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Instrumentação Assunto 2 – Teoria da medição Prof. Diogo Roberto R. Freitas sites.google.com/site/diogoroberto 2 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto “Meça o que é mensurável, e torne mensurável o que não é.” – Galileo Galilei (1564-1642) Estamos a todo momento medindo as coisas: distâncias, tempo, valores... Tente relacionar cada coisa que precisa ser medida durante um dia normal. Por que estas coisas precisaram ser medidas? E se não fosse medidas quais as consequências, se é que existem? Até coisas “não reais” são medidas, como o dinheiro: “Dinheiro não é real. É um acordo consciente sobre medir valor.” – John Ralston Saul (1947), filósofo canadense. E na engenharia, qual a função da medição? Por que medir? 3 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Medir envolve relações entre grandezas. Para medir qualquer coisa precisamos de um instrumento para comparar a quantidade que estamos medindo a partir de um valor conhecido. Hoje os valores conhecidos são as unidades do SI. Os instrumentos específicos para cada tipo de medição serão estudados no próximo assunto. Neste assunto vamos estudar as características gerais dos instrumentos, que são divididas em: Características estáticas Características dinâmicas 4 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto São divididas em: 1. Escala 2. Resolução 3. Exatidão 4. Precisão Repetitividade Reprodutibilidade 5. Tolerância 6. Linearidade 7. Sensibilidade da medição 8. Sensibilidade a distúrbios 9. Limiar de operação 10. Histerese 11. Banda morta Características estáticas dos instrumentos 5 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Divide-se em 1. Instrumentos de ordem zero 2. Instrumentos de primeira ordem 3. Instrumentos de segunda ordem Características dinâmicas dos instrumentos 6 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Escala, alcance e resolução F o n te : h tt p s: // p ro d cd n .a cu ri te .c o m /m ed ia /c at al o g /p ro d u ct /0 /0 /0 0 3 3 0 -8 0 0 x 8 0 0 _ 1 .j p g F o n te : h tt p s: // p ix ab ay .c o m /p -0 2 3 7 2 7 /? n o _ re d ir ec t Fonte: https://www.burkert.fr/var/harmony/storage/images/imagefull/8/3/2/415104- 8323-003-C_thumb_imagefull.png Escala (range) Faixa de valores que o instrumento pode medir. Alcance, extensão (span) Extensão máxima da escala do instrumento. Resolução Menor valor possível que o instrumento pode medir. Exemplo: qual a escala, alcance e resolução dos instrumentos a seguir? 7 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto É a medida de proximidade da leitura do instrumento em relação ao valor verdadeiro do mensurando. Também pode ser entendida como a medida da incerteza da medição. Geralmente é relatada como uma porcentagem de fundo de escala do instrumento. Por este motivo deve-se utilizar um instrumento com escala próxima aos valores do mensurando. Exemplo: quer se medir a pressão em uma tubulação que pode atingir até 400 000 Pa (≈ 4 bar ≈ 40,8 mca). Tem-se a disposição dois instrumentos diferentes: Instrumento 1: faixa 0 – 50 bar, exatidão 1% de fundo de escala Instrumento 2: faixa 0 – 5 bar, exatidão 5% de fundo de escala Qual dos dois instrumentos deve-se utilizar para se obter a maior exatidão? Exatidão (incerteza da medição) 8 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Se refere ao quanto uma medição difere da seguinte. Não confundir com exatidão! Mas, qual o valor verdadeiro do mensurando? Por mais exato que seja o instrumento o valor verdadeiro é difícil de medir... Precisão Preciso Impreciso Exato Inexato F o n te : h tt p s: // w w w .s o p h ia .o rg /t u to ri al s/ ac cu ra cy -a n d -p re ci si o n -- 3 9 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Repetitividade Descreve o quão as leituras estão próximas para um mesmo valor do mensurando em um curto período de tempo, mantendo-se as mesmas condições de medição, mesmo ambiente, instrumento, observador e local. Reprodutibilidade Descreve o quão as leituras estão próximas para um mesmo valor do mensurando quando há modificação das condições de medição, mudança no ambiente, observador, local e tempo. Exemplos? Precisão 10 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Define o erro máximo esperado para certo valor. Alguns fabricantes podem utilizar este termo no lugar de exatidão. Exemplo: resistores possuem diversas faixas de tolerância, desde 10% até 1% ou 0,5%. Um fato é que os mais precisos são mais caros em relação aos menor precisos. Capacitores eletrolíticos são construídos geralmente com tolerância mínima de 20%! Tolerância 11 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto É desejável que a relação entre a quantidade medida e a leitura do instrumento seja linear. Por exemplo, medições foram realizadas e os valores lidos foram marcados com um X no gráfico a seguir: Caso o instrumento seja linear pode-se plotar um linha entre os pontos. A regressão linear relaciona as leituras com a quantidade medida: 𝑦 = 𝑎𝑥 + 𝑏, em que: 𝑦 → leitura; 𝑥 → quantidade medida; 𝑎, 𝑏 → coeficientes (constantes) a calcular, sendo 𝑎 a “sensibilidade” e 𝑏 o “erro” (offset) Linearidade 12 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto É a variação na leitura do instrumento a partir de certa variação do mensurando. Pode ser definida como: 𝑣𝑎𝑟𝑖𝑎çã𝑜 𝑛𝑎 𝑙𝑒𝑖𝑡𝑢𝑟𝑎 𝑣𝑎𝑙𝑜𝑟 𝑑𝑜 𝑚𝑒𝑛𝑠𝑢𝑟𝑎𝑛𝑑𝑜 𝑞𝑢𝑒 𝑐𝑎𝑢𝑠𝑜𝑢 𝑒𝑠𝑡𝑎 𝑣𝑎𝑟𝑖𝑎çã𝑜 É a inclinação da reta no gráfico anterior. Exemplo: um Pt-100 possui a seguinte relação entre resistência e temperatura: Considerando a faixa de 0 a 100 °C calcule a sensibilidade deste sensor. Sensibilidade da medição F o n te : N o v u s, T er m o rr es is tê n ci as P t1 0 0 . Resp. 0,385 Ω/°C 13 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Os instrumentos são especificados para operar em condições ambientais limitadas (controladas). Variações nas condições do ambiente causam mudanças nas características estáticas dos instrumentos. A medida dessa variação é chamada “sensibilidade a distúrbios”. Divide-se em flutuação do zero (zero drift ou bias) e flutuação da sensibilidade (sensitivity drift ou scale factor drift). Sensibilidade a distúrbios 14 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Flutuação do zero: a leitura “zero” do instrumento é modificada pela variação nas condições ambientais. Essa modificação causa um erro constante em toda faixa de operação do instrumento. Exemplo: manômetro com coeficiente de flutuação (zero drift coefficient) 1 bar / °C Sensibilidade a distúrbios F o n te : h tt p :/ /e n .s u k u .d e/ as se ts /p ro d u ct s/ 1 1 0 5 /o ri g in al /4 3 5 1 fk l. jp g ?1 2 7 2 0 2 6 1 0 6 15 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Flutuação da sensibilidade: variação na sensibilidade do instrumento em relação às variações das condições ambientais. Sensibilidade a distúrbios 16 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Um instrumento pode ser sensível aos dois tipos de flutuação! Sensibilidade a distúrbios 17 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Exemplo: uma balança de mola é calibrada para operar a 20 °C e possui a seguinte relação peso x deflexão: Considere uma coeficiente de flutuação de zero de 0,8 mm/°C e coeficiente de flutuação de sensibilidade de 0,3 (mm/kg)/°C.Calcule a nova relação para esta balança operar a temperatura ambiente de 35 °C. Sensibilidade a distúrbios Resp.: zero drift: 12 mm Sensibilidade @35°C: 24,5 mm/kg 12 36,5 61 85,5 18 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Mínimo valor do mensurando que causa uma leitura inicial no instrumento. Exemplo: geralmente o velocímetro do carro só sai do zero a partir de 10 km/h. Limiar de operação F o n te : h tt p :/ /c d n .p cw al la rt .c o m /i m ag es /s p ee d o m et er -l o g o -w al lp ap er -1 .j p g 19 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Diferença nas leituras em sentidos diferentes em um dado instrumento. Exemplos: instrumentos com mola, núcleos de transformadores. Histerese 20 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Exemplo: núcleo ferromagnético Fonte: https://www.nde-ed.org/EducationResources/CommunityCollege/MagParticle/Graphics/BHCurve.gif 21 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Valores de entrada que não causam mudanças no valor de saída do instrumento. Instrumentos que possuem histerese possuem banda morta. Banda morta 22 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Nossa abordagem será encarar o instrumento como um sistema: Divide-se em 1. Instrumentos de ordem zero 2. Instrumentos de primeira ordem 3. Instrumentos de segunda ordem Comportamento do instrumento entre a mudança do mensurando e a estabilização da leitura de saída. Expressa a relação entre o mensurando (𝑥) e a variável de saída (𝑦): 𝑎2 𝑑2𝑦 𝑑𝑡2 + 𝑎1 𝑑𝑦 𝑑𝑡 + 𝑎0𝑦 = 𝑏0𝑥 em que 𝑎2, 𝑎1, 𝑎0 e 𝑏0 são constantes (coeficientes). Esta equação considera uma variação tipo degrau (step) do mensurando. Características dinâmicas dos instrumentos Instrumento 𝑥 𝑦 23 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Caso 𝑎2 = 𝑎1 = 0 temos a seguinte relação: 𝑎0𝑦 = 𝑏0𝑥 ⟹ 𝑦 = 𝑏0 𝑎0 𝑥 ⟹ 𝑦 = 𝐾𝑥 Uma variação no mensurando causa mudança imediata na saída. Exemplo: potenciômetro como sensor de posição. Instrumentos de ordem zero 24 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto A saída se comporta da seguinte forma: 𝑎1 𝑑𝑦 𝑑𝑡 + 𝑎0𝑦 = 𝑏0𝑥 Resolvendo a equação diferencial de primeira ordem resulta: 𝑎1 𝑑𝑦 𝑑𝑡 + 𝑎0𝑦 = 𝑏0𝑥 ⟹ 𝑑𝑦 𝑑𝑡 + 𝑎0 𝑎1 𝑦 = 𝑏0 𝑎1 𝑥 𝑑𝑞𝑜 𝑑𝑡 = 𝑏0 𝑎1 𝑞𝑖 − 𝑎0 𝑎1 𝑞𝑜 Fazendo 𝑏0 𝑎1 = 𝑐0 e 𝑎0 𝑎1 = 𝑐1 temos: − 𝑑𝑞𝑜 𝑑𝑡 = −𝑐0𝑞𝑖 + 𝑐1𝑞𝑜 ⟹− 1 𝑐1 𝑑𝑞𝑜 𝑑𝑡 = − 𝑐0 𝑐1 𝑞𝑖 + 𝑞𝑜 ⟹ 𝑑𝑞𝑜 𝑑𝑡 𝑞𝑜 − 𝑐0 𝑐1 𝑞𝑖 = −𝑐1 𝑑𝑞𝑜 𝑞𝑜− 𝑐0 𝑐1 𝑞𝑖 = −𝑐1𝑑𝑡. Integrando ambos os lados (lembre 1 𝑥 𝑑𝑥 = ln 𝑥): ln 𝑞𝑜 − 𝑐0 𝑐1 𝑞𝑖 = −𝑐1𝑡 + 𝐶 Instrumentos de primeira ordem 25 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Aplicando a exponencial: 𝑦 − 𝑐0 𝑐1 𝑥 = 𝑒−𝑐1𝑡+𝐶 ⟹ 𝑦 = 𝑐𝑒−𝑐1𝑡 + 𝑐0 𝑐1 𝑥 onde 𝑐 = 𝑒𝐶. Considerando 𝑥 constante (mensurando) temos: P/ 𝑡 ≤ 0 ⟹ 𝑐 = 𝑦(0) − 𝑐0 𝑐1 𝑥, 𝑦(0) é a condição inicial P/ 𝑡 → ∞⟹ 𝑦 = 𝑐0 𝑐1 𝑥, estabilidade Assim: 𝑦 = (𝑦(0) − 𝑐0 𝑐1 𝑥)𝑒−𝑐1𝑡 + 𝑐0 𝑐1 𝑥 Caso 𝑦(0) = 0 (condição inicial zero) temos: 𝑦 = 𝑐0 𝑐1 𝑥 1 − 𝑒−𝑐1𝑡 = 𝑎𝑥 1 − 𝑒− 𝑡 𝜏 em que 𝑎 = 𝑐0 𝑐1 = 𝑏0 𝑎0 é a sensibilidade e 𝜏 = 1 𝑐1 = 𝑎1 𝑎0 é a constante de tempo do instrumento. Instrumentos de primeira ordem 26 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Após 5𝜏 considera-se a saída do instrumento estável. Exemplo: termopar. Instrumentos de primeira ordem 5𝜏 27 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Caso o instrumento possua offset (𝑏 ≠ 0) temos: 𝑦 = 𝑎𝑥 1 − 𝑒− 𝑡 𝜏 + 𝑏, tendo em mente que o offset é o valor da saída 𝑦 quando a entrada 𝑥 = 0. Instrumentos de primeira ordem 28 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Exemplo: Um forno precisa ser monitorado por um termopar na faixa de 10 a 200 °C. A seguinte tabela relaciona a tensão termoelétrica (mV) em função da temperatura. 1. Considerando que a leitura é estável após 5 s, defina uma expressão matemática para a saída do termopar em função da temperatura. 2. Plote o gráfico para os instantes 1, 2, 3, 4, 5 segundos. 3. Calcule o erro de cada medição nos instantes 1, 2, 3, 4, 5 segundos. Arredonde a temperatura para o inteiro mais próximo. Instrumentos de primeira ordem 29 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto A saída do instrumento se comporta da seguinte forma: 𝑎2 𝑑2𝑦 𝑑𝑡2 + 𝑎1 𝑑𝑦 𝑑𝑡 + 𝑎0𝑦 = 𝑏0𝑥 Reescrevendo a equação usando o operador D temos: 𝑎2𝐷 2𝑦 + 𝑎1𝐷𝑦 + 𝑎0𝑦 = 𝑏0𝑥 𝑦 = 𝑏0𝑥 𝑎2𝐷 2 + 𝑎1𝐷 + 𝑎0 Instrumentos de segunda ordem 30 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto A forma da saída 𝑦 vai depender das raízes do polinômio característico da equação diferencial de segunda ordem 𝑎2𝐷 2 + 𝑎1𝐷 + 𝑎0 = 0 Considerando os parâmetros: K = 𝑏0 𝑎0 , sensibilidade estática ω = 𝑎0 𝑎2 , frequência natural não amortecida ξ = 𝑎1 2 𝑎0𝑎2 , razão de amortecimento Temos 3 casos: Duas raízes reais e diferentes – caso sobreamortecido Duas raízes complexas conjugadas – caso subamortecido Duas raízes iguais – caso criticamente amortecido Instrumentos de segunda ordem 31 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Fazendo ξ = 𝑎1 2 𝑎0𝑎2 = 𝑎1 2𝑎0 𝑎2 𝑎0 ⟹ 2ξ 𝜔 = 𝑎1 𝑎0 , e dividindo por 𝑎0: 𝑦 𝑥 = 𝐾 𝐷 𝜔2 2 + 2ξ 𝜔 𝐷 + 1 Este é o modelo do nosso instrumento de segunda ordem. O comportamento da saída depende da razão de amortecimento ξ: ξ = 0 – caso criticamente amortecido 0 < ξ < 1 – caso subamortecido ξ ≥ 1 – caso sobre amortecido Exemplos: instrumentos com mola (balanças), acelerômetros. Instrumentos de segunda ordem 32 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto Instrumentos de segunda ordem 33 Prof. Diogo Roberto sites.google.com/site/diogoroberto A. S. Morris, L. Langari, Measurement and Instrumentation: Theory and Application, 2012. Revised Thermocouple Reference Tables, Omega. Disponível em www.omega.com Acessado em 01/3/2017. TERMORRESISTÊNCIAS Pt100, Novus. Disponível em www.novus.com.br Acessado em 01/3/2017. W. E. Boyce, R. C. DiPrima, Equações Diferenciais Elementares e Problemas de Valores de Contorno, 8ª ed. Referências http://www.omega.com/ http://www.novus.com.br/