O DIREITO NO PÓS-SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

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no Parlamento, tiveram assento representantes dos comunistas e de trabalhistas, o que propiciou a eleição de um considerável número de candidatos provenientes do proletariado.
Pelos fins de Janeiro de 1946, Dutra tomou posse na Presidência da República, ao mesmo tempo em que a Constituinte iniciava seus trabalhos.
Após debates acirrados travados ao longo das sessões, nas quais temas fundamentais para o país foram abordados, em 18 de Setembro de 1946, a nova Constituição brasileira era promulgada.

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 A Constituição de 1946 foi elaborada em um molde liberal-democrático, distanciando-se da Constituição de 1937;
Nela o Brasil foi definido como uma República Federativa (art. 1º), estabelecendo-se que a União compreendia os Estados, o Distrito Federal e os Territórios (art. 1º, § 1º) – assegurava-se a autonomia dos municípios (art. 28, inciso I e inciso II, itens a e b ) e recursos (art. 29, caput e incisos de I a V).

 O Poder Executivo seria exercido pelo Presidente da República, eleito por VOTO DIRETO e SECRETO por um período de cinco anos.

 O Poder Legislativo caberia ao Congresso Nacional, formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, sendo que a eleição para a Câmara se realizaria segundo o PRINCÍPIO DA REPRESENTAÇÃO PROPORCIONAL, segundo o qual os deputados seriam eleitos na proporção dos votos a eles concedidos no âmbito de cada partido a que pertenciam, enquanto que a eleição para o Senado obedeceria ao PRINCÍPIO MAJORITÁRIO.

 Estabeleceu-se um número fixo de senadores: três por Estado, critério esse que favorecia os Estados menos significativos em termos populacionais.

 Para a Câmara, a Constituição de 1946 reproduziu um dispositivo da Constituição de 1934 em que se determinava que o número de deputados seria fixado em lei nos termos da seguinte proporção: 1 deputado para cada 150.000 habitantes até o limite de 20 deputados e, além deste limite, 1 deputado para cada 250.000 habitantes – o número mínimo de deputados que um Estado poderia ter era de 07, assim como o Distrito Federal, enquanto que cada Território teria direito a um deputado.

A Constituição de 1946 suprimiu a representação profissional prevista na Constituição de 1934.

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 O direito e a obrigação de votar foram estabelecidos para os brasileiros alfabetizados, maiores de 18 anos, de ambos os sexos, alistados na forma da lei (art. 131) completando assim a igualdade, no nível dos direitos políticos, entre homens e mulheres, uma vez que a Constituição de 1934 estipulava a obrigatoriedade do voto apenas para as mulheres que exercessem função pública remunerada.

 No art. 132 definia-se aqueles que não podiam votar (os analfabetos, os que não soubessem se expressar em língua nacional e os que estivessem temporariamente ou definitivamente privados dos direitos políticos) e no art. 133 era previsto o alistamento obrigatório para ambos os sexos, salvo os casos previstos em lei.

 No que se refere aos direitos e garantias individuais previstos na Constituição de 1946 (art. 141) podemos destacar:
 O princípio da igualdade perante a lei (§ 1º).
 O princípio da legalidade (§ 2º).
 O princípio da segurança jurídica (§ 3º).
 O princípio da ubiquidade da justiça (§ 4º).
 No § 5º estava prevista a liberdade de manifestação de pensamento, sem interferência da censura, salvo no que dizia respeito a espetáculos e diversões públicas.
 Garantiam-se a inviolabilidade da casa, como asilo do indivíduo (§ 15), o direito de propriedade (§ 16), patentes e copyright (§§ 17, 18 e 19).
 O habeas corpus encontrava-se fixado no § 23 e o mandado de segurança no § 24.
 A ampla defesa e a instrução criminal contraditória encontravam-se fixadas no § 25.
 No § 29 encontravam-se fixados os princípios da individualização da pena e o da retroatividade da lei penal mais benéfica e no § 30, o princípio da pessoalidade da pena .
 No que se referia a aplicação da pena de morte, somente se daria a partir de legislação militar em tempo de guerra com país estrangeiro.

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 No capítulo referente à ordem social e econômica, podemos destacar:

 Foram estabelecidos critérios para o aproveitamento dos recursos minerais e de energia elétrica – a exploração dos recursos minerais e o aproveitamento da energia hidráulica se dariam somente por concessão ou autorização federal na forma da lei (art. 153).
 Pelo art. 152, as minas e demais riquezas do subsolo e as quedas d’água constituem propriedade distinta da propriedade do solo para efeitos de exploração e/ou de aproveitamento industrial.
 No art. 155, ficava estabelecida que a navegação de cabotagem para transporte de mercadorias seria privativa dos navios nacionais.
 Os preceitos sobre os quais deveriam se alicerçar a legislação do trabalho e a previdência social encontravam-se fixados no art. 157.
 Previa-se a participação dos trabalhadores no lucro das empresas (inciso IV do art. 157), “nos termos e pela forma que a lei determinar” – tal dispositivo virou letra morta, uma vez que não se aprovou qualquer lei neste sentido;

 No capítulo referente à educação e à cultura, podemos destacar:

 gratuidade do ensino primário oficial e para os que provassem falta ou insuficiência de recursos, gratuidade para o ensino oficial posterior ao primário.
obrigatoriedade, para as empresas que tivessem mais de 100 empregados, de manutenção de ensino primário para funcionários e seus filhos.
 obrigatoriedade para empresas industriais e comerciais de promoverem a aprendizagem a seus trabalhadores menores.

 No capítulo referente à família predominaram as concepções da Igreja Católica e dos grupos conservadores no sentido da definição de que a família se constituía pelo casamento de vínculo indissolúvel.

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A ORGANIZAÇÃO JUDICIÁRIA PELA CONSTITUIÇÃO DE 1946

 A supremacia do Judiciário foi restaurada, assegurando-se sua posição como um dos três poderes da Nação, ao mesmo tempo em que foram restabelecidos os princípios clássicos que norteiam o exercício da magistratura (VITALICIEDADE, INAMOVIBILIDADE e IRREDUTIBILIDADE de vencimentos), e que firmam a independência e a autonomia deste poder.

 As vedações constitucionais previstas em constituições anteriores, relativas à magistratura, foram mantidas (acumulação do exercício da magistratura com outra função pública, exceto a do magistério, recebimento de percentuais, a qualquer título, referentes às causas sujeitas a seu despacho e julgamento e o exercício de atividades político-partidárias).

 O Supremo Tribunal Federal foi mantido com as mesmas atribuições anteriores, ao mesmo tempo em que foi criado do Tribunal Federal de Recursos, que já se encontrava previsto na constituição de 1891 e cuja instalação teve como objetivo de limitar as competências do STF, restringir os casos de cabimento de recurso extraordinário e transferir as matérias que o tornavam segunda instância.

A justiça federal de primeira instância não teve referência no texto originário na constituição de 1946, sendo que suas atribuições foram transferidas para as justiças locais – assim a justiça federal ficou organizada com jurisdição especial em duas instâncias: a PRIMEIRA INSTÂNCIA formada pelos JUÍZES LOCAIS e a SEGUNDA INSTÂNCIA constituída pelo TRIBUNAL FEDERAL DE RECURSOS, não se incluindo na jurisdição federal as causas das autarquias.

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 O texto constitucional de 1946 deu nova estruturação, organização e definição de competências à JUSTIÇA MILITAR, garantindo a vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade dos vencimentos dos magistrados desta justiça – junto à Justiça Militar, passou a funcionar o Ministério Público Militar (composto de promotores e advogados de ofício).
 O habeas corpus passou a ter alcance na Justiça Militar, exceto em casos de punição disciplinar, com recurso para o STF, quando originário no Superior Tribunal Militar;
 A JUSTIÇA ELEITORAL foi recomposta nesta constituição, sem composição e sem corpo próprio de juízes – a justiça eleitoral foi organizada em caráter temporário, valendo-se de juízes de direito, permitindo-se nela o mandado de segurança e o habeas corpus.