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Brasília – DF 2018 Pró-Reitoria Acadêmica Escola de Educação, Tecnologia e Comunicação Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DE ALUNOS COM AUTISMO EM SALA DE AULA Autora: Monalisa de Oliveira Miranda Redmerski Orientador: Prof. Dr. Ivar César Oliveira de Vasconcelos Brasília – DF 2018 MONALISA DE OLIVEIRA MIRANDA REDMERSKI DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DE ALUNOS COM AUTISMO EM SALA DE AULA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre em Educação. Orientador: Prof. Dr. Ivar César Oliveira de Vasconcelos Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da UCB R318d Redmerski, Monalisa de Oliveira Miranda. Desenvolvimento e aprendizagem de alunos com autismo em sala de aula / Monalisa de Oliveira Miranda Redmerski – 2018. 95 f.: il.; 30 cm Dissertação (Mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2018. Orientação: Prof. Dr. Ivar César Oliveira de Vasconcelos 1. Aprendizagem. 2. Desenvolvimento. 3. Autismo. 4. Percepção docente. 5. Percepção discente. I. Vasconcelos, Ivar César Oliveira de, orient. II. Título. CDU 37: 616.896 Brasília – DF 2018 AGRADECIMENTOS Com muito carinho eu agradeço... A Deus acima de todas coisas, por permitir tantas realizações em minha vida. Ao meu marido querido, Anderson Redmerski, que está sempre ao meu lado. Obrigado pelo seu zelo e amor. Aos meus filhos, Mateus e Rafael, pelo incentivo. À minha mãe, por me ensinar desde cedo o valor do estudo. À minha família, por me apoiar nesse projeto. Ao meu orientador, Ivar Vasconcelos, pela paciência, compreensão, dedicação e ensinamentos. Por me ensinar com o rigor da ciência e o afeto de um amigo. À Capes pelo apoio financeiro. À Secretaria de Educação do Distrito Federal pelo apoio à pesquisa. RESUMO REDMERSKI, Monalisa de Oliveira Miranda. “Desenvolvimento e aprendizagem de alunos com autismo em sala de aula”, 2018. 95 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2018. Sendo a educação uma base importante para o desenvolvimento individual e coletivo, ensinar se torna algo imprescindível para todos. Com base nessa afirmação, o presente trabalho tem como objetivo analisar aspectos do processo educacional que contribuem para acompanhar o desenvolvimento integral de alunos com autismo do ensino fundamental. A discussão teórica fundamentou-se em normativos legais e em autores como Vygotsky (1991; 2000, 2003), Cunha (2011; 2013a) e Mantoan (2015). Adotou-se a abordagem qualitativa, de natureza exploratória, na modalidade de estudo de casos múltiplos, compatível com a riqueza e singularidade do objeto investigado. A coleta e geração de dados foi realizada mediante observações, entrevistas e análise documental. A análise dos dados orientou-se pelos pressupostos da análise de conteúdo, tal como propõe Bardin (2012). Os resultados evidenciaram que os meios utilizados pelos professores para acompanhar o desenvolvimento do aluno autista em sala de aula foram atividades, observações, avaliações adaptadas, expressão oral e análise do comportamento. A escolha desses meios pelos professores foi realizada com base nas caraterísticas e interesses de seus respectivos alunos autistas. Além disso, também foi constatado que os aspectos socioafetivos dos professores são percebidos por esses alunos como diferencial para irem à escola Palavras-chave: Aprendizagem. Desenvolvimento. Autismo. Percepção docente. Percepção discente. ABSTRACT REDMERSKI, Monalisa de Oliveira Miranda. Development of students with autism in the classroom. 2018. 98 p. Dissertation (Master in Education) – Universidade Católica de Brasília. Brasília. 2018. Since education is an important basis for individual and collective development, teaching becomes essential for all. Based on this assertion, the present work aims at analysing aspects of the educational process that contribute to the integral development of students with autism in elementary education. The theoretical discussion was based on legal norms and on authors such as Vygotsky (1991; 2000, 2003), Cunha (2011; 2013a), Mantoan (2015). The work adopts a qualitative approach, of an exploratory nature, based on multiple case studies, compatible with the richness and uniqueness of the investigated object. The collection and generation of data were performed through the following techniques: observations, interviews and documentary analysis. Data analysis was guided by the assumptions of content analysis, as proposed by Bardin (2012). Results showed that resources used by teachers to accompany the development of autistic students in the classroom were activities, observations, adapted assessments, oral expression and behaviour analysis. The choice of these resources by teachers is based on the characteristics and interests of their respective autistic students. In addition, it was also verified that the socio-affective aspects of teachers were perceived by these students as an important element in their decision to go to school. Keywords: Learning. Development. Autism. Teacher perceptions. Student perceptions. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Gráfico 1 - Evolução das matrículas dos alunos autistas no ensino regular (Brasil) ...... 33 Gráfico 2 - Evolução das matrículas dos alunos autistas no ensino regular (Distrito Federal) ...................................................................................................................... 33 Figura 1 - Relação entre afeto, interação social e cognição .......................................... 70 file:///C:/Users/user-1/Desktop/Monalisa%20de%20Oliveira%20Miranda%20Redmerski.docx%23_Toc509206056 file:///C:/Users/user-1/Desktop/Monalisa%20de%20Oliveira%20Miranda%20Redmerski.docx%23_Toc509206057 file:///C:/Users/user-1/Desktop/Monalisa%20de%20Oliveira%20Miranda%20Redmerski.docx%23_Toc509206057 file:///C:/Users/user-1/Desktop/Monalisa%20de%20Oliveira%20Miranda%20Redmerski.docx%23_Toc509206429 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Teses e dissertações pesquisadas na BDTD ................................................. 20 Tabela 2 - Artigos pesquisados na Scielo .................................................................... 21 Tabela 3 - Artigos pesquisados na revista Educação Especial ...................................... 22 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Dissertações pesquisadas na BDTD ........................................................... 20 Quadro 2 - Características da pedagogia freireana ....................................................... 38 Quadro 3 - Atividades da prática pedagógica .............................................................. 43 Quadro 4 - Caracterização dos alunos participantes ..................................................... 53 Quadro 5 - Caracterização dos docentes ...................................................................... 53 Quadro 6 - Características da coleta/geração de dados e procedimentos....................... 56 Quadro 7 - Objetivos e fontes de evidências ................................................................ 58 Quadro 8 - Meios utilizados pelos professores para acompanhar o desenvolvimento .... 62 Quadro 9 - Meios que o professor utiliza para acompanhar o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos ............................................................................................ 66 Quadro 10: Percepções dos professores sobre o desenvolvimento de seus alunos autistas .................................................................................................................................. 72 LISTA DE SIGLAS AEE AMA Atendimento Educational Especializado APA Associação de Psiquiatria Americana BDTD Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações Capes Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CDPD Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência CID Classificação Internacional de Doenças DSM Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais EAPE Centro de Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação Inep Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira LBI Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência LDBEN Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Moab Movimento Orgulho Autista Brasil NEE Necessidades Educativas Especiais ONU Organização das Nações Unidas PNE Programa Nacional de Educação PPP Projeto Político Pedagógico SOE Serviço de Orientação Educacional TEA Transtorno do Espectro Autista TGD Transtorno Global do Desenvolvimento Unesco Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura ZDP Zona de Desenvolvimento Proximal SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 14 1.1 JUSTIFICATIVA ............................................................................................ 19 1.2 PROBLEMA DE PESQUISA ........................................................................... 23 1.3 OBJETIVOS .................................................................................................... 26 1.3.1 Objetivo Geral ............................................................................................. 26 1.3.2 Objetivos Específicos ................................................................................... 26 2 EMBASAMENTO TEÓRICO ................................................................................. 27 2.1 EDUCAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO AFETIVO, COGNITIVO E SOCIAL ..................................................................................................................... 27 2.2 A ESCOLA COMO ESPAÇO DE INCLUSÃO ..................................................... 31 2.2.1 Práticas pedagógicas para uma educação inclusiva ............................................. 37 2.3 EDUCAÇÃO PARA ALUNOS COM AUTISMO .................................................. 40 2.3.1 O que é o autismo .............................................................................................. 40 2.3.2 Autismo na escola .............................................................................................. 41 2.4 DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DO ALUNO COM AUTISMO NA PERPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL .................................................................. 44 2.4.1 Acompanhando o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos com autismo ...... 48 3 METODOLOGIA .................................................................................................... 51 3.1 NATUREZA DA PESQUISA ............................................................................... 51 3.2 CAMPO DE PESQUISA E PARTICIPANTES ...................................................... 51 3.3 COLETA E GERAÇÃO DE DADOS .................................................................... 54 3.3.1 Análise documental ............................................................................................ 54 3.3.2 Observações ...................................................................................................... 55 3.3.3 Entrevistas ......................................................................................................... 55 3.4 PROCEDIMENTOS ............................................................................................. 57 4 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ............................................................... 59 4.1 MEIOS DE ACOMPANHAR O DESENVOLVIMENTO E A APRENDIZAGEM . 59 4.2 CRITÉRIOS DE ESCOLHA DOS MEIOS PARA ACOMPANHAR O DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM ............................................................ 64 4.3 DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DE AUTISTAS: ALUNOS PARTICIPANTES ...................................................................................................... 68 4.4 DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DE AUTISTAS: PROFESSORES .. 72 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 76 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 79 APÊNDICES .............................................................................................................. 90 14 1 INTRODUÇÃO No ensino qualquer decisão é o resultado consciente ou inconsciente do papel que se atribui ao sistema educativo. Essa função social corresponde à concepção que se tem sobre o tipo de sociedade que se deseja. (ZABALA, 2002, p. 43). Num mundo em constantes transformações, a educação escolar apresenta-se como instrumento mediador das relações estabelecidas entre o ser humano e a sociedade. E, como prática social, não está separada de outras práticas que permeiam igualmente o processo de interação humana. Enquanto função social, a educação decorre do convívio na comunidade, interferindo na qualidade de vida de cada pessoa. Por meio dela se adquirem a língua, a religião e os hábitos em meio à elaboração de traços culturais (TEIXEIRA, 1976). Seu papel para o desenvolvimento humano já se encontra anunciado em documentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e outros que a tomam como base (ONU, [1948], 1998). Segundo a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, a educação é um dos direitos fundamentais de todas as crianças e adolescentes, com deficiência ou não, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa e seu preparo para o exercício da cidadania (BRASIL, 1988). Já a Declaração Mundial sobre Educação para Todos (UNESCO, 1990) coloca a igualdade de acesso à educação para todas as pessoas. Entretanto, em muitos países essa igualdade ainda não se concretizou, como é o caso do Brasil. Em relação às pessoas com deficiência, essa igualdade ainda está sendo conquistada. Um marco importante nessa direção foi a assinatura da Declaração de Salamanca por 88 governos e 25 organizações internacionais em 1994, durante a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Qualidade. Esse documento trouxe o conceito de educação inclusiva e reforçou o direito fundamental à educação, de modo que todos tenham a oportunidade de atingir e manter níveis adequados de aprendizagem, respeitando características, interesses e habilidades individuais (SALAMANCA, 1994). Com a assinatura desse documento o Brasil avançou no sentido de uma política educacional mais ampla, o que levou às modificações no sistema educacional brasileiro. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) dedica um capítulo à educação especial, determinando, dentre outras coisas, que os alunos com necessidades especiais devem estudar preferencialmente em escolas regulares (BRASIL, 1996). 15 Outras contribuições vieram, por exemplo, da Convenção sobreos Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006), ratificada no Brasil como emenda constitucional, assegurando um sistema educacional inclusivo em todos os seus níveis de ensino. Por sua vez, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008) apresenta avanços históricos, com políticas públicas para a qualidade da educação de todos os alunos. Essa política define como público alvo da educação especial os estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação e tem como objetivo o acesso, a participação e a aprendizagem desses alunos nas escolas regulares. Propõe que os sistemas de ensino devem garantir o Atendimento Educacional Especializado (AEE); a transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a educação superior; a continuidade da escolarização em todos os níveis de ensino e a formação de professores para o AEE. Desse modo, a educação especial considera a igualdade e diferença como valores indissociáveis da educação e o importante papel da escola na superação da lógica da exclusão. Com efeito, para Cunha: O ensino especial é inclusivo quando se ocupa da autonomia do aluno e o capacita para o ensino regular, para a vida familiar e para a vida social. Dessa forma, o ensino cumpre seu papel quando atende à diversidade discente com equidade, sem preconceitos, observando as especificidades de cada indivíduo, buscando sua formação integral (2013a, p. 38). Portanto, as escolas devem abarcar ações educacionais eficientes e eficazes, que tenham como finalidade proporcionar um ensino que esteja de acordo com a peculiaridade de cada educando. Conforme Schmidt (2013), promover a inclusão significa, sobretudo, mudança de postura e de olhar acerca da deficiência, o que implica na quebra de paradigmas educacionais e reformulações do sistema de ensino. De acordo com Diniz, Barbosa e Santos (2009), a deficiência não se resume às condições de uma perícia biomédica do corpo, mas remete à relação de desigualdade imposta por ambientes sociais. Assim, o conceito de deficiência se torna uma desvantagem social. A deficiência não é apenas o que o olhar médico descreve, mas, principalmente, a restrição à participação plena provocada pelas barreiras sociais. Nesse sentindo, a deficiência é uma construção social (FOUCAULT, 1999; OMOTE, 2004; PLETSCH, 2009; VYGOTSKY, 2003). Não se trata de desconsiderar os problemas gerados pelas condições orgânicas, mas de reconhecer o modo como a pessoa com deficiência é vista socialmente (CAMPOS; GLAT, 2016). 16 Nessa direção, o decreto n. 6.949, de 2009, que aprovou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, define pessoas com deficiência como aquelas que, durante muito tempo, têm impedimentos físicos, mentais, intelectuais ou sensoriais que, ao interagirem com dificuldades podem obstruir a sua efetiva participação social em iguais condições (BRASIL, 2009; ONU, 2006). As definições trazidas por esse decreto possibilitaram a interpretação e a determinação legal de que, com relação aos autistas, estas pessoas seriam deficientes, pois elas têm algum tipo de impedimento. Tal determinação ocorreu com a promulgação da Lei n. 12.764/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Segundo o texto da mencionada Lei, “a pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais” (BRASIL, 2012, art. 2º). Essas mudanças, no âmbito do mundo das deficiências, representam avanços e recuos com relação à conquista de espaço social dos autistas. Se, por um lado, essa lei contribuiu significativamente para o acesso a muitos direitos legais à margem dos quais estavam essas pessoas, por outro lado, a inclusão das pessoas com autismo no rol das pessoas com deficiência parece ter reforçado, em alguns aspectos, a construção social do preconceito contra eles. De acordo com a nova versão do DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), os autistas, antes inseridos no grupo das pessoas com transtornos globais de desenvolvimento –TGD (DSM-IV), na atualidade, estão no transtorno do espectro autista (TEA). Cabe esclarecer que, embora exista essa nova nomenclatura, ainda existem leis, decretos que utilizam o termo TGD. Por exemplo, a LDBEN (BRASIL, 1996). Esses alunos, mesmo sendo amparados por dispositivos legais nacionais e internacionais, no acesso e na permanência na educação formal, passam por dificuldades. O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento com etiologia desconhecida, sendo caracterizado por déficits na socialização e na comunicação, além de comportamentos estereotipados e interesse restrito (RIESGO, 2013). Nos últimos anos, o número de crianças com autismo vem aumentando consideravelmente, o que não implica, necessariamente, o aumento da sua prevalência. Esse fato pode ser explicado pelo alargamento do conceito, expansão dos critérios diagnósticos e pelo desenvolvimento de serviços de saúde relacionados ao transtorno, dentre outros fatores (FOMBONNE, 2009). 17 Um dos problemas desse aumento de diagnóstico é a medicalização dos indivíduos que não apresentam comportamentos dentro de um padrão, dando origem aos rótulos. Esses rótulos, muitas vezes, são pejorativos e limitantes. Segundo Brzozowski e Caponi (2013, p.215), A produção de diagnósticos e de terapêuticas que simplificam os sofrimentos ocorridos na infância faz com que existam cada vez mais crianças medicadas (e cada vez mais cedo) – bem como a prática de medicar um número cada vez maior de crianças tem como objetivo tratar sintomas, sem considerar o contexto em que essas crianças vivem e suas individualidades. Dessa forma, a medicalização da educação acaba gerando a homogeneização de comportamentos sem considerar o contexto em que esses alunos vivem e suas individualidades, nem contribuindo para o processo educacional. O processo educacional deve contar com leis que priorizem a qualidade de ensino para os alunos com autismo, considerando suas caraterísticas como algo intrínseco ao aluno e parte da sua composição e não como doença. Um passo fundamental para o ensino desses alunos foi a aprovação do Plano Nacional de Educação em 2014 (PNE), com vigência de 10 anos, o qual estabelece metas para a melhoria da educação nesse seguimento. Meta 4 - Universalizar, para a população de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, o acesso à educação básica e ao atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino, com a garantia de sistema educacional inclusivo, de salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados (BRASIL, 2014). O PNE estabelece propostas e metas para uma universalização do ensino. No entanto, como amplamente anunciado por especialistas, para que essa universalização ocorra, torna-se necessário que haja professores preparados, estruturas adequadas, planejamento político-educacional e parceria escola-família. Nesse sentido, Gatti (2009) ressalta ser necessário reconhecer que não se pode fazer educação e ensino sem profissionais preparados. Portanto, a formação e capacitação de profissionais é outra questão importante para o desenvolvimento e a aprendizagem de alunos com autismo. Concepções confirmadas por Sant’Ana e Santos (2015) ressaltam a importância da formação inicial e continuada para uma aprendizagem significativa e uma adequada mediação pedagógica. Esses autores discorrem ainda sobre a necessidade de a avaliação pedagógica valorizar o progresso do aluno autista e a intervenção pedagógica com foco nas relações sociais e comunicativas no cotidiano18 escolar. Eis porque, nesse aspecto, viabiliza-se o discurso em prol do esforço para acompanhar o desenvolvimento desses alunos. Por isso mesmo, entende-se que tal valorização ocorrerá somente se a aprendizagem for estruturada como um processo de construção compartilhada, uma construção social, na qual o papel do professor é o de desenvolver potencial dos alunos, atuando de forma mediada. É, de fato, realizar o ensino que contribui efetivamente para o desenvolvimento humano desses alunos. Efetivamente, Serra afirma que esse ensino deve considerar conceitos atualizados sobre currículo e programas educacionais ampliados a “todas as experiências que favoreçam o desenvolvimento dos alunos autistas” (2010, p. 172), o que amplia a discussão e as ações ao âmbito de todas as políticas públicas educacionais. Apesar da existência de leis que expressam o direito de todos a uma educação de qualidade, existe um abismo entre os documentos oficiais e sua efetivação na sala de aula, principalmente no que se refere ao desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos com autismo. Nesse sentido, a sociedade civil constantemente se organiza reivindicando e lutando pelos direitos das pessoas com autismo. Exemplos dessas associações são o Movimento do Orgulho Autista Brasil (MOAB), a Associação Brasileira de Autismo (ABRA) e a Associação de Amigos do Autismo (AMA), todas elas organizações não- governamentais sem fins lucrativos que trabalham pela melhoria de vida das pessoas autistas e de suas famílias. Feitas essas considerações, apresenta-se a forma como se organiza o presente trabalho. O primeiro capítulo inicia com esta Introdução e segue com a justificativa e com os objetivos da pesquisa. O segundo capítulo trata sobre a educação em prol do desenvolvimento cognitivo, social e afetivo do aluno. Explica o conceito de educação inclusiva e os principais marcos no contexto internacional e nacional. Discorre sobre práticas pedagógicas para uma educação inclusiva. Explica o que é o autismo e o que os documentos legais dizem a respeito da educação dos alunos autistas, trazendo os dados do Inep a respeito das matrículas dos alunos autistas no ensino especial e no ensino regular dos últimos dez anos Finalizando apresenta-se a importância de acompanhar o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos com autismo em sala de aula, adotando como referencial de pesquisa a Teoria História cultural. 19 O terceiro capítulo aborda a metodologia da pesquisa, o tipo de pesquisa, o campo de pesquisa, os participantes, a coleta e a geração de dados, além dos procedimentos para a realização da pesquisa. O quarto capítulo apresenta a descrição e análise dos dados trazendo os meios utilizados pelos professores para acompanhar os alunos autistas em sala de aula, os critérios utilizados para escolher os meios de acompanhar o aluno e a percepção dos alunos com autismo e dos professores sobre desenvolvimento e aprendizagem. Por fim, o quinto capítulo apresenta as considerações finais da pesquisa. 1.1 JUSTIFICATIVA O tema da inclusão educacional de alunos com autismo nas escolas regulares tem sido recorrente na literatura especializada. No entanto, há muito o que se explorar sobre as atividades pedagógicas desenvolvidas com esse público (GOMES, 2013). Em especial, há lacunas de conhecimento e novas formas de explicação sobre o desenvolvimento desses alunos em sala de aula no sentido de uma formação plena (BRASIL, 1988; 1996; DELORS et al., 2003). É necessário investigar como o professor percebe o desenvolvimento de seu aluno com autismo, visando propor, desde a elaboração de políticas públicas até a concretização de estratégias pedagógicas para o processo educacional. Além disso, almeja-se contribuir também com pesquisas na formação de professores, estratégias e metodologias de ensino, e, sobretudo, estudos que contemplem a percepção desses alunos a respeito da escola e sobre esse mesmo processo . Cunha (2015) destaca a necessidade de pesquisas que abordem direta ou indiretamente o desenvolvimento do aluno com autismo no ambiente escolar Considerando essa constatação, e com o intuito de se conhecer o que foi produzido academicamente nessa temática, realizou-se um levantamento bibliográfico na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e em artigos de domínio da Scielo, no período de 2007 a 2017, tendo sido utilizados os seguintes descritores: autismo, desenvolvimento e aprendizagem. Os critérios para a seleção foram: a) ser uma pesquisa realizada no contexto escolar; b) ter alunos com autismo na pesquisa. A busca na BDTD proporcionou encontrar 86 trabalhos e foram selecionados 33 com base nos critérios já estabelecidos. O panorama dos temas centrais encontrados na 20 BDTB segue conforme a tabela 1. Conforme essa tabela de estudos sobre alunos com autismo na escola regular que trataram do desenvolvimento desse aluno foram três trabalhos, o que corresponde a 9% do total pesquisado. Tabela 1 - Teses e dissertações pesquisadas na BDTD Tema principal Quantidade Porcentagem Inclusão escolar 9 27% Tecnologia 3 9% Aprendizagem 6 18% Desenvolvimento 3 9% Avaliação 2 6% Comunicação 1 3% Prática dos professores 7 22% Outros 2 6% Total 33 100% Fonte 1 - Elaboração da pesquisadora. As duas dissertações que abordavam o desenvolvimento do aluno autista em sala de aula regular foram de Gomide (2009) e Rinaldo (2016), pois a terceira dissertação trata sobre desenvolvimento em um contexto da escola especial. Quadro 1 - Dissertações pesquisadas na BDTD Ano Dissertação Autor/Instituição 2009 A promoção do desenvolvimento do aluno autista nos processos educacionais Gomide/ Universidade Federal de Uberlândia 2016 Processo educacional de crianças com Transtorno do Espectro Autista na Educação Infantil: interconexões entre contextos Rinaldo/Universidade Estadual de São Paulo Fonte 2 - Elaboração da pesquisadora. A dissertação de Gomide (2009) teve como objetivo analisar os aspectos psicoeducacionais relativos ao atendimento educacional escolar do aluno autista, bem como a relação destes aspectos com a promoção do desenvolvimento global desses alunos. O referido estudo concluiu que, apesar das dificuldades vivenciadas pelas participantes durante o atendimento escolar de alunos autistas, realizaram-se importantes 21 alterações na interação, participação e desempenho desses alunos nas atividades desenvolvidas na sala de aula. No entanto, foi verificado que as atividades desenvolvidas pelas professoras, em sala de aula, não evoluíam de uma forma pedagógica mais simples para outra de maior complexidade. Na maioria das vezes as atividades eram simples, sem exigir um esforço cognitivo dos alunos, o que não contribuía para o desenvolvimento do aluno com autismo. Além disso, observou-se que a desinformação das educadoras em relação ao desenvolvimento do aluno com autismo acabava produzindo expectativas de fracasso escolar do aluno. A pesquisadora concluiu que é essencial repensar as formas como são propostas as atividades pedagógicas; a relação professor/aluno e aluno/aluno para o desenvolvimento do aluno autista; além do papel assumido pelo professor em relação às possibilidades de sucesso escolar desse aluno. Já a dissertação de Rinaldo (2016) teve como objetivo descrever o processo educacional de crianças de quatro anos de idade com autismo nos contextos de desenvolvimento e aprendizagem na Educação Infantil da escola regular. Nesse estudo foi constatado que o conhecimento e as concepções da equipe escolar e dos pais sobre as características do aluno com autismo apoiam-se no entendimento do senso comum. A autora adverte que é preciso reorganizar o sistema educacional, rever antigas concepções educacionais para o processo educacional dos alunos autistas. A buscade informações na Scielo, pelo que se utilizaram os descritores “autismo” e “desenvolvimento e aprendizagem”, revelou 13 artigos, dos quais foram selecionados cinco, sendo aqueles com as seguintes caraterísticas: realizados no contexto escolar e tendo alunos com autismo na pesquisa. Tabela 2 - Artigos pesquisados na Scielo Tema principal Quantidade Porcentagem Inclusão escolar 1 20% Tecnologia 1 20% Prática dos professores 3 60% Total 5 100% Fonte 3 - Elaboração da pesquisadora. 22 De acordo com a tabela 2, nenhum dos artigos tratava sobre o desenvolvimento dos alunos autistas em sala de aula. Na sequência, realizou-se uma busca na revista “Educação Especial”, publicada pela Universidade Federal de Santa Maria/RS, valendo-se do descritor “autismo”. Considerou-se o período 2011 a 2017. Obteve-se 29 artigos, dos quais foram selecionados sete que tratavam sobre autismo no contexto escolar conforme. Uma síntese dos resultados está na tabela 3. Tabela 3 - Artigos pesquisados na revista Educação Especial Tema principal Quantidade Porcentagem Inclusão escolar 3 42,0% Aprendizagem 1 14,5% Desenvolvimento 1 14,5% Comunicação 1 14,5% Revisão da literatura 1 14,5% Total 7 100% Fonte 4 - Elaboração da pesquisadora. O artigo que tratava sobre desenvolvimento foi “Reflexões sobre a inclusão escolar de uma criança com diagnósticos de autismo na educação Infantil” (MATTOS; NUERNBERG, 2011), o qual relata uma experiência de intervenção psicoeducacional no contexto escolar da educação infantil cujo objetivo foi auxiliar na promoção do desenvolvimento e da interação social de um educando com autismo. Os resultados da pesquisa evidenciaram que a mediação pedagógica articulada com as características singulares da criança é muito importante para o desenvolvimento desta. Diante desse panorama, fica evidente que é recorrente a realização de estudos sobre o tema da inclusão educacional. Contudo, há poucas pesquisas sobre o tema desenvolvimento e aprendizagem do aluno autista em sala de aula. Em termos de produção científica, portanto, constatam-se oportunidades de pesquisa sobre alunos autistas em sala de aula, especificamente, com relação aos modos de acompanhar esse desenvolvimento. Diante da necessidade de aprimorar soluções para a inclusão desses alunos, essa pesquisa tem a proposta de contribuir para a melhoria desse acompanhamento. 23 1.2 PROBLEMA DE PESQUISA A concepção de educação e escola reflete os padrões culturais, sociais e econômicos de uma época, fato amplamente explicado pela literatura especializada, a qual oferece diversas noções e papéis da educação. Para Platão (2004), ela tem o objetivo de formar o homem moral e o Estado justo. Já para Rousseau (1995), ela mudaria não só as pessoas, mas também toda a sociedade, podendo ser a única a viabilizar a reforma do sistema político e social. Por sua vez, Durkheim (2013) atribui à educação a função de regular pensamentos e condutas dos indivíduos, visando suscitar e desenvolver neles estados físicos, intelectuais e morais. De acordo com Freire (2011), a educação deve ser libertadora e construída a partir da problematização de temas, de modo a formar alunos mais críticos. Piage t (1988) expõe que à escola cabe o papel fundamental de desenvolver o aluno a partir de esquemas de assimilação e adaptação, envolvendo a interação entre o meio e o objeto do conhecimento. Por fim, Vygotsky (2003) afirma que a escola assume o lugar de intervenções educativas intencionais em favor do desenvolvimento do aluno com base na relação social. Em cada época, escola e sociedade se relacionam de alguma forma. Diante disso, a sociedade atual tem construído noções e práticas educacionais que, de um modo ou de outro, refletem como seus setores se organizam. Há no momento histórico uma crise de valores em que o “ter” se coloca mais importante que o “ser” e o respeito, a solidariedade, a compreensão do outro e o amor não são valorizados, evidenciando que a sociedade deixou para trás determinadas questões morais que a qualificavam como mais humana (BAUMAN, 2001). Com essa configuração social, os sistemas educacionais passaram a privilegiar o conhecimento científico e o racional em detrimento de outros. Contudo, preparar-se para a vida implica exigência não só de conhecimentos racionais, mas também afetivos, sociais, espirituais, entre outros. Dessa forma, a dificuldade em mudar a concepção de educação, deixando de priorizar a ideia de preparação do aluno para o futuro, e sim para a vida, exige ações diferenciadas em que o papel da escola seja o de contribuir para a formação humana. Esse é um argumento baseado na pedagogia da diferença (SILVA, 2014). Esta, fundamentalmente, baseia-se na ideia de respeito ao outro (DUSSEL, 2007). Esse 24 conceito de educação é um grande desafio, pois muda a ideia de escola, professores e alunos. Pensar nessa perspectiva é caminhar para a chamada educação inclusiva. Frequentemente, há uma confusão em torno da educação inclusiva, referindo-se a ela como a educação especial da pós-modernidade, quando, na verdade, ela se refere à busca da equidade, com justiça social e global, com a participação e a convivência. Ainda há profissionais que admitem haver educação inclusiva apenas pelo fato de o aluno permanecer em sala de aula; haveria, segundo eles, a educação inclusiva porque estariam sendo implementadas práticas inclusivas. Em contraponto, cabe ao profissional da educação eliminar as barreiras que discriminam e impedem a aprendizagem de qualquer aluno de modo que todos possam ter acesso à educação (AINSCOW, 2009), pois incluir pressupõe, em sentido amplo, o aprendizado da convivência com a diferença. De acordo com Mantoan (2015), a inclusão é a nossa capacidade de entender e reconhecer o outro e, assim, ter o privilégio de conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós. Isto significa que a educação inclusiva constitui um paradigma educacional com fundamentos nos Direitos Humanos, em que a diferença é percebida como característica inerente ao indivíduo. Essa é uma concepção presente na Declaração de Salamanca, um marco decisivo para educação inclusiva, assinada em 1994, durante a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Qualidade (UNESCO, 1994). Nesses documentos, os participantes comprometem-se com a Educação para Todos, afirmando que toda criança tem o direito fundamental à educação e que a ela deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem, respeitando suas características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem. Os signatários da mencionada Declaração entendem que cada pessoa é única e os sistemas educacionais deveriam ser implementados, levando-se em conta a vasta diversidade de tais características e necessidades (UNESCO, 1994). Portanto, falar sobre educação inclusiva exige modificações mais humanizadas nas práticas pedagógicas que respeitem as diferenças. Isto implica na reestruturação do processo educativo. Assumir esse caráter global supõe uma transformação importante das relações pedagógicas. Efetivamente, quando se define o currículo, descreve-se a concretização da própria escola e a forma particular de defini-la num momento histórico e social (SACRISTÁN, 2000). 25 Por outro lado, deve-se também atender aos educandos de acordo com a singularidade de cada um. Nesse sentido, de acordo com Carvalho (2014, p. 103) , cabe uma adequação no currículo para que nenhum aluno seja excluído do direito de aprender e de participar. Trata-se de mais uma estratégia para favorecer a inclusão educacional de quaisquer alunos. Dentre os alunos favorecidos com a adequação curricular estão os alunos com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). A adequação pedagógica não implica em reduzir oucriar um currículo alternativo, mas sim elaborar meios para que todos os educandos tenham acesso ao mesmo currículo. Nunes, Azevedo e Schmidt (2013) defendem a adequação curricular como prática promissora no processo de escolarização dos alunos com TEA, isto é, concretização da educação inclusiva. Embora tenham ocorrido avanços na construção de um ensino que considere as características e necessidades desses educandos, na prática a inclusão deles tem ocorrido de forma reduzida, considerando apenas a presença dos alunos na sala de aula, sem o comprometimento de fato com o seu desenvolvimento (DELORS et al., 2003). Desse modo, torna-se necessário avaliar como esses alunos se desenvolvem na escola, verificando as possíveis estratégias utilizadas pelos professores para essa avaliação. Pensando no desenvolvimento dos alunos na escola e, neste trabalho, os educandos com autismo, é necessário perceber as diferenças referentes ao ritmo do desenvolvimento e da aprendizagem perante a diversidade social, cultural e econômica de cada aluno. Segundo Vygotsky (2003), o desenvolvimento é percebido de forma entrelaçada às práticas culturais e educativas, incluindo, então, necessariamente o processo de aprendizagem. Como saber se um aluno está se desenvolvendo em sala de aula? Utilizando avaliações? Que tipo de avaliação? Luckesi (2005; 2011) destaca a avaliação na prática escolar como meio de investigar a qualidade da aprendizagem dos educandos. Moretto (2004) e Hoffmann (2014; 2014) entendem a avaliação como um meio utilizado pelo professor para saber se o aluno aprendeu e, assim, poder propor melhorias e ajustes nas práticas pedagógicas. Desse modo, verificam-se progressos e dificuldades, orientando ajustes na prática didático-pedagógica (LIBÂNEO, 1994). Graças à aprendizagem o aluno se apropria da cultura, insere-se na sociedade e torna-se parte dela, o que traz repercussão no seu desenvolvimento. Não se pode falar em aprendizagem sem relacioná-la com o processo educativo, embora se reconheça que aprender acontece em todos os ambientes da vida. 26 Mas, os alunos com autismo conseguem aprender? Sim, de acordo com Riesgo (2013), Cavaco (2014), Orrú (2012), Cunha (2010; 2011; 2013a), Serra (2010), as pessoas com autismo conseguem aprender. No entanto, será que se consegue evidenciar, por meio de avaliações, o que aprenderam? Como o professor sabe que um aluno autista está aprendendo? Mais ainda, como o professor percebe se um aluno com autismo está se desenvolvendo? Assim, emerge o problema de pesquisa: quais aspectos do processo educacional contribuem para acompanhar o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos com autismo no ensino fundamental? 1.3 OBJETIVOS 1.3.1 Objetivo Geral Analisar aspectos do processo educacional que contribuem para o acompanhamento do desenvolvimento e aprendizagem de alunos com TEA no ensino fundamental. 1.3.2 Objetivos Específicos a) Identificar quais meios o professor utiliza para acompanhar o desenvolvimento e aprendizagem de alunos com autismo. b) Identificar os critérios de escolha pelos professores dos meios utilizados para acompanhar o desenvolvimento e aprendizagem de alunos com autismo. c) Identificar as percepções de alunos com autismo sobre seu desenvolvimento e aprendizagem. d) Identificar as percepções dos professores sobre o desenvolvimento e aprendizagem de alunos com autismo. 27 2 EMBASAMENTO TEÓRICO 2.1 EDUCAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO AFETIVO, COGNITIVO E SOCIAL Há no tempo atual uma pluralidade de atividades educativas, caracterizando a diversificação da ação pedagógica, possivelmente porque o conceito de educação tenha se alargado ao longo do tempo (LIBÂNEO, 2001). Etimologicamente, a palavra educação provém do verbo “educar”, advindo do termo educare (GILES, 1983), que significa “direcionar para fora”. Este termo era empregado no sentido de prepara r as pessoas para viver em sociedade no mundo. A história da educação revela que o processo de escolarização foi, por muito tempo, privilégio de determinados grupos, ocasionando uma exclusão aceita e legitimada pela legislação, quanto pelas políticas públicas, práticas educacionais e pela sociedade, reproduzindo a ordem social vigente (AIMI; TAMBORIL, 2011). Tal exclusão gera efeitos sociais, econômicos, culturais e políticos, uma vez que reafirma a desigualdade e as injustiças sociais, auxiliando na formação do cidadão de “segunda classe” (CARVALHO, 2000). Nessa concepção, percebe-se como natural a desigualdade e a discriminação, relacionadas às capacidades individuais, já que o realçado é o individualismo com a reprodução das diferenças. Nesse cenário, a função educativa da escola não pode reduzir-se à reprodução de conhecimentos. Já Freire (2005) e Dewey (1959) criticavam essa educação, na qual alunos são objetos receptores de informação, desconsideradas as subjetividades. Para superar esse modelo educacional, a escola deve substituir a lógica da homogeneidade para atender às diferenças dos seus educandos e atenuar, na medida do possível, os efeitos das desigualdades sobre o indivíduo. Para Saviani (2003), o problema desse modo educativo não está em possibilitar o acesso aos conhecimentos previamente produzidos e sistematizados pela sociedade, e sim em ensinar com base na ideia de mera transmissão, sem promover reflexões capazes de alterar a realidade. De acordo com Delors et al. (2003), a educação é uma construção humana que emerge como um trunfo indispensável à construção dos ideais de paz, de liberdade e justiça social, resultando no desenvolvimento integral mais harmonioso e mais autêntico das pessoas, de modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão social, as incompreensões, as opressões e as guerras. 28 Desse modo, pensar em uma educação que promova desenvolvimento humano numa perspectiva integral, é buscar por um ideal educativo, ou seja, é a busca constante do desenvolvimento do ser humano, contemplando dimensões cognitivas, afetivas, sociais, físicas, espirituais dentre outras. Porém, se esse ideal é utópico, ele se torna necessário como direcionamento das ações pedagógicas. Afinal, uma utopia serve mesmo para isto: fazer caminhar (GALEANO, 2013). De todo modo, o estudo da aprendizagem e o desenvolvimento têm sido abordados por diferentes ciências e a partir de referenciais teóricos diversos, constituindo-se de um amplo campo de produção científica, especialmente, na psicologia e na educação. Este estudo aborda o desenvolvimento na concepção histórico-cultural de Vygotsky (1991). Ainda de acordo com Vygotsky (1991), o desenvolvimento e a aprendizagem resultam das experiências concretas que as crianças vivenciam em conjunto com adultos e com seus colegas nos vários contextos socioculturais nos quais estão inseridas. Dentre eles, destaca-se o contexto escolar. Nesse sentido, os alunos não são seres autônomos e isolados em sala de aula, mas seres humanos que necessitam um dos outros, dependentes e ligados reciprocamente de modo bastante diverso. Aprender não se limita ao aspecto do conhecimento científico. Aprender no sentido mais amplo compreende a capacidade de adquirir qualquer tipo de conhecimento. Segundo Delors et al. (2003), a educação ao longo da vida baseia-se em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Nesta perspectiva, aprender inclui conhecer conteúdos acadêmicos, saber relacionar-se com o outro e compreender sentimentos e emoções. Para a teoria histórico- cultural o papel das emoções e do afeto emergem ao longo do percurso do desenvolvimento. Uma pedagogia afetiva modifica a qualidade do aprendizado e o processo de ensino na educação, almejando-se uma sociedade mais fraterna (CUNHA, 2010). Gomes e Mello (2010) enfatizam também que o “afeto diz respeito àquilo que afeta,o que mobiliza, por isso reporta a sensibilidade, sensações. Podemos ainda referir afeto como ser tomado por atravessado, perpassado, quer dizer: afetado” (p. 634). Muitos autores, como Freire (2011), Cunha (2010; 2011; 2013a), Tassoni e Leite (2010), dentre outros, vêm defendendo que o afeto é indispensável na atividade de ensinar. Neste sentido, é importante ver o aluno de forma global e perceber que a 29 afetividade pertence à condição humana, tendo reflexo no processo educacional e, consequentemente, no desenvolvimento do aluno. A história coloca em oposição a razão e a emoção. Por séculos as teses foram formuladas a partir de antagonismos, como corpo e alma, matéria e espírito, bem e mal, luz e trevas. Essa forma de pensar influenciou as ciências na produção de conhecimentos e a forma de viver de cada época. Sistemas educativos, muitas vezes, referem-se aos processos afetivos com profundo desconhecimento acerca da natureza, constituição e participação desses processos na estrutura psicológica do aluno, atribuindo às emoções um status inferior e à razão o grau máximo de desenvolvimento humano (TASSONI; LEITE, 2010). No entanto, não há como se falar em qual é a melhor, visto que são características essenciais e intrínsecas do ser humano. Contrário a esse modelo de pensamento, a dialética se coloca para o materialismo histórico como o método capaz de apreender o movimento dos fenômenos e objetos da realidade, sendo isto a lógica da historicidade. Ou seja, diante da indagação sobre como conhecer algo que muda o tempo todo, a dialética aparece como a possibilidade lógico - metodológica para a compreensão da historicidade humana, que inclui os processos psicológicos que se manifestam no indivíduo singular. Para a teoria histórico-cultural, entender como se dá a constituição do afetivo significa pensar, necessariamente, num movimento ou numa transformação que esses processos sofrem ao longo do desenvolvimento humano, refletindo a especificidade e complexidade da formação humana do sujeito. Vygotsky (2004) explica que as emoções sofrem mudanças qualitativas à medida que o sujeito avança no desenvolvimento das demais funções psíquicas. Nesta perspectiva, assume-se que a natureza da experiência afetiva (prazerosa ou aversiva) depende, em grande parte, da qualidade da mediação vivenciada pelo sujeito na relação com o objeto. De acordo com esses pressupostos, não se pode mais restringir a questão do processo ensino-aprendizagem apenas à dimensão cognitiva, dado que a afetividade também é parte integrante do processo (LEITE; KAGER, 2009). Cada um, à sua maneira, demonstra que as manifestações emocionais de caráter inicialmente orgânico, vão ganhando complexidade, passando a atuar no universo simbólico. Assim, ampliam-se as formas de manifestação, constituindo os fenômenos afetivos. Morin (2004) explica que a educação deve abranger o ser humano como um todo, de uma forma global e não apenas uma parte. 30 A aprendizagem dos conteúdos escolares também é importante, pois favorece a inserção do aluno na sociedade, propiciando o desenvolvimento de suas capacidades cognitivas. Rego (2002) destaca que a presença do aluno na escola não é garantia da apropriação do acervo de conhecimentos sobre áreas básicas elaborado por seu grupo cultural. O acesso a esse saber dependerá, dentre outros fatores, de uma ordem social, política e econômica, além da qualidade do ensino oferecido. Por isso mesmo, conforme Cunha : É importante que o professor conheça os estágios do desenvolvimento cognitivo do seu aluno, para utilizar os mecanismos educativos apropriados que promovam práticas pedagógicas estimulativas, não restritivas e adequadas ao período de amadurecimento de cada idade (2010, p. 57). Aprender traz a possibilidade de algo novo incorporado ao indivíduo, já que ninguém aprende da mesma maneira. Cada ser humano é singular na sua formação individual, mas necessita dos outros para constituir-se como pessoa (NUNES; SILVEIRA, 2009). O sistema cognitivo humano processa informação que provém fundamentalmente do meio, seja ele físico ou social, que é a realidade a envolver o indivíduo. O convívio social está relacionado com a história da humanidade e a forma como as pessoas interagem. Isso foi essencial para a construção de novos conhecimentos. Conforme Libâneo (2001), a educação é a prática social que busca uma humanização plena. Para isso, o indivíduo participa de diferentes grupos sociais e, um deles, é sala de aula. Os grupos sociais se formam a partir de um objetivo comum e as pessoas geralmente participam destes porque se sentem acolhidas e valorizadas. Cunha (2010) reforça a importância desses grupos sociais, pois nessas relações existe um valor afetivo. Esse valor afetivo contribui para as relações sociais mais sólidas. Vygotsky (2000) ressalta que a importância das interações entre as pessoas não está só no processo de construção do conhecimento, mas também na constituição do próprio sujeito e de suas formas de agir e pensar. Del Prette e Del Prette (2005) destacam que as interações sociais propiciam a construção do conhecimento e do desenvolvimento por meio da interação social, que revela comportamentos socialmente habilidosos, ou seja, o comportamento socialmente habilidoso de um aluno em sala de aula é um conjunto de comportamentos apresentados por ele num contexto interpessoal que expressa os sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos desse indivíduo, de modo adequado à situação da sala de aula. 31 No mesmo sentido, e Tassoni e Leite (2010) evidenciam o papel da interação social não apenas sobre o desenvolvimento intelectual do aluno. E explicam que os processos de socialização do aluno em sala de aula têm um grande impacto sobre o desenvolvimento de caraterísticas da personalidade, tais como seu autoconceito, autoestima, o conjunto de crenças, enfim, aspectos essenciais para constituição do aluno. De acordo com Freire (2011), ter afetividade e alegria não implica excluir a formação científica séria. Assim, adequar as tarefas às possibilidades do aluno, fornecer meios para que ele realize a atividade confiando em sua capacidade e demonstrar atenção às suas dificuldades e problemas, são maneiras bastantes refinadas de uma comunicação afetiva. 2.2 A ESCOLA COMO ESPAÇO DE INCLUSÃO Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes (FREIRE, 2005, p. 68). Com a permanente aquisição de novos valores e princípios pela sociedade, advém igualmente a necessidade de se promoverem mudanças no sistema educacional. Em decorrência disso, uma série de políticas públicas têm sido desenvolvidas para proporcionar a inclusão de crianças com deficiência no ensino regular. A universalização da educação básica proporcionou um aumento de alunos nas escolas regulares, reforçando a diversidade como característica constituinte da sociedade. À luz dos direitos humanos, pode-se constatar que a diversidade enriquece e humaniza a sociedade, quando reconhecida, respeitada e atendida em suas peculiaridades (BISCHOFF; SANTOS; MUNCINELLI, 2006). A ideia acima revela que o processo voltado à educação inclusiva caminha como expressão de luta para o alcance dos direitos humanos, tendo, portanto, a necessidade de amplas transformações. Essa concepção de educação foi nomeada de educação inclusiva, a qual reconhece e atende às diferenças individuais do aluno não como um problema, mas como caraterísticas inerentes ao indivíduo, respeitando as suas necessidades educacionais, sendo eles com deficiência ou não. O conceito de educação inclusiva é amplo e complexo e se baseia num sistema de valores no qual todos os alunos se sintam pertencentes ao ambiente escolar (CUNHA, 2013a). 32 A perspectiva de educação inclusiva contempla um trabalho pedagógico com toda a diversidadede alunos, proporcionando-lhes oportunidades reais de aprendizagem e desenvolvimento, o que leva a uma modificação da escola e alterando principalmente elementos tradicionais como o ensino padronizado e homogêneo com alunos ideais (MARTÍNEZ; REY, 2017). A concepção de um aluno ideal emerge de um sistema educacional homogêneo, muitas vezes desejada por educadores que temem mudanças e utilizam práticas inflexíveis de ensino com a desvalorização das diferenças individuais. A escola inclusiva trabalha com propostas pedagógicas que assegurem currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específica para atender necessidades acadêmicas e sociais do aluno. Esta é a escola que começa a se projetar no final do século XX. A busca por um sistema educacional inclusivo ganha força no contexto mundial com duas conferências importantes: a Conferência Mundial de Educação, realizada em março de 1990 em Jomtien, Tailândia, que proclamou como princípio básico que todos têm direito à educação (UNESCO, 1990). Esta reiterou a proposta da Declaração Universal dos Direitos Humanos (UNESCO, 1948) e a Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade, em 1994, em Salamanca, na Espanha. Essas declarações trouxeram importantes reflexões sobre a inclusão escolar e destacam que todos têm direito à educação, sem distinção. Enfatizam que é necessário o aperfeiçoamento dos sistemas de ensino para se tornarem ambientes inclusivos, e que os alunos com necessidades especiais devem ter acesso à escola regular dentro de uma pedagogia centrada no aluno. A LDBEN enfatiza que todos os alunos devem frequentar, preferencialmente, as classes comuns do ensino regular mais do que como uma obrigação legal, como um direito do aluno, sendo uma questão de direitos humanos (BRASIL, 1996). Um dos reflexos dessa medida foi constatado pelo censo escolar, elaborado anualmente pelo Instituto Nacional de Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o qual demonstra que, desde 1998, existe tendência de queda das matrículas dos alunos da educação especial em escolas exclusivas e o aumento desses alunos no ensino regular. De acordo com o Inep, as matrículas dos alunos com deficiência na escola regular no período de 2010 a 2016 só vem crescendo. Em números absolutos, em todo país, de acordo com o censo escolar de 2012, dos 702,6 mil estudantes, 484,3 mil (69%) 33 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 P e rc e n tu a is Escola regular Matrículas em escolas especiais ou classes especiais Fonte 5 : Inep/MEC. Elaboração da pesquisadora 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 Matrículas em escola regular Matrículas em escolas especializadas ou classes especiais Gráfico 2 - Evolução das matrículas dos alunos autistas no ensino regular (Distrito Federal) Fonte 6 : Inep/MEC Elaboração da pesquisadora. frequentavam a escola regular. Em 2016, dos 971,3 mil estudantes, 796,4 mil (82%) frequentavam a escola regular (INEP, 2010; 2016). Em termos comparativos, entre escola regular e especial, as matrículas dos alunos com autismo na escola regular no período de 2010 a 2016 também vêm aumentando a cada ano, conforme o gráfico 1. No Distrito Federal essa tendência também acompanha o cenário nacional. As matrículas dos alunos com autismo também cresceram, conforme apresentado no gráfico 2 a seguir. Como se constata, houve um aumento das matrículas no ensino regular e um decréscimo na educação especial. A inclusão é uma proposta de educação de longo Gráfico 1 - Evolução das matrículas dos alunos autistas no ensino regular (Brasil) 34 prazo. Não corresponde à simples transferência de alunos de uma escola especial para uma escola regular. Refere-se a uma reorganização educativa, de modo que oportunize o desenvolvimento e a aprendizagem de cada aluno. De acordo com Sassaki (1997), a história da educação das pessoas com deficiência é composta por quatro fases: exclusão, segregação, integração e inclusão. A exclusão ocorreu no período anterior ao século XX. As pessoas com deficiência eram excluídas da sociedade, pois eram consideradas inválidas e sem utilidade. Assim, excluídas da sociedade, não conseguiam ter acesso às escolas. A segregação foi no século XX até meados da década de 50. Nesse período, os pais passaram a questionar a respeito de uma educação para as crianças deficientes, surgindo, assim, as escolas especiais e os atendimentos especializados. Cabe des tacar que nessa fase as pessoas com deficiência passaram a ser consideradas dignas, o que até então não ocorria. A discussão sobre integração e inclusão apresenta convergência no que se refere à inserção do aluno com deficiência no ensino regular e diverge nos fundamentos em relação ao aluno se adaptar à escola ou esta adaptar-se ao aluno. A integração surgiu para derrubar a prática de exclusão social a que foram submetidas as pessoas deficientes por vários séculos. Teve início na década de 70 do século passado, com grandes mudanças no sistema escola. Nesse período, as escolas comuns passam a “aceitar” crianças ou adolescentes com deficiência na classe comum, desde que conseguissem se adaptar à escola comum. Nesse caso, o aluno é submetido a um processo parcial de inserção, pois o sistema separa quando oferece serviços educacionais de forma diferenciada para alguns alunos. A escola não muda como um todo, mas os alunos precisam se adaptar às exigências de um sistema que prima pela homogeneização e nivelamento da aprendizagem. Assim sendo, o processo de integração tem por objetivo inserir um aluno sem considerar suas caraterísticas. O sistema de integração na escola denota situações de seleção e discriminação, pois, nem todos os alunos com deficiência cabem nas turmas. Os objetivos educacionais são reduzidos para compensar as dificuldades de aprendizagem. Com isso, pode-se perceber que se trata de um sistema no qual não se acredita na capacidade do ser humano de ser mais. A inclusão emerge a partir da década de 80, igualmente no século XX, com o debate em torno do argumento de que somente a inserção do aluno com deficiência na 35 escola comum não haveria educação. Era preciso que a escola se adaptasse para atender de maneira satisfatória a todos os alunos. O foco não está mais no que o aluno não consegue fazer, mas o que ele pode fazer. O processo de educação inclusiva exige de fato mudança de paradigma educacional. Exige que chegue ao fim a subdivisão do ensino especial e ensino regular. Cabe destacar que a segregação e a integração trouxeram alguns benefícios ou, pelo menos, visibilidade para a educação dos alunos com deficiência. No entanto, muito há o que fazer, pois ainda hoje existem escolas e professores com tais concepções. É preciso virar o jogo. Os pressupostos da educação inclusiva, segundo Glat (2007), indicam a busca de respostas educativas que respondam às necessidades apresentadas por seus alunos, em conjunto e, a cada um deles, em particular. Para Sassaki (2010), uma sociedade inclusiva vai bem além de garantir apenas espaços em sala de aula para os estudantes. Ela fortalece os laços de convivência e de aceitação das diferenças individuais. Também valoriza a diversidade humana, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa. Carvalho (2005; 2014), Pimentel (2012) e Mantoan (2015) corroboram o pensamento deste autor e enfatizam ainda que um sistema educacional inclusivo respeita as singularidades e a complexidade de cada um dos implicados no ato educativo. Ela não só beneficia o aluno com deficiência nas redes regulares de ensino, mas todos os alunos, com ou sem deficiência, respeitando as necessidades de qualquer um deles. Nesse sentido, Carvalho (2014) pontua que a educação inclusiva contempla umaeducação de boa qualidade para todos e não restrita somente às pessoas com deficiência. Considera todos que, de uma alguma forma, têm sido excluídos do processo educacional. Para que a educação inclusiva seja efetivada da forma como foi idealizada na legislação vigente, torna-se necessário transpor algumas barreiras, tais como o despreparo dos professores, o número excessivo de alunos nas salas de aula, a precária ou inexistente acessibilidade física nas escolas, a rigidez curricular, as práticas avaliativas e, por fim, o desconhecimento assumido direta ou indiretamente pelos responsáveis em materializá-la nas escolas, no que se refere à própria legislação que a fundamenta (ANÇÃO, 2008). Nessa direção, existem pesquisas que enfatizam a importância da formação dos professores (ANÇÃO, 2008; MANTOAN, 2015; PIMENTEL, 2012). Os autores referenciados consideram também que é preciso ter menor quantidade de alunos em sala 36 de aula, fazer parcerias entre escola e família. Logo, formação e ação efetiva de melhoria da convivência entre os interessados na educação escolar se tornam itens fundamentais para o bom trabalho do professor. Por esse motivo, concebe-se que a educação deve libertar as pessoas, para que as mesmas demonstrem seus saberes através de ações que visem ao bem comum, que lutem pelo respeito à diversidade e que reconheçam as diferenças como características humanas (SILVA, 2013). Dessa forma, é fundamental a educação que almeje a satisfação das necessidades educativas de todos os educandos, sejam quais forem as suas características pessoais, psicológicas ou sociais, tendo ou não deficiência. Considerando a contribuição social de todos, realizada em comunidades educativas, formais e informais, é necessário ampliar o olhar da sociedade para a educação, concretizando de fato a inclusão educacional. Nessa linha de reflexão, Zardo (2011) destaca: A universalização da educação básica para os alunos com deficiência somente será alcançada se forem implementadas pelos sistemas de ensino ações efetivas de inclusão, que iniciam desde a educação infantil, contemplando um processo formativo de docentes a partir da compreensão das diferenças humanas no processo de construção do conhecimento. Esse processo deverá pensar a organização dos processos pedagógicos a partir da heterogeneidade da comunidade escolar (p. 13). Nesse sentindo, a proposta de educação inclusiva não se detém no conhecimento das diversidades e das leis. É preciso que as práticas educativas inclusivas entrem na sala de aula e sejam aplicadas. Pois só assim a educação inclusiva sairá dos discursos para ser uma realidade efetiva para os alunos. Na visão de Mittler (2003), a educação inclusiva se baseia num sistema de valores que faz com que todos os alunos se sintam bem-vindos à escola, e esta possa celebrar a diversidade, pensando e repensando questões de gênero, nacionalidade, raça, linguagem de origem, nível de aquisição educacional e cultural, deficiência. Com isso, esse modelo de inclusão prevê uma reforma na organização escolar em termos de prática pedagógica e formas de agrupamento dos alunos nas atividades escolares. O caminho para essa educação não pode ser uma resposta padronizada, nem a resposta de uma equação, mas uma análise das caraterísticas e necessidades dos alunos. De acordo com Ainscow (2005), podem-se identificar quatro caraterísticas num sistema inclusivo. A primeira é compreender que a inclusão é um processo, ou seja, a prática pedagógica deve ser vista como uma busca sem fim para encontrar melhores maneiras de ensinar e responder à diversidade. Trata-se de aprender a viver com a diferença e aprender a aprender com a diferença. Por exemplo, se um aluno da educação 37 infantil gosta de animais e plantas, à medida que esse aluno cresce será preciso que o professor faça novas pesquisas para descobrir quais são os seus novos interesses. Pois, a princípio, o interesse de alunos de três anos é diferente do aluno de quinze anos. A segunda característica se refere à coleta de informações a respeito do processo educativo, a fim de se planejar melhorias na prática pedagógica. Por exemplo, os professores podem discutir entre si qual a melhor forma de um determinado aluno expor seus conhecimentos. A terceira, a presença, participação e realização de todos os alunos, ou seja, como o professor planeja a participação dos alunos. Por fim, a quarta característica está afeta ao sistema que dê ênfase particular nos grupos de alunos que correm risco de marginalização ou exclusão. Isso indica a responsabilidade moral de garantir que os grupos, estatisticamente em maior risco, sejam acompanhados e que, quando necessário, sejam tomadas medidas para assegurar sua presença, participação e realização no sistema educacional. Cabe destacar que, ao mesmo tempo em que se reconhece as caraterísticas comuns entre alunos, também se reconhece a singularidade de cada um deles e necessidades de aprendizagens específicas. Assim, a escola inclusiva respeita o aluno, trabalhando práticas pedagógicas individuais e em grupo. Compreender a importância da prática pedagógica inclusiva em sala de aula é caminhar para a escola aberta à diversidade, com propostas para o desenvolvimento e aprendizagem de todos os alunos e não apenas de alguns. 2.2.1 Práticas pedagógicas para uma educação inclusiva Nesta seção pretende-se abordar alguns caminhos fundamentais, indicados pela literatura, à observação do professor no sentido da atuação pedagógica inclusiva. Essa atuação, enquanto práxis, configura-se como ação consciente e participativa, emersa do ato educativo para atender a determinadas expectativas. De acordo com o entendimento de Weisz (2002), A prática pedagógica é complexa e contextualizada, e, portanto, não é possível formular receitas prontas para serem aplicadas a qualquer grupo de alunos: o professor, diante de cada situação, precisará refletir encontrar suas próprias soluções e tomar decisões relativas ao encaminhamento mais adequado (p. 54). Esse ato educativo não é a reprodução sistemática de procedimentos, mas percursos educativos com intencionalidade determinada e com objetivos esperados. 38 Nesse sentido, como destaca Saviani (2003), a prática pedagógica não pode ser um componente reprodutivo, mas, sim, elemento capaz de impulsionar a transformação social. Seguramente, isso implica o exercício da reflexão, envolvendo os diversos aspectos que compõem o mencionado ato. Nesse sentido, os caminhos que o professor deve trilhar para desenvolver a prática pedagógica inclusiva “não estão unicamente no conteúdo, e sim na interatividade do processo, na dinâmica do grupo, no uso das atividades, no estilo do formador ou professor(a), no material que se utiliza” (IMBERNON, 2000, p. 99). Desse modo, o professor precisa desenvolver sua capacidade reflexiva sobre o que ensina, para quem ensina e porque ensina. Para Dewey (1959), a prática pedagógica deve ser voltada para os interesses dos alunos em busca do desenvolvimento do ser humano. Por isso, como compromisso de uma prática social que proporcione oportunidades iguais a todos os estudantes. Corroborando o pensar desses autores a respeito do tema, Freire (2011) discorre sobre a prática pedagógica humanizadora. Portanto, ela deve ser construída com autonomia, diálogo, e com foco no desenvolvimento integral do ser humano. Quadro 2 - Características da pedagogia freireana Princípio Característica na prática pedagógica Humanização Processos pedagógicos que viabilizem a humanização do aluno; Processo de ensino e aprendizagem que contribua com o desenvolvimento integral do ser humano; Respeito aos saberes e gostos do aluno; Reconhecimento da autenticidade dos alunos, em termos das diferenças individuais, dos ritmos de aprendizagem e do desenvolvimentocognitivo, afetivo, crítico. Diálogo Processo educativo pautado na relação dialógica, sustentada na amorosidade esperançosa; Superação da prática da transferência de conhecimento; Valorização do pensamento divergente; Escuta sensível do professor como incentivo ao exercício da fala do aluno. Autonomia Exercício da autonomia como forma de emancipação; Conteúdos de aprendizagem como instrumentos para conhecer e responder às questões postas pela realidade; A realidade do aluno como ponto de partida para a prática pedagógica. Fonte 7 - Adaptado de Braga (2012). 39 O quadro 2, sintetiza alguns princípios da prática pedagógica a partir de Freire (2005; 2011). As caraterísticas do quadro 2 demonstram uma filosofia educacional não restritiva a um grupo de alunos, mas uma educação para todos os alunos. O que evidencia uma pedagogia da inclusão, ou seja, uma pedagogia fundamentada na dialogicidade, autonomia e respeito ao ser humano, baseada em uma estrutura horizontal entre aluno e professor na construção do conhecimento. Essa pedagogia proposta por Freire (2011) vai ao encontro de uma escola inclusiva e seus preceitos. Uma das questões problemáticas para muitos professores é como desenvolver a prática pedagógica comum para todos e, ao mesmo tempo, sensível à diversidade, às diferenças individuais (CARVALHO, 2014). Para ajudar a responder essa questão, Ainscow (1997) destaca três fatores-chave que influenciam a prática pedagógica com princípios inclusivos: Planificação das atividades para a classe, como um todo. Assim, o professor deve desenvolver o mesmo conteúdo para todos os alunos, por exemplo; Utilização do conhecimento, das experiências e vivências de cada um. Reconhece-se a capacidade dos alunos para contribuir para a respectiva aprendizagem; Flexibilidade. O professor deve ser capaz de fazer uma alteração de planos e atividades em resposta às reações dos alunos, encorajando uma participação ativa. Devido à diversidade na sala de aula, recomenda-se que o professor utilize práticas pedagógicas variadas. Exemplos de práticas pedagógicas que afirmam a escola inclusiva: a) Uso de elogios; b) Incentivo à aprendizagem colaborativa; c) Adaptação de materiais e metodologias de ensino; d) Incentivo à autonomia. No entanto, como destaca Orrú (2003), Como a vida é, terminantemente, cheia de surpresas e de possibilidades, mesmo que o educador se mantenha dedicado no aprender através de conhecimentos científicos e por meio de sua prática reflexiva, momentos de incertezas podem surgir. [...]Tais momentos devem ser encarados como desafios encorajadores, determinantes de uma nova busca a respostas não imediatistas, mas construtivas para a contínua mutabilidade do ser humano (p. 8). De acordo com Stainback e Stainback (1999), quando se fala de inclusão é necessário existir uma rede coordenada com conexões formais e informais que promovam apoio aos envolvidos, e uma equipe de especialistas que trabalhem juntos. 40 Isto porque um dos desafios a ser ultrapassado pela escola inclusiva é colocar em seu dia a dia a prática pedagógica centrada no desenvolvimento de todos os alunos. 2.3 EDUCAÇÃO PARA ALUNOS COM AUTISMO 2.3.1 O que é o autismo O autismo é um transtorno no desenvolvimento, que interfere na qualidade das interações sociais e da comunicação, caraterizado por interesses restritivos, fixos e repetitivos. Os critérios mais recentes para o diagnóstico estão descritos na quinta versão do Manual Diagnóstico e Estatísticos dos Transtornos Mentais (DSM-V), no qual é definido como Transtorno do Espectro do Autismo-TEA. Assim, para o DSM-V O transtorno do espectro autista é um novo transtorno do DSM-5 que engloba o transtorno autista (autismo), o transtorno de Asperger, o transtorno desintegrativo da infância, o transtorno de Rett e o transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação do DSM-IV. Ele é caracterizado por déficits em dois domínios centrais: 1) déficits na comunicação social e interação social e 2) padrões repetitivos e restritos de comportamento, interesses e atividades (APA, 2014, p. 809). A utilização do termo espectro foi procedida devido a uma heterogeneidade das manifestações e à gravidade dos sintomas. A causa do autismo é complexa e depende de diversos fatores. Estudos apontam que cerca de 90% dos casos de autismo podem estar relacionados com fatores genéticos (BORDINI; BRUNI, 2014). Pilar e Levy (2012) explicam que existe uma hereditariedade poligenética complexa na maioria dos casos de autismo. Dados epidemiológicos mundiais estimam que uma a cada 88 crianças apresenta TEA, com maior prevalência em meninos (GOMES et al., 2015). No Brasil, estudo conduzido por Paula et al. (2011) indica que o autismo acomete cerca de 600 mil pessoas no país. O conceito Espectro Autista está relacionado a uma linha de dificuldade e competências, desde quadros mais graves, com maior dependência de outras pessoas, até quadros mais leves, com alterações mais sutis e maior autonomia do indivíduo (BORDINI; BRUNI, 2014). Ou seja, o grau de severidade do autismo é determinado de acordo com os níveis de funcionalidade sociocomunicativas e comportamentais de cada pessoa. 41 Devido a esse amplo espectro, o diagnóstico do transtorno não é tão simples. Ele é clínico, feito por um médico com auxílio de profissionais da saúde, relatos dos pais, da escola e da observação da criança (BORDINI; BRUNI, 2014). Cerca de 70% das pessoas com autismo apresentam algum grau de deficiência intelectual associada e mesmo indivíduos sem deficiência revelam disfunção cognitiva, particularmente, nas funções executivas, flexibilidade mental, planejamento, controle inibitório e prejuízos da teoria da mente (BOARATI et al., 2016). Os prejuízos sociocomunicativos da pessoa com autismo incluem dificuldade em estabelecer contato visual, compreender expressões faciais, figuras de linguagem e linguagem corporal (GOERGEN, 2013; NUNES, 2013; ORRÚ, 2012), com alguns sem desenvolver a fala (BOARATI; PANTANO, 2016), embora possam ser amenizados com intervenções direcionadas. Riesgo (2013) acrescenta que o comprometimento na área social é o que mais se destaca ao longo da vida. A dificuldade na interação social das pessoas com TEA pode se manifestar por isolamento, comportamento social inapropriado, indiferença afetiva, demonstração inadequada de afeto e falta de empatia social. Em relação ao comportamento, os autistas demonstram a resistência para mudanças e o apego excessivo a objetos (RIESGO, 2013; BOARATI; PANTANO, 2016). Alguns dos distúrbios relacionados ao autismo são o transtorno do sono, queixas gastrointestinais, epilepsia, transtorno motores, como alteração de marcha, equilíbrio, psicomotricidade fina e coordenação motora (BOARATI; PANTANO, 2016). 2.3.2 Autismo na escola Os alunos com autismo incluídos na escola regular, de forma geral, causam um grande impacto nos agentes educacionais, principalmente, quando estes se deparam com reações comportamentais típicas do autismo. Essas caraterísticas peculiares nas áreas cognitiva, afetiva e comportamental dos educandos com TEA não podem ser ignoradas no contexto da sala de aula regular, uma vez que essas especificidades podem interferir nas interações desenvolvidas entre professores e colegas. Nesse sentido, a Constituição Federal de 1988, a LDBEN e a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI) asseguram a adoção de medidas individualizadas e coletivas que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social dos 42 estudantes com autismo, o que favorece o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem em instituições de ensino (BRASIL, 2015). O artigo 205 da Constituição Federal de 1988 assegura o direito à educação voltada para o pleno desenvolvimento da pessoa,preparando-a para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho (BRASIL,1988). Já o Decreto n. 7.611/2011 estabelece o atendimento educacional especializado para alunos com deficiência (BRASIL, 2011). Por sua vez, a LDBEN orienta os sistemas de ensino para uma educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Segundo a referida lei, os sistemas de ensino assegurarão aos educandos currículos, métodos, técnicas, organização e recursos educativos específicos para atender às suas necessidades, além de professores com especialização adequada para o atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns (BRASIL, 1996). O conjunto de declarações e legislações, como as mencionadas, sustentam a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva de Educação Inclusiva, lançada em 2008, pelo Ministério da Educação. Seu objetivo é constituir políticas públicas para a promoção da educação de qualidade para todos os estudantes. Um marco na conquista dos alunos com autismo foi a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, a Lei Berenice Piana – Lei Federal n. 12.764/12 (BRASIL, 2012). Ela representa um avanço das políticas públicas para as pessoas com autismo, com importantes conquistas, dentre elas: criação de Centros de Tratamento Multidisciplinar e a inserção do mediador escolar. A partir de promulgação dessa lei, as pessoas com autismo passaram a ter os mesmos direitos das outras pessoas com deficiência e, com isso, enquadraram-se no conceito descrito pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD). Assim pessoas com deficiência são definidas como [...]aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas (ONU, 2006, p. 6). No ambiente escolar essa lei estabelece algumas diretrizes que devem orientar as escolas para a inclusão escolar de qualidade, abrangendo adaptações curriculares e 43 estratégias adequadas. Desse modo, a chamada educação para todos exige práticas educativas direcionadas ao desenvolvimento do ser humano de uma forma integral. No entanto, segundo Mittler (2003), por mais comprometido que seja o governo a respeito de uma educação inclusiva na sala de aula, as experiências cotidianas dos alunos na sala de aula são ainda o que define a qualidade da aprendizagem oferecida pela escola. Tal premissa vale para alunos com autismo. A partir desta perspectiva, Mantoan (2015) destaca que a educação deve alcançar todos os alunos com igualdade de oportunidades. Por sua vez, Cavaco (2014) salienta a necessidade das adaptações na metodologia de ensino e na avaliação dos alunos com autismo, respeitando-se, sempre, suas limitações, pois, frequentemente, as adaptações funcionam como estratégia pedagógica para aproximar o conhecimento do aluno. Orrú (2003) explica que as mudanças educacionais acontecem a partir da prática reflexiva do professor em se tratando de práticas pedagógicas para alunos com autismo. Conclui ser imprescindível que o professor conheça essa síndrome e suas características, pois tais conhecimentos devem servir como mais um ponto a ser observado no planejamento das ações pedagógicas. Nesse sentido, “é indispensável que se extrapole as concepções de déficit e torne a prática pedagógica rica em experiências educativas nas relações humanas” (CUNHA, 2011, p. 53). Isso não quer dizer que não se reconheça suas limitações, mas que a concepção educacional seja centrada no desenvolvimento do ser humano e não nos seus limites. Nessa perspectiva, é preciso, o quanto antes, saber que conhecer o aluno com autismo é fundamental para práticas pedagógicas realmente inclusivas (CUNHA, 2011; 2013b; ORRÚ, 2012). Desse modo, também é possível entender seu comportamento. O quadro abaixo representa algumas atividades que podem ser desenvolvidas com os alunos com TEA. Elas foram elaboradas a partir do olhar atento à condição autista, bem como a partir da busca de benefícios das atividades. Quadro 3 - Atividades da prática pedagógica Área de atuação Atividades e materiais Atividades para a comunicação, cognição e linguagem. Livros, jogos coletivos, pareamento do concreto com o simbólico, música, desenho, pintura, jogos e atividades que utilizem o raciocínio lógico. Atividades para o desenvolvimento Blocos lógicos, pareamento do concreto com o simbólico, encaixes geométricos, jogos e atividades que utilizem novas 44 matemático. tecnologias digitais, atividades com temas do cotidiano e que estimulem o raciocínio lógico-matemático. Atividades para socialização. Atividades esportivas individuais e coletivas; atividades pedagógicas em que o aluno possa compartilhar com a turma o seu saber; atividades que possam ser realizadas por todos os alunos. Atividades para o desenvolvimento do foco de atenção. Atividades e pesquisas em distintas áreas do conhecimento sobre temas que o educando tem interesse; atividades com novas tecnologias digitais, recortes diversos com tesoura, música, artes, desenho, pintura e vida prática. Fonte 8 - Cunha (2013a, p. 95). Tais atividades, segundo Cunha (2011b), devem: a) ser curtas; b) ser do interesse do aluno; c) promover a autonomia do aluno; d) promover a construção de vínculos afetivos. Além disso, não devem ser fixas. Tão importante quanto elas é observar como o aluno se comporta diante das atividades. Essas práticas devem ser escolhidas de acordo com as singularidades do aluno. 2.4 DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DO ALUNO COM AUTISMO NA PERPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL A criança se desenvolve à medida que aprende (VYGOTSKY, 2000, p. 301). Para a teoria histórico-cultural, constrói-se o ser humano a partir das relações que este vai estabelecendo ao longo de seu desenvolvimento. Para Vygotsky (1989), crianças com um desenvolvimento atípico, como é o caso dos alunos com autismo, necessitam de processos compensatórios de maneira a potencializar sua aprendizagem e seu desenvolvimento. Tendo sido um dos precursores no estudo do desenvolvimento das crianças atípicas, Vygotsky (1989) desenvolveu teses no âmbito da relação indivíduo/sociedade em que postulava que as características humanas não estão presentes desde o nascimento, nem são simplesmente resultados das pressões do meio externo. Elas são resultado das relações entre os seres humanos e a sociedade, pois quando o indivíduo transforma o meio em busca de atender suas necessidades básicas, ele transforma a si mesmo (OLIVEIRA, 2010). 45 Vygotsky (2000; 2003), ao analisar as teorias sobre o desenvolvimento humano e a aprendizagem, identificou três grandes linhas de pensamento. A primeira propõe que o desenvolvimento ocorre de forma independente do processo de aprendizagem; a segunda considera equivalente a aprendizagem e o desenvolvimento; a terceira estabelece uma relação entre aprendizagem e desenvolvimento, uma mútua interação. De acordo com essa categoria, “o processo de maturação prepara e poss ibilita um determinado processo de aprendizagem, enquanto o processo de aprendizagem estimula, por assim dizer, o processo de maturação e fá-lo avançar até certo grau” (2000, p. 106), estabelecendo-se uma relação de interdependência. De acordo com o autor: A aprendizagem não é, em si mesma, desenvolvimento, mas uma correta organização da aprendizagem da criança, conduz ao desenvolvimento mental, ativa todo um grupo de processos de desenvolvimento, e esta ativação não poderia produzir-se sem a aprendizagem. Por isso, a aprendizagem é um momento intrinsecamente necessário e universal para que se desenvolvamessas características humanas não-naturais, mas formadas historicamente. (VYGOTSKY, 2000, p. 115). Dessa forma, o conceito de desenvolvimento utilizado por Vygotsky (2003) rejeita as premissas de que o desenvolvimento implica na acumulação gradativa de mudanças isoladas. Compartilhando dessas concepções, Bronfenbrenner (1989, p. 191) afirma que o desenvolvimento humano é um “conjunto de processos através dos quais as particularidades da pessoa e do ambiente interagem para produzir constância e mudança nas características da pessoa no curso de sua vida”. Portanto, o desenvolvimento humano ocorre por meio de processos gradativamente mais complexos de interação recíproca entre pessoas, ambientes e símbolos do seu ambiente. Vygotsky (2004) e Bronfenbrenner (1989) advogam que o desenvolvimento humano é o resultado das interações entre o indivíduo e seu contexto social, e enfatizam que tal desenvolvimento não pode ser compreendido separado do contexto sociocultural no qual as pessoas se inserem. Desse modo, o estudo do desenvolvimento humano não pode separar a interação entre pessoas e meio ambiente. Por sua vez, Valsiner (1989) explica que a essência do desenvolvimento humano está nas mudanças que ocorrem desde o nascimento até a morte. No entanto, essas mudanças devem ocorrer no sentido de tornar o indivíduo mais capaz de criar alternativas para melhor se adaptar às condições específicas do meio em que vive. Esse recurso adaptativo não é passivo, com o ambiente dando as regras e a pessoa procurando a elas se adaptar. Pelo contrário, é uma dinâmica de mútua interação. 46 Nesse sentido, Morin (1996) e Valsiner (1989) enfatizam que o desenvolvimento humano ocorre de forma complexa e sistêmica. Existiria um número imenso de fatores que influenciam uns aos outros, tanto da parte do organismo quanto da parte do ambiente. Na perspectiva histórico-cultural as interações sociais estão na base do desenvolvimento integral do ser humano. É interagindo e participando de atividades geradoras da interação aluno-aluno, bem como professor-aluno, que cada criança vai internalizando habilidades cognitivas, conhecimentos, convicções e valores (TASSONI, LEITE, 2010; VALSINER, 1989). Um dos pontos centrais das ideias de Vygotsky (1995) é a importância dada à relação entre os aspectos naturais e culturais das pessoas. Na medida em que cresce e interage com o meio, o ser humano desenvolve um tipo específico de pensamento que lhe permite compreender os significados existentes e compartilhados em seu meio social. Esta seria uma característica específica dos seres humanos. Vygotsky (1995) explica que: Esse comportamento novo que surgiu no período histórico da humanidade e que denominamos convencionalmente de conduta superior para diferenciá-lo das formas desenvolvidas biologicamente, deve ter forçosamente um processo de desenvolvimento próprio, diferenciado, vias e raízes (p. 34-35). Nessa perspectiva, segundo o autor (2003), o desenvolvimento psíquico do ser humano se realiza por meio do processo de internalização. Assim, as relações intrapsíquicas (atividades individuais) se constituem com base nas relações interpsíquicas (atividades coletivas). É nesse processo do individual para o social que se dá a experiência social da humanidade. Importante salientar que os processos de desenvolvimento não coincidem com os processos de aprendizado. O processo de desenvolvimento acontece de forma mais lenta e sempre em momento posterior ao processo de aprendizado, surgindo nesta dinâmica, o que o autor denominou Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Ainda de acordo com o autor, o desenvolvimento humano compreende dois níveis. O primeiro é o nível de desenvolvimento real, em que a criança consegue resolver sozinha uma atividade. O segundo nível é o de desenvolvimento potencial, que corresponde ao conjunto de atividades que a criança não consegue realizar sozinha, mas com a ajuda de uma pessoa mais experiente. 47 A distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial caracteriza a ZDP, a qual se refere ao caminho que o indivíduo vai percorrer para desenvolver funções consolidadas em seu nível de desenvolvimento real (OLIVEIRA, 2010). Duarte (2007) destaca a importância da ZDP para o processo educacional no contexto escolar. Para ele: Cabe ao ensino escolar, portanto, a importante tarefa de transmitir à criança os conteúdos historicamente produzidos e socialmente necessários, selecionado o que desses conteúdos se encontra, a cada momento do processo pedagógico, na zona de desenvolvimento próximo. Se o conteúdo escolar estiver além dela, o ensino fracassará porque a criança é ainda incapaz de apropriar -se daquele conhecimento e das faculdades cognitivas a ele correspondentes. Se, no outro extremo, o conteúdo escolar se limitar a requerer da criança aquilo que já se formou em seu desenvolvimento intelectual, então o ensino torna-se inútil, desnecessário, pois a criança pode realizar sozinha a apropriação daquele conteúdo e tal apropriação não produzirá nenhuma nova capacidade intelectual nessa criança, não produzirá nada qualitativamente novo, mas apenas um aumento quantitativo das informações por ela dominadas (DUARTE, 2007, p. 98). Para esse desenvolvimento potencial é necessário efetuar a mediação, processo que ocorre por meio da intervenção de uma pessoa mais experiente e com intencionalidade. De acordo com Saviani (2003), a mediação que o professor faz proporciona que o aluno saia do saber espontâneo para o um saber sistematizado. Cunha (2013a) explica: Na mediação, o professor utiliza as atividades que permitirão o melhor desenvolvimento do aprendente, o que mais se afina ao seu perfil, atentando para as qualidades, as dificuldades, as carências e os desafios. A mediação terá caráter avaliativo, pois uma tarefa superada requer uma nova. (p. 62). A mediação pode ser feita utilizando-se instrumento e/ou signo. O instrumento é o elemento interposto entre o aluno e o professor, com um objetivo específico quando criado, como, por exemplo, o lápis, a borracha, a cola, entre outros. Já os signos são interpretáveis como representação da realidade, neste caso, o uso de palitos coloridos para representar unidades, dezenas e centenas. Vygotsky (1989) dedicou uma parte dos seus estudos a trabalhos envolvendo crianças com deficiência congênita ou adquirida, buscando compreender os processos mentais humanos. Utilizou frequentemente a terminologia defectologia para referir -se às pessoas com algum tipo de deficiência. No entanto, é importante e necessário esclarecer que apesar deste termo ser pejorativo na atualidade, soando como preconceito, a sua proposta não contém nenhum tipo de preconceito, baseando-se nas potencialidades das 48 crianças e não em seus defeitos. Na época de seu estudo era a terminologia mais adequada para deficiência. A preocupação de Vygotsky (1989) estava ainda no sentido de modificar a forma de compreender a deficiência, libertando-a do viés biológico limitador. Desse modo, embora reconhecesse a base orgânica da deficiência, argumentava que a questão maior consistia na forma como a cultura lidava com essa diferença. Com base nessa concepção de desenvolvimento, Orrú (2008, p. 6) explica que a aprendizagem [...]ocorre mediante a transformação construtiva de pensamentos, sentimentos e ações, envolvendo uma interação entre conhecimentos preliminares e conhecimentos novos que constroem outros significados psicológicos, resultantes em outras ações, pensamento e linguagem. Orrú (2012) enfatiza a importância da mediação realizada pelo professor diante de seus alunos autistas. Para essa autora, o professor deve ser sensível, a fim de perceber quais são os significados construídos por esses alunos. Além disso, segundo Bosae Golberg (2007), o professor tem o papel de avaliar necessidades, desejos e potencialidades educacionais dos alunos. De fato, como professor, perceber o desenvolvimento afetivo, social e cognitivo do aluno com autismo se torna algo essencial para ações pedagógicas realmente efetivas. E, para que isso ocorra, tornam-se necessárias novas formas de se avaliar-acompanhar- observar o desenvolvimento do educando com autismo. Um exemplo foi o estudo de Yang et al. (2003), o qual demonstrou que os professores que direcionam as práticas pedagógicas para o desenvolvimento integral dos alunos com autismo promoveram ganhos significativos para esses alunos. Assim, em prol do desenvolvimento do aluno, torna-se imprescindível saber o que este tem aprendido e aprende na escola. Baptista, Vasques e Rublescki (2003) reiteram que a prática educacional direcionada para o desenvolvimento integral do aluno com autismo proporciona efeitos significativos em vários aspectos de sua vida. 2.4.1 Acompanhando o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos com autismo Para saber como o aluno com autismo está se desenvolvendo na escola o professor deve utilizar algumas estratégias ou recursos que sinalizem esse processo. Um 49 desses recursos é a avaliação de aprendizagem citada na Política Nacional para Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). Essa política explica que a avaliação de aprendizagem é um processo dinâmico, que deve levar em conta o conhecimento prévio e o nível atual de desenvolvimento do aluno, considerando as possibilidades de aprendizagem futura. Também deve analisar o desempenho do aluno em relação ao seu progresso individual, prevalecendo na avaliação os aspectos qualitativos. No processo de avaliação, o professor deve criar estratégias que proporcionem condições de acesso aos conteúdos escolares. De acordo com Moraes (2008), a avaliação é uma ação inerente à atividade humana: Avaliação escolar torna-se uma ação essencial para o acompanhamento do desenvolvimento do aluno ao possibilitar analisar uma relação qualitativa entre a atividade de ensino elaborada pelo professor e a atividade de aprendizagem realizada pelos alunos. Essa perspectiva também encontra sustentação no pressuposto vygotskyano (p. 60-61). Nesse sentido, avaliar não é julgar, e sim uma forma de acompanhar o desenvolvimento do educando em seu percurso educacional. De fato, Luckesi (2011) explica que a avaliação da aprendizagem é um ato pedagógico a serviço de uma concepção desenvolvimento humano. Nesse sentido, a avaliação não tem característica de instrumento de mensuração da aprendizagem do aluno, mas, ao contrário, constitui-se em um elemento que permite ao professor rever sua forma de organizar as aulas para o desenvolvimento do aluno (MORAES, 2008). Vitorino e Grego (2017, p. 201) explicam que a avaliação “pe rmite o acompanhamento e a reflexão sobre o desenvolvimento do aluno”. Conforme Machado (2017), as avaliações costumam ser um instrumento norteador para as adequações necessárias a serem feitas no processo educativo, permitindo um acompanhamento mais preciso do que o aluno conseguiu aprender e quais métodos precisam ser modificados para que os objetivos educacionais sejam atingidos. O Currículo em Movimento da Educação Básica – Educação Especial, da Secretaria de Educação do Distrito Federal, destaca que a avaliação dos estudantes autistas deve ser contínua e formativa e faz algumas sugestões que podem ser adotadas como: avaliação oral, avaliação escrita com enunciados curtos e objetivos, portfólio, 50 além da utilização de gravuras, de material de apoio e aumento do tempo previsto para execução da atividade (DISTRITO FEDERAL, 2010). O ideal seria utilizar os meios que melhor captassem o desenvolvimento real do aluno. Desse modo, entende-se ser importante acompanhar o desenvolvimento dos alunos com autismo, na escola, com meios adequados às suas particularidades, visto que para atender às políticas de inclusão não basta estar em sala de aula ou somente socializar. É preciso saber o que esses alunos estão aprendendo em sala e como está ocorrendo o seu o desenvolvimento. 51 3 METODOLOGIA A pesquisa pode tornar um sujeito professor capaz de refletir sobre sua prática profissional e de buscar formas (conhecimentos, habilidades, atitudes, relações) que o ajudem a aperfeiçoar cada vez mais seu trabalho docente, de modo que possa participar efetivamente do processo de emancipação das pessoas (ANDRÉ, 1997, p. 123). 3.1 NATUREZA DA PESQUISA Com o intuito de entender as possibilidades de avaliar o desenvolvimento do aluno com TEA, optou-se por uma pesquisa qualitativa-exploratória, pois pressupõe-se que a realidade é construída por pessoas em sua interação com o mundo (MERRIAM, 1998). Para Hernández Sampieri, Fernández Collado e Baptista Lucio (2006), essa abordagem possibilita aprofundar os dados, bem como uma rica interpretação, a partir de detalhes e de experiências únicas do objeto de estudo. Por sua vez, Yin (2016) explica que a pesquisa qualitativa estuda o significado de vida para algumas pessoas, representando opiniões e perspectivas em contextos de vida, podendo revelar conceitos por meio de múltiplas fontes de evidência. Essas caracterizações estão presentes neste estudo, focalizando-se processos de desenvolvimento de alunos com TEA. Para melhor compreender esses processos, decidiu-se por um estudo de casos múltiplos (YIN, 2010), o qual possibilitou evidências mais robustas, pois agregou informações cruzadas entre os casos únicos. Além disso, enquanto método, oferece-se como oportunidade de seguir a lógica da replicação. 3.2 CAMPO DE PESQUISA E PARTICIPANTES A pesquisa foi realizada em um Centro de Ensino Fundamental na área central de Brasília, uma escola denominada aqui como Escola Beta. Esta foi criada em 2004 e dispõe da seguinte infraestrutura física, conforme consta em seu Projeto Político Pedagógico (PPP) 2007: • Quatorze salas de aula; • Uma sala de Informática; • Uma sala de recursos; 52 • Sete salas de apoio: Direção, Secretaria Escolar, Coordenação Disciplinar, Coordenação Administrativa, Coordenação Pedagógica, Serviço de Orientação Educacional (SOE), Sala Inclusiva, Mecanografia e Almoxarifado; • Uma sala de professores, com espaço de reuniões pedagógicas e copa contígua; • Uma Sala de Coordenação Pedagógica; • Uma cantina com depósito; • Um auditório com capacidade para 100 pessoas; • Uma cantina comercial; • Uma sala ambiente de Artes; • Uma sala para Laboratório de Ciências; • Uma Biblioteca; • Uma Sala de Leitura Ambientada • Quatorze banheiros, sendo: dois para professores, dois no auditório, dois reservados ao pessoal da limpeza, dois para a área de educação física, seis para o bloco de salas de aula (dois adaptados para portadores de necessidades especiais); • Uma guarita; • Um estacionamento pavimentado com capacidade para 80 veículos; • Uma quadra polivalente; • Uma quadra polivalente coberta; No quesito material didático-pedagógico, a escola conta com um bom acervo bibliográfico: atlas de novos mapas geográficos, históricos e científicos, incluindo tabela periódica; livros ilustrativos; aparelhos de DVD; TVs em todas as salas de aula, som, datashow, jogos recreativos; internet banda larga com grande capacidade paga com recursos próprios, impressora multifuncional na sala da coordenação pedagógica; esqueleto e dorso humano, material dourado e livros paradidáticos. Material pedagógico de matemática: escalas métricas, superfícies planas, réguas, compassos, jogos de esquadros, fitas métricas, caixas de frações, material dourado e figuras geométricas de madeira e de acrílico:, além dos materiais pedagógicos que auxiliam professores e alunos na montagem, confecção e apresentaçãodos projetos da escola e dos docentes. A fim de assegurar a participação efetiva dos diversos segmentos da comunidade escolar, a escola conta com um Conselho Escolar (CE) que é um órgão colegiado de natureza consultiva, deliberativa, supervisora das atividades pedagógicas, 53 administrativas e financeiras. O CE é constituído pelo Diretor e por 14 membros eleitos, representantes dos segmentos da comunidade escolar. A escola buscou nos últimos anos uma efetiva participação da comunidade escolar em suas atividades. Para tanto, podem-se citar algumas ações: dia da família na escola, projeto “Jardim Escolar”, feira de ciências e matemática, hora cívica (com entrega de certificados aos alunos destaques), café cultural, jogos interclasses, comemoração do dia nacional de luta das pessoas com deficiência, festejos junino/julino, celebração do dia da consciência negra, feijoada comunitária, reuniões de pais e mestres sempre aos sábados. De acordo com o PPP, a missão da escola é promover o desenvolvimento intelectual, social e cultural dos alunos, objetivando a participação efetiva de todos os segmentos da comunidade escolar no ambiente social no qual eles estão inseridos, proporcionando aos mesmos uma autonomia do pensar, além de criar, no ambiente escolar, meios para que essa ação seja alcançada de forma progressiva e gradual. Participaram da pesquisa três alunos com autismo, estudantes do sexto ano da Escola Beta, e sete professores desta escola, os quais ministravam aulas para esses alunos. Foram entrevistados três alunos, os quais, em nome do sigilo, denominam-se neste trabalho como A1, A2 e A3. Os alunos A2 e A3 são irmãos gêmeos. Quadro 4 - Caracterização dos alunos participantes Aluno Idade (anos) Série Repetente Turma A1 12 6º ano Não C A2 15 6º ano Sim D A3 15 6º ano Sim C Fonte 9 - Elaboração da pesquisadora. Foram entrevistados sete professores, igualmente em nome do sigilo, foram chamados de P1, P2, P3, P4, P5, P6 e P7. Quadro 5 - Caracterização dos docentes Professor Idade (anos)/Sexo Tempo de Docência (anos) Experiência com educação especial Formação inicial Formação continuada Especialização P1 63/H 25 15 Lic. História Educação Administração 54 Inclusiva Escolar P2 25/M 4 4 Lic. Biologia Educação Ambiental Educação Ambiental P3 47/M 25 10 Lic. Português Educação Inclusiva Códigos e Linguagem P4 42/M 18 18 Lic. Educação Física Fisiologia do Exercício Fisiologia do Exercício P5 50/M 24 10 Lic. Artes Educação Inclusiva Orientação Educacional P6 47/M 17 17 Lic. Geografia e História Não Não P7 59/H 20 6 Lic. Matemática e Ciências Educação Inclusiva Não Fonte 10 - Elaboração da pesquisadora. Legenda: M - Mulher; H - Homem. 3.3 COLETA E GERAÇÃO DE DADOS 3.3.1 Análise documental Por meio da análise documental, buscam-se informações em documentação capazes de viabilizar o alcance dos objetivos de pesquisa (BARDIN, 2012). Essa fonte de evidência apresenta riqueza de detalhes, além da estabilidade dos dados e o baixo custo, pois sua execução depende basicamente do olhar do pesquisador sobre o material selecionado e não exige contato com os participantes (GIL, 2002). Nesta pesquisa, desenvolveu-se uma análise crítico-interpretativa, pois, de acordo com Lakatos e Marconi (2010, p. 152), a interpretação é a atividade intelectual que procura dar um significado mais amplo às respostas, vinculando-as a outros conhecimentos. Essa análise se torna relevante porque possibilita identificar em que medida as escolas têm registrado em documentos institucionais as iniciativas voltadas para a avaliação dos alunos com TEA. Esses registros são favoráveis à sistematização dos processos que promovem o desenvolvimento integral desses alunos. 55 Para o presente estudo foi analisado o PPP da Escola Beta, locus da investigação de campo. 3.3.2 Observações A observação tem sido utilizada, principalmente, na coleta de dados não verbais, podendo ser aplicada em conjunto com outras técnicas (STAKE, 2016). Ela é irredutível ao ver e ouvir (LAKATOS; MARCONI, 2010), envolvendo todas as possibilidades de captar nuanças da realidade pesquisada, além do previsto nos roteiros de entrevista. Observou-se uma aula de cada professor, e seus respectivos alunos com TEA, as quais duraram 50 minutos, cada uma delas. Para esse procedimento utilizou-se um roteiro (Apêndice B). 3.3.3 Entrevistas A entrevista é um dos mais utilizados recursos para a geração de dados em pesquisas qualitativas (LÜDKE; ANDRÉ, 1986; TRIVIÑOS, 1995; GRAY, 2012). É indicada quando a investigação necessita examinar opiniões, sentimentos e atitudes dos participantes (GRAY, 2012). Essa fonte de evidência foi escolhida porque se ofereceu como oportunidade de os participantes relatarem sua interpretação e compreensão a respeito dos modos como acompanhar o desenvolvimento dos alunos. De acordo com Duarte (2007), as entrevistas são fundamentais quando se deseja mapear práticas, crenças, valores e sistemas classificatórios de universos sociais específicos. Sendo bem realizadas, permitem ao pesquisador coletar indícios das maneiras como cada um daqueles sujeitos percebe e significa sua realidade. Assim, o pesquisador consegue levantar informações consistentes que lhe permitem descrever e compreender a lógica das relações que se estabelecem no interior do grupo. De acordo com Gray (2012), existem diversos tipos de entrevistas e a escolha de qual deles utilizar dependerá dos objetivos da pesquisa. Neste estudo, a escolha foi a entrevista semiestruturada, a qual pressupõe alguns questionamentos básicos sustentados por teorias interessantes para a pesquisa (TRIVINOS, 1995). Justifica-se essa escolha, pois o objetivo foi compreender a realidade dos entrevistados a partir de suas opiniões (GODOY, 2006). A seguir, apresenta-se um quadro resumo dos componentes metodológicos que possibilitaram a coleta e a geração de dados (Quadro 6). 56 Quadro 6 - Características da coleta/geração de dados e procedimentos Objetivos Fontes de Evidência Técnicas Instrumentos de coleta e geração de dados Procedimentos Identificar possíveis meios para acompanhar o desenvolvimento integral de alunos com autismo. Análise documental Análise crítico interpretativa Roteiro de análise documental Apêndice A Foi analisado o PPP 2017 da escola para identificar aspectos relacionados com o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos com autismo. Observação Observação direta Roteiro de observação (Apêndice B) Alunos e professores selecionados foram observados em uma aula de 50 minutos, podendo totalizar 450 minutos de observação. Entrevista com os professores Entrevista semiestruturada Roteiro de entrevista (Apêndice C) Foram entrevistados os professores selecionados na escola, em horários agendados. Identificar critérios de escolha dos possíveis meios para acompanhar o desenvolvimento integral de alunos com autismo. Análise documental Análise crítico interpretativa Roteiro de análise documental. (Apêndice A) O PPP foi analisado para identificar os critérios. Entrevista com os professores Entrevista semiestruturada Roteiro de entrevista (Apêndice C) Foram entrevistados os professores selecionados. Identificar as percepções de alunos com autismo sobre seu desenvolvimento. Entrevista com os alunos com TEA Entrevista semiestruturada Roteiro de entrevista (Apêndice D) Foram entrevistados os 3 alunos Identificar as percepções dos professores sobre o desenvolvimento do aluno com autismo. Entrevista com os professores Entrevista semiestruturada Roteiro de entrevista (Apêndice C) Foramentrevistados os professores selecionados. Fonte 11 - Elaboração da pesquisadora. Como se observa, pela triangulação das fontes de evidências, os dados assumem sua importância em um conjunto e não isoladamente, pois se buscam respostas para a investigação como um todo (LAKATOS; MARCONI, 2010). 57 3.4 PROCEDIMENTOS Inicialmente, foi realizada uma visita à Coordenação da Educação Especial, com o objetivo de realizar um levantamento sobre quais escolas regulares do ensino fundamental da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal tinham alunos com TEA matriculados. Com base nessas informações, a pesquisadora: a) Entrou em contato com a direção das escolas selecionadas, visando obter autorização para realizar a pesquisa e os nomes dos alunos; b) Solicitou à professora da sala de recursos que perguntasse aos pais dos alunos se eles autorizavam seus filhos a participarem da pesquisa. Na semana seguinte, a professora da sala de recursos comunicou à pesquisadora a informação de que os pais dos alunos autorizaram a pesquisa; c) Solicitou à Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação (EAPE) autorização para a realização da pesquisa; d) Dirigiu-se, cinco dias após, com a autorização em mãos, ao colégio pela manhã conversar com os professores. Nesta ocasião foi entregue aos professores o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice E). Todos os sete professores aceitaram participar da pesquisa; e) Enviou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice F) dos pais, pelos alunos; f) Agendou com os professores a observação das aulas e as entrevistas; g) Obteve com a escola o PPP (Apêndice A); h) Observou as aulas; i) Entrevistou professores e alunos; j) Analisou os dados. Cada participante foi entrevistado uma vez. As entrevistas foram gravadas e tiveram duração média de 15 minutos e, posteriormente, transcritas. Os roteiros foram divididos em duas partes: a caraterização do perfil dos participantes e levantamento dos itens relacionados com os objetivos da pesquisa (Apêndices C e D). Segue um quadro resumo dos objetivos da pesquisa e as respectivas fontes de evidências acompanhadas de aspectos considerados relevantes para responder a cada objetivo (Quadro 7). 58 Quadro 7 - Objetivos e fontes de evidências A. Identificar possíveis meios para acompanhar o desenvolvimento integral de alunos com TEA Análise documental Plano Político Pedagógico - PPP 1. Avaliações cognitivas (prova, seminários, trabalhos) ou outras; 2. Atividades culturais; 3. Atividades que remetam ao bom relacionamento entre alunos e professores. Observação 1. Participação do aluno com TEA nas aulas: perguntas; 2. Interações entre professores e alunos: afetivas, troca de opiniões; 3. Trabalhos com os alunos; 4. Observações de comportamentos dos alunos; 5. Perguntas instigantes; 6. Atividades relacionadas com o cotidiano do aluno; 7. Interação entre o aluno e colegas. Entrevista com os professores 1. Perfil do aluno com TEA: comportamento, participação; 2. Percepções sobre o aprendizado do aluno; 3. Percepções sobre as interações aluno com TEA - colegas; 4. Estratégias de avaliação e procedimentos. B. Identificar critérios de escolha dos possíveis meios para acompanhar o desenvolvimento integral de alunos com TEA. Entrevista com os professores 1. Critérios de escolha dos meios para acompanhar o aluno: PPP; 2. Preocupações com o desenvolvimento integral. C. Identificar percepções de alunos com TEA sobre sua avaliação. Entrevista com os alunos 1. Gosto pelas aulas do professor. Razões; 2. Gosto pelas avaliações: provas e trabalhos. Razões. D. Identificar percepções dos professores sobre o desenvolvimento do aluno com TEA. Entrevista com os professores 1. Formas de aprender; 2. Evidências de sentimentos; 3. Entendimento sobre desenvolvimento integral do aluno; 4. Aspectos mais importantes a serem desenvolvidos no aluno pela escola? Por quê? Fonte 12 - Elaboração da pesquisadora. 59 4 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS O ponto de partida da análise de conteúdo, para Franco (2008), é a mensagem, seja ela verbal (oral ou escrita), gestual, silenciosa. No mesmo sentido, Bardin (2012) explica que tudo o que é comunicação é suscetível de análise, podendo ser códigos linguísticos, icônicos ou semióticos. Portanto, englobam material escrito, oral, comportamentos, sinais patológicos e assim por diante. Para a autora, a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas por meio do qual se classificam conteúdos passíveis de decomposição, desmembramento em unidades menores, podendo ser categorizados de acordo com regras previamente definidas. O objetivo é “conhecer aquilo que está por trás das palavras sobre as quais se debruça” (BARDIN, 2012, p. 45). Por sua vez, Yin (2010) menciona quatro estratégias gerais de análise de dados obtidos em estudos de caso: 1) Contando com proposições teóricas; 2) Desenvolvimento da descrição do caso; 3) Uso de dados qualitativos e quantitativos; e 4) Pensando sobre explanações rivais. Nesta pesquisa foi utilizada a primeira delas, pois os seus objetivos foram baseados em questões elaboradas previamente. Bardin (2012) define três fases da Análise de Conteúdos: a pré-análise; a exploração do material e o tratamento dos resultados; a inferência e a interpretação. A pré-análise é a etapa de organização dos dados, onde são escolhidos os documentos a para a análise, formulação de hipóteses e dos objetivos além da construção de indicadores que fundamentem a interpretação final. Nessa etapa também foi realizada a leitura flutuante das entrevistas, ponto essencial para a elaboração das categorias, por isso todas as entrevistas foram registradas através de gravação em áudio e transcritas na íntegra. 4.1 MEIOS DE ACOMPANHAR O DESENVOLVIMENTO E A APRENDIZAGEM Devem os professores notar que o objetivo do ensino não é o conteúdo do ensino. Não é o fato histórico, o espaço geográfico, a proposição matemática ou a lei da física que constitui o objetivo do ato educativo. Eles são os mediadores do conhecimento e da competência do educando para compreender o mundo (RODRIGUES, 1992, p. 80). O PPP da escola pesquisada se pauta em uma educação na perspectiva do desenvolvimento humano e prioriza ações que devem se iniciar no lar e progredir com a 60 ajuda da escola. Também orienta os professores a propiciarem aos alunos condições para conquistar competências, pensar com criatividade, individual e coletivamente, bem como desenvolver talentos. O mencionado documento destaca a concepção de desenvolvimento humano, considerando a criança capaz de atribuir significados ao mundo e a si mesma e de manifestar comportamento inteligente, social e afetivo. Dessa maneira, o aluno seria capaz de agir sobre o meio em que se encontra, de acordo com suas capacidades e com determinadas significações atribuídas a cada situação. Para que não haja dúvida em relação à finalidade da avaliação de aprendizagem, o PPP pontua que a “ação avaliativa identificará os aspectos exitosos da aprendizagem do aluno e as dificuldades evidenciadas em seu dia a dia, com vistas à intervenção imediata e promoção do seu desenvolvimento” (DISTRITO FEDERAL, 2017, p. 45). Portanto, a avaliação tem como objetivo a intervenção pedagógica com a finalidade de desenvolver o aluno. O documento se baseia no modelo de avaliação formativa, com foco no desenvolvimento humano, e utiliza também Luckesi (2005) como referencial teórico, evidenciando que a avaliação da aprendizagem deve cumprir o seu papel pedagógico de atuar a serviço de uma concepção humanística. Nesse sentido, é essencial identificar possíveis meios para acompanhar o desenvolvimento integral de alunos com autismo. O PPP (DISTRITO FEDERAL, 2017, p. 47) traz exemplos de instrumentos/recursos avaliativos que oprofessor pode utilizar em sua atuação didático-pedagógica: pesquisas, relatórios, seminários, testes ou provas interdisciplinares e contextualizadas, entrevistas, dramatizações, dentre outros. O documento ressalta que, no caso de serem adotadas provas como instrumento de avaliação, o valor a elas atribuído não poderá ser superior a 50% da nota final de cada componente curricular. É interessante frisar que o PPP não exclui a prova como forma de avaliação. Contudo, determina outros modos de avaliar complementares a ela, com o intuito de conduzir o professor à avaliação qualitativa de caráter formativo e mais abrangente. Essas orientações vão ao encontro do Currículo em Movimento da Educação Básica, Educação Especial da Secretaria de Educação do Distrito Federal, que orienta que a avaliação dos estudantes autistas deve ser contínua e formativa (DISTRITO FEDERAL, 2010). Acompanham também a Política Nacional para Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). Além disso, essas orientações 61 foram identificadas na prática pela pesquisadora durante a observação, momento em que se constatou o uso, pelos professores, de atividades, da análise do caderno, a expressão oral, de prova e trabalho em grupo, tudo como recursos para acompanhar o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos. Durante as entrevistas feitas com os professores, quando perguntados sobre os meios utilizados para acompanhar a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos autistas em sala de aula, houve os seguintes relatos: Às vezes, quando eu estou fazendo a correção do exercício ele é o primeiro a levantar a mão, tudo isso eu estou avaliando (P2). Eu vejo o que eles produzem o que eles podem me falar... ou oralmente ou trabalho escrito. O que eles conseguem fazer e o que eles não conseguem fazer. Não é só o escrito que eu levo em conta. O que eles podem me passar (P2). Eu avalio com caça palavras e cruzadinhas eu percebi que esse raciocínio dele de ficar procurando as palavras, ele é muito bom nisso. Eu avalio nesse sentindo. Eu faço uma pergunta e a resposta está dentro do caça[palavra]. Ele faz provinha também (P2). A professora P2 utiliza vários meios para acompanhar os seus alunos autistas “o que exige do professor aprender sobre os jeitos de cada aluno aprender – de interagir no ambiente escolar, de utilizar recursos didáticos” (HOFFMANN, 2014b, p. 57) mais apropriados para cada aluno. Assim, avaliar para acompanhar o desenvolvimento e aprendizagem requer do professor conhecimento dos instrumentos, recursos e meios de avaliação. Primeiro é a observação, geralmente, esses alunos sentam mais próximo da gente e a gente observa, né. E até o desenvolvimento das respostas nas atividades que eles vão fazendo, a própria prova, assim, eu observo muito. Vejo se ele está aprendendo ou não está. Dou uma olhada no caderno e vejo as respostas que ele está dando e depois eu tenho o retorno quando vejo a avaliação (P3). A professora P3 e outros professores utilizam a observação como uma formar de acompanhar a aprendizagem do aluno, no entanto, como destaca Hoffmann (2013) a observação sem registro pode gerar impressões gerais e esquecimentos e explica que: A observação diária dos alunos é parte natural do processo, e essas observações precisam se transformar em dados confiáveis em termos do seu acompanhamento. Não é possível guardar na memória o se observa de cada aluno ao longo do processo. A memória do professor não é suficiente para “registrar” os detalhes importantes de cada um. (HOFFMANN, 2013, p. 136). 62 No quadro 8 estão apresentados quais meios são utilizados pelos professores para acompanhar o desenvolvimento e a aprendizagem do aluno A1, A2 e A3. Quadro 8 - Meios utilizados pelos professores para acompanhar o desenvolvimento Professores MEIOS P1 P2 P3 P4 P5 P6 P7 Total Provas Adaptada aos alunos x x x 3 Atividades em geral x x x x x x 6 Observação dos professores x x x x x 5 Participação dos alunos x 1 Atividade lúdica x 1 Comportamento e atitudes x x x 3 Expressão oral x 1 Pesquisa extra classe x 1 Total 4 5 3 3 3 2 1 21 Fonte 13 - Elaboração da pesquisadora. Conforme o quadro 8, são oito os meios utilizados por esses professores. Os mais utilizados foram as atividades em geral com e as observações. Vitorino e Grego (2017) explicam que a observação do professor auxilia na obtenção de indicadores para uma prática pedagógica em prol do desenvolvimento de seus alunos, auxiliando no planejamento do ensino. A maior variedade de meios avaliativos utilizados por estes professores não está relacionada com o tempo de formação ou o tempo de docência. Parece, vincula-se mais com a interação deles com o aluno, como ficou constatado pelas falas de alguns alunos na entrevista. O professor P1, por exemplo, se destacou por apresentar alta sensibilidade na relação com os alunos. 63 Trecho da entrevista com o aluno A2: Pesquisadora: O que o Jorge faz na aula que você acha legal? A2: Quando eu termino os deveres ele me elogia. Pesquisadora: Ele fala como com você? A2: Ele fala muito bem e parabéns. Pesquisadora: E você gosta? A2: sim Pesquisadora: E você está fazendo direitinho a tarefa? A2: Sim. Trecho da entrevista com o aluno A3: Pesquisadora: E o professor A1? A3: Eu gosto dele e das aulas dele. A matéria que eu mais faço é a dele. Os meios utilizados pelos professores estão em concordância com a observação feita pela pesquisadora, pelo PPP da escola, com as orientações do Currículo em Movimento da Educação Básica (DISTRITO FEDERAL, 2010) e pela Política Nacional para Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). No entanto, a pesquisa revelou que os meios de acompanhar o aluno não são organizados, nem sistematizados, sendo utilizados de modo aleatório. Isto não favorece os processos de acompanhamento do aprendizado e desenvolvimento do aluno. Como exemplo, o professor P7 informou que observa o que esses alunos fazem e os compara com o que esses alunos faziam em anos anteriores. O professor destaca que o foco está no que eles não conseguem mais fazer. No caso da avaliação dele [do A3] eu estou comparando, como ano passado ele estava melhor... vamos deixar como estar. Mas se eu for avaliar esse ano, não tem como não. Ele realmente era bom em matemática. Ele sabia mais que o irmão dele. Ele [A3] sabia mais. Hoje infelizmente não tem como cobrar nada dele (P7). Essa fala retrata que o professor não utiliza nenhum recurso para orientar a sua prática pedagógica e não sabe o que esse aluno está aprendendo em sala de aula. Mantoan (2015) faz críticas a essa postura de tolerância, destacando essa prática como uma forma de exclusão. O professor P7 também não cria estratégias que propiciem o desenvolvimento do aluno, pois não admite a capacidade do aluno. Nesse sentido, é muito significativa a inferência de Cunha: A leitura e a escrita resultam de experiência social, cultural, cognitivas e linguísticas. A escola é, sem dúvida, um espaço essencial para o letramento. Essa ideia ganha bastante relevância no ensino do aprendente com autismo, independentemente do nível do comprometimento. Porém, é preciso salientar 64 que a ênfase dessa prática não pode estar centrada somente no processo de aquisição de códigos alfabéticos e numéricos mas também, acima de tudo, nas experiências e vivências socioculturais, familiar e escolar. Trata -se da aprendizagem da leitura do mundo, como diz Freire (2015, p. 81). Essas evidências e suas análises possibilitaram interpretar que, ao analisar as relações entre as atividades realizadas com seus alunos e o aprendizado adquirido por estes, o professor efetivamente acompanha o desenvolvimento deles, no âmbitocognitivo, assim como no afetivo, social, comunicativo, dentre outros. Com efeito, para Vygotsky (2003, p. 301), “a criança se desenvolve à medida que aprende”. Em síntese, os meios (ver quadro 8) utilizados pelos professores para acompanhar seus alunos autistas estão de acordo com os procedimentos legais e orientações institucionais. No entanto, conforme as análises desta pesquisa, falta reunir esses meios de modo organizado, sistematizado, para que o professor acompanhe de forma contínua e efetiva seus alunos. 4.2 CRITÉRIOS DE ESCOLHA DOS MEIOS PARA ACOMPANHAR O DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Os critérios para a escola quanto aos meios utilizados para acompanhar o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos autistas fixaram-se nas caraterísticas e/ou interesses desses alunos. Nesse sentido, autores como Cunha (2011; 2013a) e Mantoan (2015) pontuam que o professor deve buscar saber o que o aluno está aprendendo em sala de aula, e assim, compatibilizar recursos e instrumentos com as características de expressão do aluno. A prática pedagógica deve ser realizada com base nos interesses peculiares do autista, conforme cosidera Cunha (2011, p. 56): “Se realmente quisermos construir com o nosso educando, atraentes situações de aprendizagem, não caberá em nosso trabalho nenhum modelo pedagógico que não parta dele”. Cunha (2011) e Orrú (2012) destacam que o ponto de partida para o trabalho pedagógico efetivo em sala de aula com os alunos autistas é conhecer o aluno, ou seja, conhecer seus interesses e suas características. À exceção de P7, os demais, professores participantes da entrevista evidenciaram que identificam as características e/ou interesses dos três alunos participantes da pesquisa. Com exceção do professor P7, todos os outros professores conseguiram pelo menos relatar uma caraterística de cada aluno. Algumas caraterísticas de A1 identificadas pelos professores foram: 65 O A1, por exemplo, tem uma coisa que acho interessante ele fala baixinho e quase você não o escuta (P1). O A1 é quietinho no cantinho dele o comportamento dele é assim quietinho é mais visual e quando está fazendo atividades mais lúdicas ele aprende, ele é mais criança (P2). O A1 é bem introspectivo (P3). Eu logo que o conheci eu peguei na mão dele e levei ele para fazer a minha aula de educação física e ele foi (P4). O A1 é um menino que gosta de brincar tem um caderninho de desenho, vários desenhos daqueles lutadores japoneses mangá (P5). Ele é extremamente calado. O A1 tem uma habilidade muito grande de desenho. O A1 é um menino que gosta de brincar tem um caderninho de desenho (P5). Hoje o A1 é mais falante (P6). A professora P2 percebe caraterísticas cognitivas. Os professores P1, P3, P4, P5 e P6 listam aspectos sociais, e a professora P5 identifica caraterísticas em relação ao interesse do aluno. Cabe destacar que esse aluno é descrito calado pelas professoras P2 e P5, já a professora P6 relata um aluno falante. Essa diferença de comportamento pode ser interpretada que, dependendo do professor, da dinâmica da aula, da interação entre professor-aluno, dentre outros fatores, o aluno assume um determinado comportamento na sala de aula. Algumas caraterísticas do aluno A2 identificadas pelos professores foram: Na última aula o que eu percebi do A2 ele estava lá e o meninos estavam pegando o lápis emprestado, interagindo (P1). A2 tem uns assuntos pesados, puxados mesmos. O que tem mais dificuldade é o A2 (P1). O A2 eu percebo que ele aprende quando eu explico a matéria quando eu falo. Também tem vídeo, quando eu passo na televisão, ele pega bem (P2). Já o A2 é tranquilão, ele é igual aos outros (P2). É bem quietinho, também é introspectivo (P3). Ele fica sozinho, mas interage. Ele interage. Me parece que é o jeito dele mas ele interage conversa com outros alunos (P4). Ele demora muito mais que os outros alunos para responder as questões.[A2] precisa de mais tempo para aprender do que os outros alunos (P4). 66 Na última aula o que eu percebi do A2 ele estava lá e o meninos estavam pegando o lápis emprestado com ele, interagindo (P5). Você tem que ter um pouquinho mais de atenção (P6). Os professores P1, P2, P3, P4 e P5 relatam características dos aspectos sociais, e os professores P1, P2, P4 e P6 também descrevem caraterísticas cognitivas desse aluno autista Conforme os professores, seguem as observações sobre o A3: Ele faz praticamente sozinho as atividades. A diferença é que ele já é muito grande, coloca aquele casaco chama atenção (P1). Ele tem uma certa dificuldade para se socializar com os alunos da sala (P2). Ele faz as atividades não tem dificuldade em interpretação (P3). A3 esse ano quase não fez a prática teve muitos problemas de todos os aspectos emocionais (P4). O que acontece com o A3 é que ele tem um mundo a parte. É complicado porque ele tem um amigo imaginário (P5). O A3 é mais na dele, eu dei aula para ele ano passado e hoje ele tá meio caído para os trabalhos que ele fez comigo (P6). Os professores P1, P3 e P6 identificam caraterísticas cognitivas no aluno A3. Já as professoras P2 e P5 descreveram caraterísticas relacionadas com as habilidades sociais. E a professora P4 destaca a dimensão afetiva. A caraterização desse aluno foi descrita pelos professores P1, P3 e P4 como potencialidades e pelos professores P2, P5 e P6 como déficits. Não há problema de os professores identificarem os déficits dos alunos, no entanto, é importante que as práticas pedagógicas não se limitem a esse aspecto, mas que se contemple também as potencialidades do aluno. Abaixo foi elaborado um quadro resumo com os meios que o professor utiliza para acompanhar o desenvolvimento e a aprendizagem do aluno com autismo. Quadro 9 - Meios que o professor utiliza para acompanhar o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos Professor Meios que o professor utiliza para acompanhar o desenvolvimento e aprendizagem do aluno P1 O A1 não interage, ele fica quietinho na dele. Avalio com exercícios em sala de aula. 67 P2 Ele não abre a boca se você não falar (com ele) mesmo quando você pergunta alguma coisa pra ele é difícil ele abrir a boca. Então, eu avalio com exercícios (atividades) que aí eu acompanho ele. Na verdade, ele só faz se eu tiver no pé dele, por meio de testes, caça-palavras que ele gosta muito. E ele é muito esperto. Caça-palavras cruzadinhas, eu percebi que esse raciocínio dele de ficar procurando as palavras, ele é muito bom nisso. Eu avalio nesse sentindo. Eu faço uma pergunta e a resposta está dentro do caça[palavra]. Ele faz provinha também. Uma prova adaptada, como ele não fala muito e raramente ele abra a boca. P3 Primeiro é a observação, geralmente, esses alunos sentam mais próximo da gente e a gente observa, né. E até o desenvolvimento das respostas nas atividades que eles vão fazendo, a própria prova, assim, eu observo muito. Vejo se ele está aprendendo ou não está. Dou uma olhada no caderno e vejo as respostas que ele está dando. P4 O A1 não falava com ninguém daqui da escola, não falava, ele simplesmente não falava. Eu logo no início que o conheci eu peguei na mão dele e levei ele para fazer a minha aula de educação física e ele foi P5 As aulas de artes são sempre, na maior parte, são aulas práticas (atividades), eu trabalho geralmente com desenho que é a minha área então eu deixo eles produzirem conforme eles conseguem. Na maioria da vezes, eles são muito tímidos. P6 Eu vejo (observação) o que eles produzem o que eles podem me falar... ou oralmente ou trabalho escrito (atividade)... Não é só o escrito que eu levo em conta. O que eles podem me passar. Fonte 14 - Elaboração da pesquisadora. Observando o quadro 9, percebe-se uma relação entre a escolha e os meios paraacompanhar o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos com autismo e suas caraterísticas e/ou interesses. Apenas P1, segundo sua fala, não conectou os meios com as características. No entanto, na observação feita em sala de aula, esse professor utilizou atividades e realizou um atendimento individual aos alunos. Esteban (2003) sugere instrumentos e procedimentos que deem visibilidade para os resultados das práticas pedagógicas. De igual modo, Fernandes e Viana (2009) entendem que o professor deve pensar em instrumentos/recursos e procedimentos que considerem as particularidades do aluno. 68 4.3 DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DE AUTISTAS: ALUNOS PARTICIPANTES O objetivo desta seção é apresentar evidências em que os alunos autistas se referem ao seu desenvolvimento e aprendizagem nos âmbitos social, afetivo e cognitivo na sala de aula. Nesse sentido, foi investigado o que esses alunos gostam de fazer no colégio, quais os professores de que eles mais gostavam e por que. Contudo, os autistas, na maioria das vezes, expressam suas percepções de maneira muito peculiar e específica. De acordo com Santos et al. (2013, p. 123), “pessoas com autismo apresentam características distintas das demais, devido à necessidade de uma mediação considerável para se comunicar, memorizar, ter atenção, contextualizar e desenvolver o raciocínio lógico e a linguagem”. Isso não quer dizer que elas não se sintam alegres ou tristes, mas significa que elas manifestam sentimentos e emoções de modo não convencional. Cabe destacar que nem sempre essa manifestação é claramente percebida pelas pessoas que com elas interagem. De fato, para P3: “A tristeza, eu não consigo perceber, mas a alegria eu consigo. Eles não deixam transparecer nenhum dos três. A alegria, às vezes, dá para perceber neles”. Quando se fala em aprendizagem, estão implícitas todas as formas de conhecimento, não se limitando tão somente aos conhecimentos acadêmicos, mas aos conhecimentos do cotidiano, abrangendo, inclusive, as ações de afeto e sentimento (ORRÚ, 2008). Nesse sentido, é importante um olhar mais cuidadoso e uma escuta atenta para se compreender os alunos, principalmente os alunos autistas. Dizer que esses alunos são insensíveis ou que não demonstram sentimentos não é correto; o que ocorre, é que muitas vezes, a maneira com que esses alunos demonstram sentimentos e emoções não é percebida ou entendida pelas outras pessoas. O aluno A1 relata sobre a professora P3: “Ela é legal”. O aluno de forma sucinta demonstra que gosta da professora também responde de forma objetiva sobre o professor P1: “Eu gosto dele e das aulas dele”. O aluno A3 também faz um comentário semelhante à professora P3: “Ela é boa”. 69 O aluno A2 relata que não gostar da matéria da professora P2 mas gosta da professora: “Da aula não, mas da professora, sim”. Os três alunos expressaram que gostavam de alguns professores e quando questionado o motivo os motivos foram: “Gosto [de História] porque é interessante, ele[P1] é legal” (A2). “Não gosto de artes. E pra mim a professora tanto faz” (A3). “Gosto mais ou menos da professora de português porque ela não me dá elogios. Ela só fala [tá] bem” (A2). Vygotsky (2001) considera que as interações entre as pessoas não estão só no processo de construção do conhecimento, mas ocorrem ao longo de todo o processo de desenvolvimento dos indivíduos, incluindo os modos de agir e pensar. Os relatos demonstram a importância dada pelo aluno ao professor. Este, muitas vezes, não consegue perceber claramente a repercussão das suas ações pedagógicas, mas o aluno consegue perceber e sentir os efeitos dessas ações. A prática pedagógica do professor marca aprendizagem dos alunos e a relação que estes estabelecem com o conhecimento. Os alunos interpretam as (re)ações dos professores e dão um sentido afetivo à própria aprendizagem, ao conhecimento que circula, à sua imagem enquanto pessoa e estudante (TASSONI; LEITE, 2010). Veja-se suas indicações: “Gosto dela (P2) porque quando eu termino as tarefas ela também me elogia” (A2). “Eu gosto dele (P1) e das aulas dele. A matéria que eu mais faço é a dele” (A3). “Ele (P1) me trata bem” (A2). “A única coisa que eu gosto nesse colégio são os professores” (A2). Os alunos com autismo evidenciaram diferentes interpretações a respeito dos modos de agir e de falar dos professores e a forma como tais formas marcam a relação que se estabelece entre os alunos e o conhecimento. Observa-se que a maneira como os professores tratam os alunos nas situações pedagógicas geram os sentimentos e emoções que repercutem no conhecimento cognitivo. Confere-se isso no depoimento de A2 a respeito de P2: “Ele me trata bem”. “Quando eu termino os deveres ele me elogia”. O professor P1 tem uma boa relação afetiva com A2, como por exemplo, o respeito ao aluno, reconhecendo seu esforço na realização das atividades propostas. Com isso aproxima o conhecimento científico do aluno. Com base no relato do aluno, foi elaborado o esquema abaixo. 70 Fonte: Elaboração da autora. Essa figura descreve um ciclo onde não há começo nem fim, mas uma relação de dependência entre afetividade, interação social e cognição. Não existe o mais importante, pois todos o são. Na sala de aula, a afetividade se concretiza, por exemplo, quando o professor se interessa pelo desenvolvimento do aluno, elogia o que ele faz e reconhece os seus esforços. Esse afeto aproxima o vínculo professor–aluno e proporciona espaço para a aprendizagem e o desenvolvimento. Cabe destacar que a prática pedagógica do professor P2 perpassa por todas essas dimensões. Muitos autores destacam a dificuldade que os autistas têm de interagir com os demais e de demonstrar seus sentimentos (BELIZÁRIO; LOWENTHAL, 2013; CUNHA, 2011b; RIESGO, 2013). Nessa pesquisa também foi evidenciado esse aspecto pelos professores P1, P2 e P4: “Ele tem dificuldade para se socializar com os alunos da sala” (P2). “Ele fica sozinho, mas interage. Ele interage. Parece que é o jeito dele, mas, ele interage conversa com outros alunos” (P4). No entanto, as pessoas podem não compreender ou compreender parcialmente, mas esses alunos possuem sentimentos e percebem o tratamento dado a eles. O trecho abaixo foi retirado da entrevista de A2: Pesquisadora: Dos professores que você tem qual você acha mais legal? Quais são os mais legais, não precisa ser um não. A2: P4 e P1. Pesquisadora: O que o P1 faz na aula que você acha legal? "Ele é legal." Interação social Dou conta de responder as questões. Conhecimento acadêmico "Ele me trata bem." Afetividade Figura 1 - Relação entre afeto, interação social e cognição 71 A2: Quando eu termino os deveres ele me elogia. Pesquisadora: Ele fala como com você? A2: Ele fala muito bem e parabéns. Pesquisadora: E você gosta? A2: sim Leite e Tassoni (2002) destacam o papel da interação social não apenas com relação ao intelectual do aluno, mas também no que se refere à personalidade, ao autoconceito e à autoestima. Desse modo, quando o professor consegue perceber a importância do afeto e do carinho, ele consegue planejar práticas pedagógicas mais efetivas para o desenvolvimento do aluno. Neste aspecto, destacaram-se os professores P1 e P2. Foi perguntado ao aluno o que ele gostava de fazer no colégio: “Gosto mais de jogar futebol com meus melhores amigos” (A2). “Gosto de educação física” (A2). “A única coisa que eu gosto nesse colégio são os professores e educador social” (A3). Pela fala dos alunos, estar junto dos professores e colegas é importante. O aluno A2 destaca o brincar com os colegas e aluno A3 destaca o professor e o educador social como motivo de gostar do colégio. Del Prette e Del Prette (2009) afirmam que as habilidades sociais são essenciais para o desenvolvimentodas pessoas. Os relatos de A2 e A3 vão ao encontro de um desenvolvimento integral. Diversos estudos (GOMES; MELLO, 2010; LEITE; TASSONI, 2002; RIBEIRO, 2010; TASSONI; LEITE, 2010) apontam como fundamental a afetividade na relação educativa, sendo necessário ao professor ampliar o olhar e perceber o quanto a afetividade está imbricada no processo educativo e sua repercussão no desenvolvimento do aluno. Cunha (2011; 2013a) salienta que a relação de afetividade do aluno autista com seu professor é fundamental para o seu desenvolvimento. O autor destaca o quanto é importante para o aluno identificar os próprios sentimentos e os dos outros. Durante as entrevistas os alunos relataram aspectos sobre seu próprio comportamento e suas caraterísticas. É muito difícil falar comigo (A1) Eles vão me irritar e eu vou “bater em todo mundo”. Esse é um dos meus problemas se alguém irritar eu bato em tudo. (A1). Por que eu sou tímido demais (A3). Tem horas que eles puxam um pouco de conversa e eu respondo normal (A3). 72 Pelos relatos, esses alunos conseguem perceber seu comportamento e reconhecer algumas das suas caraterísticas. Desse modo, reconhecem suas diferenças e similaridades em relação aos demais alunos. Quando os alunos A1, A2 e A3 relatam sobre suas as próprias emoções e suas características eles conseguem fazer uma previsão de como agir em algumas circunstâncias, principalmente no ambiente escolar. 4.4 DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DE AUTISTAS: PROFESSORES Para identificar as percepções dos professores participantes sobre o desenvolvimento e aprendizagem dos seus alunos autistas, perguntou-se o que eles entendiam sobre o desenvolvimento integral desses alunos. As respostas foram: Desenvolvimento integral, desenvolvimento integral é o todo. Tem que desenvolver todas as habilidades que você percebe que aquele aluno consegue ir. Então é o todo, não é só ler, escrever, mas a capacidade de desenvolver problemas de raciocínio lógico... Não só em sala de aula, mas ter a capacidade de discernir coisas da vida pessoal da vida com os colegas. Eu creio que seja isso (P2). Eu acho que seria o desenvolvimento dele em todos os aspectos, o aspecto social, pedagógico (P3). Eu vejo de desenvolvimento dos nossos alunos em geral não é quantitativo é qualitativo do ponto que o aluno iniciou e aonde ele chegou, que engloba tudo (P4). Se ele tem uma relação com os outros colegas para mim é integral (P5). Eles com a deficiência que eles têm, não têm o total desenvolvimento. Então temos que ver o eles estão conseguindo fazer no momento. Se eles conseguem no momento fazer a+a ou a² já é um grande passo (P6). O desenvolvimento integral é um processo que ele está fazendo em sala. É uma parte importante (P7). Com base nesses relatos, temos três maneiras de se interpretar o desenvolvimento. O quadro 10 mostra essas possibilidades. Quadro 10: Percepções dos professores sobre o desenvolvimento de seus alunos autistas Professores Percepções P1 Não identificadas. 73 P2, P3, P4 Entendem que o desenvolvimento compreende as várias dimensões do ser humano. P5 Considera uma dimensão humana como prioritária. P6 Entendem que a pessoa com autismo não alcança o desenvolvimento integral. P7 Outros. Fonte 15: Elaboração da pesquisadora. As professoras P2, P3 e P4 relacionaram o desenvolvimento de uma forma mais ampla. Isso significa que o processo educacional, além do desenvolvimento cognitivo privilegiado no modelo educacional tradicional, também deve, segundo eles, incluir outras dimensões humanas. Essas professoras estão em sintonia com o PPP da escola pesquisada ao entenderem que a educação de qualidade ocorrerá se o aluno vivenciar experiências que conduzirão ao seu desenvolvimento integral como pessoa. Portanto, confirmam Vygotsky (2004) e Bronfenbrenner (1989), para quem o desenvolvimento humano é o resultado das interações entre o indivíduo e seu contexto social, destacando que tal desenvolvimento não pode ser compreendido separado do contexto sociocultural isolado em um conhecimento. Já a professora P5 percebe o desenvolvimento a partir de uma só dimensão, a social. Como se constata, essa percepção ainda permanece na visão educativa em que o desenvolvimento do aluno com autismo se daria exclusivamente pelo convívio entre eles e os demais alunos. A escola tem potencial para ir além, isto é, o enfoque da inclusão é alcançar um desenvolvimento mais amplo (MANTOAN, 2015). Esta professora parece perceber o desenvolvimento e a aprendizagem de seus alunos autistas em uma perspectiva homogênea, na medida em que considera uma grande conquista quando eles conseguem chegar ao patamar dos demais. Fica claro um posicionamento por parte da professora de um enfoque comparativo entre os alunos. Esse ponto de vista de educação se remete aos aspectos da integração. Mesmo com dez anos da publicação das diretrizes da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008) e de diversos estudos (CUNHA, 2015; GLAT, PLETSCH 2011; OLIVEIRA; PLESTCH, 2014; OMOTE; OLIVEIRA; BALEOTTI, 2005; OMOTE, 2004; PLETSCH, 2009; SERRA, 2010), parece não ter chegado à prática cotidiana de todas as escolas. 74 Certamente, evidencia-se um problema de formação. Diversos estudos têm reafirmado a necessidade da melhoria da formação de professores como condição essencial para a promoção eficaz para uma escola inclusiva (BOSA; GOLBERG, 2007; FERNANDEZ; VIANA, 2009; SILVA; BALBINO, 2015; PIMENTEL, 2012; PLETSCH, 2009; VITALIANO, 2007). Quando se educa em vista desse desenvolvimento é preciso considerar a especificidade de cada aluno, sejam ele deficiente ou não. Mantoan (2015) e Cunha (2011; 2013a) são enfáticos na necessidade de considerar as particularidades e potencialidades de cada um. Isto implica que toda prática pedagógica deve ter início “no” aluno. De acordo com o entendimento de Cunha (2011, p. 101), “quando acreditamos no indivíduo, no seu potencial humano e na sua capacidade de reconstruir seu futuro, o incluímos, e nossa atitude torna-se o movimento que dará início ao seu processo de emancipação”. Essa emancipação é construída em processos educativos que visam ao desenvolvimento integral do ser humano; o respeito aos saberes do aluno e a superação da prática da transferência de conhecimento (FREIRE, p. 2011). Em relação ao desenvolvimento integral, a professora P6 explica que: Eles [alunos] com a deficiência que eles têm, não tem o total desenvolvimento. Então temos que ver o eles estão conseguindo fazer no momento. Se eles conseguem no momento fazer a+a ou a² já é um grande passo (P6). A professora P4 fala da dificuldade que enfrenta: Eu gostaria de falar da ajuda que nos professores precisamos, empurraram a inclusão na escola e nós não recebemos todo o suporte estrutural, psicológico e da prática mesmo pedagógica com uma variedade tão grande de deficiências. Então, eu me sinto bastante podada em ajudar 100% essa criança, visto que eu não sou ajudada, nem auxiliada, nem capacitada para tal. Mittler (2003) e Mantoan (2015) ressaltam que os professores do ensino regular ainda relatam que não estão preparados para ensinar a todos os alunos. O relato da professora P4 pode revelar a necessidade de um curso de capacitação, ou ainda, receio de ensinar ao aluno autista. A preocupação da professora P4 em atingir 100% de eficiência no ensino de seu aluno com TEA pode indicar que o contexto educacional em que ela desenvolve seu trabalho esteja exigindo resultados incompatíveis com o suporte recebido da escola. 75 Nesse sentido, Silva (2013, p. 29) salienta que Há uma sobrecarga de responsabilidades que o educador por muitas vezes não consegue executar com tamanha propriedade que lhe é exigido. Isso se refleteno distanciamento entre o que se espera pela sociedade e o que realmente os educadores estão enfrentando em sala de aula. Dessa forma, ainda se tem uma educação para alunos com autismo com enfoque em um limitador de desenvolvimento e com o enfoque comparativo não o considerando um ser em desenvolvimento. Não há garantia de que a formação irá prepará-lo para lidar com todas as situações que surgirem no processo educacional, mas uma formação de qualidade cria possibilidades para que o professor saiba onde buscar auxílio sempre que necessitar. Nesse sentido, propiciar condições para a capacitação e reflexão do professor, vai além de uma escola igualitária como explica Mantoan (2015), nem se limita apenas ao cumprimento da lei; ela também deve ser justa e promover o desenvolvimento integral do aluno. 76 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS As considerações aqui apresentadas não são de cunho determinístico nem tampouco fórmulas matemáticas com respostas exatas, mas constituem alguns pontos ou elementos evidenciados nessa pesquisa. Buscou-se analisar aspectos do processo educacional que contribuem para o acompanhamento do desenvolvimento integral de alunos com autismo no ensino fundamental. Desse modo, esse estudo partiu com duas ideias por parte da pesquisadora: “todos os alunos têm direito a uma educação de qualidade” e “a escola deve contribuir com o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos com autismo”. E a partir dessas concepções surgiram os objetivos da pesquisa. Foi preciso sensibilidade na análise das entrevistas para revelar as percepções dos alunos com autismo entrevistados de forma a dar voz para eles. Muitos estudos e pesquisas têm alunos com autismo como participantes no cenário escolar, mas trazendo entrevistas e suas percepções são poucas. Escutar o que esses alunos têm a dizer é a melhor forma de planejar as práticas pedagógicas. Nesse sentido, a partir dos pressupostos da abordagem histórico-cultural centrada em Vygotsky, percebeu-se que a realidade educacional, muitas vezes impede aos alunos com autismo a se desenvolverem plenamente, devido a conclusões e/ou concepções preconceituosos acerca da sua aprendizagem, da sua interação e da sua capacidade cognitiva. Dessa maneira, foi preciso identificar os possíveis meios utilizados para acompanhar o desenvolvimento integral dos alunos com autismo. Os resultados constatados apontam que os professores utilizam mais a observação e atividades em classe para acompanhar a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos com autismo em sala de aula. Também foram citadas provas adaptadas, atividades lúdicas, observação de comportamentos e atitudes, expressão oral e pesquisa extraclasse. No entanto, percebeu-se pela análise das entrevistas feitas que todos os meios identificados não são utilizados de forma organizada, sistematizada e nem continuamente, o que dificulta acompanhar o desenvolvimento do aluno em sala de aula. Outra proposta dessa pesquisa foi identificar critérios de escolha dos possíveis meios para acompanhar o desenvolvimento integral de alunos com autismo. Com base na identificação dos meios de acompanhar o aluno foi possível investigar como o professor escolhia esses meios. Dos sete professores seis relacionaram nas entrevistas 77 caraterísticas ou interesses dos alunos no momento de selecionar os meios para acompanhar os alunos com autismo. Alguns recursos/meios foram específicos da área de atuação do professor, de maneira a demonstrar o desenvolvimento do aluno. Por exemplo, para a professora de educação física o que ela mais observava eram o comportamento e as atitudes, já para a professora de artes eram os desenhos. Essa pesquisa também teve como proposta identificar as percepções de alunos com autismo sobre o seu desenvolvimento e aprendizagem. Os resultados foram que para esses alunos os aspectos socioafetivos eram muito importantes. Eles relataram que gostavam dos seus professores e que um dos motivos para ire ao colégio era devido aos professores. Esses alunos destacaram que gostavam de elogios, de ser bem tratados, e da escola como tal. Também foi proposto identificar as percepções dos professores sobre o desenvolvimento e aprendizagem desses alunos. Com base nas entrevistas, os professores afirmaram que tinham dificuldades de compreender seus alunos com autismo, mesmo assim três dos setes professores acompanhavam o aluno de forma integral. Esses três professores também foram citados pelos alunos como professores com a maior afinidade com eles. Ter afetividade em ensinar não implica excluir a formação científica de forma séria do professor (FREIRE, 2011). A afetividade, a interação professor-aluno e a cognição são aspectos inseparáveis no processo educativo, no desenvolvimento humano. Mesmo com a entonação e velocidade da fala constante durante as entrevistas, a pesquisadora conseguiu sorrisos quando perguntou a um dos alunos se ele tinha ensinado ao Messi a jogar futebol. O aluno respondeu com um sorriso, e com a bochecha rosada disse que não. Os alunos apresentaram-se como quaisquer outros adolescentes. Os resultados quanto ao objetivo geral da pesquisa, era analisar aspectos do processo educacional que contribuem para acompanhar o desenvolvimento integral de alunos com autismo no ensino fundamental, foram assim constatados: Os professores utilizam vários meios para acompanhar o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos com autismo, alguns desses recursos também são usados na avaliação de aprendizagem como, por exemplo, a prova adaptada, as atividades em sala de aula e as pesquisas, outros não são utilizados como 78 avaliação da aprendizagem: a observação, o comportamento e atitudes, a expressão oral e as atividades lúdicas. Os professores utilizam meios para acompanhar o desenvolvimento do aluno de forma descontínua. Os professores selecionam esses meios com base nas caraterísticas e interesses dos alunos. Os alunos com autismo percebem o aspecto socioafetivo nos professores e consideram esse aspecto como um dos motivos que os fazem gostar da escola. Em se tratando de desenvolvimento e aprendizagem de alunos, estejam eles com autismo ou não, é essencial conhecer o aluno. Esse olhar é um diferencial significativo na prática pedagógica do professor. E para que ocorram condições reais para o desenvolvimento e aprendizagem do aluno, o acompanhamento é ponto-chave. Constata-se que, apesar do aumento do número de pesquisas com a temática inclusão dos alunos autistas na escola regular, há a necessidade iminente da realização de estudos que envolvam especificamente as práticas pedagógicas em diálogo com as propostas didáticas em prol do desenvolvimento integral dos alunos com autismo. 79 REFERÊNCIAS AIMI, D. R. S.; TAMBORIL, M. I. B. A avaliação na educação especial: instrumento para promoção de aprendizagem. In: CONPE – CONGRESSO NACIONAL DE PSICOLOGIA ESCOLAR E EDUCACIONAL: caminhos trilhados, caminhos a percorrer, 2011, Maringá/PR. ABRAPEE, 2011. AINSCOW, M.; PORTER, G.; WANG, M.. Caminhos para as escolas Inclusivas . 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São Paulo: Ática, 2002. 90 APÊNDICES APÊNDICE A Roteiro da análise documental Identificar: 1. Formas de avaliação cognitiva (prova, seminários, trabalhos), afetivas e socioculturais; 2. Atividades culturais; 3. Atividades que remetam ao bom relacionamento entre alunos e professores; 4. Atividades motoras; 5. Atividades socioculturais; 6. Atividades artísticas; 7. Atividades lúdicas. 91 APÊNDICE B Roteiro de observação em sala de aula 1. O professor permite a participação do aluno com TEA na sua aula? 2. Existe uma relação afetiva entre o professor e aluno? 3. Professor e alunos trocam ideias? 4. Os trabalhos desenvolvidos possibilitam acompanhar o desenvolvimento do aluno? 5. A presença de conteúdos não planejados favorece a avaliação do desenvolvimento? 6. O aluno com TEA pergunta e argumenta com os colegas? 7. Os alunos pedem a opinião do aluno com TEA? 8. Existem afinidades entre os alunos e os colegas? 9. A professora faz perguntas para instigar a participação dos alunos? 10. A professora dá oportunidades aos alunos para responderem questões? 11. A professora procura relacionar a atividade com o cotidiano do aluno. 12. A interação entre os alunos ocorre de forma espontânea? 13. O professor faz algum tipo de adaptação em relação ao currículo para o aluno? i) ( ) adaptação das atividades. Qual? ii) ( ) adaptação da forma de explicar. Qual? iii) ( ) adaptação física. Qual? 92 APÊNDICE C Roteiro de entrevista do professor Nome do professor: Disciplina: Nome do aluno: Caracterização do professor: 1. Idade: 2. Quanto tempo você trabalha com alunos com necessidades educacionais especiais-NEE? 3. Formação inicial: _____________ 4. Formação continuada: ________________ 5. Formação específica (NEE): ( ) TEA ( ) Outras Aspectos conceituais: 6. O que você avalia no aluno? 7. Como é o aluno na sala de aula? 8. Como o aluno aprende? 9. Você já percebe o aluno integrado com os colegas? 10. Como você percebe que um aluno está se desenvolvendo? 11. Em termos de aprendizagem, o aluno apresenta alguma peculiaridade/ diferença para aprender? 12. Como você percebe o que o aluno está sentindo? 13. Como é o relacionamento do estudante com os colegas na sala de aula? 14. O que você entende por desenvolvimento integral de um aluno? 15. O que poderia ser feito para que o aluno se desenvolvesse de uma forma mais ampla? 16. Gostaria de acrescentar mais alguma coisa sobre o tema da avaliação do aluno com TEA? 93 APÊNDICE D Roteiro de entrevista com os alunos com TEA Nome do aluno: Nome do professor: 1. Você gosta das aulas do professor? E do professor? 2. Aulas te ajudam? Em quê? Quando? 3. As aulas te ajudam a resolver problemas fora da escola? Como? 4. O que você consegue fazer hoje que no início do ano você não fazia? 5. Seus colegas costumam de chamar para brincar? 6. Você sabe para que serve uma avaliação? 7. O que é melhor? Prova, portfólio, trabalho individual, trabalho em grupo, apresentação de atividade? Por quê? 94 APÊNDICE E TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Senhor(a) professor(a), Você está sendo convidado(a) a participar do projeto: Desenvolvimento do aluno com TEA na sala de aula sob responsabilidade da mestranda Monalisa de Oliveira Miranda Redmerski. O objetivo desta pesquisa é: Como avaliar o desenvolvimento do aluno com TEA, está pesquisa justifica-se, pois este estudo contribuirá para a melhoria do ensino dos alunos com TEA. O(a) senhor(a) receberá todos os esclarecimentos necessários antes e no decorrer da pesquisa e seu nome não aparecerá, sendo mantido o mais rigoroso sigilo por meio da omissão total de quaisquer informações que permitam identificá-lo(a). O senhor(a) pode se recusar a responder qualquer pergunta que lhe traga constrangimento, podendo desistir de participar da pesquisa em qualquer momento sem nenhum prejuízo para o(a) senhor(a). A sua participação será da seguinte forma será observado uma aula por você ministrada e será feita uma entrevista. Esta entrevista será gravada e posteriormente transcrita pela pesquisadora. O tempo estimado para sua realização: 20 minutos para entrevista e 50 minutos de observação de uma aula Os resultados da pesquisa serão divulgados na Instituição Universidade Católica de Brasília podendo ser publicados posteriormente. Os dados e materiais utilizados na pesquisa ficarão sobre a guarda da pesquisadora. Este projeto foi Aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UCB, número do protocolo ________. As dúvidas com relação à assinatura do TCLE ou os direitos do sujeito da pesquisa podem ser obtidos no CEP/UCB pelo telefone: (61) 3356-9784. O CEP da UCB está localizado na sala L02, no endereço Campus I - QS 07 – Lote 01 – EPCT – Águas Claras – Brasília – DF. Este documento foi elaborado em duas vias, uma ficará com o pesquisador responsável e a outra com o voluntário da pesquisa. ______________________________________________ Nome / assinatura ____________________________________________ Pesquisador Responsável Nome e assinatura Brasília, ___ de __________de _________ 95 APÊNDICE F TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Senhor(a)________________________________________ responsável pelo aluno __________________________________ Você está sendo convidado(a) a participar do projeto: Desenvolvimento do aluno com TEA na sala de aula sob responsabilidade da mestranda Monalisa de Oliveira Miranda Redmerski. O objetivo desta pesquisa é: Como avaliar o desenvolvimento do aluno com transtorno do espectro do autismo-TEA. Está pesquisa tem o intuito em contribuir para o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos com TEA na sala de aula. O seu nome e do aluno não aparecerão em nenhum documento, sendo mantido o mais rigoroso sigilo por meio da omissão total de quaisquer informações que permitam identificá-los. O aluno pode se recusar a responder qualquer pergunta que lhe traga constrangimento, podendo desistir de participar da pesquisa em qualquer momento sem nenhum prejuízo para o(a) senhor(a) ou para o aluno. A participação do aluno será da seguinte forma: será observado três aulas que o aluno esteja na sala de aula e será feita uma entrevista com o aluno. Esta entrevista será gravada e posteriormente transcrita pela pesquisadora. O tempo estimado para sua realização: 20 minutos para entrevista e 50 minutos de observação para cada aula. Os resultados da pesquisa serão divulgados na Instituição Universidade Católica de Brasília podendo ser publicados posteriormente. Os dados e materiais utilizados na pesquisa ficarão sobre a guarda da pesquisadora. As dúvidas com relação à assinatura do TCLE ou os direitos do sujeito da pesquisa podem ser obtidos no CEP/UCB pelo telefone: (61) 3356-9784. O CEP da UCB está localizado na sala L02, no endereço Campus I - QS 07 – Lote 01 – EPCT – Águas Claras – Brasília – DF. Este documento foi elaborado em duas vias, uma ficará com o pesquisador responsável e a outra com o voluntário da pesquisa. ______________________________________________ Nome do responsável pelo aluno/ assinatura ____________________________________________ Pesquisador Responsável Nome e assinatura Brasília, ___ de __________de _________