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A Época Medieval Embora bastante distanciada no tempo, é fundamental conhecermos a produção literária portuguesa na Idade Média, porque é ela que dará origem a uma tradição literária em língua portuguesa, servindo como fonte de referência para escritores que surgiram posteriormente tanto em Portugal como no Brasil. Os textos literários mais antigos de Portugal datam do século XII, período que coincide com a expulsão dos árabes da península Ibérica e com a formação do Estado português. As primeiras produções literárias portuguesas foram escritas em galego-português, o que pode ser explicado por causa da integração linguística e cultural existente entre Portugal e Galiza. Essas primeiras produções literárias constituem a primeira época medieval denominada Trovadorismo. O Trovadorismo Embora Portugal, durante a primeira época medieval, tivesse conhecido manifestações literárias na prosa e no teatro, foi a poesia que, nesse período, alcançou grande popularidade tanto entre a elite da nobreza das cortes quanto entre a massa comum do povo. Uma das razões que levaram a essa popularidade foi o fato de que, então, poucas pessoas sabiam ler ou escrever, o que privilegiava a difusão da poesia, que era memorizada e transmitida oralmente. Os poemas eram cantados e acompanhados de música e dança, sendo assim denominados cantigas. Suas poesias eram acompanhadas por instrumentos musicais como a lira, a harpa, a rabeca, o alaúde, a flauta, o tamborete, o címbalo e outros. Os autores das cantigas eram chamados trovadores (pessoa que fazia trovas, rimas), daí a origem do nome Trovadorismo. Geralmente, eram poetas pertencentes à nobreza ou ao clero, e eram responsáveis pela composição tanto da letra quanto da música, assim como pela execução dessas composições para o seleto público das cortes. Entre as camadas populares, eram os jograis que cantavam e executavam as canções criadas pelos trovadores. O primeiro documento literário de que se tem notícia em Portugal é a Cantiga da Ribeirinha, escrita por Paio Soares de Taveirós em 1198. Tal obra é dotada de lirismo e sátira, porém, é classificada como cantiga de amor. Esta cantiga é oferecida a Maria Pais Ribeiro (Ribeirinha), amante de D. Sancho I, então rei de Portugal. As cantigas Criadas por trovadores, poetas das cortes feudais, retratavam sentimentos amorosos entre cavalheiros e damas da nobreza (cantigas de amor) ou entre uma jovem compesiva e seu amante distante (cantigas de amigo). · Cantigas de amigo – de origem galaico-portuguesa, são marcadas por um eu-lírico feminino, uma donzela que fala sobre seu problema amoroso, seja através de um monólogo íntimo, seja através de um confidente, simbolizada pela figura da mãe, irmã, amiga ou até mesmo algum elemento da natureza (flores, árvores...). A cantiga de amigo possui um aspecto folclórico, pois retrata um determinado ambiente ou costume repleto de sentimento amoroso burguês. Desse modo, pode ser uma bailada, romaria, barcarola, pastorela ou alba. De caráter narrativo e descritivo, retrata as relações afetivas entre pessoas de níveis sociais inferiores. O amor é singelo e espontâneo. Normalmente, estas cantigas narram a partida do namorado para combater os mouros, surgindo, assim, aspectos como a solidão, a tristeza e a saudade. Os versos apresentam musicalidade e ritmo, com repetição total ou parcial do refrão. Exemplo: Cantiga de amigo Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo! e ai Deus, se verá cedo! Ondas do mar levado, se vistes meu amado! e ai Deus, se verá cedo! Se vistes meu amigo, o por que eu suspiro! e ai Deus, se verá cedo! Se vistes meu amado por que hei gran cuidado! e ai Deus, se verá cedo! CODAX, Martim. Cantares dos trovadores galegoportugueses. Seleção, introdução, notas e adaptação de Natália Correia. Lisboa: Editorial Estampa, 1970, p. 76 -Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é? Ai, flores, ai flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado! Ai Deus, e u é? Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pos comigo! Ai Deus, e u é? Se sabedes novas do meu amado aquel que mentiu do que mi ha jurado! Ai Deus, e u é? -Vós me preguntades polo voss'amigo, e eu ben vos digo que é san'e vivo. Ai Deus, e u é? Vós me preguntades polo voss'amado, e eu ben vos digo que é viv'e sano. Ai Deus, e u é? E eu ben vos digo que é san'e vivo e seerá vosc'ant'o prazo saído. Ai Deus, e u é? E eu ben vos digo que é viv'e sano e seerá vosc'ant'o prazo passado. Ai Deus, e u é? · Cantigas de amor – originária de Provença, sul da França, a cantiga de amor chegou a Portugal através de casamentos, peregrinações, cruzadas entre os reinos, dando início às primeiras manifestações do lirismo subjetivo, reunidas na coletânea Cancioneiro da Ajuda. Sua característica principal revela sempre a fala de um homem a uma senhora da nobreza – é o chamado amor cortês. Os ambientes desta poesia são os arredores do palácio, campo ou vilas em construção. Mostra uma diferença de classe social, e neste caso, o homem está sempre abaixo da camada social da amada. O amor baseia-se na relação vassalo/senhor, refletindo o sistema feudal e a divisão de classe social: nobreza – clero – povo. A cantiga de amor é marcada pelo eu-lírico masculino e sofredor, sua amada é chamada por ele de “mia senhor”, de novo um reflexo da relação vassalo/ senhor feudal. Não se revela o nome da dama, cultivando seu amor em segredo. Dessa forma, a mulher é idealizada, inatingível e sempre colocada num plano elevado. Essa relação é conhecida por “coita d’amor” (amor-sofredor). Exemplo 1: Quer’eu a Deus rogar de coraçon, com’ome que é cuitado d’amor, que el me leixe veer mia senhor mui ced’; e se m’el non quiser’ oïr, logo lh’eu querrei outra ren pedir: que me lon leixe mais eno mundo [viver! E se m’el á de fazer algum bem, oïr-mi-á questo que lh’eu rogarei, e mostrar-mi-á quanto bem [no mundo’ei, E se mi-o el non quiser “amostrar, logo lh’eu outra ren querrei rogar: que me non leixe mais eno [mundo viver! E se m’el amostrar’a mia senhor, que am’eu mais ca o meu coraçon, vedes, o que lhe rogarei enton: que me dê seu Ben que m’é [mui mester; e roga-lh’ei que, se non fezer’, que me non leixe mais eno mundo [viver! E roga’-lh’ei, se me Ben á fazer, que el me leixe viver en logar u a veja e lhe possa falar, por quanta coita me por ela deu; se non, vedes que lhe rogarei eu: que me non leixe mais eno [mundo viver! TORNEOL, Nuno Fernandes. MENDES dos Remédios. História da Literatura portuguesa. Coimbra: Atlântida Livraria Editora, 1930, p. 64 Exemplo 2: A dona que eu am’e tenho por [senhor amostrade-mh-a Deus, se vos en [prazer fôr, se non dade-mh-a morte. A que tenh’eu por lume dêstes olhos [meus e por que choran sempre [amostrade-me-a Deus, se non dade-mh-a morte. Essa que Vós fezestes melhor [parecer De quantas sei, ai Deus, [fazede-me-a ver, Se non dade-mh-a morte. Ai Deus, que me-a fizestes mais ca [mim amar, Mostrade-me-a u possa com ela [falar, Se non dade-me-a morte. (Bernardo Bonaval) Nos poemas acima, o trovador dirige-se à dama, que, quase sempre é indiferente às suas súplicas. · Cantigas de escárnio e Cantigas de maldizer: Compõem a primeira experiência literária portuguesa na sátira. Têm importante valor histórico como sendo registro da sociedade medieval portuguesa em seus aspectos culturais, morais e linguísticos. As cantigas de escárnio e maldizer não são tão presas a modelos e convenções como as cantigas de amigo e de amor, essas ao contrário buscaram um caminho poético próprio que mesclasse variados recursos expressivos. Voltavam-se para a crítica de costumes, tinham como alvo os diferentes representantes da sociedade medieval portuguesa: clérigos imorais, cavaleiros e nobres medrosos, prostitutas, os próprios trovadores e jograis, as soldadeiras, etc. Os trovadores portugueses criticavam ou ridicularizavam situações do cotidiano. Esse tipo de cantiga divide-se em cantigas demaldizer, na qual se falava mal de pessoas conhecidas, através de um vocabulário de baixo calão; e cantigas de escárnio, onde se fazia crítica às pessoas, de maneira irônica, porém, sem citação de nomes. Exemplo de Cantiga de Escárnio: Ai dona fea! foste-vos queixar porque vos nunca louv’ en meu trobar, mais ora quero fazer un cantar en que vos loarei tôda via; e vêdes como vos quero loar: dona fea, velha e sandia! Ai dona fea! se Deus me perdon! e pois havedes tan gran coraçon que vos eu loe en esta razon, vos quero já loar tôda via; e vêdes qual será a loaçon: dona fea, velha e sandia! Dona fea, nunca vos eu loei en meu trobar; pero muito trobei; mais ora já um bon cantar farei en que vos loarei tôda via; e direi-vos como vos loarei: dona fea, velha e sandia! GUILHADE, J. Garcia de Apud Amora, A S. Et alli. Presenca da Literatura Portuguesa. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1961, p. 52. · No poema acima, a linguagem é simples, direta, agressiva; predomina a zombaria aberta. Exemplo de Cantiga de Maldizer: Maria Peres se mãefestou (confessou) noutro dia, ca por pecador (pois pecadora) se sentiu, e log' a Nostro Senhor prometeu, pelo mal em que andou, que tevess' um clérig' a seu poder, (um clérigo em seu poder) polos pecados que lhi faz fazer o demo, com que x'ela sempr'andou. (O demônio, com quem sempre andou) Mãefestou-se, ca (porque) diz que s'achou pecador mui't,(muito pecadora) porém, rogador foi log' a Deus, ca teve por melhor de guardar a El ca o que a guardou E mentre (enquanto) viva diz que quer teer um clérigo, com que se defender possa do demo, que sempre guardou E pois (depois) que bem seus pecados catou de sa mor' ouv (teve) ela gram pavor e d'esmolar ouv' ela gram sabor (teve grande prazer em esmolar) E logo entom um clérico filhou (agarrou ) e deu-lhe a cama em que sol jazer (sozinha dormia) E diz que o terrá mentre (terá enquanto) viver e esta fará; todo por Deus filhou. (E isso fará, pois tudo aceitou por Deus). E pois que s'este preito ( pacto) começou, antr'eles ambos ouve grand'amor. Antr'el (entre) á sempr'o demo maior atá que se Balteira confessou. Mais pois que viu o clérigo caer, antre'eles ambos ouv'i (teve nisso) a perder o demo, dês que (desde que) s'ela confessou. (Fernando Velho) Diferenças entre as cantigas de Escárnio e as cantigas de Maldizer: Os dois tipos de cantigas foram importantes na Idade Média. As diferenças entre elas são pequenas e estão principalmente na linguagem e no tratamento. Cantiga de escárnio Cantiga de maldizer → Crítica indireta; normalmente a pessoa satirizada não é identificada → Linguagem trabalhada, cheia de sutilezas, trocadilhos e ambiguidades. → Ironia. → Crítica direta; geralmente a pessoa a pessoa satirizada é identificada → Linguagem agressiva, direta, por vezes obscena →Zombaria.