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LINGUÍSTICA AVANÇADA Debbie Mello Noble Priscilla Rodrigues Simões Laís Virgínia Alves Medeiros Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Compreender as noções de sujeito, ideologia e sentido nos estudos da análise de discurso. Identi� car as noções de texto e contexto nos estudos da linguística textual, da enunciação e da análise do discurso. Relacionar as noções de sujeito, ideologia e texto com a produção de sentidos de um discurso. Introdução Neste texto, você irá ver como as noções de sujeito, ideologia e sentido são elaboradas teoricamente na análise de discurso de modo distinto daquele considerado pela teoria da enunciação ou pela linguística tex- tual. Da mesma forma, verá que o texto e o contexto são percebidos de maneira diferente por essas teorias. Ideologia, sujeito e sentidos A discussão a respeito da noção de ideologia em análise de discurso (AD) se dá a partir da noção de interpelação do sujeito – pelo sujeito da ciência, pelo sujeito da religião e pelo sujeito do estado –, formulada por Althusser na obra Aparelhos Ideológicos de Estado, originalmente publicada em 1970. Nessa obra, o autor diz que “[...] a ideologia interpela os indivíduos em sujeitos [...]”, pois “[...] só há ideologia pelo sujeito e para os sujeitos [...]” (ALTHUSSER, 1992, p. 93). Essa interpelação ocorre de forma inconsciente, por mecanismos que fazem parte da organização social, os aparelhos ideológicos de estado, os quais produzem um conjunto de valores e crenças ao qual todos os sujeitos Linguística Avançada_U4_C11.indd 132 13/09/2017 16:39:05 deveriam se submeter. Essa seria a realidade empírica, a vida real de todos nós, na qual estão incluídos nossos deveres e direitos de cidadãos. Dessa forma, todas as ações que julgamos ter origem em nossa força de vontade seriam, na verdade, imposições das representações ideológicas. A ideologia “[...] é uma ‘representação’ da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência [...]” (ALTHUSSER, 1992, p. 85) e não uma escolha individual. Essa noção de ideologia concebe a realidade empírica como uma relação reflexiva de representações, ou seja, a realidade é uma “ilusão” criada por nós a partir de nosso lugar social. Toda a prática social ocorre por meio de e sob uma ideologia; e não há ideologia senão através do sujeito e para o sujeito, visto que todo o sujeito é interpelado pela ideologia. Althusser diz que a interpelação é o processo de submissão do sujeito à ordem sócio histórica na qual ele se encontra e que é vasta de perspectivas ideológicas, que mantêm entre si relações de consenso, dissenso, intertextu- alidade, interdiscursividade e atuam no processo de constituição dos sujeitos e dos sentidos. Situa-se a noção de sujeito juntamente com a de sentido, pois esses dois elementos se produzem como efeitos na teoria do discurso, pois são produzidos como efeitos ideológicos. Conforme o autor, todas as evidências que fazem uma palavra designar uma coisa ou possuir um significado, sob a ilusão de transparência e da literalidade, tratam-se de um efeito ideológico: “[...] a evidência de que vocês e eu somos sujeitos – e até aí não há problema – é um efeito ideológico, o efeito ideológico elementar.” (ALTHUSSER, 1992, p. 94). As relações constituídas em uma sociedade não são arbitrárias, há sempre uma filiação a determinada perspectiva ideológica que regula não só o que se faz em determinada sociedade, mas também como se faz para estar inserido no lugar social “adequado” em relação ao modelo dominante. O funcionamento da ideologia se dá pela criação da ilusão de verdade dos fatos, impedindo a percepção das assimetrias entre o discurso e os efeitos de sentido sobre ele produzidos. Sobre a noção de formação ideológica, Pêcheux (1988) diz que é constituída por um complexo de atitudes e representações que se organiza a partir de inúmeras formações discursivas (FD), que mantêm entre si relações diversas de antagonismo, aliança e, até mesmo, dominação. A partir da noção de ideologia, Pêcheux formula a formação discursiva, a fim de dar conta da repartição e organização dos discursos com relação à instância ideológica. Assim, as formações discursivas representam diferentes formas de relação do sujeito com as formações ideológicas (FI) que atuam no contexto histórico-social, regulando o que pode ou não ser dito a partir de uma conjuntura determinada. O ponto essencial da noção de formação discursiva, de acordo com Pêcheux, é que ela não atua somente na natureza 133Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos Linguística Avançada_U4_C11.indd 133 13/09/2017 16:39:05 dos termos empregados, mas, sobretudo, na forma sintática da combinação desses termos, por exemplo, o valor das conjunções, advérbios e adjetivos e suas funções diversas nos enunciados em que aparecem. O autor, então, con- cebe duas noções distintas para pensar o discursivo: a formação ideológica e a formação discursiva , sendo que a principal distinção entre elas é o fato de que podemos ter várias FDs representando uma formação ideológica. Podemos também dizer que a noção de FI rompe com a possibilidade de existência de um sentido literal, dado a priori, às palavras, aos enunciados, ou a um texto (em sua forma verbal e não verbal), pois o sentido produzido sempre será determinado a partir da ideologia que interpela o sujeito interpretante. A interpelação ideológica atravessa a constituição do sujeito e do sentido. As tomadas de posição do sujeito se fazem de acordo com sua inserção em determinada formação ideológica, via formação discursiva, assim, seu discurso estará sempre partindo de algum viés da ideologia que o interpela. Pêcheux diz que a ideologia fornece as evidências de sentido único, que mascaram “[...] o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados [...]” (PÊCHEUX, 1988, p. 160), fazendo o sujeito não perceber esse processo. Certos sentidos constituídos de acordo com determinada interpelação/identificação podem ser questionados e um sentido pode tornar-se outro. Segundo Pêcheux (1988, p. 160): “[...] as palavras, expressões [...] mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam [...]”, posições estas que devem ser entendidas como lugares determinados na estrutura social. Esse processo representa a fragmentação e a dispersão do sentido que impede sua estabilização. O sentido, portanto, pode ser analisado a partir dos processos que o constituem e, também, daqueles que o deslocam. Por ser social, o sujeito está inserido em uma ordem histórica e com ela se relaciona, seja por meio da identificação, pela contraidentificação ou através da desidentificação diante dessa ordem. Portanto, não temos um sujeito intencional que decide sobre seus atos de forma livre e individual, nesta teoria, mas um sujeito constituído no corpo social, que age de acordo com a ideologia que o determina e o constitui. Apesar de ser determinado, entretanto, o sujeito também pode transformar, pode construir sentidos a partir daqueles que lhe são dados a priori pela interpretação. Pêcheux (1988, p. 173) diz que o sujeito é afetado por dois tipos de esque- cimento. O esquecimento nº 1 – “[...] o sujeito-falante não pode, por definição, Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos134 Linguística Avançada_U4_C11.indd 134 13/09/2017 16:39:05 se encontrar no exterior da formação discursiva que o domina [...]” – se dá ao nível inconsciente quando o sujeito aceita determinada sequência linguística e recusa outra, a fim de produzir determinados sentidos aceitáveis pela forma- -sujeito que regula os dizeres possíveis no interior de uma formação discursiva. No entanto, ele acredita que seu enunciado é a única forma clara e evidente de dizer o que deseja, desse modo, o funcionamento desse esquecimento no discurso ocorre ao nível da constituição,ou seja, do interdiscurso, no momento em que o sujeito seleciona as palavras, as expressões, o tom a ser usado, a fim de que seu discurso atinja o objetivo desejado (pedir, questionar, afirmar, ordenar, arguir, ironizar) ao menos em seu imaginário. O esquecimento nº 2 é, segundo Pêcheux (1988, p. 173), aquele “[...] pelo qual todo sujeito-falante ‘seleciona’ no interior da formação discursiva que o domina [...] um enunciado, forma ou sequência, e não outro, que, no entanto, está no campo daquilo que poderia reformulá-lo na formação discursiva considerada.”. Essa modalidade de esquecimento se caracteriza pela seleção daquilo que o sujeito “quer dizer” e do que “não quer dizer”. O funcionamento desse esquecimento se dá em nível pré-consciente, oferecendo ao sujeito a ilusão de que seu discurso reflete o conhecimento objetivo que ele tem da realidade, ou seja, de que é senhor de sua palavra, origem e fonte de sentido. O segundo esquecimento opera ao nível da formulação, ou seja, do intradiscurso, quando o dizer é materializado em linguagem e, por isso, pode ser analisado a partir da sua organização sintática, pois ela é um dos dispositivos materiais que funcionam como lugar de observação das marcas dos processos conscientes e inconscientes do sujeito do discurso. 135Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos Linguística Avançada_U4_C11.indd 135 13/09/2017 16:39:05 Sobre o viés etimológico do termo sujeito O termo “sujeito” conduz-nos à ambiguidade na teoria do discurso, pois recebe tanto o sentido de livre e responsável como o passivo e submisso às determinações da ideologia e do inconsciente. O que leva os analistas a questionarem, como faz Haroche (1992, p. 178) “[...] esta ‘ficção’ de liberdade e de vontade do sujeito: o indivíduo é determinado, mas, para agir, ele deve ter a ilusão de ser livre mesmo quando se submete [...]”. Sob essa mesma ilusão, os sujeitos consideram-se livres para exercer sua vontade, mesmo quando sua filiação à determinada perspectiva ideológica está marcada nos discursos que ele produz. Segundo Haroche (1992, p. 158): “[...] o sentido primeiro de “sujeito” (surgido no século XII) significa: ‘submetido à autoridade soberana’”. Sujeição aparece igualmente na mesma época; no século XV, são derivadas as palavras “assujeitar” e depois “assujeitamento”. Bloch e Wartburg nos revelam também que o termo “sujeito”, significando no início “que é subordinado”, toma, a partir do século XVI, o sentido de “matéria, causa, motivo” e, enfim, de “pessoa que é motivo de algo, pessoa considerada em suas aptidões.”. Texto e contexto Breve percurso pela noção de texto Quando se fala em texto, há uma difi culdade em defi ni-lo, o que, no entender de Eduardo Guimarães (1995) advém de uma impossibilidade na evidência de seu signifi cado. Isso se explica, para Indursky (2010), em razão de um pré-construído que circula sobre o texto, de que todo mundo sabe o que ele é. Assim, é necessário realizar uma volta ao tempo para compreender como o texto era entendido e realizar um percurso sobre essa noção tão importante para os estudos linguísticos. Indursky (2010) chama a atenção para o fato de o texto ser tomado como central nos estudos da linguagem na Antiguidade, destacando os trabalhos de Quintiliano e outros, que abordavam a arte de bem falar e bem escrever, que passava pela abordagem do texto. No entanto, ao longo da história dos estudos linguísticos, o estudo do texto foi declinando, em detrimento do estudo das línguas neolatinas, bem como do surgimento das novas gramáticas, que tinham por objetivo estabelecer novas línguas, fixando regras para elas. O foco passa a ser a fixação das regras gramaticais, ignorando o texto como uma unidade e passando a percebê-lo como encadeamento de um conjunto de Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos136 Linguística Avançada_U4_C11.indd 136 13/09/2017 16:39:05 frases e períodos, o que levou à percepção do texto como um objeto empírico, o qual não precisa ser teorizado, uma vez que “todo mundo sabe o que é”. A partir dos estudos de Noam Chomsky, a frase passa a ser o centro dos estudos linguísticos, considerando o elemento frasal como seu contexto. Indur- sky aponta para um distanciamento da prática e do uso da língua, fixando-se os estudos no sistema linguístico. Somente a partir de Hjelmslev, nos anos de 1940, há o surgimento do texto como um novo objeto de estudo. O autor entende que é necessário um estudo da linguagem no qual esteja inserido o texto, de qualquer língua, em qualquer momento. Ele olha para o texto ainda como algo inserido nos estudos da língua, como uma extensão, mas abandona o olhar do senso comum. Nos anos de 1950 e 1960, Indursky (2010, p. 43) ressalta o surgimento de uma dupla inquietação: 1. Como pensar, teoricamente, o que está além da frase? 2. Um texto é uma simples soma de frases? Essas inquietações deram espaço a novas formas de estudo, pois enquanto alguns linguistas preocupavam-se com algo próximo a uma sintaxe do texto, outros se questionavam acerca da significação, do contexto situacional e do sujeito falante. Assim, a autora aponta para o nascimento de dois diferentes objetos: o texto e o discurso e, com eles, várias perspectivas teóricas. A primeira delas é a linguística textual, a qual surgiu com uma fase denominada transfrástica, ou seja, buscava entender as regularidades que transcendiam as frases, sem abandoná-las. Assim, texto era uma sequência coerente de frases. A linguística textual se dedica ao estudo do texto, unidade formal re- sultante de uma manifestação oral ou escrita produzida por um locutor em um contexto. O produtor de um texto é um sujeito da intenção, aquele que tem o poder de usar a língua para dizer o que deseja. Ao interlocutor basta, então, seguir as pistas dos elementos linguísticos sintagmatizados para compreender o sentido que o texto tem, ou seja, aquele mesmo que o seu autor desejou transmitir. Você verá que a análise de textos, nessa teoria, está relacionada à remissão de itens linguísticos ao seu contexto imediato, seja no âmbito de um texto ou no da intertextualidade. Aquilo que foge à relação intralinguística, no processo de produção dos sentidos, é designado formalmente como um mecanismo determinado pela própria língua: metáfora, hipérbole, antítese, paradoxo, eufemismo, ironia, entre outras “figuras de linguagem” que con- 137Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos Linguística Avançada_U4_C11.indd 137 13/09/2017 16:39:05 tribuem para a interpretação de um texto, embora a tentativa de contenção da polissemia se mostre, muitas vezes, ineficiente para o processo de in- terpretação textual. Posteriormente, passou-se a buscar uma gramática do texto, ou seja, o entendimento do texto por meio de sua descrição e de sua totalidade. Nesse momento, ocorre uma transferência dos conhecimentos adquiridos sobre a frase para o âmbito do texto. A linguística textual, atualmente, caracteriza-se pelo processamento do texto, percebendo que “[...] não há como dar conta de uma estrutura profunda do texto, que esteja na base de todo e qualquer texto [...]” (IN- DURSKY, 2010, p. 45). Assim, passam a considerar em seus estudos o contexto pragmático, pelo qual fariam associações para ampliar a com- preensão do texto. Freda Indursky (2010, p. 52) ressalta que a grande contribuição da linguística textual é a ultrapassagem das fronteiras do estudo da frase e de ter constituído um novo objeto de análise, o texto. Texto e contexto na enunciação A partir da teoria da enunciação, o texto pode ser visto como equivalente ao enunciado. A teoria da enunciação afasta-se da noção de língua, enquanto somente um sistema, e passa a considerar também, segundo Indursky, as relações externas a esse sistema. Assim, a frase dá lugar ao estudo da enunciação, conforme aponta Indursky (2010), considerando elementos externos, como o locutor (aquele que fala) e o interlocutor (aquele a quemse dirige), além do tempo e do espaço da enunciação. Dessa maneira, o contexto, na teoria da enunciação, seria o aqui, o agora, o enunciador e o enunciatário da situação de enunciação. O texto, por sua vez, ultrapassa seus limites internos, passando a exterioridade a ser considerada parte integrante dele. Eduardo Guimarães (1995) propõe que o texto seja considerado como uma operação enunciativa, propondo que os elementos coesivos sejam relacionados à exterioridade do texto, submetendo-o à interpretação. Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos138 Linguística Avançada_U4_C11.indd 138 13/09/2017 16:39:05 Para Guimarães, as relações internas têm tanta importância quanto as relações externas. Isso difere o entendimento da teoria da enunciação daquele proposto pela linguística textual, que considerava o contexto como apartado do texto, apenas como um apoio na compreensão dos sentidos. Dessa forma, você pode compreender que um texto não tem sentido, no ponto de vista da enunciação, se for considerado fora de seu contexto e de sua situação de enunciação. Assim, é possível afirmar que, para a teoria da enunciação, “[...] é possível pensar o texto como uma rede de relações semântico-textuais que espera por interpretação [...]” (INDURSKY, 2010, p. 56). Texto, ideologia, sujeito e produção de sentidos Texto e discurso O texto, como objeto empírico, possui começo, meio e fi m, mas do ponto de vista da AD, pode ser tomado como um objeto linguístico-histórico, uma unidade que se estabelece pela historicidade enquanto unidade de sentido (ORLANDI, 2010). Assim, ele será, como o discurso, incompleto. Também não será visto como uma unidade fechada, mas como unidade de análise, podendo ser con- siderado uma unidade inteira. Ele estabelece relação com outros textos, com as condições de sua produção, com sua exterioridade, que lhe é constitutiva. O texto não coincide com o discurso, ele é a materialidade pela qual é possível ter acesso ao discurso. Você pode perceber que esse modo de compreender o texto difere das outras teorias que você viu anteriormente (linguística textual e enunciação). Com a noção de contexto, isso também ocorre. A AD entende que o contexto não é algo exterior ao texto, mas sim algo que coincide com ele, está imbricado nele. Por essa razão, dizemos que a exterioridade é constitutiva em AD. Orlandi (1996, p. 56) afirma que o “[...] objetivo da AD é compreender como um texto funciona, como ele produz sentidos, sendo ele concebido enquanto objeto linguístico-histórico [...]”. A autora estabelece uma diferenciação entre a história em um texto e a historicidade, como você pode observar no Quadro 1. 139Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos Linguística Avançada_U4_C11.indd 139 13/09/2017 16:39:06 Fonte: Adaptado de Orlandi (1996). História Historicidade Cronologia Temporalidade interna ao texto Evolução Exterior Relação com o externo que é próprio ao texto Complementar Constitutiva Contexto Materialidade histórica Acontecimento Quadro 1. Diferenciação entre a história em um texto e a historicidade. A historicidade do texto é o modo de produção de sentidos do texto, uma vez que a história provê a linguagem de sentidos. Para compreender um texto, do ponto de vista discursivo, é preciso rela- cionar os diferentes processos de significação que acontecem no texto, que são função da historicidade (da história, do sujeito e dos sentidos do texto enquanto discurso). Nesse sentido, Orlandi (1996) afirma que o ponto de partida de análise de um texto deve ser sempre o postulado de que o sentido sempre pode ser outro e o sujeito não tem o controle daquilo que diz. O texto é entendido como unidade que dá acesso ao discurso: ele é o lugar da relação com a representação física da linguagem, é o material bruto de análise. Apresenta também a seguinte proposta de análise: Remeter o texto ao discurso. Esclarecer as relações dele com as FD, pensando em suas relações com a ideologia. Assim, na perspectiva discursiva, “[...] o texto é lugar de jogo dos sen- tidos, de trabalho da linguagem, de funcionamento da discursividade [...]” (ORLANDI, 1996, p. 61), como você verá a seguir. Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos140 Linguística Avançada_U4_C11.indd 140 13/09/2017 16:39:06 Produção de sentidos Como você viu anteriormente, o sentido de um texto se estabelece pelas condi- ções de sua produção e pela sua exterioridade constitutiva. Indursky (2010, p. 70) ressalta que o sentido não pertence ao texto nem ao sujeito que o produziu, sendo “[...] resultado da relação entre os sujeitos históricos envolvidos em sua produção/interpretação [...]”. As relações de um texto com outros textos possíveis é denominada, na análise do discurso, de interdiscurso, pois, para Indursky (2010), um texto é remetido a redes de formulações discursivas em que há a perda da origem do texto, ou seja, não se sabe mais onde ou quem é a origem de determinado discurso. O discurso, nesse sentido, está disperso em diversos textos, sendo relacionado ora com uma, ora com outra formação discursiva, que depende da filiação de um sujeito. Assim, o interdiscurso será o lugar dos múltiplos sentidos, de onde o sujeito “seleciona” (mas não de modo consciente) alguns dizeres e esquece outros, tomando, portanto, posição em relação às possibilidades de sentido. Esse movimento é determinado ideologicamente, como você viu anterior- mente. Para Orlandi (2007, p. 12), é na injunção do sujeito a “dar sentido” e a significar-se que este se submete à língua, por isso, a questão do sujeito está tão imbricada a dos efeitos de sentido. Assim, dizer que o sujeito é assujeitado, significa que a ideologia interpela o indivíduo em sujeito, fazendo com que ele se submeta à língua, significando-a e significando-se por meio do simbólico na história (ORLANDI, 2012). Podemos afirmar que o sujeito é, além de interpelado pela ideologia, atra- vessado pelo inconsciente, pois “[...] assujeitamento e inconsciente são marcas decisivas na configuração do que se vai entender por sujeito [...]”, conforme afirma Ferreira (2007, p. 1). Dessa forma, o sujeito ganha uma posição inter- valar entre a linguagem, a ideologia e a psicanálise (FERREIRA, 2007), que são as bases da teoria do discurso, conforme é possível perceber na Figura 1. 141Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos Linguística Avançada_U4_C11.indd 141 13/09/2017 16:39:06 Figura 1. Posição do sujeito. Fonte: Noble (2016, p. 45). A relação entre sujeito e sentidos pode ser mais bem visualizada no debate sobre linguagem inclusiva na dissertação de Medeiros (2016), em que é possível perceber que o sujeito pode (ou não) ser represen- tado pela língua, podendo o sujeito (ou não) alterar a língua para que esta o represente. A autora apre- senta uma análise de discursos a respeito de língua e gênero, a partir de textos institucionais e debates on-line sobre o tema. Acesse a dissertação pelo link ou código a seguir. https://goo.gl/bQvhEV Sujeito, ideologia, texto e contexto, sentidos142 Linguística Avançada_U4_C11.indd 142 13/09/2017 16:39:07 ALTHUSSER, L. 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