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UNIVERSIDADE PAULISTA GEOVANNA SOARES DE SOUZA -RA:N398388 TURMA: PS3P42 HELLEM JULIA ALMEIDA FONSECA - RA: N461179 TURMA: PS3P42 KENYA NOLETO DE SOUSA - RA:N4470E1 TURMA: PS3P42 YASMIN BEATRICE A. DE ANDRADE - RA: D892304 TURMA: PS3Q42 PSICOLOGIA CONSTRUTIVISTA: Análise do grafismo e análise cinematográfica. GOIÂNIA 2020 1 GEOVANNA SOARES DE SOUZA -RA:N398388 TURMA: PS3P42 HELLEM JULIA ALMEIDA FONSECA - RA: N461179 TURMA: PS3P42 KENYA NOLETO DE SOUSA - RA:N4470E1 TURMA: PS3P42 YASMIN BEATRICE A. DE ANDRADE - RA: D892304 TURMA: PS3Q42 PSICOLOGIA CONSTRUTIVISTA: Análise do grafismo e análise cinematográfica. Trabalho avaliativo em atribuição à nota parcial do segundo bimestre (NP2), da disciplina Psicologia Construtivista, inserida na grade do curso de graduação em Psicologia apresentado à Universidade Paulista. Professora:Grisiele Sillva GOIÂNIA 2020 2 SUMÁRIO Sumário…………………………………………….…………………………....3 Introdução (Parte Um)……………………...…………...………………………..4 Desenvolvimento………………………………………...……………………… .5 Análise dos desenhos………………………………………….……………….....7 Conclusão………………………………………………………………………...10 Introdução (Parte Dois)…………………………………………………………..12 Desenvolvimento……………………………………………………………....…13 Empirismo X Construtivismo…………………………………………… .13 Aspectos Familiares e Escolares………………………………………. ..14 Pressuposto Teóricos Piagetiano………………………………………....16 Desenhos………………………………………………………………...19 Conclusão………………………………………………………………………...20 Referências ………………………………………………………………………21 3 INTRODUÇÃO (Parte Um) O presente trabalho tem como objetivo proporcionar aos discentes a oportunidade de empregar os conhecimentos teóricos aplicados em sala aos desenhos colhidos pela professora Grisiele. A partir das teorias de desenvolvimento do grafismo infantil propostos por Luquet e Lowenfeld, iremos analisar os desenhos interligando-os com os estágios de Piaget. É fundamental destacar a importância dos estudos do grafismo, pois, a partir deles pode-se entender em que estado do desenvolvimento cognitivo e social a criança se encontra, os desenhos são meios de se compreender a realidade interna e visão de mundo que a criança constrói. No artigo “A casa: cultura e sociedade na expressão do desenho infantil” a autora Sonia Grubits faz uso da aplicação e interpretação de desenhos para compreender a realidade de crianças pertencentes a comunidades indígenas, tendo-se um exemplo da aplicabilidade dessa interpretação. Essa e muitas outras produções científicas fazem uso da análise de desenhos, destacando a importância dos mesmos. Os desenhos que serão analisados foram aplicados em crianças de 2 a 15 anos de idade, serão 18 desenhos, dois de cada criança para que não haja equívocos. As categorias dos desenhos são: representações de família (1) e desenho livre (2). 4 DESENVOLVIMENTO Os desenhos infantis possuem caráter fundamental para análise e entendimento da atual fase de desenvolvimento biopsicossocial em que a criança se encontra, pois, através deles pode-se ter acesso a forma com que esta representa o mundo e como o sente, demonstrando seus conflitos e desejos. Segundo Sílvia Helena Virote de Souza, especialista em educação: ‘Ao desenhar, a criança expressa seus sentimentos, seu pensamento e suas vivências, fazendo a interpretação do mundo, além de estimular a inteligência, desenvolver a linguagem e o pensamento lógico.’ ( Souza, Silvia Helene Virote. Revista Thelma, 2012) A partir das ideias proposta de Luquet e Lowenfeld assimilando-as com as de Piaget é possível perceber como a criança se encontra na fase de desenvolvimento. Os resultados advindos dos estudos dos intelectuais Luquet e Lowenfeld auxiliaram na melhor compreensão do desenvolvimento do grafismo infantil. Ambos propuseram fases que as crianças passam até alcançar um desenho com cunho maduro que representa o mundo de forma mais similar ao adulto. Segundo esses pensadores, os desenhos possuem fases características de desenvolvimento, que acompanham a ordem dos estádios propostos por Piaget. Expondo e intercalando respectivamente as fases propostas por Luquet e Lowenfeld, tem-se: A primeira fase é ao do realismo fortuito que corresponde ao período sensório motor, ocorre por volta dos dois anos de idade. Esse período dividido em duas fases: a primeira a criança desenha pelo prazer do movimento corporal, por poder desempenhar a ação de rabiscar em um intuito de imitar as atividades de escrever e desenhar dos adultos (Luquet, 1969). Já a segunda parte é onde se inicia a representação, a criança começa a querer assemelhar seus rabiscos com formas já conhecidas e então ocorre a transição para o próximo nível de 5 desenvolvimento. Segundo Bombonato e Farago (2016): “Do fazer involuntário, a criança passa para o processo de premeditação, que seria a descoberta do grafismo passando-o para a intencionalidade.” De acordo com Lowenfeld (1976) a primeira fase se denomina Rabiscação desordenada ou garatujas, nessa fase a criança tem cerca de um ano e meio e desenha pelo prazer da ação, atendendo as suas expectativas motoras. Esse período se divide em dois também, onde a segunda parte é a Rabiscação longitudinal. Nessa parte é possível perceber que a criança começa a incrementar significado e intenção aos desenhos e demonstrando figuras isoladas. A segunda fase é o Realismo fracassado, nesse momento, apesar das limitações nas representações, a criança começa a transpor seu mundo. Mostrando através de desenhos, que possuem traços imprecisos, o que ela entende, vê e conhece, por essa falta de habilidade ainda em reprodução que surge o nome de realismo fracassado. Ocorre por volta dos três a quatro anos de idade. Para Lowenfeld o próximo estágio é o Pré-esquemático, de acordo com Bombonato e Farago (2016): “Neste estágio a figuração está presente, pelo fato da criança fazer relações “entre desenhos, pensamentos e realidade” (SOUZA, 2010, p. 22). As garatujas não perdem seus sentidos, apenas torna as mesmas reconhecíveis e com significados. Isto porque, a criança experimenta todos os seus símbolos e repete diversas vezes para chegar a um conceito de forma”(pg 17, 2016) A criança inicia a representação de objetos e figuras humanas possuindo a intenção de representar e aplicar um simbolismo aos seus desenhos. Seus traços possuem exageros e omissões da realidade, mas é a partir dessas tentativas que essa se desenvolve mentalmente. Esse autor ainda destaca que nesse período as crianças fazem muito uso da narração. A próxima fase é chamada de Realismo Intelectual, nesse estágio a representação da criança alcança a forma de retratar o que conhece e vê com mais realismo de fatos, ela desenha o que sabe e se aproxima mais das figuras reais (Luquet, 1969). São desenvolvidos nos desenhos as características de rebatimento, transparência, planificação e mudança do ponto de vista, todos esses auxiliam na criação de um desenho mais “avançado” intelectualmente. Período desenvolvido entre dez a dozeanos. A figuração esquemática proposta por Lowenfeld, destaca os aspectos de transparência nos desenhos e o uso das formas geométricas, a linha de base também está bem desenvolvida. É desse período que as relações sociais e culturais começam a aparecer nos desenhos das crianças. 6 O último estágio é chamado Realismo Visual, de acordo com Luquet, é onde a criança, por volta dos 9 anos consegue expor em seus desenhos as significações da cultura em que está inserida (Mèredieu 2006). Ela então começa a se assemelhar ao olhar expresso pelos adultos. Lowenfeld (1976) expõe que no período de Figuração realista, a criança se torna detalhista entendendo e aplicando as proporções corretas dos objetos e o uso de sombras para aperfeiçoar os desenhos. Outro aspecto importante alcançado nessa fase é que a criança desenvolve a ideia de coletivo, se vendo inserido em uma sociedade. Piaget também elaborou uma série de estágios que a criança passa no desenvolvimento do grafismo, estes são ligados às características do próprio desenvolvimento da inteligência. As fases dos desenhos propostas por ele, de um modo geral, é bastante semelhante aos autores citados anteriormente, exceto pelo fato de ter apresentado um total de cinco fases, ou seja, uma a mais comparado aos outros que apresentaram apenas quatro. São elas: ● Garatujas (desordenada/ordenada): inicia-se na fase sensório motora (0-2 anos) passando pelo estágio pré-operacional (dois a sete anos), estendendo-se até os 3 ou 4 anos. ● Pré-esquematismo (2-7 anos); ● Esquematismo (7 a 10 anos); ● Realismo (que surge normalmente no fim das operações concretas); ● Pseudo-Naturalismo (a partir dos 10 anos); ANÁLISE DOS DESENHOS Os primeiros desenhos analisados foram produzidos pela criança “A”. Os desenhos 1 e 2 demonstram traços de pouca intencionalidade, a criança faz uso de rabiscos para representar sua família. Durante o processo de produção dos desenhos a criança vai narrando, de forma misturada os fatos,um dia em família. Através dos traços apresentados de rabiscação percebe-se o movimento desordenado que a criança do estádio sensório- motor está tentando desenvolver. Ainda que no desenho 1 ela tenha sido instruída a representar a família, no desenho 2 que é uma modalidade livre, ela permanece demonstrando seus traços de uma exploração desordenada dos seus movimentos sobre o papel.Entendemos que a criança está nas fases de Realismo fortuito (Luquet, 1969) e Rabiscação desordenada (Lowenfeld, 1976/1977). Depreende-se que a criança “B” encontra-se na segunda etapa do realismo a criança começa a ter intenção na hora de desenhar, trazendo o intuito de expressar suas ideias. Os rabiscos começam a ser desenhados separados na folha e as cores começam a ser usadas com o objetivo de melhor 7 representação. O desenho juntamente com relato da criança, retrata traços como do pré-esquema 2°fase, segundo Piaget. A relação entre o pensamento e a realidade da criança é desenvolvida através da história onde ele se preocupa de nomear os símbolos apresentados como a bicicleta. Os movimentos corporais, ao relatar a história, deixa clara a relação da realidade e do emocional. A partir dos traços analisados representando as figuras humanas com omissão ou exagero das características supomos que a criança “c” encontra-se nas fases de realismo fracassado e pré esquemático. Por ainda apresentar limitações nas representações mentais seus desenhos possuem incapacidade sintéticas, ou seja, ainda não consegue agrupar com coerência os traços.Segundo a narrativa, a criança expressa características de animismo e artificialismo ao relatar o cansaço da boneca durante o passeio. A criança “D” tem 14 anos. Segundo Piaget ela se encontra no último estágio do desenvolvimento, chamado de operatório formal, no qual o sujeito apresenta aspectos do grafismo nos estágios do realismo visual (Luquet, 1969) e figuração realista (Lowenfeld, 1976). Para Piaget, a criança transfere para o papel parte de sua subjetividade, exemplificado pelo modo no qual a criança desenha a si mesma dentro de sua casa, dançando e cantando. Os traços são mais detalhistas, apresentando aspectos do realismo. Nessa mesma parte, podemos também perceber características de transparência, de acordo com Lowenfeld. Segundo a narrativa, o 2-D desenho foi inspirado na cena de um seriado, algo que aparentemente foi bastante marcante para ela. Podemos identificar então, algumas características do Pseudo Naturalismo, como também a ideia de abstração onde a criança coloca a frase “maktub” , esta representa a ideia de “estava escrito/tinha que acontecer”. Quanto ao “Sujeito E”, podemos supor que ele está na fase de operações concretas, onde os esquemas conceituais e operações mentais dependem de objetos e situações reais, tal como mostra o desenho 1, no qual ele retrata uma experiência pessoal: o passeio com a família, que aparentemente, era algo comum entre o sujeito e seus familiares antes da pandemia. Embora o desenho 2 (livre) possa parecer fantasioso -característica bastante presente no estágio anterior, pré operatório - em razão dos elementos de contos de fadas, como castelos e princesas, a história que ele conta é coerente e seus traços são coordenados de tal forma que é possível deduzir do que se trata mesmo sem a narrativa da criança, característica do realismo intelectual. Neste desenho conseguimos observar que o ‘’Sujeito F’’ demonstra estar na etapa realismo fracassado, assim reproduzindo a imagem com a intenção figurativa simbólica de forma exagerada e artificial — como círculos e formas ovais para caracterizar braços, cabeça e orelha por exemplo — com a visão proposta pelo mesmo. Foi possível perceber a presença da figuração pré-esquemática em função dos desenhos dispersos que não se relacionam entre si. Conforme o relato da criança 8 observamos na explicação a respeito do ursinho de pelúcia que está associa ao brinquedo um status de vida, característica de artificialismo e animismo, comum nesta fase do desenvolvimento. Em função dos desenhos analisados, podemos supor que o “Sujeito G” encontra-se, provavelmente, no início do estágio operatório concreto, pois através dos desenhos e da narrativa da criança ao relatar sua relação com a boneca, observa-se o abandono do animismo — característica muito forte no estágio anterior, pré operatório. Ainda no desenho 1,que ela exibe um dia de jogo de futebol de seu irmão quando ela era mais nova dá para compreender que a criança percebe em si mesma uma mudança em relação a idade e maturidade, ela expressa compreensão em relação aos pais que trabalham muito e que ajuda dentro de casa como pode, mantendo o quarto organizado e lavando a louça. Nessa fase do desenvolvimento, ocorre a diminuição do egocentrismo, bem como a criança começa a manifestar condutas de cooperação. No desenho 2-G a criança retrata a si mesma em um local calmo realizando a leitura de seu livro favorito, ao querer transmitir essa parte da subjetividade,dos seus gostos pessoais, assimilamos com a fase do realismo, de acordo com Piaget. Neste desenho conseguimos observar que a criança “H” desenhou a vivência dele com futebol e família sem dificuldade em conseguir integrar as duas fases em um único desenho.O “Sujeito H” também se apropria de legendas para indicar quem são as pessoas presentes no desenho, por essa razão, é possível supor que ele está no estágio de realismo intelectual. Em ambos os desenhos, é notório as diferentes noções de posicionamento, distanciamento, profundidade e também de proporções. No primeiro desenho o campo de futebol se mostra distante, e não há preocupação em preencher todos os espaços, enquanto no segundo desenho, ocorre o oposto, o campo se torna elemento principal ocupando toda a folha. Podemos entender diante desta divergência de ideia expressa no papel, que essa criança encontra-se em transição de fases do pré operatório para o operatório formal (Piaget,1971-1977), demonstrando características do estágio do grafismo realismo fracassado e realismo intelectual. A criança “I’’ retrata repetidas vezes objetos específicos vinculado a um desenho que ele gosta tentando aperfeiçoar-lo, fazendo uso de desenhos espalhados para preencher o espaço da folha esses não possuem uma sequência ordenada, esses traços são comuns no estágio pré-esquemático. Nos desenhos observamos características do Realismo fracassado por desenhar a faca de formas diferentes não colocando-as em um grupo, sem as integrar em um todo (Luquet, 1969), outra característica dessa fase é desenhar o que ela conhece e vê, desenhando com certa desordem os objetos. 9 CONCLUSÃO Diante dos desenhos analisados e com toda a assimilação do conteúdo apreendido pode-se verificar a importância dessa prática para a atuação do psicólogo, assim como para outros profissionais ligados a área do desenvolvimento, como é útil fazer uso desses meios para alcançar e entender como a criança se encontra na evolução do grafismo. Assim como para detectar quais as experiências que a mesma está passando e as interpretando. Essa análise possibilita entrar em contato com a realidade da criança, auxiliando até a perceber possíveis situações de abusos. Os autores referenciais usados para o atual trabalho, Luquet; Lowenfeld e Piaget; desenvolveram conceitos a respeito das características fundamentais do desenvolvimento do grafismo infantil. Os três propuseram em suas teorias ideias semelhantes a respeito dos traços apresentados em cada estágio, demonstrando, assim, que todas as crianças passam por essas etapas para alcançar o desenvolvimento pleno de suas habilidades de representação, mesmo que algumas passem mais rápido por determinada fase, pois o fator sociocultural é de grande relevância para o desenvolvimento do sujeito. 10 UNIVERSIDADE PAULISTA GEOVANNA SOARES DE SOUZA -RA:N398388 TURMA: PS3P42 HELLEM JULIA ALMEIDA FONSECA - RA: N461179 TURMA: PS3P42 KENYA NOLETO DE SOUSA - RA:N4470E1 TURMA: PS3P42 YASMIN BEATRICE A. DE ANDRADE - RA: D892304 TURMA: PS3Q42 PSICOLOGIA CONSTRUTIVISTA: Análise do grafismo e análise cinematográfica. GOIÂNIA 2020 11 INTRODUÇÃO (Parte Dois) “Como estrelas na Terra”, é um filme indiano lançado em 2007 dirigido por Aamir Khan e Amole Gupte. O filme retrata a história de um garoto entre 8 e 9 anos que estuda em uma escola de ensino tradicional e possui grandes dificuldades na aprendizagem. Ishaan Awasthi (personagem interpretado pelo ator Darsheel Safary) tem dislexia e está repetindo a terceira série pela segunda vez, seus pais e os professores não têm ciência de seu déficit, sempre o julgam como preguiçoso ou desinteressado, acabam deixando de perceber sua habilidade e gosto pelos desenhos. Após muitas reclamações dos professores, o pai de Ishaan resolve mandá-lo para um colégio interno, longe da família. O garoto fica deprimido e acaba parando de fazer o que mais gosta: pintar. Neste colégio um professor substituto na disciplina de artes, tem um método de ensino diferente dos demais professores, ele nota as particularidades de cada aluno e as respeita, mostra-se preocupado com as dificuldades de Ishaan, e quer reverter essa realidade. Abordaremos este filme, a partir da teoria de Jean Piaget e os estágios do desenvolvimento,evidenciando aspectos da aquisição de conhecimento,construção da inteligência e desenvolvimento do grafismo. 12 DESENVOLVIMENTO EMPIRISMO x CONSTRUTIVISMO Piaget contribuiu muito para as práticas educativas com suas pesquisas sobre o desenvolvimento humano, como os estágios do conhecimento e a construção da moralidade. Antes do surgimento da perspectiva construtivista proposta por ele, havia na época duas fortes teorias antagônicas de aprendizagem: O inatismo e o empirismo. O Inatismo entende o conhecimento como pré-formado. Essa doutrina acredita que o sujeito nasce com estruturas prontas e que são atualizadas durante o desenvolvimento. Esta forma de explicação prioriza a hereditariedade, concebendo a aprendizagem como um fator maturacional. Desta forma, há um determinismo biológico do qual não se pode escapar (FELIPE, 1998). O Empirismo por sua vez, focaliza as experiências numa perspectiva unitária cujo foco está no ambiente. Na medida em que o sujeito entra em contato com este ambiente, acumula experiências e torna-se humano. Aqui, o desenvolvimento é subordinado à aprendizagem, visto que a criança, ao ser considerada "tábula rasa", somente progride pela ação de determinantes externos (BECKER, 2003). Considerando que a base fundamental da escola é a educação, pode-se dizer que ambas as teorias ainda estão fortemente enraizadas nas instituições de ensino, em especial aquelas que seguem um modelo de ensino tradicional. Uma vez que esse modelo é bastante abordado no decorrer do filme, podemos exemplificar isso em uma cena onde Nikumbh está reunido com os demais educadores. Ele é questionado sobre seus métodos de ensino, por cantar e tocar flauta durante as aulas. Um dos professores presentes decide alertá-lo sobre o quanto o diretor gosta de disciplina, e que as crianças ali não são como as de Tulip, uma escola — na qual Nikumbh também leciona — para crianças “retardadas e anormais” segundo suas próprias palavras. “Pode fazer qualquer experimento lá. Não faz a menor diferença. Eles não tem futuro mesmo”. O inatismo defende esse ponto de vista exposto pelo professor, colega de Nikumbh . Segundo Juliane Paprosqui (2017), O ser humano traz suas potencialidades através de heranças hereditárias pré-determinadas a criança sempre será a mesma, seu comportamento já vem pré-determinado, ou seja, se é uma criança agressiva, sempre será assim, se é inteligente não precisa estimular para ir além, da mesma forma que se apresenta algum tipo de comprometimento cognitivo, nada pode ser feito diante dessas características imutáveis. Afinal, já nasceu assim. O empirismo por sua vez, tende a considerar a experiênciacomo algo que se impõe por si mesmo, como se fosse impressa diretamente no organismo sem que uma atividade do sujeito fosse 13 necessária à sua constituição. (Becker, 1998, p.12 ) Ou seja, ambas teorias — embora sejam distintas — salientam que o sujeito é passivo do conhecimento. Desse modo, a teoria construtivista de Piaget surge então como “junção” de ambas as teorias, por isso também é conhecido como “caminho do meio”. O fator biológico é importante — porém é insuficiente para determinar o desenvolvimento da inteligência humana —, tal como as experiências, pois segundo Piaget “Sem o contato com o mundo externo não há como produzir conhecimento”. ASPECTOS FAMILIARES E ESCOLARES O filme retrata a história de um menino de nove anos, Ishaan Awasthi, que apresenta problemas de aprendizagem com relação à leitura e a escrita. Na escola, era o pior aluno, incapaz de acompanhar o mesmo ritmo dos colegas. Em casa, sua relação familiar também não era das melhores, uma vez que o irmão mais velho era o completo oposto, os pais inevitavelmente acabavam comparando-os. Apesar das dificuldades nesses quesitos, o personagem tem uma imaginação muito fértil e grande talento para a pintura, vivendo em uma realidade interna totalmente diferente do tradicional estilo da sua família e da sua escola. Ele demonstra grande curiosidade pelo mundo, porém não possui foco e tudo tira sua atenção, sempre achando algo mais interessante para admirar e viajar em sua imaginação. Neste estágio, de acordo com Piaget (2003), o indivíduo inicia o processo de reflexão, ou seja, pensa antes de agir. O filme representa claramente quando Ishaan estava resolvendo uma prova de matemática, para ele resolver a conta de multiplicação ele usou algo que ele conhecia como o sistema solar sabia que o terceiro planeta era a Terra e o nono planeta Plutão ele procurou uma lógica dentro do parâmetro de conhecimento porém a noção de espaço e tempo dele estava sendo desenvolvida, como observado o garoto colidia com frequência nos objetos ao seu redor (Como Estrelas na Terra, Toda Criança é Especial filme (minutos 37:20-39:50). Então o pensamento baseia-se mais no raciocínio do que na percepção, sendo o pensamento concreto, ou seja, só existe em base naquilo que existe e pode ser observado. “Para se conseguir ler e escrever é essencial relacionar sons com símbolos, saber o significado das palavras. Às vezes as crianças podem ter problemas adicionais como dificuldade em seguir ordens .Como vai para página 65, capítulo 9, parágrafo 4, linha 2. ou 14 coordenação mecânica ruim ou péssima. Porque não consegue relacionar o tamanho velocidade e distância ’’(Filme: Como estrelas na Terra 1:36:40-1:44:00 O pai do protagonista, preocupado com o desempenho do filho na escola — que já havia repetido de ano e certamente iria repetir novamente —, resolve mudar para uma escola no formato de internato, com características bem tradicionais e um sistema rígido de ensino, na esperança que tal iniciativa iria resolver as dificuldades da criança. Na verdade, a sugestão de que deveriam trocar Ishaan de escola parte da própria diretora, que sabendo do histórico e da falta de disciplina do garoto, alega que se ele não melhorar, será expulso no próximo ano. Presumindo a incapacidade de aprendizagem de Ishaan — e reforçando o estereótipo inatista imutável mencionado anteriormente — ela sugere aos pais que procurem uma instituição para “crianças especiais”, ou seja, passando o problema adiante sem se preocupar em encontrar ou oferecer o suporte necessário para, ao menos, entender a dificuldade da criança. Na nova escola, o menino passa a sofrer com distância da sua família e com a rigidez do sistema de ensino ali adotado — incluindo castigos físicos como a palmatória—, ficando mais isolado e entrando em um estado de melancolia. Ishaan, antes alegre e espontâneo, se torna um garoto retraído, perdendo seu interesse pela pintura e suas características inerentes de desbravador do mundo e da sua imaginação. Não importava o quanto ele se esforçasse, não conseguia aprender. Quando tudo parecia perdido para o personagem principal, que se encontrava em uma situação lastimável, sem nenhuma motivação e consumido pela melancolia, um professor de artes substituto começa a trabalhar na escola com uma metodologia de ensino diferente, que desafia a metodologia tradicional do colégio e quebra vários paradigmas ali existentes. Logo no início do seu trabalho, o professor já conquista todos os alunos com o seu sistema de ensino e gera várias críticas por parte de seus colegas de trabalho, que não concordam com seu método de ensinar. Em pouco tempo o professor percebe o sofrimento do protagonista da história e começa a investigar sobre o histórico escolar daquele aluno, identificando suas dificuldades e suas potencialidades. Nikumbh se atenta aos detalhes que passaram despercebidos por todos, identificando padrões que se repetiam: Ishaan trocava letras como B com o D, escrevia os números de forma invertida, não sabia ler e nem escrever. O garoto também apresenta certa dificuldade na coordenação motora, fato que o torna mais isolado das outras crianças, por não ser tão eficiente nos jogos entre os garotos de sua idade, sendo inclusive motivo de humilhações e brigas, como pode ser visto na cena em que o protagonista vai devolver uma bola para alguns garotos e lança a bola para o lado errado, sobre o muro de uma residência, gerando um atrito com esses garotos. Ishaan tampouco conseguia realizar 15 tarefas simples como amarrar os sapatos ou abotoar a camiseta. Sintomas claros de dislexia, tal como o professor descreve à família do garoto. Sua rebeldia e indisciplina era apenas a forma como ele lidava com a frustração. O professor vai até a casa dos pais do garoto e diz o possível problema, porém os pais não entendem e prevalece a ignorância sobre o fato. Diante da não aceitação dos pais sobre o problema do filho, o professor recorre ao diretor do colégio e pede um tempo para ensinar a criança usando a sua metodologia de ensino. Nikumbh mostra algumas das obras que Ishaan fez, incluindo um barco com peças móveis feito com gravetos e um pequeno caderno onde o garoto desenhou sua história, relatando ali o sentimento de abandono ao ser deixado ali pela família - um exemplo claro que exemplifica a frase dita pelo professor em uma das cenas “De que outro modo as crianças podem expressar suas emoções, senão pela arte?”. Apesar de muito relutante, o diretor acaba cedendo à insistência do professor. Desse modo, o professor se dispõe a ajudar o aluno a desenvolver suas habilidades, sendo um facilitador e um incentivador. Para isso, o professor faz uso de diversos recursos lúdicos e imaginativos, utilizando-se da potencialidade imaginativa do protagonista para facilitar o processo de aprendizado. Até então, os demais educadores apenas avaliavam Ishaan com base nos errosgramaticais e sua incapacidade de interpretar conceitos básicos. A metodologia de Nikumbh pode ser exemplificada como um modelo da teoria construtivista, centrada no universo do personagem principal — É válido ressaltar que embora a pesquisa de Piaget seja de grande relevância na educação escolar, ele não criou um método de ensino, mas sim uma teoria sobre a construção do conhecimento —. Com os estímulos certos e sem desprezar a inteligência visual e artística nata do garoto, aos poucos Ishaan começa a aprender a ler e escrever, progredindo gradualmente e surpreendendo os pais e professores, que o elogiam fortemente ao final do filme. O ambiente que antes era de repressão, passa a ser de aprendizado. Com a ajuda do professor, Ishaan supera as dificuldades e retoma sua paixão pela arte, voltando a ser a criança alegre e imaginativa que sempre foi. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS PIAGETIANOS Piaget, teórico responsável pela elaboração da teoria Epistemologia Genética, propôs em seus fundamentos fases do desenvolvimentos pelas quais todas as crianças passam para alcançar a evolução da inteligência. As fases de desenvolvimento são: período sensório-motor (0 a 2 anos), pré-operatório (2 a 7 anos), operações concretas (7-11 a 12 anos) e operatório formal ( a partir de 12 anos). 16 No período sensório-motor a criança possui uma ideia de indissociação entre o eu e o meio, e a partir da organização psicológica dos aspectos perceptivos, motores, intelectuais, afetivos e sociais ela constrói a realidade em que está inserida de forma mais voltada, inicialmente, para o autoconhecimento. O pré-operatório a criança inicia a aplicação dos esquema simbólicos, ou seja, a capacidade de representação se desenvolve nessa fase juntamente a linguagem. A criança pré operatória tem a tendência de misturar aspectos da realidade a fantasia, utilizando de explicações animística e artificialista, outro aspecto é o egocentrismo social. Na fase das operações concretas o pensamento já se torna lógico, sendo a realidade estruturada a partir da razão e então surgem esquemas mentais verdadeiros, conceituais.A criança desenvolve a capacidade de atitude crítica onde procura explicações lógicas e evita contradições.O declínio do egocentrismo é perceptível. O último período é o operatório formal, a criança possui em seu repertório intelectual esquemas mentais conceituais e abstratos, não precisando mais estar em contato direto com os objetos fazendo uso de deduções lógicas na criação de hipóteses. Segundo Cunha (2002) Piaget, defende que a aquisição do conhecimento se dá a partir do desequilíbrio do sujeito com o meio em que vive, ou seja parte das necessidades de aprender algo que possibil[te a manutenção da sua existência neste meio. Para ele, nossas ações biológicas são ações que nos inserem da melhor forma no meio físico,as estruturas intelectuais através da organização, agem juntas para que tenha um equilíbrio gerando a melhor adaptação ao meio ambiente. Esses processos são chamados assimilação e acomodação, também conhecidos como estruturas mentais ou cognitivas WADSWORTH (1996).A assimilação são novas estruturas criadas a partir de constructos já existentes, ou seja elas surgem através de esquemas que já são formadas por tanto permanecem armazenados, e se agregam através dos novos conhecimentos, novas experiências. “...uma integração à estruturas prévias, que podem permanecer invariáveis ou são mais ou menos modificadas por esta própria integração, mas sem descontinuidade com o estado precedente, isto é, sem serem destruídas, mas simplesmente acomodando-se à nova situação...” (PIAGET, 1996, p. 13) 17 Acomodação, é a mudança desses construtos, quando uma criança não consegue assimilar um novo estímulo, ou se cria uma nova estrutura ou modifica uma que já está ali, esse esquema resulta na submissão que as exigências do meio exterior fazem. “Chamaremos acomodação (por analogia com os "acomodatos" biológicos) toda modificação dos esquemas de assimilação sob a influência de situações exteriores (meio) ao quais se aplicam.” PIAGET (p. 18, 1996) Em toda nossa vida estamos fazendo assimilações e acomodações, porém estes processos ocorrem com mais frequências nas crianças pois a aquisição de todo e qualquer conhecimento está sendo mais trabalhado nessa fase da vida. Aspectos da assimilação fica evidente na cena (02:04:00 a 02:04:14) em que o professor Nikumbh (interpretado por Aamir Khan) o auxilia no aprendizado usando um talento que já existe com o garoto que a habilidade com as cores e desenhos, eles montam letras com massas coloridas,as escreve com tintas de diferentes cores, letras as quais Ishaan trocava na hora de escrever, segundo o filme podemos perceber que o menino começa a conhecer e codificar essas letras e também números, como mostra na cena (02:05:10 a 02:05:18) onde cada degrau da escada é um número e ele tem que somar estes segundo as coordenadas do professor, em cenas seguintes podemos perceber a acomodação de Isaah, pois ele aprende as letras e após consegue fazer leituras corretas de textos que antes não conseguiria. Segundo Piaget ocorre adaptação quando há transformação no organismo em função do meio, transformações estas que favorecem o organismo, ou seja para a melhor sobrevivência naquele ambiente.Essa adaptação é o equilíbrio entre a assimilação que traz continuidade e a acomodação que traz mudança, fundamental para que ocorra o desenvolvimento. "O organismo adapta-se construindo materialmente novas formas para inseri-las nas do universo, [a inteligência] prolonga tal criação construindo, mentalmente, as estruturas suscetíveis de aplicarem-se às do meio." (Piaget, 1936/1975c: 15-16) 18 Após o auxílio do professor Nikumbh a Ishaan, podemos perceber o garoto com expressão feliz na cena (02:06:17) ao ler uma frase completa, o que antes para ele era muito difícil e muitas vezes nem conseguia começar. DESENHOS Em várias partes da longa metragem “Como estrelas na terra” são apresentadas os desenhos feitos por Ishaan, um menino que possui dislexia, uma condição que induz a uma maior dificuldade de aprendizagem. Durante grande parte do filme as pessoas em volta do menino o consideram idiota por esse ter dificuldades nas habilidades consideradas como as mais importantes, não levando em conta suas outras capacidades que no caso são os desenhos. Em uma cena, a mãe do personagem principal, assiste um vídeo da infância de Ishaan onde aparece ele por volta de uns 2 anos brincando com a tinta (1:47:00 a 1:48:00) pode-se supor que nesse momento ele se encontrava no período de realismo fortuito (Luquet, 1969) ou na rabiscação desordenada (Lowenfeld, 1976). Nessa fase proposta ocorre no período sensório-motor, neste momento a criança desenha apenas pelo prazer do movimento, em uma forma apenas de imitar as ações dos adultos. Em outro momento temos no início do filme a cena de Ishaan fazendo uma pintura (00:33:44 a 00:34:24), no desenho é possível perceber que ele já possuiuma melhor ideia de como manusear as cores e as profundidades, supõem-se então estar no estágio de Realismo visual de acordo com Luquet (1969) ou como proposto por Lowenfeld (1976) na fase Figuração realista. Esse estágio corresponde ao operatório concreto, essa fase é caracteristicamente marcada pelo declínio do egocentrismo, a habilidade de manusear, organizar, combinar e separar os objetos e operações (Piaget, 1947). 19 CONCLUSÃO A partir da análise cinematográfica do longa metragem pode-se aplicar as ideias propostas pela teoria epigenética de piaget ao desenvolvimento do personagem principal, entendendo como funcionam as etapas da construção da inteligência no indivíduo. Os cinco estádios propostos por piaget são observados e aplicados durante o estudo do desenvolvimento da criança, no caso Ishaan, detectando como as características de cada etapa se apresentam. Ao apresentar a condição de dislexia e superar suas dificuldades de aprendizagem Ishaan torna-se um exemplo de como a concepção inatista, assim como a empirista, deixa a desejar ao ser aplicada nas formas de aprendizagem. Ressalta-se como a teoria construtivista se mostra a melhor forma no sistema de ensino para as crianças por considerar que o conhecimento não é determinado mas sim construído, ao conseguir ultrapassar as limitações biológicas sem incumbir unicamente a responsabilidade para os estímulos, conseguindo conciliar ambas as ideias e as aperfeiçoando. Torna-se visível o porquê de ser indispensável a aprendizagem dessa disciplina para a formação dos futuros profissionais por se tratar de um conteúdo que se aplica ao estudo e uma prática para a área do desenvolvimento, entendendo como acontece a estruturação do ser biopsicossocial em suas habilidades intelectuais juntamente ao aparato biológico. 20 REFERÊNCIAS: Alexandroff, Marlene Coelho. Os caminhos paralelos do desenvolvimento do desenho e da escrita. 2010, Instituto Sedes Sapientiae, BECKER, Fernando. O que é construtivismo; 2016, SP. Bertolani, J. C.; Silva, M. C. B.; Soares, J. O.; Luiz, Q. F. R. O desenvolvimento do grafismo infantil: aproximação ao pensamento de Luquet e Lowenfeld. 2019, Unip. Bombonato, Aparecida Giseli e Farago, Corrêa Alessandra. As etapas do desenho infantil segundo autores contemporâneos. 2016, Bebedouro - sp. Grubits, Sonia. A casa: cultura e sociedade na expressão do desenho infantil. 2003, Puc. Lanjonquiere, Leandro. Piaget: Notas para uma teoria construtivista da inteligência. 1997, São Paulo. Kamii, Constance. A teoria de piaget, o behaviorismo e outras teorias de educação. Mahfoud, Miguel e Sanchis, Isabelle de Paiva. Interação e construção: o sujeito e o conhecimento no construtivismo de Piaget. 2007, Cienc. Cogn. vol. 12, Rio de Janeiro. Paprosqui, Juliane; Psicologia da Aprendizagem 1° edição, Santa Maria-RS 21