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, 
308 Doenças do sistema digestivo 
ANÁLISE DO FLUIDO RUMINAL 
Carla Lopes de Mend 
J , A onça ose ugusto Bastos Ati onso 
A microflora e a fauna presentes no rúmen encontram-se 
ºJ'b. b. d b num delicado eqm 1 no em seu am tente geran o eneficios nutricio . . . d ~ . 1 na1s essenciais para a pro uçao amma , no entanto pequenas alterações 
composição alimentar podem acarretar variações no pH ruminai eu na 
significativa modificação na população bacteriana e dos protozoártª 
resultando num quadro de indigestão. os, 
Na década de 50 foi introduzido o exame do fluido rumin 1 
como auxiliar no diagnóstico clínico das enfermidades digestivas d: 
bovinos (3). s 
A análise do fluido ruminai é um processo simples, que 
fornece ao veterinário informações importantes sobre as funções dos 
compartimentos gástricos. Esta análise tem por objetivo reconhecer 
ou excluir distúrbios da digestão bioquímica dos pré-estômagos ou 
refluxo do conteúdo do abomaso para o interior do rúmen e estabelecer 
a etiologia das indigestões decorrentes das fermentações anormais (3). 
O exame laboratorial do líquido ruminai é essencial para o 
diagnóstico das alterações da digestão nos pré-estômagos. Muitos 
testes podem ser realizados a campo, permitindo o estabelecimento do 
tratamento e o acompanhamento terapêutico, bem como a adoção de 
medidas preventivas (5). 
O líquido ruminai pode ser coletado por punção do rúmen, 
através de uma agulha ou por meio de sonda oro-esofágica, sendo esta 
mais indicada para evitar o risco de contaminação peritonial. Por outro 
lado, a coleta por sonda deve ser rápida para não ocorrer contaminação 
por saliva, que pode modificar o pH e a consistência da amostra ( 4,9). 
Após a colheita, a amostra deve ser avaliada imediatamente, 
ª fim de minimizar os efeitos do resfriamento e da exposição ao ar 
sobre ª atividade dos protozoários e sobre o pH. Para a detenninação 
?e alguns testes químicos como o cloreto a amostra pode pennanecer 
a te · ' _mperatura ambiente por até 9 horas ou por até 24 horas em 
r~fü_geração. Este tempo de conservação pode ser empregado quando 0 
liquido rumi l fi ·i· na or uti izado para transfaunação (3). 
Análise do fluido ruminai 
309 
:Exame físico 
É a primeira etapa da análise do flu i·d . b ~ . . o consiste na o servaçao da 
cor da cons1stenc1a, do odor e do tempo d 1- 'd d d . ~ ' ~ (3 5) e ª 1v1 a e e sed1mentaçao e flotaçao , . 
Cor. Conforme o tipo de alimentação a cor pode variar do verde 
oliva ao verde acastanhado, cinza ou castanh o fl ·d d b · • l ' · o. m o e ovmos 
com ac1dose act1ca tende a ter uma coloraça~o ci·nz d l ·t . . . a-ver e e1 oso e nos 
animais co~ ~toma rummal prolongada ou decomposição da ingesta ou 
ambos, o hqu1do pode apresentar uma coloração verde enegrecida (5). 
Co~sistência. O fluido ruminai normal é levemente viscoso e 
se t~m~ mais aquoso nos ca~os de acidose ruminai, em que há seqüestro 
de hqmdo par~ o compartimento ruminai. Nos casos de timpanismo 
esp~m~so o flmd~ a~re~enta consistência densa, ou seja, espumosa. Na 
av~haçao _da cons1stencia deve-se ter cuidado com a contaminação pela 
sahva, p01s a mesma tende a aumentar a viscosidade do fluido (4). 
Odor. O odor característico do fluido ruminai é denominado de 
aromático. Nos estados patológicos pode variar de inodoro (microflora 
inativa) a ácido (acidose ruminai), pútrido (decomposição protéica) ou 
amoniacal (intoxicação poruréia), dependendo da enfermidade digestiva 
que esteja comprometendo o animal (4). Em algumas situações este odor 
pode estar relacionado ao tipo de substrato administrado, muitas vezes 
de forma errônea pelo proprietário do animal, na tentativa de reverter 
um problema digestivo, sendo relativamente freqüente a análise do 
fluido com odor de ácido acético (vinagre), querosene, chás caseiros 
etc. 
Tempo da atividade de sedimentação e flotação 
Esta prova tem por finalidade a avaliação rápida da atividade da 
microflora, devendo ser realizada logo após a colheita. Normalmente, 
a maior parte das partículas finas de alimento em suspensão, inclusive 
grandes infusórios começa a assentar lentamente, enquanto os ' . componentes mais grosseiros e fibrosos são levados para cima por 
bolhas de gás resultante da fermentação bacteriana. O te~po ~ntre ª 
colocação do fluido num recipiente cilíndrico e o final da P~1me1,:ª fa~e 
de sedimentação e fl.otação é de 4 a 8 minutos em casos de d1~estao pr~-
ventricular normal. Em um fluido inativo observamos sedu~e~taç:~ 
muito rápida e fl.otação ausente, sendo este achado caractenstico 
acidose láctica ruminai ou na anorexia prolongada (3,4). 
JIO 
é •e caprina atribuiu-se a ausência de flotaç~ Na esp CI . , . , . ao e 
v u ~11 y u v - - -
. - em animais sad10s, as diferenças filogenettcas do rúh-, sedimentaçao · . . •11enJ 
. 1 especial do omaso entre bovinos e caprinos ( 1 O). ret1cu o e em 
Exame Químico . . 
PH. Varia de acordo com o tipo de alimento fornecido , 1 . 1· e o 
intervalo de tempo decorrido desde a u t~ma a 1mentação. A anorexia 
prolongada e a contínua ingestão de saliva resultam na ascensão dos 
valores de pH (6). Pode ser mensurado, p~r p~m~tro ~u por fita (papel 
indicador), não havendo diferença estat1st1ca s1gmficat1va ( 1 O). 
o valor fisiológico do pH do fluido ruminai pode variar de 
5,5 a 7,4, estando diretamente relacionado à dieta a que o animal está 
adaptado. Os valores do pH variam numa faixa mais elevada (próximo 
à neutralidade) quando há ingestão de alimentos bem estruturados, ricos 
em fibra bruta e/ou em proteínas, quando comparados aos valores do pH 
do fluido de animais que estão adaptados à ração rica em carboidratos 
(2,3,6). 
A contaminação com a saliva no momento da colheita pode ser 
minimizada colhendo-se wna amostra de fluido superior a 300ml (5). 
Nos casos de acidose ruminai, nos quais há anorexia prolongada, 
o pH tende a elevar-se, podendo situar-se dentro da normalidade. A 
inativação da flora microbiana, por exemplo, na intoxicação por uréia 
e nos processos de putrefação, pode resultar em alcalose ruminai. Os 
animais a pasto que ingerem forragem de má qualidade podem, também, 
apresentar pH alcalino (6). 
Prova da Redução do Azul de Metileno (PRAM). O potencial 
redox (redução-oxidação) do líquido ruminai é uma característica 
bioquímica que reflete o metabolismo fermentativo anaeróbio da 
população bacteriana. Uma avaliação indireta do potencial redox 
pode ser obtida pela determinação do tempo necessário para que as 
bactérias presentes no líquido ruminai reduzam o azul de metileno, o 
que normalmente se dá entre 3 e 6 minutos (5). 
A ~x_ecução deste teste é simples, podendo ser realizada a 
campo. Ad1c1ona-se 1ml de solução a O 03% de azul de metileno a 
um tubo c~ntendo 20ml de fluido rumin~l (tubo teste) e a mistura é 
homo?eneizada por inversão. Em outro tubo controle adiciona-se 20ml 
de flmd A a1· ' ' · 0
• v ia-se O tempo que decorre para que o tubo teste adquira 
a mesmac 1 ~ ~ 
d 
O oraçao que o tubo controle indicando que houve a reduçao 
o azul de mef! · ' , do 
_ 1 eno contido na amostra. No tubo teste sera observa 
um anel de caloraça~ 1 d m o 
ar (5,7). 
0 azu ª a na superfície que fica em contato co 
r '-HUll~\,,, U V llLI IU U l UHHIJül J) J 
O tempo requerido para a prova está diretamente relacionado ao 
tipo de alimentação ingerida pelo animal. Em animais criados a pas~o 
orrnalmente permanece entre 3 a 6 minutos, enquanto que em arumais 11 
ubmetidos à alimentação rica em concentrados não excede a um pouco 
~ ais de um minuto. Ambos os períodos estão situados dentro da faixa 
de normalidade para a espécie bovina. Os animais com quadro clínico 
de anorexia; que estão em jejum prolongado ou com algum processo de 
indigestão, tendem a apresentar aumento no tempo de redução do azul 
de metileno, que pode ultrapassar a 15 minutos (3 ,5). 
Coloração de Gram. A coloração de Oram pode ser útil nos 
casos suspeitos de acidose ruminai. O fluido ruminai normal tem um 
predomínio de bactérias Oram-negativas. Após oconsumo excessivo 
de carboidratos facilmente digeríveis ocorre proliferação da população 
de estreptococos e lactobacilos, acarretando uma inversão da flora 
bacteriana, na qual predominam cocos e bacilos Oram-positivos (5,8). 
Infusórios. A avaliação do número e atividade dos protozoários 
no líquido ruminai é um indicador sensível da normalidade deste fluido. 
o número de protozoários presentes na amostra depende da composição 
da ração, do momento da alimentação e do local no interior do rúmen 
em que foi colhida a amostra. A população de infusórios varia de_ 105 
a 106/ml sendo mais abundante nos animais que ingerem rações ncas ' . em concentrados. São diferenciados em infusórios pequenos, médios e 
grandes(3). . 
Os protozoários, anaeróbios estritos, que produz~m enz1n:1as 
que degradam os polissacarídeos, são habitantes normais do fl~ido 
ruminai do animal sadio embora suas funções específicas não esteJam ' - . completamente esclarecidas e sua presença, aparentemente, nao seJa 
um pré-requisito para a atividade digestiva normal. Sob o de 
vista clínico, a importância dos protozoários está na _su~ sens1bihdade 
às anormalidades do conteúdo ruminai, sendo um mdicador da b~a 
funcionalidade digestiva do rúmen. Todos os protozoários são sensíveis 
a pH inferior a 5,0 (3,5). A • 
No fluido podemos observar, em exam~ dir~~o, entre lamma e 
lamínula com aumento de 100-400x, protozoános c1hados e flagelares, 
sendo os,primeiros mais abundantes e importantes (5). _ 
Na avaliação rotineira dos infusórios observa-se a pro~~rçao 
, . ) rt . densidade e a motihdade entre infusórios vivos (moveis e mo os, a (+) 
que são classificadas em abundante ( +++ ), moderada ( ++ ), e~c~ssa 
. ~ tamanho dos protozoanos, que 
e ausente; e a classificaçao quanto ao .d 1 geralmente , d" des Num fim o norma , ' podem ser pequenos, me 10s e gran • 
312 Doenças do sistema digestivo 
observa-se maior quantidade dos infusórios pequenos, seguidos dos 
médios e em menor quantidade os grandes. Sob condição ambiental 
ruminai adversa os infusórios grandes, por serem mais sensíveis, 
desaparecem primeiro, seguido dos médios e por último os pequenos 
(3). 
Teor de cloretos. A determinação desta variável é indicada 
nos casos em que há refluxo do conteúdo abomasal, contendo ácido 
clorídrico, para os pró-ventrículos. Neste caso há aumento nos valores 
do teor de cloretos no fluido ruminai (% 30 mEq/L ). Esta prm fornece 
informações sobre a existência de indigestão secundária causada 
por moléstia abomasal, dilatação do ceco ou por obstrução do fluxo 
intestinal. É uma prova de grande auxílio para o clínico de ruminantes, 
muitas vezes determinante para o diagnóstico definitivo. A avaliação 
dos níveis de cloreto no fluido ruminai é de fácil e barata execução, 
sendo realizada por método colorimétrico, com o emprego de kits 
comerciais (1 ). 
Outros testes, menos utilizados na rotina clínica, são a digestão 
da celulose, a fermentação da glicose, a redução do nitrito, a acidez 
titulável e a determinação dos ácidos graxos voláteis, do ácido láctico e 
da concentração de amônia (3,5). 
REFERÊNCIAS _ 
1. Afonso J.A.B., Mendonça C.L. 2000. Distúrbios digestivos dos 
ruminantes. Anais do 5º Enconvet, Aracajú, CRMV-CFMV, p.233-
247. 
,... ,, _ 1'.T A 1 004 F~tudo clínico do suco de rúmen de.-hovinos