DA CRISE DO 2º REINADO À PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

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em esfera política mais ampla, trouxe também todo um conjunto de reivindicações que buscavam o comprometimento do governo imperial na definição de novas formas de relação de trabalho e dos novos trabalhadores.
Da forma como se efetivou a libertação dos nascituros (através da Lei do Ventre Livre) garantiu-se a permanência da escravidão por, pelo menos, mais três décadas, ao mesmo tempo em que a lei expressava um consenso em torno de uma estratégia reformista de longo prazo.
 A postergação do fim da escravidão permitia que os deputados especulassem acerca das novas formas de relações de trabalho, do tipo de trabalhador ideal que deveria substituir o escravo e buscassem a reafirmação da preponderância da agricultura (especialmente da grande lavoura produtora de gêneros para a exportação) como fator de sustentação do Império, cobrando-se do governo o compromisso de não deixar os fazendeiros desamparados.
Assim, era voz corrente entre inúmeros deputados e membros do governo imperial que a extinção da escravidão deveria se fazer de forma lenta, sem que se causassem sobressaltos nos proprietários rurais e em todos os interesses legítimos que estariam ligados a esta categoria dos produtores rurais.

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ALGUMAS “FALAS”ACERCA DA NECESSIDADE DA MANUTENÇÃO DA ESCRAVIDÃO...
Segundo o deputado Zama, representante da Bahia, “não há nenhum de nós que sustente a legitimidade da escravidão, mas é um fato legal, que a nós foi legado pelos nossos antepassados, mas com o qual, infelizmente, não podemos de chofre acabar.”
Expressando a preocupação de fazendeiros sobre a possibilidade de poderem contar com o trabalho dos escravos quando estes se tornassem livres, o conselheiro Nabuco de Araújo, por ocasião dos debates sobre a Lei do Ventre Livre, dizia que seria difícil “garantir a ordem pública contra a massa de dois milhões de indivíduos cujo primeiro impulso seria o abandono do lugar onde suportou a escravidão.”
Sobre a possibilidade de se contar com o trabalho dos nascituros, o deputado Duque-Estrada Teixeira, ainda durante o debate sobre a Lei do Ventre Livre, dizia ser impossível, já que “quando conhecessem o estado de liberdade sem o menor preparo moral e religioso, sem laços de família que insuflem amor e hábito ao trabalho, iriam os ex-escravos dedicar-se ao nada fazer.”

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Aos poucos foi-se construindo um discurso em que se afirmava que o negro não seria um bom trabalhador livre por ser incompetente por natureza, condição esta que os levaria ao vício, à indolência e à preguiça.
O deputado Felipe dos Santos, da bancada de Minas Gerais, ao responder a uma interpelação de um deputado do Maranhão, em 1880, perguntava “se o nobre deputado reconhece que os africanos eram selvagens, como se apresenta na Câmara um projeto tratando do direito à liberdade dos africanos?”
O médico francês, Louis Couty, que foi professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1879, no momento em que se retomava o debate sobre a abolição na Câmara dos Deputados, expressava em seu livro o pensamento de muitos deputados e fazendeiros: “este escravo é bom cozinheiro, este outro é carregador, carpinteiro ou pedreiro , e todos eles trabalham bem. Eles serão libertados e, pouco tempo depois, tendo-se tornado beberrões ou preguiçosos, só trabalham quando obrigados por necessidades muito limitadas.”

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RETOMANDO O PROCESSO ABOLICIONISTA...
Com a aprovação da Lei do Ventre Livre, o movimento abolicionista arrefeceu, somente voltando a ter força na década de 1880, quando então pessoas de condições sociais diversas passaram a participar das campanhas abolicionistas.
Assim, a partir da década de 1880, enquanto o movimento abolicionista ganhava força com o surgimento de jornais e associações abolicionistas, nas províncias do Norte e Nordeste verificava-se um nítido desinteresse pela manutenção da escravidão e em 1884, o Ceará declarou extinta a escravidão em seu território.
Neste contexto verificou-se em 1885 a aprovação da Lei dos Sexagenários (Lei Saraiva-Cotejipe – Lei nº 3.270 de 28/09/1885), proposta por um gabinete liberal sob a presidência do Conselheiro Saraiva e aprovada no Senado quando os conservadores voltaram ao poder com um gabinete presidido pelo Barão de Cotejipe.
Em linhas gerais a lei concedia liberdade aos escravos com idade a partir de 60 anos completos antes e estabelecia normas para a libertação gradual de todos os escravos, mediante indenização – a lei foi pensada como forma de se deter o abolicionismo radical, não alcançando, contudo, este objetivo.

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Alguns dos dispositivos da Lei dos Sexagenários (lei 3.270 de 28/09/1885):
A Lei dos Sexagenários, como ficou conhecida, tinha como objetivo regular a extinção gradual do elemento servil. No caput do art. 1º desta lei, definia-se que seria realizada uma nova matrícula para os escravos, onde seriam declarados o nome, a nacionalidade, sexo, filiação (se conhecida), ocupação ou serviço em que estivesse empregado, idade e valor, calculado este último de acordo com tabela existente no § 3º deste artigo.
 O art. 2º tratava da formação de um fundo de emancipação destinado ao pagamento de indenizações para os senhores que assim as requeressem, no caso de libertação de seus escravos inscritos na matrícula.
Os escravos libertados pelo fundo de emancipação, de acordo com o § 4º do artigo 3º desta lei, deveriam trabalhar para seus ex-senhores pelo prazo de 05 anos, devendo receber uma gratificação pecuniária por dia de serviço, arbitrada pelo ex-senhor e aprovada pelo Juiz dos Órfãos.
De acordo com o § 10 do art. 3º, todos os escravos com 60 completos, antes ou depois da promulgação da lei, seriam considerados libertos, devendo, porém, a título de indenização por sua alforria, prestar serviços a seus ex-senhores por 03 anos. No caput do art. 1º desta lei, definia-se que seria realizada uma nova matrícula para os escravos, onde seriam declarados o nome, a nacionalidade, sexo, filiação (se conhecida), ocupação ou serviço em que estivesse empregado, idade e valor, calculado este último de acordo com tabela existente no § 3º deste artigo.
Todos os libertos com mais de 60 anos e que houvessem completado o tempo de serviço previsto no § 10, continuariam em companhia de seus senhores que teriam a obrigação de alimentá-los, vesti-los e tratá-los em suas moléstias. Pelo § 14, o escravo libertado pelo fundo de emancipação deveria permanecer residindo no município onde se deu a alforria, por 05 anos, excetuando-se as capitais. O liberto que se ausentasse do município, de acordo com o § 15, seria considerado vagabundo e sujeito a ser preso pela Polícia para ser empregado em trabalhos públicos ou colônias agrícolas.

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OBSERVAÇÃO IMPORTANTE ACERCA DO DISPOSTO NA LEI DOS SEXAGENÁRIOS...
De acordo com o § 12 da Lei dos Sexagenários, permitia-se a remissão dos serviços devidos pelos escravos com idade entre 60 e 65 anos, mediante o pagamento de valor que não excedesse a metade do valor arbitrado para os escravos da classe de 55 a 60 anos de idade, de acordo com a tabela existente no § 3º, do artigo 1º desta lei.

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E, POR FIM, A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO...
 Com a crescente desorganização do trabalho nas fazendas paulistas provocada pelas fugas em massa de escravos e com a ameaça, real ou potencial, de uma rebelião geral, em 1888 os conservadores propuseram o fim da Abolição sem restrições – em 13 de Maio de 1888, a Lei Áurea foi aprovada com grande votação no Parlamento e com os votos contrários de 9 deputados, sendo 8 da província do Rio de Janeiro;

 Apesar da condição dos ex-escravos nos pós-13 de Maio variar muito de uma região para outra, o certo é que a abolição da escravidão não resolveu a questão do negro – nas regiões econômicas mais dinâmicas o trabalho do ex-escravo foi substituído pelo trabalho do imigrante e as escassas oportunidades que surgiram em outras áreas, contribuíram para o aprofundamento da desigualdade social da população negra.

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A REFORMA ELEITORAL DE 1881

 Por ocasião da segunda metade da década de 1870, as críticas ao sistema político imperial