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PsiResenha Nunca me sonharam

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PSICOLOGIA SOCIAL
Resenha 
Título:	Nunca me sonharam 
Documentário: Brasileiro
Ano: 2017
Direção: Cacau Rhoden
Duração: 90 minutos
Classificação:	Livre
Temos como tradição conceber a Educação como mecanismo de disseminação de ideias e de fomento no desenvolvimento da Sociedade. Desde a Antiguidade grega vem sendo depositado grande esperança nos processos de educação, de ensino voltado à constituição de cidadãos aptos ao debate político e ao trabalho. A Constituição vem tutelar as regras adotadas para a qualificação do trabalho, na formação do indivíduo e no desenvolvimento da Educação no País, contribuindo para a formação cidadã.
No Artigo 205, da Constituição Federal: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
 O documentário “Nunca me sonharam” tem como ponto central de discussão os jovens de escolas públicas do Ensino Médio se inicia com paisagens transitórias, movediças – mar, trem, porto, céu com pássaros que captam simbologias da fase de transição vivida pelos personagens protagonistas. Dentro desse conjunto de imagens, algumas vozes surgem: “Eu quero ser uma adulta criança”; “Eu não queria ser jovem não. Queria passar direto para a fase adulta”; “Eu sou um defeito de fábrica”; “A única certeza que tenho é que um dia vou morrer”; “A partir do momento em que o sonho foi tirado de mim, aí eu desisti dele também”; “Eu quero que você saia do seu mundinho e cresça” ...Tais falas ecoam e ganham contornos de atos. Está formado assim o coro de dezenas de jovens que expõem seus depoimentos do início ao fim do filme. Gestores, professores, artistas e outros profissionais participam como depoentes, mas são os jovens os personagens principais. Não é de forma gratuita que a imagem inicial do documentário focaliza o artigo da Constituição Federal. Em se tratando da educação como temática propulsora para o debate e considerando o desejo de fala dessa juventude, o Estado, a família e a sociedade ouvirão essas vozes? Para quem, para que e por que esses jovens falam?
O documentário se fraciona em sete partes distintas para o desenvolvimento dessas questões:
 “Tempestade e trovão” é a primeira parte e aborda o universo da adolescência, numa perspectiva da construção da sua própria identidade fazendo escolhas e descobrindo o novo. Essa é uma fase muito difícil, mas também inesquecível. As possibilidades de experimentação trazem o risco como algo natural e importante para a construção dos limites. Na cultura brasileira não existe rito de passagem da infância, adolescência e fase adulta. Pode-se dizer que o Ensino Médio cumpre esse papel na formação desse grupo. A escola como símbolo de embate formando um espaço gerador de reflexões e críticas, como a do adolescente de Goiânia, “Em momento algum dialogam com a gente, em momento algum chegam para perguntar o que vocês acham?” bem como o da jovem de 16 anos, paulista, “a gente se assusta como vai ser mais pra frente e como a gente vai construir o nosso espaço e como a gente vai conseguir trabalhar sendo que já está faltando e quando vai melhorar? Quando vai chegar a nossa vez, entendeu? Será que vai ter pra nós ainda?” 
Como lidar com esses jovens apaixonados pelo real, se a maioria das pessoas que lhes servem de espelho não reflete o real? Eles têm muitos sonhos e novas ideias, mas poucas pessoas se propõem a escutar.
 “A chave”, citada na segunda parte, seria a educação? A chave para abrir as portas do conhecimento e, ao mesmo tempo, dar acesso para os outros direitos? Colocação do economista Ricardo Paes de Barros, no seu depoimento. Os jovens reconhecem a importância que o ensino tem e como os professores influenciam, contribuindo para mudanças relevantes em suas vidas. O documentário aponta os problemas estruturais da educação e chama a atenção para o compromisso que o Estado e a sociedade deveriam ter com a educação. Não há como conseguir garantir o direito à saúde e os direitos políticos quando não é possível entender a sociedade em que vive. Por isso, a educação é uma ferramenta de transformação tão poderosa, capaz de construir tantas mil possibilidades, o que justifica seu valor intrínseco.
A juventude brasileira não é apenas uma, são várias dentro de uma sociedade totalmente desigual. A infância sofre um processo de encurtamento pela necessidade de integrar o mercado de trabalho. Crianças que trabalham o não fazem vontade própria, mas para ajudar os pais na renda familiar, por uma gravidez ou para o tráfico de drogas e por isso têm mais chances de abandonar a escola. Pesquisa da organização Todos Pela Educação concluiu que 62% dos jovens que abandonaram a escola têm entre 15 a 17 anos de idade. 
Como os jovens podem ser livres para inventar seu próprio futuro, se não são livres para estudar e pensar sobre isso? Falta tempo e oportunidade para sonhar, para ocupar novos espaços. Um dos adolescentes deixou ainda mais claro sua angústia sobre a vulnerabilidade social que está inserida: “Eu vivo sem ter certeza do que vai me acontecer amanhã, tento planejar, mas não sei. O que a gente vai ser? Está jogado à sorte.”
A educação com caráter instrumental, para servir para um ofício, uma profissão. “além de produzir sequelas psicológicas do encurtamento dos sonhos, mata o futuro”, diz o documentário. 
“Nunca me sonharam”, que dá nome ao filme, na terceira parte, leva-nos a pensar nos caminhos ou descaminhos da educação no país e como essa falta de cuidado pode prejudicar a formação dos adolescentes. Diretores de escolas públicas por todo país colocam os problemas enfrentados no dia a dia das escolas, diante do papel social que desempenham na vida dos alunos. A professora Macaé Evaristo se posiciona, “mesmo a escola mais chata salva milhares de vidas no nosso país”. Com atendimento de 82% das crianças, jovens e adolescentes no Brasil, conforme informou a Pedagoga Bernadete Gatti, dependem da rede pública. O Professor e filósofo Renato Janine Ribeiro fala da importância de ampliar a rede pública de ensino, melhorar a qualidade e abrir caminho para inovação. E, como um grito de alerta, em jovem do interior expõe seus pensamentos: “Como os meus pais não foram bem sucedidos na vida, eles também não me influenciavam, não me davam força para estudar. Achavam que quem entrava numa universidade era filho de rico; acho que eles não acreditavam que um pobre também pudesse ter conhecimento, pudesse ser inteligente, sabe? Para eles o máximo era terminar o Ensino Médio e arrumar emprego, trabalhar em roça, tipo vendedor ou alguma coisa do tipo. Acho que nunca me sonharam sendo um psicólogo, nunca me sonharam sendo um professor, nunca me sonharam sendo um médico. Eles não sonhavam e não me ensinaram a sonhar...”. Formando um círculo vicioso pais sem sonhos não incentivam “o sonhar” de seus filhos. Diante desta realidade, resta aos menos favorecidos aprender o mais rápido possível, ter um certificado para entrar mais rápido no mercado de trabalho.
A universidade ainda é vista como um privilégio de alguns. O “nunca me sonharam” não está somente nos pais. A sociedade e o Estado por sua vezes, nega os sonhos de toda uma juventude, não se preocupando com o planejamento e investimentos em políticas públicas para a educação, desta forma as experiências sociais dos jovens pobres serão desperdiçadas, desvalorizando sua bagagem cultural por não possuírem acesso público a um diploma.
“Grades” na quarta parte, o debate fica relacionado ao espaço físico das escolas públicas, na sua grande maioria se remete ao formato de presídios. Uma escola deveria ser um lugar agradável, onde os alunos sentissem prazer em estarem ali, se sentissem acolhidos. Mas não só a construção do prédio, mas a construção do próprio ensino, da organização do currículo. A “grade” curricular não está inserida no convívio, no dia a dia dos alunos naquela comunidade e por muitas vezes impossibilitando, ao próprio discente,