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Esther Perinni Lopes – Medicina UVV XXVIII Hormônios gastrointestinais e regulação do esvaziamento gástrico – Resumo Objetivo: Examinar a regulação hormonal do esvaziamento gástrico, tema de crescente relevância, visto que medicamentos análogos de alguns desses hormônios ou agonistas dos receptores hormonais são utilizados na prática clínica para otimizar o controle metabólico no tratamento de doenças como diabetes tipo 2 e obesidade. Resultados: Os principais efeitos no esvaziamento gástrico resultam das ações das incretinas, particularmente GIP, GLP-1 e PYY, os hormônios duodenais e pancreáticos, motilina, glucagon e amilina, e os hormônios orexígenos gástricos, grelina. Hormônios que aceleram o esvaziamento gástrico = grelina e motilina Hormônios que retardam o esvaziamento gástrico = incretinas, hormônios duodenais e pancreáticos, glucagon, amilina e hormônios orexígenos gástricos. Muitos desses hormônios estão sendo testados em combinação como novos tratamentos potenciais para a obesidade. O apetite aumenta pelos hormônios que aceleram o esvaziamento e a saciedade aumenta pelos hormônios que o retardam. Esses hormônios agem nos centros de apetite hipotalâmico, no controle glicêmico e alguns de seus efeitos biológicos são mediados por ações no estômago. Resumo: Os efeitos dos hormônios gastrointestinais no esvaziamento gástrico são cada vez mais reconhecidos como importantes mediadores da saciedade e do controle glicêmico pós-prandial. INTRODUÇÃO O estômago faz parte da regulação da quantidade e taxa de calorias que cruzam o piloro para o duodeno. O esvaziamento gástrico é um determinante significativo da taxa na qual os carboidratos simples aparecem na circulação portal e subsequentemente na circulação sistêmica, uma vez que a maioria dos carboidratos é absorvida nos primeiros 70 cm do intestino delgado devido à expressão abundante de transportadores de alta afinidade. Uma série de hormônios atua como mecanismos reguladores predominantemente envolvidos no retardo do esvaziamento gástrico, e esses mecanismos são chamados coletivamente de “freios”. ESVAZIAMENTO GÁSTRICO • Fases da refeição Uma refeição possui duas fases: uma fase sólida e uma fase líquida. Essas fases diferem significativamente em sua distribuição no estômago logo após a ingestão. Os líquidos costumam se distribuir por todo o estômago desde o momento da ingestão, enquanto os sólidos são retidos no estômago proximal, que atua como um reservatório de alimento durante o período pós-prandial inicial. Depois de algum tempo, o alimento sólido vai para o estômago distal (o antro), que tritura o alimento sólido até o tamanho de 1–2 mm por meio das forças de cisalhamento Esther Perinni Lopes – Medicina UVV XXVIII de líquido que são estabelecidas por contrações corporais de alta amplitude e antrais que impulsionam o alimento contra o piloro fechado. Piloro = pequena abertura que faz a comunicação entre o estômago e a faixa duodenal do intestino delgado. • O que pode alterar a taxa de esvaziamento gástrico? Quando o alimento é triturado, ele pode passar pelo piloro; a natureza física, o tamanho da partícula, a gordura e o conteúdo calórico dos alimentos alteram a taxa de esvaziamento. A taxa de esvaziamento do líquido é muito mais rápida. Tempo de esvaziamento gástrico de líquido em 50% = 20 minutos Tempo de esvaziamento gástrico de sólidos em 50% = 120 minutos O tempo antes que os alimentos sólidos comecem a esvaziar do estômago é chamado de fase de latência e sua duração depende da natureza física e do teor de gordura da refeição; a partir daí, o esvaziamento segue um perfil de esvaziamento linear ao longo de um período de 3-4 horas, dependendo do volume, consistência e teor de gordura. O aumento do conteúdo calórico retarda o esvaziamento, independentemente do volume da refeição de teste ingerida. A presença de gordura, como oleato, na refeição resulta na → estimulação da secreção de colecistocinina (CCK) no duodeno → por sua vez, inibe a motilidade antral → estimula o tônus pilórico → retarda o esvaziamento gástrico. CONTROLE HORMONAL DO ESVAZIAMENTO GÁSTRICO GASTRINA Envolvida no esvaziamento gástrico. Secretada pelas células G no antro gástrico e pelas células parietais do fundo e do corpo. Responsável por uma proporção significativa da liberação de ácido pós-prandial por meio da ativação direta dos receptores CCK2 nas células parietais. Responsável pela liberação de histamina de células semelhantes à enterocromafina. A indução da secreção ácida e o aumento do volume intragástrico podem resultar em um leve prolongamento do esvaziamento de todo o conteúdo gástrico. Em pacientes com gastrite autoimune que resulta na redução das células G que produzem gastrina no estômago, o esvaziamento gástrico é retardado, e há alguma evidência de uma relação indireta com a gastrina sérica. O peptídeo liberador de gastrina não é um hormônio circulante e é liberado pelos nervos para estimular as células G gástricas a secretar gastrina. Esther Perinni Lopes – Medicina UVV XXVIII COLECISTOQUININA Liberada das células intestinais 1 em resposta aos lipídios e proteínas da dieta por meio de mecanismos que envolvem os receptores acoplados à proteína G, GPR40 e receptores sensíveis ao cálcio. Os ácidos graxos de pelo menos 12 comprimento de cadeia de carbono são os estímulos mais potentes da secreção de CCK. A CCK tem uma infinidade de efeitos que inibem a secreção de gastrina, a motilidade gastrointestinal e a secreção de ácido gástrico; a maioria desses efeitos é mediada pela ativação do alvo primário da CCK, ou seja, as fibras aferentes vagais. A CCK também controla a expressão de receptores e neurotransmissores peptídicos por esses neurônios; essas ações são potencializadas pela leptina e inibidas pela grelina. A CCK causa relaxamento do estômago proximal (aumentando sua capacitância) e inibição do esvaziamento gástrico, conforme demonstrado pela aceleração do esvaziamento gástrico com o antagonista de CCK, loxiglumida. POLIPEPTÍDEO INIBITÓRIO GÁSTRICO / POLIPEPTÍDEO INSULINOTRÓPICO DEPENDE DE GLICOSE Hormônio peptídico secretado pelas células K no duodeno e no jejuno proximal. Sinaliza por meio de um receptor específico = GIPR. Os níveis de GIP aumentam com a ingestão de nutrientes, inibindo a secreção e o esvaziamento do ácido gástrico. O GIP também estimula a secreção de insulina no cenário de hiperglicemia; no entanto, a resposta secretora ao GIP infundido é prejudicada no diabetes. Foi proposto que, devido ao aumento do glucagon em jejum e pós-prandial em pacientes com diabetes tipo 2, que são agravados pelo GIP, um antagonista do GIPR poderia melhorar a glicemia de jejum e pós-prandial. No entanto, estudos experimentais de infusão em humanos mostraram que este antagonista de GIPR não inibiu os níveis plasmáticos de glucagon, e são necessárias mais pesquisas sobre os efeitos glicêmicos e os efeitos no esvaziamento e secreção gástrica. PEPTÍDEO-1 SEMELHANTE AO GLUCAGON Também chamado de GLP-1, é secretado pelas células L no intestino delgado e no cólon por meio do processamento pós-tradução do proglucagon (que também dá origem ao GLP-2 - um fator trófico para a mucosa intestinal). Estimula a secreção de insulina e inibe a secreção de glucagon de uma forma dependente de glicose. Retarda o esvaziamento gástrico de sólidos e aumenta os volumes gástricos em jejum e pós-prandial. Esses efeitos dependem da função vagal; por exemplo, o efeito pós-prandial de GLP-1 não é observado em diabéticos com evidência de neuropatia vagal. Esther Perinni Lopes – Medicina UVV XXVIII Os efeitos no esvaziamento gástrico são atribuídos a uma diminuição na motilidade gastrointestinal por GLP-1, e isso é mediado pela estimulação de neurônios mioentéricos nitrérgicos inibitórios, além da ativaçãode aferentes vagais, que inibem o reflexo vagal vias motoras. O bloqueio do receptor de GLP-1 acelerou o esvaziamento em humanos saudáveis. O impacto do GLP-1 no esvaziamento gástrico também é ilustrado pelos efeitos do tratamento da obesidade e da síndrome metabólica em humanos. Um agonista do receptor de GLP-1, e liraglutida e semaglutida, análogos de GLP-1, retardam significativamente o esvaziamento gástrico. PEPTÍDEO-2 SEMELHANTE AO GLUCAGON Também chamado de GLP-2, é sintetizado por splicing alternado do pré- proglucagon. Possui efeitos tróficos na mucosa intestinal. Retarda o esvaziamento gástrico de líquidos em indivíduos saudáveis. O agonista de GLP-2, teduglutida, reduziu o estômago geral e esvaziamento do intestino delgado em pacientes com síndrome do intestino curto. Inibe a secreção de ácido gástrico. GRELINA Um hormônio orexígeno = estimulam o apetite. A grelina pode acelerar o esvaziamento gástrico de líquidos e sólidos em doses farmacológicas. Uma dose de grelina humana sintética usada para estimular a secreção fisiológica do hormônio do crescimento não parece alterar as funções motoras gástricas (esvaziamento ou acomodação pós-prandial). O potencial para estimular a motilidade gástrica e acelerar o esvaziamento gástrico com agonistas do receptor de grelina é melhor ilustrado pelos efeitos do agonista do receptor de grelina pentapeptídeo, relamorelina. LEPTINA E LEPTINA GÁSTRICA Produto do tecido adiposo do gene obeso (ob), que está localizado no cromossomo 7 em humanos e atua por meio de seu receptor OB-R. Retarda o esvaziamento gástrico. O estômago é a principal fonte de leptina no trato gastrointestinal. A secreção de leptina ocorre em jejum ou realimentação após o jejum, aumentando tanto no soro quanto na mucosa gástrica. Esther Perinni Lopes – Medicina UVV XXVIII Secretada pelas células principais gástricas (parietais) na mucosa gástrica, são estáveis no ambiente ácido gástrico e chegam ao duodeno, ligadas ou livres às proteínas. Os receptores de leptina são abundantes no sistema gastrointestinal, especialmente na parte proximal do intestino. Esses receptores podem ser encontrados nas bordas luminal e basolateral das células intestinais. A leptina interage com o nervo vago e a colecistocinina para retardar o esvaziamento gástrico. A deficiência de leptina aumenta a taxa de esvaziamento gástrico. Foi demonstrado que a leptina diminui a expressão e a secreção de grelina pela mucosa gástrica. As células de leptina são adjacentes às células de grelina na mucosa gástrica, circundando as células de grelina na metade inferior do estômago, possivelmente fornecendo uma regulação parácrina da grelina. O efeito da leptina na motilidade do trato gastrointestinal também é geralmente oposto ao da grelina. GLUCAGON Peptídeo com 29 aminoácidos secretado pelo pâncreas, mais especificamente pelas células alfa. Função = manter a glicose sanguínea por meio da ativação da gliconeogênese e da glicogenólise Seus efeitos são transduzidos por um receptor acoplado à proteína G. Os locais de ligação para o glucagon foram demonstrados no fígado, músculo liso intestinal, cérebro, gordura, coração e pâncreas, nas células β. O glucagon é necessário durante o desenvolvimento fetal para a diferenciação das ilhotas pancreáticas das células β. O glucagon reduz a ingestão de alimentos e a massa gorda corporal e altera o gasto de energia corporal, além de diminuir o tamanho da refeição. O glucagon retarda o esvaziamento gástrico de líquidos e inibe a motilidade em todo o trato gastrointestinal. AMILINA Hormônio peptídico co-secretado com a insulina pelas células β. Por isso, a amilina é deficiente no diabetes tipo 1, enquanto os níveis plasmáticos são aumentados na obesidade, na tolerância à glicose diminuída e no diabetes tipo 2. Um análogo sintético, a pramlintida, retarda o esvaziamento gástrico por meio da inibição da sinalização vagal de uma forma dependente da dose, e esse retardo do esvaziamento gástrico é confirmado em pacientes com diabetes tipo 1 ou 2 sem neuropatia. O esvaziamento gástrico retardado induzido por pramlintida melhorou a sensibilidade total à insulina; no entanto, diminuiu totalmente β responsividade celular. Esther Perinni Lopes – Medicina UVV XXVIII O Pramlintide foi aprovado para o tratamento da hiperglicemia pós-prandial em pacientes em terapia intensiva com insulina. PEPTÍDEO YY O peptídeo tirosina-tirosina é um peptídeo linear de 36 aminoácidos e circula em duas formas principais: PYY 1-36 e PYY 3-36. PYY 1-36 = clivada pela dipeptidil peptidase IV (DPP-IV) para produzir PYY 3-36. 60% do PYY circulante é 1-36 e 40% é 3-36. Atravessa a barreira hematoencefálica, tem alta afinidade para os receptores Y2 no hipotálamo. É liberado das células enteroendócrinas L do intestino delgado distal e do cólon na estimulação por nutrientes intraluminais, glicose, sais biliares, lipídios, ácidos graxos de cadeia curta e aminoácidos. A liberação também é modulada por outros peptídeos intestinais: peptídeo intestinal vasoativo (VIP), colecistoquinina (CCK), gastrina e peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1). PYY é um importante mediador do “freio ileal” que retarda o esvaziamento gástrico e o trânsito intestinal em resposta a nutrientes no intestino delgado distal. Ele compartilha esta ação com GLP-1, GLP-2, serotonina (5-HT, por meio de 5-HT 3 receptores), melatonina, oxintomodulina, glicentina, neurotensina e enteroglucagon. A injeção periférica de PYY inibe o esvaziamento gástrico de líquidos e ácido gástrico e secreção pancreática exócrina. CIRURGIA BARIÁTRICA OU ENDOSCOPIA, INCRETINAS E ESVAZIAMENTO GÁSTRICO A gastrectomia vertical e o bypass gástrico em Y-de-Roux (RYGB) são os procedimentos bariátricos mais comuns realizados na América do Norte. Diferenças anatômicas entre os dois processos resultam em taxas diferentes de esvaziamento, resultando em diferenças nas respostas secretoras enteroendócrinas: as concentrações pós-prandiais de GLP-1 são menores após a gastrectomia vertical em comparação com RYGB nos estudos comparativos realizados em humanos; no entanto, a gastrectomia vertical regula significativamente a secreção de GLP-1 em associação com o esvaziamento rápido de sólidos e líquidos do estômago. Existem outras alterações importantes nas incretinas e nos hormônios intestinais, incluindo alterações no PYY, grelina e leptina, e todas podem afetar o controle glicêmico, o esvaziamento gástrico e a saciedade. A alteração da anatomia gástrica impede a importante inibição do esvaziamento gástrico por hormônios como GLP-1 e PYY em resposta a esses procedimentos bariátricos restritivos. Isso difere do efeito da gastroplastia vertical endoscópica, que cria uma bolsa proximal com retenção gástrica aumentada e saciedade aumentada. Esther Perinni Lopes – Medicina UVV XXVIII CONCLUSÃO O trato gastrointestinal superior integra nutrientes intraluminais e mecanismos neurais, mecânicos e hormonais para modular a resposta à ingestão calórica. Além dos efeitos dos hormônios do trato gastrointestinal superior sobre os centros de apetite hipotalâmico e controle glicêmico, há evidências de que alguns de seus efeitos biológicos são mediados por ações no estômago, particularmente com os análogos de GLP-1 ou agonistas que são usados no tratamento da obesidade e da glicemia pós- prandial. Os hormônios modulam funções integrais que são críticas para a vida e a saúde, em parte por meio de seus efeitos no esvaziamento gástrico. Embora as aplicações terapêuticas até o momento tenham sido dominadas pela modulação do receptor de GLP-1, novos agentes farmacológicos direcionados a outros hormônios ou seus receptores estão em desenvolvimento e incluem antagonistas de GIP, agonistas da grelina e “twincretins”, ou seja, moléculas únicas queatuam como agonistas dos receptores GLP-1 e GIP. Antecipa-se que a interação desses mecanismos hormonais com a microbiota intestinal também fornecerá novas vias de compreensão mecanística e aplicações terapêuticas dos hormônios gastrointestinais. REFERÊNCIAS 1. Camilleri M. Gastrointestinal hormones and regulation of gastric emptying. Current Opinion in Endocrinology & Diabetes and Obesity. 2019;26(1):3-10. doi:10.1097/med.0000000000000448