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God Of War_ Paternidade em jogo

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God of War: Paternidade em jogo
Gustavo Bezerra de Carvalho
Objetivo geral:
Identificar como God of War (2018), jogo da Sony Santa Monica, representa a paternidade.
Objetivos específicos:
1) Conceituar percepção de paternidade;
2) Descrever o enredo, as características e a relação dos personagens Kratos e Atreus dentro
da trama;
3) Comparar como a paternidade é utilizada na indústria de jogos e como o game em análise a
aborda;
PALAVRAS-CHAVE: Paternidade, Jogos, Indústria, God of War, Pai, Filho.
Introdução
Pais modernos têm a percepção de possuírem uma maior responsabilidade pelo
cuidado diário dos filhos e passam mais tempo com eles do que passavam os pais de gerações
anteriores (Lamb, 1997; Pleck, 1997). É baseada nessa percepção que TOTILO (2010)
observa a tendência da indústria de colocar o jogador no papel de pai, pois, isso o motiva a
cuidar e buscar a figura que é representada como sua prole. A partir disso, este artigo se
propõe a analisar como o game de 2018, God of War reproduz essa tendência e ao mesmo
tempo inova ao abordar esse papel. Serão apontados aspectos narratológicos e ludológicos que
contribuem para a representação da figura paterna na obra.
Justificativa
Como TOTILO (2010) explicitou em seu artigo “The Daddening of Video Games”, a
indústria da época utilizava a estratégia de colocar o jogador como figura paterna como um
modo de engajamento com a narrativa e apego aos personagens coadjuvantes, aproveitando a
percepção de ligação parental para tornar a tarefa de cuidar de um personagem coadjuvante
envolvente e interessante ao invés de um estorvo como era comum aos jogos com esse tipo de
proposta. Este artigo pretende mostrar a continuidade desta estratégia e como ela foi adaptada
em um dos jogos de maior destaque do ano de 2018, que através de uma nova proposta de
narrativa e jogabilidade se propôs a renovar uma franquia de sucesso.
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Referencial Teórico
Percepção de paternidade
A percepção da figura paterna tem se alterado gradualmente com a passagem do tempo
e a dinâmica da sociedade, de acordo com os autores Piccinini e Silva , “até poucas décadas, o1
modelo predominante de pai privilegiava o papel de provedor financeiro, permanecendo
distante do espaço familiar e dos cuidados dos filhos. Permanecia, no entanto, simbolicamente
importante para os filhos como representante da autoridade e da lei” (Giffin, 1998; Lamb,
1999; Lewis & Dessen, 1999 apud PICCININI; SILVA, 2007, pág 562). De acordo com
BALANCHO (2004) mais recentemente, entretanto, a figura paterna é mais envolvida no
processo de socialização dos filhos e os próprios homens que desempenham esse papel se
sentem responsáveis pela educação e formação geral de seus filhos.
Modelos familiares diversos também favoreceram o aumento do protagonismo paterno
na educação das crianças. Famílias que não contam com a mãe passam a delegar parte das
responsabilidades, tradicionalmente atribuídas à figura feminina, ao pai, famílias em que a
mãe é o principal provedor financeiro e onde o pai passa mais tempo em casa também acabam
privilegiando o fortalecimento do laço paternal e, consequentemente, a importância afetiva da
figura do pai no imaginário dos filhos.
O enredo
A premissa básica do novo God of War é colocar o jogador na jornada de Kratos e seu
filho, Atreus, para levar as cinzas de sua falecida esposa para o topo da montanha mais alta e
assim cumprir seu último desejo. No sétimo jogo da franquia principal, a Sony Santa Mônica,
mostra como o protagonista lidou com os eventos cataclísmicos de sua última jornada e agora
encara o desafio da paternidade e de como ensinar seu filho a sobreviver em um mundo hostil
e, ao mesmo tempo, lidar com suas emoções. Quando o próprio Kratos foi moldado por uma
sociedade que o incentivava a suprimir as suas emoções e seguir apenas por sua fúria, a tarefa
de conduzir seu filho por um rumo diferente se mostra complexa.
É do contraste que surge a dinâmica entre as personalidades do Kratos e Atreus,
enquanto o espartano mostra um comportamento preciso e focado, frio aos elementos que se
desviam ao seu objetivo e brutal no combate, o garoto mostra uma natureza gentil e altruísta,
1 Estudantes do curso de pós graduação de psicologia da Universidade de campinas, que também
desenvolveram o artigo “O envolvimento paterno durante a gestação. Psicologia: Reflexão e Crítica”
em 2004.
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profundamente empático e que tenta ajudar a todos em seu caminho. Entretanto, pai e filho
compartilham uma característica chave, que é o dilema de como usar sua fúria e não ser
dominado por ela.
A relação entre o protagonista e seu filho inicialmente é fria e distante, se deparando
com a responsabilidade de criar a criança sem a ajuda da mãe, Kratos tenta se aproximar e
guiar seu filho enquanto esconde seu passado brutal e sua natureza divina. Lidar com o
temperamento de Atreus é especialmente desafiador, tendo em vista que o próprio espartano
se deixa frequentemente levar pela raiva. Para vencer a distância e o sentimento de rejeição da
criança, que o afasta de Atreus, Kratos é obrigado a reconhecer que é a vergonha do seu
passado e de sua natureza que o impede de criar um vínculo com o garoto.
Para chegar ao objetivo, Pai e filho têm de cooperar e colocar seus dilemas de lado
para sobreviver ao mundo hostil e ao assédio de um inimigo implacável que os persegue. É ao
aceitar o que fez e entender que seu filho não é uma repetição do seu destino que Kratos
assume o papel de pai e vê nessa missão, a oportunidade de criar alguém melhor do que ele
mesmo e de se desatrelar dos fantasmas que o assombram.
O retrato da paternidade dentro de God of War.
Seguindo a tendência identificada no fim da década passada na indústria de games por
TOTILO (2010) God of War (2018) põe o jogador no papel de um pai que deve cumprir o
último desejo de se sua falecida esposa enquanto luta para se aproximar de seu filho. Nessa
nova jornada os desenvolvedores mostram uma nova faceta de um personagem já consagrado
ao longo de seis jogos, Kratos, antes movido por fúria e vingança deve agora exercer seu
papel de pai e guiar seu filho Atreus.
Na narrativa o espartano tenta instruir o garoto a como sobreviver e lidar com a
mesma natureza agressiva que guiou Kratos a seu destino trágico. É evidente na narrativa a
dificuldade de aproximação entre pai e filho, em grande parte causada pela vergonha que o
protagonista tem de si mesmo, e como isso o leva a rejeitar seus próprios traços no filho e a
esconder sua verdadeira natureza até que a farsa se torne insustentável.
Kratos tenta mostrar a Atreus como utilizar seus dons e controlar sua natureza da
única forma que conhece, com disciplina e foco, mas a índole altruísta e curiosa da criança
não se rende totalmente aos modos rígidos do pai que, por isso, tem de lidar pacientemente
com as situações e questionamentos do garoto ao longo da jornada.
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Durante a viagem o comportamento de Atreus e Kratos não é constante. O pai vai se
tornando mais efetivo e flexível e a mudança no garoto é ainda mais evidente, o que só
reforça sua individualidade ímpar entre coadjuvantes do modelo de paternidade nos jogos.
Atreus se mostra questionador e em determinado momento demonstra falta de maturidade
para lidar com sua natureza divina, se torna arrogante, agressivo e cruel e essa mudança
demanda uma intervenção da parte do pai, que exerce a disciplina com firmeza.
A paternidade no game não é um simples recurso de engajamento narrativo, Atreus
não está lá apenas para motivar Kratos, o motivo inicial da jornada não é o garoto e a
jogabilidade não se baseia em “proteger um indefeso” como TOTILO (2010) observou que
muitos games faziam ao utilizar esse recurso narrativo. O garoto é uma peça essencial ao
longo da aventura, com suas próprias características e habilidades, o intelecto afiado e uma
sensibilidade ímpar completam a força bruta e foco inabalável do pai. É das diferenças que
surgem as oportunidades de crescimento e aprendizagem

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