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Cirurgia geral – Dr. Raphael DOENÇA DIVERTICULAR DO CÓLON INTRODUÇÃO ----------------------------------------- Divertículos são herniações da mucosa e da submucosa através da camada muscular da parede do tubo digestivo. Podem ocorrer em qualquer parte do trato gastrintestinal, porém frequentes no colón. • Diverticulose: presença de divertículos assintomáticos no cólon. • Diverticulite: inflamação do divertículo e, e ́ acompanhada de sintomas (geralmente com dor e febre). EPIDEMIOLOGIA ----------------------------------------- Quanto à localização, a DDC pode ocorrer em qualquer parte do colón, mas acima de 95% dos casos ocorrem no descendente e sigmoide. FISIOPATOLOGIA ----------------------------------------- ➔ Processo normal do envelhecimento, principalmente por conta da perca de colágeno. ➔ Consequentes a distúrbios da musculatura colônica, da função motora do cólon, ou da dieta pobre em fibras e rica em carboidratos. ➔ O divertículo é proveniente de alterações nas estruturas anatômicas do cólon associado a um fenômeno de pulsão intraluminal que enfraquece a parede da víscera, permitindo a herniação nos pontos mais fracos, geralmente nos locais de penetração dos vasos sanguíneos. Existem dois tipos de divertículos no intestino: verdadeiros e falsos (ou pseudodivertículos). ➔ Divertículo verdadeiro é uma herniação sacular de toda a parede intestinal, ➔ Pseudodivertículo é uma protrusão da mucosa e submucosa através da muscular própria do cólon. O tipo de divertículo mais encontrado no cólon é o pseudodivertículo. Os divertículos geralmente acometem o cólon esquerdo e o sigmoide; o reto sempre é preservado. Diverticulite é a inflamação de um divertículo. Algumas teorias da fisiopatologia: ➔ Resistencia da parede colônica ➔ Distúrbios da motilidade ➔ Teoria de fibras na dieta ANATOMOPATOLOGIA ----------------------------------------- O divertículo é formado por um óstio e uma parte sacular ou corpo. Seu tamanho é variável, podendo chegar a 5 cm de diâmetro. A sua seção mostra que eé formado por mucosa e serosa. Algumas vezes, podemos encontrar também parte da submucosa ou da muscularis mucosae. Na doença diverticular do sigmoide, ambas as camadas musculares estão espessadas. Há encurtamento das tênias e contrações musculares, produzindo uma deformidade chamada de miocose, que estreita e, algumas vezes, oblitera o lúmen intestinal, criando compartimentos temporariamente isolados. As tênias aparecem espessadas e encurtadas, adquirindo consistência quase cartilaginosa. À microscopia, a camada muscular está espessada, porém sem hipertrofia ou hiperplasia celular. A musculatura circular apresenta-se septada, formando fascículos bem demarcados, separados uns dos outros por tecido conjuntivo. Nos casos em que ocorreram surtos múltiplos de inflamação, pode-se evidenciar tecido fibroso envolvendo o colón. Nessa situação, a alça torna-se rígida e com estenose da luz. Cirurgia geral – Dr. Raphael MANEJO CLÍNICO: ----------------------------------------- A DDC pode-se apresentar de forma assintomática, sintomática e complicada. Os pacientes que correm maior risco de sangramento tendem a ser hipertensos, ter aterosclerose e utilizar regularmente ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios não esteroides. A maioria dos sangramentos é autolimitada e cessa espontaneamente com repouso intestinal. A localização inicial do sangramento diverticular pode incluir colonoscopia, angiotomografia computadorizada (angio- TC) multiplanar ou cintilografia nuclear com hemácias marcadas. Nos pacientes sem comorbidades graves, a ressecção cirúrgica pode ser realizada com anastomose primária. Nos casos típicos, a diverticulite aguda não complicada (também conhecida como doença diverticular sintomática sem complicações [DDSSC]) causa febre, anorexia, dor no quadrante inferior esquerdo do abdome e constipação. Em < 25% dos casos, os pacientes podem apresentar peritonite generalizada, que é indicativa da presença de perfuração diverticular. Se o paciente tiver formado um abscesso pericolônico, ele pode apresentar distensão abdominal e sinais de peritonite localizada. A investigação laboratorial demonstra leucocitose. Raramente, o paciente pode apresentar nível hidroaéreo no quadrante inferior esquerdo à radiografia simples do abdome. Nesse caso, trata-se de um divertículo gigante do cólon sigmoide, que deve ser tratado com ressecção a fim de evitar perfuração iminente. O diagnóstico de diverticulite deve ser confirmado preferencialmente por tomografia computadorizada (TC) com os seguintes achados: divertículos no sigmoide, parede colônica espessada > 4 mm e inflamação da gordura pericólica, com maior ou menor quantidade de acúmulo de contraste ou líquido. Em até 20% dos casos, pode haver um abscesso abdominal. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ----------------------------------------- ➔ Sinais e sintomas da síndrome do intestino irritável podem simular o quadro clínico de diverticulite aguda. Portanto, uma suspeita de diverticulite que não atenda aos critérios tomográficos ou que não esteja associada a leucocitose ou febre não corresponde, de fato, à doença diverticular. ➔ Colite isquêmica ➔ Cisto ovariano, endometriose, apendicite aguda e doença inflamatória pélvica. ➔ Embora o benefício da colonoscopia na avaliação de pacientes com doença diverticular tenha sido questionado, seu uso ainda é considerado importante na exclusão de câncer colorretal. CLASSIFICACAO DE HINCHEY ----------------------------------------- A gravidade da diverticulite pode ser graduada de acordo com a classificação de Hinchey. Cirurgia geral – Dr. Raphael A doença diverticular complicada é definida como doença diverticular associada a um abscesso ou perfuração e, menos comumente, a uma fístula. A doença diverticular perfurada é estadiada com base no sistema de classificação de Hinchey. Esse sistema de estadiamento foi desenvolvido para prever os resultados depois do tratamento cirúrgico da doença diverticular complicada. Nos últimos anos, o sistema de estadiamento de Hinchey foi modificado para incluir a formação de um fleimão ou abscesso em fase inicial (estágio Ia de Hinchey). Desse modo, o abscesso pericólico é classificado como estágio 1b de Hinchey. Na doença diverticular complicada com formação de fístula, as localizações comuns são fístulas cutâneas, vaginais ou vesicais. Essas complicações manifestam-se por eliminação de fezes através da pele ou da vagina, ou presença de ar no jato urinário (pneumatúria). As fístulas colovaginais são mais comuns nas mulheres que já foram submetidas à histerectomia DIVERTICULAR ASSINTOMÁTICA ----------------------------------------- A presença do divertículo ao longo do colón não ocasiona sintomas. A grande maioria dos pacientes (75- 80%) permanece assintomática a vida toda. Neste caso, a doença será́ diagnosticada casualmente através de enema opaco, colonoscopia, laparotomia por qualquer outra razão ou pelos métodos de imagem. Esta forma de apresentação não requer tratamento nem qualquer seguimento médico, contudo alguns estudos sugerem que o aumento no teor de fibras, notadamente solúveis, na dieta parece diminuir o risco de aparecimento de sintomas. DIVERTICULAR SINTOMÁTICA ----------------------------------------- Nos pacientes com DDC não complicada, o principal sintoma é a dor abdominal, em cólica intermitente, com intensidade variável, mas frequentemente leve a moderada, localizada quase sempre na fossa ilíaca esquerda ou na região infra umbilical. Também apresentaflatulência, distensão abdominal e alteração do hábito intestinal (constipação intestinal ou diarreia). A dor geralmente é exacerbada pela alimentação e aliviada com a defecação ou eliminação de flatos, sugerindo tensão na parede colônia devido ao aumento da pressão intraluminal. É difícil estabelecer uma relação causal entre os sintomas e a doença. O exame físico pode revelar um abdome distendido, sensível à palpação, notadamente na fossa ilíaca esquerda; os exames laboratoriais em geral são normais. O diagnóstico definitivo pode ser obtido através do enema opaco ou da colonoscopia. O tratamento nestes casos consiste apenas na orientação com relação à possibilidade de complicações da doença, adequar a ingesta de fibras e líquidos e prescrever antiespasmódicos quando necessário. DICERTICULAR COMPLICADA ----------------------------------------- O espectro da DDC complicada inclui: diverticulite ou abscesso peridiverticular (pericólico); perfuração com peritonite, fistulização para dentro de vísceras adjacentes, obstrução e hemorragia. Cirurgia geral – Dr. Raphael ➥ Diverticulite: Diverticulite é a complicação mais comum, acometendo 10-25% dos pacientes com DDC. O mecanismo de formação da diverticulite é semelhante ao da apendicite, ou seja, o divertículo é obstruído por fezes endurecidas que provocam abrasão da mucosa do saco diverticular, causando inflamação e proliferação da flora bacteriana local, acarretando diminuição do fluxo venoso e isquemia localizada. A infiltração bacteriana rompe a mucosa e o processo pode se estender por toda a espessura da parede, algumas vezes ocasionando perfuração. A extensão e localização desta perfuração é que vai estabelecer o quadro clínico. Microperfuração poderá́ permanecer bloqueada pela gordura pericólica e mesentérica, ocasionando um pequeno abscesso pericoólico. Grandes perfurações podem resultar em abscessos algumas vezes envolvendo toda a parede cólica, formando uma grande massa inflamatória ou estender- se para órgãos vizinhos. Perfuração em peritônio livre é um quadro grave que causa franca peritonite e acarreta risco de morte. Esta situação é rara. Clinicamente, o paciente com diverticulite quase sempre se apresenta com dor no quadrante inferior esquerdo, uma vez que a DDC predomina no sigmoide, contudo indivíduos com sigmoide redundante podem apresentar dor suprapúbica ou até́ mesmo na fossa ilíaca direita. A dor pode ser intermitente ou constante e, algumas vezes, associa-se com mudanças no hábito intestinal. Hematoquezia é rara, entretanto anorexia, náuseas e vômitos são frequentes. O exame físico geralmente revela sensibilidade localizada e eventualmente massa palpável. A ausculta mostra ruídos hidroaéreos tipicamente diminuídos, podendo ser normais nos casos leves e exacerbados nos casos com obstrução do lúmen. O toque retal geralmente e ́ doloroso e nos abscessos pélvicos revela massa palpável. A maioria dos pacientes desenvolve febre. Hipotensão e choque podem ocorrer, mas são raros. Leucocitose está quase sempre presente. O diagnóstico diferencial deve ser feito com apendicite e doença inflamatória intestinal e carcinoma do colón. Nas mulheres, distúrbios ginecológicos, como cisto de ovário roto, torção ovariana, gravidez ectópica e doenças inflamatórias pélvicas podem se confundir com diverticulite. Nestes casos, a USG auxilia. Do ponto de vista diagnóstico, o quadro clínico da diverticulite em geral é suficiente para se instituir empiricamente o tratamento. Exames laboratoriais básicos, como leucograma e urina tipo I, devem ser realizados. Outros exames são reservados para os pacientes nos quais exista alguma dúvida em relação ao diagnóstico ou quando a terapêutica empírica não está funcionando e ainda quando há́ suspeita de complicações. Neste sentido, os principais exames a serem realizados são os Raios X de tórax e simples de abdome. Devem ser realizados em pacientes com dor abdominal importante. Os raios X de tórax permitem visualizar pneumoperitônio (se existir) e avaliar o estado cardiopulmonar. Os raios X simples de abdome estão alterados em 30-50% dos pacientes. Os achados radiológicos mais frequentes são: dilatação do intestino delgado, íleo adinâmico, pneumoperitônio, obstrução intestinal ou massa de densidade de partes moles no abdome sugerindo abscesso. Enema opaco deve ser evitado, pelo risco de perfuração, e pela limitação de informações obtida. Ultrassonografia e tomografia computadorizada são exames de primeira escolha para o diagnóstico de diverticulite por se tratar de métodos não invasivos e de alta resolução. Permitem identificar espessamento da parede intestinal pelo processo inflamatório, abscessos e eventualmente o próprio divertículo. A tomografia computadorizada (TC) e ́ ainda melhor do que o ultrassom, pois este é prejudicado com a presença de gás no colón. Através deste exame, pode-se evidenciar e dimensionar infiltração no tecido gorduroso pericólico, espessamento da parede cólica e abscessos. Cirurgia geral – Dr. Raphael Estes resultados são significativamente mais acurados e seguros do que aqueles dos exames contrastados. A colonoscopia deve ser realizada com cautela pelo risco de perfuração. O tratamento da diverticulite não complicada (Hinchey I) pode ser feito ambulatorialmente e inclui dieta branda e antibioticoterapia de largo espectro. Se o tratamento ambulatorial falha, ou o paciente é imunossuprimido, deverá ser hospitalizado. Passado o surto agudo, voltar a ̀ dieta rica em fibras. As formas moderadas (Hinchey II) também podem ser tratadas clinicamente, mas com o paciente internado. Prescreve-se dieta leve, com o intuito de manter o colón em repouso, e antibioticoterapia sistêmica de largo espectro. Na presença de abscessos maiores, pode-se utilizar a drenagem percutânea dirigida por USG ou TC. As formas leves recebem antibióticos por 7 dias; as graves, por 14 dias ou até́ mais, dependendo da evolução. Analgésicos e antiespasmódicos devem ser utilizados rotineiramente. Recentemente, baseado na teoria de que na DDC existe inflamação crônica na parede intestinal, vem sendo empregada a mesalazina associada a ̀ antibioticoterapia para o tratamento de formas moderadas. Os trabalhos iniciais revelam que a mesalazina diminuiu o curso da diverticulite e, possivelmente, diminuiria as recidivas. O papel dos probióticos no manejo da DDC, complicada ou não, está sendo investigado. Nos casos em que há́ constipação intestinal associada, os resultados iniciais são animadores. Entretanto, está opção terapêutica não está ainda padronizada ➥ Perfuração: As formas graves (Hinchey III e IV) geralmente cursam com perfuração. Pode ser espontânea ou iatrogênica (durante a realização de exames radiológicos ou endoscópicos). Se a infecção originada de um divertículo perfurado não é imediatamente selada pelas defesas peritoneais habituais, pode ocorrer peritonite generalizada. Os pacientes queixam-se de dor acentuada, o abdome a princípio é sensível, logo evoluindo para defesa em todos os quadrantes, e até́ rigidez da parede abdominal. Há leucocitose, embora quadros muito graves possam cursar com leucopenia. Ao estudo radiológico, a presença de ar livre na cavidade peritoneal é muito sugestiva, mas a ausência de ar não elimina o diagnóstico. O tratamento é cirúrgico, de urgência. A perfuração de um divertículo pode gerar um abscesso. A dor se localiza no quadrante inferior esquerdo do abdome. Por vezes, palpa-se uma tumefacção, e, se o abscesso é profundo, o toque retal pode evidenciá-lo. O melhor exame complementar é a TC. O tratamentopreferencial é a drenagem transcutânea, ou, se o abscesso e ́ muito baixo, a drenagem pode ser feita através da parede do reto, por via transanal ou transvaginal. Abscessos multiloculados, ou inacessíveis, serão drenados cirurgicamente. As fístulas são consequentes a abscessos que se estendem para órgãos adjacentes ou perfuração. Em geral, elas se formam entre o colón e a bexiga. Nesse caso, além dos sintomas inflamatórios, o paciente poderá́ apresentar disúria, pneumatúria e fecalúria. Poderão ocorrer também fístulas colovaginais e colocutâneas. Cistoscopia, cistografia, radiografias contrastadas utilizando-se constrastes dissolvidos em agua ou azul de metileno podem demonstrar o trajeto fistuloso. As fístulas diverticulares são, em sua maioria, tratadas cirurgicamente. Após a resolução de um episódio de diverticulite aguda, é necessário investigar o colón inteiro no sentido de excluir situações que mimetizem inflamação, principalmente câncer e doença inflamatória intestinal. A colonoscopia ou a TC são os exames de escolha. ➥ Obstrução Intestinal: Dependendo da intensidade e da frequência dos surtos de inflamação, poderá ́ surgir estenose do lúmen intestinal, acarretando quadros de suboclusão ou, até́ mesmo, de oclusão intestinal. Essa complicação é rara e de fácil diagnóstico. Cirurgia geral – Dr. Raphael A obstrução aguda, durante um episódio de diverticulite, em geral é autolimitada e responde bem ao tratamento clínico. Raros casos exigem cirurgia. As estenoses crônicas devem ser submetidas a colonoscopia para se afastar câncer. Quando sintomáticas, podem ser tratadas por via endoscópica ou cirurgicamente. ➥ Hemorragia: Constitui uma das principais causas de enterorragia, respondendo por 40% dos casos. Acomete 5 a 10% dos pacientes com DDC. Na metade dos casos, a hemorragia poderá́ ser grave, colocando em risco a vida do paciente. Não se conhece o mecanismo exato da hemorragia. Estudos histológicos demonstram que não ha ́ inflamação, o que se vê é um enfraquecimento da parede dos vasos com um espessamento da intima e adelgaçamento da camada media. Sabe-se que o sangramento é arterial e ocorre, provavelmente, em consequência de erosão da mucosa do divertículo e dos vasos subjacentes. O sangramento por DDC e ́ caracteristicamente indolor, com sangue vermelho-vivo, quase sempre em grandes volumes. Em 80% dos casos, cessa espontaneamente, e 25% destes apresentarão recidivas. É raro um divertículo do colón causar sangramento crônico. Do ponto de vista clínico, o sangramento em geral tem início abrupto e sem dor. O paciente as vezes tem cólicas abdominais discretas e urgência para evacuar, segue-se a evacuação de sangue vivo, vermelho-rutilante. A hemorragia cessa espontaneamente em 70-80% dos pacientes com ressangramento em 22-38% dos casos. A chance de um terceiro episódio de hemorragia é em torno de 50%, levando a maioria dos médicos a indicar cirurgia após o segundo episódio. O diagnóstico do local exato do sangramento e ́ importante, mas nem sempre fácil. O procedimento inicial é, na maioria das vezes, a retossigmoidoscopia flexível, mesmo sem preparo, no sentido de identificar lesões no reto e/ou no sigmoide. Se nenhuma causa for identificada, e se as condições do paciente permitirem, o próximo passo é a colonoscopia, que, além de localizar o sangramento, possibilita, algumas vezes, o controle da hemorragia através de esclerose do vaso roto. Muitas vezes, é difícil identificar o local exato do sangramento. Nesta situação, a cintigrafia com hemácia marcada constitui um método bastante eficaz, não invasivo e sensível, detectando sangramento pequeno. Ale ́m disso, a hemácia permanece marcada por 24 h, permitindo repetição de pesquisa várias vezes. A angiografia, embora não seja tão sensível quanto a cintigrafia, tem a vantagem de identificar o local exato do sangramento, permitindo uma hemicolectomia seletiva, se necessário. Algumas vezes, pode-se atuar terapeuticamente, durante o exame, através da administração intra-arterial de vasopressina. Este procedimento cessa a hemorragia em 90% dos casos, entretanto é temporário. Durante o procedimento de investigação, o paciente deve estar com uma boa via de acesso para receber fluidos e reposição sanguínea. TRATAMENTO CLÍNICO ----------------------------------------- A doença diverticular assintomática detectada nos exames de imagem ou por ocasião da colonoscopia é tratada mais adequadamente por alterações do estilo de vida. A DDSSC com confirmação de inflamação e infecção do cólon deve ser tratada inicialmente por repouso intestinal. O uso rotineiro de antibióticos para tratar doença diverticular não complicada não se mostrou benéfico para reduzir o tempo necessário à resolução dos sintomas ou das complicações, ou para reduzir o risco de recidiva. Entretanto, existem poucos dados e os antibióticos ainda fazem parte do paradigma terapêutico. A internação hospitalar é recomendada quando o paciente não consegue fazer tratamento oral, tem várias comorbidades, não melhora com o tratamento ambulatorial e apresenta um quadro de diverticulite complicada. Cirurgia geral – Dr. Raphael Cerca de 75% dos pacientes hospitalizados por diverticulite aguda respondem ao tratamento conservador (não cirúrgico) com esquema antimicrobiano apropriado. A cobertura antimicrobiana recomendada atualmente é uma cefalosporina de terceira geração ou ciprofloxacino e metronidazol para erradicar bastonetes Gram-negativos e bactérias anaeróbias. Esses fármacos não oferecem cobertura para enterococos; recomenda-se, então, o acréscimo de ampicilina a esse esquema para os indivíduos que não melhoram. Como alternativa, o tratamento com um único antibiótico (p. ex., uma penicilina de terceira geração, como a piperacilina IV, ou a combinação de penicilina/ácido clavulânico oral) pode ser eficaz. A duração habitual do tratamento com antibióticos é de 7 a 10 dias. Os pacientes devem continuar a ingerir uma dieta de restrição até a resolução da dor. Depois da regressão do episódio agudo, a base do tratamento clínico da doença diverticular para evitar sintomas evoluiu nos últimos anos. Os fatores de risco confirmados para recidiva dos sintomas são idade mais jovem, formação de um abscesso diverticular e episódios mais frequentes (> 2 por ano). As recomendações mais recentes são dirigidas ao controle da inflamação do cólon e à disbiose. O uso dos anti-inflamatórios (mesalazina) em estudos clínicos randomizados não demonstrou qualquer efeito nos índices de recidiva. Alguns autores sugeriram que o uso dos anti-inflamatórios seja mais útil aos pacientes com doença diverticular que também tenham colite segmentar (doença diverticular associada à colite segmentar [DDACS]). Os probióticos têm sido prescritos com frequência crescente pelos gastrenterologistas para tratar diversas doenças intestinais e evitar recidivas da diverticulite. Em termos mais específicos, os probióticos contendo cepas de Lactobacillus acidophilus e Bifidobacterium podem ser benéficos, embora uma revisão sistemática recente não tenha conseguido demonstrar qualquer efeito benéfico associado ao uso dos probióticos. A rifaximina (um antibiótico de espectro amplo pouco absorvido), quando comparada com o uso apenas de uma dieta rica em fibras para tratar DDSSC, associada a 30% menos sintomas recidivantes frequentes atribuíveis à doença diverticular não complicada. TRATAMENTO CIRÚRGICO ----------------------------------------- Cerca de 20 a 30% dos pacientes portadores de DDC que desenvolvem crises de diverticulite serão encaminhados para tratamento cirúrgico.Quadros evolutivos com processo inflamatório grave, não ocorrendo melhora após 72 h de tratamento clínico, deverão ser avaliados para abordagem cirúrgica. O tratamento cirúrgico nos pacientes com DDC consiste, em remoção do segmento intestinal comprometido, controle da sepse e eliminação de outras complicações, como fistulas e/ou obstrução, restaurando a continuidade do trânsito intestinal. Nas complicações inflamatórias agudas, poderá́ haver necessidade de dissecção pélvica dificultosa, envolvendo, muitas vezes, ureteres, além da feitura de colostomia temporária. Nas cirurgias eletivas, é indispensável um preparo mecânico do colón para a sua limpeza, além da utilização de antibióticos para a redução da flora intestinal, propiciando, melhor segurança na feitura das anastomoses e reduzindo a possibilidade de fístulas e/ou deiscências, além de intercorrências sépticas. Indicação para cirurgia emergencial inclui perfuração livre, com peritonite e grandes abscessos peridiverticulares. Nessas situações, o procedimento cirúrgico consiste, basicamente, na remoção do segmento colônica comprometido e na colostomia temporária, além de proceder-se à limpeza e drenagem da cavidade abdominal. Posteriormente, após a resolução da fase aguda e recuperação das condições do paciente, o segundo tempo cirúrgico reconstituirá́ o trânsito intestinal. Nas situações de hemorragia pela DDC, em cerca de 90% dos casos ocorre resolução espontânea, sem necessidade de qualquer abordagem terapêutica especifica, além da reposição volêmica. Em pacientes com sangramento contínuo e/ou Cirurgia geral – Dr. Raphael persistente, poderá́ haver indicação de cirurgia, com remoção do segmento de colón envolvido, ou, através de arteriografia mesentérica, a embolização do vaso sangram-te. A opção ficará na dependência da disponibilidade dos recursos existentes. Porém, a opção cirúrgica, é sempre importante a localização do local de sangramento, através da colonoscopia, da arteriografia ou de estudos cintigráficos. Mais recentemente, a cirurgia videolaparoscópica também passou a ser utilizada para a abordagem do colón, com benefícios: redução da dor no pós- operatório e do íleo paralítico, menor internação hospitalar. No entanto, para obtenção dessas vantagens, deverá haver uma criteriosa seleção dos pacientes, uma vez que a taxa de conversão do procedimento laparoscópico é superior a 20%. Habitualmente, a laparoscopia é utilizada para a liberação do cólon, porém a ressecção e a anastomose são realizadas externamente, exteriorizando o cólon através de pequenas incisões. A cirurgia videolaparoscópica é utilizada para a reconstituição do trânsito em pacientes submetidos a cirurgias de urgência, com fechamento do coto intestinal distal e colostomia proximal (cirurgia de Hartmann). Nessas situações, o segmento proximal do cólon é liberado por vídeo e a anastomose com o coto distal é realizada por grampeadores introduzidos VR. Finalmente, não considerando um quadro agudo de diverticulite complicada por sepse, fístula ou obstrução, quais seriam os candidatos ao tratamento cirúrgico? São os pacientes com episódios recorrentes de diverticulite, aqueles que são insucesso da terapêutica clinica, ou doentes nos quais uma estenose colônica e ́ de causa duvidosa, pacientes sintomáticos com sanfonamento acentuado do sigmoide (e espessamento da parede intestinal). Para esses casos, devemos considerar o tratamento cirúrgico. Entretanto, pacientes que apresentam fatores de risco, ou aqueles imunodeprimidos, os doentes muito velhos e os portadores de divertículos no cólon direito, ou não deverão ser operados, ou, então, deverão ser cuidadosamente reavaliados, considerando-se a relação risco-benefício. Os fatores de risco pré-operatórios que influenciam as taxas de mortalidade pós- operatórias incluem classes mais altas de estado físico da American Society of Anesthesiologists (ASA) e insuficiência de órgãos preexistente. Nos pacientes de risco baixo (ASA P1 e P2), o tratamento cirúrgico pode estar indicado para os pacientes que não melhoram rapidamente com tratamento clínico. No caso da doença diverticular não complicada, o tratamento clínico pode ser continuado por mais dois episódios, sem aumento do risco de perfuração com necessidade de realizar colostomia. Entretanto, os pacientes em tratamento imunossupressor portadores de insuficiência renal crônica ou doença vascular do colágeno têm riscos cinco vezes maiores de perfuração durante episódios recorrentes. O tratamento cirúrgico está indicado para todos os pacientes que apresentam risco cirúrgico baixo com doença diverticular complicada. As metas do tratamento cirúrgico da doença diverticular incluem controle da sepse, eliminação de complicações, como fístula ou obstrução, remoção do segmento colônico enfermo e restauração da continuidade intestinal. As opções atuais para doença diverticular não complicada são ressecção aberta ou laparoscópica do segmento afetado com reanastomose ao retossigmoide. A preservação de segmentos do cólon sigmoide pode resultar em recidiva precoce da doença. Os benefícios da ressecção laparoscópica em comparação com as técnicas cirúrgicas abertas são alta mais precoce, menor utilização de narcóticos, menos complicações pós-operatórias e retorno mais rápido ao trabalho. As opções de tratamento cirúrgico para doença diverticular complicada são os seguintes procedimentos cirúrgicos abertos ou laparoscópicos: (1) derivação proximal do trânsito fecal por ileostomia ou colostomia e remendo omental suturada com drenagem, (2) ressecção com colostomia e fístula mucosa ou fechamento do intestino distal com formação de uma bolsa de Hartmann, (3) ressecção com anastomose (coloproctostomia) ou (4) Cirurgia geral – Dr. Raphael ressecção com anastomose e derivação (coloproctostomia com ileostomia em alça ou colostomia). (5) A técnica laparoscópica de lavagem e drenagem sem derivação foi descrita para pacientes da classe III de Hinchey; alguns autores relataram índices três vezes maiores de peritonite recidivante com necessidade de reoperar apenas com o procedimento de lavagem. Os pacientes com doença no estágio Ia de Hinchey são tratados apenas com antibióticos, seguidos de ressecção e anastomose dentro de 6 semanas. Os pacientes com doença nos estágios I e II de Hinchey devem ser tratados com drenagem percutânea, seguida de ressecção e anastomose cerca de 6 semanas depois. As diretrizes atuais da American Society of Colon and Rectal Surgeons sugerem, além do tratamento antibiótico, a drenagem percutânea guiada por TC de abscessos diverticulares com > 3 cm e com paredes bem definidas. Os abscessos que medem < 5 cm podem regredir apenas com tratamento antibiótico. As contraindicações para a drenagem percutânea consistem em inexistência de uma via de acesso percutânea, presença de pneumoperitônio ou peritonite fecal. A intervenção cirúrgica de urgência deve ser realizada quando a drenagem percutânea é ineficaz e os pacientes desenvolvem peritonite generalizada, e a maioria precisa ser tratada por operação de Hartmann (ressecção do cólon sigmoide com colostomia distal e coto retal). Em casos selecionados, o tratamento não cirúrgico pode ser considerado. Existem controvérsias quanto ao tratamento dos pacientes com doença no estágio III de Hinchey. Nesse grupo de pacientes, não há peritonite focal e presume-se que a perfuração esteja “selada”. Nenhum tipo de anastomose deve ser tentado nos pacientes com doença no estágio IV de Hinchey ou presença de peritonite fecal. A doença diverticular recorrente desenvolve-se nos pacientes depois de uma ressecção cirúrgicainadequada. Um segmento restante de cólon retossigmoide afetado está associado à incidência duas vezes maior de recidiva. A síndrome do intestino irritável também pode causar recorrências dos sintomas iniciais. Os pacientes submetidos à ressecção cirúrgica de uma possível diverticulite com sintomas crônicos de cólicas abdominais e evacuações irregulares de fezes amolecidas compatíveis com síndrome do intestino irritável têm resultados funcionalmente mais precários. ANOTAÇÕES DA AULA: ----------------------------------------- DOENÇA DIVERTICULAR: - diverticulose: presença de divertículo no colón, é assintomático. - diverticulite: é a complicação da presença de divertículos no intestino. - doença diverticular: o paciente tem dor, constipação, distinção, sintomas inespecíficos. FISIOPATOLOGIA: - Alimentação ruim, sedentarismo. - Geralmente ocorre nas áreas de fragilização. - Processo de envelhecimento (degeneração de colágeno) TIPOS DE DIVERTÍCULOS: - divertículos falsos (pseudodiverticulos) mais comuns no colón: apenas algumas camadas - divertículos verdadeiros: todas as camadas FATORES DE RISCO: Bolo fecal enrijecido, ingestão de pouca fibra, ingestão de muita gordura. EPIDEMIOLOGIA: maioria assintomatica, poucos pacientes tem complicacoes: doenca diverticular, estenose, fistula, hemorragia, absceso QUADRO CLÍNICO: - doença divertificular: sintomas inespecíficos: cólicas abdominais, constipação - complicação: diverticulite aguda: causada por obstrução do divertículo causando uma hiperproliferação bacteriana Sintomatologia: - diverticulite aguda inicial: dor no quadrante inferior esquerdo, febre baixa, leucocitose, constipação ou diarreia - diverticulite aguda complicada: formar abcesso Cirurgia geral – Dr. Raphael CLASSIFICAÇÃO DE HINCHEY: tomografia - Estagio I: diverticulite aguda não complicada - Estagio II: diverticulite complicada por formação de abcesso - Estagio III: rompimento do abcesso - Estagio IV: rompimento do divertículo e contamição da cavidade. Diverticulite aguda com abcesso: leucocitose, irritação no local do abcesso, febre, do intensa, pcr aumentado, ainda não tem peritonite. Quando rompe o abcesso tem secreção e fezes: peritonite generalizada, taquicardia, hipotensão. TRATAMENTO - assintomática: mudança no estilo de vida - sintomática sem complicação: antibiótico terapia + mudança no estilo de vida - diverticulite aguda: fazer antibioticoterapia gram – cefalosporina de 3 geração ou amoxicilina com clavulanto ou aminoglicosídeo, medicação pra náusea, dor, dieta com pouco resíduo fecal para não irritar a área complicada. - diverticulite aguda complicada com abcesso: * abcesso pequeno: antibiótico terapia isolada. * abcesso grande: drenar o abcesso guiada por exames de imagem + antibiótico terapia - diverticulite com contaminação da cavidade: ostomia terminal e fechamento do retossigmoidotomia Hartmann. Se condições não favoráveis não fazer anastomose. * é difícil reverter a bolsa de colostomia * se paciente séptico: operar COMPLICAÇÕES - estenose: vários episódios de diverticulite aguda, oclusão ou suboclusão intestinal, por várias cicatrizações, distinção abdominal, dor abdominal, para de eliminação de fezes e flatos, pode ter vomito fecaloide. - hemorragia: é comum, hemorragia digestiva baixa, exames: colonoscopia, tc com contraste, angiografia, cintilografia com hemácias marcadas. - fístula: frequentemente acontece com o episódio de diverticulite aguda, e o intestino está na eminencia de perfurar, faz ligação com outro órgão.