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Módulo – 1 Competências socioemocionais – Principais Conceitos O que são competências emocionais? O conceito de competência socioemocional surge, em princípio, como “competência social”, e, com diferentes significados. “Segundo Ortiz, as primeiras investigações sobre relações sociais humanas, sobretudo na infância, surgiram a partir das décadas de 30 e 40, por influência da psicanálise. Nas décadas de 50 a 70, a visão comportamentalista predomina, e com ela, o interesse pelo estudo da mudança de comportamentos em função dos contextos onde ocorria o desenvolvimento da pessoa. Nas décadas de 60 a 80, surgem as contribuições do papel dos grupos sociais e da relação entre pares nos grupos de crianças e jovens.” (PORTUGAL, DGS Manual, p. 18) O conceito de competência socioemocional implica na aquisição de capacidades relacionadas à expressão e à compreensão de emoções, organização social adequada e consciência emocional, levando-se em conta a identidade, a história pessoal e o contexto social da criança e do jovem. É considerada uma competência primordial para crianças e jovens interagirem, autorregularem-se e estabelecerem relações gratificantes com os outros, com si mesmos e com o planeta. O mundo do século 21 abre novos espaços e infinitas possibilidades, e cobra que os jovens sejam protagonistas de seu próprio desenvolvimento e de suas comunidades. Porém, o ensino tradicional ainda responde com modelos criados para atender demandas antigas. Todas as áreas têm evoluído significativamente, utilizando ferramentas tecnológicas das mais sofisticadas, mas o ensino ainda demonstra características do século 18. Como podemos acelerar esta evolução? Para acompanhar este mundo hiper veloz, é necessário se não dominar, ao menos conhecer e vivenciar algumas competências, a fim de transitar e de se posicionar mais facilmente frente aos desafios deste século. Pensando nisso, a Educação, visando preparar o aluno para desenvolver estas competências, passou a incorporar em suas propostas pedagógicas, estratégias de aprendizagem mais flexíveis e abrangentes, entre elas o desenvolvimento de Competências Socioemocionais. Nesse processo, tanto crianças como adultos aprendem a colocar em prática as melhores atitudes e habilidades para controlar emoções, alcançar objetivos, demonstrar empatia, manter relações sociais positivas e tomar decisões de maneira responsável, entre outros. As competências gerais foram definidas a partir dos direitos éticos, estéticos e políticos assegurados pelas Diretrizes Curriculares Nacionais e de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores essenciais. Elas têm o propósito de contribuir para a construção de uma sociedade mais ética, democrática, responsável, inclusiva, sustentável e solidária, que respeite e promova a diversidade e os direitos humanos, sem preconceitos de qualquer natureza. São elas: A Base Nacional Comum Curricular define um conjunto de 10 competências gerais que devem ser desenvolvidas de forma integrada aos componentes curriculares, ao longo de toda a educação básica. As competências gerais foram definidas a partir dos direitos éticos, estéticos e políticos assegurados pelas Diretrizes Curriculares Nacionais e de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores essenciais. Elas têm o propósito de contribuir para a construção de uma sociedade mais ética, democrática, responsável, inclusiva, sustentável e solidária, que respeite e promova a diversidade e os direitos humanos, sem preconceitos de qualquer natureza. São elas: As competências socioemocionais, assim como as competências cognitivas, buscam preparar o indivíduo da melhor forma possível, para enfrentar seus desafios pessoais e profissionais, em um mundo cada vez menos estável. A capacidade de lidar com essa instabilidade e a capacidade de adaptar-se a novas situações pode fazer a diferença na trajetória de vida dos alunos. E, do mesmo modo que as cognitivas, as socioemocionais são competências que podem ser aprendidas e praticadas na escola, e aprimoradas durante toda a vida. Quais competências socioemocionais são mais importantes? Cada contexto e meio social é único e subjetivo, e, portanto, não existe um padrão pré-estabelecido. Cabe a cada escola ou rede de ensino diagnosticar quais suas maiores prioridades ou relevâncias e decidir. Porém, essa decisão deve levar em conta as concepções das competências socioemocionais, algumas das quais listamos a seguir, advindas das discussões do Porvir, Instituto Ayrton Senna e Inspirare (Global Education Leaders’ Program): 1) A Teoria “Big Five” organiza as competências socioemocionais em cinco dimensões: Abertura a novas experiências (tendência a ser aberto a novas experiências estéticas, culturais e intelectuais; o indivíduo aberto a novas experiências caracteriza-se como imaginativo, artístico, excitável, curioso, não convencional e com amplos interesses); . Consciência (inclinação a ser organizado, esforçado e responsável; o indivíduo consciente é caracterizado como eficiente, organizado, autônomo, disciplinado, não impulsivo e orientado para seus objetivos, batalhador); . Extroversão (orientação de interesses e energia em direção ao mundo externo e pessoas e coisas, ao invés do mundo interno da experiência subjetiva; o indivíduo extrovertido é caracterizado como amigável, sociável, autoconfiante, energético, aventureiro e entusiasmado); Amabilidade (tendência a agir de modo cooperativo e não egoísta; o indivíduo amável ou cooperativo se caracteriza como tolerante, altruísta, modesto, simpático, não teimoso e objetivo); . Estabilidade Emocional (previsibilidade e consistência de reações emocionais, sem mudanças bruscas de humor; em sua carga inversa, o indivíduo emocionalmente instável é caracterizado como preocupado, irritadiço, introspectivo, impulsivo e não-autoconfiante). . O pioneiro desta teoria é Gordon Allport que, em meados dos anos 30, buscava nos dicionários todos os adjetivos que poderiam descrever atributos de personalidade (como por exemplo: “amável”, “agressivo”, entre outros). Na década de 40, Raymond Catell reduziu a lista de adjetivos para 171 termos e depois os agrupou por afinidade em 35 conjuntos. A partir dos anos 60, pesquisas de grande amostragem detectaram que cinco fatores principais resumiam a variação existente. Os autores que mais contribuíram ao modelo à época, considerados os “pais” da teoria, foram: Lewis Goldberg, Robert R. McCrae e Paul T. Costa, Jerry Wiggins e Oliver John. 2) Partners for 21st Century Skills (Parceiros para Habilidades do Século 21): A coalizão, surgida nos Estados Unidos, relaciona uma série de competências para que jovens possam ser bem-sucedidos na universidade, na carreira e na vida. Algumas delas fazem parte do universo das competências socioemocionais, como as Habilidades para o Aprendizado e para a Inovação (criatividade e inovação, pensamento crítico e resolução de problemas, comunicação e colaboração) e as Habilidades para a Vida e a Carreira (flexibilidade e adaptabilidade, iniciativa e autonomia, habilidades sociais e interculturais, produtividade e capacidade de assumir compromissos, liderança e responsabilidade). 3) O Centro de Referências em Educação Integral também produziu referências curriculares que listam competências relacionadas ao Desenvolvimento Emocional (autoconhecimento, estabilidade emocional, resiliência, coerência, sociabilidade, abertura ao novo e responsabilidade) e ao Desenvolvimento Social (sustentabilidade econômica, sustentabilidade ambiental e sustentabilidade política). . . .... 4) Os participantes da Série de Diálogos realizada pelo Inspirare, Porvir e Instituto Ayrton Senna também produziram uma relação prioritária de competências (autoconhecimento, amabilidade, autoconfiança, autocontrole, autonomia, comunicação interpessoal e intrapessoal, cooperação, engajamento, interesse por aprender, motivação) e de valores (amor, gratidão, gentileza, humildade, senso de justiça, respeito, solidariedade). . . . Para conhecermais sobre Competências Socioemocionais na visão do Porvir e Instituto Airton Senna acesse: Quais os impactos do desenvolvimento das competências socioemocionais? Desenvolver as competências socioemocionais têm impactos positivos na aprendizagem: · Geram um ambiente mais favorável à aprendizagem; · Melhores resultados dos alunos nas disciplinas curriculares. Exemplificando Quanto mais desenvolvo minha habilidade em me manter centrado, maiores condições eu tenho de aprender algo complexo, como a matemática; ou quanto mais aprendo a manter-me emocionalmente estável, sem permitir que meus colegas me perturbem, mais me fortaleço e me torno melhor como pessoa) . Para que as relações entre professores e alunos possam promover o desenvolvimento de competências socioemocionais, é preciso que sejam individualizadas (não massificadas), afetivas e horizontais, permitindo ao educador se colocar no lugar do aluno e abrir mão do seu papel de detentor do conhecimento, para construir junto com o estudante sem deixar de ser uma referência pela presença e exemplo. Criar um ambiente de respeito, gentileza, acolhimento e confiança, que permita ao aluno se expressar socioemocionalmente e ao educador compartilhar histórias inspiradoras de superação e perseverança é primordial neste caminho. O professor deve identificar as potencialidades do aluno, sem preconceito e julgamentos, tirando-o da invisibilidade. Os educadores que trabalham com competências socioemocionais precisam desenvolver suas próprias competências socioemocionais, por meio de atividades provocadoras, que os levem à reflexão e resultem em expansão de consciência. Precisam, sobretudo, ser ouvidos. Perceber a si mesmos e a seus alunos de forma mais humana também auxilia muito neste processo. (Global Education Leaders’ Program). Assim, o desenvolvimento das competências socioemocionais depende da ação articulada de diversos agentes: a sociedade, o Ministério da Educação e as secretarias municipais e estaduais, e a comunidade escolar (família, diretores, coordenadores, professores e profissionais de apoio). Porém, deve haver na escola uma ação conjunta, sobretudo por parte da equipe gestora, que desenvolva também nos funcionários essas mesmas competências, para que todos falem a mesma linguagem. Se possível, é valido que psicólogos e psicopedagogos contribuam diretamente ou orientem a atuação desses profissionais da educação. Também cabe aos integrantes de comunidades de aprendizagem e cidades educadoras, contribuir para que essas competências sejam desenvolvidas fora da escola. (Global Education Leaders’ Program) É importante garantir que o trabalho com as competências não esteja dissociado, mas integrado a outros aspectos da educação, não separando cognição e emoção nos processos de aprendizagem (Integralidade). Precisamos sempre contextualizar, ou seja, articular conceitos e práticas com o momento e contexto social. Neste trabalho precisamos ser flexíveis, e permitir diferentes abordagens, não caindo na armadilha de criar modelos a serem seguidos ou quantificados, mas processos e ferramentas que alavanquem o desenvolvimento do indivíduo ao invés de tentar formatá-lo. Devemos lembrar que este trabalho é muito mais qualitativo do que quantitativo, embora as estatísticas sejam importantes. Trabalhar com coerência e bom senso, promovendo o alinhamento da escola em relação à proposta e preparando a equipe docente para que também vivencie e compreenda o processo, trabalhando primeiro o professor para depois envolver o aluno. Importante termos foco: clareza dos princípios, objetivos e caminhos que deverão nortear o desenvolvimento dessas competências, compreendendo que a ação realizada na escola não deve se confundir com o trabalho clínico e que termos e práticas da psicologia devem ser adequados ao universo e à linguagem escolar. Como o professor pode planejar e acompanhar as práticas pedagógicas para o desenvolvimento de competências socioemocionais? · Recomenda-se que os professores vivenciem as atividades que planeja, a fim de que desenvolvam suas próprias competências socioemocionais e compreendam melhor o efeito que terão sobre os seus alunos. Além disso, é importante que observem os seguintes passos quando planejando e acompanhando suas ações: · Planejamento: Diagnóstico de cada contexto. Embasamento teórico em pesquisas ou conhecimentos externos. Construção interdisciplinar. Envolvimento dos alunos (respeito e pactuação). Definição clara e explicitação dos resultados esperados. Flexibilidade para acolher situações ou elementos emergentes. · Acompanhamento: Auto avaliação e avaliação em grupo para promover a fala e a escuta de todos. Utilização de tecnologias para o acompanhamento e monitoramento de forma personalizada. (Global Education Leaders’ Program) • O corpo docente da unidade escolar pode se articular para fazer o planejamento e acompanhamento das práticas pedagógicas de forma coletiva, chamando os gestores e coordenadores pedagógicos para organizar o processo de planejamento e acompanhamento, garantindo espaço e tempo institucionalizados para o trabalho com as competências socioemocionais. • Também devem assegurar a produtividade do processo, propondo pautas bem amarradas, discussões focalizadas e produtos bem definidos em suas reuniões pedagógicas, ou em formações de professores. • Pode-se criar um espaço para um momento colaborativo, onde professores mais experientes apoiem os que estão com mais dificuldade. Redes virtuais de educadores facilitam discussões e trocas à distância. Parceiros externos podem ainda fortalecer e/ou complementar o trabalho da equipe escolar. • Interdisciplinaridade: Professores podem criar situações de aprendizagem por áreas de conhecimento, respeitados os objetivos de cada componente curricular que trabalhe as competências socioemocionais. Os professores de educação física devem criar estratégias diferenciadas, já que sua área de atuação é bastante específica. Exemplos de atividades que o professor pode utilizar para desenvolver competências socioemocionais em suas aulas: Elaborar os crachás: convidar os alunos a recortarem as cartolinas em quadrados com 15 cm de lado; fazerem 2 furos na parte superior; passarem um fio pelos furos, de modo a que o crachá possa ser pendurado ao pescoço, e escreverem os seus nomes nos crachás, depois de prontos. Percebendo as letras: Colocar uma música alegre e convidá-los a dançar. Quando a música parar, todos formarão duplas. Nesse momento, a orientação do docente será fundamental, pois possibilitará aos alunos perceberem nos crachás dos colegas, por exemplo, se existem letras iguais à sua. Fazer a música tocar e parar por diversas vezes de modo a que todos possam trocar de duplas e repetir a tarefa, dançando sempre para fazer a troca. Exemplos: Quais são as letras do seu nome? Quantas letras existem no seu nome e no nome dos seus colegas? Reflexão: Partilha-se o que mais gostaram na atividade. O professor pergunta sobre as decisões que foram tomadas, o que descobriram, etc. Todos se sentam em cadeiras, em círculo. O docente, também sentado, tem um novelo de lã na mão e diz “Eu sou o (nome) e gosto de...” e de seguida atira o novelo para uma das crianças ou para um dos alunos, segurando a ponta do novelo. Esse aluno prende no seu dedo o fio do novelo e volta a repetir “Eu sou o (nome) e gosto de....” E atira novamente o novelo para outro, não largando também o fio do novelo. Repete-se esta ação até chegar ao último. Neste ponto, a teia está montada. O docente reflete com todos sobre a importância de serem parte integrante da malha formada e no que pode acontecer se algum largar o seu fio, se o puxar, etc. A fase seguinte será a de desmanchar a teia, fazendo todos os movimentos no sentido contrário, em que a ação a repetir será “Eu não gosto de... e agora passo para o” (nome de quem a seguir tem o fio na mão, permitindo desmanchar a teia). Reflexão: Permanecendo em círculo, o docente começa por perguntar se gostaram departicipar. Aproveita uma resposta positiva para perguntar o porquê e se mais alguém pensou o mesmo. Com a teia montada, exploram-se as questões relativas ao fato de fazermos parte de um sistema e de como a nossa ação condiciona e pode ser condicionada pelas ações dos outros. Cada aluno deve escolher um número de 1 a 10, sem falar e sem o revelar a ninguém. Em seguida, todos se levantam e circulam cumprimentando todos os colegas. Neste processo, irão procurar quem escolheu o mesmo número através de apertos de mão, única forma de comunicação permitida (Exemplo: se eu escolhi o número 5 encontrarei um colega e apertarei a sua mão com 5 toques leves). Essa informação não deve ser revelada no decorrer da atividade. Quando se encontra alguém com o mesmo número, deve-se conservar essa informação e, em silêncio, continuar a jogar. Reflexão: Sentados em círculo, o docente convida as crianças ou os alunos a partilhar como foi participar naquela atividade, como se conservam segredos e como se sentiram quando encontraram alguém com a mesma identidade (número). Organizar as crianças em trios (um é o orientador; outro é o coletor; e outro é o receptor). O docente espalha no chão os papéis coloridos (uma cor por equipe). O desafio será recolher o maior número de papéis da sua cor, espalhados no chão, e entregar na mão do receptor. Quem recolhe os papéis (o coletor) estará de olhos vendados. Os orientadores auxiliam os percursos dos coletores através de códigos não verbais ou verbais, em função do nível de dificuldade pretendido. O objetivo é o de entregar ao seu receptor, em local fixo determinado pelo docente, o maior número de papéis da sua cor. A atividade desenvolve-se com todos os trios jogando simultaneamente e termina quando estes recolherem todos os papéis ou quando o docente determinar. Reflexão: Abordar os diferentes papéis: como se sentiram no seu desempenho? Preferiam ter assumido um outro papel? Como é dar e receber instruções no meio da confusão? Que estratégias adotar para ouvir e fazer-se ouvir? Estabelecer paralelismos com situações do dia a dia. Os alunos estão em pé em círculo. Um elemento fica no meio com os olhos vendados. Os alunos do círculo caminharão, e um, ao ser apontado pelo docente, dirá: “Bom dia!”. Se o elemento de olhos vendados identificar a voz do colega, trocará de lugar com este. Reflexão: Sentados em círculo, discutir os fatores que nos diferenciam dos outros e, por isso, nos identificam. Estabelecer paralelismos com situações do dia a dia. OBS: Estas e outras atividades estão no “Manual para a promoção de competências socioemocionais em meio escolar”. Lisboa: DGS, 2016. Disponível em https://www.alvarovelho.net/attachments/article/562/DGS_Manual_Saudemental.pdf Programas de promoção e prevenção em saúde mental A saúde mental pode ser entendida, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), como um estado de bem-estar em que cada indivíduo dá conta do seu próprio potencial intelectual e emocional para lidar com as tensões normais da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera, e ser capaz de contribuir para a sua comunidade (2014). A saúde mental, ainda segundo a Organização Mundial de Saúde, é uma das maiores preocupações da saúde pública em nível mundial (World Health Organizativo, 2004). A dimensão positiva da saúde mental é enfatizada na definição de saúde da OMS: "A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade. (...). Está relacionada com a promoção do bem-estar, a prevenção de doença mental e o tratamento e a reabilitação de pessoas afetadas por perturbações mentais”. (PORTUGAL. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde.) “Os custos envolvidos no tratamento de problemas de saúde mental são bastante elevados, por exemplo em Inglaterra, o custo dos serviços de saúde mental por criança com dificuldades complexas está estimado em 50.000£ (Clark, O’Malley, Woodham, Barrett, & Byford, 2005). A antiga diretora-geral da OMS defendeu que “um programa de saúde escolar eficaz pode ser um dos investimentos com uma melhor relação custo-benefício que uma nação pode fazer para simultaneamente melhorar a educação e a saúde” (Gro Harlem Brundtland, comunicação pessoal, 7 de outubro, 2004). Desta forma, a organização recomenda o investimento na promoção da saúde mental como estratégia de prevenção das perturbações mentais.” (COELHO et alii, 2016). Ainda segundo Coelho et alii, na área da promoção da saúde mental, alguns autores apresentam o desenvolvimento de competências socioemocionais como uma das intervenções com o melhor custo/benefício. Também têm crescido as evidências de que o desenvolvimento de competências socioemocionais é crucial para a adaptação das crianças às exigências da sociedade, de forma a adaptarem-se às necessidades complexas do crescimento e desenvolvimento. O desenvolvimento das competências socioemocionais nas práticas pedagógicas com crianças e adolescentes pode afetar positivamente seu comportamento, saúde mental e rendimento escolar. Os resultados podem incluir: Pesquisas realizadas pelo Instituto Ayrton Senna e OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) reforçam a importância do desenvolvimento das competências socioemocionais para o aumento do bem-estar e para o sucesso na prevenção dos comportamentos de risco em qualquer área da educação para a saúde. (Especial Socioemocionais. Disponível em http://porvir.org/especiais/socioemocionais/) Os programas de competências emocionais e sociais, como já vimos brevemente, surgiram na psiquiatria, e foram depois, utilizados por outras áreas de conhecimento. Os programas de educação socioemocional permitem a aquisição gradual de competências que todas as pessoas precisam ter para se adaptarem a diversas situações e atividades do dia a dia, serem bem-sucedidas no seu projeto de vida, seja na família, na escola, no local de trabalho e na relação com os outros. No contexto escolar surgem, assim, como um dos quadros de referência para a promoção da saúde mental neste meio. A teoria holística defensora do desenvolvimento integral do ser humano, assim como as teorias de Gardner (teoria das inteligências múltiplas), os trabalhos de Goleman sobre inteligência emocional, embasam teoricamente a educação socioemocional. Nesta perspectiva, as competências socioemocionais formam um conjunto complementar e interativo, incluindo fatores cognitivos, interpessoais, emocionais e sociais. Assim, a abordagem dessas competências promove ganhos, particularmente no que tange à saúde mental de toda a comunidade escolar. SAIBA MAIS Em 2013, o Conselho Nacional de Educação (CNE), do Ministério da Educação e Cultura, encomendou à UNESCO um estudo sobre a inserção intencional de práticas pedagógicas voltadas ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais como caminho para o sucesso escolar na educação básica. Em 2017, a BNCC, finalmente homologada, aponta para a importância da aquisição dessas competências. “É na interação com os pares e com os adultos que as crianças vão constituindo um modo próprio de agir, sentir e pensar, e vão descobrindo que existem outros modos de vida, pessoas diferentes, com outros pontos de vista. Conforme vivem suas primeiras experiências sociais, constroem percepções e questionamentos sobre si e sobre os outros, diferenciando-se e, simultaneamente, identificando-se como seres individuais e sociais”. (BNCC, 2017) As cinco competências essenciais em As competências socioemocionais são:, segundo REZENDE, 2017: É a capacidade de reconhecer com cuidado as próprias emoções, os próprios pensamentos e valores e como eles influenciam nosso comportamento. É a capacidade de olhar para si próprio, avaliando os pontos fortes e limitações, com um bom senso de confiança, otimismo e uma mentalidade de crescimento pessoal. É a habilidade de regular com sucesso as emoções, pensamentos e comportamentos em situações diferentes – gerenciar o estresse, controlar os impulsos e criar condições parase auto motivar. É a capacidade de definir e trabalhar em direção a objetivos pessoais e profissionais. É a capacidade de ser empático, se colocando na perspectiva de outros, incluindo aqueles de origens, culturas e valores diversos. A capacidade de compreender as normas sociais e princípios éticos para o comportamento e de reconhecer os recursos e apoios da família, da escola e da comunidade. É a capacidade de estabelecer e manter relacionamentos saudáveis com outros indivíduos e grupos. A capacidade de se comunicar com clareza, ouvir bem, cooperar com os outros, resistir à pressão social inadequada, negociar conflitos construtivamente, buscar e oferecer ajuda quando necessário. É a capacidade de fazer escolhas construtivas sobre o comportamento pessoal e interações sociais baseadas em padrões éticos, preocupações de segurança e normas sociais. A avaliação realista das consequências de nossas ações, e uma consideração do bem-estar de si próprio e dos outros. Figura 1. Fonte:http://www.psicoedu.com.br/2017/05/cinco-competencias-essenciais-na-educacao-emocional.html EDUCAÇÃO SOCIOEMOCIONAL Respeita a capacidade de ir conhecendo a pessoa que é: as suas emoções, sentimentos, pensamentos e a influência sobre o comportamento. Inclui avaliar os pontos fortes e as limitações próprias e possuir bom senso, confiança e otimismo. Desenvolve a capacidade de aprofundar o conhecimento de si; Aceita as suas emoções, independentemente de serem agradáveis ou desagradáveis; Contribui para identificar sentimentos de baixa autoestima, inquietação, frustração, ansiedade, instabilidade emocional e outros, e pedir ajuda; Adapta-se a diferentes situações, incluindo as de grande adversidade. Respeita a capacidade de regular e expressar as emoções, pensamentos e comportamentos de forma eficaz, socialmente ajustável em diferentes situações. Inclui saber adaptar-se a situações de stress, controle de impulsos, capacidade de automotivação, esforço e trabalho para alcançar objetivos pessoais e profissionais. Organiza a participação; Responde após reflexão; Executa responsavelmente as decisões. Respeita a capacidade de desenvolver a empatia, assumir a perspectiva dos outros, de diversas origens e culturas, compreender as normas sociais e éticas orientadoras do comportamento e reconhecer a família, a es¬cola e a comunidade como recursos e fontes de suporte. Conhece e participa na vida da sua comunidade; Reconhece a importância do ambiente no desenvolvimento das pessoas; Compreende as necessidades dos outros e contribui para a sua minimização; Reconhece as diferenças sociais, econômicas, religiosas, artísticas e políticas da sociedade e respeita-as. Respeita a capacidade de estabelecer e manter relacionamentos diversificados saudáveis e gratificantes com indivíduos e grupos. Pressupõe comunicar com clareza, ouvir ativamente, cooperar, resistir à pressão dos pares e social, saber negociar de forma construtiva os conflitos, oferecer e procurar ajuda, quando necessário. Com os/as colegas, desenvolve a amizade e o espírito de equipe; Com a escola, é mais produtivo/a e cria com ela uma referência para toda a vida; Com os/as docentes, revela maior satisfação e aprecia os seus mestres. Respeita a capacidade de fazer escolhas construtivas e positivas sobre: o comportamento pessoal e interações sociais com base na análise dos padrões éticos, questões de segurança, normas sociais, avaliação realista das consequências de várias ações para o bem-estar pessoal e dos outros. Tem informação e sabe analisá-la; Sabe pesar prós e contras; Faz escolhas; Assume o risco. Tabela 1. Fonte: Manual para a promoção de competências socioemocionais em meio escolar. Lisboa: DGS, 2016. Disponível em https://www.alvarovelho.net/attachments/article/562/DGS_Manual_Saudemental.pdf SAIBA MAIS Conheça esse relato da Escola Estadual Professora Altina Moraes Sampaio (Araçatuba-SP) sobre o desenvolvimento de competências socioemocionais via relação interpessoal entre adultos e alunos apresentado na “Série de Diálogos – O Futuro se Aprende”, realizada pelo Inspirare/Porvir em parceria com o Instituto Ayrton Senna: https://youtu.be/72mWw9Z6PXw ASSISTA AO VÍDEO Vamos falar um pouco sobre esporte? O esporte é um fenômeno sociocultural. Tem-se no jogo, o vínculo cultural, e na competição, a manifestação da aptidão. O esporte tem também o papel de agregar na formação e interação dos seres humanos, desenvolvendo valores como ética, moral e cooperação. A prática esportiva é um direito de todos os cidadãos e o acesso ao esporte pode começar na escola. Graças a esse pressuposto, o esporte passou a ser compreendido não somente como uma atividade de alto rendimento, elitizada, mas sim, através das seguintes concepções, de acordo com Tubino (2010): Esporte-educação: com sentido educativo, vinculando-se a três áreas de atuação pedagógica: a interação social, o desenvolvimento psicomotor e as atividades físicas educativas. No esporte escolar, a prioridade é a formação de valores, as atitudes, as habilidades e a conduta humana. Esporte participação: referenciado com o princípio do prazer lúdico, apresenta como finalidade o bem-estar social dos seus praticantes, estando intimamente ligado ao lazer e ao tempo livre. Busca como propósito a descontração, a diversão, o entretenimento, o desenvolvimento pessoal e as relações interpessoais. No esporte de participação ou lazer, enfatizam-se as tarefas higiênicas e de saúde minimizando as formalidades e o rigor dos regulamentos. Abrem-se espaços para as mudanças das formas, espaços, técnicas e participação. Esporte-performance/rendimento: impregnado dos propósitos de novos êxitos esportivos, propaga a vitória sobre os adversários nos mesmos códigos, havendo a tendência natural para que seja praticado prioritariamente pelos talentos esportivos. Aqui predominam os aspectos parciais do comportamento corporal e motor com intenções de objetivos mensuráveis, aplicando-se propósitos de padronizações, sincronizações e maximizações das performances motoras. A prática esportiva no ambiente escolar é de extrema importância para o desenvolvimento integral do aluno. Por meio dessas atividades, várias experiências vão sendo vivenciadas, oportunizando, inclusive, o desenvolvimento de competências socioemocionais. O esporte na escola desenvolve capacidades físicas, motoras e cognitivas, e ainda promove a aquisição de habilidades motoras. Praticar uma atividade esportiva exige muito comprometimento. É preciso treinar para aprimorar habilidades motoras e pensar em conjunto. É necessário colaboração, realizar debates em prol do grupo e tomar decisões coletivas Segundo Tubino (2010), qual conceito de esporte abaixo oportuniza o desenvolvimento integral do aluno através da prática esportiva? que buscam o bem comum. A prática esportiva contribui para que os alunos passem a ter mais disciplina em geral. Eles aprendem a importância de manter seu comprometimento e sua responsabilidade e começam a compreender como é importante cumprir com o que foi acordado. As competências socioemocionais e as cognitivas podem e devem ser desenvolvidas e estimuladas pelo professor de educação física em um contexto de prática esportiva. Por exemplo: o aluno deve aprender a compreender e respeitar regras, respeitar os outros e, dependendo da situação: · Fazer cálculos; · Planejar a sua rotina de treinos, dominar as habilidades motoras, pensar nas estratégias que irá realizar; · Assumir responsabilidades (cumprir os horários e rotinas de treino, cuidar da manutenção do seu condicionamento físico); · Manter uma atmosfera pró-social (conviver com os colegas, professores e adversários, por exemplo); · Vivenciar experiências positivas fora de casa; construir uma autoestima positiva (por exemplo, descobrir que é bom em algo e ser valorizado por isso); · Perceber a existência de oportunidades (o esporte pode ser uma oportunidade da pessoa demonstrar o potencial que ela possui); · Desenvolver um nível apropriado de controle (aprendera ganhar e a perder) e interagir com a estrutura do meio ambiente, adquirindo habilidades para lidar com diferentes situações e promover relações interpessoais positivas. Outros fatores relacionados à aquisição de competências socioemocionais também podem ser relacionados com a prática esportiva: · Expectativa de sucesso no futuro (o esporte pode ser visto como uma forma de conquistar um futuro mais promissor); · Disciplina pessoal, mente aberta e receptiva a novas ideias e experiências (no esporte é preciso experimentar, ousar, em uma busca constante de superação dos próprios limites); · Reconhecimento e desenvolvimento dos próprios talentos, identificação com modelos positivos (com técnicos, professores ou outros colegas); · Busca de autonomia (independência para usar o seu potencial esportivo da maneira que achar melhor); · Capacidade de adaptação (aos diversos adversários, tipos de jogos, tipos de locais/clima dos jogos, tipos de dificuldades que surgirem durante os jogos); · Tolerância ao sofrimento (aprender a perder e a superar a dor física); · Variedade de interesses, capacidade de comunicar sentimentos de forma adequada (assertividade); · Estabilidade emocional (aprender a controlar os seus sentimentos, não ofender os outros, não se deixar abalar pela torcida adversária); · Engajamento em diferentes atividades e comportamento direcionado a metas (possuir metas a curto e a longo prazo, habilidades que quer desenvolver, campeonatos que quer ganhar). Assista ao vídeo a seguir e veja o que o professor Diego Padovan tem para falar sobre o desenvolvimento de competências socioemocionais: RELEMBRANDO Parabéns! Você chegou ao final do módulo 1 - Competências socioemocionais – principais conceitos !! Até aqui você pode ver: 1. O que são competências emocionais; 2. Quais competências socioemocionais mais importantes; 3. Quais os impactos do desenvolvimento das competências socioemocionais: 4. Como o professor pode planejar e acompanhar as práticas pedagógicas para o desenvolvimento de competências socioemocionais; 5. Exemplos de atividades que você pode utilizar para desenvolver competências socioemocionais em suas aulas; 6. Programas de promoção e prevenção em saúde mental; 7. As competências essenciais em programas de Educação Socioemocional; 8. Quais são as concepções do esporte. Siga agora para o módulo 2, clicando abaixo em “Siga sua formação acessando o Módulo 2 - Competências socioemocionais e a prática esportiva” REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBANTI, V. O que é esporte? Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde, v. 2, p. 54-58, 2006. Disponível em: : http://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/RBAFS/article/viewFile/833/840 BED, Anita Lilian Zuppo. O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem e o sucesso escolar de alunos da educação básica. Constr. psicopedag. [online]. 2016, vol.24, n.25, pp. 8-27. ISSN 1415-6954. BRACHT, V. A criança que pratica esportes respeita as regras do jogo.../capitalista. Revista Brasileira de Ciência do Esporte, v.7, n.2, p. 62-68, 1986. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: 2017. CASPERSEN, Carl J. et al. Physical Activity, Exercise, and Physical Fitness: Definitions and Distinctions for Health-Related Research. Public Health Reports. 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Os esportes possuem como fundamentos básicos e necessários as reproduções de contextos socioculturais específicos conforme cada modalidade, que, por sua vez foram se adaptando a cada época pela ação do processo civilizador, porém sem perderem suas essências. Vamos tomar como exemplo o basquetebol. Surgido no Canadá, como atividade laboral da região, em função de questões climáticas que impediam sua prática em ambientes externos (frio e neve), foram utilizados cestos de pêssegos. Daí por diante, as regras foram definidas e reelaboradas em função da equidade e da conscienciosidade em relação às competências socioemocionais que se pretendiam alcançar naquele momento e que se davam em função de quantos passos se poderia andar com a bola, dos locais dos arremessos, das transgressões disciplinares e suas penalidades, o respeito ético entre os participantes e outros aspectos socialmente relevantes. Tais contextos derivam nas chamadas “regras desportivas”, que necessitam ser entendidas como “códigos de condutas sociais, portanto, éticas e morais”. É necessária a compreensão de que uma regra desportiva trata no microcosmo o que a cidadania tratará no macrocosmo, a exemplo das legislações nacionais, estaduais, municipais, dos estatutos sociais e seus regimentos, da interpretação de contratos, da urbanidade com que serão construídas as relações interpessoais e assim por diante. Nesse sentido, será sempre muito interessante, no ambiente escolar que a própria turma crie um determinado jogo e estabeleça suas regrasas competências . Deste modo passamos efetivamente a transformar estudantes em cidadãos conscientes e participantes na construção social da realidade, para as quais as competências socioemocionais são ferramentas extremamente relevantes. Valores x Competências Temos sofisticadíssimos princípios de condutas que surgiram do “associativismo” e do “fair play”. Tais princípios têm comobase oferecer ao mundo o que os humanos possuem de melhor, não só no máximo lema do olimpismo, Citius, Altius e Fortius, nomeadamente, o mais rápido, o mais alto e o mais forte, mas também, por tal “espírito”, o mais solidário, o mais companheiro e o mais acolhedor. Portanto se aplicam a um conjunto de valores e atitudes morais fundamentais para a participação nesse esforço esportivo e que se definem como hospitalidade, amparo universal, amizade, alegria, entusiasmo, senso de trabalho em equipe, colaboração, respeito às diversidades, convivência tolerante, harmonia na construção social e autodisciplina, dentre outros valores, e que hoje, após milhares de anos, passaram a denominar como “competências socioemocionais”, mas que são praticadas nas quadras e praças desportivas de todo o mundo. Valores, competências socioemocionais e tipos de categorias de esportes Os desenvolvimento de competências socioemocionais foram estudados por Roger Caillois, Johan Huizinga e Luís Otávio Camargo A base dos esportes e dos desportos, ainda que transformadas no espaço-tempo por meio do processo civilizador, sempre mantiveram em suas características fundamentais os chamados “princípios lúdicos” que precisam sempre ser incluídos e incentivados nas matrizes curriculares das redes de ensino públicas e particulares e, portanto, amplamente trabalhadas pelos docentes de todas as áreas do conhecimento. Os princípios lúdicos são ferramentas imprescindíveis para o desenvolvimento de competências socioemocionais, além de serem a essência das práticas esportivas e desportivas. São eles: É importante salientar que tais princípios, embora sejam conceituais, também reproduzem estados socioemocionais reais. Portanto, se faz necessário conhecer muito bem o perfil da turma com que se vai trabalhar, inclusive os comportamentos individuais, no intuito de se identificar eventuais “corrupções lúdicas”. À menor ou maior incidência de tais condutas nas turmas, por meio da mediação docente, é possível se propor o desenvolvimento das competências socioemocionais que se deseja atingir. Para isto, é necessário levar em consideração também as estratégias pedagógicas ou andragógicas, conforme as características de cada grupo social ou turma com que se vai trabalhar. Nesse momento, não importam quais serão as modalidades esportivas a serem praticadas na escola, pois todas invariavelmente englobarão todos estes princípios lúdicos. A compreensão global dos mesmos é o primeiro passo para aqueles que desejarem abordar o desenvolvimento das competências socioemocionais por meio de tais práticas, em função da capacidade que possuem de promover a adaptabilidade dos alunos a tais capacidades. Isto porque na mediação sempre teremos o objeto do conhecimento a ser alcançado, o mediador e o “apreendente”, que vai reter um determinado saber que se desdobrará em competências e habilidades. Este processo é puramente intelectivo. A tabela a seguir demonstra com mais clareza os princípios lúdicos e as corrupções lúdicas a que estamos nos referindo - a variação das competências socioemocionais tendo como referencial os princípios lúdicos, característicos dos jogos e práticas esportivas ou desportivas : Com base na tabela acima, gestores, educadores e sobretudo professores de Educação Física podem elaborar propostas de atividades e suas variações, conforme o desenvolvimento de competências socioemocionais que se pretender alcançar conforme a diagnose identificada em cada grupo. Em outras palavras, serão necessárias abordagens interacionistas que se objetivem a abertura de novas experiências, conscienciosidade, extroversão, amabilidade, cooperatividade e que busquem a promoção da estabilidade emocional. Portanto, não vamos desenvolver a extroversão em quem é extrovertido, nem a abertura para novas experiências para quem as extrapola e se coloca em risco ou ao grupo, por exemplo. Sendo assim, será necessário fazer as devidas dosagens conforme os objetivos a serem alcançados. De posse de tais conhecimentos, passaremos agora ao estudo das classificações das modalidades desportivas e suas especificidades. Os esportes e suas diferentes classificações Atualmente temos três grandes divisões como já citado anteriormente: Se focarmos no conceito de performance como desempenho e atuação, será comum, ao nos deparamos com tais vocábulos, que nossa mente nos reporte ao imaginário dos trabalhos musculares. Porém, não poderemos perder de vista a perspectiva de que existem no Brasil, mais de duzentas e vinte modalidades esportivas diferentes, cada qual com suas peculiaridades. Estas atividades são fruto da cultura humana e como tal, são absolutamente complexas. As diversas classificações dos esportes A seguir apresentamos as principais características das práticas desportivas, ampliando, assim, a noção de performance e buscando entendimento dentro dos padrões técnicos e sentidos buscados pelas diferentes modalidades. CLASSIFICAÇÕES BASILARES DOS PRINCIPAIS DESPORTOS POR FINALIDADE Amador Por prazer, sem remuneração Semiprofissional Com o objetivo de premiação em dinheiro Profissional Por meio de contrato de trabalho Ajuda de Custo. Camuflagem do profissionalismo. Usa-se para estimular os esportes sem a incidência de encargos trabalhistas POR GRUPO SOCIAL Individual Praticado somente por um atleta Coletivo Praticado por vários atletas em duplas e equipes POR AMBIENTE Terrestres No solo: Basquete, Futebol, Artes Marciais Aquáticos No meio líquido: Natação, Polo Aquático, Iatismo Aéreos No meio aéreo: Paraquedismo, Voo a Vela Mistos Vários ambientes: Triatlo, Paraquedismo de Precisão, Saltos Ornamentais Eletrônicos Aqueles que se desenvolvem em ambientes virtuais POR FORMA DE COMPETIÇÃO Confronto Direto Só duas equipes, duplas ou atletas se confrontam entre si diretamente: Futebol, Basquete, Esgrima, Tênis Múltiplo Confronto Várias equipes, duplas ou atletas competem simultaneamente: Atletismo, Tiro, Natação Apresentações Sucessivas Equipes, duplas ou atletas fazem tentativas alternadas e sucessivas: Ginástica Olímpica, Atletismo POR EQUIPAMENTOS Sem Equipamento Usando apenas uniforme: Atletismo, Judô, karatê Com Equipamento Com equipamento individual: Esgrima, Tênis Com Implemento Quando se usa um equipamento comum às equipes ou atletas. Um bom exemplo é a bola no Futebol Mecanizado Quando se transforma a força do atleta em movimento mecanizado: Remo, Ciclismo, Voo a Vela Motorizado Quando se utiliza motor: Automobilismo, Motociclismo Equestre Quando se utiliza um equino: Hipismo, Hipismo Rural POR FORMA DE AVALIAÇÃO Tempo Ganha quem chega primeiro: Natação, Ciclismo de Estrada Distância Ganha quem atingir a maior: saltos no Atletismo Altura Ganha quem atingir a maior: Saltos no Atletismo Habilidade Por avaliação de jurados: Ginástica Olímpica, Ginástica Rítmica Desportiva, Judô, Capoeira Erros do Adversário São aqueles em que adversário pontua pelos erros do outro: Vôlei, Tênis, Tênis de Mesa Atingir a Meta Onde a pontuação se faz por metas atingidas: Futebol, Basquete, Tiro, Tiro com Arco, Paraquedismo de Precisão POR ORIGEM Autóctones De criação nacional: Capoeira, Savate, Judô, Karatê, Boxe, etc. Tradicionais Originários nas próprias culturas populares: Peteca, Mãe da Mula, etc. Indígenas Surgem das diversas tradições indígenas: Uca-Uca, Corridas de Toras, etc. Tabela 2: do autor. Apresenta as classificações das principais modalidades desportivas. De um modo geral, as diferentes performances desportivas estarão associadas a uma série de características físicas e mentais de cada indivíduo. O desempenho de um nadador será diferente de um halterofilista, que por sua vez será diferente de um enxadrista, que também se diferenciará de um automobilista. Dentro de um mesmo grupo ainda poderemos ter diferenças básicas, como no caso das Artes Marciais, onde por um lado teremos o Karatê, o Kung-fu, explorando os alongamentos e a agilidade, e o Judô e o Jiu-Jítsu valorizando os deslocamentos de peso através dos sistemas de alavancas. Outra observaçãoque se faz necessária é a diferenciação dos atletas por funções, em especial nos esportes coletivos. Nesta situação cada qual necessitará de um trabalho diferenciado para os esforços fisiológicos a que serão submetidos, visando o aproveitamento máximo de suas potencialidades. As interfaces entre as competências socioemocionais estarão alinhadas também com os máximos fatores de esforços fisiológicos e de condições psicológicas necessárias para os desafios nos esportes. Com isso pretendemos afirmar que nestas condições extremas tais competências serão também requeridas e desenvolvidas em elevados níveis de interações sociais e em condições excepcionais. Haverá também outras variáveis que farão interfaces com as competências socioemocionais, e que estarão associadas às performances desportivas, tais como a força, a flexibilidade, o equilíbrio, a composição corporal e a capacidade cardiovascular e a capacidade para os vários tipos de esforços fisiológicos. Como se nota, além das especificidades de cada modalidade, as questões relativas às performances estarão diretamente associadas a uma série de interrelações biológicas, anatômicas, bioquímicas e psicossociais. E nestas últimas é que residirá a devida atenção dos gestores e educadores para as devidas mediações que se fizerem necessárias no desenvolvimento das competências socioemocionais. Como adaptar o currículo nacional vigente para o trabalho esportivo-emocional? Foi aprovada em dezembro de 2017, a BNCC - Base Nacional Comum curricular, que define as aprendizagens essenciais a que os alunos da Educação Básica possuem o direito a aprender, tanto para a sua interação social quanto para o preparo para o mundo do trabalho. Em síntese, a BNCC não busca formar o aluno para si, mas para o mundo em que vive. “Na BNCC, competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho. Ao definir essas competências, a BNCC reconhece que a “educação deve afirmar valores e estimular ações que contribuam para a transformação da sociedade, tornando-a mais humana, socialmente justa e, também, voltada para a preservação da natureza” (BRASIL, 2013)3, mostrando-se também alinhada à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU)” (BRASIL, 2017 p.8). Neste documento existem dez competências gerais que perpassam tais diretrizes, das quais oito delas estão alinhadas direta ou indiretamente com as Competências Socioemocionais, conforme seguem: “1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. 4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo. 5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. 6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. 7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta. 8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas. 9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. 10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários” (IBIDEM). Assista ao vídeo a seguir e conheça um pouco mais sobre a Base Nacional Comum Curricular ASSISTA AO VÍDEO Fonte: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ Acesso em 22/03/2018” Para o alcance dos objetivos socioemocionais da Educação Física na BNCC, é importante o desenvolvimento de habilidades que se relacionem com um referencial lógico, portanto, intelectivo, que possibilite a cooperação e a interação com os adversários de modo ético e respeitoso, juntamente com o desempenho motor, em atendimento aos interesses táticos e estratégicos das ações esportivas. No âmbito da BNCC as práticas esportivas são agrupadas em sete classificações sugeridas, conforme apresentado na tabela abaixo: GRUPOS DE ESPORTES DEFINIDOS NA BNCC Marca Conjunto de modalidades que se caracterizam por comparar os resultados registrados em segundos, metros ou quilos (patinação de velocidade, todas as provas do atletismo, remo, ciclismo, levantamento de peso etc.). Precisão Conjunto de modalidades que se caracterizam por arremessar/lançar um objeto, procurando acertar um alvo específico, estático ou em movimento, comparando-se o número de tentativas empreendidas, a pontuação estabelecida em cada tentativa (maior ou menor do que a do adversário) ou a proximidade do objeto arremessado ao alvo (mais perto ou mais longe do que o adversário conseguiu deixar), como nos seguintes casos: bocha, curling, golfe, tiro com arco, tiro esportivo etc. Técnico-combinatório Reúne modalidades nas quais o resultado da ação motora comparado é a qualidade do movimento segundo padrões técnico-combinatórios (ginástica artística, ginástica rítmica, nado sincronizado, patinação artística, saltos ornamentais etc.). Rede/quadra dividida ou parede de rebote Reúne modalidades que se caracterizam por arremessar, lançar ou rebater a bola em direção a setores da quadra adversária nos quais o rival seja incapaz de devolvê-la da mesma forma ou que leve o adversário a cometer um erro dentro do período de tempo em que o objeto do jogo está em movimento. Alguns exemplos de esportes de rede são voleibol, vôlei de praia, tênis de campo, tênis de mesa, badminton e peteca. Já os esportes de parede incluem pelota basca, raquetebol, squash etc. Campo e taco Categoria que reúne as modalidades que se caracterizam por rebater a bola lançada pelo adversário o mais longe possível, para tentar percorrer o maior número de vezes as bases ou a maior distância possível entre as bases, enquanto os defensores não recuperam o controle da bola, e, assim, somar pontos (beisebol, críquete, softbol etc.). Invasão ou territorial: Conjunto de modalidades que se caracterizam por comparar a capacidade de uma equipe introduzir ou levar uma bola (ou outro objeto) a uma meta ou setor da quadra/ campo defendida pelos adversários (gol, cesta, touchdown etc.), protegendo, simultaneamente, o próprio alvo, meta ou setor do campo (basquetebol, frisbee, futebol, futsal, futebol americano, handebol, hóquei sobre grama, polo aquático, rúgbi etc.). CombateReúne modalidades caracterizadas como disputas nas quais o oponente deve ser subjugado, com técnicas, táticas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço, por meio de combinações de ações de ataque e defesa (judô, boxe, esgrima, tae kwon do, capoeira, etc.). Tabela 3: fonte: BNCC, pp. 214-215. A adaptação do currículo ao que se busca em relação ao desenvolvimento das competências socioemocionais, como visto, se dará por meio da implementação dos princípios lúdicos pertinentes a cada modalidade esportiva, conforme levando em consideração a diagnose de cada turma a ser trabalhada, na qual o esporte a ser empregado servirá como ferramenta ao alcance de tais objetivos. O mesmo acontecerá na ressignificação das regras esportivas de cada modalidade a partir do protagonismo dos alunos, em ampla participação e não só dos mais ativos, pois todas as modalidades são passivas de serem recriadas por aqueles que com ela tiverem contato. Todavia, a BNCC da Educação Física vai também nos servir de referencial ao que vai além dos esportes clássicos, ao tratar das práticas corpóreas, a saber: “Em princípio, todas as práticas corporais podem ser objeto do trabalho pedagógico em qualquer etapa e modalidade de ensino. Ainda assim, alguns critérios de progressão do conhecimento devem ser atendidos, tais como os elementos específicos das diferentes práticas corporais, as características dos sujeitos e os contextos de atuação, sinalizando tendências de organização dos conhecimentos. Na BNCC, as unidades temáticas de Brincadeiras e jogos, Danças e Lutas estão organizadas em objetos de conhecimento conforme a ocorrência social dessas práticas corporais, das esferas sociais mais familiares (localidade e região) às menos familiares (esferas nacional e mundial). Em Ginásticas, a organização dos objetos de conhecimento se dá com base na diversidade dessas práticas e nas suas características. Em Esportes, a abordagem recai sobre a sua tipologia (modelo de classificação), enquanto Práticas corporais de aventura se estrutura nas vertentes urbana e na natureza” (IDEM, p. 217). Estas práticas corporais, em especial as lutas e as atividades de aventura, constituem-se em grandes oportunidades para o desenvolvimento das competências socioemocionais a que aqui nos referimos. Representam excelentes oportunidades de abertura para novas experiências, a extroversão, a descoberta do próprio corpo e do corpo adversário, portanto, a conscienciosidade, assim como a possiblidade de amabilidade, cooperatividade e a estabilidade emocional. A BNCC trata ainda de oito dimensões do conhecimento, que no âmbito da Educação Física Escolar se potencializarão no alcance do desenvolvimento das competências socioemocionais a partir das estratégias de mediações, reconstruções e ressignificações que se fizerem necessárias para o alcance de tais metas. São elas: DIMENSÕES DO CONHECIMENTO PERTINENTE NA BNCC Experimentação Refere-se à dimensão do conhecimento que se origina pela vivência das práticas corporais, pelo envolvimento corporal na realização das mesmas. Uso e apropriação Refere-se ao conhecimento que possibilita ao estudante ter condições de realizar de forma autônoma uma determinada prática corporal. Fruição Implica a apreciação estética das experiências sensíveis geradas pelas vivências corporais, bem como das diferentes práticas corporais oriundas das mais diversas épocas, lugares e grupos. cinco metodologias ativasRefere-se aos conhecimentos originados na observação e na análise das próprias vivências corporais e daquelas realizadas por outros. Construção de valores Vincula-se aos conhecimentos originados em discussões e vivências no contexto da tematização das práticas corporais, que possibilitam a aprendizagem de valores e normas voltadas ao exercício da cidadania em prol de uma sociedade democrática. Análise Está associada aos conceitos necessários para entender as características e o funcionamento das práticas corporais (saber sobre). Compreensão Está também associada ao conhecimento conceitual, mas, diferentemente da dimensão anterior, refere-se ao esclarecimento do processo de inserção das práticas corporais no contexto sociocultural, reunindo saberes que possibilitam compreender o lugar das práticas corporais no mundo. Protagonismo comunitário Refere-se às atitudes/ações e conhecimentos necessários para os estudantes participarem de forma confiante e autoral em decisões e ações orientadas a democratizar o acesso das pessoas às práticas corporais, tomando como referência valores favoráveis à convivência social. Tabela 4: BNCC, pp. 228-219. Implantação transversal Currículos são territórios dinâmicos. São formados a partir das relações entre o poder e a liberdade daqueles que possuem as oportunidades para exercerem os domínios nas reuniões pedagógicas, nas reuniões de colegiados ou mesmo no âmbito da gestão pública. Diante disto, a construção transversal dos currículos que optarem no desenvolvimento de competências socioemocionais, dependerá dos profissionais que por suas vezes tiveram também a oportunidade de terem desenvolvido em si próprios os mesmos valores das competências socioemocionais. Em síntese, as competências socioemocionais não podem ser encaradas como um produto a ser inserido na oferta das grades curriculares. Desta forma, jamais serão alcançadas. Devem, primeiramente serem encaradas como uma diretriz ética em busca de nossa essência humana. Trata-se, portanto, de algo muito antigo que passou a adotar uma expressão nova em nossa contemporaneidade. Conheça um pouco mais sobre questões conceituais e práticas no desenvolvimento das Competências Socioemocionais no texto da GLOBAL EDUCATION LEADERS’ PROGRAM (GELP), acessando o link a seguir: http://fundacaotelefonica.org.br/wp-content/uploads/pdfs/GELP/HABILIDADES-SOCIOEMOCIONAIS-QUEST%C3%95ES-CONCEITUAIS-E-PR%C3%81TICAS.pdf Acesso em: 22/03/2018 No vídeo a seguir o professor Diego Padovan fala sobre interação entre esporte e competências socioemocionais. Assista! RELEMBRANDO Parabéns! Você chegou ao final do módulo 2 - Competências socioemocionais e a prática esportiva!! Até aqui você pode ver: 1. A prática esportiva e as Competências Socioemocionais; 2. Valores, habilidades socioemocionais e tipos de categorias de esportes; 3. Os esportes e suas diferentes performances: 4. Por que queremos desempenho, eficiência e atuação; 5. Como adaptar o currículo nacional vigente para o trabalho esportivo-emocional; 6. Implantação transversal; Siga agora para o módulo 3, clicando abaixo em “Siga sua formação acessando o Módulo 3 – Práticas pedagógicas para o desenvolvimento de competências socioemocionais” REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base. Brasília: CONSED / UNDIME, 2017. CAILLOIS, R. Los Juegos y los hombres: la máscara y el vertigo.Ciudad del Mexico: Fonde de Cultura, 1986. CAMAMARGO, L. O. L. Educação para o lazer. São Paulo: Moderna, 2002. HUIZINGA, J. Homo Ludens 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. PETARNELLA, L. Escola Analógica: Cabeças Digitais. Campinas: Alínea, 2008. THORNDIKE, R. K. Inteligência e seus usos. New York: Harper's Magazine, 1920. Módulo – 3 Competências socioemocionais na prática O que são práticas pedagógicas? As práticas pedagógicas podem ser consideradas como sendo ações dos professores que vão muito além daquilo que possivelmente seja visível, detectável ou até mesmo mensurável, ou seja, um impacto cultural compartilhado com outros agentes e efetivado no dia a dia da escola. Sua gênese é obtida através das inter-relações com outras práticas pedagógicas que de modo direto se somam, se complementam, se refazem a todo o momento de acordo com cada local, cada situação, cada grupo, cada conteúdo, cada objetivo. As práticas pedagógicas são utilizadas de modo contínuo e constante com os alunosdas escolas que vivem num mundo em constante evolução. Considera-se aqui o aluno como um indivíduo em mudanças ininterruptas com as dinâmicas e complexidades de seu desenvolvimento que, por sua vez, tem características individuais e singulares, mas que vive em um grupo social que o influencia e sofre suas influências. Garcia (2005 apud PLETSCH, 2010, p. 158) sugere que: [...] a prática pedagógica pode ser dividida em “práticas de caráter antropológico” e “práticas pedagógicas institucionalizadas”. A autora explica que a primeira diz respeito à perspectiva social pela qual se compreende a educação escolar como um espaço cultural compartilhado, não exclusivo de uma classe profissional concreta, ainda que conceda certa legitimidade técnica à ação docente. Já a segunda se refere à atividade docente realizada nos sistemas educacionais e às organizações escolares em que estão inseridos. Neste sentido, “a prática profissional depende das decisões individuais, que não estão isentas da influência de normas coletivas e de regulações organizacionais”. O conceito de prática pedagógica não se limita apenas às ações dos professores em sala de aula indo muito além disso. Entende-se as práticas como senso das ações que estão envolvidas na construção e na implementação do currículo. Nessas práticas incluem-se ações teóricas e práticas, refletidas e mecânicas, normativas, orientadoras, reguladoras, cotidianas. (MENDES-2008). A autora citada acima sugere que a recontextualização feita desses discursos pela escola e pelos seus sujeitos também são entendidas como práticas pedagógicas. Nesses currículos está expresso o entendimento da escola sobre conhecimento, prioridades, saberes, bem como o tipo de sujeito que pretende formar e qual sujeito efetivamente forma. A mesma autora (2008, p. 118) ressalta que: [...] quando estudamos a escola estamos diante de práticas curriculares que são o exercício característico da escola na organização e desenvolvimento do currículo, ou seja, dos conteúdos e das formas de sua transmissão, o que inclui atividades e tarefas propostas, bem como acompanhamento dos alunos no processe ensino-aprendizagem. São aquelas implementadas e recontextualizadas nos condicionantes escolares (tempo-espaço) envolvendo as práticas de seleção e distribuição dos conhecimentos escolares. E onde entram as competências socioemocionais nesse contexto? As ações feitas pelos professores dentro de suas salas de aulas não se desenvolvem de modo isolado nem tampouco são resultados exclusivos de suas características pessoais como, por exemplo, crenças, valores, expectativas. Essas ações refletem o tipo de cultura da instituição que deve ser vista no contexto mais amplo das políticas de reformas e mudanças educacionais que exercem influências no cotidiano da escola e que diretamente afetam as práticas dos professores. As práticas pedagógicas são ações que envolvem a elaboração e a implementação do currículo em suas diferentes dimensões (planejamento, metodologias, estratégias de ensino, avaliação, tempo e espaço de aprendizagem) e que estão em constante reformulação e adaptação para os diferentes grupos. A partir dessas práticas pedagógicas é possível trabalhar com as competências socioemocionais no ambiente escolar a fim de estimular o desenvolvimento integral dos alunos. Perseverança, colaboração, autocontrole, curiosidade, otimismo e confiança são exemplos dessas competências socioemocionais que vão influenciar diretamente nesse cenário. Essas competências são requeridas no dia a dia, nas diversas situações da vida e integram o processo de cada um para aprender a conhecer, aprender a conviver, aprender a trabalhar e aprender a ser. Ou seja, tais competências devem ser parte da formação integral e do desenvolvimento de todos. As competências socioemocionais, a partir de Del Prette & Del Prette (2001) podem ser entendidas como sendo um conjunto diversificado de desempenhos sociais que compõem o repertório comportamental individual com a finalidade de estabelecer relacionamentos interpessoais em diferentes contextos sociais. Ratificando esse conceito, McKay, Wood, & Brantley (2007) sugerem que as competências socioemocionais podem ser entendidas como um conjunto de estratégias ou ações que potenciam não só o autoconhecimento, mas também a comunicação efetiva e o relacionamento interpessoal. Ao longo deste módulo trabalharemos o conjunto de estratégias e ações apresentadas no Infográfico abaixo. Como desenvolver as competências socioemocionais na prática pedagógica? Existem várias práticas pedagógicas que podem garantir o desenvolvimento das competências socioemocionais. A área da Educação Física é um campo privilegiado para o desenvolvimento dessas competências, pois no âmbito de práticas das atividades físicas ou esportivas, vão inevitavelmente ocorrer situações nas quais essas competências serão fundamentais para o crescimento e desenvolvimento dos alunos. Os jogos e as brincadeiras são estratégias muito adequadas para o desenvolvimento dessas competências. Mas é importante lembrar que jogo e brincadeira se diferem. De modo resumido, a principal diferença entre o jogo e a brincadeira é o resultado, ou seja, enquanto no jogo a regra determina que ao final haja um vencedor, na brincadeira não existe essa regra. A brincadeira acaba sem que haja um vencedor e o jogo necessariamente tem um vencedor quando termina. O esporte, considerado como um grande fenômeno mundial e "uma das maiores invenções sociais que os seres humanos realizaram sem o planejar" (Elias e Dunning, 1992, p. 243), produz grandes impactos na sociedade e se tornou um dos principais meios de criação de excitação agradável por ser um bom meio de identificação coletiva. O Atlas do esporte no Brasil (2005) apresenta um grande número de modalidades esportivas existentes no mundo e, de acordo com a adaptação e adequação aos espaços, materiais e públicos é possível oferecer essas modalidades nas mais variadas situações com os mais variados objetivos. Quanto maior o número de modalidades esportivas forem oferecidos nas aulas de Educação Física e nas atividades do dia a dia da escola, mais oportunidades de desenvolver as competências socioemocionais intencionalmente. Numa participação efetiva da criança ou do jovem praticando esportes, seja num jogo ou numa brincadeira, as competências socioemocionais estarão sendo trabalhadas e, consequentemente, desenvolvidas, tendo o professor a responsabilidade de direcionar o esporte, o jogo ou a brincadeira para a exacerbação de uma ou outra competência. No planejamento de suas aulas, o professor de Educação Física deve dar especial atenção à escolha das modalidades esportivas, dos jogos e das brincadeiras. Estes devem ser cautelosamente selecionados a fim de atender os objetivos traçados pelo professor, de acordo com as necessidades diagnosticadas na turma. A CRIATIVIDADE, por exemplo, deve aparecer quando no planejamento do jogo ou da brincadeira o professor determinar um objetivo e seduzir os alunos a alcançarem de forma que criem soluções para obterem possibilidades de êxito. Outra situação da existência da criatividade está relacionada ao brinquedo. Os brinquedos podem ser: estruturados e não estruturados. Os brinquedos estruturados são aqueles que são adquiridos prontos, ou seja, são comprados em comércios, industrializados. Os brinquedos não estruturados não são provenientes de indústrias, mas sim objetos ou materiais, sejam recicláveis ou não, simples como caixas de sapato ou potes de iogurte que, nas mãos das crianças, adquirem novo significado, podendo transformar-se em um brinquedo. A caixa de sapato, por exemplo, pode se transformar em um carro ou em uma casinha de boneca. O pote de iogurte se transformar em uma panelinha ou até um telefone. (KISHIMOTO 1994) Aqui o esporte mostra-se como um campo muito fértil, já que é possível construir os materiais necessários para muitas das modalidades esportivas em conjunto com os alunos, aguçando e exercitandoa criatividade. Em atividades que envolvam modalidades esportivas, jogos ou brincadeiras, o PENSAMENTO CRÍTICO sempre estará presente, pois o indivíduo terá de, a partir da compreensão competente e ágil das observações, exposições, conhecimentos e discussões, optar por decisões e encaminhar propostas e sugestões para os grupos. Vale ressaltar que a crítica, muitas vezes vista como algo negativo, nada mais é do que a expressão de uma opinião construída através da organização das informações. Os esportes coletivos e as atividades realizadas em grupo afloram situações onde esta competência é requerida e pode ser trabalhada. Uma das formas é estimular que os alunos desenhem estratégias para obter êxito naquela partida ou atividade. As competências da COMUNICAÇÃO e da colaboração são inerentes aos jogos e as brincadeiras, principalmente os coletivos. A comunicação dos indivíduos na prática esportiva, no jogo ou numa brincadeira pode ocorrer de várias formas, como, por exemplo: - A comunicação verbal (que abrange a comunicação escrita e a comunicação oral). - A comunicação escrita (que é o código utilizado pelos livros, cadernos, pelo jornalismo impresso ou online e pelas ferramentas de comunicação virtual). - A comunicação oral presencial (em que emissor e receptor estão presentes). - A comunicação não verbal (que ocorre por meio de gestos, sinais, códigos sonoros, expressões faciais ou corporais, imagens ou outros códigos representativos). Somada à competência socioemocional da comunicação, a COLABORAÇÃO é condição essencial para que os objetivos de um jogo ou de uma brincadeira sejam alcançados. O professor deve organizar as regras dos jogos e das brincadeiras para que os participantes utilizem os vários tipos de comunicação, a fim de que possa colaborar um com o outro e delinear as ações para atingir o objetivo comum. Durante a participação do aluno numa modalidade esportiva, num jogo ou numa brincadeira, a ATENÇÃO PLENA será solicitada e utilizada a todo o momento, visto que os cenários mudam num tempo muito curto. Aqui, caso algum participante esteja desatento, ele pode perder a oportunidade de aproveitar uma determinada situação para atingir bons resultados. Então, esta competência é naturalmente requerida e trabalhada durante tais atividades. Na competência socioemocional da CURIOSIDADE, o aluno participante do jogo ou brincadeira deve perceber ou ser informado pelo professor que, a cada etapa da atividade e mesmo ao final da mesma algum tipo de conhecimento ou alguma técnica foi adquirida. Nas práticas esportivas, jogando ou brincando, o aluno a todo o momento estará sendo encorajado a tomar decisões, a correr riscos, a ousar. Essas características expressas em praticamente todo o tempo de participação na atividade favorecem o desenvolvimento da competência socioemocional da CORAGEM. Nestas atividades, o aluno deverá ora deixar prevalecer a razão e, em outros momentos, prevalecer a emoção. Neste equilíbrio de decisões, a coragem torna-se fundamental. As vitórias e as derrotas, o ganhar e o perder fazem parte das próprias regras das modalidades esportivas e dos jogos. Visto que a RESILIÊNCIA é a competência socioemocional que se constitui a partir desses resultados, uma derrota ou dizer de uma vitória, são eventos desencadeadores de aprendizados para os participantes. O desenvolvimento desta competência vai depender de como o professor vai tratar esses resultados, seja com os vencedores ou perdedores. Os alunos levarão a forma como lidam com as vitórias e derrotas dos esportes para a vida. Por isso é importante que o professor tenha cautela e intencionalidade no desenvolvimento desta competência, a fim de amadurecer o grupo. Na participação numa modalidade esportiva, num jogo ou em uma brincadeira é fundamental que se cumpram as regras, senão a atividade não vai acontecer a contento. A ÉTICA, tida como uma escolha, é a competência que vai determinar que o aluno não apenas cumpra as regras, mas também não utilize de artifícios ilícitos para burlar essas regras. É uma competência que deve ser abordada continuamente, por meio das diversas situações que ocorrem nas atividades propostas. O professor deve levar os alunos a refletir sobre a importância de agir com o outro da forma como gostariam que agissem com eles. Em diversos momentos, no jogo ou na brincadeira, se faz necessária a presença de um representante, um líder que irá organizar e conduzir determinados procedimentos e condutas. A competência socioemocional da LIDERANÇA é expressamente trabalhada nessas atividades quando se elege, se escolhe ou se sorteia o representante que irá liderar ações do grupo. Essa competência está muito presente nessas atividades coletivas onde o líder vai direcionar conversas, procedimentos e encaminhamentos de posturas e de soluções. Os aspectos cognitivos e emocionais estão presentes e influenciam as decisões e as ações. Na competência emocional da METACOGNIÇÃO, o aluno fará reflexões e busca de informações em sua memória para tomar as decisões que julgue ser mais adequadas naquele momento. Essa situação se faz presente a todo o momento nos esportes, nos jogos e nas brincadeiras, pois o participante será colocado frente a situações que deverá tomar decisões baseado no histórico que possui sobre aquilo ou na construção de novos referenciais de ações. Os desafios estão presentes em cada momento e em cada situação prática de uma modalidade esportiva, de um jogo e muitas vezes de uma brincadeira. Quando o aluno está diante de uma situação e precisa tomar uma decisão, ele irá construir um aprendizado que será utilizado em outras situações semelhantes ou parecidas. É sempre possível reter algum tipo de conhecimento obtido diante de determinada ação. Nesse sentido, A MENTALIDADE DE CRESCIMENTO é uma competência socioemocional que pode ser ofertada e organizada em determinadas situações de uma prática esportiva, de um jogo ou de uma brincadeira favorecendo o aluno a fim de que progrida e sinta prazer e sensação de ter evoluído. Esse momento de aprendizado pode ser visto como interminável, pois a cada vez em que o aluno for colocado diante de um desafio, algo novo irá ser construído em novos estágios e patamares de conhecimentos. Acompanhe a fala da Maria Ignez Diniz, especialista da Mathema (SP), sobre como mudar a metodologia para o ensino de competências socioemocionais, a fim de apoiar o trabalho do professor apresentado na “Série de Diálogos – O Futuro se Aprende”, realizada pelo Inspirare/Porvir em parceria com o Instituto Ayrton Senna: https://youtu.be/dd1nx5FPACo Vamos conhecer algumas experiências que deram certo? No Canadá, o Ministério da Educação de Ontário a partir de 2009 iniciou uma implementação curricular que envolve diretamente o desenvolvimento de competências socioemocionais nas escolas. Esse projeto teve início a partir da necessidade percebida pelas autoridades em formar os jovens de maneira mais completa, tanto para o mercado de trabalho, quanto para a vida adulta em geral. Os resultados ainda não foram sistematizados, mas já estão sendo percebidos pela comunidade escolar e servem de inspiração para redes de ensino de todo o mundo. Naquele país os ministérios da Educação são regionais, sendo que cada distrito possui autonomia para decidir suas diretrizes, tendo cada escola a responsabilidade de promover a aprendizagem bem como o bem-estar dos alunos. No sentido de aliar conteúdos acadêmicos às competências socioemocionais, elaborou-se um plano de ação com a participação de professores, gestores, empresários, representantes da comunidade e os próprios alunos. A primeira etapa foi de reflexão sobre as competências socioemocionais que os estudantes necessitariam ter depois da escola. Posteriormente houve uma consulta pública, envolvendo professores, estudantes, funcionários das escolas, membros da comunidade e empresários locais neste assunto. Como resultado desta discussão, ficou claro que o papel da escola vai muito além do que desenvolvercompetências acadêmicas, mas também deve se preocupar em desenvolver competências socioemocionais. As competências socioemocionais listadas como principais nesse caso foram criatividade, espírito inovador e colaborativo, estar aberto a novas ideias e lidar com desafios. Além disso, ficou explicita a importância do desenvolvimento destas competências socioemocionais desde a entrada do aluno na escola até o último dia de aula com trabalhos constantes e desenvolvimento crescente, estimulando a evolução. Paralelamente ao projeto, percebeu-se que os dados de avaliação das disciplinas tradicionais também tiveram melhoras a partir do desenvolvimento das competências socioemocionais. Ou seja, ficou comprovado que o desempenho acadêmico melhora com o desenvolvimento destas competências. A participação dos professores foi fundamental nesse novo projeto, pois tiveram que deixar para trás o papel de único detentor do conhecimento para assumir uma postura de mediador, de facilitador da aprendizagem, estimulando discussões que ultrapassem os limites dos conteúdos factuais. Essa participação dos docentes se deu a partir de capacitações e atividades de formação mostrando efetivamente o suporte que teriam para se adaptar aos novos caminhos. O currículo escolar, nesse caso específico, prevê a promoção do pensamento crítico dos alunos sendo que os professores são incentivados a realizar atividades com objetivos e metas definidas conjuntamente com estes alunos. Essas atividades podem ser desenvolvidas em duplas ou em pequenos grupos, para estimular a colaboração, a criatividade e a inovação. Os alunos nessas escolas levam seus próprios equipamentos e materiais tecnológicos, como celulares, tablets, notebooks. Isto invariavelmente induz os professores a aumentarem o uso de atividades que utilizem essas ferramentas e a integrarem cada vez mais a tecnologia ao planejamento das aulas. No sentido de melhorar o entendimento do uso dessa nova perspectiva de currículo, foi inserido no boletim escolar os conceitos de avaliação dessas competências antes das notas das disciplinas tradicionais. Somam-se ainda processos de autoavaliação dos alunos que permitem analisar seu processo evolutivo e identificar as ações da escola que garantiram esse desenvolvimento. Aqui fica evidenciada a preocupação em mensurar os resultados obtidos com o desenvolvimento das competências. Nos Estados Unidos a rede de escolas Charter (instituições públicas de administração privada) KIPP (sigla em inglês para “Programa Conhecimento é Poder”) com objetivo de desenvolver o aluno por completo, utiliza uma metodologia direcionada a impulsionar o desempenho acadêmico de alunos de baixa renda e conduzi-los ao mundo universitário e a uma vida mais feliz. O projeto da KIPP foca o desenvolvimento de sete competências socioemocionais: O projeto é desenvolvido de modo transversal, ou seja, não possui disciplinas ou aulas específicas. Um dos conceitos adotados pela escola é o de trabalhar duro e ser gentil, mas o ponto de inflexão para mudança no perfil das aulas veio quando o grupo de professores teve contato com pesquisas e livros sobre como aprender a ser otimista de Martin Seligman, professor e pesquisador de psicologia na Universidade da Pensilvânia. Somada à teoria cognitiva, a KIPP também baseia seus projetos em seis pilares para desenvolver as competências socioemocionais. Veja ao lado. Esses trabalhos trouxeram benefícios que vão muito além da sala de aula onde, ao entender a correlação entre os traços de personalidade, os professores podem ter um diálogo mais rico com os alunos. Um dos procedimentos mais usados em sala de aula pela KIPP que tem dado bons resultados é o encorajamento dos alunos em pedir auxílio. Nesses eventos, o professor é orientado a demonstrar elogios públicos para ressaltar que se trata de um sinal de força, não de fraqueza. Neste projeto existem também os chamados “micromomentos” que são pequenas interações que ocorrem centenas de vezes dentro e fora da sala de aula nos quais se expõe o reconhecimento dos bons trabalhos. Auxiliando estes processos, as paredes da escola têm cartazes de incentivo, além dos professores também passarem uma caixa com palavras de reconhecimento durante suas aulas. Dependendo do assunto tratado, abre-se espaço para jogos de improviso e dramatização. Algumas unidades do grupo KIPP promoviam o chamado KIPP Circles que são períodos de 20 a 30 minutos em que as turmas são divididas em grupos e os alunos trocam ideias e ajudam uns aos outros a melhorar suas atitudes e resultados acadêmicos. As atividades do grupo KIPP vão além do interior da escola, pois se busca uma aproximação das famílias dos alunos no sentido de mostrar como as competências socioemocionais estão sendo desenvolvidas, ainda que às vezes as notas das disciplinas tradicionais não estejam a contento. No Brasil, o estado do Ceará instituiu um projeto em 2009 com a metodologia do programa Com.Domínio Digital, realizado em parceria com o Instituto Aliança. A ideia é a de oferecer aulas de tecnologia da informação no contra turno escolar. Depois de dois anos desse projeto, a Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc) resolveu aproximar esses conhecimentos dos conteúdos à grade regular das escolas através do protagonismo estudantil, da interdisciplinaridade, do ensino baseado em projetos, da pesquisa e da abordagem de competências socioemocionais. A primeira ideia foi a de criar um currículo que tivesse a cara da juventude, onde os alunos tivessem espaço para conhecer suas características e habilidades sociais, para falar de ética, de sexualidade e de projeto de vida, entre outras temáticas. Houve então uma articulação do ensino das áreas de conhecimento com ciência, pesquisa e trabalho, entendidos como eixos integradores. Percebeu-se que o aluno consegue enxergar a totalidade do que lhe é ensinado, ao contrário do que acontece quando se trabalham as disciplinas de forma isolada. Os resultados mostraram um enorme alcance desde 2012, quando o programa mais que triplicou a quantidade de envolvidos. Os professores também têm papel fundamental nessa nova versão de currículo e, para isso, equipes do Instituto Aliança e corpo docente desenvolveram atividades diversas, num núcleo com foco em cinco grandes ações: O conteúdo oferecido pelo Núcleo é implantado gradativamente até completar o ciclo do ensino médio. São duas aulas semanais de duas horas para o Desenvolvimento de Práticas Sociais (DPS) acompanhadas de uma hora de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), que facilitam a aquisição de habilidades digitais necessárias para a elaboração das pesquisas. A partir da percepção das dificuldades diárias dos professores em sala de aula, promove-se a formação de professores com foco no desenvolvimento da sua auto-estima. Os trabalhos passaram a acontecer numa relação mais próxima dos professores com os alunos e, a partir do momento que os professores mostraram a disponibilidade em ajudar os alunos, os laços se tornaram mais fortes, podendo muitas vezes o contato ocorrer além da sala de aula como, por exemplo, por e-mail etc. Se por um lado o professor sai da “zona de conforto”, a metodologia o equipa de maior segurança, com matriz curricular, fichas pedagógicas e planos de aula. Além do material teórico, a formação docente é apoiada em dinâmicas de grupo, supervisão técnica e estudos temáticos. Há também um projeto chamado Memória Fotográfica, onde cada professor apresenta fotografias que marcaram suas vidas e, ao reproduzir a atividade com seus alunos, o professor já passou por isso e sabe muito bem as sensações vividas nesta atividade. A empresa israelense MindLab oferece um programa chamado Mente Inovadora que é utilizado em algumas escolas brasileiras. Esse programa funciona com alunos de 4 a 17 anos, professores e familiares que compartilham responsabilidades por tarefas que podem acontecer tanto na escola quanto em casa. Existe um material utilizado na sala de aula e ainda um portal com jogos e livrosde atividades que carecem da participação dos pais. No programa Mente Inovadora existem métodos chamados de metacognitivos, que funcionam como instrumentos criadores e organizadores do pensar, do fazer e da tomada de posição diante de situações-problema. O pressuposto é o de que quando estamos conscientes quanto à maneira como pensamos, podemos aprender e crescer mais e melhor. A intenção é contribuir para o desenvolvimento de atitudes responsáveis, tanto nas famílias, quanto nas relações sociais ou no trabalho. Os métodos são apresentados por meio de metáforas ligadas a certas habilidades que permitem o jogar certo e o jogar bem. No começo da vida escolar, o aluno é estimulado a trabalhar em grupo e a usar o próprio corpo como peça em tabuleiros gigantes, colocados no chão. Na adolescência, a interação é mais digital, mas também envolve a troca com outro colega. Os jogos da MindLab estão baseados basicamente em três pilares: Enquanto o jogo favorece momentos onde se podem simular situações do cotidiano, os métodos fazem as crianças pensarem em como agir em determinadas situações. As aulas são realizadas uma vez por semana, têm duração de 50 minutos e ficam sob responsabilidade de um professor de qualquer disciplina, como matemática, geografia ou português. Não é necessariamente um especialista, mas passa por uma formação com experiência de trabalho mediado para então aplicar a metodologia em sala. A idéia é de que o professor faça com que o aluno reflita, veja o que precisa melhorar, mudar ou continuar fazendo para conquistar seu objetivo. Ao final da aula existe um momento chamado de “hora da conversa”, com discussões, reflexões, críticas, comentários, sugestões sobre o que estava envolvido na atividade estimulando assim a relacionar as situações de jogo com situações extraclasse. Como avaliar as competências socioemocionais? Para que se possam avaliar as competências socioemocionais existem, entre outros, dois questionários importantes: O Questionário de Avaliação de Competências Socioemocionais (QACSE) e O Questionário de Avaliação de Competências Socioemocionais – Professores (QACSE -P). O QACSE (Coelho et al., 2015) é composto por 41 itens, a responder numa escala de resposta de quatro pontos (A=Nunca; B=Algumas vezes; C=Frequentemente; D=Sempre), organizados em cinco dimensões: 1. Autocontrole (ex.: “Quando quero falar, peço a palavra e espero pela minha vez.”); 2. Consciência Social ex.: “Fico preocupado/a quando alguém tem problemas.”); . 3. Competências Relacionais (ex.: “Sou popular entre o/as outros/as.”); . 4. Isolamento Social (ex.: “Isolo-me e não falo com ninguém.”); .. 5. Ansiedade Social (ex.: “Sou envergonhado.”), levando 10 minutos a ser preenchido. Para conhecer mais sobre “O Questionário de Avaliação de Competências Socioemocionais – Professores (QACSE -P)” acesse: https://www.researchgate.net/publication/268810970_Desenvolvimento_e_validacao_do_Questionario_de_Avaliacao_de_Competencias_Socioemocionais_versao_professores Acesso em: 22/03/2018 O questionário cumpre a função de ser um instrumento mais curto, mais eficiente, com um formato de respostas mais discriminativo e com maior correspondência às outras medidas desenvolvidas pelo projeto e ao referencial da CASEL (2005). O Questionário de Avaliação de Competências Socioemocionais – Professores (QACSE -P). O QACSE -P (Coelho et al., 2014) é composto por 56 itens, com a mesma escala de resposta do instrumento anterior e requer que o professor despenda 10 a 15 minutos por aluno no seu preenchimento. No estado do Rio de Janeiro, preocupado com a identificação das ações no desenvolvimento das competências socioemocionais e se estas têm influenciado de modo positivo no desenvolvimento dos alunos, o Instituto Ayrton Senna apresenta um sistema de avaliação de competências socioemocionais para ser usado por redes de ensino. O Instituto Ayrton Senna parte do pressuposto que a dinâmica de ensino e aprendizagem oferece contato entre professores e alunos que devem ir muito além da mera transmissão de conteúdo acadêmicos. Os professores identificam as mudanças de comportamentos de seus alunos em relação à persistência, curiosidade e vontade de aprender, sua capacidade de concentração, entre outras competências. A ideia do instrumento de monitoramento de competências socioemocionais propõe critérios de observação das competências e utilização destes dados para orientar a própria intervenção docente. Depois de muitos estudos e pesquisas acerca de instrumentos existentes, em 2013 estudantes do Rio de Janeiro participaram da aplicação piloto de um instrumento, denominado de sistema SENNA (sigla em inglês para “Avaliação Nacional de Socioemocionais ou Não-cognitivas”). Além do questionário com até 92 itens, o sistema coleta informações socioeconômicas e permite o cruzamento com resultados cognitivos dos alunos e informações sobre o ambiente de aprendizagem. Após a aplicação, constatou-se que jovens com competências socioemocionais mais desenvolvidas tendem a ter melhor desempenho escolar, e que é possível estimular essas competências com ações promovidas por políticas públicas direcionadas para este fim. Verificou-se também que ter em casa mais de uma estante de livros aumenta 40% a chance de uma criança ser mais aberta a novas experiências, e alunos com essa característica altamente desenvolvida tendem a conseguir um desempenho melhor em português. A família tem papel fundamental no desenvolvimento das competências socioemocionais sendo que o incentivo ao estudo pelos familiares tem grande impacto para estimular nos alunos aspectos como consciência, amabilidade e abertura a novas experiências. Outro dado interessante mostrou que filhos de mães menos escolarizadas são tão ou mais conscienciosos que filhos de mães mais escolarizadas. Percebe-se então o grande potencial da abordagem socioemocional com fins de alavancar o desempenho educacional dos alunos mais economicamente vulneráveis, uma vez que pais com menor escolaridade e recursos econômicos não parecem estar em desvantagem em relação aos pais mais favorecidos economicamente. Esse modelo de avaliação se destina a oferecer informações em larga escala para políticas públicas, sendo seu formato bastante abrangente para que possa ser comparável, de modo a permitir análises e trocas de experiência entre diferentes sistemas educativos. Os instrumentos de avaliação socioemocional do sistema SENNA compõem um conjunto que conta ainda com material de apoio e um programa para facilitar a inserção de dados e geração de devolutivas. Considerações finais De modo geral as Metodologias que enriquecem o currículo dos educadores devem ser organizadas a partir de parcerias entre professores e alunos sendo que o objetivo dessa cooperação é estimular o intelecto do aluno com atividades capazes de se adequar às necessidades individuais e coletivas dos estudantes. Para isso, organizaram as metodologias ativas que tem como principal enfoque promover a inserção do aluno no processo de ensino e aprendizagem fazendo com que o aluno deixe de ser um agente passivo, passando a ser um membro ativo na construção do saber por meio de estímulos sobre o conhecimento e análise de problemas. A ideia é que o professor deixe de ser o ator principal e se torne um mediador do conhecimento, trabalhando em conjunto com a turma, compartilhando conceitos e estimulando o pensamento crítico. O aluno passa ser o protagonista do seu processo de construção do saber tendo maior responsabilidade em alcançar seus objetivos educacionais. Diante disso fica claro que essa metodologia ativa propicia maior interação em sala de aula e exige comprometimento da turma (BACICH, L. & MORAN, J, 2017). Apresentamos cinco destas metodologias chamadas de ativas: A aprendizagem colaborativa de acordo com MONTES (2016) consiste em reunir os indivíduos em torno de um só objetivo. A intermediação é feita pelo professor que deve conduzir os trabalhos de modo que todos se esforcem para obtenção doresultado desejado. A problematização inicia-se ao incitar o aluno a observar a realidade de modo crítico, possibilitando que o mesmo possa relacionar esta realidade com a temática que está estudando sugere Berbel (1999, 2012). Esta observação mais atenta permitirá que o estudante perceba por si só os aspectos interessantes, que mais o intrigue. A partir dos conhecimentos prévios os alunos e professores serão capazes de perceberem os aspectos problemáticos desta realidade analisada. A educação por projetos é uma metodologia de trabalho educacional que tem por objetivo organizar a construção dos conhecimentos em torno de metas previamente definidas, de forma coletiva, entre alunos e professores conforme mostram Campos, Machado, Rados e Todesco (2016). A formação de leitores e produtores de textos deve estar atrelada ao nível dos alunos, ou seja, oferecer material para leitura, entendimento, reflexão e escrita a partir do patamar que se encontram os diferentes grupos de alunos ressalta Freire (1992). Em se tratando de Segundo Tubino (2010), a presença pedagógica acontece a partir do momento que o professor se faz presente com atitudes de abertura de debates, reciprocidade nos conhecimentos e compromisso com a Educação no sentido de viabilizar a participação efetiva dos alunos enfatiza Ajello (2005). Vale lembrar que todas as metodologias são decisivas para o desenvolvimento de competências socioemocionais sendo a principal ideia colocar o aluno numa posição ativa. Dessa forma ele mobiliza conhecimentos, saberes, atitudes e valores para resolver problemas reais de seu cotidiano. A mudança na forma como o professor se coloca diante da turma é fundamental no processo de ensino, a partir do momento que se percebe que não é mais a única fonte de conhecimento, passando a ter papel de “guia”, provocador, orientador, mediador e pesquisador. O mundo atual cobra que seus jovens tenham protagonismo no seu próprio desenvolvimento e na sua formação. Ainda que o ensino tradicional apresente modelos criados para atender demandas antigas, a conexão do indivíduo com o atual mundo onde vive passa pela reflexão sobre seu projeto de vida e pelo desenvolvimento de competências socioemocionais conforme ressalta Abbad, Loiola, Zerbine e Borges-Andrade (2013). No próximo vídeo, o professor Diego Padovan conta a sua experiência usando habilidade socioemocional dentro da sala de aula e o quanto essas competências socioemocionais serão valorizadas no mercado futuramente e trarão benefícios tanto para a sociedade quanto para o ambiente familiar .