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Sangramento uterino anormal (SUA) Bárbara Pinheiro Definição · Sangramento excessivo, prolongado ou acíclico, de origem endometrial; · Principais causas · Estruturais vs Não estruturais (causa mais frequente: anovulação) · Diagnóstico de exclusão · Hemorragia no ciclo gravídico-puerperal · Considerações gerais · O distúrbio deve se repetir por 3 meses, salvo em caso de hemorragia grave (SUA agudo) · O termo pode incluir a metrorragia · Sangramento acíclico · Atenção para a nova nomenclatura; Etiologia CAUSAS NÃO ESTRUTURAIS C- COAGULOPATIA O- DISFUNÇÃO OVULATÓRIA E- ENDOMETRIAL I- IATROGÊNICA N- NÃO CLASSIFICADA CAUSAS ESTRUTURAIS P- PÓLIPO A- ADENOMIOSE L- LEIOMIOMA M- MALIGNIDADE/ HIPERPLASIA · Obs: O TERMO “Sangramento uterino disfuncional” deve ser abolido; · Geralmente inclui coagulopatia, disfunção ovulatória ou alterações do controle endometrial da hemostasia; Causas não estruturais · O distúrbio reflete alterações nos mecanismos de retrocontrole HHO; · Na maioria das vezes há associação com ciclos anovulatórios; · Pode existir (30%) alteração dos mecanismos de controle local da menstruação; · Coagulopatia: D. de von Willebrand (13%), outras coagulopatias (20%). Diagnóstico diferencial · Anovulação;Principais · Alterações do controle local da menstruação; · Miomas/ Adenomiose; · Defeitos da cicatriz de cesária; · Distúrbios da coagulação; · Doenças malignas do S. hematopoiético; · Complicações gestacionais; · Infecções: doenças sistêmicas · Uso de medicações; · Sangramento de outra origem (DIU, pólipos, MAVU). Fisiopatologia · Sangramento menstrual normal; · Menstruação – fase folicular ovariana com a produção de estrógeno – fase de proliferação endometrial – ovulação – formação do corpo lúteo – fase secretória endometrial por ação da progesterona (suporte endometrial e contrapor o efeito de proliferação excessiva induzida pelo estrógeno) – morte do corpo lúteo (dura de 10-14 dias) – queda dos níveis de estrógeno e progesterona – descamação universal da camada superficial e intermediária do endométrio – menstruação – fica apenas a camada basal do endométrio. · Sangramento endometrial anormal · Sangramento de supressão estrogênica; · Sangramento de ruptura estrogênica; · Sangramento de ruptura progestogênica · Anovulação e SUA; · Anovulação: · Estímulo estrogênico prolongado sem contraposição da progesterona; · Endométrio = espessura anormal (proliferação excessiva) sem suporte estrutural (estromal); · Ruptura espontânea – sangramento – sequência não-síncrona · Mecanismos de controle ausentes · A lesão hiperplásica de endométrio atípica é precursora de CA de endométrio · Uma das principais causa de anovulação é a SOP · SOP (2 dos 3 critérios) · Irregularidade menstrual, alterações clínicas ou laboratoriais de hiperandrogenismo e evidências ecográficas de microfolículo ou volume ovariano >10 cm3 Caracterização dos distúrbios hormonais · História menstrual · Ciclo normal: 3 – 8 dias · Fluxo: 20 – 80 ml/ciclo · Intervalo: 24-38 dias · Mais importante: padrão menstrual · Duração, intervalo, intensidade; · Número de absorventes/ tampões (incluindo a noite) – fraldas e outros; · Presença de coágulos: volume do coletor. · SUA = desvios do padrão para mais. Classificação do sangramento · Sangramento menstrual abundante (SMA) · Substitui o termo menorragia para se referir a menstruações prolongadas ou intensas em mulheres com CM regulares; · Causas mais frequentes: mioma, adenomiose, defeito de cicatriz de cesária, coagulopatia, defeitos locais da hemostasia. · Distinção do SUA por disfunção ovulatória · SUA – O(ovulatória): ciclos irregulares · Sangramento intermenstrual: pólipos, MAC, hiperplasia/câncer endometrial, endometrite, defeito de cicatriz de cesária · Outros padrões de sangramento: Ex: spottings Classificação do SUA · De acordo com a faixa etária · SUA da adolescência; · SUA da menacma; · SUA do climatério. · De acordo com o estado da função ovulatória · SUA anovulatória; · SUA ovulatório. · Com disfunção lútea: insuficiência lútea, encurtamento da fase lútea. · Sem disfunção lútea: fase folicular curta, hemorragia do meio do ciclo, distúrbio local da coagulação, distúrbio local das prostaglandinas, causas estruturais. Incidência · 10 – 35% de todas as mulheres; · 20% das pacientes de ambulatório; · 5 – 10% das consultas novas; · Tríade sintomática em ginecologia: Dor, Corrimentos e Sangramento · Pode causar anemia e interferir com a vida diária; · Faixa etária · Climatério = 50% · Adolescência = 30-40% · Menacma = 10-20% Abordagem · Avaliação inicial sangramento volumoso: suporte básico de vida (A, B, C): 2 acessos venosos, cristaloides, exames, transfusão sanguínea; · D = Descobrir a causa; · Confirmar que o sangramento é de origem uterina (exame pélvico) · Considerar a idade da paciente (adolencência, menacma, climatério); · Afastar gravidez; · Seleção do tratamento. Rastreamento de coagulopatia · 15 – 24% das mulheres com SUA; · Sangramento menstrual abundante desde a menarca · Uma das seguintes condições: · Hemorragia pós-parto; · Sangramento cirúrgico aumentado; · Sangramento durante procedimentos dentários; · Duas ou mais das seguintes: · Hematomas 1-2 x/mês; · Sangramento gengival frequente; · Epistaxe 1-2 x/mês; · História familiar de sintomas de sangramento. Seleção do tratamento · Idade; · Etiologia; · Gravidade do sangramento (anemia, interferência com AVD); · Sintomas e problemas associados (infertilidade, dor pélvica, dismenorreia); · Necessidade de contracepção e planos de gravidez futura; · Comorbidades; · Risco de tromboembolismo; · Preferências da paciente. · Metas do tratamento: · Controle do sangramento; · Tratamento da anemia (se presente); · Recuperação da qualidade de vida. SUA na adolescência · Imaturidade do eixo HHO -> ciclos anovulatórios; · O retrocontrole positivo só se estabelece ao final da puberdade; · O estabelecimento do sangramento ovulatório cíclico pode demorar até 5 anos; · Representa cerca de 95% dos casos de SUA na adolescência. Diagnóstico diferencial · Distúrbios primários da coagulação (avaliação hematológica); · Adolescentes com vida sexual ativa -> gravidez Avaliação · Anamnese; · Exame físico (origem do sangramento) · Exames laboratoriais · Hemograma (plaquetas) · Testes sorológicos para gravidez · Casos graves / recidivantes · Coagulograma; · F. de Von Willebrand, fator VIII e cofator ristocetina; · Função hepática; · FSH; · Suspeita de SOP: prolactina, T4 livre, TSH, outras dosagens hormonais, hirsutismo (hormônios masculinos) USG. Tratamento · Casos leves · Apoio tranquilizador · Orientações: dieta, prática de esportes, controle do estresse; · Calendário menstrual. · Casos graves / recidivantes (anemia) · Menostasia (hormonal) => parar sangramento; · Prevenir recidivas => manutenção; · Investigar outras causas (20% coagulopatias). · Menostasia · Paciente estável: ACHO de alta dosagem (50µg) – esquema de Speroff (1 comp de 6/6hrs) - ou outras associações (EE + NET (enantato de noretisterona) · Faz um de 6/6 hrs até parar, depois 1 de 8/8hrs, depois 1 de 12/12hrs, depois 1 comprimido por dia até parar; · Anemia aguda/choque: EE conjugados 20mg IV a cada 4-6hrs – hospitalização, acesso venoso, infusão de cristaloides, hemotrasnfusão; · Ausência de resposta: · Reavaliar: coagulopatia, defeito anatômico, gravidez (USG para DD) · Casos rebeldes: curetagem uterina (último recurso); · Manutenção · AMP: 10mg/dia (10 dias); · Progesterona micronizada: 300mg/dia; · Contraceptivo oral combinado (em casos que a paciente também quer o efeito de contracepção): COC (baixa dosagem); · Outras medidas · Inibidores das prostaglandinas (AINH) (SUA moderado) · Reposição de ferro. SUA na menacma · SUA ovulatório x anovulatório; · Importante diagnóstico diferencial com doenças benignas do corpo uterino (miomas, pólipos) e gravidez; · Doenças benignas mais prováveis em mulheres com ciclos regulares; · Anovulatório = SOP (mais frequente); · Pode haver associação com hiperplasia (típica ou atípica) Propedêutica · Anamnese: história menstrual,sexual, contracepção, história obstétrica, cirurgias, história clínica, medicações · Exame físico: essencial avaliar se o útero é a origem do sangramento; · Exames laboratoriais e complementares · Hemograma; · Coagulograma se história clínica sugestiva; · Testes sorológicos para gravidez; · USG (transvaginal): doppler colorido se possível e eco endometrial podendo ver endométrio espessado ou mesmo eco normal). · Dosagens hormonais (TSH,PRL) – FSH (>35 é acertado a diagnóstico de falência ovariana) se houver suspeita de falência ovariana; · Propedêutica do hirsutismo, se presente; · Colpocitologia oncótica: testes para cervicite; · Avaliação endometrial · Afastar doença orgânica da cavidade uterina (pólipos, miomas submucosos) · Descartar hiperplasia endometrial (anovulação crônica de longa duração) · Métodos · USG transvaginal (se der alteração solicita uma histeroscopia); · Histerossonografia; · Histeroscopia; · Curetagem uterina (quase não usa para diagnóstico porque pode estar raspando em um lugar não adequado e com isso não conseguir material suficiente. Tratamento · Considerar: · Etiologia; · Gravidade do SUA (anemia, interferência com AVD); · Sintomas/problemas associados (dismenorreia/dor pélvica, infertilidade) · Necessidade de contracepção e planos para gravidez futura; · Comorbidade e risco de trombose (A ou V); · Preferências da paciente. · Tratamento de primeira linha · Hormonal · Anticoncepcionais combinados (COC, injetáveis, adesivos, anel) => redução importante do sangramento, seguros e efetivos para mulheres que não querem engravidar; · Progestágenos (oral, injetável,implante): dependendo do tipo de SUA; · DIU de levonorgestrel (DIU_LNG): altamente efetivo, LARC com duração de 7 anos; · DIU-LNG (Mirena): pode ser indicado como primeira linha se há programação de tratamento em longo prazo e a mulher não quer engravidar por pelo menos um ano. Pode ser usado por mulheres com contraindicação aos estrógenos (Ex: HAS ou risco aumentado de trombose). · Conduta casos leves · Hemorragia de meio-de-ciclo · EE conjugados: 0,625mg – 1,25mg/dia (3 dias antes – manter 5 dias ou · COC (baixa dosagem) · Sangramento na 2° fase do ciclo (fase lútea curta ou inadequada) · AMP: 10mg/dia por 10 dias ou · COC (baixa dosagem) · Sangramento na 1° fase do ciclo (fase folicular inadequada) · EE conjugados ou · COC (baixa dosagem) · Proio ou polimenorreia · AMP 10mg/dia por 10 dias ou · COC (baixa dosagem) · Spottings · EE conjugados 1,25mg/dia – iniciar 2-3 dias antes e manter por 7 dias · Associação com distúrbios clínicos/endócrinos · Tratamento de hiperprolactinemia; · Tratamento do hipotireoidismo; · Perda de peso. · Menostasia · COC de alta dosagem (50µg) – esquema de Speroff – 1 comp, VO 6/6 hrs - 8/8hrs – 12/12hrs – 1 por/dia (afastar CI) · Outras associações (EE + NET) · Antifibrinolíticos: ácido tranexâmico 8/8hrs (caso tenhha contraindicação de COC) · Manutenção · COC (1° linha) ou DIU-LNG · AMP 10 mg/dia por 10 dias/ciclo (SUA-O) · Considerar as demais opções terapêuticas · Conduta casos graves · Hospitalização e estabilização · ABC – tratamento do choque; · 2 acessos venosos – cateter 14/16; · Infusão de cristaloides; · Hematimetria: coagulograma; · Hemotransfusão (grau do choque, hematimetria); · Afastar gravidez e causas não uterinas. · Menostasia · Curetagem uterina => melhor opção · Menostasia imediata: reduz necessidade de hemotransfusão; · Diagnóstico diferencial com complicações da gravidez (HTP); · Propedêutica do endométrio. · Contemporização (Departamento de Emergência até transferência para Centro cirúrgico/ serviço de ginecologia): Tamponamento uterino · Gaze/ tampão · Balão (sonda de Foley 30ml, balão de Bakri) · Outras medidas · AINH · Redução 40-50% da intensidade do sangramento; · Redução da PGI2 (vasodilatadora); · Redução da dismenorreia; · Iniciar com o sangramento e manter por 3-5 dias; · Não aumenta o risco de trombose; · 1ª escolha no tratamento do SUA ovulatório (podem ser usados somente durante o sangramento); · Mais efetivos que placebo, menos efetivos que DIU de levonorgestrel e ácido tranexâmico. · Antifibrinolíticos · Ácido Tranexâmico: 1300mg VO 3x/dia (FDA) (aqui usamos: 2 comp de 50mg e faz 500mg de 8/8hrs); · Reduz em 26-54% o sangramento; · Pode ser usado por quem quer conceber; · Trombose: risco não documentado em estudos controlados, porém consiste em uma preocupação; · Mais efetivo que AINH, menos efetivo que DIU-LNG, pode ser usado somente durante o sangramento; · Custo mais elevado. · DIU de progesterona (Levonorgestrel) somente o Mirena (LNG-52mg liberando 20mvg/dia) · Alta eficácia: reduz 71-95% a perda sanguínea; · 20% => amenorreia; · Spottings comuns nos 3 primeiros meses; · Supressão mentrual mais comum em uso continuado; · 1ª linha se não houver desejo de gestar. · Progesterona oral de alta dose (mulheres que não podem usar estrógeno ou que querem engravidar) · AMP: 5-30mg/dia · Acetato de noretindrona: 5mg – 1-3comp/dia · AMP trimestral (50% redução do fluxo, 50% amenorreia em 1 anos, 70% em 2 anos) < custo · Agonistas GnRH (leuprolide, goserelina) durante 6 meses · SUA grave e desejo de manter a fertilidade; · Associação com ACHO. · Pacientes com prole definida e SUA grave/recidivante · Ablação endometrial · Técnicas histeroscópicas vs não histeroscópicas · Histeroscópica (Laser, Fotovaporização, Ressectoscópio) · Não-histeroscópica (balão térmico “é a mais conhecida”, radiofrequência, crioterapia, microondas, água quente circulante) · Melhora em 90% dos casos; · 50% se tornam amenorréicas; · Uso prévio de análogo do GnRH · Histerectomia · Tratamento definitivo; · Casos selecionados – maior morbidade · Ambas as técnicas causam infertilidade · A taxa de sucesso (ausência de sangramento) é maior com histerectomia, porém histerectomia traz maior morbidade e tempo para recuperação. SUA no climatério Características · Geralmente associado à anovulação crônica; · Maior risco de hiperplasia endometrial (5%); · Importante o diagnóstico diferencial com doenças malignas (CA de endométrio) e também com alterações benignas (miomas, pólipos, adenomiose); · Pior prognóstico (hiperplasia, d. orgânicas, neoplasia). Diagnóstico · Anamnese; · Exame físico (origem uterina); · Exames complementares · Hematimetria · USG transvaginal: exame inicial de 1° escolha (4° - 6° dias do ciclo quando o endométrio deve ta medindo de 4-8mm) · Colpocitologia oncótica · Avaliação de endométrio · Obrigatória no SUA do climatério; · Histerossonografia · Histeroscopia (padrão-ouro): + cara e invasiva · Biópsia dirigida · Tratamento das lesões (ressecção de pólipos,miomas) · Biópsia de endométrio; · Obrigatória nos casos de alto risco para câncer endometrial: obesidade, anovulação crônica, sangramento prolongado, falha da terapia medicamentosa, idade >45 anos; · USG com espessura endometrial normal não afasta câncer endometrial (variação importante de acordo com fase do ciclo e outras etiologias) · Curetagem uterina. Conduta · Menostasia · Curetagem uterina => método de escolha · Hemostasia rápida e eficaz · Propedêutica do endométrio · ATENÇÃO! · Inutilidade de métodos como derivados do ergot; · Não realizar tratamento hormonal sem prévia avaliação endometrial (porque pode incentivar uma neoplasia hormônio dependente). · Baseada na avaliação do endométrio · Hiperplasias · Sem atipias: AMP 6 meses – repetir avaliação do endométrio. Opção: DIU-LNG; · Com atipias: histerectomia · Endométrio normal · AMP 10mg/dias por 12 dias · TH combinada (baixa dose) · DIU-LNG · Tratamento cirúrgico · Ablação de endométrio · Obrigatória investigação endometrial prévia (biópsia para afastar CA de endométrio); · Histerectomia · Indicação mais liberal no climatério; · Obrigatória investigação endometrial prévia; · Tratamento de escolha para as hiperplasias