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Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO PROBLEMA 4 – INTERMEDIÁRIA: VÍRUS DA IMUNODEFICIÊNCIA HUMANA (HIV) : O vírus da imunodeficiência humana (HIV) é um tipo de retrovírus de RNA de replicação característica pela transcrição de seu material genético em DNA, que se incorporam ao genoma da célula hospedeira. Na família Retroviridae há sete gêneros, sendo que o HIV-1 e o HIV-2 fazem parte do Lentivirus. Esses vírus são linfotrópicos, ou seja, apresentam preferência por parasitar linfócitos, apresentando alta taxa de replicação, o que pode resultar em morte celular em todas as etapas da infecção. A síndrome da imunodeficiência humana adquirida (AIDS), nome dado à forma de maior gravidade associada à infecção por HIV, teve seus primeiros casos relatados no início da década de 1980, momento no qual houve grande estigmatização contra a população homossexual masculina, grupo bastante afetado pelo vírus em decorrência de comportamentos de risco para sua propagação (tendência que se reduziu com a progressão da epidemia). Na América Latina, o Brasil é o país com maior número de indivíduos vivendo com o HIV ou com AIDS, porém a incidência para o vírus tem se estabilizado, girando em torno de 17,8 casos a cada 100 mil habitantes em 2019. O HIV consiste num patógeno sexualmente transmissível, se valendo de lesões na mucosa vaginal ou anal e da prática de sexo oral como portas de entrada para o organismo. O risco de transmissão é ainda maior em indivíduos afetados por outras ISTs e em pessoas vivendo com HIV (PVHIV) com alta carga viral. O uso de preservativos durante as relações sexuais de forma adequada consiste numa importante forma de prevenção para o contágio por HIV, além de auxiliar a frear a disseminação de outras ISTs. O compartilhamento de agulhas e seringas também representa um comportamento favorável à transmissão do vírus, principalmente dentre usuários de drogas intravenosas. Graças à via de transmissão hematológica, são aplicados testes de triagem sorológica em bancos de sangue, o que, associado à triagem clínica, reduziu o risco de contaminação. Profissionais de saúde também podem ser alvo da transmissão sanguínea do HIV, principalmente por meio de acidentes com materiais perfurocortantes, justificando a existência de protocolos internos de descarte e encaminhamento para a profilaxia pós-exposição (PEP) frente a possíveis situações de risco O HIV é um vírus envelopado com duas fitas simples de RNA, o que favorece sua replicação gênica acelerada. O núcleo viral é formado pelas proteínas p24 (de fácil detecção, utilizada com alvo no diagnóstico da infecção), p7/p9, o material genético já descrito, e por três enzimas virais de suma importância (protease, transcriptase reversa e integrase). Englobando essa estrutura encontra-se uma matriz de proteína p17. Por fim, o envelope do vírus é formado, dentre outras estruturas, por glicoproteínas gp120 e gp41, cruciais para a entrada celular. No genoma proviral do HIV é possível observar os genes gag, env e pol, responsáveis pela codificação de proteínas do vírus (os dois primeiros associados à estrutura viral, e o último, às enzimas). Seus produtos devem ser clivados pela protease Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO viral de forma a compor estruturas ativas e maduras. Alguns outros genes importantes são: Tat (transativador): seus produtos intensificam a capacidade de proliferação viral; Nef: age estimulando a quinase intracelular, impedindo a ativação de células imunes, sendo fundamental para a continuidade da infecção; Vpr: é responsável por estimular a expressão de proteínas virais e a migração nuclear do vírus, que promove a interrupção do ciclo celular em G2. Essa fase permite que o DNA do HIV seja transcrito de forma mais intensa; Vpu: é uma fosfoproteína específica do HIV que favorece a degradação de linfócitos TCD4 recém-sintetizados e estimula a liberação de novos vírions pelas células parasitadas. Representação esquemática do HIV A integração de DNA viral é decorrente da presença de regiões denominadas como LTR (long term repeat), formadas por 3 domínios: U3 (presença de sítios de ligação para fatores de transcrição celulares diversos), U5 e R, no qual se encontra a sequência TAR na qual se liga a tat, iniciando assim a transcrição viral. A variabilidade genética encontrada no HIV é produto da ação diminuída da polimerase viral, permitindo assim a perpetuação de mutações em seu código genético, principalmente das estruturas que compõem o envelope viral. Toda essa situação dificulta a resposta imune do organismo ao vírus. ENTRADA E REPLICAÇÃO VIRAL: O início da infecção pelo HIV ocorre a partir da interação entre o vírus e uma célula humana susceptível (normalmente linfocitária). A estrutura viral se adere à membrana plasmática do linfócito T CD4 por meio da gp120 e penetra no citoplasma a partir da interação da gp41 com receptores de citocinas. Com essa fixação, a membrana de ambas estruturas se fusiona, o que permite a liberação do material genético e das proteínas virais. Células dendríticas não são infectadas pelo HIV, mas representam o seu principal reservatório extracelular, promovendo o contato com linfócitos presentes tanto em linfonodos quanto na própria mucosa. A presença de sítios de interação com lecitinas permite que o HIV infecte outros tipos celulares sem o receptor CD4, principalmente do epitélio da vagina ou do ânus. Mecanismo de adesão e penetração celular pelo HIV A transcrição reversa é iniciada no citoplasma com a presença de um primer (normalmente o RNA transortador de lisina), dando origem ao cDNA (DNA compleentar), que se mantém latente em linfócitos T CD4 em repouso e, naquelas estruturas em fase Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO proliferativa, se funde ao núcleo do hospedeiro pela ação da integrase. Com o sequestro celular, se inicia a expressão de genes patogênicos, mediada tanto em organelas específicas quanto no próprio citoplasma. O mRNA viral é transcrito inicialmente de forma lenta, com foco nos reguladores do ciclo viral, as proteínas tat, rev e nef. Com o aumento da concentração de tat, a célula eleva a velocidade de transcrição, expandindo as fitas de RNA mensageiro, que serão degradadas no retículo endoplasmático rugoso em mais proteínas regulatórias, que se dirigem ao citoplasma por meio da inibição da lise reticular associada à proteína rev. Mecanismos regulatórios da transcrição gênica e de tradução de proteínas do HIV Após a produção segmentada dos diversos componentes do vírus, a fase final da replicação promove o processamento e a organização de suas cadeias proteicas, com a formação de gp120 e gp41 no complexo de Golgi e de proteínas percussoras gag e gag-pol em ribossomos livres, ambos os produtos sendo rediecionados por quimiotaxia à membrana plasmática, de onde são liberados para o meio extracelular. Fora dos linfócitos T CD4, os vírus passam por um processo de maturação, no qual proteases clivam algumas proteínas percussoras em suas formas ativas, remodelando assim a estrutura do HIV, que se torna infectante. A replicação viral exacerbada é responsável por iniciar um processo progressio de disfunção de linfócitos T CD4 (efeito citopático), mecanismo a partir do qual se instalam a maior parte das complicações observadas na AIDS, como as infecções oportunistas. Esse efeito, no entanto, é lento, de forma que a contagem sérica dessas células não se altere bruscamente. Assim, percebe-se que a destruição celular imune está também correlacionada a outros processos, como a citotoxicidade mediada por anticorpos, a autoimunidade e a formação deaglomerados sinciciais de células por apoptose. Esse último mecanismo se instala a partir da degradação e alteração da permeabilidade da membrana plasmática, promovendo reações oxidativas deletérias. Além disso, o HIV inativa a Bcl-2, proteína antiapoptótica, enquanto incentiva a expressão de substâncias lesivas tanto na célula- alvo quanto em suas vizinhas. Formas de degradação linfocitária inducidas pela infecção por HIV A produção de novos linfócitos T CD4 é reduzida, uma vez que a infecção alcança a medula óssea, de forma que a proteína tat iniba os processos de divisão celular. Além de todos os impactos à formação linfocitária, a função dessas células também é afetada, com diminuição da produção de Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO IL-2, menor diferenciação celular, com tendência para o fenótipo Th0, produuzindo citocinas comuns a ambos os clones Th1 (IL-2, TNF-α e IFN-γ) e Th2 (IL-4, IL-5, IL-10 e IL-13). Representação da paogênese do vírus HIV, associada às fases de progressão da doença Os linfócitos T CD8, citotóxicos, são afetados por meio de lesões diretas, por apoptose, mediada pela interação com as células T CD4, que expressavam indutores de morte celular ou pela ação viral em receptores específicos (nas células não infectadas). Essas estruutras também apresentam atividade reduzida, afetando sua capacidade de lise de estruturas alteradas. As céulas NK apresentam diminuição de atividade proporcional ao aumento da carga viral, com redução de sua capacidade funcional e numérica. Por sua ampla dispersão no organismo, os macrófagos também representam alvos importantes para o HIV e, quando infectadas, sofrem com depleção da ação fagocitária, que interfere na capacidade de lise antigênica, e desregulação na produção de citocinas. Esse processo também está relacionado ao desenvolvimento de infecções oportunistas no futuro do acometimento viral. Há também comprometimento aos neutrófilos, que se tornam menos capazes de induzir o estresse oxidativo, a degranulação e a fagocitose/lise baceriana. Por fim, os linfócitos B também são afetados, havendo uma resposta de hipergamaglobulinemia frente à infecção por HIV. No entanto, esses anticorpos são pouco eficazes, e os plasmócitos são ativados de forma intensa e não direcionada, Tal fenômeno é resltado tanto da ação direta do HIV quanto do acometimento de células T CD4, que auxiliam (fisiologicamente) na ativação destas primeiras. Principais alterações imunológicas associadas à infecção por HIV Um dos mecanismos pelos quais o HIV consegue se dispersar entre as células do sistema imune é a opsonização viral, que Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO facilita a conexão do vírus à linfócitos e leucócitos diversos, que apresentam receptores próprios a essas estruturas antigênicas. Além disso, a ativação dessa cascata leva à liberação de anafilotoxinas, mediadores pró-inflamatórios capazes de acionar macrófagos, já descritos como vulneráveis ao HIV. Capacidade da resposta imune por fração leucocitária na cronologia da infecção por HIV QUADRO CLÍNICO E FASES DA INFECÇÃO POR HIV: A infecção aguda pelo HIV se inicia após cerca de 3 semanas do contaro com o vírus, persistindo por 14 dias, regredindo de forma espontânea. Essa etapa apresenta sintomatologia genérica, semelhante a várias outras infecções virais, como febre, perda de peso, adenopatia, hepatoesplenomegalia, faringites, rash, dor muscular e cefaleia, dentre outros. Graças à essa apresentação, o paciente raramente busca auxílio médico, e, quando o faz, a infecção por HIV nem sempre está incluida nas possibilidades de diagnóstico. Assim como os sintomas, as alterações laboratoriais iniciais são inespecíficas e temporárias, com presença de linfopenia ou linfocitose, linfócitos atípicos, plaquetopenia e aumento das enzimas hepáticas. A viremia é elevada, e há uma redução na contagem de linfócitos T CD4. Após 2 a 12 semanas dessa manifestação inicial, a resposta imune do paciente se fortalece, sendo possível conter momentaneamente a progressão da replicação do vírus, com queda da carga viral e aumento da contagem de linfócitos. É estabelecido um ponto de equilíbrio entre a morte linfocitária e a renovação dessa fração de leucócitos. Nessa etapa, denominada çatência clínica, a maior parte dos portadores do vírus encontra-se assintomática, mas em alguns indivíduos é observada linfadenopatia generalizada. A duração desse período é intimamente dependente da manutenção dos achados laboratoriais do ponto de equilíbrio. Quando a destruição celular volta a suerara capacidade de reposição, sintomas constitucionais começam a se mostrar evidentes, como dermatite seborreica, reativação do herpes-zóster e monilíase oral, demarcando o início do período de crise, após 5 a 10 anos da infecção inicial. Sintomas constitucionais e a evolução da depleção de linfócitos (> 200/mm³ já indica AIDS) Caso a capacidade de reação imunológica do paciente siga em queda, o quadro rapidamente evolui para a AIDS, síndrome da imunodeficiência adquirida, marcada pelo aparecimento de infecções oportunistas e pela contagem de células T CD4 < 200/mm³. Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO Contraposição entre a viremia por HIV e a contagem de linfócitos durante o curso da infecção A denominação “infecções oportunistas” está associada tanto à maior propensão ao desenvolvimento de quadros parasitários, bacterianos e virais, quanto ao surgimento de neoplasias, dentre as quais se destacam o sarcoma de Kaposi (câncer que causa lesões na pele [principalmente nariz, lábios e garganta], nos gânglios linfáticos e em órgãos internos) e linfomas cerebrais. Principais quadros clínicos oportunistas associados à AIDS Sarcoma de Kaposi no nariz de um pacinete com infecção por HIV/AIDS A maior parte dos pacientes infectados por HIV apresentam evolução típica, seguindo o perfil supracitado, porém há uma fração de portadores denominados portadores rápidos (6% do total), que desenvolvem a AIDS em menos de 3 anos. Outro grupo também se destaca, o de progressores lentos (5% dessa população), que, de forma oposta aos primeiros, não manifestam a evolução da infecção mesmo após mais de 10 anos. DIAGNÓSTICO: O diagnóstico da infecção por HIV se dá por meio da detecção laboratorial de anticorpos específicos anti-HIV, por sorologia, ou pela identificação direta viral, seja por meio de hemocultura ou amplificação molecular, sendo o primeiro método o mais indicado. Curva de detecção de marcadores diagnósticos para o HIV ao longo das primeiras 16 semanas O teste de Western-Blot é um modelo imunoenzimático capaz de detectar anticoorpos específicos por meio da análise da aglutinação entre o alvo da pesquisa e uma base de nitrocelulose impregnada pelo antígeno. Para a detecção do HIV, os possíveis resultados são: Amostra reagente: presença de ao menosduas bandas coradas de gp160, gp120, gp41 e p24; Amostra não reagente: ausência total de bandas; Amostra indeterminada: padrões alheios aos mencionados anteriormente, requerindo a realização de outro teste. Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO Representação do processo de realização do teste de Western-Blot Frente à possibilidade de soroconversão recente, é indicado que uma nova amostra seja coletada após 30 dias do primeiro teste, utilizando o mesmo método ou outra forma de detecção. Caso todas as etapas para a detecção do HIV-1 (tipo viral mais comum) tenham sido executadas e apresentem resultado negativo, frente à suspeita clínico-epidemiológica para a infecção por HIV/AIDS, é recomendada a aplicação de testes para HIV-2.A detecção de anticorpos anti-HIV em crianças < 18 meses não significa infecção, uma vez que pode ocorrer a transferência de antiorpos maternos pela placenta. Nesse grupo, o diagnóstico só é confirmado na presença de RRNA viral. Testes rápidos podem ser utilizados como métodos de triagem para pacientes com suspeita de infecção por HIV, uma vez que sua sensibilidade e especificidade são elevadas. Mesmo assim, resultados positivos devem ser confirmados sorologicamenre. O uso de testes rápidos é útil principalmente em situações cuja resposta seja determinante para a implementação de medidas profiláticas urgentes, como anteriormente ao parto ou em caso de acidentes biológicos. Com a confirmação do diagnóstico, o paciente deve ser informado de forma individual e acolhedora, ofertando apoio emocional e orientações acerca da doença e do tratamento a ser implementado, reforçando a necessidade de adesão terapêutica e de informação aos parceiros sexuais do indivíduo. A anamnese e o exame físico que seguem o diagnóstico devem ser bastante detalhadas,identificando possíveis fatores que potencializem o acometimento viral, como infecções prévias por tuberculose, por exemplo, ou hábitos de risco, como o uso de drogas de abuso e o estado vacinal incompleto. Protocolo para o diagnóstico de infecções por HIV ANTIRRETROVIRAIS: O tratamento de pacientes com infecção por HIV/AIDS é baseado no uso de antirretrovirais, que têm como objetivos a supressão sustentada da replicação viral, a redução da morbimortalidade e a extensão da sobrevida do portador. Os adeptos dessa terapêutica também Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO apresentam melhorias na qualidade de vida, com recuperação da função imunológica e diminuição da capacidade de transmissão do vírus. Espera-se que a carga viral esteja abaixo dos limites de detecção em até 12-24 semanas após o início do regime medicamentoso. Recomenda-se o tratamento com antirretrovirais para todos os pacientes HIV-positivos, sintomáticos ou assintomáticos, com contagem de linfócitos T CD4 <350/mm³. Atualmente, podem ser encontradas seis classes de antirretrovirais, a saber: Inibidores nucleosídeos/nucleotídeos da transcriptase reversa (INTR) – Abacavir, Didanosina, Estavudina, Lamivudina, Tenofovir e Zidovudina: são a base da terapia antirretroviral, sendo utilizados junto a outras diversas classes de medicamentos, normalmente em pares formulados conjuntamente, reduzindo assim a carga diária de comprimidos para o paciente. O mecanismo de ação desses fármacos consiste na inibição competitiva da transcriptase reversa viral, com a inserção do medicamento na cadeia de DNA suprimindo os sítios de ligação dessa enzima. Dentre os feitos colaterais destacam-se a toxicidade mitocondrial e a reação consequente de acidose lática e comprometimento à função hepática. Inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa (INNTR) – Delaverdina, Efavirenz, Etravirina, Nevirapina e Rilpivirina: esses tipos de fármacos se ligam diretamente à transcriptase reversa do HIV, inibindo a atividade da DNA-polimerase viral sem que seja necessária a fosforilação e interação do medicamento com a cadeia de material genético. Os efeitos colaterais associados a esses compostos são exantemas cutâneos e distúrbios gastrintestinais, bem como possíveis interações medicamentosas decorrentes da competitividade pelo citocromo P450, onde ocorre seu metabolismo. Inibidores da protease (IP) – Atazanavir, Darunavir, Indinavir, Fosamprenavir, Lopinavir, Nelfinavir, Ritonavir, Saquinavir, Tipranavir: esses compostos impedem que as preoteínas percussoras de gag e pol sejam convertidas em suas formas ativas, que estimulam o brotamento do HIV. Assim, o vírus mantém-se em seu estágio imaturo, não infectante. Não há necessidade de ativação intracelular. Os fármacos pertencentes a essa classe estão associados à ocorrência de alterações genotípicas virais específicas, reduzindo assim sua efetividade, o que impede a monoterapia. De forma geral, os efeitos colaterais correspondem a náuseas leves/moderadas e dislipidemia, decorrente de alterações no padrão de distribuição de gordura corporal (obesidade central e aspecto cushingoide). Há também possibilidade de perturbações na função cardíaca, evidentes ao ECG. Inibidores de entrada e fusão - Enfuvirtida, Maraviroque: tais medicamentos permitem a inibição do acoplamento e penetração celular do vírus em diversas etapas, como a modulação da conformação de gp120 (fixação à membrana), a ligação com receptores de quimiocinas CCR5, e a expressão de gp41 (fusão das membranas plasmáticas). Seus principais efeitos colaterais podem ser representados por irritação do sítio de injeção e manifestações sistêmicas de Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO intensidade diversa, como náuseas, cefaleia e tonturas. Inibidores da integrase de transferência de filamento (INTF) - Dolutegravir, Elvitegravir, Raltegravir: a ação desses medicamentos ocorre a partir da inibição da etapa final de integração entre o DNA viral ao núcleo da célula do hospedeiro. A tolerância normalmente é elevada, com efeitos colaterais comuns sendo representados por cefaleia, náusea e, de forma branda e menos frequente, alterações neuropsiquiátricas. Pontos de ação dos antirretrovirais no ciclo de vida do HIV O tratamento antirretroviral (TARV) tem taxa de sucesso mais elevada quando implementado em esquemas simples, com menor incidência de efeitos adversos, de forma a potencializar a adesão terapêutica. Assim, a primeira prescrição fornecida a pacientes não-tratados consiste na associação de dois INTR associados a um INNTR. Os INTR podem ser substituídos por um inibidor de protease intensificado com uso de ritonavir (IP/r), cuja ação é modulada pela interação de alta afinidade entre o ritonavir e o citocromo P450, permitindo a administração de doses menores em intervalos amplos. Os medicamentos escolhidos para esse esquema primário são a a lamivudina (3TC) e o tenofovir (TDF), e um INTF, representado pelo dolutegravir (DTG). Os principais efeitos colaterais associados a essa combinação de medicamentos estão associados à função renal do indivíduo, que se torna ainda mais relevante quando há o uso simultâneo de outras medicações com impacto à saúde dos néfrons. Principais esquemas típicos de TARV empregados atualmente O dolutegravir (DTG) apresenta alta potência, barreira genética contra mutações, administração diária única e poucos efeitos adversos, o que garante uma terapia segura. No entanto, seu uso é contraindicado durante a gestação ou se há suspeita de gravidez, pois pode intensificar o risco de malformações fetais. Esse medicamento deve ser administrado junto à suplementação de ferro e cálcio (ou acompanhado por alimentos), e sua utilização pode causar o aumento da concentração sérica de metformina, que deve ter Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO sua dose ajustada peara manutenção do controle glicêmico. Mães vivendo com HIV podem fazer uso de efavirenz (EFV) como substituto do DTG, com baixo risco de toxicidade e posologia favorável com dose única diária. Como desvantagens inserem-se risco para resistência em tratamentos primários e a incapacidade de resistir a variações no código genético viral. Em pacientes com contraindicações ao uso de TDF/3TC, esse primeiro fármaco pode ser substituído pelo abacavir (ABC), porém sua implementação só deve ser realizada em pacientes com resultado negativo para o alelo HLA-B*5701, que é associado a reações de hipersensibilidade. Outra associação comum é a zidovudina + lamivudina (AZT/3TC),que possui eficácia e segurança comparáveis com os esquemas anteriores, sendo normalmente bem tolerada e encontrada sob a forma de apenas um comprimido, facilitando a adesão. Os efeitos adversos associados ao AZT estão associados a alterações metabólicas, como hiperlactatemia e acidose lática, e hematológicas, o que justifica a substituição medicamentosa frente a casos de anemia ou neutropenia. Terapêuticas antirretrovirais alternativas em adultos A falha terapêutica pode ocorrer tanto por parâmetros virológicos, que implicam na seleção de vertentes virais resistentes aos antirretrovirais e na não manutenção da carga viral indetectável (qualquer valor > 400 cópias/mL após 24 semanas ou superior a 50 cópias/mL em 48 semanas); imunológicos, associados à queda de células CD4 superior a 3%; ou clínicos, marcados pela piora do estado clínico do paciente ou pelo aparecimento de doenças oportunistas após 4 meses da implementação da TARV. A detecção de aumento da carga viral deve ser confirmada por ao menos mais dois exames antes da troca terapêutica, com um intervalo mínimo de 4 semanas após doenças ou vacinas. O surgimento de infecções oportunistas em fases precoces do tratamento pode ser sinal da síndrome de reconstrução imune, caracterizada por respostas inflamatórias a quadros de evolução, até então, subclínica. Ainda que a falta de adesão seja o principal motivo associado à falha terapêutica, esta também pode ocorrer pela resistência viral aos medicamentos, por disfunções na absorção intestinal, interações com outros fármacos ou estado avançado da doença. Se a não adesão for fruto de problemas com a tolerabilidade aos fármacos, alguns medicamentos podem ser prescritos como forma de reduzir os efeitos adversos, como antidiarreicos ou anti-histamínicos. A troca do princípio ativo deve respeitar a mesma classe farmacológica e potência do composto anterior. A genotipagem do HIV pode representar um método adjuvante para a escolha adequada de novos esquemas terapêuticos frente ao insucesso primário. Esse exame detecta mutações nos genomas do vírus que o Júlia Figueirêdo – FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO torna resistente a alguns antirretrovirais, podendo ser realizados em pacientes com viremia mínima de 1000 cópias/mm³. Esse teste pode ser indicado, de forma prévia ao tratamento, para: Infecções por parceiro em uso de TARV (detecção de mutações iniciais); Gestantes HIV-positivo; Crianças infectadas por HIV; Coinfecção entre tuberculose e HIV.