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REFLEXOS DO TRONCO ENCEFÁLICO Certos reflexos dependem dos núcleos dos pares cranianos e vias de associação no tronco encefálico. É fundamental pesquisá-los na avaliação de pacientes comatosos, pois sua ausência indica lesão ou compressão de tronco encefálico, embora também possa ocorrer em determinadas intoxicações exógenas (especialmente por barbitúricos) e em decorrência da lesão dos próprios nervos cranianos, durante o seu percurso. Por exemplo: lesões expansivas da sela túrcica (ex.: apoplexia hipofisária), trombose séptica do seio cavernoso e aneurismas do sifão carotídeo podem lesar diretamente o III, VI e ramo oftálmico do V par (nervos que passam no seio cavernoso, lateralmente à sela túrcica e medial mente ao sifão carotídeo), abolindo os reflexos fotomotor e corneopalpepral REFLEXOS MESENCEFÁLICOS 1- REFLEXO FOTOMOTOR E CONSENSUAL : este é o reflexo mais importante na avaliação de indivíduos em coma. Veja como ocorre . A via aferente é o nervo óptico (II par) que capta o estímulo luminoso e o conduz por fibras do feixe óptico que passam pelo corpo geniculado lateral e fazem sinapse com núcleos da área pré-tectal. Os neurônios destes núcleos mandam fibras para os núcleos de Edinger-Westphal do III par, bilateralmente. O resultado é o estímulo para a contração da pupila (miose) no olho estimulado (reflexo fotomotor) e no olho contrário (reflexo consensual). A via eferente do reflexo é o nervo oculomotor (III par). 2- REFLEXO DE CONVERGÊNCIA : este reflexo é feito com o paciente acordado! O dedo do examinador é colocado próximo ao nariz do paciente, pedindo-se para ele olhar para este dedo. O que acontece é a convergência dos dois olhos (ambos olham para dentro, pelo estímulo bilateral dos músculos retos mediais). A via aferente é o II par (nervo óptico), conduzindo o estímulo visual aos dois córtices calcarinos (córtex visual, na área 17), que respondem estimulando os neurônios das áreas 18 e 19. Estes últimos mandam fibras em direção ao mesencéfalo, fazendo sinapse com os núcleos pré-tectais que, por sua vez, se comunicam com o núcleo de Perlia, um grupo de neurônios localizado em posição mediana, exatamente entre o par de núcleos de Edinger-Westphal. Este é o núcleo responsável pela convergência ocular, ao mandar fibras bilaterais (pelo III par) aos músculos retos mediais. Juntamente com a convergência, ocorre também miose, pelo estímulo concomitante dos núcleos de Edinger-Westphal bilateralmente. Por mecanismos desconhecidos, na neurossífilis, as pupilas param o reflexo fotomotor e consensual, sem, entretanto, perder a miose do reflexo de convergência. São as famosas pupilas de Argyll-Robertson REFLEXOS PONTINOS 1- REFLEXO OCULOCEFÁLICO E OCULOVESTIBULAR: neste reflexo participam o VIII par (nervo vestibular) e o VI par (ambos com núcleos localizados na ponte), o FLM e o III par craniano. O Reflexo Oculocefálico (ROC) é reproduzido girando-se abruptamente a cabeça para um lado e depois para o outro (obviamente é contraindicado em pacientes com trauma cervical...). Quando a cabeça é girada para esquerda, por exemplo, o canal semicircular horizontal esquerdo, o nervo vestibular e os núcleos vestibulares à esquerda são estimulados. Os neurônios do núcleo vestibular mandam fibras para a Formação Reticular Paramediana (FRPM) contralateral que estimula o núcleo do VI par do lado oposto (direito) e, através das fibras do FLM, o núcleo do III par (mesencéfalo) do mesmo lado (esquerdo). O resultado é o desvio tônico do olhar conjugado para o lado oposto (para direita), ou fenômeno do “olho da boneca”. Este reflexo só está presente em pacientes comatosos; se o indivíduo está acordado, o desvio tônico provocará desvios rápidos com pensatórios, causando nistagmo horizontal para o lado estimulado. O Reflexo Oculovestibular (ROV) tem exatamente as mesmas vias aferen tes e eferentes do ROC, só que o estímulo vestibular, em vez de ser com a rotação da cabeça, é com o estímulo térmico. Também só é encontrado em pacientes em coma. Injeta-se 50 ml de água gelada no ouvido externo de um lado (ex.: lado esquerdo), que, como vimos, estimula os canais semicirculares horizontais como se o paciente girasse a cabeça para o lado oposto. A resposta é o desvio tônico do olhar conjugado para o lado estimulado. Se injetarmos água morna, acontece o contrário: desvio tônico para o lado oposto (água fria = desvio para o mesmo lado; água quente = desvio para o lado oposto). Esta regra é exatamente o inverso da regra do nistagmo (ver anteriormente): se o paciente estiver acordado, o reflexo produzirá nistagmo... Não precisa nem dizer que, antes de fazer o ROV, é fundamental realizar a otoscopia, contraindicando-o se houver lesão timpânica... Em pacientes comatosos, podemos verificar o ROC e o ROV para investigar a integridade pontina. Lesões graves da ponte ou compressão pontina por hérnia transtentorial – ou ainda, a intoxicação barbitúrica – cursam com a abolição destes reflexos. Um ROC e um ROV presentes asseguram que não há grave disfunção pontina. É claro que a interpretação destes reflexos está prejudicada em pacientes com lesão do III, VI ou VIII par 2- REFLEXO CORNEOPALPEBRAL : produzido pelo estímulo tátil da córnea de um olho com um chumaço de algodão ou gaze estéril. A resposta é o fechamento palpebral bilateral. A via aferente é o ramo oftálmico do V par, que leva o estímulo ao núcleo sensitivo principal do V par (localizado na porção média da ponte). Os neurônios deste núcleo enviam fibras bilateralmente aos núcleos do VII par (porção médio-inferior da ponte), responsável pela via eferente do reflexo: estimular o orbicular da pálpebra a fechar os olhos (ambos). Uma lesão grave da ponte abolirá este reflexo. Uma lesão do ramo oftálmico do trigêmeo (ou do núcleo sensitivo principal) irá abolir o reflexo com o estímulo corneano do lado lesado. Uma lesão do facial (ou de seu núcleo) provocará a abolição do fechamento palpebral no lado lesado, mas a pálpebra do lado sadio continua respondendo, independente da córnea estimulada. Por exemplo: um paciente com paralisia facial periférica (de Bell) perde a contração palpebral do lado lesado, mas o estímulo corneano provocará a contração da pálpebra do lado sadio, mesmo se a córnea estimulada for a do lado lesado.. 3- REFLEXO DE PISCAR : quando um objeto se aproxima bruscamente dos olhos de uma pessoa, ela imediatamente fecha os olhos (pisca mento). A via aferente é o II par (nervo óptico), que envia fibras para os núcleos do teto do mesencéfalo, que respondem enviando estímulos através dos feixes tectonucleares, cujas fibras fazem sinapse com os neurônios do núcleo do VII par (ponte), responsável pela via eferente do reflexo. O estímulo também caminha em direção à ponta anterior da medula cervical, pelos feixes tectoespinhais, explicando o afastamento da cabeça... REFLEXOS BULBARES 1- REFLEXO DE PISCAR: quando um objeto se aproxima bruscamente dos olhos de uma pessoa, ela imediatamente fecha os olhos (pisca mento). A via aferente é o II par (nervo óptico), que envia fibras para os núcleos do teto do mesencéfalo, que respondem enviando estímulos através dos feixes tectonucleares, cujas fibras fazem sinapse com os neurônios do núcleo do VII par (ponte), responsável pela via eferente do reflexo. O estímulo também caminha em direção à ponta anterior da medula cervical, pelos feixes tectoespinhais, explicando o afastamento da cabeça... 2- REFLEXO DO VÔMITO: existe um centro neuronal do vômito, localizado na chamada área postrema na porção dorsolateral do bulbo, logo à frente do núcleo do trato solitário. Na verdade, esta área pertence à formação reticular bulbar. Vários tipos de estímulo ativam a área postrema, produzindo vômito. Entre eles, cheiros e gostos ruins, estresse emocional, estímulo vestibular e hipertensão intracraniana. A irritação ou distensão gástrica ou duodenal também podem estimular o vômito:os estímulos viscerais do estôago e duodeno sobem pelo X par e fazem sinapse com o núcleo do trato solitário (sensibilidade visceral) que, por sua vez, estimula o centro do vômito. O mesmo tipo de estímulo para o engasgo também pode desencadear o vômito (este pode ser chamado o clássico reflexo do vômito): as fibras aferentes, como vimos, sobem pelo IX par. A área postrema envia estímulos para diversos neurônios, entre eles os do núcleo dorsal do X par (espasmo da musculatura gastroduodenal e abertura da cárdia) e aqueles localizados na ponta anterior da medula cervical e torácica, determinando a contração do diafragma e da musculatura abdominal. 3- SOLUÇO: embora não seja um reflexo, achamos melhor comentar sobre ele neste momento... Tal como existe o centro do vômito, também existe uma espécie de “centro do soluço”, adjacente ao núcleo do trato solitário. Este centro estimula de uma forma pouco conhecida as contrações espasmódicas do diafragma (soluço). Lesões deste centro provocam soluço, como acontece na síndrome de Wallemberg (AVE isquêmico da porção dorsolateral bulbar) 4- REFLEXO CILIOESPINHAL : a estimulação dolorosa produzida na face ou no trapézio produz midríase bilateral. A via aferente é representada pelos ramos sensitivos do V par e pelos nervos sensitivos de C1 ou C2, estimulando os neurônios do núcleo espinhal do V par (bulbo) e da ponta posterior da medula cervical alta. A resposta (via eferente) vem pelo feixe simpático central (que desce por todo o tegmento do tronco encefálico, originando-se em núcleos simpáticos hipotalâmicos), que faz sinapse com os neurônios da ponta lateral do “H” medular cervical que, por sua vez, estimulam os gânglios simpáticos cervicais que acabam chegando às pupilas (pela inervação simpática da cabeça), produzindo midríase.