatação real do líquido é igual à soma do coeficiente de sua dilatação aparente com o coeficiente de dilatação do frasco que o contém. recipapreal γγγ += … Coeficiente real de dilatação volumétrica do líquido A dilatação dos gases, que é mais acentuada que a dos líquidos, pode ser comprovada por uma experiência bem simples. Num balão de vidro, com ar em seu interior, introduz-se um canudo dentro do qual há uma gota de óleo (figura abaixo). Segurando o balão de vidro como indicado na figura, o calor fornecido pelas mãos é suficiente para aumentar o volume de ar e deslocar a gota de óleo. Conheça alguns valores de coeficiente de dilatação volumétrica de líquidos e gases Fig. 15: Os gases dilatam facilmente, bastando para isso o calor transmitido pelas nossa mãos. 52 Substância Coeficiente de dilatação volumétrica 10-5/oC Alcool 100 Gases 3,66 Gasolina 11 Mercúrio 18,2 Mudanças de estado • Características das fases da matéria de uma substância: É do seu conhecimento que toda a matéria, dependendo das condições de temperatura e pressão, pode se apresentar em três estados: sólido, líquido e gasoso. No texto que se segue você pode rever as características físicas das substâncias nos estados: Sólido: Apresenta forma própria e volume bem definido, apresentam grande resistência à deformação e penetração. Nessa fase o grau de agitação das moléculas é baixo por isso o volume definido, e as moléculas tendem a ficar unidas. Líquido: Com o volume definido, mas a substância apresenta a forma do recipiente. Escoa com facilidade e não tem grande resistência a penetração. O grau de agitação das moléculas é mediano, isto é, não é tão agitado como no estado gasoso e nem tão baixo como no estado sólido, e também as moléculas não ficam nem unidas como no estado sólido e nem tão separadas como no estado gasoso. Gasoso: Não possui forma nem volume definido, e assim a sua forma depende do recipiente em que se encontra. O grau de agitação das moléculas nesse estado é grande e assim elas tendem a se separar. Tab. 2: Valores de coeficientes de dilatação volumétricas de algumas substâncias líquidas. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 53 • Calor e mudança de fase Por vezes, para além da dilatação, quando uma substância recebe ou cede calor e a sua temperatura aumenta ou diminui, pode sofrer uma mudança de estado. É o que acontece, por exemplo, quando uma pedra de gelo (sólido) é abandonada sobre a mesa, depois de algum tempo ele se apresenta em forma de água (líquido), ou quando uma gota de álcool é exposta ao ambiente e depois de algum tempo se evapora. Importa contudo salientar que durante o processo de mudança de fase, a temperatura da substância permanece constante, servindo o calor fornecido ou retirado para distruir ou consolidar as ligações entre as suas moléculas. Por isso o calor de mudança de estado é denominado calor latente. Mais detalhes sobre calor de mudança de estado serão abordados na unidade seguinte. A figura 16 ilustra os diferentes processos de mudança de fase que ocorrem nas substâncias, como já é do seu conhecimento. • Vamos rever o significado de cada um destes conceitos: Fusão é mudança de fase, do estado sólido para o líquido. Vaporização é a mudança de fase, do estado líquido para o gasoso. Existem três tipos de vaporização: a evaporação: as moléculas da superfície do líquido tornam-se gás a qualquer temperatura, depende da Fig. 16: Esquema representativo das mudanças de estado que podem ocorrer com as substâncias. 54 área de contato a ebulição: o líquido está na temperatura de ebulição e fica borbulhando, recebendo calor e tornando-se gás e a calefação: o líquido recebe uma grande quantidade de calor em período curto e se torna gás rapidamente, por exemplo quando gotas de água caiem sobre uma chapa bem quente, notamos que elas vaporizam rapidamente emitindo um ruído característico. Condensação é a mudança de estado gasoso para líquido (inverso da Vaporização). Solidificação é a mudança de estado líquido para o estado sólido (inverso da Fusão). Sublimação é a mudança de estado directa do estado sólido para o gasoso e Re-sublimação que é a mudança directa do estado gasoso para o sólido (inverso da Sublimação). Actividade Tente fazer: Faça um esboço do gráfico que representa a variação da temperatura de uma substância em função do calor absorvido pela mesma. Coloque no eixo vertical a temperatura e no horizontal a quantidade de calor absorvido. Apoio Dica: Indique para cada trexo do diagrama as fases de “sólido”, “sólido em fusão”, “líquido”, “líquido em ebulição” e “vapor”. Sumário Assunto Definições e Equações importantes Temperatura Propriedade que determina / mede quão um corpo está quente ou frio. Energia interna Energia que está de certa maneira "armazenada" nos corpos, resultante do Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 55 movimento ou da vibração dos seus átomos e moléculas. Calor É uma forma de energia em trânsito devido à diferença de temperaturas. Massa atômica É a massa de um átomo expressa em relação a 1/12 da massa do átomo de carbono 12. Massa específica/ densidade ρ = m/V (kg/m3). Massa molecular É a soma das massas atômicas de todos os átomos da molécula. Massa molar n m =μ (kg/kmol) ou (g/mol), Peso específico γ = P/V (N/m3) Volume específico v = V/m (m3/kg). Volume molar μμ Vv = (m3/kmol) ou (dm3/mol) A lei Zero da Termodinâmica Sempre que um corpo A estiver em equilíbrio térmico com o corpo B e B estiver em equilíbrio com um outro C, então A e C estarão em equiíbrio térmico entre si. Escalas termométricas Celcius, Kelvin e Farenheit )32( 9 5 −= FC tt KtT C 15,273+= ... temperatura absoluta Dilatação linear tLL Δ⋅⋅=Δ α0 56 Coeficiente de dilatação linear tL L Δ⋅ Δ = 0 α Dilatação supericial tSS Δ⋅⋅=Δ β0 Dilatação volumátrica tVV Δ⋅⋅=Δ γ0 Relação entre os coeficientes de dilatação linear, superficial e volumétrico αβ 2= αγ 3= Coeficiente de dilatação real e aparente recipapreal γγγ += Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 57 Exercícios Auto-avaliação Tente responder: 1. Como pode ser explicada a dilatação dos corpos ao serem aquecidos? 2. Que factores influenciam na dilatação que um corpo irá sofrer ao ser aquecido? 3. Pode-se afirmar que uma barra metálica, ao ser aquecida, sofre apenas dilatação linear? Justifique. 4. Explique por que a dilatação aparente de um líquido, aoser aquecido juntamente com o recipiente onde está contido, não fornece a dilatação verdadeira do líquido. 5. Como se explica o comportamento anómalo da água ao ser aquecida de 0 oC a 10 oC? Tente resolver: 1. Um fio metálico tem 100m de comprimento e coeficiente de dilatação linear igual a 1,7x10-5 ºC-1. A variação de comprimento desse fio, quando a temperatura varia 10ºC, é de (A) 17mm (B) 1,7m (C) 17m (D)17x10-3 mm (E) 17x10-6 mm 2. Uma telha de alumínio tem dimensões lineares de 20 cm x 500 cm e seu coeficiente de dilatação linear é igual a 2,2x10-5 ºC-1 . A telha, ao ser exposta ao sol durante o dia, experimenta uma variação de temperatura de 20 ºC . A dilatação superficial máxima da chapa, em cm2 , durante esse dia, será (A) 1,1 (B) 2,2 (C) 4,4 (D) 6,6 (E) 8,8 58 Auto-avaliação 3.Uma parede de concreto cujo coeficiente de dilatação linear é de 1,0 . 10-5 ºC-1, tem pela manhã, a 20º C, uma superfície inicial de 50 m². No meio da tarde, essa parede, exposta ao sol, atinge uma temperatura de 50 ºC. Devido à dilatação térmica, o valor do acréscimo de sua superfície, no meio da tarde, em cm², será A) 15 B) 30 C) 60 D) 50 E) 300 4.Um sólido homogêneo apresenta a 5º C um volume igual a 4,00 dm³. Aquecido até 505º C, seu volume aumenta 0,06 dm³. Qual o coeficiente de dilatação linear aproximado do material desse sólido? A) 3 x 10-5 ºC-1 B) 2 x 10-5 ºC-1 C) 1,5 x 10-5 ºC-1 D) 1 x 10-5 ºC-1 E) 0,5 x 10-5 ºC-1 5.A distância entre dois postes de uma rede de eletricidade formada por fios de alumínio é de 30 m. Sendo o coeficiente de dilatação linear do alumínio de 25 . 10-6 ºC-1, a variação no comprimento desses fios, entre um dia frio de 0 ºC e um dia quente de 36 ºC, é de A) 10 mm B) 15 mm C) 17 mm D) 23 mm E) 27 mm 6.Um trilho de aço de 20 m de comprimento sofre um acréscimo de temperatura de 20 ºC. Sendo 12 . 10-6 ºC-1 o coeficiente de dilatação linear do aço, o trilho sofrerá um acréscimo de comprimento, em m, de A) 48 . 10-4 B) 24 . 10-4 C) 20 . 10-4 D) 12 . 10-4 E) 6 . 10-4 7.Uma placa retangular mede 10 cm x 20 cm quando está a 0 ºC. O material da placa tem coeficiente de dilatação linear de 10-6 ºC-1. Quando a temperatura é de 20 ºC, a área da placa varia A) 8 . 10-3 cm² B)4 . 10-3 cm² C)4 . 10-6 cm² D)8 . 10-6 cm² E) 2 . 10-3 cm² 8.Uma telha de alumínio tem dimensões lineares de 20 cm x 500 cm e seu coeficiente de dilatação linear é igual a 2,2 . 10-5 ºC-1. A telha, ao ser exposta ao sol durante o dia, experimenta uma variação de temperatura de 20 ºC. A dilatação superficial máxima da chapa, em cm², durante esse dia, será A) 1,1 B) 2,2 C) 4,4 D) 6,6 E) 8,8 Feedback Procure confirmar sempre com cáclculos as respostas consideradas certas. 1.(A) 17mm; 2.(E) 8,8; 3.(E) 300; 4. (D) 1 x 10-5 ºC-1; 5. (E) 27 mm; 6.(A) 48 . 10-4; 7. (A) 8 . 10-3 cm²; 8. (E) 8,8 Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 59 Unidade 2 Gases Perfeitos Introdução Caro estudante depois da Unidade 1, introdutória ao estudo da Termodinâmica, você vai estudar o comportamento dos gases quando submetidos a temperaturas altas e pressões não muito baixas. Na unidade 2, constituída por 3 lições você vai discutir as leis que regulam o comportamento macroscópico dos gases, denominados gases ideais, nomeadamente as leis de Gay-Lussac e Boyle-Mariotte. Constituem conteúdos fulcrais desta Unidade a equação de estudo de estado do gás ideal e os isoprocessos. Tempo de estudo Você poderá necessitar de aproximadamente 8 horas para o estudo da Unidade incluindo a resolução dos problemas e realização das experiências recomendadas. . Ao completar esta unidade, você será capaz de: Objectivos Caracterizar macroscopicamente o modelo gás ideal; Aplicar as leis de Gay-Lussac e Boyle Mariotte na resolução de problemas; Explicar as experiências de que resultou a formulação das leis de Gay-Lussac e Boyle Mariotte. Descrever as características do gás ideal do ponto de vista macroscópico; Interpretar a equação do estado do gás ideal; 60 Resolver problemas aplicando a equação do estado do gás ideal. Diferenciar os três tipos de isoprocessos através das suas características; Resolver problemas aplicando as equações das leis de Boyle, Charles e Lussac Representar graficamente em P(V), P(T) e V(T) as respectivas funções. Terminologia Modelo gás ideal, gás perfeito, lei de Gay-Lussac, lei de Boyle-Mariotte, Pressão, volume, temperatura, modelo gás ideal, cosntante univerasl dos gases, número de moles, massa molar, Processo isobárico, processo isocórico, processo isotérmico. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 61 Lição nº 5 Modelo gás ideal. Lei de Gay- Lussac e Boile-Mariotte Introdução Caro estudante a 5ª Lição destina-se ao estudo de transformações termodinâmicas que podem ocorrer num gás, como passo inicial para explicação do comportamento dos gases quando submetidos à variação da pressão e temperatura. Tempo de estudo Você vai precisar 2 horas de estudo para esta lição incluíndo a resolução de tarefas e realização de experiências aqui recomendadas. . Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Caracterizar macroscopicamente o modelo gás ideal; De aplicar as leis de Gay-Lussac e Boyle Mariotte na resolução de problemas; Explicar as experiências de que resultou a formulação das leis de Gay-Lussac e Boyle Mariotte. Terminologia Modelo gás ideal, gás perfeito, lei de Gay-Lussac, lei de Boyle-Mariotte. 62 Modelo gás ideal ou gás perfeito Para facilitar o estudo da termodinâmica dos gases, consideramos inicialmente as transformações em um gás perfeito. Comecemos por clarificar o sentido deste conceito. O gás perfeito ou modelo gás ideal é assim designado por se tratar de um gás imaginário, hipotético, que não existe na realidade; um modelo físico-matemático de umas das teorias mais bem construídas pela mente humana (a Teoria Cinética dos Gases), cujas moléculas não têm volume nem forças de repulsão ou atracção. Gases reais como o Hidrogênio e o Hélio apresentam comportamento bem próximo do gás ideal. A experiência mostra que outros gases (ou misturas como o ar), para densidades muito baixas, pressões menores que 300 MPa e temperaturas usuais, oferecem também uma razoável aproximação e independentemente da sua composição química apresentam uma certa relação para com as variáveis termodinâmicas Temperatura, Volume e Pressão. Isto sugere a criação do conceito modelo gás ideal, um gás que teria o mesmo comportamento sob quaisquer condições. Equações básicas para o gás ideal • Lei de Gay-Lussac Seja dada uma massa m de um tal gás. Em estado de equilíbrio nós podemos medir a sua pressão p, a sua temperatura t e o seu volume V. Se a massa de gás for aquecida, mantida a pressão constante, o seu volume será directamente proporcional à temperatura do gás. Isto significa que se à uma dada temperatura t0, o volume do gás for V0, alterando-se a temperatura à pressão constante, para t, o volume toma um novo valor Vt que será dado pela expressão: )1(0 tVVt γ+= Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 63 onde γ é o coeficiente térmico de dilatação isobárica (pressão constante), cujo valor para o gás ideal é (1/273,15) 1/ºC. A relação entre t (ºC) e T (K) é t = T - 273,15. Substituindo este e o valor de γ na equação anterior, resulta em TVVt γ0= , onde T é a temperatura absoluta (K). Podemos então dizer que, no zero absoluto, o volume de um gás ideal é nulo. Se consideramos valores de dois pontos 1 e 2, 101 TVV γ= e 202 TVV γ= , fazendo a divisão entre 1 e 2 resuta: constT V T V == 2 2 1 1 Esta equação toma o nome de lei de Gay – Lussac (1778 - 1850). Procedimento experimental: O aquecimento do gás provoca o aumento da pressão do gás que empurra o êmbolo/ rolha, aumentando o volume do gás. • Lei de Boyle-Mariotte Se para uma dada massa de um gás ideal a temperatura for mantida constante, a pressão do gás será inversamente proporcional ao volume do gás. Isto significa que se comprimirmos um gás, mantendo contante a sua temperatura, a pressão aumenta, assim como diminui se o gás se expande. Fig. 17: Variação do volume do gás a pressão constante com o aumento de temperatura. 64 Por outras palavras, mantendo-se a temperatura constante, o volume que o gás ocupa varia com a variação da pressão, de tal modo que o produto da pressão pelo volume permaneça constante. Isto é constVpVp == 2211 - Esta equação toma o nome Lei de Boyle – Mariotte (1627-1691) Procedimento experimental: Pressionando lentamente o gás para não variar a temperatura, estes dois resultados experimentais podem ser resumidos numa única relação: const T pV = (para uma dada massa degás fixa) Fig. 18: Variação do volume a temperatura constante com o aumento da pressão. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 65 Actividade Tente fazer: Uma certa massa de gás tem o volume de 3 L a 30o C e pressão igual a 1 atm. Se o gás for aquecido a 60o C e o seu volume for reduzido para a metade, qual é a nova pressão? Exemplo 1) O cilindro da figura ao lado está fechado com êmbolo que pode deslizar sem atrito e está preenchido por uma certa quantidade de um gás que pode ser considerado como ideal. À temperatura de 30º C, a altura h na qual o êmbolo se encontra em equilíbrio é de 20 cm. Se, enquanto as demais características do sistema forem mantidas invariáveis, a temperatura subir para 60º C, o valor de h variará em aproximadamente: a) 5%; b) 10%; c) 20%; d) 50%; e) 100% Resolução: O volume do cilindro é dado pela expressão hAV ⋅= onde A é a área da base do cilindro. Como esta não se altera pode se deduzir que 2 2 1 1 T h T h = . Se a temperatura aumenta o dobro então a altura h também dobrar o que significa que o seu valor variará aproximadamente em 100%. 2) Um gás é mantido a pressão constante. Se a sua temperatura passa de 50º C para 100º C, qual é o factor de variação do volume? Resolução: De acordo com o enunciado 12 2TT = . Então 2 2 1 1 T V T V = ; 1 2 1 1 2T V T V = ; 2 1 2 = V V ou 12 2VV = . O factor de variação do volume é 2. 66 Feedback atm T T p 602 1 2 2 == Lição nº6 Gases perfeitos (continução). Equação de estado do gás ideal Introdução Caro estudante a sexta lição dá continuidade ao estudo do comportamento dos gases reais. Aqui você vai deduzir a partir das leis estudadas na aula anterior a equação que caracteriza o estado dos gases ideais. Tempo de estudo Você poderá necessitar de aproximadamente 2 horas para o estudo esta lição. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Descrever as características do gás ideal do ponto de vista macroscópico; Interpretar a equação do estado do gás ideal; Resolver problemas aplicando a equação do estado do gás ideal. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 67 Terminologia Pressão, volume, temperatura, modelo gás ideal, cosntante universal dos gases, número de moles, massa molar. Dedução da equação de estado do gás ideal Já vimos que o aumento da energia térmica, ou da temperatura, produz dilatação, ou seja, aumento do volume. No caso dos gases, grandes variações de volume podem ser conseguidas também com o aumento ou diminuição da pressão, o que já não ocorre assim nos líquidos e sólidos. Nesta lição vamos as propriedades dos gases e suas transformações em termos de temperatura, volume e pressão. Estas três grandezas físicas caracterizam o estado de um gás. Você já presenciou que, quando se enche uma bola, o ar atmosférico é comprimido dentro da bola e exerce uma resistência cada vez maior à tentativa de introdução de mais ar. Esta resistência está relacionada com a pressão do ar. Pressão é a força aplicada em unidade de área. Neste caso concreto do gás ela resulta das colisões das moléculas do gás nas paredes do recipiente onde se encontram. A Unidade de pressão é dada em Newtons por metro quadrado que pode ser representado pelas unidades Pascal (Pa), Atmosferas (atm), etc. Segundo Dimitrie Mendleev (dono da tabela periódica), tomemos em consideração como mais uma generalização, que o volume ocupado por um gás à uma pressão e temperatura dadas é proporcional a sua massa e que é todo o espaço disponível. Isto significa que numa metade de volume teremos metade da massa. Assim sendo, a constante m T pV ∝ . Como a massa caracteriza propriedades inerciais, no lugar desta vamos introduzir uma grandeza denominada ”quantidade de substancia” cuja unidade é o mole (cada mole contem igual nº de partículas que corresponde ao nº de Avogadro NA = 6.1023 moléculas/mol). 68 Reescrevendo a relação anterior tomando em conta o nº de moles (n) teremos n T pV ∝ ou nR T pV = onde R é uma constante de proporcionalidade, com o mesmo valor para todos gases, por isso “constante universal dos gases” R= 8,31 J/mol. Passando T para o segundo membro obtém-se nRTpV = , que é a equação de estado do gás ideal. Definição macroscópica do gás perfeito Todo o gás que obedece à esta relação sob quaisquer condições é denominado modelo gás ideal. Já vimos na lição anterior que o termo “modelo” significa que não se trata de um gás ideal no verdadeiro sentido da palavra, pois é apenas uma abstracção que facilita o estudo do comportamento dos gases reais, quando as suas densidades são suficientemente baixas, ou seja, à temperaturas elevadas e pressões baixas. A equação de estado do gás ideal pode também ser escrita na forma μ mTRpV = , tomando em conta que μ mn = , donde μ é a massa molar. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 69 Exemplo Num cilindro, estão contidos 100 litros de oxigénio à uma temperatura de 20 ºC e pressão de 15 atm. Com ajuda de um pistão o gás é pressionado de forma que o volume reduziu para 80 litros subindo à uma temperatura de 25 ºC. Considerando que o oxigénio se comporta como um gás ideal à estas condições, qual é agora a pressão do gás? Resolução: T pV T Vp = 0 00 ; VT TVp p 0 00= ; lK Klatmp 80.293 298.100.15 = atmp 19= variação do volume é 2. Resolva o exercício que se segue como forma de testar os seus conhecimentos. Auto-avaliação 1. Uma dada massa de um gás perfeito está a uma temperatura de 300K, ocupando um volume V e exercendo uma pressão p. Se o gás for aquecido passa a ocupar um volume 2V e exerce uma pressão1,5p. Qual será a sua temperatura? 2. 4,0 moles de oxigenio estão num balão de gás. Há um vazamento e escapam 8,0 ×1012 moléculas de oxigenio. Considerando que o número de Avogadro é 6,02×1023, qual será a ordem de grandeza do numero de moléculas que restam no balão? 3. Um balão de vidro indilatável contém 10g de oxigenio a 77ºC. Este balão poderá suportar, no máximo, uma pressão interna 3 vezes superior à que está submetida. Se a temperatura do gás for reduzida a 27ºC, que quantidade máxima de oxigenio poderá ser introduzida ainda nesse balão a essa temperatura? 70 Feedback 1: 900K 2: 1024 3: 25g Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 71 Lição nº 7 Isoprocessos Introdução Nesta lição, dedicar-nos-emos ao estudo das transformações termodinâmicas que podem ocorrer com os gases ideais,nomeadamente os processos isobárico, isotérmico e isovolumétrico. Você vai poder relacionar estas transformações com as leis de Boyle-Maiotte, Gay- Lussac e Charles estudadas nas aulas anteriores. Tempo de estudo Você poderá necessitar de aproximadamente 2 horas para o estudo esta lição. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Diferenciar os três tipos de isoprocessos através das suas características; Resolver problemas aplicando as equações das leis de Boyle, Charles e Lussac Representar graficamente em P(V), P(T) e V(T) as respectivas funções. Terminologia Processo isobárico, processo isocórico, processo isotérmico 72 O que são isoprocessos? Isoprocessos são processos termodinâmicos que ocorrem sem variação da massa do gás e mais um dos seus parâmetros termodinâmicos (Temperatura, Volume ou Pressão). A) Processo Isobárico (Pressão constante). Chama-se processo isobárico aquela transformação que ocorre à pressão constante. Os parâmetros variáveis são o Volume(V) e Temperatura(T). Quando se eleva a temperatura de um gás, a velocidade média das suas moléculas aumenta e, consequentemente, aumenta a intensidade das colisões com as paredes do recipiente, ocasionando o aumento da pressão interna. Para se manter a pressão constante, se a temperatura aumentar, devemos aumentar também o volume do recipiente. 2 2 1 1 T V T V = ...... Lei de Gay – Lussac teCons T V tan= Num diagrama cartesiano, a dependência entre o Volume e a Temperatura na transformação isobárica é reprasentada por uma recta que parte da origem. Conclusão: Para massas e pressões constantes os volumes ocupados pelo gás são directamente proporcionais às respectivas temperaturas absolutas. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 73 Exemplo 1.Qual é o volume em litros ocupado por uma mole de gás na temperatura de 0o C e sob a pressão de 1 atm? Resolução: O volume pode ser calculado a partir da equação dos gases: nRTpV = onde p nRTV = . Assim l atm KKmolatmlmoleV 4,22 1 273.0821,01 11 = ⋅⋅⋅⋅ = −− Note que 0o C=273K e que R vem em l.atm.mol/K porque p vem atm. 2. Uma certa massa de gás tem o volume de 3 L a 30o C e pressão igual a 1 atm. Se o gás for aquecido a 60o C e o seu volume for reduzido para a metade, qual é a nova pressão? Exemplo Resolução: Como a quantidade do gás é fixa, a pressão pode ser calculada com ajuda da equação T pV T Vp = 0 00 que fornece os valores iniciais e finais do volume e temperatura.Note que as temperaturas são absolutas: To=273+30= 303 K e T= 273+60= 333 K. Então VT TVp p 0 00= ; atm lK Klatmp 47,1 5,1303 33331 = ⋅ ⋅⋅ = 3. Uma amostra de 100 gramas de CO2 ocupa o volume de 55 L na pressão de 1 atm. a) Qual é a temperatura da amostra? b) Se o volume aumentar para 80 L, mantendo-se constante a temperatura, qual será a nova a pressão? Resolução: Conhecido o número de moles de CO2 as duas questões resolvem-se com ajuda da equação dos gases. Cálculo do número de moles de CO2. Sabendo que μ = 44g/mol, então mol gmol gmn 27,2 44 100 1 === −μ . a) nRTpV = ; K katmlmol latm nR pVT 295 /0821,027,2 551 = ⋅⋅ ⋅ == b) Como ConstpV = , calcular a nova pressão a partir de atm V Vp p 688,000 == 74 B) Processo Isocórico (Volume constante). Chama-se processo isocórico (isovolumétrico) aquela transformação que ocorre à volume constante. Os parâmetros variáveis são a Pressão(p) e Temperatura(T). 2 2 1 1 T p T p = - Esta equação é denominada Lei de Charles (1746-1823) teCons T p tan= Num diagrama cartesiano, a dependência entre o Volume e a Temperatura na transformação isobárica é reprasentada por uma recta que parte da ordenada. C) Processo Isotérmico (Temperatura constante). Chama-se processo isotérmico aquela transformação que ocorre à temperatura constante. Os parâmetros variáveis são Volume (V) e Pressão (p). Consideremos uma seringa de injeção sem a respectiva agulha à temperatura ambiente, com um certo volume V de ar e a presão p. Se o volume for triplicado a pressão reduzirá também três vezes. 1 2 2 1 V V p p = ou 2211 VpVp = ...... Lei de Boyl e Mariotte. teConsVp tan=⋅ Num diagrama cartesiano, a dependência entre o Volume e a Temperatura na transformação isobárica é reprasentada por Conclusão: Para massas e volumes constantes, as pressões são directamente proporcionais às respectivas temperaturas absolutas do gás. Conclusão: Para massas e temperaturas constantes, as pressões dos gases são inversamente proporcionais aos seus respectivos volumes. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 75 uma recta que parte da ordenada. Com o aumento da temperatura, o produto PV torna-se mais alto e a isoterma afasta-se dos eixos. Sumário Assunto Observações e Equações importantes Lei de Gay – Lussac const T V T V == 2 2 1 1 Lei de Boyle – Mariotte constVpVp == 2211 Equação de estado do gás ideal nRTpV = Em condições de densidades baixas, todos os gases obedecem a lei dos gases ideais Constante universal dos gases R= kNA= 8,314 J/molK Constante de Boltzmann k=1,381 x 10-23J/K Número de Avogadro NA=6 x 1023 Equação de estado de massa fixa do gás T pV T Vp = 0 00 Processo isobárico P = constante Processo isocórico V = constante Processo isotérmico T = Constante 76 Exercícios Auto-avaliação Tente resolver: 1. Uma bolha de ar de 20 cm3 de volume está no fundo de um lago, cuja profundidade é de 40 m e onde a temperatura é de 4o C. A bolha sobe até a superfície, que está a uma temperatura de 20o C. Admita que a temperatura da bolha seja a mesma que a da água que o circunda e encontre o seu volume pouco antes de atingir a superfície. 2. Calcule a) o número de moles e b) o número de moléculas N em 1 cm3 de certo gás a 0o C e a 1 atm. 3. A massa molecular do hidrogénio é 1,008 g/mol. Qual é a massa de um átomo de hidrogénio? 4. Uma garrafa de aço contém dióxido de carbono a 0o C e pressão de 12 atm. Achar a pressão do gás nela hermeticamente fechada, se a temperatura for elevada até 60o C. 5. O oxigénio em estado gasoso está contido num volume de 1,13 cm3 a 42o C sob a pressão de 106 kPa. Determine o número de moles de oxigénio no sistema; 6. Com uma certa quantidade de gás ideal realiza-se um processo cíclico 1-2-3, cuja dependência do volume com a temperatura está representada no gráfico da figura ao lado. Represente o mesmo processo no gráfico P(V) e P(T). 7. O estado inicial de uma certa quantidade de gás ideal, é caracterizado pelo ponto A no gráfico, P(V). A temperatura no ponto A é de 300K i. Identifique as transformações AB, BC e CA ii. Qual é a temperatura do gás nos pontos B e C? iii. Calcule o trabalho realizado em cada transformação. iv. Traduza o mesmo processo para um gráfico P(T). Indique claramente os pontos A, B e C e o sentido das transformações. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 77 Feedback Resultados: 1. V2= 500cm3 2. a) n= 4,4 10-5 moles; b) N= 2,65 1019 moléculas 3. m (H2O)= 0,17 10-23 g 4. P2= 14,6 atm 5. a) n= 1,9 10-3 mol 7. ii) Tc= 100K; iii) WBC= -16.102J; WAB= 2,739 KJ . 78 Unidade 3 Calorimetria e 1o Princípio Termodinâmico Introdução Na unidade 3 vais discutir uma das importantes leis da Termodinâmica e da Natureza. Esta unidade é constituída por 8 lições que se distribuem pelos seguintes temas: Quantidade de calor, calor especifico, capacitância calorífica de um corpo; calor de fusão e de vaporização, primeiro Princípio Termodinâmico e sua aplicação nos isoprocessos, intercâmbio térmico, trabalho e calor como formas de troca de energia, transmissão do calor, formulação do 1º PrincípioTermodinâmico, aplicações, cálculo do Trabalho nos isoprocessos. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente de um total de 30 horas para estudar esta Unidade. Ao completar esta unidade, você será capaz de: Objectivos Deferenciar os conceitos de calor e de temperatura; Explicar o significado do conceito calor específico; Determinar a grandeza “quantidade de calor (Q)”; Deduzir a equação de Richmman; Diferenciar entre capacitância calorífica e calor específico; Explicar o que é a capacitância calorífica ou capacidade térmica de um corpo; Determinar analiticamente e experimentalmente a capacidade térmica Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 79 de um corpo; Explicar o significado do calor latente de fusão e de vaporização; Determinar analiticamente o calor latente Diferenciar entre calor e temperatura; Reconhecer o calor como uma forma de energia em trânsito; Caracterizar o trabalho realizado pelo gás na Termodinâmica; Calcular o trabalho efectuado por uma massa de gás ou sobre ela Calcular o trabalho do gás numa expansão isobárica; Calcular o trabalho do gás num processo isocórico; Deduzir a expressão para o cálculo do trabalho do gás numa expansão isotérmica; Calcular o trabalho a partir do gráfico P(V); Formular e interpretar o Primeiro Princípio Termodinâmico; Deduzir a expressão do 1o Princípio Termodinâmico para os isoprocessos; Calcular o trabalho, a quantidade de calor e a variação da energia interna de um sistema através da expressão do 1o Princípio Termodinâmico; Determinar o calor específico a volume e pressão constantes; Interpretar o significado da relação entre os coeficientes caloríficos à volume e a a pressão constante; Interpretar a equação de Mayer; Aplicar os conhecimentos adquiridos nesta lição na resolução de problemas diveros; Caracterizar uma transformação adiabática e de dar exemplos práticos em que esta transformação ocorre; Explicar o sentido físico e calcular a grandeza “entalpia”; Representar graficamente o processo adiabático em p(V). Calcular o trabalho realizado pelo gás numa transformação adiabática; Explicar o processo de transmissão de calor por condução e dar 80 exemplos; Explicar o processo de transmissão de calor por convecção e dar exemplos; Explicar o processo de transmissão de calor por radiação e dar exemplos; Realizar experiências simples que demonstrem as diferentes formas de transmissão de calor. Terminologia Calor, temperatura, calor específico, calor cedido, calor recebido, capacidade calorífica, capacidade térmica, calor de fusão, calor de vaporização, calor latente de fusão e de vaporização, sistema, vizinhança, sistema aberto, sistema fechado, sistema isolado, trabalho, energia, calor, energia em trânsito, grandeza de processo, grandeza de estado, processo isobárico, processo isotérmico e processo isocórico, área sob o gráfico, Primeiro princípio termodinâmico, perpétum mobile, variação da energia interna, transformação isobárica, isocórica e isotérmica, calor específico a volume constante, calor específico a pressão constante, capacidade calorífica a volume constante, capacidade calorífica a pressão constante, equação de Mayer, Expansão adiabática, constante adiabática, equações de Poisson, sistema isolado, entalpia, Transmissão de calor, condução, convecção, radiação. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 81 Lição nº 8 Quantidade de calor e Calor específico Introdução Caro estudante, nesta lição vamos discutir transformações energéticas que ocorrem quando dois ou mais corpos com diferenças de temperetura estão em contacto entre si e aprofundar os conceitos de calor específico e capacidade calorífica. Vamos de igual modo aprender e exercitar o cálculo da quantidade de calor. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 2 horas para estudar esta lição. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Deferenciar os conceitos de calor e de temperatura; Explicar o significado do conceito calor específico; Determinar a grandeza “quantidade de calor (Q)”; Deduzir a equação de Richmman; Terminologia Calor, temperature, calor específico, calor específico, calor cedido, calor recebido. Já vimos que quando dois sistemas à temperaturas diferentes são colocados em contacto, depois de algum tempo adquirem a mesma 82 temperatura. A temperatura final de ambos sistemas situa-se entre as duas temperaturas iniciais. Durante este processo há transferência de calor. Calor é “aquilo” que é transferido entre um sistema e a sua vizinhança, como resultado da diferença de temperaturas. Esse “aquilo” é energia. Por outras palavras, podemos dizer que calor é uma forma de energia em trânsito. Nenhum corpo possui calor, ou mais calor que outro. Você já reparou sem dúvida que algumas substâncias aquecem mais rapidamente que outras. Por exemplo, é muito mais fácil aquecer um litro de ar do que um litro de água, assim como já deve ter percebido que é muito mais fácil aquecer um pedaço de metal do que um de madeira, ambos com a mesma massa. Com isso podemos tirar a seguinte conclusão: os materiais esfriam e aquecem de maneira diferente uns dos outros, uns mais lentamente e outros mais rapidamente. A grandeza física que serve para medir e para comparar esta propriedade dos materiais é denominada calor específico. Unidades do calor específico: J/kg.K ou cal/g.ºC No fundo, o calor específico dá-nos uma idéia da capacidade da substância em receber ou perder calor. Quanto maior for seu calor específico, mais lentamente ocorrerão as trocas de calor. Por outro lado, quanto menor o calor específico de uma substância, mais facilmente ela perderá ou receberá calor. Vamos tomar como exemplo a água e o ferro. cágua = 1 cal/g°C cferro = 0,11 cal/g°C O calor específico de uma substância é definido como sendo a quantidade de calor necessária para fazer 1 grama de determinada substância elevar em 1 grau Celsius a sua temperatura. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 83 Podemos notar que o calor específico da água é quase 10 vezes maior que o calor específico do ferro. Isso significa que se tivermos a mesma quantidade de ferro e de água, à mesma temperatura, eu precisaria de uma quantidade de calor 10 vezes maior para a água para causar uma mesma mudança de temperatura causada no ferro por outra quantidade de calor. Conheça alguns valores de calor específico de diferentes substâncias medidos à pressão constante de 1 atmosfera. substância calor específico (cal/goC) substância calor específico (cal/goC) água 1,0 latão 0,092 álcool 0,6 madeira 0,42 alumínio 0,22 mercúrio 0,033 ar 0,24 nitrogênio 0,25 carbono 0,12 ouro 0,032 chumbo 0,031 oxigênio 0,22 cobre 0,091 prata 0,056 ferro 0,11 rochas 0,21 gelo 0,5 vidro 0,16 hélio 1,25 zinco 0,093 hidrogênio 3,4 diamante 0,113 cloro 0,113 Cálculo da quantidade de calor Basicamente podemos dizer que existem duas equações muito usadas na calorimetria. Uma é usada para determinar a quantidade de calor recebida ou perdida por corpos quando estes mudam sua temperatura, e outra usada para determinar a quantidade de calor perdida ou recebida por corpos quando estes estão mudando de estado físico. Éimportante notar que quando um corpo muda de estado físico sua temperatura permanece constante. Tab. 3: Valores de calor específico de algumas substâncias sólidas, líquidas, e gasosas. 84 Agora vamos apenas analisar o caso em que não ocorre mudança de estado. Vamos calcular a quantidade de calor perdida ou recebida por um corpo quando estemuda sua temperatura. A grandeza física usada para exprimir o calor é denominada Quantidade de calor (Q). A quantidade de calor infenitesimal dQ necessária para que a temperatura de uma massa m de uma dada substância passe de t para t+dt é: mcdtdQ = , onde c é o calor específico à temperatura t. Para uma variação de temperatura finita de t1 até t2, teremos ∫= 2 1 t t mcdtQ ; tmcQ Δ= onde Q ... quantidade de calor perdida ou recebida pelo corpo (em calorias) m ... massa do corpo (em gramas) c ... calor específico da substância (em cal/g°C) Δt ... variação da temperatura (tf - ti) (em graus Celsius) A partir da expressão para a quantidade de calor pode-se concluir que o calor específico da substância é: tm Qc Δ = Conclusão: A energia necessária é proporcional a variação da temperatura e à massa do corpo. Quantidade de calor (Q) é a quantidade de energia necessária fornecer ou retirar de um corpo de massa (m), para que a sua temperatura varie em (Δt). Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 85 Exemplo Consideremos duas massas m1 e m2 à temperaturas t1 e t2. Depois de misturar as duas massas ganharam uma temperatura de equilíbrio tf. Resolução: Segundo o Princípio de Conservação de Energia o estado energético inicial é igual ao afinal. Isto é: ftcmcmtcmtcm )( 2211222111 +=+ Resolvendo em ordem à temperatura final teremos: 2211 222111 cmcm tcmtcmt f + + = A temperatura final é a temperatura da mistura. Seja: 21 mm = e 21 cc = mc ttmc t f 2 )( 21 += ; 2 21 ttt f + = Esta expressão toma o nome de Equação de Richmann. Transformemos a expressão ftcmcmtcmtcm )( 2211222111 +=+ , passando os termos semelhantes para o mesmo membro, ff tcmtcmtcmtcm 2211222111 +=+ ; 2222211111 tcmtcmtcmtcm ff −=− ; )()( 222111 ttcmttcm ff −=− ; 0)()( 222111 =−+− ttcmttcm ff ( ) ;021 =−+ QQ ;21 QQ = ; ∑ = 0iQ Seja Q1 a quantidade de calor cedida e Q2 a quantidade de calor recebida. Então recced QQ = 86 Exemplo 1. 75 gramas de um bloco de cobre foram retirados de um forno e introduzidos imediatamente num copo de vidro de 300 gramas, contendo 200 gramas de água. A temperatura da água subiu de 12 ºC para 27 ºC. Qual era a temperatura do forno? Resolução: )()()( aguaQvidroQcobreQ recrecced += tcmtcmtcm aavvCuCu Δ+Δ=Δ tcmcmtcm aavvCuCu Δ+=Δ )( Sendo if ttt −=Δ então: ))(()( vafaavvfCuCuCu ttcmcmttcm −+=− ; CuCu fCuCuvafaavv Cu cm tcmttcmcm t +−+ = ))(( ; Cgcalg CgcalgCCCgcalgCgcalgt o oooooo Cu /091,075 27/091,075)1227)(/1200/16,0300( ⋅ ⋅⋅+−⋅+⋅ = Cgcalg CCgcalgCCgcalgCgcalgt o ooooo Cu /091,075 27/091,07515)/1200/16,0300( ⋅ ⋅⋅+⋅+⋅ = Resposta: A temperatura do cobre é CtCu º530= 2. Qual a quantidade de calor que devemos retirar de 500 gramas de água, cujo calor específico é 1 cal/g·°C, para que sua temperatura passe de 80 °C para 15 °C? Resolução: A quantidade de calor é calculada por tmcQ Δ= . Portanto: ( )CCCgcalgQ ooo 8015/1500 −⋅⋅= ; ( )CCgcalgQ oo 65/1500 −⋅⋅= ; calQ 32500−= Obs.: O sinal negativo significa que o corpo cedeu energia na forma de calor. Conclusão: A soma das duas quantidades de calor é igual a zero ou o calor cedido é igual ao calor recebido. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 87 Actividade Tente Resolver: 1. Que quantidade de calor é necessária para elevar de 200C para 700C a temperatura de 30kg de água? 2. Uma chaleira de cobre pesando 300g foi aquecida de 200C para 1000C. Qual foi a quantidade de calor necessária? 3. Uma chaleira de cobre pesando 600g contém 1400g de água a 200C. Quantas calorias são necessárias para aquecer a panela com a água a 1000C? 4. Sua mãe aquece 1200g de água numa panela de alumínio que pesa 800g. Qual é a quantidade de calor necessária para aquecê-los de 180C para 900C? Feedback 1. Q= 1,5. 106cal 2. Q= 2,22 Kcal? 3. Q=116,430 Kcal 4. Q= 98,784 Kcal 88 Lição nº 9 Capacidade calorífica ou Capacidade térmica de um corpo. Introdução Caro estudante, na presente lição você vai aprender o significado, assim como a determinar as grandezas capacidade térmica e calor específico. Você poderá também realizar pequenas experiências para determinar experimentalmente o calor específico de uma substãncia. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 2 horas para estudar esta lição. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Diferenciar entre capacidade calorífica e calor específico; Explicar o que é a capacidade calorífica ou capacidade térmica de um corpo; Determinar analiticamente e experimentalmente a capacidade térmica de um corpo; Explicar o significado do calor latente de fusão e de vaporização; Determinar analiticamente o calor latente Terminologia Capacidade calorífica, capacidade térmica, calor específico, calor de fusão, calor de vaporização, calor latente de fusão e de vaporização. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 89 Capacidade calorífica ou capacidade térmica de um corpo Consideremos um sólido qualquer que recebe uma quantidade de calor Q, que provoca uma variação na sua temperatura Δt. Fornecendo a ele uma quantidade de calor 2Q, sua temperatura varia 2Δt. Assim, observamos experimentalmente que a quantidade de calor trocada por ele é diretamente proporcional à sua variação de temperatura. Então, definimos: t QC Δ Δ = ... Capacidade térmica Sendo tm Qc Δ Δ = então conclui-se que: mcC = ou seja m Cc = Unidades: A unidade de medida usual para capacidade térmica de um corpo é a caloria por grau Celsius [ ] C calC º 1 = e, no Sistema Internacional, o joule por kelvin [ ] K JC 1= . A capacidade calorífica ou capacidade térmica é o quociente entre a quantidade de calor ΔQ fornecida e o correspondente acréscimo de temperatura. Conclusão: O calor específico é a capacidade térmica de uma substância por unidade de massa. 90 Exemplo Um corpo de massa 250 g recebe 5 000 calorias de uma fonte e sua temperatura aumenta de 10 °C para 92,5 °C. Determine: a) o calor específico da substância; b) a capacidade térmica do corpo. Resolução 1. O calor específico pode ser calculado pela equação fundamental da calorimetria: tm Qc Δ = ; ( ) CgcalCg cal CCg calc oooo /24,05,82250 5000 105,92250 5000 = ⋅ = −⋅ = b) A capacidade térmica pode ser calculada por C = m · c. Então: C = m · c = 250g · 0,24cal/g oC; C = 60 cal/°C Calor de fusão e calor de vaporização Como já foi referenciado na unidade anterior, quando se fornece calor à uma amostra de gelo à 0 ºC, a temperatura do gelo não se altera. Porém o gelo se funde. O mesmo acontece nas outras mudanças de estado. O calor cedido é usado para se vencerem as forças intermoleculares de atracção mutua. Qualquer mudança de fase de uma substância pura ocorre à temperatura constante (para uma dada pressão). A energia térmica necessária para fundir uma certa massa de uma substância sem alteração da temperatura é proporcional à massa da substância. Matemáticamente: mLQ ff ⋅= onde Lf é uma constante denominada calor latente de fusão da substância à uma dada pressão, e m a massa da substância. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 91 Quando a mudança de fase é de líquido à vapor, temos mLQ vv ⋅= , onde Lv é calor latente de vaporização. Substância Lf Lv Água 333.5 KJ/Kg 2.26 MJ/Kg À uma pressão p = 1 atm Exemplo 1. Uma quantidade de 200 gramas de água líquida a 100 °C, à pressão de 1 atmosfera, transformou-se em vapor de água durante a ebulição. Calcule a quantidade de calor recebidapela água, sendo o calor latente de vaporização da água 540 cal/g. Resolução: A quantidade de calor trocada, durante uma mudança de estado, é calculada por mLQ vv ⋅= , portanto: calggcalQv 108000200/540 =⋅= 2. Qual é a quantidade de calor que devemos retirar de 150 g de água líquida a 0 °C para que ela se transforme, à pressão normal, em 150 g de gelo a 0 °C? Dado calor latente de solidificação -80 cal/g. Resolução: A quantidade de calor trocada, durante a mudança de estado, é calculada por mLQ ff ⋅= , portanto: calggcalQ f 12000150/80 −=⋅−= Obs: o sinal negativo significa que, durante a mudança de estado, o corpo cedeu energia na forma de calor. Tab. 3. Calor de fusão e de vaporização à pressão de 1 atm. 92 Actividade Tente Resolver: 2. O alumínio tem calor específico igual a 0,20 cal/g.ºC e a água líquida 1,0 cal/g.ºC. Um corpo de alumínio de massa 10g e temperatura de 80 º C é colocado em 10 g de água a temperatura de 20 ºC. Considerando que só há trocas de calor entre o alumínio e a água, determine a temperatura final de equilíbrio. 3. Um corpo de massa 200g a 50 º C e feito de um material desconhecido é mergulhado em 50g de água líquida a 90 ºC. O equilíbrio térmico se estabelece a 60 ºC. Sendo 1 cal/g.ºC o calor específico da água e admitindo só haver trocas de calor entre o corpo e a água, determine o calor específico do material desconhecido. 4. Misturam-se m1= 40g de óleo na temperatura 50 ºC com m2= 60g de óleo na temperatura 10 ºC. Qual a temperatura de equilíbrio no caso de somente haver troca entre as duas massas de óleo ? c oleo = 0,8 cal/g.ºC 5. Num calorímetro de capacidade térmica 2 cal/ ºC a 5 ºC são colocados 100g de água a 30º C. Qual a temperatura de equilíbrio térmico ? 6. Um pequeno cilindro de alumínio de 50g é colocado em uma estufa. Num certo instante tira-se o cilindro da estufa e, rapidamente, joga-se dentro de uma garrafa térmica que contém 33g de água. Observa-se que a temperatura dentro da garrafa eleva-se de 19º C para 20º C. Sendo 1 cal/ º C a capacidade térmica da garrafa, determine a temperatura do cilindro no momento em que foi retirado da estufa. (Dado cAl =0,22 cal/g.º C ) Feedback 1. Tf= 30ºC 2. c= 0,75 cal/gºC. 3. Teq.= 26ºC 4. Teq.= 29,5ºC 5. Tal= 23,1ºC Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 93 Lição nº 10 1º Princípio Termodinâmico. Trabalho e Calor como formas de troca de energia Introdução Caro estudante, esta é uma lição introdutória ao estudo do 1º Princípio Termodinâmico em que se estabelece a ligação entre os conceitos trabalho, calor e energia. Com base nos conhecimentos que você já possui sobre o trabalho na Mecânica, vai deduzir a expressão para o cálculo do trabalho na Termodinâmica. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 2 horas para estudar esta lição. Caro esudante ao terminarr esta lição, você será capaz de: Objectivos Diferenciar entre calor e temperatura; Reconhecer o calor como uma forma de energia em trânsito; Caracterizar o trabalho realizado pelo gás na Termodinâmica; Calcular o trabalho efectuado por uma massa de gás ou sobre ela. Terminologia Sistema, vizinhança, sistema aberto, sistema fechado, sistema isolado, trabalho, energia, calor, energia em trânsito, grandeza de processo, grandeza de estado. 94 Para melhor caracterizarmos as mudanças e trocas de energia, vamos antes de mais definir os seguintes conceitos: • sistema: é o objecto do estudo (meio de reação, uma quantidade de um corpo puro, um ser vivo, etc.) • seu meio externo: é o resto do universo (que poderá ser limitado ao meio ambiente próximo) • fronteira entre o sistema e o meio externo: suas propriedades irão determinar quais trocas podem existir entre o sistema e o meio externo: • sistema fechado: a fronteira não permite troca de matéria • sistema aberto: trocas de matéria são possíveis entre sistema e meio externo. Pode ser, por exemplo, um ser vivo (sistema) que se alimenta no seu meio externo. • sistema isolado: nenhuma troca de matéria ou energia entre sistema e meio externa. Caro estudante, para uma melhor inserção nos propósitos da 9ª lição vamos, inicialmente, recordar algumas ideias simplificadas sobre os conceitos de trabalho e energia, já adqueridas da Mecânica. Na Mecânica, o trabalho foi caracterizado como o produto da força aplicada pelo deslocamento sofrido na sua direção. Por exemplo, deslocar um objecto num campo de gravidade necessita energia. Precisa-se fornecer trabalho para levantar um vaso. Exemplo: Se você levantou um vaso de peso igual a 10 N por uma altura de 2 metros, terá executado um trabalho de 10 N x 2 m= 20 J. Por sua vez a Energia foi definida como a capacidade de produzir trabalho. Vamos imaginar como se de moeda de troca para o trabalho se tratasse. No exemplo anterior, para produzir os 20 J de trabalho, o seu organismo gastou 20 J de energia. Naturalmente, que a energia acumulada no seu Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 95 organismo é muito maior. Mas, desse valor acumulado, 20 J foram usados/transformados no mencionado trabalho. Assim, podemos dizer que a execução de um certo trabalho sempre implica uma variação da energia. Portanto, um sistema que possui uma energia elevada pode executar uma grande quantidade de trabalho sobre a sua vizinhança. Mas a energia pode também permitir produzir calor. Veja o seguinte exemplo: Exemplo • Uma lâmpada aquece um dado corpo que esteja nas suas proximidades; • Uma bebida à temperatura ambiente, depois de deixada numa geleira, esfria dando calor ao seu ambiente. A energia da bebida então diminuiu; • Esfregando uma mão sobre a outra ambas as mão aquecem; • Um gás que move um êmbolo de um seringa esfria. A partir destes exemplos pode-se concluir que existem dois caminhos através dos quais se pode provocar a variação da energia interna de um sistema, nomeadamente: • Realizando um trabalho sobre o sistema ou este sobre a vizinhança, • Transferindo calor de um sistema para outro com temperaturas diferentes ou com a vizinhança. Por outro lado, a experiência mostra que efectuando-se trabalho sobre o sistema é possível fazer elevar a sua temperatura. Este resultado foi demonstrado por James Joule, na sua famosa experiência, transformando a energia potencial em trabalho efectuado sobre uma quantidade de água, através do qual foi possível elevar a temperatura da água em 1 grau centígrado. O movimento dos pesos 96 transmite uma rotação do misturador o qual transfere energia mecânica para as moléculas em forma de energia cinética. Esta energia transmitida é transformada em energia térmica. No S.I de unidades significava que 4,184 J de trabalho eram necessários para elevar em 1 ºC a temperatura de 1 grama de água. Portanto, 1 Cal de energia térmica = 4,184 J de energia mecânica. Esta igualdade é conhecida como “o equivalente mecânico do calor”. Nós vimos que o calor é a energia que verte dos objectos quentes para os objectos frios (ou entre um sistema e a sua vizinhança) devido a uma diferença de temperatura. O sentido em que se dá a transferência de energia é sempre do sistema que está a temperatura mais alta para o sistema que está a menos temperatura. Na linguagem corrente é costume dizer “está calor” ou “estou com calor” o que pode levar-nos a pensar erradamente, em calor como qualquer coisa que os corpos possuem. Analogamente, o trabalho mecânico não é algo que um sistema contém em quantidade definida. Tanto o trabalho como o calor implicam sempre uma transferência de energia. Calor é energia em trânsito no decurso de uma transformação O calor fornecido a um sistema é considerado positivo enquanto que o calor queo sistema fornece a outro sistema ou vizinhança é considerado negativo. Trabalho mecânico na Termodinâmica. Você estudou na Mecânica que o trabalho é a energia transferida entre sistemas ou entre o sistema e a vizinhança quando uma força aplicada sobre o sistema provoca um deslocamento. Conclusão: As grandezas Q e W não são características do estado de um dado sistema, mas sim dos processos termodinâmicos pelos quais o sistema passa de um estado de equilíbrio para outro quando interage com a vizinhança. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 97 Matematicamente o trabalho infinitesimal de uma força F v que provoca um deslocamento também infinitesimal Sd v obtém-se pelo produto escalar dos dois vectores é SdFdW vv ⋅= . Na Termodinâmica o trabalho é determinado com base na variação do volume e corresponde a variação da energia interna do sistema. Consideremos a seguinte experiência: Se considerarmos uma pequena variação dS como deslocamento do êmbolo de área A, podemos escrever para o trabalho infinitesimal: dVpdSApdSFdW ⋅=⋅⋅=⋅= . O trabalho total do gás será: ∫= 2 1 . V V dVpW Sendo dV a variação do volume experimentada pelo gás. Analogamente, à quantidade de calor, o trabalho de expansão, realizado pelo gás é considerado positivo enquanto o trabalho numa compreensão, realizado sobre o gás é negativo. Na transformação quase-estática experimentada por um gás contido dentro de êmbolo como ilustra a figura ao lado, pode representar-se graficamente num diagrama p(V). Neste diagrama a “área infinitesimal dA é igual ao produto pdV. Por isso a área debaixo da curva que Fig. 19: O gás exerce sobre o émbulo uma dada pressão deslocando uma distância ds Fig 20: Representação gráfica do trabalho p.dV 98 representa a transformação no diagrama p(V) é igual ao valor absoluto do trabalho realizado. ∫ == 2 1 . V V ÁreadVpW Mas quando o sistema passa do ponto 1 para o ponto 2 podem seguir vários percursos. Existem vários processos pelos quais um sistema pode ser levado de um estado inicial para um outro final. Na figura acima o sistema pode ser levado a) de i até A sob pressão constante e depois até f a volume constante. b) O sistema é levado de i até B a volume constante e depois até f a pressão constante. c) O sistema é levado directamente de i até f a temperatura constante. Como as áreas sob os gráficos são diferentes podemos concluir que os trabalhos realizados em cada um dos caminhos também são diferentes. bca AAA >> o que significa que bca WWW >> Conclusão: Na termodinâmica o trabalho realizado por um sistema depende não só dos estados inicial e final do sistema, mas também dos estados intermédios, isto é, do caminho seguido pelo sistema durante os processos ocorridos. Fig. 21: O processo pode ser levado do estado inicial ao estado final através de diferentes caminhos. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 99 Grandezas como trabalho e calor que dependem do percurso em que a transformação ocorre são denominadas grandezas de processo. As grandezas como volume, pressão, temperatura, entalpia, que não dependem do percurso, mas sim exclusivamente dos estados inicial e final da transformação são denominadas grandezas de estado. Exemplo Calcule o trabalho por mole realizado por um gás ideal que se expande isotermicamente à Temperatura T constante, do volume V1 até V2. Resolução: T= constante; V RTp = 1 2ln1 2 1 2 1 2 1 V VRTdV V RTdV V RTpdVW V V V V V V ==== ∫∫∫ Actividade Tente Resolver: O volume de 5 moles de um gás perfeiro é elevado isotermicamente de 1 a 20 litros a 0ºC. Determine: a) quantos Joules de trabalho foram realizados. b) o calor fornecido Feedback Resultado W= 3,14.104 J Q= 3,4.104 J 100 Lição nº 11 Trabalho nos Isoprocessos Introdução Nesta lição você vai aplicar os conhecimentos adquiridos na lição anterior sobre trabalho e snergia na Termodinâmica, no cálculo do trabalho nos diferentes casos de transformação quase-estática. Você encontra no conjunto de exercícios de aplicação várias tarefas que lhe permitem treinar o cálculo do trabalho. Tempo de estudo Você precisa para esta lição cerca de 2 horas de estudo, incluíndo a resolução de problemas. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Calcular o trabalho do gás numa expansão isobárica; Calcular o trabalho do gás num processo isocórico; Deduzir a expressão para o cálculo do trabalho do gás numa expansão isotérmica; Calcular o trabalho a partir do gráfico P(V); Terminologia Processo isobárico, processo isotérmico e processo isocórico, área sob o gráfico, Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 101 1) Processo isobárico (Pressão constante) Tratando-se de uma transformação que ocorre a pressão constante então p pode sair fora do integral ∫ ⋅= 2 1 V V dVpW , ∫ Δ⋅== 2 1 V V VpdVpW VpW Δ= ... Trabalho do gás na expansão isobárica Conclusão: O trabalho realizado é numericamente igual à área sob o gráfico (A= p.ΔV=W). Exemplo Três litros de um gás ideal, sob pressão de duas atmosferas são aquecidos de modo que se expandem a pressão constante até atingir o volume de 5 litros. Qual é o trabalho realizado pelo gás? Resolução: Tratando-se de uma transformação isobárica (p= const.), o trabalho realizado é calculado pela expressão VpW Δ⋅= . Conversão das unidades: 1litro= 10-3m3 e 1atm= 101,3 x 103 N/m2 Então )103105(/103,1012 333323 mmmNVpW −− ×−××⋅=Δ⋅= , JW 2,405= 2) Processo isotérmico (Temperatura constante) Nesta transformação tanto p como V são variáveis. Por isso, temos que substituir p pela sua expressão a partir da equação de estado do gás ideal, que é nRTpV = na expressão do trabalho. 102 ∫= f i V V pdVW ... onde p nao é constante. ∫ ⋅= f i V V dV V nRTW ; ∫ ⋅= f i V V dV V nRTW 1 ; ( ) i f ifif V V nRTVVnRTVVnRTW ln)ln(lnln =−⋅=−= i f V V nRTW ln= ... Trabalho de um gás numa expansão isotérmica. Exemplo Calcule o trabalho realizado por uma mole de gás ideal que se expande isotermicamente a temperatura de 290 K de um volume de 0,2 m3 a 1m3. R= 8,31,31 j/mol.K Resolução: O trabalho é dado pela expressão i f V V nRTW ln= ; 3 3 1 2,0ln290/31,81 m mKKmolJmolW ⋅⋅⋅⋅= ; 2,0ln9,2409 ⋅= JW Processo isocórico (V = const.) Se o volume é constante, então ΔV= 0, o que significa que o gás não realiza trabalho, ou seja, o trabalho é nulo. Conclusões: Quando ΔV> 0 resulta que W> 0. A massa de gás realiza trabalho. Há dilatação do gás. Quando ΔV< 0 resulta que W< 0. As forças externas realizam trabalho sobre o gás. Há compressão do gás. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 103 Actividade Tente Resolver: 1. Um gás ideal é comprimido isotermicamente, realizando o agente compressor um trabalho de 36 J. Qual é a quantidade de calor em calorias que sai do gás durante o processo de compressão? 2. Calcule o trabalho realizado numa compressão isotérmica de 30 litros de um gás ideal a 1,0 atm, para um volume de 3,0 litros. 3. Uma amostra de gás se expande de 1,0 a 4,0 m3, enquanto a sua pessão diminui de 40 para 10 Pa. Quanto trabalho é realizado pelo gás, de acordo com cada um dos três processos mostrados no gráfico p-V a baixo? Feedback 1. Q= 8,6 cal. 2. W= -7,0 kJ 3. WA= -120 J; WB= 75 J; WC= -30 J 104 Lição nº12 Formulação do 1o Princípio Termodinâmico Introdução Caro estudante, o tema desta lição constitui uma das temáticas mais importantes no estudo da Termodinâmica. Falar do 1º Princípio Termodinâmico é falar da leide conservação da energia, num sentido mais amplo. Você vai poder se familiarizar com algumas formulações históricas do 1º Princípio. Tempo de estudo A duração do estudo desta lição é de aproximadamente 1 hora, incluindo a reslução de problemas aqui apresentados. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Formular e interpretar o Primeiro Princípio Termodinâmico; Deduzir a expressão do 1o Princípio Termodinâmico para os isoprocessos; Calcular o trabalho, a quantidade de calor e a variação da energia interna de um sistema através da expressão do 1o Princípio Termodinâmico. Terminologia Primeiro princípio termodinâmico, perpétum mobile, variação da energia interna, transformação isobárica, isocórica e isotérmica. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 105 O 1º Princípio termodinâmico está relacionado com o Princípio de Conservação da Energia Total, e foi formulado pela primeira vez por Robert Mayer (1814 -1878) nos seguintes termos: Em outras palavras, o 1º Princípio termodinâmico é formulado do seguinte modo: Outras formulações do 1º Princípio termodinâmico: • “Em todo processo natural, a energia do universo se conserva.” • “É impossível construir uma máquina que gere energia do nada.” Considerando que a energia de um sistema termodinâmico é descrita através da grandeza de estado “energia interna (U)”, pode se concluir do 1º Princípio Termodinâmico que a variação da energia interna ΔU de um sistema só pode ter lugar se ao sistema for fornecido ou retirado calor (Q) ou se o sistema realizar trabalho (W ), ou ser realizado trabalho sobre o sistema. A expressão matemática do 1º Princípio Termodinâmico na sua forma diferencial é: dWdQdU −= A energia não pode ser criada nem destruída, ela pode apenas passar de uma forma para a outra. A construção de uma máquina que realize trabalho periodicamente (perpétum mobile/ máquina perpétua de 1ª espécie) sem que para tal lhe seja fornecido energia de uma fonte externa é impossível. 106 Donde • dU é a variação infinitesimal da energia interna; • dQ é quantidade infinitesimal/ elementar de calor e • dW é trabalho infinitesimal/ elementar do gás. Na forma geral teremos WQU −=Δ Exprimindo as duas expressões em função da quantidade de calor teremos: dWdUdQ += na forma diferencial e WUQ +Δ= na forma geral. Aplicações em Isoprocessos 1) Processo isobárico (p= const.) 0≠dQ e 0≠dW dWdQdU −= ⇒ pdVdUdWdUdQ +=+= 2) Processo isocórico (V= const.) 0=dV ⇒ 0=dW Conclusão: A quantidade de calor fornecida ao sistema serve em parte para aumentar a sua energia interna e em parte para realizar trabalho. Conclusão: Numa transformação isobárica, a quantidade de calor transmitida ao sistema, consome-se em parte na realização de trabalho e na variação da energia interna. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 107 dWdQdU −= ; dQdU = 3) Processo isotérmico (T= const.) 0=dU ; 0≠dW 0=−= dWdQdU ; dWdQ = Actividade Tente Resolver: 1. Ao aquecer 3,0 litros de um gás ideal inicialmente a 27ºC, ele expande-se à pressão constante de 2,0 atm. Qual o trabalho realizado pelo gás quando a sua temperatura se altera 27ºC para 227ºC? 2. Determine a variação da energia interna de um sistema em cada uma das seguintes situações: a) o sistema absorve 500 cal e ao mesmo tempo realiza um trabalho de 400 J; b) o sistema absorve 300 cal e ao mesmo tempo é realizado sobre ele um trabalho de 420 J: c) retiram-se 1220 cal do gás a volume constante. Apresentra as respostas em quilojoules. Feedback 1. W= 4.102 J 2. a) ΔU =1,69 kJ; b) ΔU= 1,68 kJ e c) ΔU= -5,02 kJ Conclusão: Numa transformação isotérmica a quantidade de calor recebida pelo sistema é integralmente consumida na realização de trabalho. Conclusão: Numa transformação isocórica a quantidade de calor transmitida ao sistema é integralmente consumida no aumento da sua energia interna. 108 Lição nº 13 Calor específico (cv) a volume e (cp) a pressão constantes. Equação de Mayer. Introdução Depois de termos definido o conceito “calor específico” nas lições anteriores, vamos nesta lição falar de calor específico a volume e pressão constante. Para esta lição você poderá precisar de uma hora de estudo. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 2 horas para estudar esta lição. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Determinar o calor específico a volume e pressão constantes; Interpretar o significado da relação entre os coeficientes caloríficos à volume e a pressão constante; Interpretar a equação de Mayer; Aplicar os conhecimentos adquiridos nesta lição na resolução de problemas diveros. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 109 Terminologia Calor específico a volume constante, calor específico a pressão constante, capacidade calorífica a volume constante, capacidade calorífica a pressão constante, equação de Mayer. Recordemos que mcdTdQ = ... quantidade infinitesimal de calor, donde mdT dQc = é o calor específico. E como já dissemos que quando o gás é aquecido, à volume constante nao há realização de trabalho (dW = 0 ), todo o calor fornecido ao sistema contribui para a variação da sua energia interna. Seja (dQ)V = dU o calor à volume constante. Então VV V dT dU mdT dQ m c ⎥⎦ ⎤ ⎢⎣ ⎡=⎥⎦ ⎤ ⎢⎣ ⎡= 11 … calor especifico à volume constante. Considerando que m C c VV = …onde CV é a capacidade calorífica à V = const, teremos para a capacidade calorífica V V dT dUC ⎥⎦ ⎤ ⎢⎣ ⎡= . Por outro lado, vimos que quando o gás é aquecido à pressão constante, o gás expande-se, efectuando ele próprio um certo trabalho, de modo que, apenas uma parte do calor fornecido é Conclusão: Para o aumento da energia interna de um sistema, de um lado e realização de trabalho de outro lado (à p= const.), é necessario fornecer maior quantidade de calor do que é fornecido (à v= const.), apenas para o aumento da energia interna. Vp cc > 110 empregue para o aumento da energia interna e, por consequência, o aumento da sua temperatura. Seja ( ) ( )pp dWdUdQ += calor à pressão constante. Então ⎥ ⎥ ⎦ ⎤ ⎢ ⎢ ⎣ ⎡ ⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛+=⎥⎦ ⎤ ⎢⎣ ⎡= pp p dT dW dT dU mdT dQ m c 11 . Como dT dUCV = , substituindo na expressão anterior, teremos ⎥ ⎥ ⎦ ⎤ ⎢ ⎢ ⎣ ⎡ ⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛+= p Vp dT dWC m c 1 . Por sua vez m C c pp = , então p Vp dT dWCC ⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛+= capacidade calorífica à p = const. O trabalho realizado à pressão constante é ( ) pdVdW p = . Diferenciemos ambos os membros da equação de estado do gás ideal TmRpV *= , onde μ RR =* , obtemos dTmRVdppdV *=+ . Se para o processo isobárico (p = const.), Vdp = 0, então, ( ) dTmRpdVdW p *== . Assim, ⎥ ⎦ ⎤ ⎢ ⎣ ⎡ += dT dTmRCC Vp * ; ( )*mRCC Vp += Dividindo ambos os membros por m, teremos *Rcc Vp += ou *Rcc Vp =− ... Equação de Mayer. Conclusão: A diferença entre as capacidades caloríficas Cp (p = const.) e CV (V = const.) de um gás ideal é igual a *mR . Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 111 Note que aqui R* não é a constante universal dos gases. Actividade Tente Resolver: 1. Aumenta-se a temperatura de 5,00 kg de N2 de 10,0o C para 130,0o C. Se isto for feito a pressão constante, determine a) o aumento de energia interna ΔU e b) o trabalho W realizado pelo gás sobre o exterior. Para o N2 gasoso, cv= 0,177 cal/g.oC e cp= 0,28 cal/g oC. 2. Para o azoto gasoso cv= 740 J/kg.K. Determine a sua capacidade térmica mássica a pressão constante. A massa molecular do azoto gasoso é 28,0 kg/kmol. Feedback Reultados:1. a) ΔU= 443 kJ; b) W= 180 kJ 2. cp= 1,04 kL/kg.K 112 Lição nº14 Expansão Adiabática e Noção de Entalpia Introdução Caro estudante, nesta lição você vai se debruçar com mais uma transformação quase-estática em que todos os parâmetros (p,V e T) variam em simultâneo. Você vai deparar nesta lição com dedução de fórmulas como, por exemplo, da relação entre os calores específicos a volume e a pressão constantes, das equações de Poisson e da constante adiabática. Isso poderá exigir por si uma atenção particular no estudo desses assuntos. Um outro conceito termodinâmico que você irá discutir nesta lição á a entalpia. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 2 horas para estudar esta lição incluíndo a resolução de algumas tarefas. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Caracterizar uma transformação adiabática; dar exemplos práticos em que essa transformação ocorre; Explicar o sentido físico e calcular a grandeza “entalpia”; Representar graficamente o processo adiabático em p(V). Calcular o trabalho realizado pelo gás numa transformação adiabática. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 113 Terminologia Expansão adiabática, constante adiabática, equações de Poisson, sistema isolado, entalpia Um processo em que não há trocas térmicas entre o sistema e o seu exterior é denominado processo adiabático. Numa expansão adiabática de um gás ideal, o gás se expande lentamente contra um êmbolo móvel, efectuando trabalho sobre ele. Como o gás está isolado da sua vizinhança de modo que não haja troca de calor com esta, o trabalho realizado é igual a diminuição da energia interna do gás e a temperatura do sistema diminui. Na transformação adiabática os três parâmetros termodinâmicos (p, V e T), variam em simultâneo, de modo que, a equação do estado do gás ideal nRTpV = já não é suficiente para determinar a curva pV. Para isso é preciso conjugar à equação do estado do gás ideal a 1ª lei da Termodinâmica: pdVdUdQ += Assim 0=+= pdVdUdQ , pois não há trocas de calor com a vizinhança. Isto é, 0=+ pdVdU . Fig. 22: Expansão adiabáticas entre duas temperaturas T1 e T2. 114 Considerando que V V dT dU m c ⎥⎦ ⎤ ⎢⎣ ⎡= 1 , dU pode ser substituído pela expressão dTmcdU V= então: 0=+ pdVdTmcV . Por sua vez VV mcC = . Então 0=+ pdVdTCV ou pdVdTCV −= . Diferenciando a equação de estado do gás nRTpV = , obtemos nRdTVdppdV =+ . Agora multipliquemos ambos os membros por CV. Assim: nRdTCVdpCpdVC VVV =+ . Substituindo no segundo membro dTCV por pdV− , ficamos com nRpdVVdpCpdVC VV −=+ . Vamos passar o segundo membro para o primeiro e igualar a expressão à zero: ( ) 0=++ VdpCpdVnRC VV . Da equação de Mayer podemos concluir que pV CnRC =+ . Então: 0=+ VdpCpdVC Vp . Dividindo cada termo por pVCV ⋅ obtemos 0=+ p dp V dV C C V p ou 0=+ p dp V dVγ , onde V p C C =γ ... é constante adiabática para os gases num intervalo de temperaturas elevadas. Integrando a expressão: ∫ =+ 0p dp V dVγ , Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 115 obtém-se como resultado constpV =+ lnlnγ ou seja constpV =γln , o que equivale simplesmente a constpV =γ . Podemos eliminar p na expressão constpV =γ através da equação de estado do gás ideal V nRTp = e tomando em conta que nR é uma constante. Assim teremos constTV =+− γ1 ou constTV =−1γ . constpV =γ e constTV =−1γ chamam-se equações de Poisson. Cálculo do Trabalho numa expansão adiabática: Sendo constpV =γ , então γV constp = ou γ−= Vconstp . Assim ∫= 2 1 V V pdVW , ∫ −= 2 1 . V V dVVconstW γ ; γγγ γγγ − − = − − = +− = −−+− 11 . 1 . 1122 1 1 1 2 1 2 1 VpVpVVconstVconstW V V Mas como numa expansão a pressão final é menor que a inicial, o resultado será negativo. Como é o gás que realiza trabalho, vamos inverter a ordem dos termos, então teremos W > 0. Assim 1 2211 − − = γ VpVpW . E como nRTpV = ; ( 111 nRTVp = e 222 nRTVp = ) Então ( ) 1 21 − − = γ TTnRW ... Trabalho numa expansão adiabática. Conclusão: Esta expressão dá-nos a relação entre a pressão e o volume na transformação adiabática γ γ 2211 VpVp = 116 Exemplo Uma certa quantidade de ar expande-se adiabaticamente de uma pressão inicial de 2 atm e volume de 2 litros, na temperatura ambiente 20 ºC até o dobro do volume. Quais são os valores finais a) da pressão e b) da temperatura? Para o ar, 4,1=γ . Sejam p1V1 ... pressão e volume iniciais e p2V2 ... pressão e volume finais. Dados: 4,1 293 2 1 1 1 1 = = = = γ KT lV atmp Resolução: a) γγ 2211 VpVp = ; γ ⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ = 2 1 12 V V pp ; 4.14,1 2 2 1.2 4 2.2 ⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛=⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛= atm l latmp ; atmp 758.02 = b) 122 1 11 −− = γγ VTVT ; 14.11 2 1 12 2 1293 −− ⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛=⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ = K V V TT γ ; CKKT º51222 2 1293 4.0 2 −==⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛= Noção de Entalpia Entalpia é uma função de estado (grandeza de estado) cuja variação é igual a quantidade de calor obtida pelo sistema no processo isobárico. Sabemos que no processo isobárico pdVdW = onde constp = . Esta equação não se altera se escrevermos ( )pVddW = ... pois constp = . Substituindo na equação do 1º Princípio Termodinâmico na forma difencial dWdQdU −= , temos ( )pVddQdU −= ou ( )pVddUdQ += . Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 117 Pondo d em evidência tem-se ( )pVUddQ += , donde dHdQ = . A grandeza ( )pdVUddH += ou na forma geral, pVUH += chama-se entalpia. Significado físico da entalpia: sendo a soma da energia interna com o produto pV, podemos interpretar este último como o trabalho realizado para "criar espaço" para a massa gasosa ocupar o volume V sob pressão p. Ou seja, pode ser vista como a "energia total" da massa de gás no ambiente. Na forma geral a igualdade dHdQ = tem a forma: 12 HHHQ −=Δ= Isto significa que, num processo sob pressão constante, o calor trocado é igual à variação da entalpia. ( )pdVUddH += ; ( ) VdppdVdUpVddUpdVUddH ++=+=+= )( . Substituindo dWdQdU −= (primeira lei) na expressão anterior resulta VdppdVdWdQdH ++−= e considerando a igualdade já vista pdVdW = , temos a simplificação VdpdQdH += . 118 Auto-avaliação 1. 5 mol de néon gasoso a 2 atm e a 27ºC são comprimidas adiabaticamente para um terço do volume inicial. Determine a pressão final e o trabalho realizado sobre o gás. � 2. Um gás ideal expande-se adiabaticamente até um volume triplo do seu volume original. Ao fazê-lo, o gás realiza um trabalho de 720J. a) Quanto calor sai do gás? b) Qual é a variação da energia interna do gás? c) A temperatura aumenta ou diminui? 3. A pressao de 1 mol de hélio à CNTP diminui adiabaticamente até 0,4 atm. calcule o volume final, a temperatura e o trabalho realizado. Resultados: 1. 2. a) Não sai calor nenhum do gás, já que a definição de processo adiabático é sem trocas de calor. b) JU 720−=Δ c) A temperatura diminui pois TncU vΔ=Δ 3. JWKTdmV ff 0,20;4,189;8,38 3 === Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 119 Lição nº 15 Formas de Transmição de Calor Introdução Caro estudante, esta lição destina-se a revisão de conceitos que lhe são já familiares. Trata-se das três formas de transmissão de calor, nomeadamente a condução, a convecção e a radiação. Você terá oportunudade de realizar experiências simples que permitem demosntrar estas formas de propagação do calor. Tempo de estudo Você deverá despender 2 horas no estudo desta lição incluindo a realização das actividades experimentais aquisugeridas Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Explicar o processo de transmissão de calor por condução e dar exemplos; Explicar o processo de transmissão de calor por convecção e dar exemplos; Explicar o processo de transmissão de calor por radiação e dar exemplos; Realizar experiências simples que demonstrem as diferentes formas de transmissão de calor. Terminologia Transmissão de calor, condução, convecção, radiação 120 Você já viu que para ocorrer a troca de calor (energia) entre dois corpos é necessário que exista uma diferença de temperatura entre eles. Corpos com a mesma temperatura não trocam calor(energia) entre si. Vamos resumidamente rever o que acontece: • Todos os corpos possuem energia interna. • Se existir uma diferença de temperatura entre dois corpos parte desta energia interna irá passar de um para o outro (esta energia passando de um corpo para o outro chama-se calor). • Um corpo irá perder energia para o outro até que ambos fiquem na mesma temperatura (equilíbrio térmico). • Sempre o corpo de maior temperatura perde energia para o de menor temperatura. • Quando a temperatura de equilíbrio é atingida, o fluxo de calor pára. Mas como é que o calor, ou a energia, passa de um corpo para o outro ? A transmissão do calor de um corpo para outro pode se verificar através de três processos diferentes: condução, convecção e irradiação. Transmissão por condução A transmissão por condução é o processo de "distribuição" ou troca de calor que acontece entre os sólidos. Quando uma molécula começa a vibrar com mais intensidade, ela pode "passar" parte desta vibração para as moléculas que estão à sua volta. Digamos que ela transfere parte da sua energia diretamente para as moléculas vizinhas. Logicamente, fica mais fácil este fenômeno acontecer quando as moléculas estão próximas umas das outras (como no caso dos sólidos). Veja que aqui uma molécula conduziu a energia para a outra sem que nenhuma delas mudasse de lugar dentro do corpo. Na Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 121 transmissão por condução não há transporte de matéria, mas apenas de energia em forma de calor. Exemplo Quando se coloca uma colherinha numa chávena com chá quente, sentimos que a parte da colherinha não emersa no líquido, depois de algum tempo também está quente. Actividade Tente Fazer: Faça um furo próximo à borda superior de uma lata de coca-cola de tal forma que o um pedaço de ferro ou arame grosso passe pelo furo (Veja a figura ao lado). Pingue algumas gotas de vela sobre o fio, com espaçamentos aproximadamente iguais e espere alguns segundos para que a parafina (vela) endureça sobre a superfície do fio. Acenda a vela e aqueça a extremidade do arame. Descreva o que você observa depois de alguns instantes. Tente explicar o fenómeno. Da experiência que você acaba de realizar você poderá formular a seguinte conclusão: Os materiais sólidos que melhor conduzem o calor por condução são os corpos metálicos. 122 Transmissão por Convecção A transmissão por convecção é o processo de "distribuição" ou troca de calor que ocorre entre os líquidos ou gases. Neste caso, o calor é transportado de um lugar para o outro através do movimento de quantidades de matéria. A movimentação das diferentes partes do fluido ocorre pela diferença de densidade que surge em virtude do seu aquecimento ou resfriamento. A água que está na parte de baixo de uma panela no fogo, por exemplo, não transfere sua energia para as moléculas que estão na parte de cima da panela por condução. Mesmo por que neste caso as moléculas nem estão tão juntas assim, o que dificulta a condução. O que acontece é que partes do líquido se movimentam dentro do recipiente (a parte mais quente sobe e a mais fria desce) fazendo com que a energia dentro da panela seja distribuída. Este fenómeno é muito comum também nos gases. Exemplo • Nos radiadores de automóveis, a água aquecida pelo motor, sendo menos densa sobe, e a água mais fria da parte superior desce. • Quando um ambiente é resfriado, esse resfriamento é feito pela parte superior, porque o fluido frio torna-se mais denso e tende a descer. Por isso, em geral o aparelho de ar- condicionado é colocado na parte superior e os aquecedores na parte inferior. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 123 Actividade Tente Fazer: Com ajuda de uma palhinha de coca-cola coloque um pouco de leite fresco no fundo de um compo de vidro com água. Depois aqueça com uma vela a água e o leite no copo. Aguarde alguns instantes, enquanto o fundo do copo se aquece e descreva o que você observa. No lugar do leite também pode usar graus de permandanato de potássio quando disponível. Transmissão por Radiação A transmissão por radiação efetua-se através das ondas eletromagnéticas denominadas ondas caloríficas ou calor radiante, predominando os raios infravermelhos. Neste caso, não há necessidade de meios materiais para que a energia passe de uma região para a outra, como é o caso da condução e da convecção. Ela pode ocorrer no vácuo. Nós já vimos que ondas transportam energia, e o calor é uma forma de energia. Exemplo • A energia do Sol que chega até nós é transportada por ondas electromagnéticas; • Quando nos encontramos próximos de uma fogueira ou de lâmpada incandescente recebemos por parte destas o calor que elas irradiam sem, no entanto, ser necessário estar-se em contacto com as mesmas. 124 Sumário Assunto Observações e Equações importantes Calor É uma forma de energia em trânsito, que é transferido de um sistema para outro ou para o ambiente, como resultado da diferença de temperaturas. Calor específico É a quantidade de calor necessária para fazer 1 grama de determinada substância elevar em 1 grau Celsius a sua temperatura. tm Qc Δ = Quantidade de Calor Quantidade de calor (Q) é a quantidade de energia necessária fornecer ou retirar de um corpo de massa (m), para que a sua temperatura varie em (Δt). tmcQ Δ= A soma das duas quantidades de calor é igual a zero ou o calor cedido é igual ao calor recebido. recced QQ = Capacidade calorífica É o quociente entre a quantidade de calor ΔQ fornecida e o correspondente acréscimo de temperatura. t QC Δ Δ = ; mcC = Calor de fusão É a energia térmica necessária para fundir uma certa massa de uma substância sem alteração da temperatura. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 125 mLQ ff ⋅= Calor de vaporização É a quantidade de calor necessária para vaporizar uma certa massa de uma substância sem alteração da temperatura. mLQ vv ⋅= Trabalho de um gás ∫= 2 1 . V V dVpW No processo isobárico: VpW Δ⋅= ; No processo isotérmico: i f V V nRTW ln= ; No processo adiabáico: 1 2211 − − = γ VpVpW ou ( ) 1 21 − − = γ TTnRW 1º Princípio Termodinâmico A quantidade de calor fornecida ao sistema é igual à soma em parte para aumentar a sua energia interna e em parte para realizar trabalho. WUQ +Δ= . Na forma diferencial: dWdUdQ += Capacidade calorífica a volume constante V V dT dQC ⎥⎦ ⎤ ⎢⎣ ⎡= ou V V dT dUC ⎥⎦ ⎤ ⎢⎣ ⎡= Capacidade calorífica a pressão constante p p dT dQC ⎥⎦ ⎤ ⎢⎣ ⎡= ou p p dT dUC ⎥⎦ ⎤ ⎢⎣ ⎡= Relação entre Cv e Cp ( )*mRCC Vp += Equação de Mayer *Rcc Vp =− 126 Processo adiabático Um processo em que não há trocas térmicas entre o sistema e o seu exterior. 0=Q Equações de Poisson constpV =γ e constTV =−1γ onde V p C C =γ é a constante adiabática. Entalpia Entalpia é uma função de estado cuja variação é igual a quantidade de calor obtidapelo sistema no processo isobárico. pVUH += ou VdpdQdH += Condução É o processo de "distribuição" ou transmissão de calor que acontece entre os sólidos graças a agitação das moléculas. Convecção É o processo de "distribuição" ou troca de calor que ocorre entre os líquidos ou gases através do transporte de matéria. C:\WINDOWS\hinhem.scr A transmissão por radiação efectua-se através das ondas eletromagnéticas denominadas ondas caloríficas ou calor radiante, predominando os raios infravermelhos sem necessidade de matéria. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 127 Exercícios Auto-avaliação 1. Um calorímetro contém 70g de água a 10º C. Derramam-se nele 50g de água a 50º C e, após algum tempo, a temperatura de equilíbrio é 20º C. Determine a capacidade térmica do calorímetro. 2. O calor específico do gelo é 0,5 cal/g.º C, o calor latente de fusão do gelo é 80 cal/g e o calor específico da água líquida é 1 cal/g.º C. Calcule a quantidade de calor necessária para transformar 200 g de gelo a -30º C em água líquida a 50º C. 3. Temos 25g de gelo a - 32º C. determine a quantidade de calor que o sistema deve receber para que, no final, se tenha água líquida a 28º C. Dados: calor específico do gelo = 0,5 cal/g.º C, calor latente de fusão do gelo = 80 cal/g; calor específico da água 1cal/g.º C) 4. Em água em ebulição a 100º C é colocado um fragmento metálico de 500g de massa a 200º C. Vaporizam-se 20g de água e a temperatura de equilíbrio é 100º C. sendo o calor latente de vaporização da água 540 cal/g, determine o calor específico do metal. 5. Coloca-se numa cuba contendo água em ebulição sob pressão normal uma esfera de alumínio de massa m a temperatura de 150º C. A esfera termina em equilíbrio térmico com a água a 100º C e verifica-se a formação de 10g de vapor d'água. sabendo-se que o calor específico do alumínio é 0,2 cal/g.º C e que o calor latente de vaporização da água é 537 cal/g, qual a massa da esfera ? 128 Feedback 1. C= 80 cal/ºC 2. Q= -29 kcal 3. Q= 3,1 kcal 4. c= 0,216 cal/gºC. Trata-se de alumínio. 5. m= 537 g. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 129 Unidade 4 Teoria Cinético-molecular Introdução Caro estudante, nas duas unidades anteriores nós analizamos fenómenos, grandezas e leis que regulam o comportamento de um gás, tomando-o como um sistema macroscópico. Definimos o modeo gás ideal partindo de resultados experimentais, ou seja medindo directamente as grandezas paramétricas pressão, temperatura e volume. Nesta unidade, vamos falar e definir o modelo gás ideal do ponto de vista microscópico e relacionar a temperatura e pressão com o comportamento do elevado número de partículas (moléculas ou átomos) que constituem uma amostra de gás. Tempo de estudo Você deverá despender 20 horas no estudo desta lição incluindo a realização das actividades experimentais aqui sugeridas Ao completar esta unidade, você será capaz de: Objectivos Resumir os espaços históricos que levaram a descoberta da teoria cinético molecular; Caracterizar do ponto vista mocroscópico o modelo gás ideal; Explicar o que são forças de interacção intermolecular. Determinar a enrgia cinética média das moléculas; Deduzir a expressão para a pressão do ponto de vista da teroria cinético molucar; Deduzir a expressão para a temperatura do ponto de vista da teroria cinético molucar; Demosntrar a relação existente entre a temperatura e a teoria cinético molecular; 130 Determinar a temperatura de um gás ideal conhecida a energia cinética média das moléculas Interpretar o gráfico de Maxwell sobre a distribuição das velocidades das moléculas; Determinar as velocidades média, quadrática média e mais provável das moléculas Definir e determinar a energia interna como função da temperatura; Interpretar o sentido de graus de liberdade. Terminologia Modelo gás ideal, forças internas, forças de interacção intermolecular, movimento livre e desordenado, volume próprio, energia cinética das moléculas, energia cinética média, velocidade média qudrática, valor médio do quadrado das velocidades, teoria cinética molecular, pressão número de Avogadro NA, constante de Boltzman K, temperatura, número de moléculas N, velocidade mais provável, energia interna, graus de liberdade, número de graus de liberdade. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 131 Lição nº 16 Definição microscópica do modelo gás ideal Introdução Caro estudante, nesta lição você vai conhecer os principais fazedores da teoria cinético molecular assim como vamos definir o modelo gás ideal do ponto de vista microscópico, ou seja, partindo das caraterísticas internas das partículas (átomos ou moléculas) que constituem um sistema gasoso. Tempo de estudo Você poderá necessitar de 2 horas para o estudo desta lição. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Resumir os espaços históricos que levaram a descoberta da teoria cinético molecular; Caracterizar do ponto vista mocroscópico o modelo gás ideal; Explicar o que são forças de interacção intermolecular. Terminologia Modelo gás ideal, forças internas, forças de interacção intermolecular, movimento livre e desordenado, volume próprio. 132 Introdução sobre a evolução histórica da Teoria Cinética dos Gases Em meados do século XVII, Robert Boyle fez várias pesquisas sobre o comportamento elástico do ar, culminando com a publicação do seu livro intitulado "New Experiments Physico-Mechanicall, Touching the Spring of the Air, and its Effects", em 1660. Boyle propôs uma explicação teórica para a elasticidade do ar comparando-o a "uma pilha de pequenos corpos, caindo uns sobre os outros", estes corpos eram pensados como sendo molas, ou novelos de lã empilhados uns sobre os outros, porém sem movimento independente. Usando um barómetro de mercúrio, Boyle demonstrou que estamos imersos num mar de ar, que nos comprime com uma pressão igual à de uma coluna de água de 10 metros de altura. Ou seja, a pressão atmosférica. Este fato deu origem ao conceito de pressão que antes não era usado, e Boyle ilustrou de forma qualitativa a existência da relação entre a pressão e o volume de ar (o termo gás não era usado na época) contido num recipiente como sendo inversamente proporcional. Outra contribuição de Boyle para o estudo dos gases, que passaram a ser chamados de fluidos elásticos, foi a constatação de que a viscosidade de um gás não depende de sua densidade, ao contrário do que acontece com os líquidos. Tal constatação foi esquecida por muito tempo, até que Clausius conseguiu obter uma explicação teórica para ela. Robert Boyle (1627-1691), físico e químico irlandês, foi o sétimo e último filho do conde de Cork, um nobre britânico que possuiu consideráveis propriedades na Irlanda. Com o aparato construído por Robert Boyle, na época seu ajudante, Boyle conseguiu estudar as características do ar e estabelecer o que hoje conhecemos como a lei de Boyle. Grande admirador dos trabalhos de Galileu, Boyle foi um dos primeiros a contestar a existência do éter e afirmar que todas as matérias são constituídas de elementos simples: os átomos. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 133 Uma teoria para explicar a repulsão das partículas é proposta por Newton Apesar de ter encontrado a relação entre pressão e volume, Boyle não conseguiu descobrir de que forma é a força que existe entre os átomos. Contudo, logo após Boyle ter publicado suas pesquisas, Isaac Newton usou a relação entre pressão e volume para obter uma hipótese sobreas forças interatómicas. Para Newton, havia uma força repulsiva com intensidade inversamente proporcional à distância que separa os átomos. Ao supor que o ar era composto por partículas que se comportavam como molas, o termo fluido elástico foi usado até que o conceito de moléculas em movimentos desordenados tomasse lugar. Isaac Newton (1643-1727), físico e matemático inglês, fundou as bases da mecânica clássica e criou o cálculo diferencial e integral. Newton foi o primeiro cientista a receber o título de Sir (cavalheiro) da rainha da Inglaterra. A teoria cinética inicia-se com os trabalhos de Bernoulli Contrário à hipótese de que os átomos são como molas ligadas entre si, Daniel Bernoulli propôs uma teoria para explicar a pressão que um gás exerce no interior do recipiente. Esta teoria baseia-se na comparação dos átomos com esferas rígidas (bolas de bilhar) que se chocam continuamente por estarem em movimento, sendo que a sucessão de choques contra as paredes de um recipiente é que produz a pressão. A suposição de Bernoulli era que calor é nada mais que movimento de átomos não foi aceita pelos cientistas de sua época, pois estes acreditavam na existência do éter e discordavam da ideia de que os átomos pudessem voar livremente pelo espaço. 134 Devido ao fato das ideias de Newton sobre a interacção entre átomos serem aceitas até por volta do século XIX, a teoria cinética proposta por Bernoulli foi quase esquecida. Somente quando a física alcançou um estágio de desenvolvimento em que os conceitos antigos foram derrubados é que a teoria cinética dos gases ressurgiu. Daniel Bernoulli (1700-1782), físico e matemático holandês. Pertenceu a uma família de matemáticos famosos, e seu trabalho mais conhecido foi na área da hidrodinâmica. A teoria cinética dos gases renasce com Clausius A queda da teoria do calórico e sua substituição pela teoria dinâmica do calor deu espaço ao ressurgimento da teoria cinética dos gases. Rudolf Clausius foi um dos contribuintes para esta teoria. Rudolf Clausius (ver lição no 1 sobre a História da Termodinâmica) publicou seu primeiro artigo sobre a teoria cinética em 1857, onde o conceito de átomos comportando-se como esferas rígidas foi usado para então obter a pressão e a temperatura do gás em função da velocidade das moléculas. Num segundo artigo, Clausius introduziu o conceito de “caminho livre médio” com a finalidade de dar um tratamento matemático ao fenómeno da condução de calor nos gases. Este conceito também foi usado para derrubar as objecções que eram feitas contra a teoria cinética. Segundo a teoria cinética, as moléculas num gás estão em constante movimento desordenado e com velocidades muito grandes. Porém, esta afirmação fora contestada pelos opositores da teoria cinética ao dizerem que se as moléculas percorriam grandes distâncias e em linha recta, o que então pressupunha que dois gases em contacto se misturariam rapidamente, ao contrário do que ocorre nas experiências. Clausius refutou estas ideias demonstrando que, por causa dos constantes choques entre elas, as moléculas não percorriam grandes distâncias, mas sim pequenos trechos entre os choques ao que ele denominou de caminho livre médio. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 135 Maxwell descreve a distribuição das velocidades das moléculas de um gás e funda as bases da mecânica estatística Assim como Clausius, muitos cientistas acreditavam que as moléculas, depois de sucessivos choques, adquiriam uma velocidade comum entre elas. Porém James Clerk Maxwell discordava desta afirmação e propôs uma hipótese na qual as numerosas colisões entre as moléculas no gás, ao invés de igualar as velocidades de todas as moléculas, produziriam uma distribuição estatística de velocidades na qual todas as velocidades poderiam ocorrer, com uma probabilidade conhecida. As pesquisas de Maxwell sobre a teoria cinética, além de ajudarem a estabelecer as bases para a Mecânica Estatística Moderna, concluíram que a viscosidade de um gás é independente de sua densidade, convertendo muitos cientistas que ainda não haviam aceito a teoria cinética dos gases. James Clerk Maxwell (1831-1879), físico escocês, ficou mais conhecido por seus trabalhos no Electromagnetismo, sendo as suas leis válidas até os dias de hoje. Definição microscópica do modelo “gás ideal” A definição microscópica do modelo gás ideal fundamenta-se nas seguintes suposições: 1. Todas moléculas do gás são idênticas e em número bastante elevado e podem ser consideradas pontos materiais; 2. As moléculas possuem apenas uma energia cinética e estão dotadas de movimento desordenado livre por todo o volume, mas que obedecem às leis de Newton; 3. As moléculas não possuem volume próprio, ou seja o volume total destas é uma fracção desprezível do volume ocupado pelo gás, pois as distâncias entre as moléculas são relativamente grandes; 136 4. Entre as moléculas não actuam forças de interacção exceptuando durante as colisões (forças de carácter repulsiva); 5. As colisões entre as moléculas e entre estas e as paredes do recipiente são puramente elásticas e de duração desprezível. O modelo é aplicável para o estudo dos gases a temperaturas não muito baixas e a pressões não muito altas. Forças de interacção intermolecular e suas características • As forças intermoleculares são de natureza electromagnética; • As moléculas, apesar de serem geralmente neutras, possuem cargas eléctricas (electrões em volta e protões no núcleo) que se podem mover; • A aproximação entre duas moléculas origina uma perturbação nas cargas e estão ligeiramente desviadas das suas posições usuais de tal forma que a distância média entre as cargas de sinal diferente seja mais pequena que a das cargas de mesmos sinal. • Forças de atracção orr ≈ , onde or ...diámetro atómico Isto acontece apenas quando as moléculas estão muito próximas umas das outras de modo que estas forças actuem apenas sob pequenas distâncias. mro 10105,3 −⋅= • Uma aproximação demasiada origina forças de repulsão devido à sobreposição das cargas. mr 10105,2 −⋅= Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 137 Lição nº17 Energia cinética das moléculas Caro estudante, os valores médios de grandezas microscópicas como é o caso da velocidade das moléculas e sua energia cinética permitem experimir as grandezas paramétricas como a temperatura e a pressão do ponto de vista microscópico. Nesta lição você vai aprender a deduzir a equação geral da teoria cinético molecular para a pressão. Tempo de estudo Você deverá despender 2 horas no estudo desta lição incluindo a realização das actividades experimentais aqui sugeridas Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Determinar a enrgia cinética média das moléculas; Deduzir a expressão para a pressão do ponto de vista da teroria cinético molucar; Terminologia Energia cinética das moléculas, energia cinética media, velocidade média qudrática, valor médio do quadrado das velocidades, teoria cinética molecular, pressão. Seja m a massa de uma molécula e v a sua velocidade. A energia cinética de translação da molécula será: 2 2 1 mvEc = Como cada molécula de um gás tem a sua velocidade é melhor considerar a energia cinética média de translação. 138 N EEE E ncccc +++ = ... 21 , onde N é o numero de moléculas do gás. Substituindo Ec, ⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ +++= 2 ... 22 1 2222 2 11 nn c vmvmvm N E ou N vvvmE nc 22 2 2 1 ... 2 +++ ⋅= , já que todas as moléculas do gás são iguais ( nmmm == 21 ), o que sugere o cálculo da Energia cinética média das partículas do gás. Assim: 2 2 mqc vmE ⋅= é energia cinética média, onde∑ = = N i imq vN v 1 22 1 é designada velocidade média quadrática Relação entre Pressão e a Teoria cinético molecular Consideremos um recipiente cúbico de paredes perfeitamente elásticas. Seja l o comprimento das arestas do cubo e 1A , 2A as faces normais ao eixo ox. Imaginemos que a velocidade da molécula é vv . As suas projecções serão ( )zyx vevvv ,= Consideremos que a molécula se move apenas na direcção horizontal (OX). Então as componentes yv e zv de v v são nulas. Quando a molécula colidir com 1A a componente xv mudará de sinal e nada se vai alterar em relação a yv e zv . A variação do impulso (momento linear) será xxxixfx mvmvmvppp 2−=−−=−=Δ Fig. 23: Uma molécula de um gás ideal movendo dentro de um dado Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 139 Segundo o Princípio de Conservação do momento linear 0==∑ constpiv , resulta que o impulso transmitido à parede 1A será xmv+ . Seja xv l =τ o tempo necessário para a molécula atravessar o cubo de 1A até 2A . Ao atingir 2A a molécula volta de novo para 1A . Supondo que não haja nenhuma colisão com qualquer molécula em todo seu percurso, xv l22 =τ será o tempo total de ida e volta. Seja t=τ2 então escrevemos xv lt 2= . Após o tempo t a molécula volta a colidir com 1A . O número de colisões por unidade de tempo será l v t f x 2 1 == O produto do número de colisões por unidade de tempo pelo impulso transmitido a 1A nesse intervalo de tempo, corresponde à taxa de transferência de impulso. l v mv l v x x x 2 2 2 2 =⋅ Por definição a taxa de transferência de impulso é igual a força, F t p = Δ Δ , portanto Fl mvx = 2 . Para obtermos a força total que corresponde à taxa de transferência de impulso à 1A por todas as moléculas do gás temos que somar para todas as moléculas. 140 l vm F n i x t i∑ == 1 2 Por definição a pressão 2l F A FP == Substituindo a força total teremos 3 1 2 2 l vm l F p n i x t i∑ === ou ( )22223 ...321 nxxxx vvvvl mp ++++= Seja N o número total de partículas no recipiente e n o número total de partículas por unidade de volume. Então 3l N V Nn == donde n Nl =3 Substituindo na expressão para p teremos ( ) N vvvv nmp nxxxx 2222 ... 321 ++++ ⋅= ou N v nmp n i xi∑ =⋅= 1 2 ou ainda 2 ix vnmp ⋅⋅= onde 2 ix v é o valor médio do quadrado da velocidade das moléculas ao longo de ox. Sendo 3l Nn = , ρ=⋅ 3l Nm ...densidade pois Nm ⋅ ...é a massa total. Então: 2 ix vp ⋅= ρ Sabemos que para qualquer molécula 2222 zyx vvvv ++= o movimento das moléculas é caótico, e não há qualquer direcção x, y ou z privilegiada neste movimento. Por isso consideremos que os valores médios de 2xv , 2 yv e 2 zv são os mesmos e são exactamente: 2222 3 1 vvvv zyx === Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 141 Então, para qualquer direcção 2 3 1 vp ⋅= ρ ... Equação geral da teoria cinético – molecular dos gases que exprime a pressão através da velocidade das moléculas. O valor médio do quadrado das velocidades ( 2v ) é igual ao quadrado da velocidade média quadrática ( 2mqv ). 22 mqvv = , donde ρ pvvmq 32 == ...velocidade média quadrática. Actividade Tente Resolver: Demonstre que μ RTvmq 3 = e determine a mqv das moléculas de oxigénio gasoso, à uma temperatura kT 300= e massa molar molkg /1032 3−⋅ . Feedback smvmq /56,483= Conclusão: a pressão do gás ideal é proporcional ao produto da densidade das moléculas pelo quadrado médio das suas velocidades. 142 Exercícios Auto-avaliação 1. Calcule a velocidade quadrática média de uma molécula de hidrogénio a C00 e a pressão de 1 atm, supondo que 2H seja um gás ideal. Nestas condições a densidade do 2H é 32 /10.99,8 mKgp −= . 2. Calcule a velocidade quadrática média das moléculas de hidrogénio a C020 e a pressão de 70cm de mercúrio. A massa de um mol de 2H ’e 2,016g/mol. 3. Determine a velocidade quadrática média de uma molécula de azoto (M=28 kg/kmol) no ar a 0ºC Feedback 1. smv /1838= 2. smvmq /1904= 3. skmvmq /49,0= Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 143 Lição nº 18 Relação entre a temparatura e a teoria cinético molecular Introdução Como você já terá percebido das lições anteriores, os parâmetros termodinâmicos podem ser definidos do ponto de vista microscópico a partir do movimento cinético das partículas do sistema. A presente lição tem como objectovo a demosntração da ligação existente entre a temperatura de um gás ideal e a teoria cinética molecular dos gases. Tempo de estudo Você precisará de despender pelo menos 1 hora no estudo desta lição. Ao terminar esta lição, você será capaz de: Objectivos Demonstrar a relação existente entre a temperatura e a teoria cinético molecular; Determinar a temperatura de um gás ideal conhecida a energia cinética média das moléculas Terminologia Energia cinética média, número de Avogadro, Constante de Boltzman, temperatura. 144 Vamos partir da equação que gera da teoria cinético molecular do gás ideal 2 3 1 vp ⋅= ρ Multipliquemos a equação por V (Volume). 2 3 1 vVVp ⋅=⋅ ρ ou 2 3 1 vmVp ⋅=⋅ , pois Vm ⋅= ρ Mas m pode também ser escrito na forma μ⋅= nm onde n ...é o número de moles e μ ...a massa molar. Então 2 3 1 vnVp ⋅=⋅ μ ou multiplicando e dividindo o 2º membro por 2 obtemos ⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛ ⋅=⋅ 2 2 1 3 2 vnVp μ ; cEvmvn =⋅=⋅ 22 2 1 2 1 μ que é Energia cinética média. Tomando em conta a equação do estado do gás ideal na forma nRTVp =⋅ podemos escrever: ⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛ ⋅= 2 2 1 3 2 vnnRT μ ; 2 2 1 2 3 vnnRT ⋅= μ . Simplificando o número de moles resulta 2 2 1 2 3 vRT ⋅= μ . Vamos dividir ambos os membros da equação anterior por AN ...número de Avogadro (número de moléculas contidas numa mole). 2 2 1 2 3 v N T N R AA ⋅= μ Daqui obtém se kN R A = ...constante de Boltzman kJk /1038,1 23−⋅= e i A m N = μ ...massa de uma mole Conclusão: A energia cinética total de translação por mole de molécula de um gás ideal é proporcional à temperatura. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 145 Então 2 2 1 2 3 vmkT i ⋅= onde 2 3 1 v k m T i ⋅= ... Temperatura, definição microscópica. Daqui pode-se ainda concluir que cEkT =2 3 ... Energia cinética média de translação das moléculas nas 3 direcções x, y e z. Para uma única direcção tem-se cEkT =2 1 . Exprimindo em ordem a T teremos k E T c 3 2 = ...Temperatura Exercícios Auto-avaliação 1. Qual é a velocidade quadrática média de um gás à 20º C, cuja massa é de 20g? 2. Qual é a energia cinética média por molécula de um gás que se encontra à uma temperatura ambiente de 22º C? 3. Qual é a energia cinética média de um gás à 40º C que se move numa única direcção? Feedback 1. Feedback: 6,06×10-20 m/s. 2. Feedback: 6,105×10-21 J 3. Feedback: 2,09×10-21 J Conclusão: A energia cinética média do movimento de translação das moléculas não depende da natureza do gás, é apenas função da sua temperatura. 146 Lição nº 19 Distribuição de Maxwell das velocidades moleculares Introdução Caro estudante, nesta lição deverá aprender que a distribuição das velocidades moleculares é uma função que depende apenas da temperatura. Tempo de estudo Você precisará de despender pelo menos 2 horas no estudo desta lição. Ao completer esta lição, você será capaz de: Objectivos Interpretar o gráfico de Maxwell sobre a distribuição das velocidades das moléculas; Determinar as velocidades média, quadrática média e mais provável das moléculas Terminologia Número de moléculas por unidade de energia,número total de moléculas, velocidade mais provável, Caro estudante recorde-se que para obtermos a equação geral da teoria cinético molecular consideramos que todas as moléculas têm mesma velocidade e esta permanece sempre constante. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 147 Mas é claro que as moléculas de um gás modificam as suas energias cinéticas devido às constantes colisões entre si e com as paredes do recipiente. Isto significa que as velocidades variam constantemente. As moléculas movem-se em todas as direcções e com diferentes velocidades. Portanto, num gás são possíveis todas as energias cinéticas e velocidades. Seja dado um volume de um gás onde se encontra um número N muito elevado de moléculas. Em vez de falarmos “quantas moléculas têm uma determinada energia cinética/ velocidades” (o que é difícil devido ao grande número de moléculas no gás) é mais racional, do ponto de vista prático, determinar o número de moléculas ( dN ) cujas energias se encontram compreendidas entre dEE + ou as suas velocidades entre dvv + . O número dN é dado pela expressão: ( )dENdN E= ou ( )dVNdN V= onde ( )VN é definido pela lei de distribuição das energias moleculares de Maxwell. ( ) kT E eE kT N dE dN − ⋅ ⋅ ⋅ = 2 1 2 3 2 π π ...número de moléculas por unidade de energia. onde T é a temperatura absoluta, k a constante de Boltzman e N o número total de moléculas na amostra. Exprimindo em função da velocidade, considerando que 2 2 1 mvE = e que mv dV dE = teremos dE dNmv dv dE dE dN dV dN =⋅= Substituindo a expressão 2 2 1 mvE = na da lei de distribuição de energias 148 kT mv ev kT mN dv dN 222 3 2 2 4 −⋅⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛ ⋅⋅ = π π ou ( ) kT mv v evkT mNN 22 2 3 2 2 4 −⋅⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛ ⋅⋅ = π π Aqui a distribuição das velocidades, depende não só da temperatura T mas também da massa molar (m). Por sua vez ( )∫ ∞ ⋅= 0 dvNN v ... número total de moléculas na amostra. Num dado intervalo de velocidades vΔ o número de moléculas cresce até um valor máximo, que corresponde à velocidade mais provável ( pv ) que é a velocidade tida pelo maior número de moléculas. Depois decresce assimetricamente até zero. Conclusão: A lei da distribuição de velocidades é diferente para cada gás. Conclusão: À medida que a temperatura aumenta a distribuição das velocidades desloca-se para valores mais elevados ou seja para a direita. A área por baixo do gráfico entre as linhas verticais dá o número de moléculas entre as velocidades correspondentes. Fig.24: Gráfico da distribuição de velocidades moleculares de Maxwell Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 149 A curva de distribuição e as velocidades não são simétrica em relação à pv . Porque a velocidade mais pequena tem que ser igual a zero, a média da velocidade ( v ) será um pouco maior que pv . A velocidade média quadrática ( mqv ) sendo a raiz quadrada da média do quadrado das velocidades será ainda maior. mqp vvv << Exemplo Dez moléculas de um gás têm as seguintes velocidades 0; 1,0; 2,0; 3,0; 3,0; 3,0; 4,0; 4,0; 5,0 e 6,0. Determine e compare as seguintes velocidades: a) a média das velocidades v ; b) a mqv ; c) a pv . Resolução: a) sm v v i i i /1,3 10 10 1 == ∑ = = b) smv m KTv medmq /54,310 125)(3 . 2 ==== c) smv p /3= Comparando: mqp vvv << 150 Lição nº20 Energia interna de um gás Introdução Caro estudante, nesta lição vai aprender a determinar a energia interna de um gás ideal como uma função da temperatura, assim a relacionar a energia cinética das moléculas com os respectivos graus de liberdade. Tempo de estudo Você precisará de despender pelo menos 1:30 horas no estudo desta lição incluindo a resolução de exercícios aqui sugeridos. Ao completer esta lição, você será capaz de: Objectivos Definir e determinar a energia interna como função da temperatura; Interpretar o sentido de graus de liberdade. Terminologia Energia interna, graus de liberdade, número de graus de liberdade Já nas aulas introdutórias nós fizemos referência ao conceito energia interna. Qualquer sistema termodinâmico possui uma energia que denominada de energia interna e que é a soma de todas as espécies de energias cinéticas do conjunto de partículas. Sabemos que a energia cinética está ligada com o movimento das partículas. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 151 Para um estudo facilitado da energia interna continuemos a considerar que as moléculas de um gás ideal são monoatómicas e se assemelham a pequenas esferas elásticas e duras entre as quais não existem forças de interacção. Assim a energia interna de um gás ideal será inteiramente energia cinética. Deduzimos que kTEc 2 3 = ; kTvm 2 3 2 1 2 = Mas como 2222 zyx vvvv ++= e não havendo direcção privilegiada para o movimento das moléculas então: kTvmvmvm zyx 2 1 2 1 2 1 2 1 222 === Se então a energia interna U corresponde inteiramente a cE , obtém-se kTEU o 2 3 == . Sendo AN Rk = ; então T N RU A2 3 = ; mas n NN A = , AN Nn = ou ainda nRTU 2 3 = neste caso 1=N A expressão nRTU 2 3 = para a energia interna satisfaz apenas moléculas monoatómicas pois, a cE destas é simplesmente energia de translação. Para gases com moléculas biatómicas nRTU 2 5 = Conclusão: A energia interna é uma função da temperatura. ( )TfU = 152 Se as ligações não forem rígidas as moléculas ainda podem vibrar em torno das suas posições de equilíbrio. Assim passam a ter como energia interna nRTU 2 7 = Noção de “Graus de liberdade”/ número de graus de liberdade Ao número de coordenadas independentes que determinam a posição de um sistema qualquer denomina-se número de graus de liberdade. A posição de um ponto material determina-se univalentemente por 3 coordenadas, x, y e z, por isso ele possui 3 graus de liberdade. Uma molécula biatómica para além da translação nos 3 eixos, ainda pode realizar 3 rotações em torno destes. Pelo facto de num dos eixos a Rc E ser tão pequena que pode ser menosprezada, uma molécula biatómica possui apenas 5 graus de liberdade. Moléculas triatómicas ou poliatómicas possuem 6 graus de liberdade. Sumário Assunto Observações e Equações importantes Modelo gás ideal Todas moléculas do gás são idênticas e em número bastante elevado; possuem apenas uma energia cinética e estão dotadas de movimento desordenado livre por todo o volume; não possuem volume próprio, pois as distâncias entre as moléculas são relativamente grandes; entre as moléculas não actuam forças de interacção exceptuando durante as colisões e estas (forças de carácter repulsiva); são puramente elásticas e de Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 153 duração desprezível. Forças internas São as forças intermoleculares e de natureza electromagnética que actuam quando as moléculas estão muito próximas umas das outras. Velocidade média quadrática ( 2mqv ) É igual ao valor médio do quadrado das velocidades ( 2v ) ρ pvvmq 32 == Velocidade mais provável É a velocidade tida pelo maior número de moléculas num dado intervalo de velocidades vΔ . Equação geral da teoria cinética molecular dos gases Exprime a pressão através da velocidade das moléculas. 2 3 1 vp ⋅= ρ A pressão do gás ideal é proporcional ao produto da densidade das moléculas pelo quadrado médio das suas velocidades. Temperatura e teoria cinético molecular A temperatura de um gás ideal é directamente proporcional ao valor médio da energia cinética das moléclas k E T c 3 2 = Constante de Bolzmann k N R A = ... kJk /1038,1 23−⋅= Energia interna É aenergia que existe no interior do sistema graças as energias cinética e potencial das suas moléculas. Energia interna de uma molécula 154 monoatómica: nRTU ⋅= 23 Energia interna de uma molécula biatómica: nRTU ⋅= 25 Energia interna de uma molécula com vibrações: nRTU ⋅= 27 Número de graus de liberdade. É o número de coordenadas independentes que determinam a posição de um sistema qualquer. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 155 Unidade 5 Segunda Lei da Termodinâmica Introdução Caro estudante esta unidade destina-se especialmente ao estudo da 2ª lei da Termodinâmica. Como já referimos numa das unidades anteriores, esta lei foi a primeira a ser descoberta, pois ela está directamente ligada com o fenómeno que impulcionou o desenvolvimento da Termodinâmica como ciência, a criação de uma máquina térmica com uma eficiência tal, que transfome todo o calor absorvido de fonte quente em trabalho mecânico. Por isso, antes dos enunciados da 2ª lei termodinâmica o caro estudante deverá discutir as características e o funcionamento das máquinas témicas, tendo como referência a máquina cíclica de Carnot. Mais adiante estabelece-se a relação entre a 2ª lei termodinâmica e a Entropia e esta por sua vez com o conceito de desordem. Ainda nesta unidade você vai poder perceber o sentido do enunciado da 3ª lei da Termodinâmica. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 2 horas para estudar esta lição. Ao completer esta unidade, você será capaz de: Objectivos Caracterizar e explicar o funcionamento de uma máquina térmica e de un refrigerador; Deteriminar o rendimento de uma máquina térmica e o coeficiente de eficiência de um refrigerador; Caracterizar o ciclo de Carnot e explicar o funcionamento da máquina 156 de Carnot; Calucular o calo absorvido e rejeitado, o trabalho total realizado, o rendimento e o coeficiente de eficiência no ciclo de Carnot e no ciclo inverso respectivamente; Caracterizar com base em exemplos concretos os processos reversíveis e irreversíveis; Formular a 2ª lei da Termidinâmica segundo os enunciados equivalentes de Claus, Kelvin e Carnot; Explicar os conceitos de entropia e variação de entropia de um sistema; Calcular a entropia numa transformação reversível; Formular a lei de crescimento da entropia; Estabeler a ligação entre a entropia, a desordem de um sistema e a 3ª lei da Termodinâmica Terminologia máquinas témicas, calor, calor absorvido, calor rejeitado, fonte/ reservatório quente, fonte/reservatório fria, trabalho, energia, ciclo, ciclo de carnot, rendimento, coeficiente de eficiência, isoterma, adiabata, processo reversível, processo irreversível, 2ª lei da Termodinâmica, enunciados de Claus e Kelvin, entropia de um sistema, e variação da entropia, lei de crescimento da entropia, entropia do universo, desordem, 3ª lei da Termodinâmica ou Princípio de Nernst, Temperatura absoluta e o zero absoluto, Constante de Boltzman. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 157 Lição nº21 Máquinas térmicas Introdução Nesta lição vamos aprender o que é uma máquina térmica e como uma máquina térmica funciona. A partir do calor absorvido e do calor rejeitado pela máquina vamos calcular o rendimento e o coeficiente de eficiência. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 2 horas para estudar esta lição. Ao terminarr esta lição, você será capaz de: Objectivos Caracterizar e explicar o funcionamento de uma máquina térmica e de un refrigerador; Deteriminar o rendimento de uma máquina térmica e o coeficiente de eficiência de um refrigerador; Terminologia máquinas témicas, calor, calor absorvido, calor rejeitado, fonte/ reservatório quente, fonte/reservatório fria, trabalho, energia 158 Como fora referido no capítulo introdutório deste módulo, o desenvolvimento da termodinâmica do ponto vista prático teve a sua base na tentativa de encontrar resposta para a questão do rendimento das máquinas térmicas. As seguintes imagens mostram máquinas que funcionam na base do princípio das máquinas térmicas. O que são máquinas térmicas? Máquinas térmicas são dispositivos que operando ciclicamente, produzem trabalho extraindo calor de uma fonte quente jogando-a para a uma fonte fria num processo e contínuo. As máquinas térmicas utilizam energia na forma de calor (gás ou vapor em expansão térmica) para provocar a realização de um trabalho mecânico. Uma máquina térmica pode ser descrita basicamente como constituída por um o cilindro com pistão móvel, um dos principais componentes, o gás preso dentro do cilindro sob pressão, que quando aquecido, se expande, deslocando o pistão e realizando consequentemente um certo trabalho. Apesar de existirem diferentes tipos de máquinas térmicas, elas apresentam características comuns como: • recebem calor de uma fonte quente (reactor nuclear, colector de energia solar, forno a combustível, etc.); • conservam apenas parte deste calor em forma de trabalho; • rejeitam o calor que não foi usado para um reservatório chamado fonte fria; Fig. 25: Exemplos de máquinas térmicas Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 159 • funcionam por ciclos. A seguinte figura mostra como uma máquina térmica funciona. O calor fornecido à máquina provém da fonte quente (reservatório quente) e o calor rejeitado é recebido pelo reservatório frio. Parte desse calor recebido é usado na realização de trabalho mecânico. Os reservatórios quentes e frio são considerados sistemas ideais com capacidades caloríficas muito grandes, que podem ceder ou receber energia térmica sem que sofram variações apreciáveis nas suas temperaturas. Isso significa que o estado inicial e final do reservatório quente coincidem (são iguais) ou seja 0=ΔU . A figura representa um esboço do ciclo na relação (pV), onde as linhas vermelhas indicam isotérmas e as verdes as adiabatas. Rendimento de uma máquina térmica As primeiras máquinas térmicas construídas eram bastante ineficientes, pois apenas uma pequena fracção de calor retirado de qualquer fonte era convertido em trabalho útil. Apesar das contribuições de vários cientistas na termodinâmica, jamais foi possível projectar uma máquina térmica que Fonte Quente Fonte Fria Fig. 26: No funcionamento de uma máquina térmica, parte do calor absorvido da fonte quente é usada para realizar trabalho e outra parte rejeitada para a fonte fria. Fig. 27: Representação em pV do ciclo em funciona a máquina térmica. 160 pudesse converter todo o calor que pudesse retirar de uma fonte quente em trabalho útil ou projectar um refrigerador que simplesmente transmitisse calor de um corpo frio para um corpo quente, sem exigir trabalho externo. Essas seriam máquinas térmicas e refrigeradores ideais. As máquinas térmicas e outros dispositivos que funcionam por ciclos utilizam normalmente um fluído para receber e ceder calor ao qual se dá o nome de fluído de trabalho. A partir da 1ª lei da Termodinâmica WUQ +Δ= conclui-se que WQ = , pois a variação da energia interna ( 0=ΔU ) é nula. O trabalho líquido do sistema é simplesmente a diferença entre o calor retirado da fonte quente e o calor transferido para fonte fria. 21 QQWt −= onde Q1 e Q2 são respectivamente o calor cedido pela fonte quente e o calor recebido pela fonte fria. O rendimento das máquinas térmicas pode ser, de uma maneira geral, a razão entre o trabalho total ou líquido realizado e o calor necessário para que ela funcione: 1Q W n t= . Mas pela equação anterior podemos escrever ( ) 1 21 Q QQn −= e por fim: 1 21 Q Q n −= …rendimentode uma máquina térmica. Que conlusão você pode formular com base neste resultado? O rendimento é a eficiência com que uma máquina térmica funciona. Em geral o rendimento das máquinas é baixo: • motores de automóveis da ordem de 20%; • motores a diesel da ordem de 30%; • grandes turbinas a gás da ordem de 40%. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 161 Uma máquina térmica terá maior eficiência se transformar mais calor em trabalho, transferindo, portanto, menos calor para a fonte fria. Este resultado constitui o enunciado de Kelvin – Planck para o 2º Princípio Termodinâmico. Exemplo Exemplo 1: Uma máquina térmica absorve 200 J de calor de um reservatório quente, efectua um trabalho e rejeita 160 J de calor para um reservatório frio. Calcule o rendimento da máquina. Resolução: O rendimento da máquina é razão entre o trabalho realizado e o calor recebido da fonte quente. %2020,0 200 160200 1 21 1 == − = − == J JJ Q QQ Q Wn t Resposta: O rendimento é de 20%. Como funciona uma geleira ou frigorífico? Ao contrário do que acontece com máquina térmica, em que a partir do calor retirado da fonte quente se realiza um dado trabalho, as máquinas frigoríficas realizam o ciclo no sentido contrário, pois elas retiram calor da fonte fria (seu interior) transferindo-o para a fonte quente (seu exterior). “É impossível que uma máquina térmica, operando em ciclo, que tenha como único efeito a extracção de calor de um reservatório e a execução de quantidade equivalente de trabalho.” Fig. 28: No funcionamento de uma geleira o calor é retirado com ajuda de trabalho externo, de uma fonte fria para uma fonte quente. 162 Da figura podemos ler que a máquina frigorífica recebe trabalho para extrair calor do reservatório frio e transferi-lo para um reservatório quente. A medida de desempenho de um refrigerador chama-se “coeficiente de eficiência” (COE) e é igual à razão entre o calor removido do reservatório frio 2Q e o trabalho W recebido. tW Q COE 2= … Coeficiente de eficiência. ou 1 2 12 2 1 Q Q QQ Q COE −= − = Este resultado constitui o enunciado de Claus para o 2º Princípio Termodinâmico. É impossível que um refrigerador, operando em ciclo, tenha como único efeito o da transferência de energia térmica de um corpo frio para um outro quente. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 163 Exercícios Auto-avaliação 1. Um motor de Carnot cujo reservatório à baixa temperatura está a 7º C, apresenta um rendimento de 30%. Qual será a variação da temperatura, em Kelvin, da fonte quente afim de aumentar o seu rendimento para 50%? Feedback: 160K 2. Um motor térmico recebe 1200 cal de uma fonte quente mantida a 227ºC e transfere parte dessa energia para o meio ambiente a 24ºC. Qual é o trabalho máximo em cal que se pode esperar desse motor? Feedback: 552 cal 3. Um ciclo de Carnot trabalha entre duas fontes térmica: uma quente à temperatura de 227ºC e uma fria à temperatura de -73ºC. Qual será o rendimento desta máquina em percentagem. Feedback: 60% Feedback 1. Feedback: 160K 2. Feedback: 552 cal 3. Feedback: 60% 164 Lição nº 22 Máquina e ciclo de Carnot Introdução Nesta lição você vai estudar a máquina térmica e a máquina frigorífica ideal de Sadi Carnot que operando em ciclo atingiria o máximo rendimento possível. Você vair calcular o rendimento de uma máquina térmica e o coeficiente de eficiênciade da máquina frigorífica, os calores recebido e cedido e os trabalhos realizados em cada processo. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 2 horas para estudar esta lição. Ao completar esta lição, você será capaz de: Objectivos Caracterizar o ciclo de Carnot e explicar o funcionamento da máquina de Carnot; Calucular o calor absorvido e rejeitado, o trabalho total realizado, o rendimento e o coeficiente de eficiência no ciclo de Carnot e no ciclo inverso respectivamente. Terminologia calor, calor absorvido, calor rejeitado, fonte/ reservatório quente, fonte/reservatório fria, trabalho, energia, ciclo, ciclo de carnot, rendimento, coeficiente de eficiência, isoterma, adiabata. De acordo com o 2º Princípio Termodinâmico, é impossível que qualquer máquina térmica, operando entre dois reservatórios, tenha um rendimento de 100%. Qual é então o rendimento máximo de uma máquina térmica? Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 165 Esta pergunta foi respondida em 1824 por Sadi Carnot (Francês). Carnot mostrou que a máquina reversível é a máquina mais eficiente que pode operar entre dois reservatórios. Assim ficou formulado um teorema, conhecido como “Teorema de Carnot”: A máquina reversível é uma máquina ideal, pois ela opera com o maior rendimento possível. À máquina reversível dá-se o nome de “máquina de Carnot” e o ciclo que ela descreve é o ciclo de Carnot. Condições de reversibilidade: • No processo, não há trabalho de forças de atrito, de forças viscosas ou de outras forças dissipativas que produzem calor; • A condução térmica só ocorre isotermicamente; • O processo deve ser quase estático, de modo que o sistema está sempre num estado de equilíbrio, ou muito próximo deste; Qualquer processo que viole uma das condições acima mencionadas é irreversível. A máquina de Carnot tem um funcionamento apenas teórico, pois ainda não se conseguiu criar uma máquina com as suas características. Funcionando entre duas transformações isotérmicas e duas adiabáticas alternadamente, o ciclo de Carnot é caracterizado por 4 etapas: Nenhuma máquina térmica, operando entre dois reservatórios térmicos, pode ser mais eficiente do que uma máquina reversível que opera entre os mesmos 2 reservatórios. Fig. 29: Físico Francês Nicola Léonard Sadi Carnot (1791-1832 Fig. 30: Ciclo de Carnot entre duas adiabáticas e duas isotermas num gráfico pV. 166 1ª Etapa (A - B): O gás está no estado inicial de equilíbrio representado pelos parâmetros 1p , 1V e 1T . O sistema recebe calor do reservatório quente, e deixamos que ele se expanda lentamente para 2p , 2V e 1T . A expansão é isotérmica e o gás realiza o trabalho sobre o êmbolo. 2ª Etapa (B - C): Sem fornecimento de calor, deixamos que se expanda mais, reduzindo a pressão exercida pelo pistão, para 3p , 3V e 2T . A expansão é adiabática e o gás realiza trabalho e a sua temperatura cai para 2T . 3ª Etapa (C - D): O sistema é agora colocado em contacto com o reservatório frio à temperatura 2T e o gás é comprimido lentamente para 4p , 4V e 2T . Durante o processo uma quantidade de calor 2Q (absorvido pela fonte fria) é transferida do gás para o reservatório frio. A compressão é isotérmica à temperatura 2T e é realizado um trabalho sobre o gás ao se pressionar o êmbolo. 4ª Etapa (D - A): Sem que haja trocas de calor, o gás é comprimido lentamente até ao estado inicial 1p , 1V e 1T . A compressão é adiabática. O trabalho é efectuado sobre o gás e a temperatura sobe até 1T . O trabalho líquido realizado pelo sistema durante o ciclo é dado pela área fechada por ABCD e é igual a 21 QQW −= donde 1Q é o calor absorvido do reservatório quente e 2Q o calor cedido pelo gás ao reservatório frio. O rendimento do ciclo de Carnot será dado por 1 2 1 21 1 1 Q Q Q QQ Q W −= − ==η A quantidade de calor 1Q é retirado da fonte quente e absorvida pelo gás durante a expansão isotérmica do gás de A para B. Como 0=ΔU , numa expansão isotérmica do gás ideal, 1Q é igual ao trabalho efectuado pelo gás ideal. ∫∫∫ ===== 2 1 2 1 1 1 2 1 1 V dVnRTdV V nRTpdVWQ 1 2 11 ln V V nRTQ = … calor absorvido. Do mesmo modo o calor rejeitado 2Q , absorvido pela fontefria é igual ao trabalho efectuado sobre o gás na compressão isotérmica 2T de C para D. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 167 4 3 22 ln V V nRTQ = … calor rejeitado A razão entre o calor rejeitado e o calor absorvido é então 1 2 1 4 3 2 1 2 ln ln V VT V VT Q Q = Através da expressão constTV =−1γ da expansão adiabática podemos encontrar a relação entre os volumes. Do estado A ao estado B temos 132 1 21 −− = γγ VTVT Do estado 4 ao estado 1 temos 142 1 11 −− = γγ VTVT Dividindo membro a membro as duas equações obtemos 1 4 3 1 1 2 −− ⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ =⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ γγ V V V V logo 4 3 1 2 V V V V = . Assim 4 3 1 2 lnln V V V V = . Simplificando os factores logarítmicos ficamos com 1 2 1 2 T T Q Q = E o rendimento de Carnot cη será dado por: 1 21 T T c −=η O ciclo inverso ao ciclo de Carnot caracteriza o comportamento de um refrigerador. Um refrigerador bombeia energia térmica de um reservatório frio para um reservatório quente. Seja W o trabalho necessário para remover a quantidade de calor 2Q do reservatório frio, e descarregar a quantidade de calor 1Q no reservatório quente. Conclusão: O rendimento de Carnot depende exclusivamente das temperaturas T1 e T2 dos dois reservatórios de calor. O rendimento de Carnot fixa o limite superior dos rendimentos das máquinas térmicas. 168 21 QWQ += O coeficiente de eficiência W Q COE 2= Rescrevendo 21 QQW −= , obtém-se 21 2 QQ QCOE − = Dividindo o numerador e o denominador por 1Q obtém-se 1 2 1 2 1 Q Q Q Q COE − = ...coeficiente de eficiência para o ciclo inverso. O coeficiente de eficiência máximo é conseguido com uma bomba de calor de Carnot. Com base na relação 1 2 1 2 T T Q Q = Conclui-se: T T TT T T T T T COE Δ = − = − = 2 21 2 1 2 1 2 1 , onde TΔ é a diferença de temperaturas entre os reservatórios quente e frio. Exemplos Exemplo 2: Uma máquina a vapor opera entre um reservatório quente a 100º C e outro frio a 0º C. Qual é o rendimento máximo da máquina Resolução: Rendimento máximo é o rendimento de Carnot. a) %8,26268,0 373 27311 1 2 ==−=−= K K T T cη Resposta: O rendimento máximo é de 26,8%. Exemplo 3: Calcular do trabalho total no ciclo de Carnot. Resolução: O trabalho total realizado durante o ciclo é 41342312 WWWWW +++= Para os processos isotérmicos é valido: 1 2 112 ln V V nRTW = e 3 4 234 ln V V nRTW = Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 169 Exemplos Considerando que 4 3 1 2 V V V V = então 1 2 234 ln V V nRTW −= Para os processos adiabáticos é válido: ( ) 1 21 23 − − = γ TTnR W e ( ) 1 12 41 − − = γ TTnR W Somando as 4 equações vê-se claramente que 23W e 41W desaparecem ficando apenas 12W e 34W . Assim 1 2 2 1 2 1 lnln V V nRT V V nRTW −= ou ( ) 1 2 21 ln V V TTnRW −= ...Trabalho total do gás realizado durante o ciclo de Carnot. Exemplo 4: Um refrigerador tem o coeficiente de eficiência de 5,5. Que trabalho é necessário para este refrigerador congelar 1 litro de água, inicialmente a 10º C, em cubos de gelo a 0º C. Resolução: O coeficiente de eficiência calcula-se pela razão entre Q1 e W. Então, resolvendo em ordem a W, teremos: COE QW 2= , onde Q2 é a soma dos calores necessários para resfriar a água e para congelar. Assim kJkJmLTmc COE QQ COE QW congcongaqu 5,5 5,3338,41 5,5 2 = + = +Δ = + == Resposta: O trabalho necessário é de 68.2 kJ. 170 Exercícios Auto-avaliação 1. Entre dois reservatórios de calor de uma máquina de Carnot (η=30%) existe uma diferença de temperatura ΔT= 140 K. Calcule as temperaturas T1 (mais alta e T2 (mais baixa) dos reservatórios. 2. Uma máquina térmica funciona segundo o ciclo de Carnot. Em cada ciclo ela fornece ao ambiente um trabalho igual a 1000 J. As temperaturas das fontes quente e fria são 127º C e 27º C. Qual a quantidade de calor fornecido pela fonte? Qual a quantidade de calor recebido pela fonte fria? 3. Uma máquina frigorífica ideal que funciona segundo o ciclo inverso de Carnot, realiza a cada ciclo um trabalho igual a 3,7. 104 J. A máquina durante o funcionamento toma calor dum corpo cuja temperatura é de -10º C e cede ao outro corpo que tem uma temperatura de 17º C. Determinar: a) o rendimento do ciclo, b) o calor que se toma do corpo frio a cada ciclo, c) o calor cedido ao corpo quente, 4. Numa máquina térmica que funciona segundo o ciclo de Carnot, a fonte quente tem a temperatura t2= 200º C. calcule a temperatura da fonte fria, se ao receber da fonte quente a quantidade de calor Q2= 1 J, a máquina realiza o trabalho W= 0,4J. Feedback 1. T1= 466,7 K e T2= 326,7 K 2. Qq= 4000 J e Qf= 3000 J 3. a) η= 2,7; b) Qq= 1,37.104 J; c) Qf= -2,33.104 J 4. Tf= 120ºC Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 171 Lição nº 23 Processos reversíveis e irreversíveis. 2ª Lei da Termodinâmica Introdução A segunda lei da Termodinãmica apresenta várias formulações que constituiem objecto de estudo nesta lição. Você deverá saber interpretá- las e relacioná-las as características das máquinas térmicas. Para melhor entender a essência de processos reverssíveis e irreverssíveis recomendam-se leituras adiccionais de outras literaturas. Para concluir esta lição você precisará de 1 h e 30 minutos de estudo. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 2 horas para estudar esta lição. Ao completer esta lição, você será capaz de: Objectivos Caracterizar com base em exemplos concretos os processos reversíveis e irreversíveis; Formular a 2ª lei da Termidinâmica segundo os enunciados equivalentes de Claus, Kelvin e Carnot; Terminologia Processo reversível, processo irreversível, 2ª lei da Termodinâmica, enunciados de Claus, Kelvin eCarnot, 172 Transformações termodinâmicas são processos que produzem alterações em variáveis que definem o estado termodinâmico de um corpo ou sistema. A reversibilidade ou não de uma transformação é uma propriedade importante, que tem relação com a 2ª Lei da Termodinâmica. Vejamos alguns exemplos de fenómenos que se classificam como processos reversíveis: 1) O escoamento de um gás ideal num tubo com um estrangulamento.Veja a figura a seguir. Naturalmente, é suposto que não há atrito nem trocas de calor através da parede do tubo. Devido à redução de secção, o estado termodinâmico (ex: pressão, velocidade) do gás em 2 é diferente do estado em 1. Passado o estrangulamento, como no ponto 3 da figura, o estado termodinâmico é o mesmo de 1, caracterizando a reversibilidade do processo. 2) Quando um processo de transformação ocorre muito lentamente, podemos admitir que, em cada instante, o sistema se encontra muito próximo do equilíbrio. A transformação procede por passos infinitesimais, de modo que, em cada instante, o sistema sofre apenas uma ligeira perturbação do seu estado.Como exemplo de transformações irreversíveis, podem se descrever os seguintes fenómenos: Fig. 31: As características do escoamento nos estados 1 e 3 são as mesmas, de modo que se pode cocnlui que o gás retorna por si só ao estado inicial. F 32 T f õ l d f l ó d Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 173 1)Metade da caixa está ocupada por um gás e na outra metade temos o vácuo. Se retirarmos a separação, o gás se espalha e ocupa todo o volume da caixa. 2) A troca de calor entre dois corpos com temperaturas diferentes TA>TB. Em (b) da figura ao lado os corpos são colocados em contacto mútuo dentro de um sistema isolado. Depois de algum tempo, a troca de calor termina e os corpos atingem uma temperatura comum de equilíbrio TE (TA> TE> TB),conforme indicado em (c) da figura. Entretanto, conforme (d) da figura, se os corpos são afastados e fisicamente dispostos na mesma situação inicial (a), as suas temperaturas não retornam espontaneamente aos valores anteriores. 3) Copos que se quebram ao cair no chão, 4) Pilhas de lanterna que se descarregam, 5) Gelo que se derrete dentro do jarra, etc. O que todos esses processos têm em comum é que podem ocorrer em um sentido mas não ocorrem, espontaneamente, no sentido oposto. Em termos mais técnicos, eles são chamados de processos irreversíveis, pois não revertem espontaneamente. Processos práticos como estes não são ideais e, portanto, sempre têm algum grau de irreversibilidade. Em geral, a irreversibilidade é atribuída a: • forças de atrito (sólidos e fluidos); • transferências de calor com diferença finita de temperatura; Fig.33: O gás se expande livremente para a segunda metade da caixa. Fig. 34: Exemplo de processo irreversível 174 • expansão ou compressão rápida de um fluido; • expansão livre de um fluido;- mistura espontânea de gases diferentes etc.. Formulação da 2ª Lei ou 2º Princípio da Termodinâmica Na lição anterior vimos que o ciclo de Carnot descreve uma situação em que um motor reversível absorve uma quantidade de calor Q1 de um reservatório a temperatura T1 e elimina uma quantidade de calor Q2 para um reservatório a temperatura T2, o que implica que 2 2 1 1 T Q T Q = . Nesta relação T é a temperatura absoluta, medida em Kelvin e um reservatório de calor é um sistema, como um lago, que é tão grande que a sua temperatura não muda quando o calor envolvido no processo considerado passa para dentro ou para fora do reservatório. O resultado de Carnot vale para qualquer motor reversível. Qualquer motor real elimina mais energia Q2 para um reservatório a T2 que um motor reversível. Suponha que tenhamos um reservatório de água quente. Podemos tomar uma quantidade de calor Q1 desse reservatório e convertê-lo em trabalho? Somente se tivermos um lugar à temperatura mais baixa T2 onde possamos eliminar alguma parte do calor. Um motor não pode realizar trabalho simplesmente removendo calor de um reservatório a uma temperatura fixa. Esta é uma maneira de se exprimir a segunda lei da Termodinâmica: “Para converter calor em trabalho, precisamos pelo menos de dois lugares com temperaturas diferentes. Se tomarmos Q1 à temperatura T1 devemos eliminar Q2 à temperatura T2.” A segunda lei da Termodinâmica tem sido exprimida de muitas maneiras diferentes. Sucintamente, se pode exprimir assim: “É impossível construir um dispositivo que opere, segundo um ciclo, e que não produza outros efeitos, além da transferência de calor de um corpo quente para um corpo frio.” Em outras palavras: “É impossível a construção de um dispositivo que, por si só, isto é, sem intervenção do meio exterior, consiga transferir calor de um corpo para outro de temperatura mais elevada.” Enunciado de Clausius. Deste enunciado, pode-se estabelecer a impossibilidade de "refrigerador ideal". Assim, todo aparato refrigerador, para retirar calor de um ambiente, produzirá mais calor externamente. Fig. 35: Parte do calor absorvido é usada para realização de trabalho e a outra é rejeitada para o ambiente Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 175 “É impossível construir um dispositivo que opere num ciclo termodinâmico e que não produza outros efeitos além do levantamento de um peso e troca de calor com um único reservatório térmico.” Em outras palavras: “É impossível a construção de um dispositivo que, por si só, isto é, sem intervenção do meio exterior, consiga transformar integralmente em trabalho o calor absorvido de uma fonte a uma dada temperatura uniforme.” “É impossível haver transferência espontânea de calor de um objecto frio para outro mais quente.” Exemplificando, pode-se imaginar um automóvel movendo-se a 50 km/h. Ele é subitamente travado. Toda a sua energia cinética será eventualmente transformada em energia interna das pastilhas de travagem (e outras fontes de atrito) que se aquecerão. Finalmente, uma certa quantidade de calor será transferida para o meio ambiente. Entretanto, se eu ceder esta mesma quantidade de calor ao automóvel (ou ao sistema de travagem), ele nunca vai poder sair do lugar. Enunciado de Kelvin-Planck. Deste enunciado, tem-se como consequência a impossibilidade do "motor ideal". Toda a máquina produzirá energia a ser utilizada com desperdício de parte desta em calor a ser perdido. “Para transformar calor em energia cinética, utiliza-se uma máquina térmica, porém esta não é 100% eficiente na conversão.” Alguns autores chamam tal enunciado como "postulado" de Kelvin e assim o descrevem: Nenhum processo é possível, onde o único resultado é a absorção de calor de um reservatório e sua conversão completa em trabalho. Destas definições pode-se associar também o enunciado de Carnot: Para que uma máquina térmica realize trabalho são necessárias duas fontes térmicas de diferentes temperaturas. Fig 36: Máquina térmica ideal, em todo o calor absorvido é em 100% transformado em trabalho mecânico 176 Lição nº24 Entropia e a sua lei de crescimento Introdução Caro estudante, nesta lição você deverá entender o sentido físico do conceito entropia como mais uma grandeza que caracteriza um sistema termodinâmico. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 3 horas para estudar esta lição. Ao completer esta lição, você será capaz de: Objectivos Explicar os conceitos de entropia e variação de entropia de um sistema; Calcular a entropia numa transformação reversível; Formular a lei de crescimento da entropia; Terminologia entropia de um sistema, e variação da entropia, lei de crescimento da entropia, entropia do universo Até então servimo-nos das grandezas: Energia interna, Trabalho, Calor e Temperatura para descrever processos em sistemas de muitas partículas, que ocorrem com trocas de energia com outros sistemas. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 177 Vamos introduzir uma nova grandeza denominada entropia que é uma variável de estado termodinâmico útil para a descrição de processos térmicos. A segunda lei da Termodinâmica por exemplo pode ser vista de forma mais técnica através do conceito de entropia. Suponhamos que um sistema, à temperatura T, absorve uma pequena quantidade de calor dQ, durante uma transformação reversível infinitesimal. Então a entropia do sistema é definida como a grandeza cuja variação é calculada pela relação: T dQdS = ... Variação da entropia, onde: dS é a variação infinitesimal da entropia de um corpo, dQ é a quantidade infinitesimal de calor trocado com o corpo num processo reversível e T a temperatura absoluta do corpo. • A variação dS é >0 se o processo é irreversível e o sistema absorve calor dQ>0. • A variação dS é <0 se o sistema ceder calor dQ<0. • A variação dS é = 0 se o processo reversível for adiabático (dQ=0). Como já nos referimos anteriormente, a entropia está relacionada com o 2º Princípio Termodinâmico. Consideremos o Ciclo de Carnot em que é válido escrever 1 2 1 2 T T Q Q −= , ou 2 1 2 1 T T Q Q −= ou ainda 0 2 2 1 1 =+ T Q T Q , onde T1 e T2 são as temperaturas dos reservatórios quente e frio respectivamente Se tivermos n reservatórios, teremos também n temperaturas Ti (i=1,2,3,...,n) Então será válido escrever: 0=∑ i i T Q 178 Para diferenças infinitesimais de temperaturas entre as isotermas podemos escrever: 0=∫ T dQ 0===Δ ∫∫ T dQdSS ... Variação da entropia num processo reversível. Para um processo não cíclico, isto é, em que um sistema passa de um estado para outro, por meio de uma transformação reversível, avariação da entropia do sistema é: ∫=−=Δ 2 1 12 T dQSSS Unidades da Entropia: [S]= 1J.K-1 A entropia é uma grandeza que caracteriza o estado do sistema, como a energia interna, a temperatura, etc, e é independente do processo como o sistema atinge esse estado. Por isso diz-se que a entropia é uma grandeza de estado. Exemplo: Processo reversível A variação de entropia ΔS é a mesma tanto se o sistema execute o processo reversível (a) ou (b), porque em ambos os casos os estados inicial e final coincidem. Numa transformação adiabática reversível dQ= 0, dS= 0 ou seja, S= constante. Conclusão: Para um processo cíclico reversível, à temperatura T e quantidade de calor infinitesimal dQ a variação da Entropia é igual a zero. Fig. 37: Numa transformação reversível a variação de entropia depende apenas dos estados inicial e final. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 179 Da equação T dQdS = , pode-se escrever dSTdQ ⋅= , ou ∫ ⋅= 2 1 dSTQ , onde Q é o calor absorvido para passar do estado 1 para o estado 2 através de uma transformação reversível e o integral depende da transformação do sistema. Representemos uma transformação reversível através de uma linha num diagrama em que as ordenadas correspondem à Temperatura T e as abcissas à entropia S. TdS será a área de uma faixa de largura dS, pelo que Q é igual à área sob a curva que vai de S1 até S2. Num ciclo, o calor líquido absorvido pelo sistema corresponde à área interior do ciclo nas coordenadas (T, S). Este calor é também igual ao trabalho realizado pelo sistema durante o ciclo, uma vez que 0=ΔU para qualquer ciclo. int 2 1 AdSTQ =⋅= ∫ (Aint ... área interior) Conclusão: As transformações adiabáticas reversíveis ocorrem sem variações de entropia e são por isso chamadas “isentrópicas”. Fig. 38: Relação entre a temperatura e a variação da entropia de um sistema numa transformação reversível 180 Entropia do Gás Ideal Imaginemos um processo quase estático, reversível, arbitrário, em que o sistema, um gás ideal, absorve uma certa quantidade de calor dQ. Pela 1ª Lei da Termodinâmica: pdVdUdWdUdQ +=+= . Para o caso do gás ideal pode-se escrever: dTCdU V= e V nRTp = Então: V dVnRTdTCdQ V += . Vamos dividir os dois membros por T: V dVnR T dTC T dQ V += ou V dVnR T dTC T dQdS V +== . Vamos admitir, para simplificar, que CV= constante Então ∫∫∫ +==Δ 2 2 2 1 V V T T V V dVnR T dTC T dQS ou 1 2 1 2 lnln V V nR T T CS V ⋅+⋅=Δ ... Variação da entropia de gás ideal numa transformação em que o sistema passa do estado inicial V1 e T1 para o estado final V2 e T2. → ΔS na expansão isotérmica de um gás ideal Numa expansão isotérmica 12 TT = Então: 1 2ln V V nR T dQS ⋅==Δ ∫ Como 12 VV > , a variação de entropia é 0>ΔS . Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 181 Neste processo, uma quantidade de calor +Q sai de uma fonte térmica e entra no gás. Esta quantidade de calor é igual ao trabalho feito pelo gás. 1 22 1 ln2 1 V V nRT V dVnRTpdVWQ V V ⋅==== ∫ ∫ → ΔS na expansão livre de um gás ideal Na expansão livre não há realização de trabalho por parte do gás, pois o outro recipiente está vazio e não há trocas de calor com o ambiente. Nestas condições a energia interna do gás não varia: fi UU = , assim como fi TT = . Se o processo fosse reversível, como dQ é igual a zero, então dS seria também igual a zero. Porém, este processo não é reversível. É nenhum momento o sistema voltará ao estado inicial. 1 2ln V V nRSgás ⋅=Δ , o que coincide com ΔS numa expansão isotérmica. Como neste processo, as vizinhanças do gás não sofrem alterações, podemos dizer que ΔS do gás, é igual a ΔS do universo. 1 2ln V V nRSU ⋅=Δ Uma vez que 12 VV > . ΔSU (no universo), neste processo irreversível, é positiva. Fig.40: Quando se abre a válvula o gás se expande livremente sem realização de trabalho. Conclusão: Num processo irreversível, a entropia do universo aumenta. 182 Se o volume final na expansão livre fosse menor que o inicial, a entropia do universo sofreria uma diminuição. Mas esta situação não acontece, portanto: Exemplos Calcular a entropia na expansão livre de 0,75 mol de um gás ideal de V1= 1,5 L até V2= 3 L. Resolução: A variação de entropia neste processo irreversível é equivalente à variação de entropia num processo isotérmico de V1 até V2. No processo isotérmico, calcula-se primeiro Q= W e depois ΔS= Q/T. JKmolJmol V V nR T W T QSgás /32,42ln)./31,8)(75,0(ln 1 2 ==⋅===Δ Resposta: A variação de entropia é de 4,32 J/K. → ΔS num processo isobárico Quando uma substância é aquecida de T1 até T2, a pressão constante, o calor absorvido dQ está relacionado com a variação de temperatura dT por dTCdQ p= Integrando de T1 até T2, calculamos a variação da entropia da substância: 1 22 1 ln2 1 T T C T dTnRTpdVCS p T Tp ⋅===Δ ∫ ∫ Esta equação se aplica a um resfriamento, em que T2< T1. Neste caso ln(T2/ T1) é negativo o que resulta numa variação negativa de entropia. Lei de Crescimento da Entropia A lei de conservação de energia (1ª Lei da Termodinâmica) não é suficiente para determinar os processos irreversíveis que podem ocorrer no universo. A maior parte dos processos são irreversíveis e ocorrem apenas num só sentido e não no sentido oposto. Exemplos: Conclusão: Em qualquer processo, a entropia do universo nunca diminui. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 183 1) O calor passa da temperatura mais elevada para a temperatura mais baixa. 2) O gás vai de uma pressão mais elevada para uma pressão mais baixa. Quando todos os sistemas que participam num processo são tomados em conta, de forma a constituírem um sistema isolado maior, teremos Qi como calor absorvido ou cedido pela componente i à temperatura Ti. A grandeza ∑ i i T Q só será zero se o processo puder ser considerado totalmente reversível. Quando o processo ou parte deste é irreversível ∑ i i i T Q é sempre maior que zero. Assim 0>∑ i i i T Q ou 0≥Δ=Δ ∑ i iSS , onde ΔSi é a variação de entropia de cada componente do processo. Esta afirmação constitui o 2º Princípio da Termodinâmica e determina juntamente com o 1º Princípio (Lei de Conservação de Energia) os processos que podem ocorrer num sistema isolado e, por extensão, no universo. Isto quer dizer que: “os processos ocorrem apenas quando a energia se conserva e no sentido em que a entropia do sistema global aumenta ou permanece constante.” Conclusão: Para processos num sistema isolado, cujos subsistemas ou componentes trocam calor, a entropia total do sistema permanece constante se os processos são reversíveis, e aumenta se os processos são irreversíveis. Fig. 41: Ciclo de Carnot num gráfico que relaciona temperatura e entropia (T(S)). 184 O ciclo de Carnot num diagrama T(S) toma a seguinte forma: 0 2 2 1 1 =+=Δ T Q T Q Sciclo , 1 1 T Q S AB =Δ e 2 2 T Q SCD =Δ O trabalho W realizado pelo sistema durante o ciclo é: )()( 1221 SSTTAQW rectângulo −⋅−=== Por outro lado )( 1211 SSTQ −⋅= Dividindo: )( )()( 121 1221 1 SST SSTT Q W −⋅ −⋅− = , teremos η= − = 1 21 1 )( T TT Q W ... Rendimento de uma máquina térmica. Exercícios Auto-avaliação 1. Determine o aumento da entropia S de 1 mole de gás ideal monoatómico no processo reversível do do aquecimento isobárico do gás desde C00 até .2730 C 2. Determine a variação SΔ da entropia na expansão isotérmica de oxigénio de massa gm 10= desde volume 251 =V litros até 1002 =V litros. 3. Determine a variação SΔ da entropia quando 6g de hidrogénio que ocupa um volume de 20 litros à pressão de Pa510.5,1 passam a ocupar o volume de 60 litrosà pressão de .10.1 5 Pa 4. 6,6g de oxigénio expandem-se por via isobárica até duplicar o seu volume. Determine a variação da entropia nesta expansão. 5. 10g de oxigénio é aquecido desde Ct 01 20= até .15002 Ct = determinar a variação da entropia se o aquecimento é : a) isocórico; b) isobárico. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 185 Feedback 1.ΔS= 8,64 J/K 2. ΔS= 3,6 J/K 3. ΔS= 27,39 J/K 4. ΔS= 4,16 J/K 5. a) ΔS= 13,01 J/K e b) ΔS= 18,3 J/K 186 Lição nº 25 Entropia e Desordem. 3º Princípio da Termodinâmica Introdução A lição número 25 destina-se ao estudo da relação entre a grandeza entropia e o conceito de desordem como forma de sua manifestação. Para facilitar a compreensão o fenómeno de desordem é analisado nesta lição através de exemplos ilustrativos. Tempo de estudo Você poderá precisar de aproximadamente 1:30 horas para estudar esta lição. Ao completar esta lição, você será capaz de: Objectivos Estabeler a ligação entre a entropia, a desordem de um sistema e a 3ª lei da Termodinâmica Terminologia Entropia, desordem, 3ª lei da Termodinâmica, Princípio de Nernst, Temperatura absoluta e o zero absoluto, Constante de Boltzman. A entropia está associada à desordem. Dizer que a entropia tende a aumentar, equivale a dizer que a desordem do sistema tende a aumentar. Exemplo: 1. Expansão livre: Consideremos uma expansão livre num recipiente evacuado em que as moléculas de um gás que estavam Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 187 contidas na metade deste se espalham por todo ele. É lógico que neste processo a desordem aumentou pois afirmar agora que “as moléculas estão na caixa” é menos preciso que dizer que as moléculas estão na metade A ou B da caixa. Dizemos assim que a desordem ou a entropia aumentam. 2. Dois corpos A e B à temperaturas diferentes TA e TB alcançam uma temperatura de equilíbrio TM quando colocados em contacto. De novo o sistema tornou-se mais desordenado pois reduziu-se a nossa capacidade de classificar as moléculas de A e B. Passaremos a dizer que todas as moléculas do sistema composto por A e B tem a temperatura T o que tem menos peso que dizer “Todas as moléculas de A tem a temperatura TA e todas as moléculas de B tem a temperatura TB”. 3. Mais um exemplo de um processo irreversível que é completamente composto de eventos reversíveis. Considere duas câmaras 1 e 2, separadas por uma parede. São atiradas 25 bolas na câmara 1, cada uma com 5J de energia cinética. As bolas irão colidir com as paredes da câmara, e entre elas. Se as paredes da câmara forem perfeitamente duras, ou seja se as colisões forem elásticas, então a energia cinética média das bolas na câmara 1 continuará a ser 5J, mesmo que algumas bolas ganhem e outras percam energia nas colisões. Suponha que são atiradas outras 25 bolas na câmara 2, cada uma com 15 J de energia cinética. A energia cinética média dessas bolas continuará a ser 15 J. Enquanto as câmaras 1 e 2 estiverem separadas, as bolas serão "quentes" na câmara 2, e "frias" na câmara 1. Se fizermos um buraco na parede divisória para que as bolas possam passar de um lado para outro, e esperarmos um tempo longo o suficiente, a energia cinética média das bolas em cada lado será aproximadamente 10 J. Existirão bolas quentes com energias acima de 10 J, e bolas frias com energia abaixo de 10 J, em cada lado da parede divisória, mas a média será 10 J. A probabilidade de que as bolas quentes se agrupem numa das câmaras e as frias noutra é praticamente nula, apesar de que não impossível. Existe um grande número de possibilidades de distribuição da energia entre as bolas e todas elas igualmente possíveis. Por exemplo é tão possível que cada bola tenha 10 J de energia cinética, quanto um das bolas tenha 500 J e todas as outras tenham 0 J. Porém, existem muito mais formas de se distribuir a energia no primeiro caso, e de modo que a energia cinética média seja aproximadamente igual em ambas as câmaras, do que quando a energia cinética é três vezes maior numa do que noutra. Conclui-se com base neste exemplo que muito mais possibilidades existem de se ter um sistema com uma distribuição desordenada do que ter um sistema bem ordenado. A desordem é mais provável do que ordem. 188 Esta conclusão constitui o sentido físico do conceito entropia. A quantidade de desordem corresponde ao número de vezes que um sistema pode ser reordenado de modo que o ambiente externo veja o sistema da mesma maneira. Foi observado que o logaritmo da quantidade de número de reordenamentos é proporcional à entropia. Podemos definir a entropia como o logaritmo da desordem vezes uma constante de proporcionalidade. Quando mudamos a entropia de uma substância por um valor TQS Δ=Δ , mudamos a desordem da substância. A entropia sempre aumenta, porque uma grande quantidade de desordem é, por definição, mais provável do que se o sistema for ordenado. Podemos assim verificar se a entropia de um sistema aumentou ou diminui medindo as a transferência de calor para, ou de uma substância ou decidindo se a desordem aumentou ou diminuiu. Segundo a teoria cinético-molecular, a relação entre a entropia e a desordem é definida quantitativamente pela equação de Boltzmann, que interliga a entropia (S) e o parâmetro de desordem W . Ludwig Boltzmann provou que a entropia termodinâmica S de um sistema estava relacionada ao número W que representa a probabilidade a probabilidade (termodinâmica) de um sistema permanecer no estado em que se encontra relativamente à todos os outros estados possíveis de se encontrar neles. Então a expressão para a entropia é WkS log= , onde a constante de proporcionalidade k é denominada constante de Boltzmann. A entropia aumenta quando calor passa de um objecto mais quente para um objecto mais frio. Por exemplo quando o gelo derrete, a água é Conclusão: A entropia como grandeza de estado fornece o grau de desordem de um sistema. Fig.42: a) Identificação das moléculas nas câmaras 1 e 2 separadamente mais precisa do que em b) onde as moléculas se misturam através da abertura na parede de separação. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 189 aquecida, a água entra em ebulição, a água evapora, etc. Assim como quando um gás passa de um recipiente sob alta pressão para outro de pressão mais baixa, quando usamos um aerossol, ou tiramos ar de um pneu. Por outro lado a entropia diminui quando a água congela. Apesar de que a 2ª lei da Termodinâmica nos diz que a entropia total do universo sempre aumenta, a entropia pode diminuir em algum lugar, desde que ela aumente em algum outro lugar pelo menos da mesma quantidade. A entropia de um sistema diminui somente quando ele interage com outro sistema cuja entropia aumenta no processo. Isto significa, portanto, que os processos naturais em sistemas fechados tendem para uma entropia maior. Dizer que a entropia total de um sistema fechado sempre aumenta é uma outra maneira de expressar a 2ª lei da Termodinâmica. "Todo sistema físico sempre evolui, espontaneamente, para situações de máxima entropia." ou "Todo sistema natural, quando deixado livre, evolui para um estado de máxima desordem, correspondente a uma entropia máxima." 3º Princípio Termodinâmico O 3º Princípio da Termodinâmica também chamado teorema de Nernst foi formulado entre 1906 – 1912 por Walter Nernst. O 3º Princípio da Termodinâmica diz-nos a entropia de um sistema a uma temperatura do zero absoluto é uma constante. À temperatura do 0 (zero) absoluto, a entropia de todos os sistemas que se encontram em equilíbrio, possui o valor zero independentemente do valor das outras grandezas de estado ou da fase do estado. Chama-sefase do estado de uma determinada substância à região em que a substância se apresenta uniforme do ponto de vista das suas propriedades físicas e químicas. Propõe que na temperatura de ZERO ABSOLUTO, 0o Kelvin, que equivale a cerca de -273,15o Centígrados no sistema Celsius, o estado de agitação molecular, a Entropia, tende a Zero, o que significa que a ordem molecular é máxima e energia é mínima. O 3º Princípio Termodinâmico diz-nos que é impossível, com qualquer série de operações, reduzir a temperatura absoluta de um sistema, até os 0 graus Kelvin. Por outras palavras, o zero absoluto é impossível. 190 Importa porém referir que essa temperatura não se verifica na natureza e jamais se conseguiu atingi-la mesmo em laboratório. Sumário Resumo da Unidade Assunto Definições e Equações importantes Rendimento de uma máquina térmica Uma máquina que absorve Qq unidades de calor de um reservatório quente e efectua W unidades de trabalho e descarrega Qf unidades de calor de um reservatório frio, tem como rendimento 1 2 1 1 Q Q Q Wn −== Coeficiente de Eficiência de um refrigerador tW Q COE 2= Máquina de Carnot. Ciclo de Carnot e seu rendimento A máquina de Carnot é uma máquina reversível ideal que opera em ciclo entre dois reservatórios de calor. 1. Expansão isotérmica quase-estática com absorção de calor na temperatura T1. 2. Expansão adibática quase-estática. 3. Expansão isotérmica quase-estática com rejeição de calor na temperatura T2. 4. Expansão adibática quase-estática com retorno ao estado inicial. 1 2 1 2 11 T T Q Q c −=−=η Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 191 Processos reversíveis e irreversíveis São processos reversíveis aqueles que ocorrem nas seguintes condições: 1. Ausência de trabalho de atrito, de forças viscosas ou de outras forças dissipativas que produzem calor. 2. As trocas de calor só se fazem isotermicamente. 3. O processo é quase-estático, de modo que o sistema evolui sempre em estado de equilíbrio (ou em estado infinitesimalmente próximo do estado de equilíbrio. Processos irreversíveis podem ocorrer em um sentido mas não ocorrem, espontaneamente, no sentido oposto. A 2ª Lei da Termodimâmica e os seus enunciados equivalentes. Kelvin: “É impossível construir um dispositivo que opere, segundo um ciclo, e que não produza outros efeitos, além da transferência de calor de um corpo quente para um corpo frio.” Clausius: “É impossível a construção de um dispositivo que, por si só, isto é, sem intervenção do meio exterior, consiga transformar integralmente em trabalho o calor absorvido de uma fonte a uma dada temperatura uniforme.” “É impossível haver transferência espontânea de calor de um objecto frio para outro mais quente.” Enunciado da Entropia: “Em qualquer processo, a entropia do universo (sistema mais a a vizinhança) tende sempre a aumentar”. 192 Entropia A Entropia é medida da desordem de um sistema. A diferença de entropia entre dosi estados vizinhos é calculada pela expressão T dQdS = A variação de entropia do sistema pode ser positiva o negativa. 3º Princípio Termodinâmico O 3º Princípio Termodinâmico diz-nos que é impossível, com qualquer série de operações, reduzir a temperatura absoluta de um sistema, até os 0 graus Kelvin. Por outras palavras, o zero absoluto é impossível. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 193 Unidade 6 Gases Reais e Mudanças de fase Introdução As características dos gases ideais que estudamos nas unidades anteriores correspondem ao comportamentos da maioria dos gases existentes na natureza quando submetidos a altas temperaturas e baixas pressões. O estudo das características dos gases reais nas condições normais de temperatura e pressão constitui o objectivo desta última unidade do presente módulo. Nesta unidade você vai especialmente conhecer a equação de estado dos gases reais, assim como debruçar-se sobre os processos de mudanças de fase. Tempo de estudo Esta unidade comporta apenas 3 lições. O seu estudo deverá durar cerca de 10 horas. Ao completer esta unidade, você será capaz de: Objectivos Descrever as características do modelo gás real e difefrenciá-lo do modelo gás ideal; Escrever e interpretar a equação de estado do gás real ou equação de Van der Waals; Representar e explicar o gráfico p(V) para o modelo do gás real; Explicar o significado dos pontos crítico e triplo; Aplicar a equação de estado do modelo do gás real na resolução de problemas; Explicar o funcionamento do dispositivo de Joule – Thomson para a liquefação dos gases; Interpetar o sentido da grandeza entalpia e determinar a entalpia de um sistema; Descrever e explicar o funcionamentodo dispositivo de Carl von 194 Linden para a liquefacção dos gases; Explicar os processos de mudanças de estado de uma substância a partir do diagrama p(T) de fases. Terminologia gás real ou modelo do gás de Van der Waals, equação de estado do gases reais, constantes de Van der Waals, isotermas, ponto crítico, ponto tríplo, pressão crítica, temperatura crítica, volume crítico, liquefacção dos gases, efeito Joule-Thomson, coeficiente de Joule-Thomson, Carl von Linden, temperatura de inversão, entalpia, variação da entalpia, estado sólido, estado líquido e estado gasoso, mudanças de fase, curva de evaporação,curva de sublimação, curva de solidificação,. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 195 Lição nº 26 Gases reais e suas características Introdução Sabemos que a temperaturas elevadas e a baixas pressões podemos tomar qualquer gás como um gás ideal. O gás ideal é apenas um modelo do gás real nessas condições. Nesta lição pretende analisar o comportamento dos gases nas condições normais de pressão e temperatura. Tempo de estudo Esta lição tem a duração de 2 horas. Ao completer esta lição sobre as características do gases reais, você será capaz de: Objectivos Descrever as características do modelo gás real e diferenciá-lo do modelo gás ideal; Esvrever e interpretar a equação de estado do gás real ou equação de Van der Waals; Representar e explicar o gráfico p(V) para o modelo do gás real; Terminologia gás real ou modelo do gás de Van der Waals, equação de estado do gases reais, constantes de Van der Waals, isotermas, ponto crítico, ponto tríplo, pressão crítica, temperatura crítica, volume crítico, Contrariamente ao modelo gás ideal, o gás real apresenta as seguintes características: 196 1) As partículas já não são consideradas como pontos materiais mas sim como pequenas esferas de diâmetro d; 2) As partículas possuem volume próprio; 3) Entre as moléculas do gás actuam forças de interacção; 4) A energia interna U do gás não depende só da temperatura, mas do volume do gás. A maior parte dos gases em condições de alta temperatura e baixa pressão se comportam como um gás ideal. O limite desse comportamento surge quando a temperatura é suficientemente baixa ou a pressão suficientemente alta. Exemplo Todos os gases à uma dada pressão e volume podem se liquefazer quando a temperatura baixa até um determinado valor. Este fenómeno já não é reflectido (não é válido) na equação de estado do gás ideal e isso pode se verificar na própria equação. Se para p≠ 0 a temperatura baixar até T= 0K, então segue-se V= 0, o que na realidade não é possível, pois todos os gases são constituídos por moléculas ou átomos e ocupam um certo volume. Equação de estado do gás real – Equação de Van der Waals A equação de estado que se ajusta às características do gás real, isto é, que descreve o comportamento dos gases reais à qualquer temperaturase pressão foi desenvolvida por Johannes Diderick Van der Waals (1837 - 1923). Ele reconheceu que devido às características essenciais dos gases reais (especialmente a existência de forças intermoleculares e o volume próprio das moléculas), a equação do estado do gás ideal devia ser corrigida, introduzindo duas constantes a>0 e b>0 cujos valores dependem da substância. Estas constantes ficaram também conhecidas como constantes de Van der Waals e são determinadas experimentalmente para cada gás. A equação de estado para o gás real tomou assim a seguinte forma: ( ) RTbV V ap =−⋅⎟ ⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎜ ⎝ ⎛ + μ μ 2 , onde μV é o volume molar, ou ( ) nRTnbVV anp =−⋅⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ + 2 2 , onde n é o número de moles. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 197 O termo ( )nbV − significa que ao volume ocupado pelo gás é subtraído o volume próprio das moléculas, sendo b uma constante proporcional ao volume das moléculas. A equação de estado para o gás real, equação de Van der Waals descreve o comportamento de muitos gases reais sobre um grande intervalo de temperatura, de maneira mais exacta que a equação de estado dos gases ideais. Unidades de b: [b] ( ) mol cm 23 O termo ⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ + 2 2 V anp surge por se ter em consideração as forças intermoleculares de atracção que reduzem a pressão do gás sobre as paredes do recipiente. Estas forças variam com o quadrado do número de partículas por unidade de volume ou com o inverso do quadrado do volume por mole. Unidade de a: [a]= ( ) 2 23 1 mol atmcm ⋅ As moléculas no interior do gás sofrem interacção em todas as direcções e sentidos de modo que a resultante dessas forças se anula. Porém nas paredes as moléculas são puxadas para dentro pois as forças de interacção se fazem sentir apenas de um lado. Isto contribui para o aumento da pressão no interior do gás, reduzindo-se nas paredes do recipiente. Então, da equação de estado do gás ideal: nRTpV = , vamos substituir V por nbV − . Obtemos então ( ) nRTnbVp =− , ou ( )nbV nRTp − = . À esta pressão vamos subtrair 2 2 V an . ( ) 2 2 V an nbV nRTp − − = ; ( )nbV nRT V anp − =+ 2 2 ou ( ) nRTnbV V anp =−⋅⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ + 2 2 ... equação de estado do gás real. Fig. 43: No interior do gás as forças intermoleculares exercem-se em todas as direcções. 198 Exemplos Calcular a) o volume de 1 mol de vapor de água, a 100ºC 1 1 atm de pressão, admitindo que seja um gás ideal, b) a temperatura que o vapor terá, ocupando o volume calculado na alínea anteior a 1 atm, admitindo que obedeça à equação de van der Waals, com a= 0,55 Pam6 e b= 30 cm2. Feedback a) V= 3,09.10-2 m3 b) T= 373,6 K A representação gráfica das isotermas de Van der Waals em P(V) resulta nos seguintes gráficos: O gráfico da figura …. mostra que com a diminuição da temperatura as isotermas se diferenciam cada vez mais das do gás ideal. Conclusão: A equação de estado do gás ideal é um caso particular em que a=0 e b=0. Fig.44: Isotermas de um gás real. Quanto mais se vai subinda o gás ganhando características de um gás iseal. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 199 Para todas as temperaturas Ti<Tcr as isotermas apresentam um máximo e um mínimo, o que quer dizer que existe uma região na qual a redução do volume do gás origina uma queda de pressão, o que estaria representando uma contradição clara com a experiência. Pois, a experiência mostra que a redução do volume à temperatura constante origina sempre um aumento da pressão. Na realidade o que acontece é o que está representado no gráfico da figura ….. No ponto P1 o gás começa a liquefazer-se. Até a liquefacção total do gás a isoterma do gás real é paralela ao eixo dos volumes. O ponto P2 representa o fim da liquefacção de todo o gás. Continuando a reduzir o volume, acontece que, a partir de P2, surge um crescimento rápido da pressão, sabido que é, que os líquidos não se deixam comprimir. Os pontos P1 e P2 de todas as isotermas Ti<Tcr ficam situados dentro da linha tracejada que delimita a área na qual a condensação é possível. A área por baixo da linha tracejada representa o trabalho de liquefacção do gás. Para Ti>Tcr as isotermas de Van der Waals aproximam-se cada vez mais às isotermas do gás ideal. Por isso todo o gás real à temperaturas superiores à sua temperatura crítica, pode ser descrito por aproximação através da equação de estado do gás ideal. Fig. 45: Gráfico p(V) de um gás real. 200 A isoterma da temperatura crítica (gráfico B) é caracterizada pelo facto de que os pontos P1 e P2 do segmento 21PP coincidem num mesmo ponto onde a tangente à curva é paralela ao eixo dos volumes. À este ponto dá-se o nome de “Ponto Crítico”. Ao ponto crítico pertencem: o valor da pressão crítica Pcr, e do volume crítico Vcr. Os valores críticos de cada gás real podem ser determinados com ajuda das constantes a e b do gás. Rb aTcr 27 8 = ; 227b apcr = ; nbVcr 3= ; bcr 3 1 =ρ Conclusão: Para cada gás existe uma temperatura crítica Tcr acima da qual mesmo que as pressões sejam tão elevadas, a liquefacção (condensação) do gás é impossível. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 201 Lição nº 27 Liquefacção dos gases. Efeito de Joule - Thomson Introdução Esta lição aborda o processo de liquefacção dos gases com base na experiência de Joule-Thomposon e do dispositivo de Carl von Linden. Tempo de estudo Você poderá precisar de 2 horas para o estudo desta lição. Ao completer esta lição, você será capaz de: Objectivos Explicar o funcionamento do dispositivo de Joule – Thomson para a liquefação dos gases; Interpetar o sentido da grandeza entalpia e determinar a entalpia de um sistema; Descrever e explicar o funcionamentodo dispositivo de Carl von Linden para a liquefacção dos gases; Terminologia liquefacção dos gases, efeito Joule-Thomson, coeficiente de Joule- Thomson, entalpia, variação da entalpia, temperatura de inversão, Carl von Linden. A liquefacção dos gases foi inicialmente pesquisada por Joule na sua experiência conhecida como experiência de Joule. A experiência consistia no seguinte: 202 No recipiente A foi introduzido ar seco, enquanto que no recipiente B foi criado um vácuo. Os dois recipientes foram introduzidos num banho. Abrindo a válvula V o ar se expandia livremente de A para B e se esperava até que se estabelecesse um equilíbrio entre os dois. Com ajuda de um termómetro media-se a temperatura da água antes e depois da expansão do gás. Nesta experiência Joule não pôde registar a variação da temperatura na água de modo que concluiu que “Expandindo livremente um gás sem que haja realização de trabalho, não ocorre variação de temperatura”. Não há variação da energia interna do gás, pois nenhum trabalho foi realizado, nem pelo gás nem sobre ele, assim como não houve troca de calor com a água no recipiente exterior. Portanto 0=dU , assim como 0=dT . Joule concluiu assim que a energia interna deve depender somente da temperatura e não do volume. A experiência de Joule foi melhorada mais tarde em colaboração com William Thomson. Enquanto que na experiência de Joule fora usada uma válvula para deixar o ar passar para o recipiente B, nas novas experiências fora usada uma parede porosa a separar os dois recipientes, com o objectivo de reduzir o fluxo do ar do recipiente A com alta pressão para o C de baixa pressão. Deste modo, quando o gás emerge em C já alcançou o equilíbrio e a sua temperatura pode ser directamente medida. O sistema inteiro está termicamente isolado de modo que o processo é adiabático e Q= 0 no processo adiabático de expansão há uma queda de temperatura. Suponhamos que a pressão inicial em A sejap1, a pressão final em C seja p2 e os volumes dos gases à essas pressões sejam V1 e V2. O trabalho feito sobre o gás, forçando-o através da parede porosa é então p1V1 e o trabalho feito pelo gás na expansão para o outro lado é p2V2. Logo o trabalho resultante feito sobre o gás é 2211 VpVpW −= . Fig.46: Experiência de Joule-Thomson para a liquefacção dos gases Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 203 Do primeiro princípio termodinâmico, encontramos que WQUUU +=−=Δ 12 Sendo 0=Q , então 221112 VpVpWUU −==− ou 111222 VpUVpU +=+ Assim as somas pVU + representam uma função de estado chamada Entalpia (H). Assim 12 HH = ... o efeito Joule-Thomson ocorre à entalpia constante. Donde pVUH += ... entalpia A Entalpia é uma função de estado cuja variação é igual à quantidade de calor obtida pelo sistema no processo isobárico. Sabemos que o trabalho termodinâmico infinitesimal é dado por pdVdW = . No processo isobárico, onde p=const , podemos escrever ( )pVddW = . Substituindo dW na equação do primeiro princípio termodinâmico ( dWdQdU −= ) teremos ( )pVddQdU −= ou seja ( )pVddUdQ += onde ( ) 43421 H pVUddQ += ; dHdQ = . Consideremos um coeficiente µ chamado coeficiente de Joule- Thomson, definido como a razão entre a variação de temperatura e a variação da pressão à entalpia constante. Hp T ⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ ∂ ∂ =μ Esta quantidade µ é medida directamente da variação de temperatura ∆T do gás, quando sofre uma queda de pressão ∆p através da parede porosa. O coeficiente µ pode ser positivo ou negativo conforme as características do gás. Quando µ>0 significa que o gás arrefece na expansão. Quando µ<0 significa que o gás aquece na expansão. A maioria dos gases à temperatura ambiente fica resfriada durante a expansão de Joule-Thomson. 204 Exemplos Se o Hidrogénio for expandido à uma temperatura inicial de superior a 193K ele aquece. Mas se for primeiro resfriado abaixo de 193K e depois expandido então é possível resfriá-lo pelo efeito Joule-Thomson. A temperatura de 193K (=-80.15ºC) para o hidrogénio corresponde a µ=0 e é chamada temperatura de inversão de Joule-Thomson para o hidrogénio. Para o Hélio, por exemplo, CKTinv º15,23538 −== . A temperatura de inversão é uma temperatura que estabelece o limite quanto ao comportamento do gás na expansão de Joule-Thomson. Para o ar, o oxigénio (O2), o nitrogénio (N2) e o dióxido de carbono (CO2), a temperatura de inversão é superior à temperatura ambiente. A figura … mostra um dispositivo melhorado para a liquefacção dos gases, baseado no efeito de Joule-Thomson, construído por Carl von Linde (1842 - 1934) em 1895. Funcionamento do dispositivo: • O compressor C comprime o ar ao longo do primeiro tubo até cerca de 50~200atm. • Ao atingir o estrangulamento D o ar se expande passando para o balão. • O ar já esfriado em cerca de 20-40ºC volta a ser aspirado pelo compressor através do canal 2. • No seu caminho para o compressor este ar arrefecido por sua vez arrefece o ar comprimido no canal 1. Conclusão: Na expansão de Joule-Thomson um gás real aquece quando a sua temperatura se situa acima da temperatura de inversão e arrefece se a sua temperatura se situa abaixo da temperatura de inversão. Fig.47: Liquidificador de Carl von Linde Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 205 • O ar no canal 2 volta a ser comprimido e enviado pelo canal 1 para o estrangulamento, onde ao se expandir volta a resfriar, e assim sucessivamente. A repetição deste processo permite que se atinja a temperatura de liquefacção do ar (Tar≈83K para a pressão p=760Torricelli). 206 Lição nº 28 Mudanças de Fase. Diagrama de Fase Introdução A lição 28 é a última deste módulo. Nela você vai rever e aprofundar o que sem duvida já sabe das classes anteriores sobre os estados físicos da matéria. É do seu conhecimento que as substâncias podem se apresentar em três estados diferentes dependendo da temperatura e pressão a que se encontrem submetidas. Tempo de estudo Esta lição tem a duração de 1 hora. Ao completer esta lição, você será capaz de: Objectivos Explicar os processos de mudanças de estado de uma substância a partir do diagrama p(T) de fases. Representar o diagrama p(T) para a água; Terminologia Ponto tríplo, fase de estado, estado sólido, estado líquido e estado gasoso, mudanças de fase, curva de evaporação,curva de sublimação, curva de solidificação,. Falar de fase de estado é mesmo que falar de estado físico da matéria. Um volume de ar, duplo de Whisky ou um cubo de gelo, constituem cada um, uma dada fase de substância. Sob determinadas condições uma substância pode sofrer uma mudança de fase. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 207 Consideremos uma massa de água contida num frasco hermeticamente fechado. A curva OC é a curva da pressão do vapor de água em relação à temperatura. Aquecendo o frasco com água, produz-se neste vapor de água cuja densidade vai aumentando com o aquecimento, diminuindo em simultâneo a densidade da água. No ponto C as duas densidades se igualam. À este ponto dá-se o nome de ponto crítico. No ponto crítico e acima deste deixa de haver distinção entre líquido e gás. À temperaturas mais altas que a temperatura do ponto crítico o gás não se liquefaz mais seja qual for a pressão. Esfriando o frasco fechado, o vapor se condensa no líquido, passando pelos pontos da curva OC até se atingir o ponto O. O ponto O é chamado ponto triplo. O ponto triplo, é o ponto onde coexistem em equilíbrio os estados sólido, líquido e gasoso de uma substância. Toda a substância tem um único ponto triplo numa certa temperatura e pressão. À temperaturas e pressões abaixo do ponto triplo, o líquido já não pode coexistir em equilíbrio com os outros 2 estados. A curva AO é a curva da pressão em relação a temperatura do sólido em equilíbrio com o vapor. A passagem directa do estado sólido para vapor chama-se sublimação. A curva OB é a curva de fusão, que separa a região da fase sólida da região do líquido. Para o caso da água, a curva de fusão mostra-se Fig.48: Diagrama P(T) de fases da água 208 inclinada para esquerda, o que significa que a sua temperatura de fusão diminui com o aumento da pressão. Porém, para a maioria das substâncias a temperatura de fusão cresce com aumento da pressão e a curva OB ganha uma inclinação para a direita. A curva de fusão não tem um limite. À pressões menores que a pressão do ponto triplo, a água só se pode encontrar nos estados sólido ou gasoso. Nesta condição o gelo não pode ser liquefeito por aumento de temperatura. Sumário Assunto Definições e Equações importantes Modelo do gás real ou gás de Van der Waals • As partículas já não são consideradas como pontos materiais mas sim como pequenas esferas de diâmetro d; • As partículas possuem volume próprio; • Entre as moléculas do gás actuam forças de interacção; • A energia interna U do gás não depende só da temperatura, mas do volume do gás. Euação de Estado de Van der Waals A equação de estado de Van der Waals descreve o comportamento dos gases reais sobre o intervalo amplo de temperaturas e de pressões, levando em conta o espaço ocupado pelas moléculas do gás e também as interacções intermoleculares. ( ) nRTnbV V anp =−⋅⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ + 2 2 Ponto tríplo Ponto tríplo é o ponto único, definido por certa temperatura e certa pressão, em que fases gasosa, líquida e sólida de uma substância coexistem em equilíbrio. Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 209 Exercícios Auto-avaliação 1. Calcule o trabalho feito por um gás de Van Der Waals: ,))(/( 22 nRTnbVVanp =−+ durante uma expansão isotérmica de 1V a .2V 2. A partirda equação de estado de um mole de um gás de van Der Waals, deduzir a fórmula analítica para a entropia do gás ).tan( teconsCv = 3. Um contentor de volume 32mV = contém o gás real oxigéniode massa a Kgm 4= a uma temperatura Ct 029= . Qual será a sua pressão? Como variará a sua pressão, se por aquecimento a sua temperatura duplicar a volume constante. Considere mola /031,0= e ./351,1 22 molatmb = dê as unidades de pressão em atm. 4. Através de aquecimento um gás real varia a sua temperatura, aumentando de 1t até .2t Neste processo, a pressão interna de influência mútua das moléculas faz variar o volume do gás de 1V até .2V Calcule a variação da energia interna do gás. Feedback 1. ⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ −⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ − − = 1 22 1 2 lnln V Van nbV nbVnRTW 2. ⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ =Δ 0 2 lnln P PanCS v 3.p≅ 0,2.10-2 atm 4. ( ) ⎥ ⎥ ⎦ ⎤ ⎢ ⎢ ⎣ ⎡ ⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ −+⎟⎟ ⎠ ⎞ ⎜⎜ ⎝ ⎛ −+−=Δ 2 1 2 2 2 21 12 1111 2 3 VV ban VV anVV n P R U 210 Bibliografia Leitura − TIPLER, P. A; Física Mecânica, Oscilações e Ondas Termodinâmica – Volume 1 4ª Edição, LTC Editora; Rio de Janeiro RJ 2000 − BUECHE, F. e HECHT, E; Física Nona Edição, McGraw-Hill; Lisboa 2001 − CENGEL, Y. e BOLES, M. Termodinâmica, Quinta Edição, McGraw-HillS. Paulo 2007 − HALLIDAY, R. e RESNICK, R.; Physics Parts 1 and 2, Third Edition, John Wiley & Sons, New York 1960 Termodinâmica e Física Molecular: 2 a Lei da Termodinâmica 211