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Pensamento e Linguagem

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este fenómeno acontecer: as pessoas podem ter uma relação negativa com a medicina devido a casos pessoais possivelmente traumáticos; conhecer alguém que considere “inteligente” e “culto” que apoie estas práticas;  doenças que levam o paciente a desesperar por uma cura ou por um resultado de saúde mais rápido; ou até ser uma tentativa de se destacar dos demais a partir de uma escolha menos popular.
Este desespero leva à falácia Post Hoc Ergo Propter Hoc, uma falácia lógica também conhecida como correlação coincidente. Consiste na ideia de que dois eventos que decorrem em sequência cronológica estão necessariamente interligados por uma relação de causa efeito.
Definição: Aconteceu A e depois aconteceu B. Logo, A causou B.
Exemplos: O João está com uma dor de cabeça, bebe um sumo de laranja e deixa de sentir dores de cabeça. Logo, o sumo de laranja acabou com a dor de cabeça do João.
A pessoa está doente, é-lhe administrado um tratamento e a pessoa melhora. Logo, o tratamento foi eficaz.
É verdade que em ambos os exemplos, as proposições e a conclusão pode ser verdadeira mas, para isso, necessitamos de evidência que comprove esta relação. No caso da medicina alterativa é exatamente o mesmo: o organismo humano tem uma capacidade enorme de se recuperar/melhorar por ele próprio, ou seja, não significa que, por uma pessoa tomar um medicamento homeopático e melhorar ligeiramente, que essa melhora seja devido à medicação. Para justificar essa conclusão era necessária verificação de que o medicamento homeopático realmente funciona, verificação essa que não existe.
Heurísticas rápidas e frugais:
Evoluímos para resolver problemas específicos. As diversas heurísticas que possuímos no nosso reportório comportamental devem ser avaliadas a partir da sua validade ecológica e não por comparação com modelos normativos (validade normativa)
A mente humana é vista como uma caixa de ferramentas adaptativa (adaptative tool box):
· Temos várias capacidades resultantes da evolução (ex. rastreio visual, imitação, reconhecimento);
· Fazermos uso de diversas heurísticas, compostas por processos ou “building blocks” que fazem uso destas capacidades.
Ou seja, as heurísticas (gut feelings) funcionam porque exploram as capacidades cognitivas que resultaram da adaptação da espécie humana ao seu ambiente.
Heurística do reconhecimento:
Se um dos dois objetos é reconhecido e o outro não, então infere-se que o reconhecido tem o valor mais elevado no atributo em causa. Esta heurística tem validade ecológica pois a heurística é bem-sucedida quando a ignorância se correlaciona com o critério de decisão.
Exemplo: Foi questionado a estudantes americanos e alemães qual era a cidade americana com mais habitantes, Detroit ou Milwaukee? Os estudantes americanos, que conheciam ambas as cidades, tiveram 62% de respostas corretas. Os estudantes alemães, que apenas conheciam uma das cidades, tiveram 100% de respostas corretas.
A heurística do reconhecimento prediz que devo decidir com base no reconhecimento (da cidade), mesmo que saiba que é uma cidade pequena.
Para a utilização desta heurística é necessário ser parcialmente ignorante (less-is-more effect), ou seja, a ausência parcial de reconhecimento é essencial para que se faça uma inferência acertada. Verifica-se este efeito quando a validade do conhecimento é menor do que a validade do reconhecimento.
Heurísticas de busca sequencial:
Estas heurísticas são utilizadas quando o reconhecimento não funciona:
· Heurística take the best
Ordenação da validade das pistas conhecidas da mais para a menos válida. Se a primeira pista descrimina entre opções, para-se a busca e responde-se com base nessa pista. Se não, continuar para a próxima pista. 
Escolher a alternativa com o valor mais elevado na primeira pista que descrimina entre as duas alternativas.
· Heurística minimalista
Procurar uma pista qualquer das disponíveis (não implica a ordenação da validade das pistas conhecidas). Se a pista discrimina entre as opções, para-se e responde-se, não se passando para a próxima pista.
Escolher a alternativa com o valor mais elevado na primeira pista que discrimina entre as alternativas.
Porque é que as heurísticas rápidas e frugais funcionam?
É possível utilizar heurísticas quando há correspondência entre o processo de julgamento e a estrutura do ambiente. Heurísticas não compensatórias (ex. take the best) são estratégias tão boas como estratégias de decisão compensatória (ex. regressão linear) em ambientes não-compensatórios e redundantes Nestes casos, torna-se vantajoso o uso de heurísticas, porque necessitam de menos recursos cognitivos.
Existem, também, certas características dos ambientes, onde as heurísticas tendem a funcionar melhor:
· Se existir uma pista que é claramente o melhor preditor;
· A correlação entre as pistas é elevada e positiva;
· O grau de predição é limitado (ambientes complexos).
Validade ecológica:
Uma heurística funciona (é válida) se estiver bem adaptada à estrutura do ambiente. No caso da take the best, é quando as outras pistas estão correlacionadas com a melhor (best) e quando a incerteza é elevada, ou seja, quando a capacidade de predição das pistas é relativamente mais baixa.
É irrelevante se leva a julgamentos internamente inconscientes.
Less is more não quer dizer que decidimos melhor quanto menos sabemos, mas sim que há um ponto a partir do qual mais informação não melhora (e até pode piorar) a qualidade das predições.
As heurísticas rápidas e frugais exploram esta noção de tomar decisões adaptativas e é menos evidente que as pessoas as usem tanto quanto seria de esperar no dia-a-dia.
Quatro crenças erradas do programa de heurísticas e viéses:
· As heurísticas levam a erros e enviesamentos: a função das heurísticas não é produzir escolhas lógicas ou coerentes, mas sim adaptadas ao ambiente, devendo utilizar-se um critério de correspondência e não de coerência;
· Problemas do mundo real podem sempre ser resolvidos recorrendo a modelos formais que otimizam as soluções: Não, não há estratégias ótimas para muitos problemas formais e do mundo real;
· As heurísticas são sempre soluções “satisfatórias” (second bst): Não, por vezes ultrapassam o desempenho de modelos formais;
· Mais informação é sempre melhor: Não, como podemos verificar com o over-fitting.
As heurísticas baseiam-se em intuições de julgamento e decisão e têm por base capacidades cognitivas que são o resultado da evolução. 
As heurísticas levam a viéses característicos e sistemáticos porque ignoram informação relevante (Tversky e Khaneman).
As heurísticas são ecologicamente válidas porque ignoram informação irrelevante (Gigerenzer).
A validade das heurísticas depende dos contextos onde são aplicadas.
Críticas ao programa de investigação de heurísticas e vieses:
As heurísticas são constructos teóricos vagos, difíceis de distinguir empiricamente e que meramente descrevem aquilo que deviam explicar.
Formato de apresentação:
Certas formulações dos mesmos problemas permitem às pessoas codificar a informação de forma mais adequada e, assim, reduzir ou eliminar os enviesamentos heurísticos.
Tversky e Kahnemann distinguem entre erros de aplicação e erros de compreensão.
Diferentes formatos de apresentação levam a melhores ou a piores resultados em função do modelo mental ou esquema cognitivo evocado pelos formatos de apresentação. No entanto, outros autores argumentam que as frequências (em vez de probabilidades) são formatos mais adequados pois são favorecidos pela seleção natural).
No entanto, o julgamento indutivo humano não se resume às heurísticas. Existem diferenças individuais que mostram intuição estatística. A aprendizagem de estatística e de probabilidades que capitalize na intuição estatística humana, leva a melhorias de desempenho (ex. não se deve julgar um livro pela capa).
Nisbett et al. Desenvolveram, com sucesso, programas de treino para promover o desenvolvimento e uso das heurísticas estatísticas.
Em suma, as heurísticas são constructos vagos que meramente re-descrevem os fenómenos que deveriam