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Pensamento e Linguagem

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evento através da facilidade com que se recordam (ou geram mentalmente) instâncias desse acontecimento.
Normalmente esta heurística funciona muito bem. Se todas as coisas forem iguais, eventos comuns são mais fáceis de relembrar do que eventos incomuns. Através da confiança na disponibilidade de estimar uma frequência ou uma probabilidade, as decisões tornam-se mais simples do que eram à partida.
Como qualquer outra heurística, há casos em que estas podem levar a decisões tendenciosas. Alguns eventos estão mais disponíveis que outros não porque ocorrem com maior frequência, mas porque são mais fáceis de imaginar, estão mais recentes na mente, têm um valor emocional, etc.
A heurística funciona porque instâncias de classes maiores e eventos mais prováveis estão mais acessíveis em memória (validade ecológica). No entanto, outros fatores não correlacionados com frequência objetiva dos eventos afetam a acessibilidade da informação em memória. A negligência destes fatores em julgamentos com base nesta heurística leva a enviesamentos característicos
Disponibilidade que nem sempre funciona:
Ao contrário da escassa cobertura dos media, os diabetes e o cancro de estômago matam duas vezes mais americanos anualmente do que os homicídios ou os acidentes de carro. De acordo com Tversky e Kahneman, este tipo de estatísticas são contraintuitivas porque a maior parte das pessoas estima a frequência de um evento pelo quão fácil é lembrar-se de instâncias do evento. Os acidentes de carro estão mais disponíveis na mente do que os diabetes e o cancro de estômago. 
A disponibilidade também pode levar a julgamentos tendenciosos quando os exemplos de um evento são inerentemente mais difíceis de serem gerados, ou quando um tipo de resultado é mais fácil de prever do que outro.
Um estudo imaginativo:
Em 1978, John Carroll publicou um estudo que ligava a heurística da disponibilidade com o ato de imaginar um evento. Carroll queria saber se eventos fáceis de imaginar eram julgados como sendo mais prováveis. Para isso fez uma série de estudos.
Com os resultados dos estudos, Carroll foi capaz de concluir que imaginar um resultado fez com que este aparecesse mais frequentemente na mente das pessoas.
Os limites da imaginação:
E se um determinado resultado fosse difícil de imaginar? Se o indivíduo que vai fazer uma decisão tentar, sem sucesso, imaginar um resultado, então a probabilidade desse resultado diminui?
Sherman et al. (1985) concluiu que, imaginar um resultado não garante que este vai aparecer mais frequentemente. Se um resultado é difícil de ser imaginado, a tentativa de o imaginar pode efetivamente reduzir a probabilidade de ocorrência desse resultado.
Negação:
Outro caso em que a imaginação pode não aumentar aparentemente a probabilidade de um acontecimento é quando esse acontecimento é extremamente negativo. Alguns eventos são tão perturbadores que o próprio ato de os contemplar leva à negação de que eles ocorreram.
Se a perspetiva de um evento for tão perturbadora que leva à negação, então imaginar a sua ocorrência pode não fazer com que esta apareça mais vezes.
Vividez:
Um primo da disponibilidade é a vividez. A vividez normalmente refere.se ao quão concreto ou imaginável algo é, apesar de ocasionalmente poder vir a ter outros significados. Por vezes a vividez refere-se ao quão emocionalmente interessante ou entusiasmante algo é, ou o quão perto algo está no espaço e no tempo. Uma série de estudos mostram que os indivíduos que tomam uma decisão são mais influenciados por informações vívidas do que por informações mais “pálidas” ou abstratas.
Ancoragem e ajustamento:
No ambiente legal, o julgamento humano é frequentemente influenciado por âncoras salientes. Ancoragem de julgamento - a assimilação de um julgamento numérico a um padrão previamente considerado- pode ser uma das mais notáveis influências no julgamento humano por, pelo menos, duas razões:
· Os efeitos de ancoragem são incrivelmente intensos e robustos;
· Os mecanismos que produzem ancoragem são, ainda, um grande enigma.
O efeito de ancoragem permite estimativas rápidas (automáticas) que podem ser seguidamente ajustadas. Tem valor ecológico pois, em condições naturais, a informação presente no ambiente é muitas vezes relevante, tornando a ancoragem útil para uma melhor resposta.
No entanto, erros e enviesamentos ocorrem ao sermos influenciados, mesmo por âncoras irrelevantes e ao não estarmos conscientes da magnitude do impacto das âncoras no nosso julgamento.
Intensidade e robustez:
A ancoragem é independente de várias potenciais variáveis moderadoras. Por um lado, a ancoragem ocorre mesmo que os valores de âncora sejam claramente não informativos para a estimativa, por exemplo, porque foram aleatoriamente selecionadas. Para além disso, o efeito de ancoragem permanece não influenciado pela âncora extrema, o que significa que até valores extremos têm um determinado efeito.
Os efeitos de ancoragem parecem ser independentes da motivação dos participantes, tal como já foi demonstrado que o efeito de ancoragem ocorre independentemente do expertise do participante.
Para além disso, os efeitos de ancoragem são caracterizados por terem uma robustez temporal excecional e persistirem durante longos períodos de tempo. Num estudo, por exemplo, os efeitos de ancoragem ainda eram aparentes uma semana depois do valor de ancoragem ter sido considerado. Provavelmente, a mais notável demonstração de robustez do fenómeno deriva de pesquisa que demonstra que, nem mesmo instruções explícitas para corrigir uma possível influência de uma âncora é capaz de mitigar o efeito.
Relevância:
A ancoragem nos julgamentos não é só um efeito julgador robusto particular que tem sido demonstrado em vários domínios, como também como também constitui um conceito explicativo básico que tem sido usado para explicar uma série de fenómenos dos julgamentos.
A noção de ancoragem não ilumina os mecanismos subjacentes, mas descreve apenas a direção da influência observada (assimilação). Neste aspeto, o termo “ancoragem” constituí um conceito descritivo e não explicativo que não vai para lá dos termos assimilação e contraste.
Relatos teóricos:
Até à data, quatro relatos teóricos de efeitos de ancoragem foram propostos. Em particular, tem sido sugerido que os efeitos de ancoragem resultam de: 1) ajustamento insuficiente do ponto de partida, 2) inferências de conversação, 3) priming numérico e 4) mecanismos de acessibilidade seletivos.
· Ajustamento insuficiente
Na sua descrição inicial do fenómeno, Tversky e Kahneman (1974) descreveram a ancoragem em termos de ajustamento insuficiente do ponto de partida. Eles argumentam que “as pessoas fazem estimativas começando num valor inicial que é ajustado para produzir uma resposta final. Os ajustamentos são normalmente insuficientes, isto é, diferentes pontos de partida criam diferentes estimativas, que são enviesadas devido ao valor inicial”.
Tem sido demonstrado que o ajustamento insuficiente apenas parece contribuir para os efeitos de ancoragem se as âncoras críticas são auto-geradas e inaceitáveis, ao invés de um valor aceitável fornecido.
· Inferências de conversação
De acordo com este raciocínio, aplicar regras implícitas de conversações naturais a situações estandardizadas, permite aos participantes que usem o valor de âncora para inferir a gama real de respostas possíveis. Os participantes que esperam que o investigador seja altamente informativo, ao colocar-lhe questões, pode assumir que o valor de âncora fornecida está perto do valor real e, consequentemente, colocam a sua estimativa próxima a esse valor.
Estas inferências de conversação podem estar subjacentes aos efeitos da consideração de valores âncora que são de clara relevância para a estimativa a ser feita. É importante notar que isto pressupõe que o valor de âncora é efetivamente visto como informativo para o julgamento. Os efeitos de ancoragem, no entanto, também acontecem se os valores de âncora forem claramente não informativos por serem aleatoriamente selecionados, extremos