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A Convivência com Pessoa Casada e a Partilha de Bens

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A Convivência com Pessoa Casada e a Partilha de Bens: um novo desafio judicial
1 de janeiro de 2020
Rênio Líbero Leite Lima – Professor, Advogado, Servidor Público.
Resumo: O presente artigo tem por objetivo oferecer uma análise sobre a questão dos indivíduos envolvidos em relacionamentos paralelos ou simultâneos e sua caracterização como entidade familiar, observando seus efeitos práticos no direito sucessório. Para tanto, utilizou-se o método indutivo com análise de doutrina, jurisprudência e legislação, suficiente à respaldar a conclusão do estudo, bem assim, se observou o método dedutivo, através do qual se buscou identificar dados gerais sobre os fundamentos e princípios aptos à demonstrar que as soluções encontradas para os casos analisados não condizem com o princípio fundamental da dignidade humana. Donde se nota que a acepção moderna de família há muito subjugou o conceito tradicional e que as relações plurais amargam uma longa espera por soluções legislativas ficando, por enquanto, à deriva num mar de decisões judiais preconceituosas e injustas que, no mais das vezes não conseguem compreender o real e moderno conceito de família.
Palavras-chave: União Estável. Concubinato. Direito Sucessório.
Abstract: This article aims to provide an analysis of the issue of individuals involved in parallel or simultaneous relationships and their characterization as a family entity, observing their practical effects on inheritance law. For this, the inductive method was used with analysis of doctrine, jurisprudence and legislation, sufficient to support the conclusion of the study, as well as the deductive method, which sought to identify general data on the foundations and principles suitable for demonstrate that the solutions found for the cases analyzed do not match the fundamental principle of human dignity. From this it can be noted that the modern sense of family has long overpowered the traditional concept, and that plural relations bitterly await long-term legislative solutions, drifting into a sea of ​​biased and unfair judgments that often fail. Understand the real and modern concept of family.
Keywords: Stable Union. Concubinage. Succession Law.
Sumário: Introdução. 1. Evolução Histórico-conceitual da Família. 2. O Moderno Conceito de Família e a Constituição Federal de 1988. 3. Famílias Simultâneas ou Paralelas. 4. Efeitos Sucessórios. Conclusão. Referências.
 Introdução
A sociedade atual tem experimentado as mais diversas transformações socioculturais. Com o crescimento da consciência feminina que tem feito mais e mais mulheres se lançarem no mercado de trabalho e disputarem espaço com os homens, os avanços tecnológicos que tem proporcionado até mesmo o desenvolvimento embrionário de fetos tem dado cada vez mais independência aos indivíduos, transformando uma sociedade arraigada na cultura patriarcal em uma sociedade sem gênero.
Essa mesma dinâmica social tem proporcionado não o surgimento, mais o reconhecimento, ao menos em tese, de novas formas de união familiar. Casais que optam por morarem sozinhos e mesmo assim formam famílias (unipessoais); união de pessoas do mesmo sexo e até o relacionamento de mais de duas pessoas (poliamor).
Logicamente, essa nova, se é que pode assim se falar, realidade, tem imposto a necessidade de soluções judiciais para os mais diversos problemas familiares. À ausência de legislação específica, as decisões judiciais são por vezes dissonantes e até injustas, notadamente quando se está diante do fenômeno do poliamor onde uma ou mais pessoas mantem relacionamentos paralelos e simultâneos.
É que a praxe forense, no mais das vezes, assim como parte significante da doutrina ainda insistem em rechaçar a figura do concubino, expressão esta, aliás, preconceituosa. É que o indivíduo que se une à pessoa casada não separada de fato terá tratamento discriminatório em relação ao indivíduo casado, como se a dignidade daquele não tivesse o mesmo valor atribuído à deste.
No afã de proteger a família, o operador do direito talvez tenha se perdido em meio à nova realidade e, buscando a definição tradicional, deixa de saber, de fato, o que é família ou entidade familiar.
As consequências são de cunho sucessório e obrigacional e quase sempre tem observado soluções injustas.
O presente artigo foi elaborado a partir da coleta de dados encontrados em livros e publicações digitais. Adotou-se, para tanto, os métodos indutivo com análise da doutrina, jurisprudência e legislação para se chegar às conclusões observadas; e o método dedutivo, através do qual se buscou identificar dados gerais sobre os fundamentos e princípios aptos à demonstrar que as soluções encontradas para os casos debatidos não condizem com o princípio fundamental da dignidade humana.
O texto é, portanto descritivo e reflexo, pois que busca descrever as situações encontradas na doutrina e jurisprudência a fim de possibilitar a interpretação crítica destas e sua validade e eficácia jurídica.
 
1. Evolução Histórico-conceitual da Família
A família tem o seu surgimento no momento mesmo em que surgem os primeiros agrupamentos humanos. É que o homem tem a necessidade de reproduzir-se e, para tanto, necessita de, em algum momento, unir-se a outro indivíduo. De igual modo, a criação da prole impõe a necessidade de uma união, ainda que temporária.
É possível afirmar, pois, que a convivência aos pares é um fato natural, que culmina na formação de um agrupamento humano informal, através de laços de afeto, instinto de manutenção da espécie e proteção.
Deste modo, resta claro que a organização da sociedade se deu e evoluiu a partir da estrutura familiar, daí porque, com o surgimento do estado e a criação dos ordenamentos jurídicos, se procurou dar proteção ao que viria a ser reconhecido como um instituto jurídico: a família.
Ora, se o Estado surge para garantir a vida em sociedade de forma ordeira e organizada, a manutenção do próprio Estado passava pela preservação da família que foi tida como a célula mãe da sociedade.
Não por menos, a evolução cultural da sociedade levou os Estados a cunharem fórmulas de proteção para esta célula social – a família. Criaram-se, portanto, institutos jurídicos como o Casamento, a Separação de Corpos, o Desquite, a Separação Judicial e o Divórcio. Todos, de algum modo, traziam e trazem, mecanismos de proteção à manutenção da família.
A definição de família, por sua vez, sofreu sensíveis transformações ao longo da história, especialmente nas últimas décadas. Um dos elementos determinantes para a formação dos primeiros grupos familiares – a necessidade de procriação – colaborou com a conceituação de família, ao menos nas sociedades ocidentais, como sendo a união de um homem e uma mulher com o objetivo de gerar filhos e perpetuar a espécie.
Os primeiros contornos conceituais do instituto da família desprezavam, contudo, a amplitude do conceito de afeto, restringindo, destarte, a formação de agrupamento familiar à união de um pai, uma mãe e filhos.
Modernamente, contudo, o conceito tradicional de família tem perdido espaço. É que um novo elemento e mais importante, qual seja, o afeto, tem se revelado muito mais adequado à estruturação conceitual de família. Não há se negar que o desejo, o carinho e o amor tenham muito mais força para formação de uma unidade familiar que a anacrônica necessidade de procriação.
Por outro viés, se o amor não tem gênero nem está limitado a número, seria possível se admitir como unidade familiar a união entre pessoas do mesmo sexo ou de mais de duas pessoas de iguau sexo ou sexos opostos, tal um homem e duas mulheres ou dois homens e uma mulher.
Esta discussão, contudo, tem encontrado, ainda, alguma resistência que busca fundamentar-se em princípios éticos, morais e nos bons costumes. Estes últimos, todavia, também tem passado por transformações.
O mesmo preconceito que se coloca contra o reconhecimento de grupos familiares sem gênero afeta também as situações de fato. A união estável, por exemplo já foi, entre nós, objeto de grande rejeição social, bem como as relações