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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES FACULDADE DE EDUCAÇÃO FUNDAÇÃO CECIERJ /Consórcio CEDERJ / UAB Curso de Licenciatura em Pedagogia – modalidade EAD EXERCÍCIO DE REVISÃO COM VISTA À AP3 GABARITO Disciplina: Língua Portuguesa Instrumental Coordenadora: Helena Feres Hawad Etimologia popular (falsos parentes) Mário A. Perini Um dia desses, fiquei preso em um engarrafamento de trânsito, aventura extremamente frequente para quem tem o privilégio de viver em Belo Horizonte. Os congestionamentos, aliás, são uma espécie de pausa que nossa cidade concede a seus habitantes para que ponham em ordem seus pensamentos e meditem um pouco sobre a vida – ou, como alternativa, para que possam maldizer os outros motoristas, o Detran, a Prefeitura, o Governo Federal, a vida etc. Conforme a inclinação de cada um, é possível usar o tempo gasto nos engarrafamentos para pensar um pouco. Como dizia, fiquei preso no trânsito, em um local onde passo todos os dias, na esquina da avenida Pedro II com a rua Tremedal. Sem ter o que fazer, fixei a vista na placa da esquina, que já tinha visto milhares de vezes, e pela primeira vez notei que dizia, não “rua Tremedal”, mas “rua Tremendal”. Ora, tremedal é uma palavra pouco usada, mas que eu, por acaso, conheço: significa “pantanal” e é também o nome de uma cidade mineira (donde, imagino, o nome da rua). E fiquei pensando (eu tinha muito tempo livre) no porquê do aparecimento daquele n intruso no nome da rua. Deveria ser uma influência qualquer de tremendo – talvez porque um pântano é alguma coisa tremenda, pelo menos para quem tem que atravessá-lo? Ou seja, a pessoa que fez a placa provavelmente não conhecia a palavra tremedal, e, talvez sem perceber, acabou aproximando-a de uma outra palavra que conhecia. E ainda imaginei que, se houver circunstâncias favoráveis, se outras pessoas repetirem o engano, ou aprenderem a partir da palavra já alterada, a palavra tremedal (seja significando “pântano”, seja como nome de cidade e de rua) acabará se tornando definitivamente tremendal. Se isso acontecer, a palavra terá sido alterada através de um processo histórico de mudança linguística que é relativamente comum, e recebe o nome de “etimologia popular”. Muitas das palavras que utilizamos hoje (e que são consideradas “corretas” e incluídas nos dicionários) são o resultado de alterações causadas, em tempos idos, pela etimologia popular. Vejamos a palavra ferrolho – não muito usada na nossa época de tetrachaves e interfones, mas que nossos avós conheciam bem. Em tempos mais tranquilos, quando alguém ia dormir, bastava correr uma lingueta de metal que impedia a porta de abrir com o vento; essa lingueta se chamava ferrolho. Por que é que esse objeto se chama ferrolho? A explicação parece evidente: é feito de ferro, e de ferro se tirou ferrolho. Explicação fácil e óbvia – mas falsa. Historicamente, ferrolho não é derivado de ferro. Em latim, o objeto se chamava veru, palavra que à primeira vista parece muito longe de sua correspondente portuguesa. Mas o povão não dizia veru; preferia um diminutivo, veruculum (acento no primeiro u), e foi sob essa forma que a palavra se perpetuou. Deu em francês verrou, e aqui a semelhança com o latim é bem clara. Em português, a terminação -uculum acaba dando –olho; um exemplo é genuculum, que deu em português arcaico geolho (e daí, por caminhos misteriosos, o português moderno joelho). Assim, veruculum tinha que dar verolho, e essa é a designação antiga do objeto. Mas aí entra a imaginação do povo. Se o objeto é feito de ferro, por um ferreiro, pode muito bem se chamar ferrolho, em vez de verolho, que, convenhamos, é uma palavra pouco expressiva. Alguém teve a ideia, começou a falar assim, e a coisa pegou. Hoje (para os poucos que ainda o utilizam) o ferrolho se chama ferrolho, mesmo quando é feito de alumínio. É pouco provável que a evolução de verolho para ferrolho tenha sido um processo consciente; alguém simplesmente “ouviu mal”, e escutou um ferro onde não havia, passando a pronunciar assim. A evolução das palavras é resultado de um complexo de fatores, a maioria deles inconsciente – mesmo quando motivados, como é o caso da etimologia popular. O caso de floresta mostra uma motivação concreta. A palavra original era foresta – e daí evoluíram a palavra francesa, forêt, e a italiana, foresta. Trata-se de palavra de origem latina, e aliás pré- latina, que na origem denotava a parte externa (considerada do ponto de vista das terras cultivadas), sendo aparentada, historicamente, com nossa palavra fora. Nunca teve um l, mas em português se achou que, se era uma área densamente coberta de vegetação, deveria haver ali também muitas flores – donde o aparecimento do l, resultando em uma palavra mais expressiva. Os franceses e italianos, aparentemente, eram menos poéticos e nem pensaram em flores, conservando a palavra em sua forma antiga. Processo semelhante sofreu a palavra pneumonia, transformada na boca do povo em pulmonia, por razões óbvias. E algumas pessoas ainda dizem barriguilha – a braguilha não fica exatamente na barriga, fica um pouco mais abaixo, mas afinal a distância é pequena. Até aí, as coisas são razoavelmente claras. O mistério é por que algumas formas sofrem essa reinterpretação, e muitas outras não sofrem. Por que é que não dizemos, por exemplo, intervago em vez de intervalo (afinal, um intervalo é um horário vago, não é)? Ou cãochorro, em vez de cachorro? Talvez o que se vê nos casos de etimologia popular sejam testemunhos de acidentes históricos, momentos em que alguém criou uma forma e por acaso as pessoas que estavam por ali gostaram, e adotaram a nova palavra. Quem sabe? Há alguns anos, um operário que estava trabalhando na casa de um amigo disse que tinha muitos “pobremas”. Eu quis ser gentil, e comentei: “Ah, o senhor tem problemas?”. E ele imediatamente me corrigiu: “Não, professor. Problema é coisa de matemática, de escola. Eu, que sou pobre, tenho mesmo é pobrema”. – A etimologia popular em ação! PERINI, Mário A. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. p.73-81. Fragmentos adaptados. 1. Explique resumidamente o que é a “etimologia popular”. É UM PROCESSO HISTÓRICO DE MUDANÇA LINGUÍSTICA (PROVOCADO POR UMA INTERPRETAÇÃO POPULAR DO SIGNIFICADO E DA ESTRUTURA DAS PALAVRAS, E DOS PARENTESCOS ENTRE ELAS). OU: É UM PROCESSO QUE PROVOCA ALTERAÇÕES NAS PALAVRAS. 2. Indique a razão pela qual, segundo o autor, algumas palavras da língua são alteradas pela etimologia popular e outras não. O AUTOR SUGERE QUE TALVEZ SE TRATE DE ACASOS, DE “ACIDENTES HISTÓRICOS”. 3. Processo semelhante sofreu a palavra pneumonia, transformada na boca do povo em pulmonia, por razões óbvias. (10º parágrafo) Apresente as “razões óbvias” que existem nessa transformação. A PNEUMONIA É UMA DOENÇA QUE AFETA OS PULMÕES. DAÍ O POVO TER JULGADO QUE A PALAVRA “PNEUMONIA” DEVIA SER DERIVADA DA PALAVRA “PULMÃO”. 4. Vejamos a palavra ferrolho – não muito usada na nossa época de tetrachaves e interfones, mas que nossos avós conheciam bem. (4º parágrafo) Nesse fragmento, há uma referência a um aspecto do contexto sócio-cultural em que vivemos. Identifique esse aspecto e explique sua relação com o sentido do fragmento. EM NOSSO CONTEXTO ATUAL, HÁ MUITO MEDO DA VIOLÊNCIA, POR ISSO AS PESSOAS TENDEM A SE CERCAR DE DISPOSITIVOS DE SEGURANÇA – POR EXEMPLO, OS USADOS PARA TRANCAR AS CASAS, COMO TETRACHAVES, E PARA CONTROLAR A ENTRADA DE VISITANTES, COMO OS INTERFONES. 5. Alguém teve a ideia, começou a falar assim, e a coisa pegou. (8º parágrafo) Reescreva essa frase, substituindo a expressão em negrito por outra de sentido equivalenteno contexto do texto lido, de modo a elevar o grau de formalismo. ALGUMAS POSSIBILIDADES: Alguém teve a ideia, começou a falar assim, e a inovação agradou. Alguém teve a ideia, começou a falar assim, e a novidade se alastrou. Alguém teve a ideia, começou a falar assim, e a nova forma ganhou adeptos. Alguém teve a ideia, começou a falar assim, e a nova palavra foi conquistando terreno. Alguém teve a ideia, começou a falar assim, e a alteração foi repetida por outras pessoas. Alguém teve a ideia, começou a falar assim, e muitas pessoas imitaram. 6. Conforme a inclinação de cada um, é possível usar o tempo gasto nos engarrafamentos para pensar um pouco. (1º parágrafo) Reescreva essa frase, substituindo a expressão em negrito por outra de sentido equivalente com o pronome se. Faça somente as alterações necessárias e observe a norma padrão. Conforme a inclinação de cada um, pode-se usar o tempo gasto nos engarrafamentos para pensar um pouco. 7. Se era uma área densamente coberta de vegetação, deveria haver ali também muitas flores. (10º parágrafo) Reescreva essa frase, substituindo o verbo haver pelo verbo existir. Faça somente as alterações necessárias e observe a norma padrão. Se era uma área densamente coberta de vegetação, deveriam existir ali também muitas flores. 8. Justifique o emprego de cada uma das vírgulas no fragmento abaixo. Um dia desses, fiquei preso em um engarrafamento de trânsito, aventura extremamente frequente para quem tem o privilégio de viver em Belo Horizonte. (1º parágrafo) PRIMEIRA VÍRGULA: SEPARA O ADJUNTO ADVERBIAL ANTECIPADO SEGUNDA VÍRGULA: SEPARA O APOSTO 9. Deveria ser uma influência qualquer de tremendo – talvez porque um pântano é alguma coisa tremenda, pelo menos para quem tem que atravessá-lo? Ou seja, a pessoa que fez a placa provavelmente não conhecia a palavra tremedal, e, talvez sem perceber, acabou aproximando-a de uma outra palavra que conhecia. (2º parágrafo) Nesse fragmento, há diferentes recursos que têm como efeito exprimir um grau reduzido de certeza por parte do autor. Reescreva o fragmento eliminando esses recursos, de modo a exprimir um grau maior de certeza. Faça apenas as alterações necessárias e observe a norma padrão. Era uma influência (qualquer) de tremendo – porque um pântano é alguma coisa tremenda, pelo menos para quem tem que atravessá-lo (?) Ou seja, a pessoa que fez a placa não conhecia a palavra tremedal, e, sem perceber, acabou aproximando-a de uma outra palavra que conhecia. ELEMENTOS ENTRE PARÊNTESES PODEM OU NÃO SER SUPRIMIDOS NA RESPOSTA. 10. Sem ter o que fazer, fixei a vista na placa da esquina. (2º parágrafo) Indique um conectivo que possa preencher a lacuna na versão modificada dessa frase, conforme aparece abaixo, mantendo o mesmo sentido da frase original. ________ não tinha o que fazer, fixei a vista na placa da esquina. COMO / PORQUE / UMA VEZ QUE / JÁ QUE / VISTO QUE