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Hidráulica Março/2013 1 FUNDAMENTOS DE HIDRÁULICA 1. INTRODUÇÃO À MECÂNICA DOS FLUIDOS E HIDRÁULICA 1.1 Conceituação “Streeter” define os fluidos como "uma substância que se deforma continuamente quando submetida a uma tensão de cisalhamento, não importando quão pequena possa ser esta "tensão". Uma força de cisalhamento é a componente tangencial da força que age sobre a superfície; dividida pela área da superfície dá origem à tensão média de cisalhamento. Pode-se dizer assim que a tensão de cisalhamento em um ponto é o valor limite da razão entre a força de cisalhamento e a área, quando esta tende a um ponto. Seja uma substância contida entre duas placas planas e paralelas, como mostra a Figura 1. Figura 1 – Deformação de um fluído contido entre duas placas. Considere-se que as placas são suficientemente grandes para que as perturbações das bordas não influam na experiência. Se a placa inferior é fixa e uma força F é aplicada tangencialmente na placa superior, de área A, surge uma tensão de cisalhamento na substância. Tensão de cisalhamento A F Se a placa sob a ação da força movimentar-se com velocidade vi constante e o fluido escoar com cada partícula movimentando-se paralelamente à placa e com vi vo Hidráulica Março/2013 2 velocidade, v, variando na vertical de vo a vi, tem-se então o caso de a substância entre as placas ser um fluido. Experimentalmente verificou-se também que para escoamento em regime laminar, caso da experiência, a força F é proporcional à área A, à velocidade v e inversamente à distância vertical, Y. Y v A F i Logo, a equação pode ser escrita assim: dy dv Y v i O termo é o fator de proporcionalidade, denominado coeficiente de viscosidade dinâmica (ou absoluta) dos fluidos. É uma característica dos fluidos. Um fluido por hipótese sem viscosidade e sem compressibilidade é denominado fluido "perfeito" ou “ideal". 1.2. Algumas propriedades dos fluidos a) Viscosidade Newton disse que a viscosidade é a propriedade que tem os fluidos de resistirem ao cisalhamento. Em outras palavras seria dizer que a viscosidade é a propriedade que possibilita às camadas fluidas resistirem ao escoamento recíproco. Y v A F Pela expressão de Newton verifica-se que o atrito é tanto maior quanto mais viscoso o fluido. Verifica-se também que a resistência cresce com a velocidade de deslizamento, o que diferencia o atrito dos líquidos daquele que ocorre nos sólidos, onde a velocidade não tem influência e sim a pressão. Da expressão anterior verifica-se ainda que o coeficiente de viscosidade dinâmica tem dimensão FTL-2. A unidade no sistema Técnico é kgf s m-2. No sistema CGS a unidade é o Poise (dina s cm-2). Hidráulica Março/2013 3 Em conseqüência inclusive da viscosidade, o escoamento dos fluidos dentro das canalizações somente se verifica com certa “perda” de energia, o que pode ser verificado na Figura 2. Figura 2 - Ilustração da perda de carga em uma tubulação. A viscosidade pode ser expressa também através de outro coeficiente, o coeficiente de viscosidade cinemática (), que por definição é a relação entre o coeficiente de viscosidade dinâmica e a massa específica. Sua dimensão é L2T-1 e a unidade no SI é m2 s-1; no CGS é o Stoke (cm2 s-1). A Tabela 1 apresenta os valores de viscosidade cinemática da água, em função da temperatura. Tabela 1 – Valores de viscosidade cinemática da água Temperatura (oC) Viscosidade (x 10-6 m2 s-1) 0 1,79 5 1,52 10 1,31 15 1,14 20 1,01 25 0,90 30 0,80 40 0,66 50 0,56 60 0,48 70 0,42 80 0,37 90 0,33 100 0,30 b) Coesão E a propriedade que permite às moléculas fluidas resistirem a pequenos esforços de tensão. A formação da gota d'água é devida à coesão. É um fenômeno eletroquímico. Hidráulica Março/2013 4 c) Adesão Quando à atração exercida sobre moléculas líquidas pelas moléculas de um sólido é maior que a atração eletroquímica existente entre as moléculas do líquido (coesão) ocorre a adesão do líquido às paredes do sólido. A água tem maior adesão que coesão por isto o menisco em um tubo de pequeno diâmetro (1,0 cm, por exemplo) é perfeitamente visível como ascendente do centro para a periferia; o contrário ocorre com o mercúrio cuja adesão e menor que a coesão. Outras propriedades dos fluidos são tensão superficial, capilaridade e elasticidade. Algumas relações são muito importantes no estudo dos fluidos por caracterizá- los. As principais são: a) Massa específica (): é a massa da unidade de volume de um líquido. A unidade no Sistema Técnico é UTM m-3 ou kgf s2 m-4 A massa específica da água a 4°C e 102 kgf s2 m-4. b) Peso específico (): é o peso da unidade de volume de um líquido. A unidade e kgf m-3 no Técnico. No SIU é N m-3. O peso específico da água a 4°C é 1000 kgf m-3. Se F = m a = g. c) Densidade (d): é a relação entre a unidade de peso ou de massa de um fluido e a unidade de peso ou massa da água a 4 oC. 2. HIDROSTÁTICA É a parte da Hidráulica que estuda os líquidos em repouso, bem como as forças que podem ser aplicadas em corpos neles submersos. 2.1 Pressão É a força que atua em uma superfície por unidade de área. Quando a força atua uniformemente distribuída sobre a área: Hidráulica Março/2013 5 A F p em que: p = pressão, Pa (N m-2), kgf m-2, kgf cm-2; F = força aplicada, normal à superfície, N, kgf; e A = área sobre a qual a força está atuando, m2, cm2. 2.2 Lei de Pascal Seja um líquido homogêneo e em equilíbrio, no interior do qual isola-se um prisma com altura dy, largura dx e comprimento unitário (Figura 3). Se o prisma estiver em equilíbrio, a somatória das forças atuantes na direção “X” será nula. (Fx = 0). ds dy sen ; )1 ds( sen ps)1 dy( px pspx ; ds dy ps ds dy px ; ds dy ds psdypx Figura 3 – Forças atuantes em um prisma. Na direção “Y” deve ocorrer o mesmo: Fy = 0, havendo o equilíbrio. Logo: V P ; V P ; dw )1ds( cos ps )1 dx( py 2 1dy dx ds cos psdx py Hidráulica Março/2013 6 Sendo o prisma elementar, suas dimensões são infinitesimais e portanto, a força resultante de seu peso é desprezível. Portanto: pspypxpspy ; ds dx ps ds dx py ; ds dx ds psdxpy Então, px = py = ps. Este é o princípio de Pascal, que se anuncia: “Em qualquer ponto no interior de uma massa líquida em repouso e homogênea, a pressão é a mesma em todos as direções”. A prensa hidráulica é uma importante aplicação desta lei. Na Figuraabaixo, considere que o diâmetro do êmbulo maior seja de 4 vezes o diâmetro do êmbulo menor. Se for aplicada uma força F1 = 50 N, a pressão do fluido transmitirá, ao êmbulo maior, uma força F2 de 16 x 50 N, ou seja, F2 = 800 N. (p1 = p2 F1 A2 = F2 A1 ) Figura 4 – Aplicação da Lei de Pascal. 2.3 Lei de Stevin Na Figura 5, “A” é a área das faces, “P” é o peso da massa líquida e “h” é a diferença de nível entre os pontos considerados. Como V P e h AV então h A P . Se o sistema estiver em equilíbrio, Fy = 0, e, portanto: 0A ph A A p 0A pPA p 21 21 Hidráulica Março/2013 7 h pp ou h pp h A A pA p 12 12 12 Figura 5 – Demonstração da Lei de Stevin. “A diferença de pressão entre dois pontos da massa de um líquido em equilíbrio é igual à diferença de nível entre os pontos, multiplicada pelo peso específico do líquido”. Exercício: Calcular a força P que deve ser aplicada no êmbolo menor da prensa hidráulica da figura, para equilibrar a carga de 4.400 kgf colocada no êmbolo maior. Os cilindros estão cheios, de um óleo com densidade 0,75 e as seções dos êmbolos são, respectivamente, 40 e 4000 cm2. Resposta: 42,8 kgf. Hidráulica Março/2013 8 3. MANOMETRIA As pressões são grandezas físicas muito importantes no trabalho com fluidos, haja vista a equação fundamental da Estática dos fluidos, que é expressa em termos de pressões e esforços. No século XVII Torricelli executou sua conhecida e célebre experiência ao nível do mar, quando, ao emborcar uma proveta cheia de mercúrio em uma cuba, o líquido fluiu da proveta para a cuba permanecendo apenas uma coluna de 762 milímetros de altura. A conclusão lógica era de que o ar atmosférico tinha peso, por conseguinte exercia pressão. Esta pressão, medida ao nível do mar, correspondia a uma coluna de mercúrio de 762 mm de altura. Este valor de pressão foi chamado de "uma atmosfera Física". Como o peso específico do mercúrio é 13.600 kgf m-3, vem: 13.600 kgf m-3 x 0,762 m = 10.363 kgf m-2 = 1,036 kgf cm-2 Como a densidade do mercúrio é 13,6, a mesma pressão atmosférica. equilibraria uma coluna de água de: 13,6 . 0,762 = 10,36 m. Na prática da hidráulica se utiliza a atmosfera "técnica" que vale 735 mm Hg. 735 mmHg = 10 mca = 10.000 kgf.m-2 = 1,0 kgf.cm-2 = 1,034 atm. Exercício: A Figura 6 reproduz a experiência de Torricelli em uma certa localidade, quando foi utilizado o mercúrio como líquido manométrico. Se, ao invés de mercúrio, tivesse sido utilizado um óleo com densidade de 0,85, qual teria sido a altura da coluna de óleo? Resposta: 11,20 m.c.o. (metros de coluna de óleo) A pressão atmosférica é medida por barômetros ou por barógrafos, que são barômetros registradores. A pressão atmosférica varia com a altitude; para cada 100 metros de elevação de altitude ocorre um decréscimo na pressão atmosférica de 0,012 atm (0,12 mca); desta forma, em um local de altitude igual a 920 metros, a pressão é: patm = 1,034 atm - (0,012 . 9,2) = 1,034 - 0,110 = 0,92 atm Hidráulica Março/2013 9 Figura 6 – Exemplo da experiência de Torricelli. 3.1 Tipos de pressão A um fluido com pressão atmosférica pode-se “acrescentar” ou "retirar” pressão. Tais pressões são denominadas “efetivas" ou manométricas, por que são medidas por manômetros e podem ser positivas ou negativas. Imaginem uma vasilha hermeticamente fechada contendo ar à pressão atmosférica local. Ligando-se o compressor indicado pelo sinal (+), mais ar será injetado dentro do recipiente e a pressão irá subindo concomitantemente, o que será mostrado pelo manômetro. O ponteiro girará para a direita (área positiva) partindo do valor zero. Suponha que o compressor tenha sido desligado quando a pressão manométrica era de 1,2 kgf cm-2. Em seguida, ligando-se a bomba de vácuo, ilustrada com o sinal (-), a pressão irá caindo (o ar esta sendo retirado) voltando ao valor inicial (zero). Neste ponto a pressão reinante no interior do recipiente é somente a pressão atmosférica, a qual não é acusada por manômetros. Com a continuação do processo, a pressão passará a ser negativa, com o ponteiro do manômetro girando para a esquerda; estará ocorrendo o que denomina-se "vácuo" ou depressão. Desligando-se o conjunto, o manômetro estará marcando uma pressão negativa (efetiva) de, por exemplo, -0,2 kgf cm-2. Praticamente um fluido está sujeito, portanto, a dois tipos de pressão: a atmosférica e a efetiva. A somatória dos valores das duas pressões dará o que Hidráulica Março/2013 10 denomina-se pressão absoluta. No exemplo considerado, sendo por hipótese a pressão igual a 0,9 atm, as pressões absolutas serão: a) para pressão efetiva nula (ar à pressão atmosférica no interior do recipiente) pabs = patm + pef = 0,9 + 0,0 = 0,9 atm b) para pressão efetiva de 1,2 atm pabs = patm + pef = 0,9 + 1,2 = 2,1 atm c) para pressão efetiva de -0,2 atm pabs = patm + pef = 0,9 + (-0,2) = 0,7 atm Pode-se verificar que na situação do caso c, a pressão absoluta é menor que a pressão atmosférica local. Logo, há depressão ou vácuo, no interior do recipiente. Como já mencionado a pressão efetiva é medida por manômetros. Vacuômetro é o manômetro que mede pressões efetivas negativas. 3.2 Classificação dos medidores de pressão 3.2.1. Manômetro de líquido ou de coluna líquida São aqueles que medem as pressões em função das alturas da coluna dos líquidos que se elevam ou descem em tubos apropriados. Nesta categoria se agrupam: piezômetro simples (ou tubo piezométrico ou manômetro aberto); manômetro de tubo em U (e também manômetro de duplo U) e manômetro diferencial. a) Piezômetro simples, Tubo Piezométrico ou Manômetro Aberto É o tipo mais simples desses aparelhos. Consiste de um tubo transparente inserido no interior do ambiente onde se deseja medir a pressão. O líquido circulante no conduto se elevará no tubo piezométrico a uma altura h, que corrigida do efeito da capilaridade, dá diretamente a pressão em altura de coluna líquida. Hidráulica Março/2013 11 A pressão no ponto A será: h pA (Lei de Stevin), em que pA é a pressão em A (N m-2 ou kgf m-2); é o peso específico do líquido (N m-3 ou kgf m-3) e h é a altura de coluna líquida acima do ponto A (m). O diâmetro do tubo piezométrico deve ser maior que 1 cm, quando o efeito da capilaridade é desprezível. O tubo piezométrico pode ser inserido em qualquer posição em torno de uma tubulação que o líquido atingirá a mesma altura h, acima de A (Figura 7). pA = h Figura 7 – Esquema de um tubo piezométrico. b) Manômetro de tubo em U É usado quando a pressão a ser medida tem um valor grande ou muito pequeno. Para tanto é necessário o uso de líquidos manométricos que permitam reduzir ou ampliar as alturas da coluna líquida(Figura 8). Esta redução ou ampliação da coluna é obtida utilizando-se um outro líquido que tenha maior ou menor peso específico, em relação ao líquido escoante. Este outro líquido é denominado líquido manométrico, e deve apresentar algumas características, como: - não ser miscível com o líquido escoante; - formar meniscos bem definidos; Hidráulica Março/2013 12 - ter densidade bem determinada. Figura 8 – Esquema de um tubo em U. Para pequenas pressões os líquidos manométricos mais comuns são: água, cloreto de carbono, tetracloreto de carbono, tetrabrometo de acetileno e benzina. Para grandes pressões, o líquido mais usado é o mercúrio. Nos manômetros de tubo em U, a pressão já não é dada diretamente pela altura da coluna líquida, mas através de equações que caracterizam o equipamento. Para se conhecer a pressão em A, deve-se proceder da forma seguinte: 1) Demarque os meniscos separando assim as diferentes colunas líquidas e cancele as colunas equivalentes; 2) Começando em uma das extremidades escreva o valor da pressão nesse ponto; sendo incógnita use um símbolo; 3) Escreva em continuação o valor da pressão representada por uma a uma das colunas líquidas; para isto, multiplique a altura da coluna pelo peso específico do fluido; cada parcela será precedida do sinal (+) se a coluna tender a escoar para adiante sob a ação da gravidade e (-) em caso contrário; 4) Atingindo-se o último menisco a expressão será igualada à pressão nesse ponto, seja ela conhecida ou incógnita. h h y Hidráulica Março/2013 13 Baseando-se nestes preceitos, pela Figura 8 chega-se a dois pontos: 1 e 2, onde: pA + 1 y - 2 h = patm = 0. O índice 2 se refere às características do líquido manométrico. Exercícios: - Com base no tensiômetro de mercúrio da Figura 9, mostre que o potencial matricial no ponto A é . Figura 9 – Desenho esquemático de um tensiômetro de mercúrio. - A Figura 10 representa um manômetro duplo U instalado em uma tubulação. Calcule a pressão no Ponto A, expressando-a em kgf m-2, kgf cm-2 e Pa. Considere: - líquido escoando na tubulação: água; - líquido manométrico: mercúrio; - x = 15 cm; y = 20 cm; z = 8 cm; h = 22 cm; j = 20 cm. Resposta: 4.204 kgf m-2; 0,4204 kgf cm-2; 42.040 Pa 12A hhh6,12 Hidráulica Março/2013 14 Figura 10 – Manômetro de duplo U. c) Manômetro Diferencial É o aparelho usado para medir a diferença de pressão entre dois pontos. B231A py h )hyx(p 123BA )hyx(y h pp em que pA – pB é a diferença de pressão entre A e B. Figura 11 – Esquema de um manômetro diferencial. Exercício: Considere o manômetro conectado a uma tubulação, como mostra a Figura 12. Sabendo que a densidade do óleo é 0,83, calcule a diferença de pressão entre os pontos 1 e 2. Resposta: 90,10 kgf m-2. Hidráulica Março/2013 15 Figura 12 – Exemplo de um manômetro diferencial. 3.2.2. Manômetro metálico ou de Bourdon São os manômetros metálicos os mais utilizados na prática, pois permitem leitura direta da pressão em um mostrador (Figura 13). As pressões são determinadas pela deformação de uma haste metálica oca, provocada pela pressão do líquido na mesma. Figura 13 – Vista de um manômetro (esquerda) e de um vacuômetro (direita). A deformação movimenta um ponteiro que se desloca em uma escala. É constituído de um tubo metálico transversal (seção reta) elíptica que tende a se deformar quando a pressão P aumenta. Com isso a seção reta tende a ser circular que Hidráulica Março/2013 16 por sua vez acarreta um aumento no raio de curvatura do tubo metálico e movimenta o ponteiro sobre a escala graduada diretamente para medir a pressão correspondente à deformação. São usados para medir pressões muito grandes. 3.3 Relações entre as unidades de pressão Considerando a “Atmosfera técnica”: 1 atm = 735 mmHg = 1,0 kgf cm-2 = 10,0 mca = 14,7 psi = 105 Pa = 102 kPa = 104 kgf m-2 = 1,0 bar = 1000 mbar 4. HIDRODINÂMICA 4.1 Fundamentos do escoamento dos fluidos As leis teóricas da Hidrodinâmica são formuladas admitindo-se que os fluidos sejam ideais, isto é, que não possuam viscosidade, coesão, elasticidade, etc. de modo que não haja tensão de cisalhamento em qualquer ponto da massa fluida. Durante a movimentação, as partículas fluidas deslocam-se de um ponto a outro continuamente, sem que a massa do fluido sofra desintegração, permanecendo sempre contínua, sem vazios ou solução de continuidade. 4.2 Linhas de Fluxo As linhas de fluxo são linhas imaginárias tomadas através do fluido para indicar a direção da velocidade em diversas seções do escoamento. Gozam da propriedade de não serem atravessadas por partículas de fluido. Em cada ponto de uma linha de fluxo existe, em cada instante t, uma partícula animada de uma velocidade “v”. As linhas de fluxo são, portanto, as curvas que, no mesmo instante t considerado, se mantém tangentes em todos os pontos às velocidades “v1”. Hidráulica Março/2013 17 Em geral as linhas de fluxo são instantâneas porque as sucessivas partículas que passam pelo mesmo ponto no espaço têm velocidades diferentes nesse ponto. Também, partículas que passam por A no decorrer do tempo, podem ir para B, para C etc., mesmo com velocidade “v1”; ainda mais, uma partícula que esteja em A no instante t, com velocidade “v1” poderá, no instante t+dt, estar com velocidade “v2” em outro ponto. Nestes casos vistos, a trajetória de cada partícula difere da linha de fluxo. Se todas as partículas que passam por “A” tem, nesse ponto, velocidade “v1”, o regime de escoamento é dito “permanente” e se ao longo da trajetória, a velocidade se mantém constante, o movimento é dito uniforme e a trajetória coincide com a linha de fluxo (Figura 14). Figura 14 – Linhas de fluxo. Admitindo-se que o campo da velocidade “v” seja contínuo, pode-se considerar como tubo de fluxo (Figura 15), o tubo imaginário limitado por linhas de fluxo e que constitui-se em uma seção de área infinitesimal, na qual a velocidade de escoamento no ponto médio é representativa da velocidade média na seção. Figura 15 – Tubo de fluxo. - Vazão Cortando-se o tubo de fluxo da Figura anterior, por um plano normal às linhas de fluxo, essa seção é atravessada no instante t, por um volume de fluido dado por: Hidráulica Março/2013 18 A QdA v sendo Q a vazão, isto é, o volume escoado com velocidade “v” na seção de área “A” e na unidade de tempo. A superfície do tubo de corrente pode estar em contato com uma parede sólida, como no caso doscondutos forçados ou sob pressão, ou pode estar em contato com outro fluido, como nos canais, onde o líquido tem uma superfície em contato com a atmosfera. 4.3 Classificação dos Movimentos Nas massas fluidas em movimento é possível distinguir os seguintes tipos de escoamento: a) Escoamento não-permanente: os elementos que definem o escoamento variam em uma mesma seção com o passar do tempo. No instante t1 tem-se a vazão Q1 e no instante t2 tem-se a vazão Q2, sendo uma diferente da outra. Nas ondas de cheia, por exemplo, tem-se este tipo de escoamento. b) Escoamento permanente: é aquele em que os elementos que o definem (força, velocidade, pressão) em uma mesma seção permanecem inalterados com o passar do tempo. Todas as partículas que passam por um determinado ponto no interior da massa líquida terão, neste ponto, a qualquer tempo, velocidade constante. O movimento permanente pode ser ainda: - Uniforme: quando a velocidade média do fluxo ao longo de sua trajetória é constante. Neste caso, v1 = v2 e A1 = A2; - Variado: a velocidade varia ao longo do escoamento. Pode ser acelerado ou retardado. 4.4 Conservação da Massa Equação da continuidade A equação da continuidade é a equação da conservação da massa expressa para fluidos incompressíveis (massa específica constante). Hidráulica Março/2013 19 Em um tubo de corrente de dimensões finitas, a quantidade de fluido com massa específica 1 que passa pela seção A1, com velocidade média v1, na unidade de tempo é: 111 1 A v t m Por analogia, na seção 2 tem-se: 222 2 A v t m Em se tratando de regime permanente a massa contida no interior do tubo é invariável, logo: MtetanconsA v A v 222111 Esta é a equação da conservação da massa. Tratando-se de líquidos, que são praticamente incompressíveis, 1 é igual a 2. Então: A vQ ou A vA vA v nn2211 A equação da continuidade mostra que, no regime permanente, o volume de líquido que, na unidade de tempo, atravessa todas as seções da corrente é sempre o mesmo. 4.5 Equação de Bernoulli Aplicando-se a equação de Euler (equações gerais do movimento) aos líquidos em movimento permanente, sob a ação da força gravitacional, e em dois pontos de uma tubulação, por exemplo, tem-se: constante z 2g v γ p z 2g v γ p 1 2 11 2 2 22 Este é o teorema de Bernoulli, que se anuncia: “Ao longo de qualquer linha de corrente é constante a somatória das energias cinética ( g2 v2 ), piezométrica ( p ) e potencial (z)”. É importante notar que cada um desses termos pode ser expresso em Hidráulica Março/2013 20 unidade linear, constituindo o que denomina-se “carga” ou altura ou energia por unidade de peso. Em 1875, Froude apresentou importantes experiências sobre o teorema de Bernoulli. Uma delas consiste numa canalização horizontal e de diâmetro variável, conectada a um reservatório de nível constante. De acordo com a Figura 16, instalando-se piezômetros nas diversas seções, verifica-se que a água sobe à alturas diferentes; nas seções de menor diâmetro, a velocidade é maior e, portanto, também é maior a carga cinética, resultando menor carga de pressão. Como as seções são conhecidas, podem-se verificar a distribuição e a constância da carga total (soma das alturas). Figura 16 - Ilustração do Teorema de Bernoulli. Exercício: Um líquido incompressível de massa específica igual a 800 kg m-3 escoa pelo duto representado na Figura 17 com vazão de 10 L s-1. Admitindo o escoamento como ideal e em regime permanente, calcule a diferença de pressão entre as seções 1 e 2. (1 N = 1 kg m s-2). Resposta: 3.058,10 kgf m-2 ou 30.000 N m-2 = 30.000 Pa = 30 kPa. Figura 17 – Exemplo da aplicação da equação de Bernoulli. Hidráulica Março/2013 21 5. ESCOAMENTO EM CONDUTOS LIVRES 5.1 Generalidades O escoamento em condutos livres é caracterizado por apresentar uma superfície livre na qual reina a pressão atmosférica. Estes escoamentos têm um grande número de aplicações práticas na engenharia, estando presentes em áreas como o saneamento, a drenagem urbana, irrigação, hidroeletricidade, navegação e conservação do meio ambiente. Figura 41 – Canal principal do perímetro irrigado do Gorutuba. Os problemas apresentados pelos escoamentos livres são mais complexos de serem resolvidos, uma vez que a superfície livre pode variar no espaço e no tempo e, como conseqüência, a profundidade do escoamento, a vazão, a declividade do fundo e a do espelho líquido são grandezas interdependentes. Desta forma, dados experimentais sobre os condutos livres são, usualmente, de difícil apropriação. De modo geral, a seção transversal dos condutos livres pode assumir qualquer forma e a rugosidade das paredes internas tem grande variabilidade, podendo ser lisas ou irregulares, como a dos canais naturais. Além disto, a rugosidade das paredes pode variar com a profundidade do escoamento e, conseqüentemente, a seleção do coeficiente de atrito é cercada de maiores incertezas em relação à dos condutos forçados. Hidráulica Março/2013 22 5.2 Escoamento Uniforme em Canais Em condições normais, tem-se nos canais um movimento uniforme, ou seja, a velocidade média da água é constante ao longo do canal. Existem várias equações para o cálculo da velocidade média da água (v) em um canal, tais como: Chezy (1769); Ganguillert-Kutter (1869); Bazin (1897); Manning (1890); Gauckler-Strickler (1923). Porém as mais utilizadas são as de Chezy e de Manning. A equação de Chezy pode ser expressa da seguinte forma: D R Cv h sendo Rh = raio hidráulico (A/P); D = declividade do canal, m m-1. C= coeficiente de Chezy; O coeficiente C depende dos parâmetros de resistência ao escoamento e da seção transversal e pode ser expresso da seguinte forma: f g8 C em que f é o fator de atrito da equação de perda de carga e g é a aceleração local da gravidade. A equação de Manning é baseada na equação anterior, mas com uma mudança no coeficiente C, que pode ser escrito como: n R C 6/1 h Hidráulica Março/2013 23 em que n é uma característica da rugosidade da superfície (tabelado). Substituindo o valor de C na equação de Chezy tem-se: 2/13/2 h D R n 1 v Alguns valores de n para a fórmula de Manning: Natureza da Parede Estado da parede Perf. Bom Reg. Mau Cimento liso 0,010 0,011 0,012 0,013 Argamassa de cimento 0,011 0,012 0,013 0,015 Aqueduto de madeira aparelhada 0,010 0,012 0,012 0,014 Aqueduto de madeira não aparelhada 0,011 0,013 0,014 0,015 Canais revestidos de concreto 0,012 0,014 0,016 0,018 Paredes metálicas, lisas e semi-circulares 0,011 0,012 0,028 0,030 Paredes de terra, canaisretos e uniformes 0,017 0,020 0,023 0,030 Paredes rugosas de pedras irregulares 0,035 0,040 0,045 -- Canais de terra com grandes meandros 0,023 0,025 0,028 0,030 Canais de terra dragados 0,025 0,028 0,030 0,033 Canais com leito de pedras rugosas e com vegetação 0,025 0,030 0,035 0,040 Canais com fundo de terra e com pedras nas margens 0.028 0.030 0.033 0.035 5.3 Conceitos Importantes a) Área Molhada (A) Parte da seção transversal do canal que é ocupada pelo líquido. b) Perímetro Molhado (P) Comprimento relativo ao contato do líquido com as paredes do canal. c) Largura Superficial (B) Largura da superfície do líquido em contato com a atmosfera. d) Profundidade (y) Altura do líquido acima do fundo do canal. e) Profundidade Hidráulica (yh) Hidráulica Março/2013 24 Razão entre a área molhada e a largura superficial. yh = A/B f) Raio Hidráulico (Rh) Razão entre a área molhada e o perímetro molhado. Rh = A/P 5.4 Forma dos Canais As formas geométricas mais usuais em canais são retangulares, trapezoidal e triangular. Os parâmetros área, raio hidráulico são facilmente calculados, conforme fórmulas a seguir: a) Seção trapezoidal Figura 42 – Canal trapezoidal. )ymb(yA 1my2bP 2 P A Rh ym2bB m = tg = cotg = inclinação das paredes do canal b) seção triangular 2myA 1my2P 2 1m2 my R 2 h ym2B c) seção retangular ByA y2bP y2b by Rh bB 6.5 Dimensionamento do Canal Hidráulica Março/2013 25 Aplicando a equação de continuidade na equação de Chezy-Manning, tem-se: 2/13/2 1 SRA n Q h em que Q é a vazão, produto da área transversal da seção de escoamento pela velocidade média da água. Normalmente n e S são parâmetros definidos e conhecidos. Quando se conhece as dimensões do canal, o cálculo da vazão é explícito. Porém, quando se deseja conhecer ou dimensionar a base e altura de um canal, tendo-se a vazão de projeto, a solução fica não explícita e deve ser obtida por métodos numéricos, ábacos, tabelas ou tentativas. 5.5.1 Método das Tentativas Consiste em assumir valores para os parâmetros que definem a área e o raio hidráulico de um canal e, em seguida, aplicar a equação de Manning e a equação da continuidade, para calcular qual será a vazão com os valores assumidos. A relação entre os valores assumidos para os parâmetros geométricos do canal pode variar ou permanecer constante. Comparar a vazão calculada com a vazão conhecida; caso não sejam idênticas, repetir os cálculos até encontrar o valor para a vazão. Recomenda-se utilizar o seguinte tipo de quadro: b y A P Rh Rh2/3 n S v* Q’** Q’=Q ? * 2/13/2 1 SR n v h **Q = v A 5.6 Taludes e velocidades recomendadas A velocidade em uma seção transversal de um canal é calculada pela equação de Chezy-Manning, porém seu valor pode ser restringido por limitações da qualidade da água e da resistência dos taludes. Velocidades muito grandes podem provocar Hidráulica Março/2013 26 erosão no leito e no fundo do canal, destruindo-o. Velocidades muito baixas podem possibilitar a sedimentação de partículas em suspensão, obstruindo o canal. As Tabelas a seguir apresentam limites de velocidade e de inclinação dos taludes em função da natureza da parede. Velocidades média e máxima em um canal, em função da natureza da parede. Natureza da parede do canal Velocidade (m.s-1) Média máxima Areia muito fina 0,23 0,30 Areia solta – média 0,30 0,46 Areia grossa 0,46 0,61 Terreno arenoso comum 0,61 0,76 Terreno silto-argiloso 0,76 0,84 Terreno de aluvião 0,84 0,91 Terreno argiloso compacto 0,91 1,14 Terreno argiloso duro 1,22 1,52 Cascalho grosso, pedregulho 1,52 1,83 Rochas sedimentares moles 1,83 2,44 Alvenaria 2,44 3,05 Rochas compactas 3,05 4,00 Concreto 4,00 6,00 Velocidades mínimas em um canal a fim de evitar sedimentação. Tipo de suspensão na água Velocidade (m.s-1) Água com suspensão fina 0,30 Água transportando areia 0,45 Águas residuárias - esgotos 0,60 Inclinação dos taludes dos canais. Natureza da parede do canal m Canais em terra sem revestimento 2,5 a 5 Canais em saibro 2,0 Cascalho roliço 1,75 Terra compacta sem revestimento 1,50 Terra muito compacta – rocha 1,25 Rocha estratificada 0,50 Rocha compacta 0,0 Hidráulica Março/2013 27 5.7 Informações adicionais Para situações em que a vazão é muito variável ao longo do tempo, o canal pode ser dimensionado contemplando as diferentes condições de escoamento. Normalmente em áreas urbanas, os canais são dimensionados para tal situação, ou seja, na época seca do ano, a contribuição da rede pluvial é pequena ou nula, reduzindo sensivelmente a vazão escoada. Dessa forma, o canal teria duas seções de escoamento, atendendo as distintas situações de fluxo. A Figura 43 ilustra essa situação. Figura 43 – Canal com dupla seção de escoamento. 5.8 Escoamento Variado em Canais Os canais uniformes e o escoamento uniforme não existem na natureza. Até mesmo no caso de condutos artificiais prismático, longos e de pequena declividade, as condições apenas se aproximam do movimento uniforme. Essas condições de semelhança apenas acontecem a partir de uma certa distância da seção inicial e deixam de existir a uma certa distância da seção final (nas extremidades a profundidade e a velocidade são variáveis). Hidráulica Março/2013 28 Nos canais com escoamento uniforme o regime poderá se alterar, passando a variado em conseqüência de mudanças de declividade, variação de seção e presença de obstáculos. 5.8.1 Energia Específica Em qualquer seção transversal de um conduto livre, a carga pode ser obtida a partir da seguinte expressão: g V yZHT 2 2 Observação: No escoamento livre, a carga de pressão pode ser substituída pela profundidade do escoamento, com as pressões sendo consideradas como hidrostáticas. P y Em condutos livres a sua declividade é denominado como gradiente hidráulico. Uma representação das linhas de carga e piezométrica num conduto livre é apresentada a seguir. Figura 44 – Representação das linhas de carga e piezométrica num conduto livre. Conforme os condutos forçados, a soma das diferentes parcelas de carga permite a construção da linha de carga total ou linha de energia. A perda de carga entra as duas seções (1) e (2) quaisquer é dada por H1-H2. Hidráulica Março/2013 29 Define-se energia específica como sendo a carga medida a partir do fundo do canal, sendo definida por: g V yH E 2 2 Se considerarmos a equação da continuidade, teremos: 2 2 2 Ag Q yH E Como a área é função da profundidade, a energia específica torna-se função da profundidade “y”, para um determinado valor de vazão, assim teremos: 212 2 )(2 EEE yfg Q yH EE Se representarmos graficamente a variação das diferentes parcelas que constituem a energia específica, teremos: Figura 45 – Curva de energia específica. Sendo: ys = profundidade subcrítica, fluvial, superior e tranquilo; yc = profundidade crítica; yI = profundidade supercrítica, rápida, inferior e torrencial; Ec = Energia crítica. Hidráulica Março/2013 30 Observação: A energia específica não é uma função monótona crescente com “y”. Existe um valor mínimo de energia (denominado energia crítica, Ec) que possui uma correspondente profundidade, chamada de profundidade crítica. 5.8.2 Profundidade Crítica, Declividade Crítica, Velocidade Crítica e Vazão Crítica É a profundidade de água em um canal que corresponde ao valor mínimo de carga específica. Para um canal de seção qualquer, temos: 32 B A g Q Essa equação é obtida derivando-se a equação de energia específica em função de “y”. Como consequência do conceito de profundidade crítica, três outras definições podem ser estabelecidas, são elas: declividade crítica, velocidade crítica e vazão crítica. Declividade crítica é aquela que conduz fluido a profundidade crítica. Declividades superiores à crítica aumentarão a velocidade de escoamento da água, provocando, para uma vazão constante, diminuição da profundidade do escoamento. Desta forma, declividades maiores que a crítica são denominadas supercríticas. Profundidades inferiores à crítica serão denominadas supercríticas. 5.8.3 Número de Froude O número de Froude (Fr) é tão importante para o escoamento livre, assim como o número de Reynolds é para os condutos forçados. Ele é um adimensional importante em Hidráulica, permitindo o estabelecimento de diferentes interpretações das condições de escoamento correspondente ao limite entre os regimes fluvial e torrencial. Desta forma, sempre que ocorrer mudança no regime de escoamento, a profundidade deve passar pelo seu valor crítico. Esta passagem, no entanto, pode ocorrer de forma gradual ou brusca, de acordo com o regime do escoamento de montante e com a singularidade que provocou a variação. Hidráulica Março/2013 31 O número de Froude pode ser obtido por meio da seguinte equação: h yg v Fr Sendo: Fr = número de Froude; V = velocidade (m/s); g = gravidade (m/s²); yh = profundidade hidráulica (m). Os valores do número de Froude de acordo com os tipos de escoamento são: Fr = 1 => Escoamento crítico; Fr < 1 => Escoamento subcrítico; Fr > 1 => Escoamento supercrítico. Diversas situações práticas permitem observar a mudança do regime de escoamento. São exemplos da passagem do regime subcrítico para o supercrítico: • Passagem de uma declividade subcrítica para uma declividade supercrítica; • Queda livre, a partir de uma declividade crítica a montante; • Escoamento junto à crista de vertedores; • Estreitamento da seção. A mudança do regime supercrítico para o subcrítico é observada, por exemplo, em mudanças de declividade e em saídas de comportas. O escoamento em regime crítico (ou em suas imediações) é instável. Assim a menor mudança de energia específica provocará sensível mudança da profundidade de água no canal. Onde se verifica a mudança de regime (supercrítico para subcrítico e vice- versa), chamamos de seção de controle. Estas seções são importantes porque através delas é possível se determinar a vazão por meio apenas da profundidade crítica. Hidráulica Março/2013 32 5.8.4. Transições São estruturas hidráulicas que conduzem o líquido de uma seção para outra, de modo a causar o mínimo de perda de carga e não modificar as condições de escoamento à montante. Muitas vezes o canal precisará passar por modificações, como por exemplo, a passagem sob uma estrada ou a suspensão em algum trecho. Existe ainda a possibilidade de sofrer uma redução ou alargamento de sua seção. Essas modificações poderão causar alterações na profundidade do escoamento. Nas situações anteriormente descritas é necessário efetuar o estudo de energia específica para o correto dimensionamento e construção das estruturas hidráulicas no canal. Evitando assim, transbordamentos ou represamentos de água. 5.8.4.1. Análise do Nível de Água na Ascensão ou Depressão Suave no Fundo do Canal A equação abaixo descreve o comportamento da profundidade do nível de água de acordo com o regime de escoamento e com a ascensão/depressão suave no fundo do canal. dx dz Fr dx dy )1( 2 a) Ascensão Suave a.1) Escoamento Subcrítico Temos: Fr<1; 0 dx dz ; 0 dx dy Logo o nível de água vai descer. a.2) Escoamento Supercrítico Temos: Fr>1; 0 dx dz ; 0 dx dy Logo o nível de água vai subir. b) Depressão Suave b.1) Escoamento Subcrítico Temos: Fr<1; 0 dx dz ; 0 dx dy Logo o nível de água vai subir. Hidráulica Março/2013 33 b.2) Escoamento Supercrítico Temos: Fr>1; 0 dx dz ; 0 dx dy Logo o nível de água vai descer. 5.8.4.2. Análise do Nível de Água na Contração ou Expansão da Seção A equação abaixo descreve o comportamento da profundidade do nível de água de acordo com o regime de escoamento e com a contração/expansão da seção. dx db b y FrFr dx dy )()1( 22 a) Contração a.1) Regime Subcrítico Temos: Fr<1; 0 dx db ; 0 dx dy Logo o nível de água vai descer. a.2) Regime Supercrítico Temos: Fr>1; 0 dx db ; 0 dx dy Logo o nível de água vai subir. b) Expansão b.1) Regime Subcrítico Temos: Fr<1; 0 dx db ; 0 dx dy Logo o nível de água vai subir. b.2) Regime Supercrítico Temos: Fr>1; 0 dx db ; 0 dx dy Logo o nível de água vai descer. Hidráulica Março/2013 34 5.9. Movimento Gradualmente Variado 5.9.1. Conceito Quando há uma variedade gradual da profundidade, temos que: 0 L v Onde: v é a velocidade do escoamento; L é o comprimento do escoamento. 5.9.2. Importância a) Delimitação de áreas inundáveis; b) Volume acumulado. 5.9.3. Classificação a) Movimento gradualmente variado acelerado (MGVA); b) Movimento gradualmente variado retardado (MGVR). 5.9.4. Cálculo das Curvas de Remanso Existem duas maneiras de se resolver o problema do movimento gradualmente variado, sendo uma qualitativa e outra quantitativa. 5.9.4.1. Resolução Qualitativa a) Canal com declividadefraca: M São aqueles inferiores a declividade crítica e que conduzem a vazão na profundidade normal e regime subcrítico. É utilizada a letra “M”, que é uma abreviação da palavra MILD, que significa suave. b) Canal com declividade forte: S São aqueles cujas declividades são superiores a crítica. Usa-se a abreviação “S” de STEEP, que significa íngreme. c) Canal com declividade crítica: C Hidráulica Março/2013 35 São aqueles canais cuja declividade é igual a declividade crítica, verificada quando Froude é igual a 1. Usa-se a abreviação “C” de CRITICAL, que significa crítica. d) Canal com declividade Adversa: A São aqueles cuja declividade é adversa, isto é, ao invés de descer, a declividade é ascendente. Usa-se a abreviação “A” de ADVERSE, que significa adversa. a) Canal com declividade nula: H São aqueles sem declividade, isto é, estão na horizontal. Usa-se a abreviação “H”, de horizontal. 5.9.4.2. Resolução Quantitativa a) Método numérico de integração trecho a trecho Método Direto Aplicado a condutos livres prismáticos Método Standard Aplicado a condutos livres não prismáticos b) Método Gráfico c) Método da Integração Direta Observação: Nesse curso veremos o método (c) para condutos prismáticos. Método de integração Direta para Condutos Prismáticos: Esse método considera que a declividade do nível de água é diferente da declividade do fundo do canal e que os condutos utilizados são de seção prismática. Outra consideração a se fazer é a adoção da velocidade média, área média e raio hidráulico médio para o cálculo da influência do remanso. Para isso temos: 3/2 2/1 hRA J Qn Onde: Hidráulica Março/2013 36 n é o coeficiente de Manning; Q é a vazão; J é a declividade do nível de água; A é a área média; 3/2 hR é o raio hidráulico médio. 2 21 vvv Onde: v1 é a velocidade na seção 1; v2 é a velocidade na seção 2; v é a velocidade média entre a seção 1 e 2. 2 21 AAA Onde: A1 é a área da seção 1; A2 é a área da seção 2; A é a área média entre as seções 1 e 2. 2 21 hh h RR R Onde: Rh1 é o raio hidráulico da seção 1; Rh2 é o raio hidráulico da seção 2; hR é o raio hidráulico médio entre as seções 1 e 2. JS EE L 12 Hidráulica Março/2013 37 Onde: L é o comprimento da influência do remanso; E2 é a energia específica em 2; E1 é a energia específica em 1; S é a declividade do fundo do canal; J é a de declividade do nível de água. 5.10. Movimento Bruscamente Variado 5.10.1. Introdução Ocorre sempre quando há mudança brusca do regime supercrítico para um subcrítico, ou vice versa. 5.10.2. Características do Movimento Bruscamente Variado a) Linha de corrente com inclinação acentuada; b) Não se aplica ao regime uniforme; c) Ocorre em pequenos trechos. 5.10.3. Ocorrências a) Escoamento sobre barragens; b) Ressaltos. 5.10.4. Ressaltos Hidráulicos 5.10.4.1. Conceito Fenômeno que ocorre na passagem brusca de um regime supercrítico para um subcrítico. No ressalto hidráulico, o regime vai passar necessariamente por: Fr>1 -> Fr=1 -> Fr<1 5.10.4.2. Importância do Ressalto a) Dissipação de energia cinética; b) Dispositivo de mistura rápida (ETA e ETE); c) Aeração do fluido (ETE). Hidráulica Março/2013 38 5.10.4.3. Classificação do Ressalto a) Falso ressalto: 1,2<Fr<1,7; b) Pré-ressalto: 1,7<Fr<2,5; c) Oscilante: 2,5<Fr<4,5; d) Verdadeiro: 4,5<Fr<10; e) Turbulência: Fr>10. 6. ESCOAMENTO EM CONDUTOS FORÇADOS 6.1. Considerações Gerais Tendo em vista a pressão de funcionamento, os condutos hidráulicos podem se classificar em: a) Condutos forçados: nos quais a pressão interna é diferente da pressão atmosférica. Nesse tipo de conduto, as seções transversais são sempre fechadas e o fluido circulante as enche completamente. O movimento pode se efetuar em qualquer sentido do conduto; e b) Condutos livres: nestes, o líquido escoante apresenta superfície livre, na qual atua a pressão atmosférica. A seção não necessariamente apresenta perímetro fechado e quando isto ocorre, para satisfazer a condição de superfície livre, a seção transversal funciona parcialmente cheia. O movimento se faz no sentido decrescente das cotas topográficas. 6.1.1 Equação de Bernoulli aplicada aos fluidos reais Na dedução deste teorema, fundamentada na Equação de Euler, foram consideradas as seguintes hipóteses: a) o fluido não tem viscosidade; Hidráulica Março/2013 39 b) o movimento é permanente; c) o escoamento se dá ao longo de um tubo de fluxo; e d) o fluido é incompressível. A experiência mostra que, em condições reais, o escoamento se afasta do escoamento ideal. A viscosidade dá origem a tensões de cisalhamento e, portanto, interfere no processo de escoamento. Em consequência, o fluxo só se realiza com uma “perda” de energia, que nada mais é que a transformação de energia mecânica em calor e trabalho. A equação de Bernoulli, quando aplicada a seções distintas da canalização, fornece a carga total em cada seção. Se o líquido é ideal, sem viscosidade, a carga ou energia total permanece constante em todas seções. Porém, se o líquido é real, o seu deslocamento da seção 1 para a seção 2 (Figura 46) ocorrerá mediante uma dissipação de energia, necessária para vencer as resistências ao escoamento entre as seções. Portanto, a carga total em 2 será menor do que em 1 e esta diferença é a energia dissipada sob forma de calor. Como a energia calorífica não tem utilidade no escoamento do líquido, diz-se que esta parcela é a perda de carga ou perda de energia, simbolizada comumente por hf. É possível observar na Figura 46 que, independente da forma como a tubulação se encontra instalada, sempre haverá dissipação de energia quando o líquido estiver em movimento. Analisando as Figuras, além do plano de referência, é possível identificar três planos: - PCE Plano de carga efetivo: é a linha que demarca a continuidade da altura da carga inicial, através das sucessivas seções de escoamento; - LP Linha piezométrica: é aquela que une as extremidades das colunas piezométricas. Fica acima do conduto de uma distância igual à pressão existente, e é expressa em altura do líquido. É chamada também de gradiente hidráulico; e Hidráulica Março/2013 40 - LE Linha de energia: é a linha que representa a energia total do fluido. Fica, portanto, acima da linha piezométrica de uma distância correspondente à energia de velocidade e se o conduto tiver seção uniforme, ela é paralela à piezométrica.A linha piezométrica pode subir ou descer, em seções de descontinuidade. A linha de energia somente desce. Nas Figuras, f21 hEE ou f21 hEE Como z p g2 v E 2 , tem-se que: f2 2 2 2 1 1 2 1 hz p g2 v z p g2 v que é a equação de Bernoulli aplicada em duas seções quaisquer de um escoamento de fluido real. a b g2 v21 1P z2 z1 2P g2 v22 hf1-2 PCE LE LP g2 v21 1P z2 z1 2P g2 v22 hf1-2 PCE LE LP Hidráulica Março/2013 41 g2 V21 g2 V22 c Figura 46- Escoamento de um líquido real em um conduto forçado, mostrando a carga total em duas seções de escoamento: a) tubulação em nível; b) tubulação em aclive; c) tubulação em declive. Quando existem peças especiais e trechos com diâmetros diferentes, as linhas de carga e piezométrica vão se alterar ao longo do conduto. Para traçá- las, basta conhecer as cargas de posição, pressão e velocidade nos trechos onde há singularidades na canalização. A instalação esquematizada na Figura 47 ilustra esta situação. Figura 47 – Perfil de uma canalização que alimenta o reservatório R2, a partir do reservatório R1, com uma redução de diâmetro. z2 1P hf1-2 z1 g2 v21 2P g2 v22 PCE LE LP h1 h2 h3 hf1 hf2 D1 D2 R1 R2 Hidráulica Março/2013 42 Do reservatório R1 para R2 existe uma perda de carga total “ht”, igual à diferença de nível entre os mesmos. Esta perda de carga é devida à: h1 - perda localizada de carga na entrada da canalização; hf1 - perda contínua de carga no conduto de diâmetro D1; h2 - perda localizada de carga na redução do conduto, representada pela descontinuidade da linha de carga; hf2 - perda contínua de carga no trecho de diâmetro D2; e h3 - perda de carga na entrada do reservatório. Para traçar esta linha de carga é necessário calcular as cargas logo após a entrada da canalização, imediatamente antes e após a redução de diâmetro e na entrada do reservatório. 6.1.2 Regimes de movimento Os hidráulicos do século XVIII já observavam que dependendo das condições de escoamento, a turbulência era maior ou menor, e consequentemente a perda de carga. Osborne Reynolds (1842 – 1912) fez uma experiência para tentar caracterizar o regime de escoamento, que a princípio ele imaginava depender da velocidade de escoamento (Figura 48). A experiência consistia em fazer o fluido escoar com diferentes velocidades, para que se pudesse distinguir a velocidade de mudança de comportamento dos fluidos em escoamento e caracterizar estes regimes. Para visualizar mudanças, era injetado na tubulação o corante permanganato de potássio, utilizado como contraste. Hidráulica Março/2013 43 Figura 48 – Esquema da experiência de Reynolds Inicialmente, usando pequenas velocidades, ele observou que o líquido escoava-se ordenadamente, como se lamínulas do líquido se deslizassem uma em relação às outras, e a este estado de movimento, ele denominou laminar. Logo que a velocidade foi sendo aumentada gradativamente, ele observou que o líquido passou a escoar de forma desordenada, com as trajetórias das partículas se cruzando, sem uma direção definida. A este estado de movimento, ele chamou de turbulento ou desordenado. A Figura 49 apresenta os resultados de testes demonstrando a experiência de Reynolds. O material completo está disponível no endereço: http://www.escoladavida.eng.br/mecflubasica/Apostila/Unidade%203/Simulacao %20de%20Reynolds%20un%203.pdf a b Figura 49 – Resultados obtidos em um teste de laboratório: (a) laminar e (b) turbulento. Hidráulica Março/2013 44 Tentando repetir a sua experiência, em sentido contrário, começando de uma velocidade maior (regime turbulento) e, gradativamente reduzindo a velocidade, ele observou que o fluido passou do regime turbulento para o laminar, porém a velocidade que ocorreu nesta passagem era menor que aquela em que o regime passou laminar a turbulento. Ficou, portanto, uma faixa de velocidade onde não se pôde definir com exatidão qual o regime de escoamento. A esta faixa, chamou de zona de transição. Ele distinguiu inicialmente também duas velocidades: - velocidade crítica superior: é aquela onde ocorre a passagem do regime laminar para o turbulento; e - velocidade crítica inferior: é aquela onde ocorre a passagem do regime turbulento para o laminar. Repetiu-se a experiência de Reynolds fazendo-a para várias combinações de diâmetros e fluidos e concluiu-se que não só a velocidade é importante para caracterizar o regime de escoamento, mas também o diâmetro da canalização e o fluido escoante. Chegou-se a uma expressão que caracteriza o regime de escoamento: D v Re em que: Re = é conhecido como número de Reynolds, adimensional; v = a velocidade média de escoamento, m s-1; D = o diâmetro da canalização, m; e = a viscosidade cinética do fluido, m2 s-1. ( água = 1,02 x 10 -6 m2 s-1) Para definir o regime, basta calcular o número de Reynolds e caracterizá- lo pelos limites. Se eR ≤ 2.000 - regime laminar Se eR ≥ 4.000 - regime turbulento Se 2.000 < eR < 4.000 - zona de transição Hidráulica Março/2013 45 Na zona de transição não se pode determinar com precisão a perda nas canalizações. De modo geral, por causa da pequena viscosidade da água e pelo fato da velocidade de escoamento ser sempre superior a 0,4 ou 0,5 m s-1, o regime dos escoamentos, na prática, é turbulento. 6.1.3 Perda de carga Todo fluido real possui viscosidade. As observações experimentais mostram que quando um fluido escoa, paralelamente a uma superfície, as moléculas do fluido em contato com a superfície aderem a esta. É como se a viscosidade tivesse o mesmo efeito de uma cola. A velocidade relativa do fluido na superfície da placa é zero. As moléculas do fluido aderidas à superfície exercem sobre as demais um efeito de frenagem que diminui, à medida que se aproxima do centro da tubulação. Desta forma, percebe-se que não há atrito da massa fluida com as paredes da tubulação, devido à existência de uma camada de velocidade igual a zero junto às paredes, denominada de camada limite. Portanto, no regime laminar, a perda de carga deve-se unicamente à resistência oferecida pela camada mais lenta àquela mais rápida que lhe é adjacente, ou seja, a energia hidráulica é transformada em trabalho na anulação da resistência oferecida pelo fluido em escoamento em função da sua viscosidade. A resistência é função das tensões tangenciais que promovem a transferência da quantidade de movimento. No regime turbulento, além do fenômeno descritoacima, existe ainda perda de energia nos choques moleculares oriundos do movimento desordenado das partículas. A perda de carga está diretamente relacionada com a turbulência que ocorre no conduto. Com esta ponderação, é possível imaginar que, em uma tubulação retilínea, a perda de carga seja menor se comparada com uma tubulação semelhante, mas com uma série de peças especiais, tais como curvas, cotovelos, etc. As peças especiais provocam perdas localizadas pela Hidráulica Março/2013 46 maior turbulência na região da peça, pois alteram o paralelismo das linhas de corrente. Para efeito didático vamos separar as perdas localizadas da perda de carga ao longo de uma canalização retilínea, ou perda contínua de carga. 6.2 Cálculos dos condutos forçados: perda contínua de carga (hf) Desde o século XVIII, os hidráulicos vêm estudando o comportamento dos fluidos em escoamento. Darcy, hidráulico suíço, e outros concluíram, naquela época, que a perda de carga ao longo das canalizações era: - diretamente proporcional ao comprimento do conduto; - proporcional a uma potência da velocidade; - inversamente proporcional a uma potência do diâmetro; - função da natureza das paredes, no caso de regime turbulento; - independente da pressão sob a qual o líquido escoa; e - independente da posição da tubulação e do sentido de escoamento. Naquela época, surgiram numerosas fórmulas para o dimensionamento das canalizações. A maioria delas era específica para as condições de trabalho de uma dada região. Independente disso, todas as equações seguiam as pressuposições apresentadas anteriormente, fazendo com que genericamente pudessem ser representadas por: L D Q hf m n sendo os valores de β, n e m próprios de cada equação. Hidráulica Março/2013 47 6.2.1 Fórmulas práticas a) Fórmula de Hazen-Williams Essa fórmula talvez seja a mais utilizada nos países de influência americana. Ela originou-se de um trabalho experimental com grande número de tratamentos (vários diâmetros, vazões e materiais) e repetições. Ela deve ser utilizada para escoamento de água à temperatura ambiente, para tubulações com diâmetro maior ou igual a 2” ou 50 mm e para regime turbulento. Ela possui várias apresentações: 54,063,0 J D C 355,0V ou 54,063,2 J D C 279,0Q ou 87,4852,1 852,1 D C Q646,10 J ou L D C Q646,10 hf 87,4852,1 852,1 em que: V - velocidade, m s-1; D - diâmetro da canalização, m; Q - vazão, m3 s-1; hf – perda contínua de carga, m; J - perda unitária de carga, m m-1; e C - coeficiente que depende da natureza das paredes e estado de conservação de suas paredes internas (Tabela 1). Tabela 1 - Valores do coeficiente C da fórmula de Hazen-Williams (apresentados por E. T. Neves). Tipo de conduto C Aço corrugado 60 Aço com juntas “loc-bar”, novas 130 Aço com juntas “loc-bar”, usadas 90-100 Aço galvanizado 125 Aço rebitado, novo 110 Aço rebitado, usado 85-90 Aço soldado, novo 130 Aço soldado, usado 90-100 Aço soldado com revestimento especial 130 Hidráulica Março/2013 48 Aço zincado 140-145 Alumínio 140-145 Cimento-amianto 130-140 Concreto, com bom acabamento 130 Concreto, com acabamento comum 120 Ferro fundido, novo 130 Ferro fundido, usado 90-100 Plástico 140-145 PVC rígido 145-150 b) Fórmula de Darcy-Weisbach ou Universal Esta fórmula é de uso geral, tanto serve para escoamento em regime turbulento quanto para o laminar, e é também utilizada para toda a gama de diâmetros. g 2 D Vf J 2 ou 52 2 D g Q f 8 J ou L Dg Qf8 hf 52 2 em que f é um coeficiente que depende do material e estado de conservação das paredes, e pode ser determinado no diagrama de Moody (Figura 50). Na hipótese de regime laminar, f é independente da rugosidade relativa (e/D) e é unicamente função do número de Reynolds: Re 64 f No regime turbulento, o valor de f é dependente do número de Reynolds e da rugosidade relativa, em se tratando da transição. No regime turbulento pleno, o número de Reynolds não tem influência, mas apenas a rugosidade relativa. A rugosidade relativa é a relação entre a rugosidade do material e seu diâmetro. A Tabela 2 fornece a rugosidade dos materiais mais comumente utilizados. Tabela 2 - Valores da rugosidade média (e) dos materiais empregados em condutos forçados. Hidráulica Março/2013 49 Tipo de material e ( mm ) Ferro fundido novo 0,26 - 1 Ferro fundido enferrujado 1 - 1,5 Ferro fundido incrustado 1,5 - 3 Ferro fundido asfaltado 0,12 - 0,26 Aço laminado novo 0,0015 Aço comercial 0,046 Aço rebitado 0,092 - 9,2 Aço asfaltado 0,04 Aço galvanizado 0,15 Aço soldado liso 0,1 Aço muito corroído 2,0 Aço rebitado, com cabeças cortadas 0,3 Cobre ou vidro 0,0015 Concreto centrifugado 0,07 Cimento alisado 0,3 - 0,8 Cimento bruto 1 - 3 Madeira aplainada 0,2 - 0,9 Madeira não aplainada 1,0 - 2,5 Alvenaria de pedra bruta 8 - 15 Tijolo 5 Plástico 0,06 Alvenaria de pedra regular 1 Nestas equações, a perda de carga é unitária, ou seja, é a perda de carga que ocorre em um metro de canalização retilínea. A perda de carga ao longo de toda a extensão da canalização é dada por: L Jhf em que “L” é o comprimento total da canalização retilínea, m. Hidráulica Março/2013 50 Figura 50 - Diagrama de Stanton, segundo Moody, para determinação de valores do coeficiente f, em função do número de Reynolds e da rugosidade relativa. Hidráulica Março/2013 51 6.3 Cálculos de condutos forçados: perda localizada de carga (Δh ou ha) A perda localizada de carga é aquela causada por acidentes colocados ou existentes ao longo da canalização, tais como as peças especiais. Em tubulações com longo comprimento e poucas peças a turbulência causada por essas passa a ser desprezível. Porém em condutos com muitas peças e menor comprimento, este tipo de perda tem uma importância muito grande, como no caso de instalações prediais. Podem-se desconsiderar as perdas localizadas quando a velocidade da água é pequena (v < 1,0 m s-1), quando o comprimento é maior que 4.000 vezes o diâmetro e quando existem poucas peças no conduto. No projeto, as perdas localizadas devem ser somadas à contínua. Considerar ou não as perdas localizadas é uma atitude que o projetista irá tomar, em face das condições locais e da experiência do mesmo. Expressão de Borda-Belanger A expressão que calcula as perdas partiu do teorema de Borda-Berlanger e é apresentada como: g2 V Kh 2 em que: h - perda de carga causada por uma peça especial, m; K - coeficiente que depende decada peça e diâmetro, obtido experimentalmente (Tabela 3). O valor de K depende do regime de escoamento. Para escoamento plenamente turbulento, Re > 50.000, o valor de K para as peças especiais é praticamente constante, e são os valores encontrados nas tabelas e ábacos. Tabela 3 - Valor do coeficiente K, para cálculos das perdas de carga localizadas, em função do tipo de peça, segundo J. M. Azevedo Neto. Hidráulica Março/2013 52 Tipo da peça K Ampliação gradual 0,30 Bocais 2,75 Comporta, aberta 1,00 Controlador de vazão 2,50 Cotovelo de 90 0,90 Cotovelo de 45 0,40 Crivo 0,75 Curva de 90 0,40 Curva de 45 0,20 Curva de 22,5 0,10 Entrada normal de canalização 0,50 Entrada de Borda 1,00 Existência de pequena derivação 0,03 Junção 0,04 Medidor Venturi 2,50 Redução gradual 0,15 Registro de ângulo, aberto 5,00 Registro de gaveta, aberto 0,20 Registro de globo, aberto 10,00 Saída de canalização 1,00 Tê, passagem direita 0,60 Tê, saída de lado 1,30 Tê, saída bilateral 1,80 Válvula de pé 1,75 Válvula de retenção 2,50 A existência de peças especiais, além do material constituinte da tubulação, deverá ser de conhecimento prévio do projetista. Nos problemas práticos, a vazão Q é quase sempre um elemento conhecido. Se for água que vai ser conduzida, deve-se saber, a priori, a sua utilidade e seu valor. Normalmente o diâmetro é um elemento incógnito e seu valor deve ser minimizado, pois reflete diretamente nos custos da canalização. Por outro lado, se o escoamento não é por gravidade, um menor diâmetro provocará uma maior perda de carga que implicará em um maior consumo de energia. Valores práticos de velocidade existem e podem orientar o projetista na definição do melhor diâmetro. A literatura cita limites e valores de velocidade média recomendados para as mais diferentes situações: Hidráulica Março/2013 53 - água com material em suspensão..........................................v > 0,60 m/s - para instalações de recalque.......................................0,55 < v < 2,40 m/s 6.4 Condutos Equivalentes Conceito: Um conduto é equivalente a outro ou a outros quando escoa a mesma vazão sob a mesma perda de carga total. Pode-se ter uma gama de condutos equivalentes, porém serão apresentados os condutos equivalentes em série e em paralelo. 6.4.1. Condutos em série ou misto São os condutos constituídos por trechos de tubulação, com mais de um diâmetro diferente, conforme ilustra a Figura 51. Desconsiderando as perdas secundárias ou localizadas: 3f2f1ff hhhh ... em que : fh = a perda de carga total no conduto; 1f h = a perda contínua de carga no trecho de diâmetro 1D e comprimento L 1 ; 2f h = idem para diâmetro D2 e comprimento L2; e 3f h = idem para diâmetro 3D e comprimento 3L . Hidráulica Março/2013 54 Figura 51 - Conduto misto com 2 diâmetros. Usando a fórmula genérica de perda de carga tem-se: 3m 3 n 32m 2 n 21m 1 n 1em e n e em e n ef3m 3 n 3f2m 2 n 2f1m 1 n 1f L D Q L D Q L D Q L D Q L D Q h;L D Q h;L D Q h;L D Q h 321 Para uma condição de mesma rugosidade, 321e E como a vazão deve ser a mesma, condição de ser equivalente, a equação simplifica-se: m 3 3 m 2 2 m 1 1 m e e D L D L D L D L que é a expressão que traduz a regra de Dupuit. Normalmente, no dimensionamento de condutos, são encontrados diâmetros não comerciais (veja exercício anterior). Como, por exemplo, cita-se um caso: D = 133 mm. Se for escolhido o diâmetro comercial 125 mm, este não irá fornecer a vazão desejada ou a perda ultrapassará o limite de projeto. Se for escolhido 150 mm, que é o imediatamente superior, a vazão será maior que a de projeto ou a perda de carga será menor que a projetada. Nesse caso, o problema pode ser resolvido com a colocação de um registro para aumentar a perda de carga total e consequentemente reduzir a vazão até o projetado. Porém, esta saída não é a mais econômica, pois o custo das tubulações cresce exponencialmente com o diâmetro. Então, a melhor solução técnica e econômica é fazer uma associação em série, ou seja, colocar um trecho do Hidráulica Março/2013 55 conduto com o diâmetro comercial imediatamente superior, e um trecho com o diâmetro comercial imediatamente inferior, de tal forma que este conduto misto seja equivalente ao projetado. Porém, quais os comprimentos de cada diâmetro? Suponha que o comprimento total seja L e os comprimentos de cada trecho seja 1L e 2L , de tal forma que: 21 LLL e que 2f1ff hhh Como genericamente L Jhf , tem-se: 2211 L JL JL J Fazendo: 22211 2221 21 L JL JL JL J L J)LL( JL J LLL Rearranjando L )JJ( )JJ( L)JJ( L)JJ( L 12 1 21122 em que: L2 = comprimento do trecho de diâmetro D2; J = perda de carga unitária no conduto de diâmetro não comercial; J1 = perda de carga unitária no conduto de diâmetro comercial D1; J2 = perda de cara unitária no conduto de diâmetro comercial D2; e L = o comprimento total da canalização. 6.4.2. Condutos em paralelos ou múltiplos São os condutos que têm as extremidades comuns, ou seja, a pressão no início de todos é a mesma. Também a pressão no final é comum a todos os condutos. Hidráulica Março/2013 56 Observa-se pela Figura 52 que no ponto A, a vazão total Q se bifurca nas vazões .QeQ,Q 321 Na extremidade final, ponto B, estas vazões voltam a se somar, voltando-se novamente à vazão Q, portanto: 321 QQQQ Pela equação genérica de perda de carga tem-se que: n 1 m f L D h Q Figura 52 - Esquema de três condutos em paralelo. Partindo-se desta equação: n 1 33 m 3f n 1 22 m 2f n 1 11 m 1f n 1 ee m ef L D h L D h L D h L D h Considerando a mesma rugosidade para todos os condutos e como fh deve ser igual em todos, condição de ser equivalente, tem-se: n 1 3 n m 3 n 1 2 n m 2 n 1 1 n m 1 n 1 e n m e L D L D L D L D Se todos os comprimentos forem iguais, a equação acima simplifica-se: n m 3 n m 2 n m 1 n m e DDDD Hidráulica Março/2013 57 Generalizando: k 1i n m i n m e DD Sendo K o número de condutos em paralelo. Se também os diâmetros forem iguais a D: D KD D KD m n e n m n m e A aplicação prática deste tipo de conduto está na expansão de uma área ou de um projeto hidráulico, Por exemplo. Se houver expansão, basta projetar o conduto para atender ao projeto global que deverá ficar em paralelo.