Prévia do material em texto
ARTRITE REUMATOIDE - A artrite reumatoide (AR) é um distúrbio inflamatório sistêmico que pode afetar diversos tecidos e órgãos: pele, vasos sanguíneos, coração, pulmões e músculos, mas ataca principalmente as articulações, produzindo uma sinovite proliferativa e inflamatória não supurativa que em geral progride para a destruição da cartilagem articular e anquilose das articulações. - A predisposição genética, ambiental e autoimunidade desempenham papéis importantes no desenvolvimento, progressão e cronicidade dessa doença. - As mulheres são três a cinco vezes mais afetadas do que os homens. Ela é mais comum entre 40 e 70 anos de idade, mas nenhum grupo etário está imune. MORFOLOGIA ● Articulações: - As mais graves complicações morfológicas se manifestam nas articulações. - A princípio, a sinóvia se torna edemaciada, espessada e hiperplástica, transformando seu contorno liso num contorno coberto por franjas bulbares delicadas. - As características histológicas incluem: (1) infiltração do estroma sinovial por um denso infiltrado inflamatório perivascular composto por agregados linfoides (maioria de células CD4+ T helper), células B, plasmócitos e macrófagos. (2) maior vascularização devido à vasodilatação e angiogênese, com depósito de hemossiderina superficial; (3) agregação de fibrina cobrindo porções da sinóvia e flutuando no espaço articular como grãos de arroz; (4) acúmulo de neutrófilos no fluido sinovial e ao longo da superfície da sinóvia, mas não é usual alcançar profundidade no estroma sinovial; (5) atividade osteoclástica no osso subjacente, permitindo que a sinóvia penetre no osso formando erosões justarticular, cistos subcondrais e osteoporose; (6) formação do pannus → O pannus é uma massa de sinóvia e estroma sinovial consistindo em células inflamatórias, tecido de granulação e fibroblastos sinoviais, que crescem sobre a cartilagem articular e provocam erosão. Neste momento, após a cartilagem ter sido destruída, o pannus une os ossos apostos para formar uma anquilose fibrosa, que eventualmente ossifica e resulta em anquilose óssea. - A inflamação dos tendões, ligamentos e às vezes da musculatura esquelética adjacente com frequência acompanha a artrite. ● Pele: - Nódulos reumatoides são as lesões cutâneas mais comuns. Ocorrem em cerca de 25% dos indivíduos afetados. - Geralmente aqueles com doença grave, e surge em regiões da pele sujeitas à pressão, incluindo a face ulnar do antebraço, cotovelos, região occipital e área lombossacral. - É menos comum se formarem nos pulmões, medula, pericárdio, miocárdio, valvas cardíacas, aorta e outras vísceras. - Os nódulos reumatoides são firmes, indolores e arredondados; na pele eles surgem no tecido subcutâneo. - Microscopicamente, possuem uma zona central de necrose fibrinoide circundada por um bordo proeminente de histiócitos epitelioides e inúmeros linfócitos e plasmócitos. - Apresentam várias formações nodulares com necrose fibrinoide central, envolvida por células epitelioides em paliçada e, mais externamente, por tecido de granulação. A zona de necrose contém restos de tecido conjuntivo, grande quantidade de lgG, fator reumatoide e complemento. Nódulo reumatoide subcutâneo com uma área de necrose (topo) circundada por uma paliçada de macrófagos e células inflamatórias crônicas dispersas . ● Vasos sanguíneos: - Os indivíduos afetados com doença erosiva grave, nódulos reumatoides e altos títulos de fator reumatoide estão em grave risco para o desenvolvimento de síndromes vasculíticas. - O envolvimento de artérias pequenas e médias é similar ao que ocorre na poliarterite nodosa, exceto que a AR preserva os rins. - Frequentemente, segmentos das pequenas artérias, como os “vasa nervorum” e as artérias digitais são obstruídos por uma endarterite obliterante, resultando em neuropatia periférica, úlceras e gangrena. PATOGENIA - Acredita-se que a artrite reumatoide é desencadeada pela exposição de um hospedeiro geneticamente suscetível a um antígeno artritogênico, resultando na eliminação da autotolerância imunológica e reação inflamatória crônica. - Desse modo, uma artrite aguda se inicia, mas ela é a continuidade da reação autoimune, com a ativação de células T helper CD4+ e a liberação local de mediadores inflamatórios e citocinas que por fim destroem a articulação. ➢ Susceptibilidade genética: - Principal componente que contribui para a patogenia da artrite reumatoide. - Alelos específicos de HLA-DRB1 parecem estar associados à artrite reumatoide e esses alelos compartilham uma sequência comum de aminoácidos na terceira região hipervariável da cadeia β, que é designada como o epítopo comum. - Outro gene associado à artrite reumatoide é o PTPN22, que codifica a proteína fosfatase tirosina, participa da ativação e controle das células infl amatórias, incluindo as células T. ➢ Artritogênio ambiental: - O artritogênio ambiental que pode ser o iniciador da doença permanece incerto. - Os agentes microbianos, incluindo o vírus Epstein Barr, retrovírus, parvovírus, micobactéria, Borrelia, Proteus mirabilis e Mycoplasma foram associados, mas nenhum deles mostrou-se significante. - Recentemente, as proteínas citrulinadas (proteínas modificadas por conversão enzimática de arginina em citrulina, muitas delas sendo fibrinas), formadas no corpo (especialmente em pulmões de fumantes), foram associadas com a patogênese da artrite reumatoide. ➢ Autoimunidade: - Uma vez que a sinovite tenha iniciado, uma reação autoimune – na qual as células T desempenham um papel essencial – é responsável pela natureza destrutiva crônica da artrite reumatoide. - O antígeno que induz essa reação não foi identificado de modo preciso. - Apesar disso, o efetor CD4+ ativado e células T de memória aparecem no interior de articulações afetadas precocemente. - As células TH são importantes na reação inflamatória, porque recrutam neutrófilos e monócitos. As células TH1 também podem contribuir para a reação inflamatória. - Cerca de 80% dos indivíduos com atrite reumatoide têm autoanticorpos para a porção Fc dos IgG autólogos (fatores reumatoides). Estes são na sua maioria anticorpos IgM, mas podem ser de outras classes e associam- se entre si (RA-IgG) para formar complexos no soro, fluido sinovial e membranas sinoviais. - Embora não seja um fator causador da doença, os complexos imunes circulantes são marcadores da atividade de doença. - O fator reumatoide, entretanto, não está presente em alguns indivíduos com a doença (soronegativo) e algumas vezes é encontrado em outros estágios das doenças, inclusive em pessoas saudáveis. - Os anticorpos para peptídeos modificados por citrulina (anticorpos de peptídeos anticíclicos citrulinados [CCP]) foram recentemente identificados em muitas pessoas com artrite reumatoide e raramente em pessoas com outras doenças inflamatórias ou indivíduos saudáveis. Esses anticorpos são produzidos em regiões de infl amação e reconhecidos como sendo de certo modo específicos para artrite reumatoide. ➢ Quais mediadores estariam ligados à sinovite destrutiva proliferativa? - Eles representam os “suspeitos comuns”. As citocinas secretadas pelas células T, tais como interferon- e IL-17, agem nos sinoviócitos e macrófagos estimulando a produção de moléculas pró-inflamatórias tais como IL-1, IL-6, IL-23, TNF e PGE2, óxidonítrico e fatores de crescimento TGF-β e fator estimulador de colônia de granulócitos-macrófagos. - Os mediadores inflamatórios ativam células endoteliais na sinóvia e então facilitam a ligação leucocitária e a transmigração. Também acarretam produção aumentada de metaloproteinases da matriz de cartilagem, o que junto aos complexos antígeno-anticorpos são importantes na destruição da cartilagem articular. - Além disso, são potentes estimulantes da osteoclastogênese e atividade osteoclástica pela produção de RANK. O RANKL também é expresso pelas células T e sinoviócitos ativados. - Como resultado, a sinóvia edematosa, hiperplásico e pegajoso (os sinoviócitos aumentam a produção de moléculas de adesão celular), rica em células inflamatórias, torna-se aderente e cresce sobre a superfície articular, formando o pannus e estimulando a absorção do osso adjacente. Por fim, o pannus gera uma destruição irreversível da cartilagem e erosão do osso subcondral. CLÍNICA - A doença se inicia de modo lento e de forma insidiosa em mais da metade dos pacientes afetados. - Inicialmente, o paciente relata mal-estar, fadiga e dor musculoesquelética generalizada e só após várias semanas a meses e as articulações são envolvidas no processo. - O padrão do envolvimento das articulações varia, mas em geral é simétrico e as pequenas articulações são afetadas antes das maiores. - Os sintomas com frequência se desenvolvem nas mãos (articulações interfalangeanas proximais e metacarpofalangeanas) e pés, seguidos pelo punho, cotovelo, tornozelo e joelho. Raramente, a cervical superior está envolvida, mas a região lombossacral e quadris geralmente são poupados. - As articulações envolvidas apresentam-se edemaciadas, quentes, dolorosas e em particular rígidas pela manhã ou após uma inatividade. - O paciente típico tem envolvimento articular progressivo durante um período de meses a anos, com limitação inicial mínima do movimento que de forma progressiva se torna mais grave. - O curso da doença pode ser lento ou rápido e flutua por anos, com o maior dano ocorrendo nos primeiros 4 ou 5 anos. Cerca de 20% dos indivíduos afetados experimentam períodos de remissão parcial ou completa, mas os sintomas inevitavelmente retornam e envolvem articulações não afetadas antes. - Os marcos radiológicos são osteopenia justarticular e erosões ósseas, além de estreitamento do espaço articular com perda da cartilagem articular. - A destruição dos tendões, ligamentos e cápsulas articulares produzem deformidades características, incluindo o desvio radial do punho, desvio ulnar dos dedos e anormalidades em fl exão-hiperextensão dos dedos (pescoço de cisne, botoeira). O resultado final é a presença de articulações deformadas, que não apresentam estabilidade e mínima ou nenhuma amplitude de movimento. - Grandes cistos sinoviais, como o cisto de Baker na face posterior do joelho, podem-se desenvolver conforme o aumento da pressão intra-articular leva ao aparecimento de projeções na sinóvia. - A presença do fator de artrite reumatoide e anticorpo anti- CCP são indicadores laboratoriais que juntos são sensíveis e específicos para artrite reumatoide. Como mencionado, o fator reumatoide pode não estar presente e também aparecer em muitas outras condições. - A análise do fluido sinovial confirma uma artrite inflamatória com neutrófilos, alto conteúdo proteico e baixo conteúdo de mucina, porém não é específica. - O diagnóstico (ANTIGO) é baseado principalmente nas características clínicas e inclui a presença de quatro dos seguintes critérios: (1) rigidez matinal, (2) artrite em três ou mais áreas articulares, (3) artrite de articulações típicas das mãos, (4) artrite simétrica, (5) nódulos reumatoides, (6) fator reumatoide sérico e (7) alterações radiográficas típicas.