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See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/327248633 Aspectos Neuropsicopedagógicos da Aquisição e Aprendizagem de Línguas Article · August 2018 CITATIONS 0 READS 1,186 2 authors, including: Some of the authors of this publication are also working on these related projects: Neurociência e aprendizagem de línguas View project Rubens Pereira Idiom House 1 PUBLICATION 0 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Rubens Pereira on 27 August 2018. The user has requested enhancement of the downloaded file. https://www.researchgate.net/publication/327248633_Aspectos_Neuropsicopedagogicos_da_Aquisicao_e_Aprendizagem_de_Linguas?enrichId=rgreq-1ed84e709a1e1ed42f3c4a65dbfb2151-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNzI0ODYzMztBUzo2NjQyMzY2NDg4NDEyMThAMTUzNTM3Nzc2NjY3NA%3D%3D&el=1_x_2&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/publication/327248633_Aspectos_Neuropsicopedagogicos_da_Aquisicao_e_Aprendizagem_de_Linguas?enrichId=rgreq-1ed84e709a1e1ed42f3c4a65dbfb2151-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNzI0ODYzMztBUzo2NjQyMzY2NDg4NDEyMThAMTUzNTM3Nzc2NjY3NA%3D%3D&el=1_x_3&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/project/Neurociencia-e-aprendizagem-de-linguas?enrichId=rgreq-1ed84e709a1e1ed42f3c4a65dbfb2151-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNzI0ODYzMztBUzo2NjQyMzY2NDg4NDEyMThAMTUzNTM3Nzc2NjY3NA%3D%3D&el=1_x_9&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/?enrichId=rgreq-1ed84e709a1e1ed42f3c4a65dbfb2151-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNzI0ODYzMztBUzo2NjQyMzY2NDg4NDEyMThAMTUzNTM3Nzc2NjY3NA%3D%3D&el=1_x_1&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/profile/Rubens_Pereira7?enrichId=rgreq-1ed84e709a1e1ed42f3c4a65dbfb2151-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNzI0ODYzMztBUzo2NjQyMzY2NDg4NDEyMThAMTUzNTM3Nzc2NjY3NA%3D%3D&el=1_x_4&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/profile/Rubens_Pereira7?enrichId=rgreq-1ed84e709a1e1ed42f3c4a65dbfb2151-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNzI0ODYzMztBUzo2NjQyMzY2NDg4NDEyMThAMTUzNTM3Nzc2NjY3NA%3D%3D&el=1_x_5&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/profile/Rubens_Pereira7?enrichId=rgreq-1ed84e709a1e1ed42f3c4a65dbfb2151-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNzI0ODYzMztBUzo2NjQyMzY2NDg4NDEyMThAMTUzNTM3Nzc2NjY3NA%3D%3D&el=1_x_7&_esc=publicationCoverPdf https://www.researchgate.net/profile/Rubens_Pereira7?enrichId=rgreq-1ed84e709a1e1ed42f3c4a65dbfb2151-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNzI0ODYzMztBUzo2NjQyMzY2NDg4NDEyMThAMTUzNTM3Nzc2NjY3NA%3D%3D&el=1_x_10&_esc=publicationCoverPdf 1 Graduado em Letras – Inglês (UEPG). E-mail: rubens_ps@hotmail.com Orientador: Alício Schiestel. E-mail: alicioetu@gmail.com ASPECTOS NEUROPSICOPEDAGÓGICOS DA AQUISIÇÃO E APRENDIZAGEM DE LÍNGUAS Rubens Pereira dos Santos1 Orientador: Alício Schiestel Resumo Nos últimos anos, as pesquisas no campo neurocientífico têm avançado significativamente, conforme evoluem exames com neuroimagens, a partir de tomografias e ressonância magnética. As contribuições das neurociências nas diversas áreas do conhecimento humano têm sido enormes. Este artigo propõe um sucinto estudo acerca de alguns dos aspectos neuropsicopedagógicos que permeiam os processos de aquisição e aprendizagem de línguas. Diante dos desafios de ensinar e aprender uma nova língua, saberes neurocientíficos se apresentam, não como ferramentas alternativas, mas essenciais a serem somadas às práticas pedagógicas e psicopedagógicas já testadas e implementadas nas últimas décadas no ensino de idiomas. É foco deste estudo entender alguns processos neurobiológicos ligados à aquisição e aprendizagem de línguas. Além da neurobiologia da linguagem, propomos uma breve investigação acerca de fatores tais como desenvolvimento neuronal, interação com o meio, estímulos, mielinização, emoção e suas implicações no sucesso ou insucesso da aquisição ou aprendizagem de uma língua. É ainda objetivo deste, contribuir para “o despertar” de novas práticas no professor de línguas estrangeiras, práticas estas que estejam voltadas para um ensino calcado em noções de como o cérebro aprende. Palavras-Chave: Neuropsicopedagogia. Neurodidática. Aquisição. Aprendizagem. Linguagem. Língua Estrangeira. INTRODUÇÃO Conforme avançam as pesquisas e estudos no campo das neurociências, bem como conceitos de processamentos mentais ligados à capacidade cognitiva humana, um número cada vez maior de educadores têm se dedicado a investigar quais são e como funcionam certas áreas cerebrais ligadas à aprendizagem e a aplicabilidade pedagógica de tais fundamentos. Portanto, a pedagogia que antes já dialogava com conhecimentos oriundos da psicologia, faz-se agora valer de saberes das neurociências. Sendo assim, a 2 2 “Neurodidática”, termo proposto em 1988 por Gerhard Preiss, professor de matemática da Universidade de Freiburg na Alemanha, e mais tarde, nos anos 1990, adaptado por Gerhard Friedrich, se apresenta como a ciência que “procura configurar o aprendizado da melhor maneira que o cérebro é capaz de aprender”. Desta forma, este estudo pretende investigar como se processa a linguagem no cérebro e quais são alguns dos fatores que influenciam o sucesso da aprendizagem de um idioma. Estamos diante de uma das habilidades humanas mais complexas e incríveis: a capacidade de adquirir uma ou mais línguas e se comunicar através dela ou delas. A referência a aspectos neuropsicopedagógicos do processo de aquisição e aprendizagem de línguas quer dizer que lançaremos luz a conhecimentos da neurociência para ampliar o repertório de embasamento científico relacionado à linguagem, levando-se em conta principalmente as peculiaridades de como o cérebro aprende e questões neuronais que influenciam no aprendizado do idioma. Tais aspectos aqui abordados, ainda que de forma sumária e por vezes sucinta, poderão levar o professor de língua estrangeira a aperfeiçoar a prática em sala de aula, adaptando-se ao novo formato de ensinar tendo como base o cérebro humano e suas particularidades, que torna cada aprendiz único. Ao entender como se processam as atividades cognitivas no cérebro, o educador poderá intervir de forma mais assertiva no processo ensino-aprendizagem, norteado pelo axioma de que “ensinar é uma prática coletiva, mas aprender é um ato individual.” LINGUAGEM Segundo Rita Carter at al (2012, p. 140), “indicamos nossas intenções uns para com os outros de várias maneiras.” Por exemplo, podemos nos valer de gestos e de linguagem corporal para transmitir mensagens variadas e em enorme quantidade. Outros animais se comunicam através de mecanismos parecidos com os humanos, exceto por meio de palavras escritas ou faladas. “Apenas o cérebro humano possui áreas dedicadas à linguagem.” (CARTER at al, 2012, p. 140). Conforme afirma Lent (2010, p. 680), “todos os animais se comunicam, mas só o homem fala e escreve”. A aptidão humana para a linguagem se origina em um ou 3 3 mais genes, sendo, portanto, inata. Já nos primeiros meses de vida pós-natal, o processo de aquisição da linguagem se desenvolve na maioria dos seres humanos. Vale ressaltar a distinção entre o processo de aquisição de uma língua e a aprendizagem de uma segunda língua. Para Krashen (1982), o processo de aquisição é subconsciente. Trata-se do processo de assimilação natural, intuitivo, fruto de interação em situações reais de convívio humano em ambientes da língua e da cultura de maneira ativa. Nós geralmente não estamos conscientes das regras linguísticas do idioma que adquirimos. É comum nos referirmos à aquisição de linguagem como sendo nossa língua materna, a chamada L1 (primeira língua). Normalmente, trata-se da língua que aprendemos desde bebês, em casa e na comunidade da qual fazemos parte. Em alguns casos em que pais falam mais de um idioma em casa e com o bebê, o processo de aquisição de mais de umalíngua pode ocorrer simultaneamente de maneira natural. Estudos realizados por Patricia Kuhl e sua equipe, do Instituto do Cérebro e Ciências da Aprendizagem da Universidade de Washington, indicaram que bebês, antes de completarem um ano, conseguem fazer distinção entre todos os sons de todas as línguas, e que aprendem a analisar as estatísticas dos sons de cada idioma, o que os torna capazes de distinguir e, consequentemente, adquirir uma ou mais línguas simultaneamente. Já o processo de aprendizagem ocorre de forma consciente, uma vez que tomamos ciência de que estamos diante de um processo formal de conhecimento da língua enquanto seu conjunto de regras gramaticais e lexicais. Referimos-nos à linguagem aprendida como sendo L2 (segunda língua). A NEUROBIOLOGIA DA LINGUAGEM Antes de falarmos das bases neurobiológicas da linguagem, vale descrever áreas da linguagem de acordo com suas funções. Podemos dividir tais áreas funcionais conforme sua localização nos hemisférios cerebrais direito ou esquerdo: HEMISFÉRIO ESQUERDO HEMISFÉRIO DIREITO Articulação da fala Reconhecimento do tom Compreensão da fala Ritmo, ênfase e entonação Reconhecimento da palavra Reconhecimento do orador Reconhecimento gestual Fonte: Adaptado de Carter at al (2012, p. 144) 4 4 Conforme vemos, “as três principais áreas da linguagem encontram-se do lado esquerdo do cérebro. Isso vale para a grande maioria das pessoas, embora alguns poucos tenham essa função distribuída nos dois lados do cérebro e poucos as tenham apenas no direito.” (CARTER at al, 2012, p. 144). Em se tratando das bases neurobiológicas e neuroanatômicas, de acordo com Carter at al (2012, p. 146, grifo meu): [...] o processo de linguagem ocorre principalmente nas áreas de Broca e de Wernicke. De maneira geral, as palavras são entendidas na área de Wernicke e articuladas pela de Broca. Um conjunto de fibras de tecido nervoso (fascículo arqueado) conecta essas duas áreas. A área de Wernicke ainda é cercada por outra, conhecida como Geschwind. Quando alguém ouve palavras faladas, essa área faz a correspondência entre os sons e os sentidos e acredita-se que neurônios especiais nela situados ajudam a produzir a compreensão total, combinando as várias propriedades das palavras (som, visão e sentido). Em suma, conforme Lent (2010, p. 697): [...] A área de Broca contém os programas motores da fala, ou seja, memórias dos movimentos necessários para expressar os fonemas, compô-los em palavras, e estas, em frases. [...] A área de Wernicke, então, faria a identificação das palavras como símbolos linguísticos [...] Figura 1 – Áreas da Broca e Wernicke conectadas pelo fascículo arqueado Fonte: Adaptado de https://www.psicoactiva.com/blog/area-broca-localizacion-funcion/ Além de áreas responsáveis pela compreensão e emissão da linguagem, áreas do lobo temporal, responsável pela audição e occipital, responsável pelo processamento visual, também estão envolvidas quando ouvimos passivamente ou lemos as palavras. 5 5 Figura 2 – Imagens tomográficas indicando atividades neuronais em áreas funcionais do cérebro Fonte: Adaptado de Lent (2010, p. 685) DESENVOLVIMENTO CEREBRAL E LINGUAGEM Conforme vimos até aqui, somos dotados de um sistema neurobiológico que nos torna capazes de adquirir ou aprender uma ou mais línguas, privilégio único da nossa espécie. O desenvolvimento e o funcionamento deste sistema é algo bastante complexo, envolvendo entender processos a partir dos primeiros anos de vida pós-natal, período marcado por muitas transformações neuronais. Segundo Suzana Herculano Houzel (2015), “a infância compreende o período de zero a dez anos de idade.” Esse período caracteriza-se principalmente pelo crescimento neuronal exponencial, mielinização de estruturas cerebrais e desenvolvimento de padrões de respostas que ocorrem através das experiências com o meio em que vivem. CRESCIMENTO NEURONAL, APRENDIZAGEM E LINGUAGEM De acordo com Lent (2010, p. 20), “o sistema nervoso central humano tem quase cem bilhões de neurônios”. Os primeiros anos de vida são marcados por um desenvolvimento neuronal de imensa projeção. “Durante o desenvolvimento ocorre um aumento progressivo das conexões entre as células nervosas, formando circuitos cada vez mais intrincados.” (COSENZA e GUERRA, 2014). Um conceito neurocientífico que nos leva a entender como ocorre o desenvolvimento neuronal é a neuroplasticidade. Segundo Lent (2010, p.148, grifo meu), plasticidade cerebral “significa que os neurônios podem modificar, de modo permanente ou pelo menos prolongado, a sua função e a sua forma, em resposta a ações do ambiente externo. A plasticidade é maior durante o desenvolvimento, e declina gradativamente, sem se extinguir, na vida adulta.” 6 6 “A interação com o ambiente é importante porque é ela que confirmará ou induzirá a formação de conexões nervosas e, portanto, a aprendizagem ou o aparecimento de novos comportamentos que delas decorrem.” (COSENZA e GUERRA, 2014, grifo meu). A infância é marcada por uma crescente ampliação das redes neuronais, conforme as experiências são vivenciadas pelo indivíduo em sua interação com o meio. Portanto, a infância é um momento bastante oportuno para o aprendizado de um ou mais idiomas, conforme vemos em Carter at al (2012, p. 147): [...] Ser fluente em dois idiomas desde a infância aperfeiçoa habilidades cognitivas e pode proteger contra demência e outras deficiências do envelhecimento. Falar uma segunda língua cria conexões entre os neurônios. Estudos mostram que adultos bilíngues têm a substância cinzenta mais densa, especialmente no córtex frontal inferior do hemisfério esquerdo, onde a maior parte dos atributos de comunicação e linguagem é controlada. O aumento na densidade é mais pronunciado nos que aprenderam uma segunda língua antes dos cinco anos. MIELINIZAÇÃO DE ESTRUTURAS CEREBRAIS, APRENDIZAGEM E LINGUAGEM Conforme estabelecemos contato com o meio e interagimos com ele, um número cada vez maior de conexões vai sendo consolidado. Além disso, marcos no desenvolvimento vão sendo estabelecidos. “Esses marcos do desenvolvimento são etapas cumpridas regularmente pelo amadurecimento progressivo das conexões que se fazem entre os neurônios e também pela mielinização das fibras nervosas envolvidas na sua execução.” (CONSENZA e GUERRA, 2014, grifo meu) A bainha de mielina é um invólucro espiral ao redor de determinados axônios, constituída por lipídios ou gorduras, que ajuda a acelerar e a isolar os impulsos nervosos que eles transportam através de condução saltatória. “O processo de mielinização determina a finalização do desenvolvimento neuronal, momento em que ocorrerá a eliminação seletiva de neurônios, axônios e sinapses excedentes”. (LENT, 2010, p. 34) Conforme HOUZEL (2013, grifo meu): [...] um estudo recente, que mediu por ressonância magnética um indicador da espessura dos axônios e da formação da mielina no cérebro de crianças e jovens de idades entre 8 e 18 anos, observou que esse indicador aumenta com a idade. E mais ainda: o aumento da mielinização no lobo frontal, responsável pelas habilidades cognitivas, acontece simultaneamente à 7 7 melhora da memória de trabalho, e no lobo temporal, que abriga a capacidade de compreensão da linguagem [...]. Figura 3 – Estrutura básica de uma célula neuronal. A bainha de mielina recobre o axônio Portanto, áreas especializadas da linguagem vão sendo mielinizadas conforme passam por maturação neurobiológica. Sendo assim, uma língua é aprendida com bastante facilidade e quase sem ou sem nenhum prejuízo na pronúncia e sotaque antes da puberdade. (Seliger, Krashen e Ladefoged, 1975). Isso não significa dizer que o adulto não consegue aprender um idioma, mas normalmente o faz com esforçomaior do que a criança no tocante à expressão fonética e gramatical semelhante às do falante nativo. EXPERIÊNCIAS E INTERAÇÃO COM O MEIO, APRENDIZAGEM E LINGUAGEM O desenvolvimento das áreas ligadas à linguagem depende não só da formação biológica das estruturas cerebrais, mas da interação com outros humanos. São vários os casos encontrados relatados na literatura da psicologia, onde crianças negligenciadas por seus responsáveis ou criadas por animais, chamadas de crianças selvagens, tiveram comprometimento do desenvolvimento da linguagem humana – a fala, uma vez que não foram estimuladas no período desejável, períodos estes conhecidos como “janela de oportunidades” das inteligências múltiplas, especificamente, linguística ou verbal. (ANTUNES, 1998) A hipótese do período crítico, embora bastante controversa, nos leva a entender que o cérebro passa por um refinamento das habilidades sociais e comunicativas. Conforme avançamos em idade biológica, ocorre uma natural maturação e otimização de áreas cerebrais. Podas neurais, desbastamento sináptico ou retração neuronal podem ocorrer em redes ou ligações não utilizadas. Conforme Cosenza e Guerra (2014): [...] Experiências feitas com animais mostraram que, quando se retira a estimulação necessária para o desenvolvimento de determinadas capacidades, elas simplesmente não se desenvolvem, ou se desenvolvem de forma inadequada. Isso levou ao conceito de períodos “críticos” ou 8 8 “receptivos” do desenvolvimento e desencadeou o receio de que, em nossa espécie, também existam períodos que, se não aproveitados, levariam a perdas irreversíveis. Embora existam, realmente, períodos em que determinadas aprendizagens ocorram de forma ideal, tudo indica que uma eventual perda de oportunidade nesses períodos sensíveis pode ser corrigida no futuro, embora somente ao custo de esforços muito maiores. O aprendizado de uma segunda língua, por exemplo, é feito com perfeição nos primeiros anos de vida, enquanto uma aprendizagem posterior geralmente não pode evitar a presença de um sotaque evidente. Contudo, mesmo isso pode, em certos casos, ser corrigido, mas acarreta um grande esforço adicional. Falar de como o desenvolvimento neuronal, das janelas de oportunidade e da plasticidade cerebral ocorrem de maneira propícia para a aquisição ou aprendizagem de uma ou mais línguas nos primeiros anos de vida, não implica em dizer que o adulto não aprende tão bem quanto à criança. Conforme ROBERTS (2015): [...] há evidências que sugerem que os adultos podem aprender novas línguas mais facilmente que as crianças. Existem apenas duas áreas onde as crianças podem ser superiores aos adultos quando se trata de aprendizagem de línguas. A primeira parece ser sua capacidade de adquirir um sotaque nativo. É claro que, em alguns casos, adultos são capazes de alcançar fluência semelhante à nativa também. Mas mesmo que um adulto estudante de línguas tenha mais probabilidade de falar com sotaque, não há motivo para ser excessivamente pessimista, contanto que isso não interfira na inteligibilidade. A outra vantagem das crianças sobre os adultos é que elas não têm ansiedade para aprender idiomas. Em outras palavras, porque as crianças não são sobrecarregadas pela crença de que não podem aprender uma língua, elas estão livres de tais pensamentos autodestrutivos. A EMOÇÃO, APRENDIZAGEM E A LINGUAGEM As emoções também têm sua importância para a aprendizagem em geral e de línguas, uma vez que está intimamente ligada à cognição e a formação de memórias. Conforme Sena (2015): [...] A emoção também é de interesse da neuroeducação, pois este é fator modulador da memória e da aprendizagem: as emoções ou os sentimentos evocados na aprendizagem podem tornar qualquer aprendizado inesquecível, facilitando e aperfeiçoando o aprendizado; [...] A emoção também pode bloquear a memória. 9 9 Em se tratando das bases neurobiológicas da emoção e memória, podemos destacar a amígdala, o hipocampo e o circuito de recompensa do cérebro. “Nos seres humanos, a amígdala cortical (do grego, significando “amêndoa”) é um feixe, em forma de amêndoa, de estruturas interligadas, situado acima do tronco cerebral, perto da parte inferior do anel límbico.” (GOLEMAN, 2011) Ainda de acordo com Goleman (2011, grifo meu), a amígdala e o hipocampo “são responsáveis por grande parte da aprendizagem e da memória do cérebro; a amígdala cortical é especialista em questões emocionais.” Segundo Carter at al (2012, p. 126, grifo meu): […] As informações do ambiente e do restante do corpo são constantemente “experimentadas” em busca de conteúdo emocional. O principal sensor é a amígdala, muito sensível à ameaça e à perda. Ela capta as informações diretamente dos órgãos dos sentidos, pelos córtices sensoriais, e se conecta ao córtex e ao hipotálamo, criando um circuito. Quando a amígdala é ativada, envia sinais por esse sistema. Estes deflagram mudanças corporais à medida que passam pelo hipotálamo e criam o reconhecimento consciente da emoção ao percorrerem o lobo frontal. Sensações positivas são transmitidas por um circuito à parte, que atinge a área do tronco encefálico produtora de dopamina, melhorando o humor. Assim sendo, quanto mais emoções positivas no ambiente de ensino, mais chances se têm de criar condições favoráveis para o sucesso na aprendizagem a posteriori. Conforme Chaves at al (2017, grifo meu): [...] Estudos de imagens cerebrais afirmam que o humor e situações agradáveis estimulam o circuito de recompensa do cérebro e as taxas do neurotransmissor dopamina se elevam. Esse neurotransmissor, por sua vez, garante melhor atenção e captação de informação. Captando melhor o que o ambiente traz, o indivíduo estaria mais capacitado a fazer melhores associações e, portanto, construir melhores conexões de aprendizagem. 10 10 Figura 4 e 5 – Localização da amígdala e do circuito de recompensa Fonte: Adaptado de Cosenza e Guerra (2014) Segundo a hipótese do filtro afetivo de Krashen (1982), algumas "variáveis afetivas" desempenham um papel facilitador na aquisição ou aprendizagem da segunda língua. Essas variáveis incluem: motivação, autoconfiança (ou autoestima) e ansiedade. Para Krashen, alunos com alta motivação, autoconfiança, auto-imagem positiva (autoestima elevada) e baixo nível de ansiedade estão em melhores condições para o sucesso na aquisição e aprendizagem da segunda língua. Baixa motivação, baixa autoestima e ansiedade combinados fazem com que ocorra uma elevação do filtro afetivo, formando um "bloqueio mental" que irá impedir que o input (informação passível de ser compreendida) seja usada para aquisição ou aprendizagem. Em suma, se o filtro estiver ativo, impedirá a aquisição/aprendizagem da língua. Por outro lado, o afeto positivo é necessário para que a aquisição ou a aprendizagem aconteça, ainda que não suficiente por conta própria, uma vez que depende de outros fatores já descritos neste estudo. Para Cosenza e Guerra (2014): [...] é preciso lembrar que, por outro lado, as emoções podem ser prejudiciais, pois a ansiedade e o estresse prolongados têm um efeito contrário na aprendizagem. A própria atenção pode ser prejudicada por eles, sendo que, em situações estressantes, os hormônios glicocorticoides secretados pela suprarrenal atuam nos neurônios do hipocampo, chegando a destruí-los. Podemos perceber que circuitos neuronais ligados à emoção, atenção e motivação desempenham um papel fundamental na aprendizagem, cognição e memória. Ambientes de ensino que não privilegiam o bem-estar, a descontração, o lúdico tendem a se tornar obstáculos para a aprendizagem bem-sucedida, porquanto fazem com que importantes áreas cognitivas do cérebro sejam comprometidas e, consequentemente, não transformem inputs em memórias de longo prazo.CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo se propôs a entender, de maneira sucinta, como ocorre a aquisição e aprendizagem da linguagem a partir de um viés neuropsicopedagógico. Portanto, objetivou-se compreender sumariamente a linguagem humana através de conceitos neurocientíficos, psicológicos e pedagógicos. 11 11 Ao exploramos as bases neurobiológicas da linguagem, procuramos mostrar a importância da identificação de áreas e circuitos envolvidos no funcionamento neurolinguístico para que possamos embasar o ensino a partir da compreensão de como este complexo mecanismo trabalha de forma harmoniosa, em resposta a estímulos do meio. Percebemos que o sistema nervoso central (SNC) possui áreas especializadas na aquisição e aprendizagem de uma língua. Foi também objetivo deste estudo compreender como o desenvolvimento neuronal ocorre e aperfeiçoa tais áreas. Entendemos que a maturação de circuitos responsáveis pela linguagem acontece conforme avançamos em idade, sendo a infância o período exponencial do crescimento neuronal, criando condições muito propícias para a aquisição e o aprendizado de uma ou mais línguas. Conceitos como a neuroplasticidade e mielinização, explorados neste estudo, indicaram que adultos podem aprender idiomas tão bem quanto à criança, fazendo- se ressalva com relação à interferência no campo fonético e gramatical, uma vez que estruturas da L1 já estão consolidadas e competem agora com a L2 . Podemos também concluir que, além das bases cognitivas e neurobiológicas da linguagem e de conceitos de plasticidade do cérebro, o sucesso do desenvolvimento de um ou mais idiomas depende ainda de outros fatores. Por exemplo, a interação com outros humanos falantes da língua alvo (a ser adquirida ou aprendida) é de papel fundamental, uma vez que circuitos neuronais são ativados nas bases supracitadas pelos estímulos provenientes do meio em que o aprendiz está inserido. Por fim, ao explorarmos o papel da emoção na aprendizagem, percebemos que ela é de fundamental importância para que o processo ocorra. Fatores como motivação, autoestima elevada, baixa ansiedade, bem-estar ativam circuitos neuronais ligados à atenção, memória, prazer em aprender, levando ao sucesso na aprendizagem. Conclui-se, portanto, que, ao nos propormos a entender como funcionam as áreas ligadas à aprendizagem e à linguagem, passamos a atuar de forma fundamentada em saberes neurocientíficos, valendo-se de metodologias, técnicas, abordagens e recursos que privilegiam a aprendizagem significativa. 12 12 REFERÊNCIAS CARTER, Rita at al. O livro do cérebro. Rio de Janeiro: Agir, 2012. LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de neurociência. 2. ed. Atheneu, 2010. COSENZA, Ramon M.; GUERRA, Leonor B. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2014. SENA, Tânia Virgínia Brito. Neuroeducação conceitos e estratégias cognitivas: uma visão para a sala de aula do futuro. Salvador, 2015. ROBERTS, Richard. 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