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Indaial – 2020 Educação Patrimonial Profª Graciela Márcia Fochi 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2020 Elaboração: Profª Graciela Márcia Fochi Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: F652e Fochi, Graciela Márcia Educação patrimonial. / Graciela Márcia Fochi. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 262 p.; il. ISBN 978-65-5663-064-9 1. Educação patrimonial. – Brasil. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 370 aPrEsEntação Caro acadêmico! Com o livro de estudos de Educação Patrimonial, almeja-se abordar, analisar, refletir e sugerir um roteiro mínimo de conteúdos e atividades educativas para que você, enquanto profissional da história, possa demonstrar conhecimentos, habilidades, competências bem como possa lançar mão de estratégias de ensino e aprendizagem levando em consideração o repertório que a humanidade produziu, elaborou, conservou e transmitiu em termos de patrimônio histórico e cultural, tanto de natureza material como imaterial, tangível e intangível, consagrado e não consagrado. O Brasil é um país pluricultural, caracterizado pela ampla variedade e diversidade de bens, expressões, referências e manifestações culturais. Logo, a educação patrimonial deve ser um tema e um conteúdo abordado de modo interdisciplinar e transversal, no sentido de fomentar a vivência, o testemunho, a valorização das memórias, dos fazeres, dos saberes, entre outros e, em especial, a participação e a construção coletiva de conhecimentos. As possibilidades da Educação Patrimonial são inúmeras e podem contribuir significativamente em termos de ampliação e renovação dos métodos e atividades didático-pedagógicos tradicionais no ensino da História, bem como fornecer recursos no que diz respeito à inclusão de fontes, abordagens, problemas, temas e conteúdos históricos; em especial, tornar o conhecimento histórico dinâmico, experimental, verificável, inclusivo, participativo e criativo tanto no campo educacional quanto patrimonial e comunitário. Na Unidade 1 descreve-se as principais concepções e conceitos, as instituições, os órgãos, os processos, os procedimentos e os documentos que existem no sentido de gerir, resguardar e legitimar os exemplares reconhecidos do patrimônio histórico e cultural, da memória e da identidade na sociedade contemporânea; aborda-se a importância dos bens, expressões e referências culturais aos indivíduos e à sociedade, das ações educativas, da mediação cultural, dos espaços escolares formais e não formais. Na Unidade 2 apresenta-se os bens, os exemplares e os espaços de patrimônio histórico e cultural cuja dimensão material é mais expressiva e evidente, trata-se dos bens tangíveis imóveis e móveis, tais como sítios arqueológicos, centros históricos, museus, arquivos, monumentos, atividades artesanais e industriais, nomes de rua, indumentária, objetos antigos e coleções entre outros, procura-se sugerir atividades de ensino- aprendizagem que podem ser realizadas com tais exemplares no intuito de que os estudantes exercitem ainda mais habilidades e competências de pesquisa e construção do conhecimento histórico. Na Unidade 3 contempla-se as expressões, os bens e as referências de Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novi- dades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é NOTA patrimônio histórico e cultural cuja dimensão mais manifesta é a imaterial, a intangível, tais como lugares de memória, fotografias, caminhos, estradas, passagens, roteiros, paisagens, comemorações, festas populares, costumes, tradições, gastronomia, lendas, rituais entre outros, para os quais sugere-se atividades de ensino-aprendizagem que exercitem a pesquisa e a construção do conhecimento histórico, e em especial a participação e a vivência coletiva e cultural. Pretende-se que os temas e conteúdos abordados no Livro Didático de Educação Patrimonial sejam uma ferramenta para compreender e reconhecer como a tríada temporal (o passado, o presente e o futuro): • encontra-se emaranhada e confundida, e o quanto são codependentes e corresponsáveis; • contribui na valorização de todo legado em termos de patrimônio histórico e cultural até então acumulado e ao que ainda vai ser criado e que, cada vez mais, esteja disponível ao acesso, ao conhecimento e à fruição; • sensibilize e conscientize sobre a necessidade de ações como de pesquisa, divulgação, salvaguardo e preservação nas mais diferentes localidades de cada país; • contribui na melhoria da autoestima dos diferentes grupos culturais e que aproxime e favoreça o diálogo entre as diferentes gerações. Por fim, parafraseia-se o célebre poeta e tradutor brasileiro Augusto de Campos (1988, p. 7), quando escreve que: [...] assim como há gente que tem medo do novo, há gente que tem medo do antigo. Eu defenderei até a morte o novo por causa do antigo e até a vida o antigo por causa do novo. O antigo que foi novo é tão novo como o mais novo. O que é preciso é saber discerni-lo no meio das velhacas velharias que nos impingiram durante tanto tempo [...]. Votos de que você realize uma bela e satisfatória jornada de conhecimentos e aprendizagens pela frente. Profª Graciela Márcia Fochi o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagra- mação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilida- de de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assun- to em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complemen- tares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE sumário UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? ............................................................. 1 TÓPICO 1 — PRINCIPAIS CONCEPÇÕES E CONCEITOS ......................................................... 3 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3 2 O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? ...................................................................................... 3 2.1 O QUE É PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL? ............................................................ 4 2.2 PATRIMÔNIO HISTÓRICO MATERIAL E/OU TANGÍVEL ................................................... 5 2.3 PATRIMÔNIO CULTURALIMATERIAL E/OU INTANGÍVEL ............................................. 7 2.4 SABERES TRADICIONAIS ASSOCIADOS À NATUREZA ................................................... 11 3 PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL COMO FONTE DE CONHECIMENTO ...... 12 3.1 PASSADO, PRESENTE E FUTURO: ENTRAVES E POTENCIALIDADES ........................ 13 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 17 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 19 TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS ..................................................... 21 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 21 2 PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E ÓRGÃOS ................................................................................. 21 2.1 ONU ............................................................................................................................................... 21 2.2 UNESCO ....................................................................................................................................... 22 2.3 ICOM ............................................................................................................................................. 22 2.4 ICOMOS ........................................................................................................................................ 22 2.5 IPHAN ............................................................................................................................................ 23 2.6 IBRAM ........................................................................................................................................... 24 2.7 SECRETARIAS E CONSELHOS MUNICIPAIS ........................................................................ 25 2.8 OS DETENTORES ........................................................................................................................ 25 3 PRINCIPAIS PROCESSOS .............................................................................................................. 26 3.1 CARTAS, DECLARAÇÕES, RECOMENDAÇÕES, COMPROMISSOS E AGENDAS ....... 26 3.2 AÇÕES DE SALVAGUARDO .................................................................................................... 28 3.3 ATIVIDADES DE INVENTÁRIO ............................................................................................... 29 3.4 MEDIDAS DE CONSERVAÇÃO ............................................................................................... 31 3.5 PRÁTICAS DE RESTAURO ........................................................................................................ 32 3.5.1 Carta de Veneza, Itália, 1964 .............................................................................................. 33 3.5.2 Carta do Restauro, Itália, 1972 ........................................................................................... 34 4 TOMBAMENTO, CANCELAMENTO DE TOMBAMENTO, RESTITUIÇÃO E REPATRIAÇÃO ................................................................................................. 35 4.1 PROCESSOS DE TOMBAMENTO ............................................................................................. 36 4.2 CANCELAMENTO DE TOMBAMENTO ................................................................................ 36 4.3 CHANCELA DE PAISAGEM CULTURAL .............................................................................. 38 4.4 RESTITUIÇÃO E REPATRIAÇÃO ............................................................................................. 41 RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 44 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 46 TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO ............................... 49 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 49 2 TRAJETÓRIA DO PATRIMÔNIO E DA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL NO BRASIL ....... 49 2.1 MEMÓRIA E IDENTIDADE NA CONTEMPORANEIDADE .............................................. 55 2.2 IMPORTÂNCIA DA VIDA CULTURAL E DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO ..................... 58 2.3 AS CONTRIBUIÇÕES E AS POSSIBILIDADES DA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL ......... 61 2.4 ESPAÇOS FORMAIS E NÃO FORMAIS EM EDUCAÇÃO PATRIMONIAL ..................... 64 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 67 RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 71 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 73 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: EVIDÊNCIAS MATERIAIS .......................... 75 TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS ..................................................................................... 77 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 77 2 O QUE É ARQUEOLOGIA? ............................................................................................................ 79 3 OS DIFERENTES RAMOS/MODALIDADES DA ARQUELOGIA ........................................ 81 4 O QUE FAZ A (O) ARQUEÓLOGA (O)? ...................................................................................... 85 4.1 PRINCIPAIS PROCEDIMENTOS ............................................................................................... 86 4.2 PRINCIPAIS EVIDÊNCIAS ENCONTRADAS EM SÍTIOS.................................................... 87 4.3 PREVISÕES LEGAIS SOBRE OS ACHADOS ARQUEOLÓGICOS ...................................... 87 5 PRINCIPAIS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS ................................................................................. 88 6 O PATRIMÔNIO ARQUEOLÓGICO ............................................................................................ 93 7 EDUCAÇÃO PATRIMONIAL VOLTADA À ARQUEOLOGIA: A IMPORTÂNCIA DA ARQUEOLOGIA PÚBLICA ................................................................. 95 8 ATIVIDADES EDUCATIVAS COM EVIDÊNCIAS MATERIAIS EM ESPAÇOS ESCOLARES: ALGUMAS SUGESTÕES ......................................................................................... 97 RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 100 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 101 TÓPICO 2 — CENTROS HISTÓRICOS ........................................................................................ 103 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 103 2 CENTROS HISTÓRICOS: TRAJETÓRIA E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS .............. 104 3 PRINCIPAIS PROJETOS BRASILEIROS EM CENTROS HISTÓRICOS .......................... 107 3.1 PROGRAMA MONUMENTA .................................................................................................. 109 3.2 ROTEIROS NACIONAIS DE IMIGRAÇÃO EM SANTA CATARINA/SC ........................ 110 4 PRINCIPAIS ABORDAGENS AOS CENTROS HISTÓRICOS ............................................. 113 5 PRÁTICAS ARTESANAIS ............................................................................................................. 116 RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................119 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 120 TÓPICO 3 — MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS ......................... 123 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 123 2 OS MUSEUS ..................................................................................................................................... 124 2.1 AS CONTRIBUIÇÕES DOS MUSEUS AO UNIVERSO ESCOLAR .................................... 126 2.2 PREPARANDO UMA VISITA AO MUSEU ............................................................................ 128 3 AS COLEÇÕES ................................................................................................................................ 130 4 OBJETOS ANTIGOS ...................................................................................................................... 133 4.1 DESCOBRINDO UM OBJETO ANTIGO ................................................................................. 134 5 OS ARQUIVOS PÚBLICOS .......................................................................................................... 136 6 A CULTURA MATERIAL, A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E O ENSINO DE HISTÓRIA ...................................................................................................... 139 6.1 A PRESENÇA DOS TEMAS DO PATRIMONIO HISTÓRICO E CULTURAL MATERIAL NA BNCC .................................................................................... 140 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 143 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 147 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 149 UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: EXPRESSÕES IMATERIAIS ...................... 151 TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA ................................ 153 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 153 2 SABERES, MODOS DE FAZER E OFÍCIOS .............................................................................. 156 2.1 A RENDA IRLANDESA DA DIVINA PASTORA/SE ........................................................... 159 3 LUGARES DE MEMÓRIA ............................................................................................................. 161 3.1 CELEBRAÇÕES, RITUAIS E PRÁTICAS RELIGIOSAS ....................................................... 163 3.1.1 O Ritual Yaokwa do povo indígena Enawene Nawe/MT ............................................ 166 3.1.2 Atividades didático-pedagógicas com rituais iniciáticos e de passagem ................. 168 3.2 PROCISSÕES E ROMARIAS ..................................................................................................... 170 3.2.1 Romaria de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida do Norte/SP .......................... 171 3.2.2 Romaria do Pe. Cícero, em Juazeiro do Norte/CE ....................................................... 172 3.2.3 Romaria do Bom Jesus da Lapa, em Bom Jesus da Lapa/BA ...................................... 173 3.2.4 Atividades didático-pedagógicas com fenômenos religiosos ..................................... 174 3.3 OS ESPAÇOS DE CEMITÉRIOS ............................................................................................... 176 3.3.1 Cemitério de Santa Isabel de Mucugê/BA ..................................................................... 178 3.3.2 Atividades didático-pedagógicas com espaços de cemitérios ..................................... 179 3.4 OS TERREIROS DE RELIGIÕES DE MATRIZES AFRO-BRASILEIRAS ............................ 183 RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 187 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 188 TÓPICO 2 — PAISAGEM CULTURAL, CAMINHOS/ESTRADAS E FOTOGRAFIAS ANTIGAS ................................................................................. 191 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 191 2 PAISAGEM CULTURAL ............................................................................................................... 193 3 CAMINHOS, ESTRADAS E PEREGRINAÇÕES ..................................................................... 197 3.1 O CAMINHO DO PEABIRU .................................................................................................... 198 3.2 A ESTRADA REAL .................................................................................................................... 199 3.3 O CAMINHO DO SOL .............................................................................................................. 200 3.4 O CAMINHO DA FÉ.................................................................................................................. 201 3.5 O CAMINHO DAS MISSÕES .................................................................................................. 201 3.6 OS PASSOS DE ANCHIETA ..................................................................................................... 202 3.7 O CAMINHO DE LUZ ............................................................................................................... 202 4 FOTOGRAFIAS ANTIGAS .......................................................................................................... 203 4.1 AS SETE QUEDAS DO IGUAÇU/GUAÍRA/PR ..................................................................... 205 4.2 LARGO DA ORDEM EM CURITIBA/PR ................................................................................ 207 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 212 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 213 TÓPICO 3 — FESTAS POPULARES, GASTRONOMIA E ENDUMENTÁRIA CULTURAL ............................................................................. 215 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 215 2 EXPRESSÕES POPULARES BRASILEIRAS .............................................................................. 217 2.1 MARACATUS DE PERNAMBUCO ......................................................................................... 219 2.2 O CARIMBÓ ................................................................................................................................ 220 2.3 ANIMAÇÃO E TEATRO DE BONECOS ............................................................................... 222 3 A GASTRONOMIA CULTURAL ................................................................................................. 223 3.1 COMIDA MEXICANA DA REGIÃO DE MICHOACÁN .................................................... 225 3.2 PÃO DE GEMGIBRE DA CROÁCIA ....................................................................................... 226 3.3 WASHOKU JAPONES ................................................................................................................ 226 3.4 GASTRONOMIA GOURMET DA FRANÇA ......................................................................... 227 3.5 DIETA MEDITERRÂNEA .........................................................................................................227 3.6 POSSIBILIDADES DE ABORDAGENS DOS TEMAS DA GASTRONOMIA .................. 228 4 MODA, ENDUMENTÁRIA E VESTIMENTAS CULTURAIS .............................................. 229 4.1 VESTIMENTAS CULTURAIS ................................................................................................... 235 4.1.1 Sári ....................................................................................................................................... 235 4.1.2 Qípáo ................................................................................................................................... 236 4.1.3 A Kanga do Quênia ........................................................................................................... 237 4.1.4 Hanbok ............................................................................................................................... 237 4.1.5 Dirndl e Lederhosen ......................................................................................................... 238 4.1.6 Flamenca ............................................................................................................................. 239 4.1.7 O caso das vestimentas das populações andinas .......................................................... 240 4.1.8 As cholas andinas ................................................................................................................ 240 4.1.9 O caso do Peru .................................................................................................................... 241 5 CONSIDERAÇÕES GERAIS ÀS ATIVIDADES DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL ........ 243 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 246 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 249 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 251 1 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • diferenciar as principais concepções e conceitos que se referem ao patrimônio histórico e cultural, tais como patrimônio material, patrimônio imaterial, inventários, conservação, restauro, tomba- mento e repatriação; • identificar as principais instituições, órgãos, instâncias, docu- mentos e processos que normatizam, regulamentam e orientam as atividades o salvaguardo e a manutenção de bens, expressões e referências culturais; • reconhecer as ações de educação patrimonial como primordiais às atividades de salvaguardo, de continuidade e na transmissão do legado em termos de patrimônio histórico e cultural da huma- nidade às gerações futuras; • compreender a importância da vida cultural e do patrimônio his- tórico para a memória, para a identidade e na construção de uma sociedade mais humanizada, pacífica e igualitária. 2 Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA PLANO DE ESTUDOS Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – PRINCIPAIS CONCEPÇÕES E CONCEITOS TÓPICO 2 – PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS TÓPICO 3 – TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 3 TÓPICO 1 — UNIDADE 1 PRINCIPAIS CONCEPÇÕES E CONCEITOS 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, este tópico aborda os principais conceitos, concepções, termos e expressões que são utilizadas no campo do patrimônio histórico e cultu- ral e da educação patrimonial. O domínio e a apropriação desses conceitos são de fundamental impor- tância para o seu uso e reconhecimento da criação de projetos, da realização de ações práticas ou como alguém que estuda, pesquisa, visita, participa e desfruta de locais, bens e expressões de patrimônio histórico cultural. 2 O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? Consiste em toda e qualquer iniciativa e ação que almeje a pesquisa, o co- nhecimento, a preservação, a apropriação, a manutenção, a divulgação e a valoriza- ção dos exemplares e expressões e bens culturais, em especial, que visam assegurar a continuidade e a transmissão do legado histórico e cultural entre as gerações. A vasta variedade de ações e projetos que contêm concepções e objetivos pedagógicos, metodologias, estratégias, vivências e experiências práticas que mobi- lizam e/ou contemplam conjuntos de bens, monumentos, sítios históricos ou arque- ológicos, centros históricos urbanos ou comunidades rurais, locais ou processos de produção industrial ou artesanal, tecnologias e saberes populares a paisagens natu- rais e culturais, locais e manifestações populares de caráter folclórico ou ritual, par- ques ou áreas de proteção ambiental, enfim, qualquer outra expressão que resulte da relação entre indivíduos de forma individual e coletiva e com o meio ambiente. Nas palavras de Grumberg (2007) educação patrimonial consiste no pro- cesso permanente e sistemático de trabalho educativo, formal e não formal, cons- truídos de forma coletiva e dialogada, que tem como ponto de partida e centro de convergência o Patrimônio Cultural nas suas mais diferentes manifestações e expressões. A autora nos lembra, também, que tudo o que o homem faz e produz é exemplar de cultura, que a cultura resulta de um processo dinâmico, que se her- da, que se cria e recria em meio ao cotidiano da vida, em meio à soluções de pe- quenos e grandes problemas que cada indivíduo, grupo e sociedade se deparam. UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 4 Horta, Grunberg e Monteiro (1999) explicam que a educação patrimonial representa um instrumento de “alfabetização cultural” que permite que os indi- víduos façam leituras e interpretações do mundo, da realidade, da história, da memória e da cultura que os rodeia, situando-os no tempo e no espaço. A educação patrimonial está fortemente relacionada à ações educativas das mais diferentes áreas do conhecimento, logo requer abordagem interdisciplinar e transdisciplinar; assim como solicita que se contemple tanto em espaços de ensino- -aprendizagem formais como não formais, bem como todas as situações e oportuni- dades em que as pessoas se reúnem para construir, dividir, relatar, celebrar e partilhar conhecimentos, investigar e inventariar com intuito de conhecer e acompanhar melhor, problematizar, reverter e transformar a realidade na qual se encontram inseridas. As ações em educação patrimonial devem despertar a consciência e a preocupação para com locais e expressões coletivos de cultura e patrimônio, no sentido de justificar a sua manutenção e ampliação, o livre acesso e apropriação, fomentar o diálogo, colaborações e intercâmbios, elevar a autoestima dos cida- dãos responsáveis, bem como fornecer elementos à renovação dos temas e pers- pectivas da História enquanto disciplina e saber e conhecimento. 2.1 O QUE É PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL? Caro acadêmico, foi possível estudar a variação de concepção que o con- ceito possuí, neste momento, procura-se apresentar mais definições e elementos ao entendimento da noção de patrimônio histórico e cultural mais contemporâ- neo. Acompanhe o prosseguimento dos conteúdos. Mário Chagas (2002, p. 36) descreve que patrimônio constitui “um conjunto de- terminado de bens tangíveis, intangíveis e naturais, envolvendo saberes e práticas sociais, a que se atribui determinados valores e desejos de partilha (perspectiva sincrônica) entre contemporâneos e de transmissão (perspectiva diacrônica) de uma geração para outra”. A definição para referências culturais descrita pelo Iphan (2000, p. 29) contribui no sentido de ampliar as denominações de Chagas, observe: [...] referências são edificações e são paisagens naturais. São também as artes, os ofícios,as formas de expressão e os modos de fazer. São as festas e os lu- gares a que a memória e a vida social atribuem sentido diferenciado: são as consideradas mais belas, são as mais lembradas, as mais queridas. São fatos, atividades e objetos que mobilizam a gente mais próxima e que reaproxi- mam os que estão longe, para que se reviva o sentimento de participar e de pertencer a um grupo, de possuir um lugar. Em suma, referências são obje- tos, práticas e lugares apropriados pela cultura na construção de sentidos de identidade, são o que popularmente se chama de raiz de uma cultura. Nestor Canclini (1994) contribui com uma definição que engloba as relações nas quais o patrimônio cultural se encontra envolvido, pois, segundo o autor, o patri- TÓPICO 1 — PRINCIPAIS CONCEPÇÕES E CONCEITOS 5 mônio cultural constitui um conjunto social e cultural próprio, que sustenta uma iden- tidade e o diferencia de outros grupos, não abarca apenas os monumentos históricos, o desenho urbanístico e outros bens físicos; engloba também a experiência vivida, que se condensa em linguagens, conhecimentos, memórias, tradições imateriais, modos de usar os bens e os espaços físicos. O patrimônio é responsável por possibilitar a solida- riedade entre os que se identificam em determinados bens e práticas e que, por outro lado, costuma ser o local em que se forjam e amparam as cumplicidades sociais que se encontram fortemente estratificadas mediante a existência de classes e grupos. Cesar (2011, p. 73 apud CURITIBA, 2014, p. 10) defende que: Patrimônio cultural pode ser entendido como uma espécie de referen- cial social, permitindo com que o homem melhor se localize no tempo e no espaço. Nesse sentido, o patrimônio cultural pode impulsionar à ação no presente, a transformação social, potencializar a criatividade, desenvolver o enriquecimento cultural. Tudo isso justifica a sua pre- servação e conservação, e o seu restauro quando necessário. 2.2 PATRIMÔNIO HISTÓRICO MATERIAL E/OU TANGÍVEL O Iphan (2018b, p. 30), em parágrafo único, define: “por patrimônio cul- tural material entende-se o universo de bens tangíveis, móveis ou imóveis, to- mados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”. O Iphan — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — se usa da classi- ficação de bens móveis e imóveis: como bens de natureza material imóveis: cidades históricas, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; e/ou móveis, da qual fazem parte coleções arqueológicas, acervos museológicos, arquivísticos, do- cumentais, bibliográficos, fotográficos, cinematográficos e videográficos. A BNCC (BRASIL, 2018, p. 400) traz que: A utilização de objetos materiais pode auxiliar o professor e os alunos a colocar em questão o significado das coisas do mundo, estimulando a produção do conhecimento histórico em âmbito escolar. Por meio dessa prática, docentes e discentes poderão desempenhar o papel de agentes do processo de ensino e aprendizagem, assumindo, ambos, uma “atitude historiadora” diante dos conteúdos propostos, no âmbi- to de um processo adequado ao Ensino Fundamental. Segundo o Iphan (2018b) os principais procedimentos que são aplicados às atividades com bens culturais materiais são: educação patrimonial, identifica- ção, reconhecimento, proteção, normatização, autorização, participação no licen- ciamento ambiental, fiscalização, conservação, interpretação, promoção e difusão. Até o momento, existem mais de 1200 bens de natureza tombados no Bra- sil, e possuí políticas e determinações específicas de proteção ao patrimônio ma- UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 6 terial que ficam subdivididas em setores/categorias como de conjuntos urbanos, conjuntos rurais, fortificações brasileiras, patrimônio arqueológico, patrimônio ferroviário, patrimônio cultural material dos povos indígenas, patrimônio cultu- ral material dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana, patrimônio espeleológico, patrimônio paleontológico, coleções e acervos, bens móveis e inte- grados, arquitetura religiosa, patrimônio da imigração, casas natais ou relaciona- das à personalidades, casas de câmara e cadeia, ruínas, entre outros. FIGURA 1 – FORTE DOS REIS MAGOS. RIO GRANDE DO NORTE/RN FONTE: <https://bit.ly/2PqiI48>. Acesso em: 18 out. 2019. Procure assistir à entrevista intitulada Patrimônio Material, concedida pelo professor, arquiteto e urbanista, Dalmo Vieira Filho que, por muito tempo, esteve à frente do setor de Patrimônio Material do Iphan. A entrevista foi concedida à TV Ufop e está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=rqHqaAZ4aOo. DICAS TÓPICO 1 — PRINCIPAIS CONCEPÇÕES E CONCEITOS 7 2.3 PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL E/OU INTANGÍVEL “Ainda que a argila possa receber a forma de vaso, a essência do vaso re- side em seu interior” (Lao Tsé). Trata-se de uma nomenclatura e categoria criada pela Unesco no ano de 1997. De modo amplo contempla tradições e expressões culturais que são praticadas e pre- servadas por grupos coletivos e que são transmitidas às gerações ascendentes. São to- madas como exemplares e expressões de patrimônio cultural imaterial os conteúdos das expressões de vida, celebrações, rituais, festas e danças populares, músicas, len- das, formas de expressão, costumes, tradições, saberes, modos de fazer, entre outros. Os conteúdos dessas expressões e manifestações geralmente são transmiti- dos de forma oral ou gestual, e por isso são suscetíveis às recriações e modificações com o passar do tempo e das gerações. Ao conceito de patrimônio cultural imaterial encontra-se vinculado também as noções de memória e identidade; as atividades de salvaguardo destinam-se a agir diante das condições e circunstâncias de vulne- rabilidade que afetam estes conteúdos e porções de cultura que são instauradas em virtude das constantes mudanças e transformações da sociedade moderna. Com a inclusão da categoria de patrimônio cultural imaterial, passaram a ser contemplados também a filosofia, os valores e as formas de pensar contidos nas línguas, na oralidades dos gestos, nos jeitos e demais manifestações culturais de minorias étnicas como os povos indígenas, africanos e aborígenes que geralmente são desprovidos de registros escritos sistematizados e/ou inscritos e/ou edificados. Após reuniões e discussões com os mais diferentes profissionais, institui- ções e representantes da área da cultura imaterial, no ano de 1989 a Unesco pu- blicou Recomendação sobre salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular e, a partir de então, passou a estimular atividades de identificação, preservação, continuidade e disseminação destas formas de patrimônio, articulando-se com as comunida- des, os governos, ONGs e demais entidades. No ano de 2003 e 2005, a Unesco, com a ajuda de um corpo de jurados internacional, selecionou e elegeu uma primeira relação de espaços e expressões de excepcional importância e relevância, o que possibilitou a Proclamação das Obras-Primas do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade no qual foi apresentado um montante inicial de 90 obras-primas. UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 8 Para conhecer o documento Recomendações de Paris de 2003, Convenção da Unesco para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial, acesse o conteúdo na íntegra em: https://bit.ly/3k4Wd2C. Para conhecer quais foram as 90 obras primas do patrimônio cultural imaterial faça a seguinte busca: Lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Disponível em: https://bit.ly/2BYcHZb. Veja também Purpose of the Lists of Intangible Cultural Heritage and of the Register of Good Safeguarding Practices, disponível em: https://bit.ly/33qcolh. DICAS Nas Figuras 2 e 3 constam dois exemplos de patrimônios culturais imateriais. Na Figura 2, o Bolo de Rolo, patrimônio cultural imaterial de Pernambuco, reconhe- cido pela Lei 13.436/2008, e na Figura 3, aDança dos Dervixes, reconhecido como patrimônio imaterial da humanidade, na cerimônia Sema, realizada por praticantes do islamismo, considerada patrimônio imaterial mundial da humanidade, observe: FIGURA 2 – BOLO DE ROLO FONTE: <https://bit.ly/30tnS5D>. Acesso em: 4 out. 2019. TÓPICO 1 — PRINCIPAIS CONCEPÇÕES E CONCEITOS 9 FIGURA 3 – DANÇA DOS DERVIXES FONTE: <https://bit.ly/2PnaFoL>. Acesso em: 4 out. 2019. Os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e do- mínios da vida social que são manifestadas e expressas em celebrações, rituais, sabe- res, ofícios e modos de fazer; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdi- cas; e nos lugares como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas. Pode-se considerar até expressões e exemplares mais inusitados tais como dialetos, sotaques, antigos dizeres, cheiros, constelações, paisagens, sons etc. Como exemplares de patrimônio histórico e cultural imaterial estão os antigos dizeres, costumam ser chamados de provérbios, expressões e/ou ditados populares. Estão presentes nas mais diversas sociedades e culturas como a árabe, chinesa, grega, romana, africana, indígena entre outras, muitos não possuem autoria reconhecida. De maneira geral, constituem frases curtas, possuem função de advertência e aconselhamento e, em especial, sentido e significado moralizante; costumam ser anunciados por meio de outras expressões como “Reza a lenda...”, “Já dizia o dita- do...”, “Não tem ditado que diz...” à exemplo de antigos dizeres, pode-se relacionar: • “Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores” (provér- bio chinês). • “Quem estuda e não pratica o que aprendeu é como o homem que lavra e não semeia” (provérbio árabe). • “Pai fazendeiro, filho doutor, neto pescador” (provérbio português). • “Gosto não se discute, se lamenta” (autor desconhecido). UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 10 Caro acadêmico, acredita-se que você também deva conhecer e se utilizar de outros tantos dizeres. Consulte as lembranças e memórias de conversas com familiares e amigos no dia a dia... outros exemplos ainda poderiam ser aqui descritos. UNI O Iphan, por meio de suas ações, já pôde reunir 42 bens imateriais registrados, 7 línguas inventariadas, 149 processos de salvaguarda em andamento, 39 processos de registro em andamento, 160 projetos do Inventário Nacional de Referências Culturais concluídos, 140 ações de apoio e fomento. Para favorecer esses processos foram criados o Livro de Registro de Celebrações: rituais e festas que marcam vivência coletiva, religiosidade, entretenimento e outras práticas da vida social; o Livro de Registros das Formas de Expressão: manifestações artísticas em geral; o Livro de Registro dos Lugares: mercados, feiras, santuários, praças onde são concentradas ou reproduzidas práticas culturais coletivas; e o Livro de Registro dos Saberes: conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades. Observe que é possível acessar os conteúdos dos livros através dos links disponibilizados a seguir: • Livro de Registro de Celebrações: https://bit.ly/2DuMeTw. • Livro de Registros das Formas de Expressão: https://bit.ly/2Dydr7W. • Livro de Registro dos Lugares: https://bit.ly/2XrFaOt. • Livro de Registro dos Saberes: https://bit.ly/3gsF94D. DICAS Dentre os bens registrados e reconhecidos, pode-se relacionar: • Ofício das Paneleiras de Goiabeiras, registrado no ano de 2002. • Kusiwa – Linguagem e Arte Gráfica Wajãpi, registrado no ano de 2002. • Círio de Nazaré, registrado no ano de 2004. • Samba de Roda no Recôncavo Baiano, registrado no ano de 2004. • Modo de Fazer Viola-de-Cocho, registrado no ano de 2005. • Ofício das Baianas de Acarajé, registrado no ano de 2005. • Jongo no Sudeste, registrado no ano de 2005. • Cachoeira de Iauaretê — lugar sagrado dos povos indígenas dos Rios Uaupés e Papuri —, registrado no ano de 2006. • Feira de Caruaru, registrado no ano de 2006. • Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, registrado no ano de 2006. TÓPICO 1 — PRINCIPAIS CONCEPÇÕES E CONCEITOS 11 FIGURA 4 – EXEMPLARES DE PATRIMÔNIO IMATERIAL FONTE: <https://bit.ly/3i2bHT6>; <https://bit.ly/31cSCXK>; <https://bit.ly/3fxg1bj>. Acesso em: 15 nov. 2019. As discussões e a valorização do patrimônio cultural imaterial ainda não se popularizaram e não se consolidaram institucionalmente, de modo geral, ainda pre- valecem as antigas concepções de patrimônio edificado, o que impede que outras ex- pressões e exemplares sejam reconhecidos e prestigiados em meio às comunidades, grupos e pela sociedade como um todo. Muito trabalho ainda precisa ser feito! • Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas, registrado no ano de 2008. • Roda de Capoeira e Ofício dos Mestres de Capoeira, registrado no ano de 2008. • Renda Irlandesa de Divina Pastora, registrado no ano de 2008. • Toque dos Sinos e o Ofício de Sineiro em Minas Gerais, registrado no ano de 2009. • Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis, em Goiás, registrado no ano de 2010. • Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro/AM, registrado no ano de 2010. 2.4 SABERES TRADICIONAIS ASSOCIADOS À NATUREZA Referem-se aos saberes que são manejados, manipulados e que estão sob o domínio das populações, comunidades, famílias e indivíduos pertencentes aos povos indígenas, remanescentes de quilombos, pescadores artesanais, ribeiri- UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 12 3 PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL COMO FONTE DE CONHECIMENTO No campo da pesquisa histórica costuma-se classificar as fontes em três cate- gorias: primárias, secundárias e terciárias. As fontes primárias seriam os documentos, os registros dos itens, os produtos elaborados pelos próprios integrantes de um deter- minado fato, e/ou expressão e manifestação cultural. As fontes secundárias seriam os conjuntos de estudos, de análises e de comparações feitas a partir das fontes primárias. As fontes terciárias seriam as composições a partir das fontes secundárias e das fontes primárias, tais como catálogos de itens, de objetos, coleções, roteiros de visitação, guias turísticos, folhetos explicativos, mapas, conteúdos jornalísticos e publicitários que tra- tam/apresentam os exemplares e as manifestações de patrimônio histórico e cultural. O que é mais importante e primordial para a Educação Patrimonial são as fontes primárias, ou seja, o que foi elaborado de modo direto em meio ao contexto, à época, aos grupos, aos indivíduos que participam e integram os exemplares, as expressões, as manifestações de patrimônio histórico e cultural. Os exemplares de patrimônio histórico e cultural ganham o estatuto de fonte primária direta por constituírem o registro, o docu- mento, o testemunho, a evidência, a manifestação de fatos, dos modos, dos fenômenos, nhos, seringueiros, quebradeiras de coco, caiçaras e inúmeros outros, cujos co- nhecimentos, hábitos, costumes, modos de viver, fazer, tradições, festas, rituais estão profundamente relacionados com a terra, com o rio, o mar, as plantas, os animais, em fim com o ambiente, a natureza que os circunda. Segundo Santili (2005, p. 83), o Congresso Nacional cogita uma definição conceitual para os povos/populações tradicionais que é a de: Grupos humanos culturalmente diferenciados, que estão vivendo há, no mínimo, três gerações em um determinado ecossistema, historica- mente reproduzindo seu modo de vida, em estreita dependência para com o meio natural, do qual obtém a própria subsistência e que fazem uso dos recursos naturais de modo sustentável. Costa (2011) explica que as comunidades tradicionais são consideradas so- ciedades que vivem em culturas particulares e são denominadas de “povos dos ecossistemas”; pois vivem no seu ambiente imediato, utilizam-se de recursos reti- rados apenas do ambiente no qual se encontram inseridos, que em sua maioria não é provido de confortos e tecnologias que estão disponíveis nos centros urbanos. Velho (2012) explica que setrata de populações que detém saberes que os identificam, os diferenciam, representando um nicho cultural no qual encontram as condições de perpetuar suas crenças, valores e formas de vida. O autor adverte que os saberes que permeiam o universo cultural das populações tradicionais e, não raro, são alvo de apropriação por expedições científicas ou interesses para com o extrativismo e exploração de matérias primas. TÓPICO 1 — PRINCIPAIS CONCEPÇÕES E CONCEITOS 13 dos movimentos, das manifestações, das expressões que são tomadas aos estudos. Os exemplares de patrimônio histórico e cultural encontram-se envolvidos em complexas conexões com o momento histórico e contexto social em que foi produzido, amplas redes de relações sociais podem ser tecidas, inúmeros usos e significados que podem lhe ser atribuídos. Para a educação patrimonial é primordial que seja procedido um exercício investigativo que segundo Horta, Grunberg e Monteiro (1999, p. 9) é o de: descobrir esta rede de significados, relações, processos de criação, fa- bricação, trocas, comercialização e usos diferenciados, que dão sentido às evidências culturais e nos informam sobre o modo de vida das pes- soas no passado e no presente, em um ciclo constante de continuidade, transformação e reutilização. Para tanto, são fundamentais as habilidades e competências de observa- ção, descrição, decodificação, a pesquisa e interpretação para suprir e sanar pos- síveis situações de perda de informações, esquecimentos, equívocos, descontex- tualização, descaracterização ou qualquer uso inadequado, atribuição de sentido e valor não apropriado que possa ocorrer. Gazzóla (2009, p. 1455) explica que: [o] patrimônio cultural pode assumir através da educação, um signifi- cado coletivo compartilhado. A escola tem um papel importante neste processo, já que depois da família, é ela que favorece o desenvolvimento do espírito da cidadania, capaz de desencadear uma relação de perten- cimento com a cultura local. No que tange ao conhecimento sobre pa- trimônio cultural e educação patrimonial, ficou visível que não há uma familiaridade com o assunto, os bens edificados e os lugares que repre- sentam a memória (bens materiais) ainda fazem sombra sobre a diversi- dade dos bens imateriais que também constituem o patrimônio cultural. Segundo Queiroz (2004), com o espaço que tem sido dado ao tema “Edu- cação Patrimonial” também é proporcionado à sociedade brasileira um convite à reflexão quanto à responsabilidade que se deve assumir enquanto profissionais e cidadãos no processo de fortalecimento e revitalização da cultura; sobre a respon- sabilidade de conduzir e de mediar pelo caminho do entendimento e do profun- do comprometimento na construção desse universo sociocultural. 3.1 PASSADO, PRESENTE E FUTURO: ENTRAVES E POTEN- CIALIDADES “Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os ha- veres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum” (Machado de Assis). O que esteve e está na origem de criação de muitos dos exemplares de pa- trimônio histórico e cultural são os problemas e as necessidades que os indivídu- UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 14 os e os grupos sociais se deparavam e se deparam em seus contextos e meios; no sentido de superar estes, foram realizadas análises das circunstâncias, das condi- ções, dos materiais, das tecnologias disponíveis, criou-se estratégias, formulou-se projetos e arquitetou-se novos resultados e soluções. As evidências deste proces- so todo atravessam os tempos e chegam até o momento presente como patrimô- nio histórico e cultural, agora para ser decodificada, estudada, compreendida e entendida sobre os materiais e as técnicas construtivas, as funções, os usos e os significados que foram reunidos através dos diferentes momentos históricos. Horta, Grunberg e Monteiro (1999, p. 9) explicam que: Os problemas encontrados por uma comunidade no passado levaram a soluções que deixaram suas marcas no presente. As evidências que temos hoje nos permitem analisar e identificar os problemas do pas- sado e as soluções do presente. Exemplo: como uma vila resolveu o problema do abastecimento de água, e como hoje a cidade grande re- solveu o mesmo problema com novas soluções tecnológicas. No entanto, Hobsbawn (1995, p. 13) apresenta que se convive com alguns problemas que colocam em risco o que foi possível até hoje produzir, reunir, transmitir em termos de patrimônio histórico e cultural, observe: A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vin- culam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Qua- se todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio. Arruda (2006) discute que os espaços coletivos e de patrimônio histórico e cul- tural são os espaços que estão sob o domínio do Estado, ou seja o Estado Nacional Mo- derno, e não os espaços, as expressões, e as ações que partiram da escolha, da gestão e da consagração por parte dos indivíduos, das populações, dos grupos, dos movimentos sociais entre outros; o que, por sua vez, reflete na capacidade de reconhecimento que os indivíduos possuem para com os exemplares, as expressões e as referências culturais. Para ilustrar tal compreensão, Arruda (2006), que estudou o processo da construção do Estado-Nação moderno do Brasil, defende que ocorreu forte rejeição da inclusão do espaço natural, da população, ao passado e à cultura em favore- cimento de constituição de um território, de fronteiras, hinos, símbolos, marcos oficiais. A construção do Estado-Nação se deu de forma autoritária e centralizadora (Independência do Brasil, Proclamação da República) e espelhado nos moldes da cultura europeia que forjou uma legitimidade política sem participação efetiva dos indivíduos, dos grupos sociais e da população como um todo, o que proporcionou uma história cheia de mitos e heróis, um repertório de exemplares artísticos e cul- turais que não são reconhecidos e não são aclamados pelos “cidadãos” brasileiros. TÓPICO 1 — PRINCIPAIS CONCEPÇÕES E CONCEITOS 15 Esse processo repercutiu e ainda repercute nos tempos atuais, quando se pre- tende discutir concepções amplas, diversas, plurais e mais democráticas de patrimônio, cultura e identidade, para além do patrimônio material edificado, dos exemplares de arte erudita ou de valor técnico e científico. Fonseca (2003) explica que o “patrimônio histórico e artístico” ainda evoca entre as pessoas um conjunto de monumentos anti- gos ou um dado acervo artístico que deve ser preservado, ou que constitui obras de arte excepcionais, ou por terem sido palco de eventos marcantes, estarem referidos em documentos oficiais ou nas narrativas da História e cultura Nacional, regional e local. Gazzóla (2009, p. 1444) acrescenta que são “diversos os fatores que podem explicar a pouca importância pelo patrimônio histórico e cultural”, que um dos as- pectos que se há de considerar é o desconhecimento que, por sua vez, é considerado o mais crucial, pois alimenta o desinteresse, o descaso e o abandono o que corrobora aos interesses pelo esquecimento, pelo apagamento, pela demolição, pela destruição. Segundo Paim e Tavares (2015, p. 8): As pessoas só respeitam, admiram, preservam e se identificam com aquilo que conhecem. Para que ocorra especialmente a identificação com os bens patrimoniais faz-se necessário pensar e construir possibi- lidades de educar para o patrimônio, para que as pessoas conheçam e sintam-se pertencentes aos espaços, às discussões, aos lugares de guarda e preservação dos diferentes bens patrimoniais. Portanto, para que efetivamente ocorra uma educação para o patrimônio, não basta falar em patrimônio ou sobre patrimônio, é precisoviver o patrimônio. UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 16 No decorrer do ano de 2018 e 2019, o Patrimônio Histórico, Cultural e Natural da Humanidade sofreu perdas significativas e irreparáveis: no segundo semestre de 2018, o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro/RJ; na primeira metade do semestre de 2019 a Catedral de Notre Dame/Paris/FR; e, no final do mês de agosto, a floresta Amazônica/ Brasil. Se recuarmos alguns anos na história do patrimônio histórico brasileiro não teremos dificuldade em encontrar outros exemplos para o mesmo desfecho. Neste momento, vamos nos debruçar sobretudo ao incêndio que ocorreu no Museu Nacional do Rio de Janeiro/RJ. O Museu fica localizado na Quinta da Boa Vista, e, na madrugada de 2 de setembro de 2018, um incêndio que durou mais de 6 horas destruiu, aproximadamente, 92% do acervo histórico e científico que o Museu guardava. Dentre as perdas constam o trono do rei africano Adandozan (1718-1818), doado pelos seus embaixadores à D. João VI, em 1811; toda a coleção da Imperatriz Teresa Cristina; o trono do Rei do Daomé; a esquife de Sha- Amun-en-su, sacerdotisa e cantora egípcia que data de 750 a.C. e que foi oferecida à D. Pedro II como presente diplomático; os afrescos de Pompeia; o crânio de Luzia, achado em 1974 e que é considerado o fóssil mais antigo do Brasil; Maxakalisaurus topai, o primeiro dinossauro de grande porte encontrado em Minas Gerais e demais itens das coleções de paleontologia; o acervo de etnologia que contava com artefatos da cultura afro-brasileira, africana e indígena, como objetos raros da tribo Tikuna, além de itens polinésios; e todos os acervos linguísticos. A perícia apontou como causa do incêndio o sobreaquecimento do ar-condicionado causado por curto-circuito, oriundo de instalações elétricas desapropriadas. O Museu encontrava-se sob administração da Universidade Federal do Rio do Janeiro — UFRJ — e trabalhavam no local aproximadamente 90 profissionais. O incêndio e a destruição do acervo do Museu foram noticiados pelos principais jornais do Brasil e do mundo, e diversos presidentes e autoridades da cultura e do patrimônio histórico se solidarizaram e se colocaram à disposição, no sentido de vislumbrar soluções e reparos diante do ocorrido. Por outro lado, o incêndio motivou debates e críticas sobre as condições de segurança e conservação gerais dos museus no mundo; foram registrados atos de protestos por parte de grupos indígenas e de arqueólogos que reclamam pelo retorno de itens aos respectivos grupos originários, assim como serviu de reforço aos defensores da política de repatriação de objetos aos países de origem. Fatos como estes sensibilizam a comunidade científica, pesquisadores e profissionais da história para diversos outros temas, problemas e questões, como, por exemplo, a memória, a identidade, o patrimônio, a educação, a cultura, a participação, o pertencimento, o reconhecimento, o descaso, as políticas públicas, a comunidade, o governo entre outros, porém nada do que venha a ser feito, conseguirá restituir as perdas que ocorreram, somente poderão antecipar e impedir que novos acontecimentos desta natureza ocorram. Agora, pergunta-se: você, como profissional da História, o que você faria em prol do patrimônio histórico e cultural da sua cidade, da sua região, nacional e da humanidade? Não se preocupe em responder esta questão de forma definitiva e exaustiva neste momento, no decorrer deste Livro Didático almeja-se, gradualmente, fornecer elementos de ordem teórica e prática para pensar, refletir e construir alternativas ao desafio que foi apresentado anteriormente. IMPORTANT E 17 Neste tópico, você aprendeu que: RESUMO DO TÓPICO 1 • Educação patrimonial consiste em toda e qualquer iniciativa e ação que almeje a pesquisa, o conhecimento, o acautelamento, a preservação, a apropriação, a manu- tenção, a divulgação e a valorização dos exemplares e expressões e bens culturais. • A educação patrimonial, no conjunto de atividades e ações educativas, visa assegurar a continuidade e a transmissão do legado e das referências históri- cas e culturais entre as gerações. • A educação patrimonial possibilita aos indivíduos que estabeleçam relações com- parativas, que façam leituras e interpretações do mundo, da realidade, da histó- ria, da memória e da cultura que os rodeia, situando-os no tempo e no espaço. • A educação patrimonial funciona como suporte ao diálogo, à colaboração, ao intercâmbio entre os indivíduos e os diferentes grupos, elevando a autoesti- ma dos mesmos. • A educação patrimonial fornece elementos à renovação dos temas e perspec- tivas da História enquanto disciplina e saber/conhecimento científico. • Patrimônio histórico e cultural material é constituído por bens tangíveis, mó- veis ou imóveis, tomados individualmente ou em conjunto, tais como cida- des históricas, sítios arqueológicos e paisagísticos, bens individuais, coleções arqueológicas, acervos museológicos, arquivísticos, documentais, bibliográfi- cos, fotográficos, cinematográficos e videográficos. • Patrimônio histórico e cultural imaterial é formado pelas tradições e expres- sões culturais praticadas e preservadas por grupos coletivos e que são trans- mitidas às gerações ascendentes. • São exemplares de patrimônio histórico e cultural imaterial os conteúdos das ex- pressões de vida, celebrações, rituais, festas e danças populares, músicas, lendas, formas de expressão, costumes, tradições, saberes, modos de fazer, entre outros. • Populações, comunidades, famílias e indivíduos pertencentes aos povos indígenas, remanescentes de quilombos, pescadores artesanais, ribeirinhos, seringueiros, que- bradeiras de coco, caiçaras são portadores e testemunhos de saberes tradicionais associados à natureza, como a terra, o rio, o mar, as plantas, os animais e a todo o ambiente que os circunda. • A educação patrimonial se preocupa com as fontes primárias, ou seja, com o 18 que foi elaborado de modo direto em meio à um contexto, uma época, grupos, indivíduos que participam e integram os exemplares, as expressões as mani- festações de patrimônio histórico e cultural. • A educação patrimonial pode favorecer que as pessoas se identifiquem, res- peitem, admirem, preservem, se sintam pertencentes, produtoras e corres- ponsáveis pelos espaços, pelos exemplares, referências e discussões a respeito dos bens de patrimônio histórico e cultural. 19 1 Procure descrever três dizeres/expressões populares que você conhece e/ou utiliza em cotidiano: 2 Em 2003, na Conferência geral da Organizações das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura — Unesco, foi redigido um documento que ficou conhecido como Recomendações de Paris. O documento levou em consideração os acordos, as recomendações e as resoluções internacionais existentes e se destina ao salvaguardo do patrimônio cultural imaterial das comunidades, grupos e indivíduos de diferentes partes do mundo. Analise as asserções a seguir o que compreende o patrimônio cultural imaterial: I- Práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas. II- Instrumentos, artefatos e lugares que serviram de cenário e palco às práticas e manifestações. III- Conhecimentos relacionados à ciência e às técnicas industriais modernas apenas. IV- Tradições e expressões orais, celebrações, rituais e atos festivos. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As alternativas II, III e IV estão corretas. b) ( ) As alternativas I, II, III estão corretas. c) ( ) As alternativas I, II e IV estão corretas. d) ( ) Somente as alternativas III e IV estão corretas. 3 No ano de 2005, fruto da Recomendação de Paris de 2003, ocorreu a publicação das Obras-primas do patrimônio oral e imaterial da humanidade. Quais critérios foram levados em consideração na elaboração lista destes patrimônios? Analise as proposições a seguir e a relação que proposta entre elas: I- Expressões que fossem fonte de diversidade cultural e garantia dedesenvolvimento sustentável produzidos por indivíduos, grupos e comunidades, em especial indígenas. POR QUE II- A globalização e os modelos de consumo são responsáveis também por favorecer a destruição e o desaparecimento também do patrimônio cultural imaterial. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. b) ( ) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa da I. c) ( ) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. d) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa da I. AUTOATIVIDADE 20 21 TÓPICO 2 — UNIDADE 1 PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, o patrimônio histórico e cultural encontra-se perpassado por questões de disputas das mais diferentes naturezas. Para mediar, arbitrar e gerir os bens, exemplares e as relações entre as mais diferentes partes e interessados, existem instituições, documentos e processos que garantem e regulamentam minimamente a gestão, o tratamento, a abordagem, o acesso, o uso, que se referem aos mesmos. Ao longo deste tópico serão estudados, também, os principais processos e projetos que são implementados e que recaem os bens, expressões e referências culturais tais como ações de salvaguardo, inventários, tombamento, conservação, restauro, cancelamento de tombamento e repatriação. Bons estudos! 2 PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E ÓRGÃOS Caro acadêmico, apresenta-se a seguir os principais órgãos e instituições que são responsáveis por emitir os documentos destinados à pesquisa e gestão, bem como por promover ações, atos e eventos que divulguem e valorizem os bens e expressões do patrimônio histórico e cultural. Observe, ainda, que se pro- cura apresentar os principais órgão e instituições numa hierarquia que obedece a esfera e âmbito mundial ao nacional: 2.1 ONU A Organização das Nações Unidas foi criada no ano de 1945 com o fim da 2ª Guerra Mundial, constitui uma organização intergovernamental que pretende atuar na promoção da cooperação internacional. Hoje, 193 países fazem parte e sua sede fica na cidade Manhattan, no Estado de Nova York, nos Estados Unidos da América. É necessário mencionar a ONU nas discussões e questões de educação patrimonial pois o acesso e a transmissão dos exemplares e expressões de patrimônio histórico e cultural da humanidade são considerados direitos humanos fundamentais dos indivíduos. A ONU representa à primeira instância à qual se reportam todas as demais instituições de caráter internacional, tais como a Unesco, o ICOM e o ICOMOS. 22 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 2.2 UNESCO A Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura — Unesco, foi criada no ano de 1946, constitui uma agência especializada atrelada ao sistema da ONU, possui como principais objetivos promover e manter a paz e a segurança mediante ações e projetos educativos em meio às ciências sociais/humanas, as ciências naturais, da cultura, das ciências da informação e das comunicações. Atua com projetos específicos no campo do patrimônio histórico e cultural mundial, em especial com projetos que fortaleçam o diálogo intercultural e a diversidade cultural. O Brasil conta com a representação da Unesco chamada de Unesco Brasil, cuja sede está sediada em Brasília, iniciou as atividades no ano de 1972 tendo como principais objetivos a defesa da educação de qualidade e a promoção social e humana. Representação da Unesco no Brasil. Acesse o site da Unesco e conheça os principais projetos nas áreas de cultura, comunicação e informação, educação, ciências humanas e sociais, ciências naturais entre outros. Disponível em: https://bit.ly/2XIKvBt. DICAS 2.3 ICOM Sigla para Conselho Internacional de Museus — ICOM —, foi criado no ano de 1946, consiste em uma organização não governamental articulada com a Unesco e a ONU. Não possui fins lucrativos, atualmente conta com 137 países membros. É responsável por organizar atividades de reuniões, formação, conferências, oficinas, publicações, códigos, normas, declarações, intercâmbios em nível regional, nacional e internacional tendo como finalidade a promoção dos museus. 2.4 ICOMOS Sigla para Conselho Internacional de Monumentos e Sítios — ICOMOS —, possui atuação e alcance das ações em nível internacional, cuja missão é promover a conservação, a proteção, a apropriação e a valorização de monumentos, sítios e centros urbanos. Possui como principal atribuição avaliar e fornecer pareceres sobre as candidaturas ao patrimônio cultural mundial. Encontra-se vinculado à ONU, através da Unesco. Trata-se de uma associação civil não governamental, foi criado no ano de 1965. TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 23 2.5 IPHAN O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — Iphan — foi criado no ano de 1937, tendo como primeiro presidente Rodrigo Melo Franco de Andrade. Trata-se de uma instituição que atua em âmbito nacional, constitui uma autarquia federal do Governo do Brasil, encontra-se vinculado ao Ministério da Cidadania, de modo geral é responsável pela preservação e pela divulgação do patrimônio material e imaterial brasileiro. As principais ações que o Iphan realiza são inventários, registros, desapropriações e tombamentos. Até o ano de 2017 o Iphan já havia realizado atividades em 87 conjuntos Urbanos Tombados com 78 mil imóveis contidos nessas áreas; 590 mil imóveis localizados em áreas de entorno dos bens tombados; 1.264 bens materiais tomba- dos; 590 bens imóveis ferroviários valorados; mais de 29 mil cidadãos diretamen- te atendidos pelo Iphan; 26.409 sítios arqueológicos cadastrados; 336 instituições de pesquisa e guarda; 11.926 mil projetos de pesquisa autorizados (Iphan, 2018a). O Iphan, desde a sua criação, conta com instrumentos administrativos e legais que definem e orientam atividades de tombamento, para tanto criou os instrumentos como os do Livros do Tombo, que é composto pelos: • Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico: bens culturais que evidenciam os vestígios da ocupação e deslocamento humano nos tem- pos mais remotos, referências de determinados grupos sociais tanto em áreas naturais como jardins, cidades ou conjuntos arquitetônicos. • Livro do Tombo Histórico: os bens de valor histórico tais como edificações, fazendas, marcos, chafarizes, pontes, centros históricos, imagens, mobiliário, quadros e xilogravuras, entre outras peças. • Livro do Tombo das Belas Artes: bens culturais que possuem valor acadêmi- co, de caráter não utilitário, opostas às artes aplicadas e às artes decorativas. • Livro do Tombo das Artes Aplicadas: bens culturais associados à função uti- litária, como alguns setores da arquitetura, das artes decorativas, design, artes gráficas, mobiliário, tapeçarias entre outros. Com as discussões realizadas a partir do final dos anos de 1980, em es- pecial com a ampliação da noção e conceito de patrimônio histórico e cultural, outros instrumentos passaram a se fazer necessários. Segundo Alencar (2017, p. 7), a partir do decreto 3.551/2000, os bens culturais passaram a ser inscritos em um ou mais dos seguintes instrumentos: • Livro de Registro dos Saberes: para a inscrição de conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades; • Livro de Registro das Celebrações: para rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social; • Livro de Registro das Formas de Expressão: para as manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas, produzidas 24 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? por coletividades e que tenham transmissão geracional de seus saberes e práticas; • Livro de Registro dos Lugares: destinado à inscrição de espaços representativos de identidades, como mercados, feiras, praças e santuários onde se concentram e reproduzem práticas culturaiscoletivas. A sede do Iphan fica em Brasília. Conta com 27 superintendências e 28 escritórios técnicos no interior dos estados brasileiros. As superintendências estão vinculadas diretamente à Presidência do Iphan e são responsáveis por construir parcerias com as esferas de poder local, organismos e instituições da sociedade civil ou empresas. Os escritórios técnicos geralmente ficam localizados junto aos conjuntos urbanos tombados (cidades históricas) e foram criados para administrar diretamente o patrimônio tombado e/ou registrado nesses locais, já os Parques Históricos Nacionais são administrados pelas superintendências do Iphan em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Conheça as Superintendências do Iphan que funcionam em cada região brasileira, em especial a que está mais próxima de você e de sua cidade, acessando: https://bit.ly/33plkqZ. DICAS 2.6 IBRAM O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) foi criado no ano de 2009. Su- cedeu ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) encon- tra-se vinculado ao Ministério da Cidadania. É responsável pelo Plano Nacional de Museus (PNM), almeja a melhoria nos índices de visitação e a contribuição/ arrecadação aos museus. O Ibram administra diretamente mais de 30 museus. Foi responsável por criar a Rede Nacional de Identificação de Museus (Museusbr), na qual já constam mais de 4000 museus brasileiros cadastrados. Acesse o portal do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Disponível em: https://bit.ly/2DjcW1H. DICAS TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 25 2.7 SECRETARIAS E CONSELHOS MUNICIPAIS As secretarias são as designações dos departamentos, áreas ou pastas de um governo. As secretarias encontram-se atreladas ao poder executivo, seja municipal, es- tadual ou federal, geralmente os integrantes são indicados/nomeados pela chefia maior superior (prefeito, governador, presidente) e os demais integrantes são oriundos do quadro geral de funcionários públicos, aprovados por concurso público. As secretarias que se relacionam aos temas de patrimônio histórico e cultural e/ou educação patrimo- nial são normalmente as secretarias de Educação, Cultura, Turismo e Laser. Já os conselhos podem ser compostos de modo colegiado, a partir de inte- grantes oriundos de diferentes partes da sociedade, como de movimentos sociais, lideranças de bairros, representantes de instituições privadas, profissionais que atuam na área; podem ser organizados em diferentes escalas, pode tanto ser mu- nicipal como regional, estadual, nacional como mundial. Os conselhos são espaços que tendem a articular as diferentes áreas do governo com a sociedade civil, oportunizar a participação popular na gestão pú- blica, no sentido de que os afetados e conhecedores da causa sejam ouvidos e as deliberações e execuções venham à contemplar o entendimento dos mesmos sobre quais políticas públicas devem ser criadas e implementadas no sentido de atender de forma mais efetiva os interesses da coletividade. A nível mundial pode-se mencionar o Conselho Mundial de Viagens e Tu- rismo (World Travel & Tourism Council — WTTC), à nível federal, pode-se men- cionar o Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC); em nível municipal, os conselhos que estão mais relacionados ao campo de patrimônio histórico e cultural podem ser os Conselho de Cultura, Conselho de Turismo, Conselho de Patrimônio Histórico, Conselho de Educação, Conselho de Política Urbana, entre outros. A Agenda 21 da Cultura (CGLU, 2004), prevê que os governos locais re- presentam os agentes mundiais de primeira ordem, enquanto defensores e pro- motores do avanço dos direitos humanos e culturais. O desenvolvimento cultural apoia-se na multiplicidade dos agentes sociais, logo os governos devem atuar no sentido de apresentar trans- parência informativa e incluir a participação cidadã na concepção das políticas culturais, nos processos de tomada de decisões e na avaliação de programas e projetos (CGLU, 2004, p. 2). 2.8 OS DETENTORES Para Alencar (2017) pode ser compreendida como a denominação dada às pes- soas que fazem parte das comunidades, dos grupos, de segmentos e coletividades que possuem relação direta com a dinâmica de produção, manutenção, reprodução e renova- ção de determinado bem cultural imaterial e/ou de seus bens culturais associados, para as 26 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 3 PRINCIPAIS PROCESSOS Caro acadêmico, apresenta-se a seguir as principais cartas, declarações, recomendações, compromissos e agendas que foram publicadas, que estão em vigor e devem ser respeitadas como diretrizes norteadoras às principais políticas, ações e procedimentos toda vez que são abordados bens e expressões de patri- mônio histórico e cultural. Observe que são apresentadas desde as primeiras legislações, das mais antigas até as mais recentes. 3.1 CARTAS, DECLARAÇÕES, RECOMENDAÇÕES, COM- PROMISSOS E AGENDAS As cartas, declarações, recomendações e agendas costumam ser emitidas/ assinadas por representantes de institutos, instituições, organizações, profissionais, especialistas e comunidade de cidadãos como resultado de estudos, dos trabalhos, plenárias e socializações realizadas ao longo de simpósios, congressos, encontros, jornadas. Comportam as principais concepções, a evolução dos conceitos, as dire- trizes, as deliberações que foram firmadas e pactuadas e ações que serão assumidas pelos organismos, autoridades, profissionais e representações dos mais diferentes âmbitos e esferas que se fizeram presentes e assinaram os respectivos documentos. Os documentos podem ganhar teor, força e efeito semelhante às legisla- ções governamentais. Se um dado país, um estado e/ou um município envia re- presentante legal/institucional ao evento em que está sendo debatido o documen- to e, ao final, este representante adere e assina o mesmo, a partir da publicação oficial, o documento passa a vigorar como lei, bem como devem ser consideradas pelos profissionais e autoridades para fundamentar, justificar, avaliar e deliberar sobre situações e processos referentes ao tema em questão. Possuem periodicidade e costumam ser retificadas, atualizadas e ampliadas a cada nova edição. Geralmente levam a nomenclatura com o nome do documento, a cida- quais a prática cultural constituí uma identidade e um valor referencial por ser expressão da história e da vida de uma comunidade ou grupo, de seu modo de ver, viver, conviver e interpretar o mundo, ou seja, sua parte constituinte da memória e identidade. Podem ser considerados, também, como detentores dos saberes os integrantes de comunidades tradicionais, podem ser agricultores, pescadores, caboclos, quilom- bolas, ribeirinhos, pajés, seringueiros ou os fabricantes, produtores e manipuladores artesanais dos recursos da natureza e dos bens culturais. Os detentores, são os testemu- nhos, os principais porta-vozes dos bens culturais, portam conhecimentos e práticas cuja propriedade e especificidade são insubstituíveis, ainda são os principais responsá- veis pela continuidade da prática e dos valores simbólicos a ela associados no presente e ao longo do tempo, em especial pelos processos de transmissão às futuras gerações. TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 27 de e o ano em que ocorreu a deliberação, e o conteúdo versa sobre algum aspecto específi- co de um determinado setor. Observe a relação que consta a seguir, constitui os principais documentos voltados às temáticas que envolvem o patrimônio histórico e cultural: • Cartas de Atenas, de 1931-1933. • Recomendação de Nova Delhi, de 1956. • Recomendação de Paris, de1962. • Carta de Veneza, de 1964. • Recomendação de Paris, de 1964. • Normas de Quito, de 1967. • Recomendação de Paris, de 1968. • Compromisso de Brasília, de 1970. • Compromisso de Salvador, de 1971. • Carta do Restauro, de 1972. • Declaração de Estocolmo, de 1972. • Recomendação de Paris, de 1972. • Resolução de São Domingos, de 1974.• Declaração / Manifesto de Amsterdã, de 1975. • Carta do Turismo Cultural, de 1976. • Recomendações de Nairóbi, de1976. • Carta de Machu Picchu, de 1977. • Carta de Florença, de 1981. • Declaração do México, de 1985. • Carta de Washington, de 1986. • Carta de Petrópolis, de 1987. • Carta de Washington, de1987. • Recomendação de Paris, de1989. • Carta do Rio, de 1992. • Recomendação Europa, de 1995. • Carta de Mar del Plata, de 1997. • Recomendação Paris, de 2003. • Carta de Brasília, de 2010 entre outras. Para ilustrar melhor o funcionamento destes documentos menciona-se o caso da Agenda 21 da Cultura, de 2004, que foi uma proposta das cidades de Porto Alegre e Barcelona durante a realização da I Reunião Pública Mundial da Cultura, em setembro de 2002. Em janeiro de 2003, no III Fórum das Autoridades Locais pela Inclusão Social, ocorrido durante o III Fórum Social Mundial, também em Por- to Alegre, ocorreu em novo debate a proposta que em seguida foi aprovada por 150 prefeitos e cerca de mil representantes de cidades que se fizeram presentes no encontro. No ano de 2004, na cidade de Barcelona, no IV Fórum de Autoridades Locais de Porto Alegre/RS para a Inclusão Social, no marco do Fórum Universal das Culturas, os governos e representantes políticos das mais diversas cidades do mundo consideraram e aprovaram novamente a Agenda 21 da Cultura. A Agenda 21 da Cultura constitui um documento orientador das políticas públicas de cultura e como contribuição para o desenvolvimento cultural da 28 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? humanidade, reconhecendo a importância dos direitos culturais e a necessidade da promoção da paz pelas lideranças políticas locais, que defende a diversidade cultural, a sustentabilidade e a democracia participativa. A Agenda 21 da Cultura é um compromisso das cidades e dos governos locais para o desenvolvimento cultural. Leia na íntegra no endereço: https://bit.ly/3gtZfeI. DICAS 3.2 AÇÕES DE SALVAGUARDO Ações de Salvaguardo são ações de diversas naturezas que podem ser de curto, médio e longo prazo, podem ser de identificação, documentação, investigação, preserva- ção, proteção, promoção, valorização, transmissão (essencialmente por meio da educa- ção formal e não formal) e a revitalização. As atividades de salvaguardo costumam se dar a partir do conhecimento que existe e que foi gerado por meio de atividades de registros e inventários dos bens, das expressões e referências culturais e neste processo é primordial a mobilização e a participação dos indivíduos, dos grupos comunidades que as detém. De maneira ampla, as atividades de salvaguardo almejam abordar os bens, as expressões e as referências de modo mais global, para que estas alcancem patamares de sustentabilidade tanto cultural como social, no sentido que a continuidade e a transmissão à geração de sucessores estejam asseguradas, para tanto são de salutar importância estruturas de gestão própria e compartilhada, coletivos deliberativos, diálogo e articulação entre sociedade, órgãos, institutos e instituições e Estado. As medidas de salvaguardo podem fornecer maiores elementos ao alcance mais profundo da realidade na qual os bens, as expressões e as referências culturais se encontram, como por exemplo reconhecer eventuais problemas que são enfrenta- dos pelas comunidades detentoras no que tange a continuidade da mesma, refletir e planejar estratégias sobre os meios possíveis de superação do problema, comprome- ter instituições públicas e órgãos oficiais à se comprometerem em contribuir e apoiar as ações que virão à ser empreendidas, o que por sua vez contribui tanto para a sua continuidade de modo sustentável quanto para a melhoria das condições sociais e materiais de transmissão e reprodução que possibilitam sua existência. Alencar (2017) explica que a existência das legislações foi fundamental para que se avançasse nas noções de salvaguardo especialmente para bens de na- tureza imaterial. No ano 2000 foi publicado o Decreto 3.551, que institui o Regis- tro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro e foi criado o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial e dá outras TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 29 providências. No ano de 2003 ocorreu a Convenção para a Salvaguarda do Patri- mônio Imaterial da Unesco; que foi responsável por promulgar o Decreto 5.753, de 12 de abril de 2006. A partir destes documentos de vigência internacional, foi possível que o Iphan desenvolvesse seus próprios documentos. No ano de 2015, o Iphan publi- cou a portaria nº 299, que, de modo geral, normatiza e orienta as ações e ativida- des que podem ser desenvolvidas com o intuito de salvaguardar os bens cultu- rais. O documento ressalta a importância do diálogo e trabalho conjunto entre detentores, parceiros e Iphan. Em 2017 ocorreu a organização e a publicação da cartilha Salvaguarda de bens registrados: patrimônio cultural do Brasil: apoio e fomento que, por sua vez, aborda os temas de salvaguardo, reconhecimento, ações, pla- nos, mobilização social e política, difusão e valorização entre outros. Leia ALENCAR, R. R. B. de (org.). Salvaguarda de bens registrados: patrimônio cultural do Brasil: apoio e fomento. Brasília: Iphan, 2017. Disponível em: https://bit.ly/3i8GXQx. DICAS 3.3 ATIVIDADES DE INVENTÁRIO No cotidiano jurídico, os inventários consistem em procedimentos de levanta- mento, listagem, reunião e enumeração dos bens que uma pessoa adquiriu ao longo da vida, que passam para um segundo momento no qual serão enumerados, avaliados di- vididos e distribuídos entre os familiares sucessores. No contexto dos bens e expressões de patrimônio Histórico e Cultural refere-se a todo trabalho de identificação e descri- ção de itens e referências que abrangem um grupo de pessoas, uma comunidade, um todo coletivo, o que, por sua vez, agrava a relevância e a complexidade dos processos. Desde longa data, muito antes da formalização dos processos de inventá- rios por meio de órgãos públicos e instituições especializadas e promotoras de pro- cessos de tombamento, as Igrejas e instituições religiosas já solicitavam aos seus clérigos que realizassem levantamentos, descrições e catalogações periódicas das imagens, esculturas, relíquias e demais bens religiosos que as mesmas detinham. Os inventários são compostos por pesquisas bibliográficas, iconográficas, arquivísticas, entrevistas orais, e devem reunir o maior número de dados, descri- ções e evidências possíveis no sentido de fundamentar as ações que serão empre- endidas a partir da conclusão do inventário propriamente dito. Geralmente, são realizados por grupos de técnicos que integram equipes de trabalho de projetos que se destinam a estas atividades. Independente dos critérios que sejam emprega- 30 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? dos na realização dos mesmos, geralmente, encontram-se compostas por relações de julgamentos, na qual são imprescindíveis os processos de inclusões e exclusões. As atividades previstas em inventários são de identificação de número, conteúdos de descrição e diagnóstico do estado em que se encontram e da rele- vância que os bens e as expressões possuem à sociedade que os detém e ao coleti- vo que o reconhece. Zanirato e Cavicchioli (2013, p. 5) descrevem que: Os inventários são instrumentos de documentação que produzem uma informação especializada sobre o bem, entre os quais a sua iden- tificação, descrição e localização, seus valores históricos, artísticos, culturais, sua conformação material, as técnicas empregadas em sua fabricação, os materiais e métodos empregados em sua produção, as intervenções por venturas havidas, os componentes primitivos e os acréscimos posteriores, suas dimensões e estado de conservação. O in- ventário é um instrumento importante para a conservação e consiste no primeiro passo para a intervenção ativa e a proteção do bem patri- monial. Inventários destinados a bens,expressões e referências de patrimônio his- tórico cultural funcionam como um instrumento à preservação destes. Na Cons- tituição Brasileira de 1988, na continuidade do conteúdo do Artigo nº 216, que já foi citado anteriormente, consta no inciso primeiro as seguintes previsões no que tange as atividades de inventários: § 1º O poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, re- gistros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação (BRASIL, 1988, s.p.). Campos (2013) explica que as atividades de inventário somente são cita- das e mencionadas, todavia a regulamentação legal desta tarefa em patrimônio histórico e cultural ainda não foi normatizada, e esta afirmação é válida tanto em nível federal, estadual como municipal, diante disto, cada estado e unidade da federação procura gerir e orientar de modo isolado e independente estas deman- das. Dois exemplos de normatizações para os processos de inventários são os dos estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. No caso do estado de Minas Gerais, existe o projeto de lei n° 939/2012, no qual consta que: O inventário consiste na identificação das características, particulari- dades, histórico e relevância cultural, objetivando a proteção dos bens culturais materiais, públicos ou privados, adotando-se, para sua exe- cução, critérios técnicos objetivos e fundamentados de natureza histó- rica, artística, arquitetônica, sociológica, paisagística e antropológica, entre outros (ALMG, 2012 apud CAMPOS, 2013, p. 121). Os inventários possibilitam o reconhecimento do universo e do montante dos bens e exemplares patrimoniais, assim como as condições e o estado no qual TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 31 estes se encontram, e, a partir disto, estabelecer prioridades, direcionar projetos e ações em diferentes graus e níveis de intervenção. Miranda (2008, p. 1) explica que: Sob o ponto de vista prático o inventário consiste na identificação e re- gistro por meio de pesquisa e levantamento das características e parti- cularidades de determinado bem, adotando-se, para sua execução, crité- rios técnicos objetivos e fundamentados de natureza histórica, artística, arquitetônica, sociológica, paisagística e antropológica, entre outros. Os resultados dos trabalhos de pesquisa para fins de inventário são registra- dos normalmente em fichas onde há a descrição sucinta do bem cultural, constando informações básicas quanto a sua importância histórica, carac- terísticas físicas, delimitação, estado de conservação, proprietário etc. Trata-se de uma ação que antecede e instrumentaliza às demais atividades como a de realização de projetos de conservação e restauro. Possuem como finalidade evitar a intervenções, renovações, reconstruções indiscriminadas ou a demolições, mas não pos- sui os efeitos e garantias que o tombamento atribuí aos bens e expressões de patrimônio histórico e cultural. Os inventários também são solicitados e utilizados em situações em que se faz necessário justificar o não tombamento ou processos de demolição, pois atra- vés dos conteúdos descritos nos inventários é realizada a avaliação e emitido o parecer sobre a relevância dos bens ou expressões de patrimônio histórico e cultural. Para aprofundar o tema de inventários em termos de concepções, metodo- logias e abordagens sugere-se a leitura do documento Como elaborar Inventários das potencialidades culturas dos munícipios. Disponível em: https://bit.ly/39TpR6e. DICAS 3.4 MEDIDAS DE CONSERVAÇÃO As medidas de conservação consistem no conjunto de ações preventivas que almejam realizar a manutenção do bem, expressão ou referência cultural nas condições na qual este se encontra, visam evitar a degradação, em especial reali- zar alterações ou qualquer atividade de maior intervenção e/ou impacto como a restauração. Tende a ser preventiva, no sentido de controlar os fatores externos e/ou que se relacionam a esses no sentido de que não venham a comprometer ou a agravar as condições. Preocupa-se com o bem nas condições em que está, com o meio em que o cerca e onde se encontra; na gestão do espaço, almeja obter análises das estruturas e consistências dos materiais, dos fatores de degradação internos e externos. Os materiais oriundos das atividades de inventário são de fundamental importância, pois segundo Zanirato e Cavicchioli (2013, p. 5): 32 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 3.5 PRÁTICAS DE RESTAURO As práticas de restauro são intervenções destinadas a manter em funcionamen- to, facilitar a leitura e transmitir ao futuro, dito de outro modo, assim como as demais atividades de salvaguardo, inventários e conservação, a restauração também visa ga- rantir a permanência para as gerações futuras. Podem abranger obras, pintura, escultu- ra, conjuntos e edifícios arquitetônicos, jardins, parques de interesse histórico e ambien- tal, desde a época paleolítica até o período contemporâneo, da arte popular até a arte contemporânea; vestígios antigos oriundos de pesquisas subterrâneas e subaquáticas. As práticas de restauração visam restabelecer o estado original ou próximo ao anterior aos danos. Os danos podem ter sido causados em decorrência da ação do tempo, ou do próprio homem em intervenções que descaracterizam o bem imó- vel ou móvel. Os projetos de restauração devem seguir as orientações e posturas que constam junto às cartas patrimoniais, as legislações e recomendações vigentes. Geralmente, os editais ou as licitações para obras de restauro solicitam um projeto, e este precisa conter, minimamente, as seguintes etapas: • Pesquisa histórica: conteúdo contendo a análise histórica resultante de pes- quisas textuais e iconográficas realizadas em cartórios, museus, arquivos pú- blicos e/ou privados. • Cronologia construtiva: composta por plantas, em escala adequada, conten- do informações gráficas legendadas indicando as diversas fases de interven- ção arquitetônica na edificação, com datação precisa ou aproximada, acompa- nhadas de relatório analítico sucinto. Cada objeto ou bem material é constituído por um ou mais materiais, foi criado com técnicas particulares e se situa em um determinado lugar, ex- posto a fatores de deterioração em maior ou menor intensidade. Para me- lhor compreender esse estado há que se fazer um diagnóstico, ou seja, uma análise dos materiais e a identificação de patologias e de eventuais meca- nismos de deterioração em ato, objetivando a apresentação de possíveis soluções. Para isso, empregam-se métodos analíticos variados que depen- dem da natureza do bem, de sua estrutura física, de seu tamanho e de sua localização, e, sobretudo, da informação analítica desejada, do grau de pre- cisão e acurácia, da complexidade de matriz em exame e da possibilidade de realizar uma amostragem e/ou uma análise com caráter não-destrutivo. Em especial para os bens, expressões e referências de patrimônio histórico edificado é solicitado que sejam apresentadas plantas do bem protegido, em escala adequada, contendo informações gráficas legendadas, indicando o estado de con- servação dos componentes construtivos, arquitetônicos, decorativos ou artísticos da edificação; as formas de desagregação de materiais de revestimento e componentes estruturais como pisos, paredes, forros, coberturas, escadas, elementos e/ou pintu- ras artísticas e decorativas; indicações das patologias existentes como infiltrações de água, trincas e rachaduras, desaprumos, ataque de insetos xilófagos entre outros. TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 33 • Documentação fotográfica: registro fotográfico do estado atual do bem protegido, compreendendo fotos externas (vizinhança imediata, implantação, terreno, carac- terísticas externas da edificação) e internas (ambientes internos, detalhes construti- vos), indicadas em planta-índice e acompanhadas de legendas explicativas. • Estado de conservação e patologiasconstrutivas: plantas do bem protegido, em escala adequada, contendo informações gráficas legendadas, indicando: a) estado de conservação dos componentes construtivos, arquitetônicos, de- corativos ou artísticos da edificação; b) formas de desagregação de materiais de revestimento e componentes estruturais como pisos, paredes, forros, coberturas, escadas, elementos e/ou pinturas artísticas e decorativas; c) indicações das patologias existentes como infiltrações de água, trincas e rachaduras, desaprumos, ataque de insetos xilófagos entre outros; • Projeto básico de arquitetura e restauração: documentação gráfica em escala adequada, elaborada a partir da análise dos itens anteriores e do programa de necessidades de uso da edificação, compreendendo: a) plantas, cortes, elevações, em escala adequada, contendo, legendas de a construir, a demolir e a conservar; b) memorial descritivo de obras, serviços e procedimentos de restauração, devidamente justificados; c) viabilidade sociocultural. Procure conhecer o modelo de projetos de restauro que é solicitado pelo De- partamento do Patrimônio Histórico – DPH e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP. Disponí- vel em: https://bit.ly/2C1GvUW. DICAS Caro acadêmico, a seguir relaciona-se, de forma resumida, as principais previsões contidas nas legislações vigentes, em âmbito internacional, para com intervenções em nível de restauro, observe: 3.5.1 Carta de Veneza, Itália, 1964 Prevê no Artigo 3º que “a conservação e a restauração dos monumentos visam salvaguardar tanto a obra de arte quanto o testemunho histórico” (IPHAN, 1964, p. 2); no Artigo 4º consta que “a conservação dos monumentos exige, antes de tudo, manutenção permanente” (IPHAN, 1964, p. 2); no Artigo 6º que “é necessário ressaltar os valores es- téticos e históricos que foram transformados pelo tempo, não apenas a referência ao ma- terial original, como também as alterações provocadas pelo tempo” (IPHAN, 1964, p. 2). 34 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? Leia a Carta de Veneza na íntegra acessando: https://bit.ly/3gGebXn. DICAS 3.5.2 Carta do Restauro, Itália, 1972 O conteúdo da Carta do Restauro, de 1972, orienta para que as atividades de restauro sejam de caráter preventivo, ou de urgência e de intervenção de baixa amplitude, que as adaptações sejam ao mínimo, que a manutenção das formas ex- ternas e as adaptações internas não alterem a tipologia, a organização estrutural e a sequência dos espaços originais. Outro aspecto também em destaque é que os projetos sejam realizados por empresas especializadas com profissionais e equipe técnica de nível muito No artigo nº 7º consta que “é vedado proceder aditamento, anastilose, lim- peza ou alteração cromática, assim como restauração de monumento(s) ou constru- ções em que se reagrupam as partes arruinadas, utilizando-se, se necessário, novos materiais” (IPHAN, 1964, p. 2); no Artigo 9º, está prescrito que “a restauração é uma operação que deve ter caráter excepcional e deve ter por objetivo conservar e revelar os valores estéticos e históricos do monumento e fundamentar-se no respei- to ao material original e aos documentos autênticos” (IPHAN, 1964, p. 2). A carta dispõe também que os trabalhos de restauração devem proceder intervenção mínima, e toda intervenção deve ser orientada pelo absoluto respei- to aos valores estéticos e históricos do monumento a sua integridade física e ao seu aspecto documental. A restauração será sempre precedida e acompanhada de um estudo arqueológico e histórico. O plano das reconstituições conjecturais e todo trabalho complementar são reconhecidos como indispensáveis por razões estéticas ou técnicas e estes devem ficar destacados da composição arquitetônica e ostentar a marca do nosso tempo, outro aspecto também é o de que devem apre- sentar compatibilidade de técnicas e dos materiais empregados. Os materiais e as técnicas construtivas a serem introduzidos nas intervenções deverão possuir características e comportamentos semelhantes aos materiais origi- nais. Os trabalhos de restauro devem zelar pela autenticidade dos elementos constru- tivos, evitar o uso de escovas metálicas, raspadores, jatos de areias, jatos de água ou vapor. Devem ser evitados produtos e materiais que ponham em risco a integridade da obra, bem como técnicas cujos resultados sejam irreversíveis. Toda intervenção deve ficar legível, ou seja, perceptível ao olhar tanto do perito como do observador; em especial permitir reversibilidade dos materiais que foram empregados. TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 35 qualificado, que nos projetos constem estudos exaustivos para os aspectos territo- riais, urbanos, históricos, gráficos e fotográficos; que sejam realizadas atividades de educação patrimonial, salvaguardo e conservação. No artigo 6º prescreve que é proibido para toda e qualquer obra de arte proceder adições de estilos ou analógicos, inclusive em forma simplificada, ainda quando existirem documentos gráficos ou plásticos que possam indicar como te- nha sido ou deva resultar o aspecto da obra acabada; realizar remoções ou demo- lições que apaguem a trajetória da obra através do tempo, a menos que se trate de alterações limitadas que debilitem ou alterem os valores históricos da obra, ou de aditamentos de estilo que a falsifiquem (IPHAN, 1972). O documento proíbe aditamentos de estilos ou analógicos, simplificações de forma; o uso de réplicas; realização de remoções e demolições que apaguem a trajetória temporal da obra, a menos que sejam aditamentos, alterações e falsi- ficações; proíbe remoções, reconstrução ou translados para locais diferentes dos originais, alterações das condições de acesso; alteração ou eliminação das pátinas. Também aborda e orienta sobre atividades de prospecção para atividades subterrâneas e subaquáticas; aditamento de partes acessórias cuja função é a de sustentar a obra com materiais harmônicos mas facilmente distinguíveis; limpeza de pinturas e esculturas sem alcançar o estrato da cor; anastilose documentada para situações de recomposição e assentamento; nova ambientação ou instalação da obra quando as originais não existirem mais. Leia a Carta do Restauro na íntegra acessando: https://bit.ly/3k89kQG. DICAS 4 TOMBAMENTO, CANCELAMENTO DE TOMBAMENTO, RESTITUIÇÃO E REPATRIAÇÃO Caro acadêmico, neste momento procura-se apresentar os principais pro- cessos institucionais pelos quais os bens e as expressões do patrimônio histórico e cultural podem passar, que são o tombamento, o cancelamento de tombamento, a restituição e a repatriação. Procura-se explicar o funcionamento de cada um e em qual situação melhor se aplicam e/ou são acionados. Para favorecer o entendimento desses processos, ilustra-se com alguns exemplos, os considerados mais salutares. 36 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 4.1 PROCESSOS DE TOMBAMENTO A palavra Tombo é oriunda do século XIV, quando passou a ser utilizada como sinônimo da palavra “registro” pelos funcionários do Arquivo Nacional Português, em Lisboa, Portugal. No Brasil, as leis de tombamento foram institu- ídas no ano de 1937, por meio do Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, assinado pelo ministro Gustavo Capanema e pelo então presidente Getúlio Vargas. Este Decreto-lei constitui o primeiro instrumento legal em nível federal que versa sobre a proteção do patrimônio histórico e cultural do Brasil. No contexto de patrimônio histórico e cultural, o tombamento consiste em um ato administrativo fundamentado em uma legislação, em especial nos direitos culturais presentes nos Decretos-lei de 1937 e na Constituição Federal de 1988; consagrado por meio de registro em livro específico, o Livro do Tombo; e em órgão/setor e/ou departamento próprio da função, no caso o Iphan. Órgãos e instituições públicas em nível mundial e nacional (federal, estadual e municipal) representam as principaisinstâncias que realizam processos desta natureza. A finalidade geral dos processos de tombamento reside no reconhecimen- to, no reforço da importância e da relevância do bem e/ou item tombado, bem como preservar e impedir que este sofra descaracterização e/ou destruição e que tenha plenas condições de ser transmitido às futuras gerações. A responsabilidade e a fiscalização dos bens culturais tombados recaem à insti- tuição ou órgão que foi responsável pelo reconhecimento do processo de tombamento. Uma vez tombado, o bem passa a ser visitado e monitorado pelos funcionários das instituições de tombamento, com o intuito de acompanhar o estado de conservação e aplicar atividades de salvaguardo, conservação e, até se necessário, de restauração. Quaisquer atividades de intervenções por parte dos proprietários devem ser previamente comunicadas e aprovadas pelos órgãos responsáveis pela fiscali- zação e responsável pelo tombamento. Qualquer pessoa física e jurídica pode so- licitar o tombamento de um bem ou item de patrimônio histórico e cultural, basta entrar em contato com os representantes legais dos órgãos oficiais responsáveis pelos processos de tombamento tanto na esfera municipal, estadual ou federal. 4.2 CANCELAMENTO DE TOMBAMENTO O Cancelamento de tombamento constitui em uma medida excepcional, é um instrumento jurídico que implica na revogação do ato de tombamento. O procedimento é realizado pelo próprio órgão que foi responsável pelo reconheci- mento do processo de tombamento e promove a exclusão do bem ou item tomba- do do Livro Tombo, que em seguida é noticiando no Diário Oficial do município, do Estado ou da União para o conhecimento de todos. TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 37 Caro acadêmico, vimos anteriormente que Getúlio Vargas, no ano de 1937, foi o presidente brasileiro responsável por criar o principal órgão que atua em processos de tombamentos em nível federal, o SPHAN/ Iphan; todavia, no ano de 1941, por meio do Decreto-lei 3.866, de 29 de novembro, também oficiali- zou os processos de destombamento de bens pertencentes à União, aos Estados, aos municípios ou de pessoas físicas e jurídicas. Bottari e Galdo (2016) explicam que ao longo da história do patrimônio histórico e cultural brasileiro, ocorreram projetos de cancelamento de tombamen- to e demolições que repercutiram amplamente, como é o caso da Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Rio de Janeiro, tombada no ano de 1937 e que foi demolida no ano de 1944; o Solar Monjope, no Rio de Janeiro, tombado no ano de 1973 e demolido no ano de 1974, a Academia Imperial de Belas Artes, edifício instalado ano de 1826 e que veio à ser demolido no ano de 1938. FIGURA 5 – ACADEMIA IMPERIAL DE BELAS ARTES, RIO DE JANEIRO FONTE: <https://bit.ly/2XIOQ7J>. Acesso em: 19 out. 2019. Caro acadêmico, no caso da Academia Imperial de Belas Artes, hoje existe apenas a fachada, que foi removida do local em que se encontrava edificada e foi disposta e transformada em pórtico junto ao parque Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, como é possível observar na imagem a seguir: 38 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? FIGURA 6 – FACHADA DA ACADEMIA IMPERIAL DE BELAS ARTES, RIO DE JANEIRO FONTE: <https://bit.ly/3keFJoD>. Acesso em: 19 out. 2019. As circunstâncias em que é cogitado e/ou é aberto processo de cancelamento de tombamento podem ocorrer quando do perecimento do bem tombado, seja por causas naturais e similares, pelo desaparecimento das evidências que lhe conferiam valor patrimonial e cultural, por erros de avaliação e no caso de interesse público, como por exemplo quando que projetos de modernização precisam ser implementa- dos em uma cidade e os bens tombados encontram-se como empecilhos dos mesmos. Caro Acadêmico, não é surpresa que determinados bens e exemplares de patrimônio histórico e cultural, de um dia para o outro, amanheçam destruídos ou sofram de algum incêndio inesperado. Tais atos muitas vezes são motivados por questões de intolerância e rivalidade, assim como por interesse privado e da especulação financeira; estes ataques aos bens e expressões do patrimônio histórico e cultural constituem atos criminosos e se provados, são punidos nos termos da lei. 4.3 CHANCELA DE PAISAGEM CULTURAL Chancela de paisagem cultural é um termo relativamente recente no campo do patrimônio histórico e cultural, foi empregado para conferir o reconhecimento de valor de distinção a paisagens culturais. A chancela é usada para promover a preservação de parcelas singulares do território, que são responsáveis por ilustrar a relação e interação do homem, da cultura com a natureza. No Brasil, ocorre menção à palavra “paisagem” ainda quando do Decreto-lei nº 25 de 1937, em que foi criado o Livro Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Recentemente, no ano de 2009, o Iphan fez o lançamento da Portaria nº 127/2009 denominada “Chancela da Paisagem Cultural”. O papel do Iphan está em articular ações de valorização, planejamento e gestão destes locais. TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 39 Países como a Espanha, o México e a França foram pioneiros em realizar ati- vidades e processos de chancelamento de paisagens culturais. A Unesco, desde os primeiros anos da década de 1990 já se utilizava do conceito de paisagem cultural. No ano de 2012 reconheceu e chancelou como paisagem cultural urbana a cidade do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro compreendido pelo o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Floresta da Tijuca, o Aterro do Flamengo, o parque do Flamengo, a Enseada de Bota- fogo, o Jardim Botânico, a praia de Copacabana, a entrada da Baía de Guanabara, o Forte e o Morro do Leme, Forte de Copacabana e o Arpoador). Caro acadêmico, os parâmetros, os projetos e as propostas de paisagem cul- tural variam de local para local, a paisagem observada no Pantanal do Mato Grosso é completamente diferente da paisagem observada nas cidades com seus casarios coloniais ou das colônias de pescadores que existem no litoral brasileiro, dos sobra- dos e mucambos nas cidades do interior de Minas Gerias, no roteiros nacionais de imigração na região Sul do Brasil ou dos sítios bandeiristas que existem no interior de São Paulo. Sobre os dois últimos exemplos, observe as imagens das figuras a seguir: FIGURA 7 – ROTA ENXAIMEL, POMERODE/SC FONTE: <https://bit.ly/2XsnuCo>. Acesso em: 18 out. 2019. A Rota Enxaimel reúne um conjunto de casarios edificados entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, que empregam a técnica construtiva Enxaimel. Os casarios se concentram na região rural do Testo Alto da cidade de Pomerode/SC. A Rota faz parte de um projeto do IPHAN denominado Roteiros Nacionais de Imi- gração em Santa Catarina e abrange 17 municípios, nos quais vem sendo elaborados estudos, pesquisas e inventários desde o ano de 2007. 40 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? FIGURA 8 – SÍTIO SANTO ANTÔNIO, SÍTIO BANDEIRISTA SÃO ROQUE/SP FONTE: <https://bit.ly/30t6Ncc>. Acesso em: 18 out. 2019. Caro acadêmico, qualquer dos processos de proteção e acautelamento dos bens, exemplares e referências de patrimônio histórico e cultural, sejam eles de educação patrimonial, salvaguardo, conservação, restauro, tombamento, chancela, entre outros, existem e funcionam justamente para possibilitar o reconhecimento dos mais diferentes processos históricos do homem ao longo do tempo, a relação do homem com a natu- reza, com o espaço, com o trabalho, com a arquitetura, com a arte, no sentido de realizar análises e comparações sobre as diferenças, as semelhanças, as mudanças, as permanên- cias, as continuidades, as superações, as inovações entre outros. ATENCAO A chancela funciona como uma espécie de selo de qualidade, a chancela tem a duração de 10 anos e pode ser revalidada enquanto a porção de território manti- ver as características, uma vez que são alteradas e perdidas, os órgãos competentes podem cancelar a chancela. Para tanto as autoridades das instituiçõesde patrimônio histórico e cultural são responsáveis por elaborar relatório periódicos sobre a perma- nência ou não dos traços que caracterizavam a região que foi chancelada. Nestes bens culturais ocorre que as alterações e mudanças em termos de evidencias relevantes pode se dar de forma mais rápida e o que era observado em TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 41 4.4 RESTITUIÇÃO E REPATRIAÇÃO Caro acadêmico, os objetos, os itens e bens culturais que se encontram dis- poníveis em exposição e acervos de museus e galerias geralmente foram doados, presentes trocados pelas autoridades representantes das instituições, comprados ou negociados entre as partes interessadas; mas nem sempre percorreram um ca- minho de aquisição e/ou negociação transparente, ética e justa, muitos também são resultado de tráfico, contrabando, saques, pilhagens de guerra, furtos e roubos. Costa (2018) explica que no período do pós-guerra (1ª e 2ª Guerras Mun- diais), em especial a partir dos anos de 1950 as instituições internacionais, gover- nos, grupos étnicos, órgãos não governamentais começam a debater e se posicio- nar e por meios de documentos e resoluções, assim como passam a requerer a restituição e a repatriação de determinados bens culturais. Restituição e repatriação são termos similares e podem ser entendidos como complementares, observe a explicação: a restituição diz respeito ao retorno de objetos e itens dentro de um mesmo território por exemplo, o acervo que consta em um mu- seu deve retornar à população, ao grupo de onde foi encontrado e removido; a repa- triação se refere ao ato de devolução ao local de origem no que diz respeito ao país de origem. Em ambos os casos os bens culturais que são de alguma forma reivindicados e que se encontram sob a guarda de museus e institutos devem ser devolvidos. Em meio a esse debate prevalecem duas frentes de argumentos, uma que é favorável e outra contrária. A primeira defende que os objetos que se encontram fora do habitat original e ou do conjunto ao qual fazem parte perdem a capaci- dade ilustrativa, o teor significativo, o sentido e a expressão que antes possuíam, privando as comunidades que se relacionavam com o bem cultural e ao mesmo tempo não cumprindo sua função e significado no local onde estão dispostos. Comunidades indígenas, antropólogos e demais profissionais da área tem defen- dido que os povos produtores dos bens culturais devem possuir pleno poder de decisão e gestão sobre os exemplares e expressões culturais por eles elaborados. Aqui, encontram-se os defensores da ideia de nacionalismo cultural, que valori- zam elementos da identidade nacional que é peculiar a cada nação. Na segunda frente de argumentação encontra-se os argumentos de que as populações e as comunidades responsáveis pela elaboração dos bens culturais nem sempre contam com as condições necessárias e suficientes para acomodar, expor e garantir que o acesso seja público dos bens, assim como não conseguiriam uma dada época pode não ser mais identificado na época seguinte, e isso pode ser de responsabilidade tanto a fatores humanos, sociais, políticos, econômicos como naturais. No sentido de preservar uma paisagem cultural é de salutar im- portância a relação de diálogo e de comprometimento num projeto de gestão compartilhado entre poder público, sociedade civil e iniciativa privada, no con- texto brasileiro tem sido nestas instâncias que são travados os principais embates. 42 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? FIGURA 9 – PEDRA DE ROSETA, MUSEU BRITÂNICO/INGLATERRA FONTE: <https://bit.ly/3gtneKN>. Acesso em: 18 out. 2019. garantir que o mesmo possa ser transmitido em meio à sucessão das gerações. Aqui encontram-se muitos defensores da ideia de internacionalismo cultural, de que os bens culturais fazem parte da cultura comum dos povos. Os bens culturais que mais são envolvidos neste debate são itens arqueo- lógicos, objetos etnográficos e obras de arte, dentre estes é possível ilustrar com o exemplo da Mona Lisa, que foi pintada por Leonardo da Vinci no ano de 1503, no interior da Itália, que está exposta no Museu do Louvre, na França; e que quando do roubo da mesma pelo italiano Vicenzo Perrugia, este alegou se tratar de um ato de retorno e devolução à pátria de origem da obra. Outro caso que também serve de exemplo é o engajamento e a militância exer- cida pelo arqueólogo, egiptólogo e ex-ministro de antiguidades do Egito, Zahi Hawaas, que reclama pelo retorno dos milhares de exemplares egípcios que estão expostos em diversos museus e instituições culturais do mundo. Item cultural fundamental desta campanha é a Pedra de Roseta, que se encontra exposta no Museu Britânico, em Lon- dres/Inglaterra, de procedência egípcia e que data do período anterior a Cristo. A Pedra de Roseta contém os códigos que proporcionaram a tradução dos hieróglifos egípcios à língua grega e desta às demais línguas ocidentais. A Pedra de Roseta é um dos itens mais visitados no eixo dos principais museus do mundo. A Inglaterra (Museu Britânico em Londres), Estados Unidos (Museu Metropolitano de Arte em Nova York), Alemanha (Museu Novo em Berlim), a França (Museu do Louvre em Paris) são os países e os museus que mais são questionados pelas pautas e agendas de repatriação e restituição de bens culturais. TÓPICO 2 — PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E PROCESSOS 43 Caro acadêmico, para aprofundar este tema sugere-se a dissertação de mestrado intitulada A normatização internacional de repatriação de bens culturais e des- dobramentos para o patrimônio cultural e museus à luz do direito, defendida por Carlos Alberto Soares Junior, junto ao programa de pós-graduação em Direito Constitucional da Universidade de Fortaleza, no ano de 2014. Leia na íntegra: https://bit.ly/2BYKguj. DICAS 44 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • ONU, Unesco, ICOM, ICOMOS são instituições que atuam em âmbito mundial no salvaguardo e na defesa de exemplares, bens e referências de patrimônio histórico e cultural, para tanto, elaboram documentos que regulamentam e orientam a gestão, o acesso, os tratamentos, as abordagens e os usos a que se referem. • O Iphan foi criado no ano de 1937 com a nomenclatura anterior de SPHAN, constitui uma autarquia federal do Governo do Brasil, de modo geral é res- ponsável pelo acautelamento, pela preservação e pela divulgação do patrimô- nio material e imaterial brasileiro. • As principais ações que o Iphan realiza são inventários, registros, desapro- priações e tombamentos. • Detentores são os componentes das comunidades, dos grupos, de segmentos e coletividades que possuem relação direta com a dinâmica de produção, ma- nutenção, reprodução e renovação de determinado bem cultural imaterial e/ ou de seus bens culturais. • Cartas, declarações, recomendações e agendas comportam as principais concep- ções, diretrizes, deliberações que foram firmadas e pactuadas pelos organismos, autoridades e profissionais dos mais diferentes âmbitos e esferas que participaram de eventos, encontros, reuniões, jornadas, convenções, congressos entre outros. • Ações de salvaguardo podem ser de identificação, documentação, investiga- ção, preservação, proteção, promoção, valorização, transmissão (essencial- mente por meio da educação formal e não formal) e a revitalização. • Ações de salvaguardo atuam para que ações de maior grau de intervenção venham se fazer necessárias. • Medidas de conservação almejam fazer a manutenção do bem, expressão ou re- ferência cultural nas condições na qual este se encontra. Tende a ser preventiva, com intuito de controlar os fatores externos e/ou que se relacionam a estes no sentido de que não venham a comprometer ou a agravar as condições atuais. • Práticas de restauro são destinadas a manter em funcionamento, facilitar a leitura e transmitir ao futuro, dito de outro modo, visa garantir a permanência dos bens, itens e expressões para as gerações futuras. • Práticas de restauro podemabranger obras, pintura, escultura, conjuntos e edifí- 45 cios arquitetônicos, jardins parques de interesse histórico e ambiental, vestígios antigos oriundos de pesquisas subterrâneas e subaquáticas, desde a época paleo- lítica até a contemporânea; desde a arte popular até a arte contemporânea. • As práticas de restauração constituem num conjunto de atividades que visam restabelecer o estado original ou próximo ao anterior aos danos. Os projetos de restauração devem seguir as orientações e posturas que constam junto às cartas patrimoniais, as legislações e recomendações vigentes. • Processos de tombamento consistem em atos administrativos fundamentados na legislação, em especial nos direitos culturais presentes nos decretos-lei de 1937 e na Constituição Federal de 1988; que é consagrado por meio de registro em livro espe- cífico, o Livro do Tombo; e em órgãos/setores e/ou departamentos próprio da função. • Chancela de paisagem cultural confere reconhecimento de valor de distinção às pai- sagens culturais. A chancela é usada para promover a preservação de parcelas singu- lares do território, que são responsáveis por ilustrar a relação e interação do homem, da cultura com a natureza. Tem duração de 10 anos, podendo ser renovada ou não. • Restituição diz respeito ao retorno de objetos e itens de patrimônio histórico e cultural dentro de um mesmo território por exemplo, logo acervo que consta em um museu deve retornar à população, ao grupo de onde foi encontrado e removido; já repatriação se refere ao ato de devolução ao local de origem no que diz respeito ao país de origem. 46 1 A carta de Veneza de 1964, que foi redigida por conta do II Congresso In- ternacional de Arquitetos e Técnicos dos Monumentos e Sítios Históricos- -ICOMOS, representa um dos documentos orientadores das atividades de salvaguardo, conservação e restauro em bens e expressões de patrimônio histórico e cultural. No conteúdo deste documento consta que não podem ocorrer procedimentos tais como aditamento, anastilose, limpeza que pro- voque alteração cromática ou do material. No que tais determinações im- plicam? Analise as sentenças a seguir: I- As substituições de partes faltantes devem ser feitas de uma forma que elas se confundam totalmente com a obra original. II- Devem ser evitadas intervenções de renovações ou reconstruções da edifi- cação, do objeto ou obra artística. III- Em casos de sujidades e patologias do gênero, é permitido o uso de lava- -jatos, alvejantes e escovas metálicas. IV- Os acréscimos são permitidos quando respeitam a estrutura tradicional do edifício e estejam em equilíbrio com a composição e com o meio am- biente. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As alternativas I, II, III estão corretas. b) ( ) As alternativas II, III e IV estão corretas. c) ( ) Somente as alternativas I e IV estão corretas. d) ( ) Somente as alternativas II e IV estão corretas. 2 No ano de 1972 foi publicado um novo documento orientador sobre as ques- tões e atividades em patrimônios históricos e culturais, trata-se da Carta do Restauro, publicado pelo governo da Itália. Este documento apresenta ins- trução aos procedimentos de intervenções de restauro em qualquer obra de arte, monumentos, edificações arquitetônicas, pinturas, esculturas, expres- sões figurativas da cultura popular e da arte contemporânea, bem como ati- vidades relacionadas a pesquisas subterrâneas e subaquáticas. Quais foram as principais determinações da Carta de Restauro de 1972? Analise as senten- ças a seguir atribuindo V para as verdadeiras e F para as falsas: ( ) Foram proibidos aditamentos de estilos, remoções ou demolições que comprometam a trajetória da obra através do tempo. ( ) Foram permitidos traslados, remoções e reconstruções para locais diferen- tes dos originais, toda vez que houvesse risco de intempéries climáticas. ( ) Determinou-se quer pareceres e laudos técnicos sobre o estado atual, o de- talhamento da conservação e a natureza das restaurações, podem ser entre- gues até um ano após a realização das atividades das intervenções. AUTOATIVIDADE 47 ( ) Foram proibidas alterações no que diz respeito ao conjunto, ao todo, além da obra em si, tais como, jardim e parque, na qual a obra se insere. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) V – V – V – F. b) ( ) V – F – F – V. c) ( ) F – F – V – V. d) ( ) V – V – F – V. 3 No campo de atividades de intervenção do patrimônio histórico cultural material e imaterial existem níveis e procedimentos diferentes que podem ser aplicados, dentre eles os principais são de salvaguardo, conservação e restauração. Cada um destes procedimentos pode ser aplicado em conjunto ou de forma separada, dependendo da natureza e das condições em que o exemplar ou da expressão se encontram. Relacione os procedimentos com suas respectivas descrições: I- Salvaguardo. II- Conservação. III- Restauração. ( ) Ações de caráter preventivo como por exemplo limpezas e novas am- bientações. ( ) Ações de caráter preventivo em nível de pesquisa histórica, do material gráfico e fotográfico. ( ) Ações de remoção ou reintegração de materiais que foram acrescidos ou perdidos com o passar do tempo. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) I – II – III. b) ( ) I – III – II. c) ( ) II – III – I. d) ( ) II – I – III. 48 49 TÓPICO 3 — UNIDADE 1 TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico! Neste tópico, apresenta-se elementos introdutórios ao grande tema de Educação Patrimonial, inicia-se pela descrição da trajetória histórica e pelas previsões legais aos temas de patrimônio histórico e cultural e da educação patrimonial no Brasil. Discute-se os valores da sociedade contemporânea, enfatiza-se a presença, o uso e os abusos das referências de memória e identidade, a importância da educação patrimonial, das ações educativas, da mediação cultural e as possibilidades dos espaços de ensino-aprendizagem formais e não formais. 2 TRAJETÓRIA DO PATRIMÔNIO E DA EDUCAÇÃO PATRI- MONIAL NO BRASIL A trajetória do tema de patrimônio histórico, artístico, cultural e da educação patrimonial em meio aos governos, às instituições e a sociedade brasileira pode ser con- siderada um tema, uma questão que não possui longa data e sólido debate. Tem-se que os principais projetos, marcos e feitos oficiais consagrados pela historiografia passaram a ocorrer apenas ao longo do século XIX e XX, e são resultado da forte intervenção estatal, ou seja, partiram em grande medida de iniciativas e projetos desenvolvidos no interior dos governos e que possuem baixa participação e frequência popular. As primeiras movimentações se deram a partir do século XIX mediante os investimentos por parte do governo imperial que convergiram à contratação da Missão Artística Francesa, e quando no século XX, já no regime republicano, por meio da criação de um órgão específico em nível federal, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), que em seguida foi substituído pelo Insti- tuto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ao longo do século XIX, os principais projetos foram motivados pela da vinda da corte real portuguesa ao Brasil. A família e a corte de D. João VI, ameaça- da pelas tropas de Napoleão Bonaparte, deixou Portugal e às pressas se instalou no Brasil. Nesta oportunidade trouxe junto nas embarcações diversas obras de arte, mobiliários e inclusive a própria biblioteca real com um montante de apro- ximadamente 60 mil livros, mapas, estampas, medalhas, manuscritos, acervo que por sua vez forneceu o ponta pé inicial à criação da Biblioteca Nacional e do Mu- seu Nacional, ambos no Rio de Janeiro. 50 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? A partir de então o governo brasileiro passou a se dedicar e criar as refe- rências patrimoniais, artísticas e culturais para o país. Entre os primeiros edifícios destinados às artes, além da Biblioteca Nacional e do MuseuNacional, ocorreu a criação do teatro São João, hoje chamado teatro João Caetano. Posteriormente sur- giu a preocupação de constituir um grupo erudito, com corpo técnico especializa- do em artes, para tanto foi contratada a Missão Artística Francesa. No dia 25 de março de 1816, desembarcou no porto do Rio de Janeiro uma comitiva de artistas franceses, chefiados por Joaquim Lebreton (1760-1819); faziam parte da Missão Artística Francesa: Nicolas Antoine Taunay (1755-1830), pintor de paisagem; Jean Baptiste Debret (1768-1848), pintor de história; Auguste Henri Victor Grandjean de Montingy (1776-1850), arquiteto; Auguste Marie Taunay (1768-1824), escultor e arquiteto; Charles Simon Pradier (1786-1848), gravador. A ideia original do grupo transformou-se no que veio a ser a Academia Imperial de Belas Artes, que teve as atividades iniciadas no ano de 1826. Os resultados obtidos a partir da vinda da Missão e da Artística Francesa e do pro- jeto da Academia Imperial de Belas Artes, foi o de uma estética cultivada pelo Estado e organizada dentro de linhas metodológicas rígidas do academicismo, com temáticas e modelos formais, que previa exames de aptidão e sistema de premiações, sendo bastante controlada pela censura oficial da época. Dentre os artistas formados que obtiveram destaque nacional é possível mencionar: Victor Meirelles, Almeida Júnior, Rodolfo Amoedo, Henrique Bernardelli, Pedro Améri- co, Eliseu Visconti, Artur Timóteo da Costa e Belmiro de Almeida. Já no século XX, a produção artística e cultural brasileira ganhou evidência a partir dos anos de 1920, durante a Semana da Arte Moderna entre os dias de 11 e 18 de fevereiro de 1922. A Semana que foi realizada na cidade de São Paulo, o even- to recebeu apoio do governo estadual e foi liderado por intelectuais e artistas como Mário de Andrade, Candido Portinari, Antônio Bento, Gustavo Capanema, Rodrigo de Melo Franco de Andrade, Villa Lobos entre outros, a semana deu ênfase principal- mente aos temas da literatura, da pintura, da escultura, da poesia e da música. A Semana da Arte Moderna almejava promover uma espécie de contraste e choque com que havia sido produzido até então, no sentido de promover forte renova- ção na linguagem artística, motivar a experimentação e a liberdade de criação, romper com os modelos do passado. Á título de exemplo tem-se que no campo da poesia, pas- sou-se da forma meramente escrita à declamação, na música passaram ocorrer apre- sentações de cantores individuais mas também concertos com orquestras sinfônicas, a arte plástica que até então somente era exibida em telas, esculturas e maquetes de ar- quitetura, passou a contar também com desenhos arrojados e modernos. No ano de 1937 ocorreu a criação do SPHAN — Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — que em seguida viria a se chamar Iphan — Insti- tuto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional; que inicialmente preocupou-se com a criação de museus e no incentivo de exposições, no tombamento de cole- ções e acervos artísticos e documentais. Entre os anos de 1937 e 1970 ocorreram os primeiros trabalhos de tombamentos de bens culturais no Brasil. Dentre as TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 51 obras tombadas neste primeiro movimento pode-se destacar os exemplares da arquitetura religiosa, civil e militar, bem como a publicação técnica e jornalística sobre a importância do conhecimento dos bens de patrimônio histórico brasileiro. Inicialmente foram contemplados os conjuntos arquitetônicos de Ouro Preto, Mariana, Diamantina, São João Del Rei, Serro e Tiradentes no interior de Minas Gerais, as ruínas de São Miguel das Missões no estado do Rio Grande do Sul, e os mais diversos edifícios residenciais religiosos do Centro Histórico da cidade de Salvador na Bahia. A seguir procura-se apresentar uma imagem dos primeiros conjuntos arquitetônicos tombados pelo Iphan: FIGURA 10 – RUÍNAS DE SÃO MIGUEL DAS MISSÕES/RS FONTE: <https://bit.ly/3gGlIW9>. Acesso em: 2 out. 2019. As ruínas de São Miguel da Missões fazem parte do Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, remanescente da redução jesuítica São Miguel Arcanjo, integrante dos Sete Povos das Missões. O local ilustra o projeto evangelizador dos padres jesuítas empre- endido a partir do século XVI em meios às comunidades indígenas guaranis. Ao longo do século XVIII a região foi alvo de intensa disputa territorial entre portugueses e espanhóis, momento em que a presença dos padres jesuítas passou a ser foi banida. Ao longo do século XIX a região ficou abandonada e foi alvo de diversos saques. O tombamento do sítio arqueológico foi efetivado no ano de 1938 pelo Iphan e no ano de 1983 foi declarado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. INTERESSA NTE 52 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? Até as primeiras décadas da segunda metade do século XX, a compreensão para Patrimônio Histórico e Cultural que predominava em meios às instituições, aos intelectuais e profissionais da área foi a de que os conjuntos de edificações, monumentos antigos ou as obras de arte excepcionais deveriam ser preservados ou por terem sido palco de eventos marcantes da vida religiosa, econômica e política nacional, por constarem em documentos e livros históricos, por pertencerem à ins- tituições religiosas cristãs e/ou por pertenceram à alguém de renome na sociedade. Demais interpretações e críticas que costumam ser feitas para estas defini- ções e compreensões é que o patrimônio histórico e cultural se encontrava forte- mente relacionados aos interesses dos projetos de Estado-nação, que por sua vez ilustravam, por meio de fortificações, monumentos, casa de câmara e cadeia, a emi- nência monumental e coerciva da função do Estado. Por outro lado, no que diz respeito às edificações, os casarios e moradias particulares, estas ilustram as posses econômicas e o repertório artístico-cultural dos proprietários de casarios, das elites de modo geral, bem como os círculos intelectuais dos quais faziam parte. No contexto deste debate, a imagem da Figura 11 nos fornece um exemplo ilustrativo, trata-se da obra de Pedro Américo, artista que foi formado pela Aca- demia Imperial de Belas Artes, cuja pintura ilustra o momento em que D. Pedro I declarava a independência do Brasil de Portugal. A obra se chama Independência ou Morte ou O grito do Ipiranga, e se encontra exposta junto ao Museu Paulista desde o ano de 1895, quando ocorreu a inauguração do mesmo, observe com atenção: FIGURA 11 – INDEPENDÊNCIA OU MORTE. PEDRO AMÉRICO, 1888 FONTE: <https://bit.ly/2EH30zh>. Acesso em: 2 out. 2019. TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 53 A obra de Pedro Américo foi encomendada em 1886 pelo conselheiro im- perial Joaquim Inácio Ramalho. A pintura deveria ilustrar eloquentemente o ato que consagrou a Independência do Brasil, o 7 de setembro, D. Pedro I em posição heroica e triunfante, bem como exaltar o patriotismo e o nacionalismo. A obra é amplamente debatida entre historiadores e estudioso do tema do período, pois não relata com exatidão o ocorrido e as circunstâncias do momento, diversos es- tudos apontam que D. Pedro I e sua comitiva cavalgavam pelo região montados em mulas e não em cavalos, que uniformes eram menos galantes que os que fo- ram representados, que a comitiva de D. Pedro I não era tão numerosa, em espe- cial que não haveria ocorrido a realização de um ato político propriamente dito. Tendo em mente esse debate, poderiam ser tomados como exemplo outros bens patrimoniais como igrejas, mosteiros, conventos, seminários, esculturas e ima- gens de santos retratam a trajetória das instituições e ordens religiosas propriamen- te dita; obras como esculturas, pinturas e gravuras produzidas por artistas notáveis geralmente oriundos das Escolas de Belas Artes das principais capitais do país, cujo conteúdo e narrativa possuem forte tendência erudita e elitista. Assim como coleções arqueológicas e etnográficas de populações indígenasanteriores ao pro- cesso de povoamento do território pelos europeus; engenhos, estações ferroviárias, aquedutos, fábricas, fontes que ilustram os ciclos econômicos do país. Todos esses bens, itens e exemplares que foram inicialmente consagrados como patrimônio histórico, arquitetônico, artístico e paisagístico brasileiro pos- suem salutar importância e valor, porém ainda não são suficientes para ilustrar e representar a diversidade e a pluralidade social, histórica, artística e cultural produzida no território nacional, é neste ponto que reside as principais críticas que são atribuídas aos primeiros processos de tombamento do Brasil. Outro ponto crítico-reflexivo que foi feito aos processos de tombamento e consagração de patrimônio histórico e cultural deste período é de que, geralmen- te, estes bens traduzem a noção de uma história homogênea e isenta de conflitos e contradições, acabam por não revelar as tensões e disputas que perpassaram a produção artística e cultural tanto do passado como do presente, bem como aca- bam sendo responsáveis por silenciar as minorias ou quem esteve atuando nos bastidores dos processos históricos. Caro acadêmico, para endossar esta discussão, é salutar recordar as preo- cupações de Bertold Brecht (1898-1956) presentes no poema denominado Perguntas de um operário letrado, que versa acerca do esquecimento e da invisibilidade de diferentes classes e indivíduos que contribuíram na realização e no sucesso de grandes feitos, mo- mentos e movimentos da história. Disponível em: https://bit.ly/3gwAqPo. IMPORTANT E 54 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? A ampliação e a superação desse quadro passa a ocorrer a partir da segun- da metade do século XX, quando estudiosos e autoridades passaram à considerar outras referências, manifestações e dimensões como exemplares de patrimônio histórico e cultural, foi o momento em que se deu a inclusão da cultura popular, das manifestações da cultura imaterial e intangível em especial passaram a ser desenvolvidos de projetos e ações de educação patrimonial. Em 1981 foi criado pela secretaria de Cultura do MEC o Projeto Interação, que visava fomentar a “interação” entre educação básica e os diferentes contex- tos culturais existentes no país, no sentido de apoiar, criar e fortalecer o trabalho educacional e a dinâmica cultural; em 1983 foi realizado no Museu Imperial do Rio de Janeiro, o primeiro Seminário que se voltava ao tema. A experiência dos estudiosos brasileiros foi motivada pelo projeto que já se encontrava em curso na Inglaterra denominado Heritage Education, realizado em parceria com a Unesco. Consulte o site da Unesco e conheça mais sobre os projetos e as ações do Heritage Education Centre. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/wheducation/. DICAS No ano de 1988 com a promulgação da Constituição Brasileira, por meio dos artigos Art. nº 215 e Art. nº 216, passaram a ser contempladas, também, as fontes de patrimônio histórico cultural material e imaterial, que constituem um exercício pleno dos direitos culturais. Com as novas previsões prescritas na Cons- tituição Federal e nos respectivos artigos, a definição de patrimônio histórico e cultural ficou nos seguintes termos: “são constituídos por bens de natureza mate- rial e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto”: I - as formas de expressão; II- os modos de criar, fazer e viver; III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços desti- nados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, ar- queológico, paleontológico, ecológico e científico (BRASIL, 1988, s.p.). A partir da promulgação da Constituição de 1988, as atividades de inven- tários, salvaguardos e tombamentos do Iphan têm sido no sentido de incluir os exemplares de bens de natureza imaterial, as formas de expressão como festas po- pulares, os saberes e as tradições orais, os modos de criar, fazer e viver em meio às comunidades, as atividades artesanais, os exemplares da culinária entre outros. TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 55 Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), publicados no ano de 1998 para as áreas de história e artes também, passaram a contemplar e a sugerir a temática de patrimônio histórico e cultural desde as séries iniciais até as séries finais da educação básica. No ano de 1999 ocorreu a publicação do Guia bási- co de Educação Patrimonial que, desde então, ocupa posição de distinção como obra de maior referência no que diz respeito reflexões teóricas e metodológicas às ações educativas por meio de exemplares de patrimônio histórico e cultural. No ano de 2005 ocorreu o I Encontro Nacional de Educação Patrimonial, junto ao Convento São Francisco, na cidade de São Cristóvão, o estado de Sergi- pe, que por sua vez teve os trabalhos voltados à elaboração de parâmetros nacio- nais para ações em educação patrimonial junto às escolas, museus e em meio à sociedade. No ano de 2007 foi publicado o Manual de atividades práticas de educação patrimonial, no qual constam inúmeras sugestões de atividades destinadas aos mais diferentes públicos do ensino formal e não formal. No ano de 2009 foi criado o Ibram (Instituto Brasileiro de Museus) que tem como preocupação promover melhorias, por exemplo: o aumento de visitação e arre- cadação dos museus, o fomento de políticas de aquisição e preservação de acervos e criação de ações integradas entre os museus brasileiros. Em 2011 ocorreu o II Encontro Nacional de Educação Patrimonial na cidade de Ouro Preto, Minas Gerais, oportuni- dade em que o Iphan e o Ministério da Educação e Cultura (MEC) firmaram acordo para que o tema de Educação Patrimonial integrasse o macrocampo da Cultura e das Artes no “Programa Mais Educação”, de Educação Integral. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada no ano de 2018, apresenta que os exemplares de pa- trimônio histórico cultural material e imaterial são primordiais à formação e consolida- ção das habilidades e competências de “atitude de historiador” junto aos estudantes. Caro acadêmico, a breve trajetória que procuramos descrever, que ultrapassa um pouco mais de dois séculos, representa os principais momentos do patrimônio histórico e cultural e da educação patrimonial no Brasil; cada época, cada geração, cada governo, cada instituição, cada cidadão tem fornecido sua contribuição, ainda existe muito para ser feito, escrito, inventariado, consagrado, tombado, reconhecido, divulgado entre ou- tros, o fato de você estar cursando a disciplina de Educação patrimonial representa uma das possibilidades que o tema de Educação Patrimonial e Patrimônio Histórico e Cultural pode adquirir, o que representa uma oportunidade privilegiada à inclusão do tema junto aos Projetos Político-Pedagógicos, aos planos de ensino, planos de aula e nas atividades de ensino e aprendizagem com os estudantes e em espaços de cultura. 2.1 MEMÓRIA E IDENTIDADE NA CONTEMPORANEIDADE Na época contemporânea, em meio às sociedades urbanizadas e indus- trializadas, compartilha-se da sensação de que a passagem do tempo tem escapa- do à capacidade de acompanhamento, análise e reflexão, ou seja, que a percepção da passagem do tempo tem ficado marcada pela aceleração e rapidez vertiginosa; 56 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? é comum ouvir as pessoas se referirem à sucessão dos dias, das semanas, dos me- ses, dos anos e das décadas como se esvaíssem num piscar de olhos. Outro fenômeno presente no cotidiano das pessoas tem sido com relação ao deslocamento no espaço, caracterizado pelo aumento da velocidade no percurso, o que tem promovido a percepção de encurtamento das distâncias. Pode-se, sem maio- res complicações, atravessar o Oceano Atlântico e desembarcar em qualquer cidade da Europa ou até mesmo do Japão em menos de 24 horas. Por outro lado, a tecnolo- gia da transmissão pelainternet e/ou via satélite tem permitido saber e acompanhar, em tempo real, o que está ocorrendo neste exato momento no interior da floresta amazônica, ou em alguma cidade do Oriente Médio, em uma cidadela qualquer da Índia, bem como das megacidades como Londres, Berlim, Tóquio e/ou Paris. Isso tudo tem sido possível mediante a colaboração de diversos fatores, dentre eles o aprimoramento tecnológico dos meios de transporte como a avia- ção, da transmissão via rádio, satélites e internet, de acordos e do livre acesso e circulação de produtos e informações entre as nações, intercâmbios entre ins- tituições de conhecimento e pesquisa, pelas demandas por trabalhos técnicos e especializado em diferentes parte do mundo, com o favorecimento de políticas de acesso ao crédito financeiro, de campanhas de turismo, entre outros aspectos. Por sua vez, tais experiências e possibilidades têm acarretado custos e danos à percepção do tempo e do espaço, seja de forma individual ou coletiva, bem como às referências de identidades, às tradições, às culturas como um todo; dentre elas pode-se mencionar que, em nome do protecionismo, pela manutenção das fronteiras. Em meio à disputa de território e de oportunidades tem ocorrido acirramento das polarizações e das desigualdades, o enfraquecimento da sensação de segurança e confiança, a forma- ção de nichos que contribuem para o isolamento e a individualização das populações. O fenômeno da globalização também não pode ser deixado de fora desta análise, que, segundo diversos autores, tem corroborado ao processo de homoge- neização dos traços culturais, o que quer dizer a padronização das tradições, dos hábitos e dos costumes; assim como ao enfraquecimento das experiências locais e regionais e à fragmentação das comunidades. A complexidade da vida con- temporânea exige que assumamos diferentes identidades, mas essas diferentes identidades podem, em um determinado momento, entrar em conflito. Duas formas de respostas têm sido manifestadas tanto em meio aos grupos como pelos indivíduos: uma é a do fundamentalismo e a outra do hibridismo. Hall (2000) explica que as posturas fundamentalistas têm resistido e cada vez mais recla- mado o reconhecimento da distinção, da diferenciação e da demarcação das fron- teiras entre as culturas, as expressões o que, por sua vez, tem sido percebido como experiências de exclusão do diferente, do externo, do estrangeiro. Em contrapartida, as posturas hibridistas têm advogado que a convivência, a coexistência e a tolerância com o outro, com o diferente, com o estrangeiro, ou seja, em meio à diversidade e em meio à multiculturalidade podem ocorrer oportunidades de combinação, reinvenção, ressignificação e renovação para ambas as partes, culturas e tradições envolvidas. TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 57 Reinhart Kosseleck (2006) explica que em meio a uma sociedade em que ocorre o estreitamento e esvaziamento do espaço e do repertório de experiências do passado, ocorre, em contrapartida, o aumento do horizonte de expectativas para com o futuro. Outras formas pelas quais os estudiosos têm se referido ao momento atual é para com o reconhecimento de que as referências e valores tradicionais de identidade e de cultura se encontram deslocadas, descentradas, os indivíduos têm buscado encontrar pela matriz das referências e valores chamados de tradicionais e não tem encontrado, gerando forte sensação de frustração e crise. Hobsbawn (1984, p. 12-13) explica que nessas circunstâncias tem sido re- corrente e os indivíduos têm reagido e respondido no sentido de “inventar tradi- ções”, observe as palavras do autor: [...] quando uma transformação rápida da sociedade debilita ou destrói os padrões sociais para os quais as “velhas” tradições foram feitas, produzin- do novos padrões com os quais essas tradições são incompatíveis; quando as velhas tradições, juntamente com seus promotores e divulgadores ins- titucionais, dão mostras de haver perdido grande parte da capacidade de adaptação e da flexibilidade; ou quando são eliminadas de outras formas. A invenção das tradições encontra na memória um forte suporte, segundo Pomian (2000, p. 508) a memória “permite a um ser vivo remontar no tempo, re- lacionar-se, sempre mantendo-se no presente, com o passado: conforme os casos, exclusivamente com o seu passado, com o da espécie, com o dos outros indivídu- os ou grupos com os quais estabeleça vínculos”. Assim, festividades, tradições e costumes familiares, comunitários locais e regionais são “resgatados”, “rememo- rados”, “revividos”, passam a fazer parte dos calendários oficiais, criam-se pro- gramações que contemplam os aspectos da dança e música, jogos e competições, desfiles e homenagens, a gastronomia, as vestimentas, a arquitetura, o trabalho, a religiosidade entre outros. Numa perspectiva crítica diante desse processo, Pierre Nora (1984, p. 24) descreve que “os lugares de memória são, antes de mais nada, restos. [...] São ritu- ais de uma sociedade sem ritual, sacralidades passageiras em uma sociedade que dessacraliza, ilusões de eternidade”, trata de práticas de uma sociedade sem rituais, fortemente dessacralizada. Nesse sentido, Hobsbawn (1984, p. 16) contribui que: [...] não é necessário recuperar nem inventar tradições quando os ve- lhos usos ainda se conservam. Ainda assim, pode ser que muitas ve- zes se inventem tradições não porque os velhos costumes não estejam mais disponíveis nem sejam viáveis, mas porque eles deliberadamente não são usados, nem adaptados. Assim, ao colocar-se conscientemente contra a tradição e a favor das inovações radicais, a ideologia liberal da transformação social, no século passado, deixou de fornecer os víncu- los sociais e hierárquicos aceitos nas sociedades precedentes, gerando vácuos que puderam ser preenchidos com tradições inventadas. Se o momento presente frustra, busca-se conforto e segurança por meio das narrativas que repousam na memória, nos bens, nas expressões e nas experi- 58 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? 2.2 IMPORTÂNCIA DA VIDA CULTURAL E DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” (Liev Tolstói). Na 31ª Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Edu- cação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 2001, por meio da Declaração Universal sobre a Diversidade e Plano de Ação, foi defendido que a diversidade cultural con- tribui para uma existência intelectual, afetiva, moral e espiritual satisfatória e consti- tui um dos elementos essenciais de transformação da realidade urbana e social, que a diversidade cultural é fonte de intercâmbios, de inovação e de criatividade; que a diversidade cultural é, para o gênero humano, tão necessária como a diversidade bio- lógica para a natureza; que a liberdade cultural dos indivíduos e das comunidades, é condição essencial à existência, ao fortalecimento e à consolidação das democracias. Consta também no conteúdo da Agenda 21 da Cultura, aprovada em 2004, que os mais diversos exemplares e as expressões de patrimônio histórico e cultural repre- sentam o testemunho da criatividade humana e constitui o substrato da identidade dos povos. A vida cultural e o patrimônio histórico são fruto da produção, elaboração, trans- missão e conservação de milhares de anos, representam um espaço aonde é possível vi- venciar, apreciar e acumular tradições; uma dimensão que favorece a criação e a inovação das suas próprias formas, criando, recriando, fazendo e refazendo as pessoas, os espaços, as tecnologias, os saberes em prol da superação, renovação e sobrevivência humana. No artigo nono da Agenda 21 da Cultura (CGLU, 2004) tem-se que o pa- trimônio cultural, tangível e intangível, é o testemunho da criatividade humana e o substrato da identidade dos povos. A vida cultural contém, simultaneamente, a riqueza de poder apreciar e acumular tradições dos povos com a oportunidade de permitir a criação e a inovação das suas próprias formas.Assim como está posto nesse artigo, fica evidente a insustentabilidade de qualquer modalidade de imposição hegemônica de padrões culturais rígidos. Especialmente no conteúdo do artigo sexto da Agenda 21 da Cultura (CGLU, 2004), encontra-se que é indispensável a necessidade de criar as condições para a paz, e que estas devem caminhar com as estratégias do desenvolvimento cultural. A guerra, o fundamentalismo, o terrorismo, a opressão e a discriminação são expressões de intolerân- cia que devem ser condenadas e erradicadas por meio dos esforços de toda a sociedade. ências do passado, espera-se por conforto, uma espécie de retorno ao paraíso, que em algum momento foi “perdido”, porém, as referências que imaginava-se existir no passado, nos bens e na memória também já não se encontram lá, e o que é pos- sível ainda fazer é uma espécie de interpretação, rememoração e representação das mesmas, jamais uma vivência, expressão e manifestação autêntica. TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 59 O patrimônio histórico e cultural pode favorecer a superação dos esqueci- mentos de memória, por meios de genealogias e biografias fornecer dados que se encontravam perdidos, gerar autorrespeito, autorreconhecimento, empoderamen- to, pertencimento, criatividade, cidadania e realização, expandir os horizontes da compreensão da trajetória humana, no sentido de reconhecer as identidades, as diferenças e alteridades. Promover a renovação ao campo da escrita do conheci- mento histórico, proporcionar novas relações, questões, problemas e abordagens; diferentes objetos e personagens ao rol da historiografia e, por meio das interdisci- plinaridades, fortalecer o diálogo com as demais ciências do conhecimento. Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), consta que: Para se pensar o ensino de História, é fundamental considerar a utilização de diferentes fontes e tipos de documento (escritos, iconográficos, ma- teriais, imateriais) capazes de facilitar a compreensão da relação tempo e espaço e das relações sociais que os geraram. Os registros e vestígios das mais diversas naturezas (mobiliário, instrumentos de trabalho, músi- ca etc.) deixados pelos indivíduos carregam em si mesmos a experiência humana, as formas específicas de produção, consumo e circulação, tanto de objetos quanto de saberes. Nessa dimensão, o objeto histórico transfor- ma-se em exercício, em laboratório da memória voltado para a produção de um saber próprio da história (BRASIL, 2018, p. 400). De modo ilustrativo, Walter Benjamin (1987, p. 230) nas teses sobre o “Conceito de História” descreve que a moda costuma se utilizar de designs, es- tilos e modelos de outras épocas, e que ao mesmo tempo "a moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente; ela é um salto de tigre em direção ao passado". À luz da percepção de Benjamim (1987) é possível pensar produtos que foram lançados nos últimos tempos cujos designs remontam à primeira ou a segunda metade do século XX e que por sua vez foram denominados como linha vintage, “retrô” e provençal. Observe na imagem a seguir os exemplares de eletrodomésticos que tive- ram os designs e as cores inspirados nos anos de 1970: 60 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? FIGURA 12 – LINHA DE ELETRODOMÉSTICOS NO ESTILO “RETRÔ” FONTE: <https://bit.ly/3gti8OT>. Acesso em: 28 set. 2019. Outros fenômenos que advogam de modo favorável à importância do pa- trimônio histórico e cultural é o “reparo e a customização de roupas”, no uso de “sacolas retornáveis” e no de “canecas individuais”. Hoje, de modo geral, estas práticas representam soluções e respondem às necessidades do campo da moda, como por exemplo o da renovação estilísticas, e a da preocupação com a redução do descarte de lixo no meio ambiente; em outras épocas, em que estas práticas, hábitos e costumes foram retiradas, existiam outras circunstâncias, tanto sociais e econômicas, nas quais aquelas gerações se depararam. Como foi mencionado anteriormente, vive-se em uma época e em um mun- do marcados pelas rupturas, movimentos acelerados e descontínuos, de fragmenta- ções; e esta dinâmica tem abalado significativamente as noções de tempo e espaço, solapado identidades, tradições e peculiaridades locais e regionais, e suplantado sobre estes discursos homogêneos e globalizantes. Por outro lado, têm fragilizado os laços familiares, comunitários e sociais, os antigos saberes e fazeres, os rituais, as tradições e o universo de relações e sentidos que conferiam equilíbrio, renovação, transformação e superação às populações, às comunidades e à sociedade. A atuação dos estudantes em meio às comunidades e localidades identi- ficando e registrando as histórias, as memórias, os saberes históricos e as experi- ências sociais, pode favorecer o fortalecimento dos próprios indivíduos, de suas histórias, de suas famílias, de suas comunidades, bairros, cidades, o que, por sua vez, significa conferir valor e reforçar a vida individual e coletiva. TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 61 Empoderados desses saberes, os indivíduos contarão com maiores condições para enfrentar e agir diante das situações de mudanças e perdas de valores e referên- cias tradicionais, de patrimônios afetivos, familiares, históricos e culturais, bem como para atravessar as mudanças de relações e trajetórias de vida, empreender experiên- cias de resiliência e restabelecimento do desenvolvimento (FALEIROS, 1997). Por meio do patrimônio histórico e cultural e da memória social é possível compreender coletivamente as experiências vividas por determinados indivíduos, fa- mílias, grupos e, assim, buscar fortalecer, empoderar ou transformar aquelas realida- des; aproximar pessoas, melhorar sua autoestima, evitar esquecimentos, reconhecer as memórias e as identidades que portam a relevância que possuem em relação à história de outras pessoas, das demais famílias; a conexão que possuem em relação à história da rua, da escola, do bairro, da cidade e do Brasil e a história do mundo propriamente dito. 2.3 AS CONTRIBUIÇÕES E AS POSSIBILIDADES DA EDUCA- ÇÃO PATRIMONIAL As coisas não têm consciência de si, de sua identidade, nem procu- ram inteligibilidade, sentidos e valores no seu existir. As coisas, apesar de contarem com trajetórias e biografia social, não têm consciência da ação do tempo sobre si e seu devir. Identidade e memória (que é o suporte insubstituível da identidade) são atributos de sujeitos, agora transformados (ao menos na letra da lei) em protagonistas; as coisas são agora referências (MENESES, 2017 apud IPHAN, 2018b, p. 14) A Educação Patrimonial representa estratégias de salvaguardar, conser- var e transmitir as expressões de patrimônio histórico e cultural que uma vez foram herdadas das gerações anteriores. É necessário e possível desenvolver metodologias apropriadas para cada expressão, exemplar e referência cultural. Parcerias e projetos entre as mais diferentes instituições, equipes de profissionais devem ser favorecidos; ações de educação patrimonial devem ser implementadas com o intuito de sensibilizar os mais diferentes públicos e faixas etárias possíveis. As discussões, as análises e sugestões de metodologias foram propostas por Horta, Grunberg e Monteiro (1999, p. 6), que por sua vez comtempla e aborda as expressões de patrimônio histórico e cultural compreendido como: [...] qualquer evidência material ou manifestação cultural, seja um objeto, ou conjunto de bens, um monumento ou um sítio histórico ou arqueológi- co, uma paisagem natural, um parque ou uma área de proteção ambiental, um centro histórico urbano ou uma comunidade de área rural, uma mani- festação popular de caráter folclórico ou ritual, uma processo de produção industrial ou artesanal, tecnologias e saberes populares, e qualquer outra expressão é resultante da relação entre indivíduos e seu meio ambiente. 62 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? Osprofissionais da história que atuam nesse campo de conhecimento, não de- vem perder de vista que os bens e expressões culturais não são dados prontos, cristaliza- dos e acabados, pelo contrário, estão e estiveram inseridos na dinâmica e metamorfoses do próprio homem, no tempo, no espaço e em meio à sociedade. Estes aspectos devem ser devidamente situados, contextualizados, desnaturalizados e problematizados. Outro aspecto importante é o de que as ações de educação patrimonial de- vem ser pensadas e realizadas tendo em vista o visitante e não os bens ou expres- sões culturais por elas mesmos. É o estudante, o visitante, o turista, o interessado que exerce o real protagonismo, desde a interpretação, a construção e atribuição de sentidos e significados do que está diante dele, para tanto é de fundamental importância que lhe sejam oportunizados meios e formas de expressão e comu- nicação sobre a experiência que lhe ocorreu ao entrar em contato e ao participar junto aos bens e referências de patrimônio histórico e cultural. O estudante, o visitante, o turista, o interessado podem fornecer respostas únicas e diferenciadas, porém os significados que serão construídos serão pessoais, sociais e políticos; ou seja, envolvem constructos pessoais anteriores, os significa- dos, valores e funções coletivas que lhe são atribuídas, que por sua vez são atraves- sados pelos fatores de classe, gênero, religião, etnicidade, faixa etária entre outros. Os bens, as expressões de patrimônio histórico e cultural devem ser per- cebidos na sua dimensão interrelacional, ou seja, na dimensão entre os seres e entre os seres e as coisas, criador e criatura, pois é neste processo que os valores e os significados lhe são atribuídos. Contextualizar, trazer para o campo da ação o que o bem cultural pode oferecer diante de uma situação que existe na reali- dade, descrever os sentidos e significados, estimular o movimento de recriação, reinterpretação das informações, dos significados e sentidos, ou seja os bens e as expressões culturais abordados como geradores e motivadores de reflexões. As ações de educação patrimonial existem para que os bens e expressões de patrimônio histórico e cultural alcancem o maior número possível de gerações. Dito de outro modo, as ações de educação patrimonial atuam no sentido de evitar e/ou retardar e/ou reverter os mais diversos riscos e vulnerabilidades de perdas e danos que podem comprometer os bens culturais, sejam eles materiais ou imateriais. Dentre os principais riscos e vulnerabilidades que podem se abater sobre os bens culturais é possível mencionar o esquecimento, a não continuidade da prática, a decomposição do conjunto ao qual pertence, a descaracterização causada pela ação de tanto espontânea como intencional, usos não apropriados, vandalismos, roubos, além da ação abrasiva impingida pelo sol, chuva e vento e demais fenômenos naturais. As propostas e ações de educação patrimonial inseridas nos contextos cultu- rais estão numa relação de promover processos de ensino e aprendizagem mais am- plos do que os processos realizados nos espaços de escolarização convencionais. As ações atuarão no sentido de pesquisar, inventariar, apresentar, dispor, contextuali- zar, significar e comunicar os exemplares, os bens, os legados e as tradições culturais. TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 63 Por sua vez, as instituições públicas, as organizações, os institutos, os espaços escola- res podem fornecer condições de infraestrutura ao desenvolvimento, à realização, à demonstração, ao espetáculo e à performance das expressões e bens culturais. As ações de educação patrimonial possibilitam que os mais diversos bens culturais possam ser inseridos e fazer parte da vida das pessoas com intuito de fortalecer a cultura, a memória, a história e a identidade local, logo os bens cultu- rais precisam ser tomados na suas mais diversas possibilidades de manifestações e expressões. Devem favorecer que as referências de patrimônio sejam experien- ciadas e vivenciadas. Eis a oportunidade de promover o pensamento crítico e reflexivo, fazer problematizações e, em especial, lançar outras e novas questões. Para tanto é imprescindível envolver a comunidade e que esta seja envolvida desde a fase inicial como na pesquisa, no desenvolvimento e na execução das ações e projetos. Nesse sentido, promove-se as condições para que seja possível avançar na su- peração no debate que Paulo Freire (1970) fazia com relação à educação bancária, que por sua vez reconhece os indivíduos e educandos meramente como consumidores de informações dadas e prontas. As ações em educação patrimonial devem estar compro- metidas em transformador os sujeitos no mundo, em especial superar a reprodução de informações, como via de mão única, homogêneas e neutras de aprendizagem. O campo do patrimônio histórico e cultural também deve ser pensado como um campo de poder, interesses e disputas políticas. Desde as últimas décadas do século XX, tem-se observado a multiplicação e a diversificação de projetos, iniciativas educacionais e culturais que se valem dos bens e exemplares culturais, porém, nem todas ganharam continuidade e periodicidade. As mudanças diretivas ou político- -administrativas e/ou a não continuidade dos projetos têm comprometido e aumen- tado ainda mais os riscos e a vulnerabilidade dos bens e expressões culturais. As mudanças de governos, as mudanças de equipe diretiva, problemas nas agências de fomento e na captação de recursos, a especulação imobiliária e financeira, a segregação das populações, a limitação de acesso e usufruto, e inclusive a baixa apropriação e na participação por parte das comunidades tem afetado a consolidação e a solidez das mesmas. Quando não ocorre a ampla participação da comunidade e das partes dos interessados nos debates e decisões sobre bens e expressões culturais, ocorre que caberá aos participantes decidir e resolver por todos, o que por sua vez tem im- pactado no alcance e na representatividade étnica, social e cultural daqueles bens e expressões, em contrapartida, gerando crise de legitimidade, fraco reconheci- mento e pertencimento por parte da população. Nesses casos, as ações em educa- ção patrimonial ganham posição estratégica para além de processos meramente de tombamento, patrimonialização e consagração via instituições oficiais. Caro acadêmico, projetos e políticas públicas que envolvam os mais diferentes setores como o patrimônio, a cultura, a educação, o meio ambiente, o turismo, a saúde, o 64 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? desenvolvimento urbano e rural, podem contribuir significativamente no sentido de su- perar o quadro mencionado anteriormente, bem como ampliar o números de parceiros e pessoas envolvidas, e fortalecer o campo de ação, as abordagens, as discussões, otimizar a obtenção e a aplicação de recursos e consolidar as relações intersetoriais. 2.4 ESPAÇOS FORMAIS E NÃO FORMAIS EM EDUCAÇÃO PATRIMONIAL Os espaços formais em educação podem ser considerados como universidades, centros universitários, faculdades, institutos, escolas, colégios, centros educacionais, creches de gestão pública e/ou privada; já os espaços não formais podem ser considera- dos museus, arquivos, clubes, teatros, centros de cultura, bibliotecas, sítios arqueológi- cos, centros históricos, praças, memoriais e centros de memória, sindicatos, centros de cultura, ONGs entre outros. Segundo Ghon (2005) os espaços não formais de educação permitem experiências de pertencimento e compartilhamento, bem como a construção coletiva e a diversificação dos atores de propõem, participam e comunicam saberes. A partir das mudanças paradigmáticas de renovação do conhecimento his- tórico e cultural ocorridas a partir dos anos de 1980, passaram à ocorrer motivações de ações educativas em espaços não formais, tais como museus, sítios arqueológi- cos, arquivos históricos monumentos e construções isoladas, e mais recentemente,com a ampliação para locais e espaços que sugerem maior dinâmica, multiplici- dade e diversidade de atividades; assim como a conexão e interligação com locais como, por exemplo, centros comunitários e bibliotecas públicas, teatros e cinemas, museus e escolas, praças e parques, centros históricos e instituições públicas. A Lei de Diretrizes e Bases/LDB, 9.394/1996, no seu artigo 1º, prevê que: “a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida fami- liar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais” (BRASIL, 1996, s.p.), logo fica sugerido que os locais e espaços descri- tos anteriormente podem também constar nos projeto político-pedagógicos, nos planos de ensino nos planos de aula dos profissionais da educação. Brandão (1996) reforça a necessidade da efetivação do compromisso que as escolas firmaram em seus projetos político-pedagógico (PPP) com as comu- nidades em que estão instaladas e inseridas. Brandão (1996, p. 293-294) propõe nos seguintes termos: “estimular a participação da escola no processo de conhe- cimento das manifestações culturais locais, no sentido de fazer com que ela se depare, participe e reflita sobre a realidade em que está inserida, passando a uti- lizá-la como elementos fundamentais na elaboração e execução de seu currículo”. Fonseca (2003) aborda que sensibilizar a consciência histórica dos sujeitos não é função e espaço privilegiado apenas das atividades realizadas no interior dos espaços escolares, mas é um processo que pode ocorrer nos mais diversos TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 65 lugares. Isto requer que os indivíduos estabeleçam uma relação viva e ativa com o tempo e o espaço do mundo em que vivem. Segundo Brandão (1996, p. 293) a educação patrimonial comporta: [...] ações destinadas a proporcionar à comunidade os meios para par- ticipar, em todos os níveis, do processo educacional, de modo a garan- tir que a apreensão de outros conteúdos culturais se faça a partir dos valores próprios da comunidade. A participação referida se efetivará através da interação do processo educacional às demais dimensões da vida comunitária e da geração e operacionalização de situações de aprendizagem com base no repertório regional e local. O meio no qual vivemos traz as marcas do presente e ao mesmo tempo das épocas passados. Nele é possível encontrar vestígios, monumentos, objetos, imagens de grande valor para a compreensão do imediato, do próximo e do distante. O local e o cotidiano podem ser percebidos como locais de memória, ricos de possibilidades edu- cativas, formativas, de sociabilidade e humanização dos indivíduos. Locais como funda- ções, associações de categorias de trabalho, de grupos religiosos, recreativas de empresas, sindicatos de profissões, grupos de teatro, de música, de dança, casas de memória, entre outros devem ser entendidos também como agentes do processo educativo. A partir do século XXI as possibilidades se potencializaram amplamente, sendo possível, assim, fazer parcerias e incluir em projetos locais como colônias de pescadores e portos marítimos, sindicatos de trabalhadores e associações de mora- dores, instalações de antigos engenhos e olarias, antigos moinhos, curtumes e car- pintarias, caminhos e passagens, roteiros de imigração, santuários, grutas, locais de peregrinação e devoção, cemitérios, centros de caridade e voluntariado, hospitais, ruas das palmeiras, praças, mercados públicos, centros comerciais e de feiras, marcos zero e pontos fundantes, museus, arquivos públicos, sítios arqueológicos, edificações e conjuntos arquitetônicos, centros históricos, mercados municipais e pontos de fei- ras públicas, unidades do exército e bombeiros, bibliotecas entre outros. Caro acadêmico, os espaços não formais, compreendidos também como oportunidades de ensino-aprendizagem possibilitam reconhecer, bem como surpreender-se com a diversidade de bens, expressões e manifestações sociais e culturais que por sua vez não poderiam ser contemplados em meio aos espaços formais, aos escritos da historiografia oficial e tradicional. 66 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? Para ampliar o entendimento e aprofundar o debate sobre educação patri- monial e ensino de história procure estudar o texto: SILVA, Aletícia Rocha da. Patrimônio cultural e ensino de história: a educação patrimonial como estratégia de ensino de his- tória local e regional. In: SIMPÓSIO DE HISTÓRIA NACIONAL, 29., 2017, Brasília. Anais [...]. Brasília: UNB, 2017. Disponível em: https://bit.ly/2PqsxyM. Acesso em 15 out 2019. DICAS TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 67 LEITURA COMPLEMENTAR Caro acadêmico, para ampliar os conhecimentos sobre as definições, as escolhas e as questões que perpassam os bens e exemplares de patrimônio histórico e cultural no interior das cidades, procure fazer a leitura da entrevista a seguir: Como se constitui e quem dita o patrimônio cultural de uma cidade Flávia Brito Em entrevista ao ‘Nexo’, professora da USP Flávia Brito explica a origem da ideia de patrimônio, como ela se transformou historicamente e como chegou ao Brasil. NEXO: é possível estabelecer uma definição geral para o que é o patrimônio cultural de uma cidade? FLÁVIA BRITO: o patrimônio cultural é estabelecido a partir de um entendimento, sobretudo ocidental, dos valores partilhados por uma determinada comunidade. Eles são partilhados em torno do que se entende como uma herança que vem do passado. E esse sentido de herança vai ser levado às gerações futuras. Portanto, o patrimônio de uma cidade é constituído por aquilo que os sujeitos sociais elegem como algo que vale a pena manter e preservar, que deve ser partilhado com o maior número de pessoas. NEXO: quem ou o que o determina? FLÁVIA BRITO: tradicionalmente, ele é escolhido por ação do Estado. É o Estado que, de alguma forma, vem determinando, por meio da proteção legal que aqui chamamos de tombamento, aquilo que vai ser descrito ou não como patrimônio, pelas práticas seletivas. Quanto mais democrático isso for, quanto mais gente estiver envolvida nessa seleção, maior a possibilidade de se ter um patrimônio apropriado, que as pessoas entendam como seu e não como uma coisa que vem imposta, de fora. NEXO: qual a origem histórica da ideia de patrimônio? FLÁVIA BRITO: embora várias civilizações e momentos históricos em muitos lugares tenham um entendimento de passado e de preservação desse passado, é sobretudo a partir da Revolução Francesa, no final do século 18, que se constitui uma ideia de que alguma coisa tem que ser legada ao futuro. Os revolucionários entendem, em determinado momento, que era importante preservar aquilo que era testemunho do que não se quer mais. Ao longo de todo o século 19, da Revolução Industrial, vai se construindo o que a gente entende 68 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? como um campo disciplinar do patrimônio, que vem sendo pensado há pouco mais de 200 anos. O patrimônio, antes considerado uma coisa excepcional, isolada, vai se tornando, cada vez mais, aquilo que é do cotidiano. A ideia do que é patrimônio nasce, então, olhando para os monumentos, entendendo que o monumento guarda determinados valores de uma comunidade. Depois, ao longo do século 20, isso vai progressivamente se transformando, e, dos anos 1950 e 1960 para cá, se transforma radicalmente, quando o processo de urbanização se acelera brutalmente, e, mais recentemente, com o processo de globalização. O patrimônio, antes considerado uma coisa excepcional, isolada, deixa de ser isso e vai se tornando, cada vez mais, aquilo que é do cotidiano. Desde os anos 1960, pensar o patrimônio é pensar naquilo que faz parte da constituição identitária de determinados grupos. O patrimônio passa a poder ser algo que não está ligado à construção de nacionalidade – naRevolução Francesa e no século 19, na formação dos Estados nacionais, o patrimônio estava sobretudo ligado a uma ideia de nacionalidade. Hoje é diferente. Desde os anos 1960, com a revolução cultural da década, a destruição enorme do pós-guerra, pensar o patrimônio é pensar naquilo que faz parte da constituição identitária de determinados grupos. Deixou de ser uma coi- sa ligada à ideia de nação e está muito mais ligado a uma ideia de construção de identidades, que tem a ver com os movimentos contraculturais, com a urbaniza- ção acelerada da década de 1960. O patrimônio foi se dissociando dessa ideia do monumento isolado para estar em qualquer lugar. A ponto de a gente entender hoje que, em princípio, tudo é patrimônio. Tudo pode ser patrimônio de uma cidade, se um grupo de identidade, se sujeitos sociais se apropriam daqueles objetos, símbolos – que podem ser materiais ou não, não importa – por razões variadas. Quando se constitui uma ideia de patrimônio no Ocidente, a partir da idade moderna e contemporânea, do mundo industrializado para cá, ele [abrange] sobretudo a arquitetura e objetos. Hoje ele vai se dissociando dessa ideia de estar em um objeto isolado para estar na cidade. Não é só um monumento, uma arquitetura, mas o que está na cidade pode potencialmente ser patrimônio. Desde os anos 1930, o patrimônio urbano se constitui nessa ideia de que não é um arquitetura mas aquele conjunto de coisas, um determinado bairro ou porções da cidade que podem ser associadas a grupos de identidade e consideradas patrimônio. NEXO: como se deu a construção desse patrimônio urbano no Brasil? FLÁVIA BRITO: há grupos pensando legado e preservação [no país] desde os anos 1910 e 1920. Basta dizer que Lima Barreto estava pensando no que estava sendo destruído lá no Rio de Janeiro, no Morro do Castelo. Aqui e ali, havia legisladores, deputados preocupados em pensar uma política de preservação mas, efetivamente, se tem uma institucionalização do patrimônio nos anos 1930, com a Inspetoria de Monumentos Nacionais, filiada ao Museu Histórico TÓPICO 3 — TRAJETÓRIA HISTÓRICA E DEBATE INTRODUTÓRIO 69 Nacional. Quando o Estado Novo se institui, essa inspetoria é dissolvida e um grupo de intelectuais ligados ao movimento moderno vai ocupar um espaço dentro do Ministério de Educação e Saúde Pública. Eles criam o Sphan, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1937. A ideia de patrimônio no Brasil, na década de 1930, está colada à constituição de nacionalidade. É um patrimônio essencialmente arquitetônico Esse grupo dentro do Ministério da Educação vai ser liderado pelo Rodrigo Melo Franco de Andrade, que é um advogado, mas ligado ao modernismo. E esse grupo se assessora sobretudo de arquitetos; o principal é Lúcio Costa, uma figura de liderança na arquitetura moderna brasileira, e estabelece as práticas seletivas do patrimônio no Brasil a partir desse período. A ideia de patrimônio no Brasil, na década de 1930, está estruturalmente colada na constituição de nacionalidade. É um patrimônio essencialmente arquitetônico. Quando a inspetoria acaba e se inicia o Sphan, ele se ocupa principalmente da arquitetura. No momento da redemocratização, a agenda do movimento de bairro explode como parte dos direitos políticos. A seleção pula todo o século 19 e recai sobre as cidades do período colonial: vão ser selecionados bens ligados à arquitetura colonial, mosteiros, conventos, fortalezas, toda a estrutura residencial e religiosa do período. Cidades como Ouro Preto, as cidades mineiras do período colonial e alguns monumentos isolados. Apesar de cidades serem incluídas, Ouro Preto, por exemplo, é entendida como um monumento da nacionalidade. Há um patrimônio urbano, mas é um patrimônio urbano muito homogeneizador. Quando o movimento europeu, que é a matriz do patrimônio ocidental, sobretudo a França, está saindo desse entendimento de patrimônio mais histórico ou artístico – a ideia do monumento está ligada a uma compreensão do patrimônio como algo muito bonito e muito velho –, na década de 1960, a gente entra na ditadura militar. Os militares vão, de alguma forma, renovar os votos com essas escolhas feitas no período do Estado Novo, pensando essas obras de maneira institucionalizadora, monumental. Mas os intelectuais ligados ao mundo do patrimônio estão completamente informados de tudo que está sendo debatido. Aos poucos, vão se constituindo, sobretudo em nível municipal, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Recife, tentativas de ampliar essa visão do patrimônio, entendê- lo via planejamento, via urbanismo, criar novas legislações, criar novas saídas de salvaguarda e gestão do patrimônio, além das reconhecidas pelo tombamento. Nos anos 2000, uma série de movimentos sociais urbanos vê no patrimônio uma agenda de luta pela cidade, de luta democrática. Isso tudo acontece ao mesmo tempo, na década de 1960. São movimentos contraditórios em um mesmo período histórico, por ação do Estado e também pelos sujeitos sociais. No momento da redemocratização, na década de 1980, a agenda do movimento de bairro explode como algo que é parte dos direitos políticos. A ideia do direito à cidade e como o conceito ganha novos contornos, do direito à memória, vai ser importante nesse período. E aí, tudo isso que de alguma forma 70 UNIDADE 1 — O QUE É EDUCAÇÃO PATRIMONIAL? estava circulando nos cursos de formação, nos debates, já no Brasil nos anos 1960 e 1970, vai encontrar uma visibilidade enorme na década de 1980. De alguma forma, essa agenda volta nos anos 2000, com os casos do Cine Belas Artes, do Parque Augusta [ambos em São Paulo]. Existe uma série de movimentos sociais urbanos que vão ver no patrimônio uma agenda de luta pela cidade, de luta democrática, dizendo “patrimônio não é só aquilo que o Estado está dizendo que é, não é só aquilo que é tombado, não é só aquilo que é muito velho ou muito bonito, é aquilo que a gente gosta, com que a gente se identifica”. Mas entre esse discurso e o que está institucionalizado nos órgãos de preservação, a gente ainda tem um longo caminho a percorrer. NEXO: como você vê as iniciativas públicas recentes, semanas e jornadas dedicadas ao patrimônio de cidades brasileiras? FLÁVIA BRITO: elas são, de alguma forma, uma resposta a essas mobilizações da sociedade. Mas a programação não tem que ser ditada por especialistas que dizem “isso é importante, vamos ensinar as pessoas sobre o patrimônio”. Não é isso. É um chamamento público em que as pessoas sugerem as palestras e sugerem os roteiros. É o aspecto colaborativo e participativo que deve ser reforçado. Existe uma ideia de que se precisa ensinar o que é patrimônio, e não. Nada melhor do que as pessoas mesmas para dizerem e mostrarem. A diversidade da lista do que as pessoas querem mostrar é enorme. O que evidencia o quanto as pessoas têm a dizer, no Brasil, sobre o que é patrimônio. Existe uma ideia de que se precisa ensinar e não, não precisa, as pessoas sabem do que elas gostam, o que é o seu passado. Nada melhor do que elas mesmas para dizerem e mostrarem. A Jornada [do Patrimônio] de São Paulo e outras são um jeito de mostrar o quanto esse tema está na sociedade brasileira, está na preocupação das pessoas, indo contra esse entendimento de que brasileiro não tem memória, de que as pessoas não querem saber do passado. Em todas as ações de patrimônio em que se faz uma experiência de escuta, as pessoas frequentemente têm muito o que dizer. E acho que dão conta de mostrar o quanto o patrimônio é uma possibilidade de resistência a esse processo de massificação, à força do mercado imobiliário que é completamentamente arrasadora, injusta, destrói boas porções da cidade sem que as pessoas possam sequer ter a chance de dizer do que elas gostariam para sua cidade. As jornadas têm esse papel de visibilizar um assunto que, pela própria tradição que eu expliquei, é normalmente assunto de especialistas. Foi assim, mas há muito tempo agente deseja que saia disso – a gente, digo, um certo movimento que entende que o patrimônio é muito maior do que isso. Acho que, em princípio, são muito positivas, desde que partilhadas, desde que não sejam para ensinar, mas para as pessoas nos ensinarem. FONTE: <https://bit.ly/2ER3DGI>. Acesso em: 13 out. 2019. 71 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A trajetória e discussão pública do patrimônio histórico e cultural e da educa- ção patrimonial no Brasil possuem pouco mais de dois séculos, o que indica que existe muito a ser debatido e em especial trabalho por ser feito nas dife- rentes regiões, cidades e comunidades do Brasil. • As definições tradicionais de patrimônio histórico e cultural contemplavam apenas conjuntos de edificações, monumentos antigos ou de obras de arte excepcionais, que deviam ser preservadas ou por terem sido palco de eventos marcantes, ou por constarem em documentos históricos, ou por pertencerem a alguém de renome na sociedade. • A partir da Constituição de 1988 as definições de patrimônio histórico e cultural pas- saram a compreender tanto bens de natureza material como imaterial, as formas de expressão, os modos de criar, fazer e viver tomados individualmente ou em conjunto. • Os exemplares, as expressões e as referências de patrimônio histórico e cultu- ral possibilitam fazer leituras de mundo, compreender o universo sociocultu- ral e a trajetória histórico-temporal na qual nos encontramos inseridos. • A Educação Patrimonial pode atuar como forma de salvaguardo e conser- vação dos bens, das expressões e das referências de patrimônio histórico e cultural e em especial garantir a transmissão às gerações seguintes. • Ações de Educação Patrimonial consistem em promover situações de ensi- no-aprendizagem por meio e tendo como suporte os bens, as expressões, as referências do patrimônio histórico e cultural que por vez devem contemplar o público como principal protagonista das atividades. 72 Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA • A Educação Patrimonial deve despertar o interesse em abordar/resolver questões do momento presente e da própria vida, tanto pessoal como coletiva, para tanto é de fun- damental importância que as instituições competentes atuem em diálogo constante com os detentores dos bens e expressões e com os representantes da comunidade. 73 1 As compreensões de patrimônio histórico tradicionais foram revisadas, problematizadas e reelaboradas ainda nos últimos anos do século XX, po- rém ainda prevalecem visões reducionistas e distorcidas sobre a compreen- são do tema. Quais foram as principais constatações e problemas identifica- dos nas visões tradicionais de patrimônio histórico e cultural das gerações anteriores? Analise as sentenças a seguir: I- Que edificações foram preservadas somente por terem sido ocupadas ou servido de palco à eventos políticos e econômicos. II- Foram reconhecidos locais que pertenceram a personalidades ilustres de uma cidade e região, ou que constam em livros de história. III- Os exemplares tombados eram muito amplos e precisaram ser reduzidos para obterem aprovação em editais e concursos. IV- Somente determinados grupos e indivíduos se reconhecem como perten- centes aos exemplares que foram tombados como sendo um patrimônio histórico e cultural. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As alternativas I, II, III estão corretas. b) ( ) As alternativas I, II e IV estão corretas. c) ( ) Somente as alternativas III e IV estão corretas. d) ( ) Somente as alternativas II e III estão corretas. 2 Ruas das palmeiras, praças, portos marítimos, mercados públicos, centros comerciais e de feiras, marcos/pontos zero, santuários, grutas, colônias de imigração passaram a ser considerados como exemplares de patrimônio histórico e cultural. Por que esses locais podem se tornar úteis ao ensino dos conteúdos históricos? Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Constituem locais onde foram discutidas, formuladas e debatidas le- gislações que asseguram os bens e expressões do patrimônio históri- co e cultural. b) ( ) Permitem que se compreenda a dimensão em que transcorre a histó- ria e a ação humana, em especial, perceber, avaliar a interferência e a influência do homem em sociedade. c) ( ) Constituem locais formais de ensino e aprendizagem e que por sua vez fazem parte dos planos de ensino e plano de aula da disciplina de História. d) ( ) Permitem que se compreenda todo o processo de criação e de instala- ção da unidade escolar em meio à comunidade. 3 Em nossa sociedade errante, constantemente transformada pela mobilida- de e ubiquidade de seu presente, o patrimônio histórico tornou-se uma das AUTOATIVIDADE 74 palavras-chave. Ela remete a uma instituição e a uma mentalidade. Cons- tituindo-se de bens materiais, imateriais e naturais de importância artísti- ca, cultural, religiosa, documental ou estética para a sociedade, entende- mos que a noção de patrimônio é construída ao longo da história como, também, o sentido de pertencimento dos indivíduos a um ou mais grupos sociais, assegurando-lhes uma identidade cultural e uma continuidade de saberes, fundamentais como suporte para a formação do sujeito como cida- dão. O culto que se rende hoje ao patrimônio histórico deve merecer de nós mais do que simples aprovação. Ele requer um questionamento porque se constitui elemento revelador, negligenciado, mas, brilhante, de uma condi- ção da sociedade e das questões que ela encerra. FONTE: CHOAY, F. A alegoria do patrimônio. Trad. Luciano Vieira Macha- do. São Paulo: Editora UNESP, 2001. Considerando a atualidade do tema apresentado no texto anterior, e a neces- sidade da conscientização do sujeito ainda no contexto escolar, é preciso: a) ( ) Exercitar o espírito cidadão, tornando-o mais ativo no processo de reco- nhecimento e conservação dos bens materiais em detrimento dos bens imateriais, sendo estes desnecessários à cultura contemporânea. b) ( ) Sensibilizar a sociedade para a reprodução das práticas e técnicas ca- racterísticas das manifestações culturais regionais do nosso país, pro- movendo uma forma de mecanização das tradições e de valorização de novas propostas culturais. c) ( ) Recolher provas da importância da obra ou do objeto que será mantido em um museu para ser contemplado, pois só assim é possível preservar os bens materiais. d) ( ) Reconhecer os saberes e ofícios tradicionais, celebrações, festas e danças populares, formas de expressão e vestuário, como fonte do patrimônio e da cultura imaterial. 75 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: EVIDÊNCIAS MATERIAIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • reconhecer os principais conceitos e definições referentes à arqueologia, os principais exemplares de sítios arqueológicos, os procedimentos de pesquisa em sítios arqueológicos, os resultados de trabalhos de pesquisas e estudos, bem como as legislações que os tutelam e os protegem; • estudar os centros históricos, as cidades históricas, as ações do Programa Monumenta/Iphan e do Roteiro Nacional de Imigração/Iphan, as atividades artesanais e a relevância dos mestres artesãos, bem como a importância destas expressões em termos de alternativas de renda ao desenvolvimento econômico, cultural e turístico local e regional; • abordar espaços consagrados do patrimônio histórico como museus, coleções, objetos antigos e arquivos públicos, como contributos ao entendimento da histórica, da memória e da identidade, bem como alternativas ao ensino da história e das demais humanidades; • implementar atividades de ensino e aprendizagem voltados ao patrimônio histórico e cultural material com ênfase em educação patrimonial, tanto em espaços de sala de aula/escolares como em visitas à locais em que as evidências e os exemplaresde patrimônio histórico e cultural possam ser testemunhados e vivenciados. 76 PLANO DE ESTUDOS Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS TÓPICO 2 – CENTROS HISTÓRICOS TÓPICO 3 – MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 77 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. — Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? — pergunta Kublai Khan. — A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra — responde Marco —, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: — Por que falar das pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: — Sem pedras o arco não existe. (Ítalo Calvino) Caro acadêmico, o trecho da obra do escritor cubano naturalizado italiano, Ítalo Calvino (1923-1985), sugere um belo debate sobre a relação de interdependência que existe entre a dimensão material e imaterial, em especial a fala de Marco Polo para que não seja negligenciada a dimensão material e estrutural de qualquer item que seja, pois esta é responsável por sustentar e possibilitar as configurações e feições ornamentais e simbólicas são atribuídas aos bens, objetos e edificações. Outro aspecto que está presente no texto de Ítalo é o fato de que, geralmente, o destaque, a importância e o prestígio se resumem aos elementos visuais externos e decorativos superficiais, ficando em posição secundária a e inferir toda a base estrutural que sustenta o bem, o objeto ou a edificação como um todo. Tendo em vista tais preocupações, nesta unidade estudaremos o patrimônio histórico e cultural cuja maior evidência encontra-se na dimensão, na feição e representação material dos itens, objetos, bens e expressões. O objetivo não é inverter a situação de forma maniqueísta e simplista, ou sugerir que as dimensões materiais e imateriais devam ser dissociadas, mas sim revelar o potencial e a importância que a base, a estrutura, as evidências materiais e concretas possuem em termos exemplares e como expressões do patrimônio histórico e cultural. Para tanto, ao longo dos tópicos serão apresentados conteúdos e noções sobre o fazer arqueológico, os sítios arqueológicos, os centros históricos, as comunidades rurais, as atividades artesanais, os museus, as coleções, os arquivos, os objetos antigos, os monumentos entre outros. Procura-se apresentar TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 78 as definições dos principais conceitos e tornar histórico o percurso e a trajetória que percorreram ao longo dos principais momentos históricos e da produção historiográfica. Ulpiano Bezerra Meneses (1984, p. 34), defende que “a cultura material consiste no universo físico socialmente apropriado pelo homem; que engloba tanto objetos, utensílios, estruturas, como a natureza transformada em paisagem e todos os elementos bióticos e abióticos que integram um assentamento humano”. O autor prossegue explicando que: [...] estamos imersos num oceano de coisas materiais, indispensáveis para a nossa sobrevivência biológica, psíquica e social. A chamada “cultura material” participa decisivamente na produção e reprodução social. No entanto, disso temos consciência superficial e descontínua. Os artefatos, por exemplo, são não apenas produtos, mas vetores de relações sociais. Que percepção temos desses mecanismos? Não se trata, apenas, portanto, de identificar quadros materiais de vida, listando objetos móveis, passando por estruturas, espaços e configurações naturais, até obras de arte. Trata-se, isto sim, de entender o fenômeno complexo da apropriação social de segmentos da natureza física. (MENESES, 1994, p. 12) Horta, Grumberg e Monteiro (1999, p. 35-36) ressaltam que: Os objetos patrimoniais, os edifícios e centros históricos, os sítios arqueológicos e paisagísticos podem refletir a maior parte da História do Brasil e do mundo. Os objetos e monumentos do passado são a evidência concreta da continuidade e da mudança dos processos culturais. A comparação da própria casa com as casas do passado pode dar aos alunos a compreensão de como os estilos e modos de vida das sociedades mudam ao longo do tempo. Em um automóvel moderno podemos encontrar ainda os traços das antigas carruagens puxadas a cavalo. Os detalhes de diferenciação dos objetos do passado e do presente podem ser traçados num gráfico, ou linha de tempo, que pode ser comparada a uma árvore genealógica, situando os personagens familiares em diferentes épocas. Uma entrevista com o proprietário “original” de um edifício antigo pode ser um recurso de imaginação criativa, que vai requerer a pesquisa e a consulta a outras informações (bibliotecas, arquivos públicos, jornais da época, entrevistas com familiares, com historiadores etc.). As ideias e gostos de uma época podem ser discutidos e deduzidos das evidências observadas nos objetos patrimoniais. Caro acadêmico, fica evidente que o potencial e as possibilidades contidas em itens, objetos, sítios, bens, edificações históricas e culturais são inúmeros e infinitos. Com a sua contribuição e esforço desenvolvendo atividades de contextualização, investigação, abordagem dialogada, interdisciplinar, problematizadora e contrastiva, será possível ampliar ainda mais os conteúdos que estão implícitos nos bens e exemplares de patrimônio histórico e cultural. Neste tópico aborda-se os principais aspectos referentes aos sítios arqueológicos, à arqueologia, às principais definições e aos trabalhos de pesquisas TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 79 e estudos, os principais exemplares, as legislações vigentes que os tutelam e os protegem e, por fim, sugestões de atividades de ensino e aprendizagem relacionadas a esses aspectos. Antecipa-se que sítio arqueológico é o local onde existem vestígios das formas de vida e expressões da cultura de povos que ali viviam em um tempo remoto; que qualquer pessoa inesperadamente pode se deparar com um sítio arqueológico, pois os vestígios podem estar depositados na superfície do solo, bem como encontrar ruínas de fortalezas e Igrejas; bem como encontrar sambaquis, locais à beira mar, onde constam — em meio à conchas e restos de vegetais e areia — ossos, ferramentas e utensílios, restos de alimentos utilizados pelos indivíduos que lá viviam. Em especial, antecipa-se que é estritamente proibido, e constituí crime contra o Patrimônio Nacional, sucumbir ao impulso de escavar e retirar material de sítios arqueológicos sem o devido conhecimento e orientação dos órgãos específicos e profissionais da área; mas estas e outras questões serão desenvolvidas e aprofundadas ao longo dos estudos que agora se iniciam. Boa leitura pela frente! 2 O QUE É ARQUEOLOGIA? A palavra arqueologia é de origem grega, o termo arkhaíos significa antigo, logia, discurso. A arqueologia como uma técnica e disciplina surgiu entre a segunda metade do século XVIII e o início do século XIX, e foi associada à História, entendida e utilizada como uma disciplina auxiliar, um recurso à comprovação, por meio de evidências materiais, dos fatos e fenômenos históricos. As definições mais tradicionais para o termo arqueologia se referem essencialmente ao conhecimento dos tempos primitivos, dos tempos primórdios, das coisas antigas, dos vestígios materiais de tempos longínquos. Estas definições foram muito empregadas pelos estudiosos europeus do século XIX, no berço do cientificismo, positivismo e do historicismo. Tais noções de arqueologia advogavam que a finalidade da arqueologia se destinava ao colecionismo, na qual interessava mais a descrição e a classificação factual, cronológica e empírica de objetos antigos. Estas definições perduraram,pelo menos, até os anos de 1960. Após os anos de 1960 o consenso entre os pesquisadores e especialistas sobre conceitos e definições sobre a arqueologia foram revisados e reescritos, a partir de então a arqueologia passou a designar uma ciência que investiga e estuda vestígios, pistas, evidências, registros humanos que datam de períodos anteriores a presença dos registros escritos e tem como finalidade explicar a origem, o desenvolvimento e o desaparecimento de grupos humanos e de civilizações. UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 80 Philip Rahtz (1921-2011), estudioso britânico, foi um dos principais arqueólogos do século XX, define a arqueologia como: O estudo da cultura material em sua relação com o comportamento humano — as manifestações físicas das atividades do homem, seu lixo e seu tesouro, suas construções e seus túmulos. Ela se ocupa também do ambiente em que o gênero humano se desenvolveu e no qual o homem ainda vive (RAHTZ, 1989, p. 9). As revisões e ampliações que o conceito de arqueologia sofreram contribuíram no sentido de que ela não pode mais ser considerada somente como uma ciência que trata dos bens arqueológicos e os vestígios que datam de até aproximadamente 3000 a.C., e/ou dos estudos das populações nativas que não possuem contato com populações letradas. Pedro Paulo Funari é um dos arqueólogos brasileiros mais reconhecidos pela vida e carreira dedicada à pesquisa, à docência e à produção de materiais didáticos sobre arqueologia. Funari (2005, p. 15) corrobora aos esforços em reescrever o conceito de arqueologia defendendo que “a arqueologia estuda, diretamente, a totalidade material apropriada pelas sociedades humanas, como parte de uma cultura total, material e imaterial, sem limitações de caráter cronológico”. O autor explica que graças as novas propostas e abordagens da arqueologia, foi possível inserir a disciplina na sociedade, preocupar-se com os interesses e inserções sociais da arqueologia e dos arqueólogos, no passado e no presente, com o contexto histórico e social da produção do conhecimento, com a subjetividade e o comprometimento do arqueólogo com os grupos sociais. A partir destes debates, gradualmente a expressão de “escavação de coisas e de homens” passou se expandir e se aproximar de atividades que almejam o entendimento sobre o funcionamento e as transformações pelas quais passaram as sociedades humanas. Logo as concepções e noções em torno da arqueologia passaram a se referir e se debruçar sobre a relação do homem e a natureza o que exigiu da arqueologia uma aproximação cada vez maior com as disciplinas da História, da Antropologia, da Biologia, da Geografia entre outras. TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 81 3 OS DIFERENTES RAMOS/MODALIDADES DA ARQUELOGIA Dependendo do objeto de pesquisa e dos ramos de atividades, a arqueologia pode se subdividir em outras áreas como, por exemplo: a arqueobotânica, a arqueologia Amazônica, a arqueologia de ambientes aquáticos, a arqueologia clássica, a arqueologia egípcia, a arqueologia pré-histórica, a arqueologia da paisagem, a arqueologia urbana, a arqueologia de contrato, a arqueologia pública entre outras. Caro acadêmico, a seguir procura-se apresentar um pouco das especificidades e particularidades de cada uma das diferentes áreas da arqueologia, observe: Pré-história ou sociedades ágrafas? A expressão “pré-história” é muito utilizada nos documentos, nas legislações, nos livros didáticos e paradidáticos, porém tem sido questionada pelos historiadores e especialistas do tema. Esses argumentam que a expressão pré-história sugere o entendimento de que a História existe somente a partir da invenção da escrita alfabética e/ou em sociedades que a detém. Essa compreensão, por sua vez, promove uma espécie de julgamento no sentido de que as populações sem registros escritos e documentados, não possuem história. Calvet (2011, p. 11) contribui nesse debate advertindo que: A ausência de tradição escrita não significa, de maneira algu- ma, ausência de tradição gráfica. Em muitas sociedades de tradição oral, existe uma picturalidade muito viva, nas deco- rações de potes e cabaças, nos tecidos, nas tatuagens e nas escarificações etc., e mesmo que sua função não seja, como no caso do alfabeto, registrar a fala, ela participa da manuten- ção da memória social. A sugestão que o autor faz é de que a escrita pode ser compreendida somente como uma forma de interação pela qual a ação das mãos (com ou sem instrumento) deixa traços numa superfície qualquer. Por outro lado, o autor adverte que a escrita não pode ser en- tendida como suficiente para captar e registrar o amplo comportamento e a manifestação humana no sentido de comunicar, transmitir, trocar ideias, valores e eventos. Para superar um pouco o peso da carga depreciativa e problemática que a expressão pré-histó- ria comporta, estudiosos e pesquisadores têm preferido utilizar a expressão sociedades ágrafas. Um exemplo de sociedade sem escrita é a civilização Inca. Logo indaga-se: — Que equívoco e injustiça estariam sendo cometido com todo aquela cultura se não fossem tomados parâme- tros para além da escrita aos estudos e à análise da relevância daquela civilização? Caro acadêmico, futuro profissional da História, procure não esquecer desta reflexão e sempre que possível contextualizar e advertir sobre os limites e os problemas que a expres- são pré-história produz se utilizada indiscriminadamente. IMPORTANT E UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 82 • Arqueobotânica Diz respeito às análises somente dos restos de vegetais presentes no quadro das escavações arqueológicas. Também é chamada de paleontobotânica, na qual contribuem significativamente os profissionais das ciências biológicas. • Arqueologia Amazônica Ou também “Arqueologias na Amazônia” como é chamada, que por meio de diferentes materialidades e abordagens, almejam compreender e explicar os modos de vida dos grupos humanos que ocuparam a região da Amazônia, dos tempos mais longínquos até os dias atuais. • Arqueologia de Ambientes Aquáticos Trata-se de atividades arqueológicas com evidências que se encontram em ambientes úmidos, em regiões limítrofes de rios e mares, ou contextos aquáticos, que estão literalmente submersos, seja no mar ou em rios. Este ramo da arqueologia ainda pode se dividir em outras áreas como arqueologia subaquática, arqueologia marítima e arqueologia náutica. FIGURA 1 – ARQUEOLOGIA SUBAQUÁTICA FONTE: <https://bit.ly/2PlPcwp>. Acesso em: 2 jan. 2020. TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 83 • Arqueologia Clássica Diz respeito às atividades arqueológicas realizadas com os restos de materiais e ruínas em termos de arquiteturas, esculturas e pinturas nos territórios da Grécia e de Roma, que datam da época clássica. • Arqueologia Egípcia Termo designado para diferenciar a arqueologia que é realizada com os vestígios materiais das sociedades do antigo Egito, compreendendo o período pré- dinástico, faraônico e até a dominação árabe. Zahi Hawaas, que já foi mencionado na Unidade 1 deste Livro Didático, é um arqueólogo e egiptólogo que obteve grande reconhecimento e prestígio nos meios acadêmicos e midiáticos. Já chegou a ocupar o cargo de ministro de Antiguidades no Egito. FIGURA 2 – ZAHI HAWAAS, PESQUISADOR DE ARQUEOLOGIA EGÍPCIA FONTE: <https://bit.ly/2PnEci7>. Acesso em: 2 jan. 2020. • Arqueologia Pré-Histórica Diz respeito a tempos muito longínquos, anteriores à escrita, ou ao uso de ferramentas à base de metal e da formação do Estado. Popularmente é emprega- do para se referir aos vestígios que pertenceram às populações que se utilizavam de pedra lascada, ossos, cerâmica e faziam registros rupestres. Trata-se de um fazer que requer equipes multidisciplinares, com níveis de formação e especialização específicos, bem como apoio e suporte de órgãos, UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 84 instituições e laboratórios de análise. A arqueologia mais praticada no Brasil é a arqueologiapré-histórica, que pesquisa os vestígios do longo período anterior à colonização portuguesa e europeia propriamente dita. • Arqueologia da Paisagem Ramo da arqueologia que estuda a relação dos grupos humanos com a paisagem, com os elementos naturais, em especial às maneiras de perceber, cons- truir e partilhar a paisagem, seja de forma individual ou coletiva. • Arqueologia Urbana Também chamada de Arqueologia da cidade, pois, por meio de escava- ções e/ou de levantamentos, almeja identificar as feições, os atributos e as distri- buições espaciais de prédios, ruas, praças, monumentos e demais edificações que se encontram na fundação e no crescimento da cidade. • Arqueologia Pública Ações e atividades que visam comunicar os conhecimentos obtidos nas pes- quisas e estudos arqueológicos com os mais diferentes segmentos da sociedade, por meio de programas e projetos de patrimônio cultural e educação patrimonial. • Arqueologia de Contrato Consiste na contratação dos serviços dos profissionais da arqueologia para a elaboração de pareceres e licenciamentos (liberação ou não) de projetos e obras. Pode ser solicitada tanto por empresas públicas como privadas. A arqueo- logia de contrato, conforme as necessidades de determinado local e projeto, pode se desdobrar em arqueologia consultiva, preventiva e de salvamento. Caldarelli (1999) explica que a Arqueologia de Contrato é acordada entre duas partes, o arqueólogo ou a universidade/museu e a empresa de engenha- ria ou órgão do governo. Nesta modalidade, os arqueólogos precisam emitir um laudo técnico sobre a viabilidade do projeto e/ou obra sobre os possíveis danos arqueológicos que a sua realização pode acarretar. Os laudos, por sua vez, com- põem a documentação de licenciamento ambiental, especialmente solicitados em empreendimentos hidrelétricos. O maior número de projetos e as principais for- mas de realização de arqueologia são a de Arqueologia de Contrato. A Arqueologia Preventiva diz respeito aos projetos não só de busca de vestígios de populações, mas também tratam de garantir a conservação dos bens no seu lugar de origem. Esta modalidade também elabora pareceres com reco- mendações para projetos e empreendimentos no sentido de minimizar os impac- tos quando estes serão realizados. A Arqueologia de Salvamento consiste nas TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 85 4 O QUE FAZ A (O) ARQUEÓLOGA (O)? Trabalha diretamente com os elementos materiais. A experiência como arqueólogo só pode ser adquirida e realizada com as atividades de campo, ou seja, em contato direto com o objeto de pesquisa no sítio arqueológico. O arqueólogo costuma trabalhar em equipe, seja acompanhado de outros arqueólogos, ou de profissionais da história, da antropologia, da etnografia, da geologia, da geografia, das engenharias, da arquitetura e especialistas mais. Costuma desempenhar diversas atividades como liderar projetos, entrar em contato e ficar disponível também para se apresentar aos órgãos e instituições fiscalizadoras, assim como financiadores, patrocinadores e a comunidade em geral. Quando os profissionais da arqueologia estão preparando uma saída de campo, faz-se necessário providenciar instalações confortáveis, alimentação leve, garantir a presença de água abundante, itens de proteção como barracas, botas, calças, mangas compridas, perneiras, chapéus, filtro solar, luvas, óculos, capacetes. Na chegada ao campo propriamente dito as atividades vão desde carregar e descarregar o veículo, como limpar a área que será montado o acampamento, abrir o solo, carregar baldes, carrinhos de terra entre outros. pesquisas e no recolhimento do maior número possível de material em uma dada área e território em que projetos públicos ou empresariais serão implementados. FIGURA 3 – ARQUEÓLOGA EM TRABALHO DE CAMPO FONTE: <https://bit.ly/2XrYc7w>. Acesso em: 3 jan. 2020. UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 86 A partir do momento em que as escavações foram iniciadas, atividades como peneirar o solo, fazer triagem dos materiais coletados, controlar e distribuir o material que será utilizado em campo, como sacos plásticos, etiquetas, fichas de campo; observar se está ocorrendo o devido preenchimento das fichas e a colocação das etiquetas identificadoras no material coletado; bem como atentar ao recolhimento e conferencia das mochilas de ferramentas. 4.1 PRINCIPAIS PROCEDIMENTOS • Estudo do contexto: identificação de materiais científicos e produções literárias sobre a região e sobre o sítio, tomada de testemunhos orais da população residente no entorno do sítio e identificação de inscrições em pedras, paredes de cavernas e grutas nas proximidades. • Elementos da paisagem da região do sítio arqueológico: observação, identificação e diferenciação da paisagem que compõem a região; do relevo, da presença dos ventos, da visibilidade do entorno; identificação do tipo de solo e rochas predominantes; a disponibilidade dos recursos hídricos, principal bacia hidrográfica e a distância em relação à fontes e rios. • Identificação do sítio arqueológico: com auxílio de GPS, fazer o registro das coordenadas gerais da localização do sítio; definir o Marco Zero, ou Datum, ou seja, o ponto de referência de todas as medições de superfície e profundidade; definir a extensão do terreno, elaborar uma planta inicial do sítio, destacar as áreas de concentração do material e as principais ocorrências de erosão. • Produção de imagens: realização de imagens que evidenciam a região em termos de ocupação, moradias e vegetação. • Prospecção do sítio: conjunto de operações de visam identificar e revelar a presença de evidências e vestígios arqueológicos em um determinado espaço, geralmente é acompanhada de procedimentos como o balizamento e demarcação, assim como a localização de depósitos de materiais. • Escavação: o processo de escavação é antecedido por outras etapas, como, por exemplo, a definição do grupo de pesquisa, e, em seguida, a organização e a instalação de acampamento logístico. Logo que é realizada a topografia do sítio, é escolhida uma determinada área ou quadra de terra, ocorre a retirada de pequenas amostras de solo e da separação dos materiais que constam em seu interior. Para realizar os trabalhos de escavação são utilizadas ferramentas como: picaretas, enxadas, serras, brocas elétricas, bússola, trena, balizas, estacas, cordéis, níveis, fios de prumo, quadrantes, quadro negro ou lousa, setas entre outros. • Estratigrafia: observação dos estratos e camadas das rochas, no sentido de identificar o período em que cada uma foi formada, bem como os fenômenos e eventos que as determinaram. • Limpeza: aplicada sobre o objeto por meio de pincéis, escovas, espátulas, alicates, bisturis, sondas, agulhas, pinças e com maior complexificação de processos realizados com a aplicação de vibro tool e jato abrasivo. • Tratamento e acondicionamento em acervo: o local em que foram realizadas as escavações e a retirada de material deve ser fechado novamente e deixado TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 87 o mais próximo possível da configuração em que se encontrava antes dos trabalhos de escavação acontecerem; todo material recolhido e selecionado deve ser protocolado, analisados por profissionais de diferentes áreas e examinado com todos os métodos disponíveis. • Trabalho em laboratórios: após a escolha dos materiais mais relevantes, estes são encaminhados à análise, que serão realizadas por equipes interdisciplinares, geralmente compostas por historiadores, biólogos, geógrafos, antropólogos, químicos entre outros. É o momento também em que os materiais podem passar por processos de verificação ainda mais precisos e específicos, como por exemplo análise dos materiais de composição e datação histórica. 4.2 PRINCIPAIS EVIDÊNCIAS ENCONTRADAS EM SÍTIOS A maioria das pessoas possuem conhecimento leigo em arqueologia, conseguem reconhecer materiais líticos e fósseis como, por exemplo, pontas de lanças e flechas, esculturasem pedra, cerâmicas assim como ossadas e/ou esqueletos. É nesse contexto que se faz importante a presença dos profissionais da arqueologia, que atuarão no sentido de promover a ampliação da capacidade de reconhecimento, de leitura e no entendimento das mais pequenas e desprezíveis evidências que o sítio contém. As principais evidências que podem ser encontradas, sejam enterradas ou sobre a superfície do solo, são: • Artefatos: qualquer objeto que foi feito pelo homem, como instrumentos de pesca, caça e demais trabalhos, recipientes e vasilhas, instrumentos musicais ou itens para rituais, pinturas, grafismos, adornos, indumentária, entre outros. • Estruturas: diferentes tipos de construções destinadas às necessidades e aos modos de vida, tais como casas, abrigos, reservatórios de alimentos, templos, igrejas, altares, fortificações entre outros. • Ecofatos: diferentes vestígios do meio ambiente, da natureza, que foram usados pelo homem conforme as suas necessidades, podem ser restos de alimentos, ossos, conchas, sementes, fibras, pedras, carvão entre outros. 4.3 PREVISÕES LEGAIS SOBRE OS ACHADOS ARQUEO- LÓGICOS A Lei Federal 3.924 de 26 de julho de 1961 dispõe que os monumentos ar- queológicos e pré-históricos e todos os elementos que neles se encontram e estão disponíveis no território nacional são de guarda, proteção e tutela do poder públi- co. Toda e qualquer escavação, seja realizada por profissionais da arqueologia e ins- tituições especializadas dos municípios, dos estados ou da União ou por particulares deve ser previamente comunicada, se enquadrar às condições existentes no modelo de permissão e iniciar somente após obter a autorização pela diretoria do Iphan. UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 88 O modelo de permissão das atividades de escavação requer informações sobre o tipo e a designação da jazida, a identificação do especialista encarregado dos trabalhos, os indícios que determinaram a escolha do local, e após os traba- lhos concluídos, deve ser gerado uma espécie de relatório de campo com os resul- tados obtidos e sobre o destino que foi dado aos materiais coletados. Toda descoberta de bens arqueológicos, pré-históricos, históricos, artísti- cos ou numismáticos que é feita seja pelo proprietário do local ou pelo autor do achado deve ser comunicada imediatamente ao Iphan e/ou aos órgãos autoriza- dos. A posse e a salvaguarda dos bens oriundos das atividades arqueológicas são do Estado. O proprietário ou o ocupante do local são os responsáveis pela conser- vação provisória do bem descoberto, até o pronunciamento e a deliberação da di- retoria o Iphan. Por fim, devem ser emitidos relatórios, produzidos e publicados artigos e notícias para comunicar os resultados obtidos com o desenvolvimento das pesquisas nos sítios arqueológicos. 5 PRINCIPAIS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS Os trabalhos de levantamento já realizados pelo Iphan indicam que existe no Brasil mais de 14 mil sítios arqueológicos, porém os estudiosos e especialistas estimam que o número pode chegar a 20 mil. Caro acadêmico, a seguir, procura-se relacionar as principais tipologias de sítios arqueológicos, observe: • Megalíticos Trata-se de sítios compostos por grandes blocos de pedras, cuja finalidade é simbólica, astronômica, religiosa e até funerária (Dólmen). Dentre os mais conhecidos estão os megalíticos de Stonehenge na Inglaterra; Cromeleque dos Almendres em Portugal; e no Brasil, o Sítio Arqueológico de Calçoene, também conhecido como Parque Arqueológico do Solstício, na cidade de Calçoene, litoral do Amapá, observe na figura a seguir: TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 89 FIGURA 4 – PARQUE ARQUEOLÓGICO DO SOLSTÍCIO/AMAPÁ FONTE: <https://bit.ly/30uWwfz>. Acesso em: 7 dez. 2019. O Sítio Arqueológico de Calçoene encontra-se no topo de uma colina, é composto por um conjunto de 127 rochas dispostas na forma de círculo. O círculo conta com as dimensões de 30 metros de diâmetro e 4 metros de comprimento. Estima-se que foi edificado por volta de 2000 a. C. • Geoglifos Trata-se de figuras feitas no chão em regiões planas ou em altitudes. A edificação dos geoglifos pode se dar de duas maneiras: uma com a disposição, de modo organizado, de sedimentos (pedras e derivados) sobre o solo, e a outra com a retirada de sedimentos, formando uma espécie de relevo negativo. A visualização dos desenhos se dá de forma mais completa quando visualizadas do alto ou sobrevoando a região. Observe o exemplo do geoglifo de Nazca no Peru: FIGURA 5 – COLIBRI. NAZCA/PERU FONTE: <https://bit.ly/3fBd4XD>. Acesso em: 5 dez. 2019. UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 90 Na Bolívia e no Brasil — nos estados do Acre, Rondônia, Amazonas — já foram identificados mais de 400 geoglifos. No Acre existem 24 geoglifos, de grande extensão e com os mais variados formatos: quadrados, círculos, octógonos entre outros. FIGURA 6 – GEOGLIFOS DO ACRE FONTE: <https://bit.ly/3fqZm9l>. Acesso em: 2 jan. 2020. Os estudiosos estimam que estes geoglifos foram criados a partir da abertura de valetas de 2 a 3 metros de profundidade e atingem até 300 metros de largura e que foram feitos por grupos indígenas que habitavam a região entre os anos de 200 a. C e 1300 d. C. No senso popular são feitas especulações sobre a origem e criação dos geoglifos, em especial, existem as que afirmam que sejam obras de grupos alienígenas. A partir do uso do programa do Google Earth a identificação dos sítios de geoglifos foi amplamente favorecida. • Inscrições Rupestres Diz respeito às representações realizadas em paredes, tetos e demais superfícies no interior de cavernas, grutas e demais locais que serviram de abrigo. Podem ser encontradas na forma de pinturas, realizadas a partir da aplicação de pigmentos sobre a superfície; e na forma de imagens gravadas por incisão nas rochas. Dentre os principais temas representados estão plantas, flores, animais, pessoas, inscrições gráficas abstratas. O significado e a denominação dessas representações são bastante debatidos entre os estudiosos, de maneira geral TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 91 ilustram cenas de caça, colheita, fertilidade e demais situações do cotidiano, assim como intenções mágicas e ritualísticas. Dentre os sítios com registros rupestres mais conhecidos estão as pinturas das cavernas de Altamira na Espanha; as grutas do vale do Vézère, de Lascaux, Les Combarelles e Font de Gaume na França; Cueva de las Manos na Argentina; Vale do rio Côa em Portugal; Arte rupestre na região de Ha’il na Arábia Saudita. No Brasil, o Parque Nacional da Serra da Capivara no Piauí, Parque Nacional do Catimbau, em Pernambuco e o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada em Minas Gerais são os locais com as inscrições mais expressivas. Na figura a seguir, apresenta-se parte das pinturas do Sítio da Pedra Pintada, observe: FIGURA 7 – PINTURAS RUPESTRES DO SÍTIO DE PEDRA PINTADA/MG FONTE: <https://bit.ly/3fqX628>. Acesso em: 8 dez. 2019. • Sítios Monticulares – O Caso dos Sambaquis Os sítios monticulares resultam da acumulação proposital de materiais que, por sua vez, tendem a se verticalizar. Os sambaquis constituem sítios monticulares a partir do uso de conchas e podem ser encontrados em costas litorâneas, regiões lagu- nares, baías e ilhas. Podem ser encontrados ao longo da extensão de terras litorâneas do Brasil, bem como de demais cidades da América, África, Europa, Ásia e Austrália. Sambaqui é uma palavra de origem Tupi que significa amontoado de con- chas. Os sambaquis foram edificados por grupos humanos caçadores-coletores. As conchas eram extraídas de moluscos e crustáceos que se encontravam nas re- giões costeiras. Os sambaquis são resultados de processo de longa duração, edi- ficados através de longos períodos, geralmente datam de até mil anos e podem alcançar até 10 mil anos antes do presente. Podem atingir até 70 metros de altura e 500 metros de comprimento. UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 92 FIGURA 8 – SAMBAQUI DE GAROPABA DO SUL/SCFONTE: <https://bit.ly/3k9iAnz>. Acesso em: 1º dez. 2019. Gaspar, Klokler e Bianchini (2013) explicam que a função e o sentido dos sam- baquis estão relacionados às atividades funerárias e habitacionais. Junto aos corpos se- pultados, geralmente, são encontradas evidências de depósitos de alimentos (animais, peixes, sementes e frutos), artefatos (a partir de ossos, pedras e conchas), zoólitos (arte- fato em pedra que se parecem e representam algum animal) e a realização de fogueiras como elementos componentes à realização de homenagens, rituais e festins. De modo geral, as funções mais expressivas nos sambaquis são as repe- tidas atividades fúnebres que mobilizavam quantidades enormes de materiais e pessoas. A repetição das atividades funerárias é indicada como responsável por promover a sobreposição de camadas de conchas. Os estudos indicam que estes sítios deixaram de ser edificados e continu- ados aproximadamente entre 1000 e 500 anos antes do presente, de modo geral é consenso que se trata de povos muito antigos que sumiram antes da chegada das levas de colonização europeus, as hipóteses sobre o desaparecimentos destas populações intrigam e dividem os estudiosos. Gaspar, Klokler e Bianchini (2013) também alertam sobre os riscos que existem de destruição dos sambaquis, além dos processos de erosão naturais e do vandalismo, por muito tempo os sambaquis foram alvo de exploração de cal e do uso para a realiza- ção de obras como mineração, pavimentação de estradas, de curais, diques entre outros. Na figura a seguir apresenta-se uma imagem do sambaqui de Garopaba do Sul/SC, que data de aproximadamente 6 mil anos antes do presente, o sam- baqui possui mais de 25 metros de altura e é considerado um dos maiores do mundo: TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 93 6 O PATRIMÔNIO ARQUEOLÓGICO Como já foi mencionado anteriormente, com publicação da Lei Federal 3.924, de 26 de julho de 1961, passou a vigorar as diretrizes sobre pesquisas de campo, os procedimentos de deslocamento, do tratamento dos materiais encon- trados e as descobertas notáveis, a circulação do material arqueológico, numis- mático, histórico e artístico para fora do país, bem como as penalidades aplicadas em casos de destruição de sítios arqueológicos. O Artigo 2º da Lei, versa sobre o que pode ser considerado como monu- mentos arqueológicos ou pré-históricos, observe: a) as jazidas de qualquer natureza, origem ou finalidade, que repre- sentem testemunhos de cultura dos paleoameríndios do Brasil, tais como sambaquis, montes artificiais ou tesos, poços sepulcrais, jazi- gos, aterrados, estearias e quaisquer outras não especificadas aqui, mas de significado idêntico a juízo da autoridade competente. b) os sítios nos quais se encontram vestígios positivos de ocupação pelos paleoameríndios tais como grutas, lapas e abrigos sob rocha; c) os sítios identificados como cemitérios, sepulturas ou locais de pouso pro- longado ou de aldeamento, "estações" e "cerâmicos", nos quais se encon- tram vestígios humanos de interesse arqueológico ou paleoetnográfico; d) as inscrições rupestres ou locais como sulcos de polimentos de utensílios e outros vestígios de atividade de paleoameríndios (BRASIL, 1961, s.p.). Estudiosos e especialistas discutem que a noção de arqueologia descrita na legislação anterior é problemática, pois encontra-se numa relação de dependên- cia com a noção de patrimônio ambiental, observe os escritos de Silva (2007, p. 71) diz: [...] a compreensão do patrimônio arqueológico inserido na condição de patrimônio ambiental tende, segundo nos parece, a uma visão re- ducionista desses bens, deslocando-os para uma esfera relacionada primeiramente ao meio ambiente, e não mais como fontes da cultura nacional, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. O meio ambien- te passa então a ser o foco principal e esse, no que se refere à arqueolo- gia, não está necessariamente relacionado ao momento das ocupações pré-históricas que marcaram nosso território em períodos remotos. Logo após a publicação da lei, seguiram os debates e as discussões. Con- forme explica Baima (2016, p. 29), gradualmente ocorreram avanços e ampliações: [...] na década de 80, após a promulgação da Constituição Federal de 1988 (considerando o art. 20, X, art. 23, III e art. 216, V) foi implementada a Portaria nº 07, de 01 de Dezembro de 1988 e a Portaria Interministerial nº 69, de 23 de janeiro de 1989. A primeira tendo o intuito de assegurar o caráter científico das pesquisas, regulamentou-as com a concessão de autorizações e permissões, exigindo a partir de então projeto de pesqui- UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 94 O Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), foi fundado em 1961, constituí uma instituição privada de caráter científico-cultural, sem fins lucrativos. O IAB já atuou em diver- sos estados brasileiros, tais como Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Acre, Amazonas, Goiás, Maranhão, Paraíba, Rondônia e Tocantins. A sede do IAB, no município de Belford Roxo (RJ), é credenciada junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para Guarda de Acervos Arqueológicos. Conta com dez prédios, nos quais se distri- buem reserva técnica, laboratórios, almoxarifados, alojamentos para pesquisadores visitantes, área museal, salas de aula entre outros. Esta estrutura e ramo de atuação permitiu a inclusão do IAB também junto ao Cadastro Nacional de Museus do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). Para obter maiores informações, acesse o endereço a seguir: https://bit.ly/3i1tA4y. Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) é uma associação civil de caráter científico, sem fins lucrativos, de direito privado. Foi criado na década de 1980 e reúne arqueólogos DICAS sa, equipe devidamente qualificada, endosso institucional financeiro e de guarda do material resgatado e relatórios parcial e final. A portaria Interministerial nº 69/1989, mencionada pelo autor, contem- plou especificamente as atividades de Arqueologia subaquática e resultou de uma cooperação entre os Ministérios da Marinha e da Cultura tendo como pre- ocupação apresentar diretrizes à elaboração de pesquisas de bens que se encon- tram submersos, afundados, encalhados e perdidos em águas que estão sob juris- dição nacional. Baima (2016, p. 30) descreve que nos anos seguintes outros projetos e le- gislações foram realizadas no que tange o campo da arqueologia, observe: [...] Portaria nº 28, 31 de janeiro 2003, que determina em empreen- dimentos hidrelétricos, a execução de uma vasta pesquisa contendo levantamento, prospecção, resgate e salvamento arqueológico. Em seguida, temos a Portaria Interministerial nº 419, de 26 de outubro de 2011, que regulamenta a atuação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), da Fundação Cultural Palmares (FCP), do Instituto do Patri- mônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do Ministério da Saúde, frente ao licenciamento ambiental, apresentando ao Instituto Brasilei- ro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) suas manifestações conclusivas. Desde o ano de 1961 até as legislações mais atuais, as atividades arqueo- lógicas foram sendo incluídas nos mais diferentes setores de deliberações gover- namentais federais, envolvendo órgãos como FUNAI, FCP, Iphan e IBAMA. A partir dessas determinações foram criados diversos canais de cadastro e registo de bens arqueológicos, foram criados centros, institutos, sociedades, observe nas sugestões que são feitas a seguir: TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 95 e especialistas que atuam com ensino, pesquisa e práticas arqueológicas, almeja promo- ver as atividades arqueológicas e o patrimônio arqueológico. Para obter maiores informa- ções, acesse o endereço a seguir: https://bit.ly/3i6Mrez. Centro Nacional de Arqueologia (CNA) é um órgão especial dentro do Iphan que atua no sentido de realizar ações de acautelamento (tombamento, proteçãoe valorização), autorizar e permitir a realização de pesquisas arqueológicas, acompanhar e fiscalizar as pesquisas; e implementar ações que promovam a socialização do patrimônio arqueológico como um todo. Para obter maiores informações, acesse o endereço a seguir: https://bit.ly/31guSC0. Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA/SGPA) representa uma das etapas do proces- so de proteção do patrimônio arqueológico. De acordo com a legislação, toda e qualquer nova descoberta deve ser comunicada ao Iphan imediatamente. Acesse a página do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA/SGPA), e conheça o detalhamento técnico e a filiação cultural dos sítios arqueológicos brasileiros cadastrados no IPHAH. Disponível em: https://bit.ly/2XpbOQL . Planilha — Sítios Arqueológicos Cadastrados é resultado dos dados informados no Cadas- tro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA/SGPA,) que, até o ano de 2018, já contava com aproximadamente 26 mil sítios cadastrados. A planilha indica o nome do sítio, o município, o estado, a tipologia e demais itens relevantes. Disponível em: https://bit.ly/31iDeJp. 7 EDUCAÇÃO PATRIMONIAL VOLTADA À ARQUEOLOGIA: A IMPORTÂNCIA DA ARQUEOLOGIA PÚBLICA Conforme estudiosos e especialistas refletem, um dos grandes desafios reside em superar a compreensão e a finalidade das atividades arqueológicas voltadas a atender às demandas dos licenciamentos ambientais e às pesquisas científicas, dito de outro modo, ampliar o contato com a comunidade, dialogar e sensibilizar os mais diferentes públicos. Nesse contexto a arqueologia pública e as ações de educação patrimonial podem favorecer significativamente a preser- vação do patrimônio arqueológico. A noção de arqueologia pública passou a ser debatida a partir dos anos de 1980 e possibilitou forte aproximação e contato entre as ciências como a História, a Antropologia e a Museologia, em especial das esferas da arqueologia, da sociedade e do patrimônio. Bezerra (2011, p. 62) explica que a arqueologia pública é uma: [...] vertente da Arqueologia preocupada em compreender as relações entre distintas comunidades e o patrimônio arqueológico, conside- rando o impacto do discurso acadêmico na visão de mundo dessas comunidades, o lugar de suas narrativas na construção do passado e a gestão comunitária dos bens arqueológicos. UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 96 Maiores informações podem ser obtidas junto ao blog do Museu Arqueoló- gico de Sambaqui de Joinville/SC. Disponível em: http://museusambaqui.blogspot.com/. DICAS Fernandes (2007, p. 3-4) também defende as possibilidades que residem na arqueologia pública: O discurso preservacionista desencadeou o despertar da Arqueologia Pública como um campo preocupado com as questões pautadas na interface da ciência com a sociedade. Nessa interface pode existir: en- sino, aprendizagens, tensões, pressões, negociações e, sobretudo di- álogo, em uma relação dialética entre a Arqueologia e seus públicos. Mas foi a partir do século XXI que se intensificou os debates e as preocu- pações para com um campo colaborativo, de manifestação da diversidade histó- rica e como instrumento de transformação social. No ano de 2006 foi publicada pela UNICAMP, a Revista de Arqueologia Pública, que passou a discutir os mais diferentes temas que recaem à área da arqueologia, como o turismo arqueológico, o tráfico de antiguidades, políticas públicas de gestão e preservação de patrimô- nio, a educação patrimonial entre outros. Na cidade de Joinville, um projeto desenvolvido pela equipe de profissio- nais do Museu Arqueológico do Sambaqui/MASJ, ganhou amplo destaque nacio- nal. O Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville/MASJ, que conta com um acervo arqueológico de aproximadamente 12 mil peças oriundas dos sambaquis que existem na região limítrofe da cidade, desde longa data, promovia ações de diferentes naturezas que contemplam a dimensão da educação patrimonial no campo da arqueologia (MACHADO, 2013). O projeto se chama Kit Percursos e foi implementado desde os anos de 1990 e desde a sua concepção privilegiou a relação com a comunidade e o universo escolar. O projeto possibilita que itens do acervo e réplicas sejam deslocados e permaneçam nas escolas da cidade por uma semana. A equipe técnica responsável pelo projeto desenvolveu o kit, do qual fazem parte ossos, utensílios, ferramentas e materiais in- formativos que ilustram a história das populações sambaquianas da região. O kit didático conta com um esqueleto do corpo humano de resina e um mapa do sistema esquelético, gaveteiros com materiais arqueológicos para exploração senso- rial, banners e fichas didáticas. O kit pode ser utilizado nas mais diversas disciplinas, como História, Ciências, Geografia, Artes, Educação Física e Língua Portuguesa. TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 97 8 ATIVIDADES EDUCATIVAS COM EVIDÊNCIAS MATERIAIS EM ESPAÇOS ESCOLARES: ALGUMAS SUGESTÕES Caro acadêmico, à luz dos escritos de Horta, Grunberg e Monteiro (1999), presentes no Guia Básico de Educação Patrimonial, procura-se sugerir duas ativi- dades que contemplam as pesquisas arqueológicas, observe na sequência do texto: • ATIVIDADE 1: CACOS DE HISTÓRIA Horta; Grumber e Monteiro (1999) sugerem que quando o professor ou o mediador não conta com a possibilidade de visita à sítios arqueológicos, é pos- sível viabilizar atividades que ilustrem os procedimentos que são desenvolvidos pela arqueologia. As atividades consistem em promover o processo de investiga- ção e reconstituição do passado no presente. Para esta atividade é possível utilizar itens e objetos de museus que fazem par- te do cotidiano das pessoas. A experiência também é uma excelente preparação para futuras visitas à monumentos ou sítios arqueológicos. Observe as orientações a seguir: 1ª Etapa: escolher objetos ou itens, fragmentos que fazem parte do coti- diano. A atividade pode ser conduzida utilizando um objeto de cerâmica ou lou- ça como prato, xícara, bule, caneca, pote, copo que estejam partidos, quebrados, em fragmentos ou que estejam danificados no sentido de não possuir todas as partes e/ou ter pedaços quebrados. 2ª Etapa: apresentação aos estudantes. Apresente aos estudantes um fragmento do objeto, a partir do fragmento os estudantes devem ser estimulados a identificar e definir aproximadamente o que é o objeto. Enquanto isso, é importante avançar nas perguntas que levem à observação de aspectos como o de que materiais foram empregados na fabricação do objeto, como foi feita a decoração e a ornamentação, quantas partes possuía, a que conjunto pertencia, entre outras. 3º Etapa: reconstituição do objeto. Realizada a etapa anterior, é o momento de apresentar todas as partes do objeto aos estudantes e oriente para que eles procurem recompor, reconstituir os fragmentos do objeto até que fique o mais completo e coerente possível. Se permanecerem dúvidas sobre o objeto ou sobre os materiais utilizados na fa- bricação e na ornamentação do objeto oriente para a continuidade de estudos por meio de pesquisas. UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 98 No momento de escolher o objeto e/ou os fragmentos, opte por aquele/ aqueles que não forneçam riscos à segurança dos estudantes e que facilmente possam ser manuseados. ATENCAO • ATIVIDADE 2: ARQUEÓLOGOS DO FUTURO Horta; Grumber e Monteiro (1999) sugerem uma atividade na qual os estudantes podem imaginar e simular que são arqueólogos do ano 3000 d.C. ou mais e que estão investigando as sociedades em torno do ano 2000 d.C. Observe, a seguir, como a atividade pode ser organizada e como pode funcionar: 1. A sala de aula, o pátio ou o jardim da escola podem ser utilizados como campo de pesquisa, ou seja, como “sítios arqueológicos”. 2. Os estudantes devem explorar estes locais em busca de pistas sobre como viviam as populações do final do século XX e início do século XXI. 3. Divididos em grupos, os estudantes devem recolher materiais das mais diferentes atividades e necessidades desobrevivência da população. 4. Os materiais recolhidos devem ser acomodados em sacos plásticos para serem utilizados nas próximas etapas das pesquisas. 5. Todos integrantes do grupo devem escolher algum dos materiais recolhidos para descrever na ficha de identificação de objetos. 6. Quando os objetos estiverem identificados e descritos, os estudantes demostrando desconhecimento, podem apresentar aos demais do grupo o material que foi analisado, assim como as hipóteses sobre as prováveis funções, usos e sentidos que os objetos possuíam. 7. Ao final das apresentações dos respectivos grupos, o professor pode propor uma síntese e sugerir relações e conexões entre os objetos apresentados, assim também como era a vida, os modos e os costumes da sociedade “naquela época”. Esta atividade pode desenvolver o senso científico, investigativo; favorecer a dimensão criativa, lúdica, imaginativa, hipotética do pensamento, bem como as adversidades e limitações que fazem parte do universo das pesquisas arqueológicas. A seguir, procura-se apresentar um modelo de ficha de identificação de objetos que pode ser utilizada como referência ao item 5 mencionado na atividade “Arqueólogos do Futuro”, observe: TÓPICO 1 — SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 99 QUADRO 1 – FICHA DE IDENTIFICAÇÃO DE OBJETO ASPECTOS A OBSERVAR PERGUNTAS EVIDÊNCIAS IDENTIFICADAS ASPECTOS À PESQUISAR ASPECTOS FÍSICOS O que parece ser? De que material foi feito? Quais dimensões? Que cheiro tem? Que barulho produz? CRIAÇÃO CONSTRUÇÃO Onde foi encontrado? É artesanal ou manufatu- rado? É peça única e ou possui partes separadas? Está completo? FORMA Que cor possuí? Que tex- tura apresenta? É decorado ou ornamen- tado? Como é a decoração? FONTE: Adaptado de Horta, Grunberg e Monteiro (1999, p. 12) Com relação às ações e atividades educativas em sítios arqueológicos propriamente ditos, é importante contatar e elaborar projetos em parceria com pesquisadores e profissionais que conhecem, atuaram e/ou atuam no local, no sentido de garantir a realização de atividades com maiores oportunidades de aproveitamento do potencial do local, bem como a segurança aos estudantes. Para atividades em sítios arqueológicos é possível adaptar o quadro que foi apresentado anteriormente, bem como observar os aspectos que serão abordados no tópico a seguir, quando serão apresentadas atividades que podem ser realizadas em centros históricos, observe com atenção que estas podem também ser adaptadas e aplicadas às atividades de arqueologia e/ou às visitas aos sítios arqueológicos. ESTUDOS FU TUROS 100 Neste tópico, você aprendeu que: RESUMO DO TÓPICO 1 • Arqueologia é ciência que investiga e estuda vestígios, pistas, evidências, registros humanos que datam de períodos anteriores a presença da escrita e tem como finalidade explicar a origem, o desenvolvimento e até o desaparecimento de grupos humanos e de civilizações. • Conforme o tema e o objeto de pesquisa, a arqueologia pode se desdobrar em diferentes ramos de atividades como: arqueologia botânica, arqueologia de ambientes aquáticos, arqueologia clássica, arqueologia egípcia, arqueologia pré-histórica, arqueologia da paisagem, arqueologia urbana, arqueologia pública e arqueologia de contrato. • Os principais procedimentos que os profissionais da arqueologia realizam são: estudo de contexto, elementos da paisagem, identificação do sítio arqueológico, produção de imagens, prospecção do sítio, escavação, estratigrafia, limpeza, tratamento, acondicionamento em acervo e trabalhos de laboratório. • As principais evidências encontradas em sítios arqueológicos são artefatos, estruturas e ecofatos. • A presença de profissionais da arqueologia é imprescindível ao reconhecimento dos materiais potenciais que existem no interior de sítio. • A Lei Federal 3.924, de 26 de julho de 1961, versa como se deve proceder em pesquisas de campo, nos procedimentos de deslocamento, no tratamento dos materiais encontrados, na circulação do material arqueológico, numismático, histórico e artístico para fora do país, bem como sobre as penalidades aplicadas em casos de destruição de sítios arqueológicos. • Existem diferentes tipologias de sítios arqueológicos, tais como geoglifos, megalíticos, inscrições rupestres e monticulares (sambaquis). • Dentre os principais desafios dos estudos e atividades arqueológicas na contemporaneidade está o de realizar atividades educativas e estreitar o diálogo com a comunidade e os mais diferentes públicos. 101 1 Quando a maioria das pessoas se depara com um sítio arqueológico, geral- mente conseguem reconhecer apenas pontas de lanças e flechas, esculturas em pedra, cerâmicas e ossadas. A importância da presença e do trabalho dos profissionais da arqueologia reside exatamente nesse contexto. Com re- lação às principais evidências que podem ser encontradas em sítios arque- ológico, sejam enterradas ou sobre a superfície do solo, analise as sentenças a seguir: I- Os profissionais da arqueologia atuam no sentido de revelar os detalhes mais desprezíveis em termos de materiais líticos e fósseis. II- Artefatos, estrutura e ecofatos são materiais líticos e fósseis que qualquer indivíduo consegue encontrar e identificar quando se depara com um sítio arqueológico. III- Ecofatos são os materiais fósseis e líticos que exigem maior grau de obser- vação e conhecimento específico para serem reconhecidos. IV- Artefatos como instrumentos de trabalho, recipientes de alimentos e estru- turas edificadas costumam ser mais fáceis de serem reconhecidos em sítios arqueológicos. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As alternativas I, II, III estão corretas. b) ( ) As alternativas I, III e IV estão corretas. c) ( ) Somente as alternativas III e IV estão corretas. d) ( ) Somente as alternativas II e III estão corretas. 2 A Lei Federal 3.924, de 26 de julho de 1961, contém as diretrizes que versam sobre as pesquisas de campo, os procedimentos de deslocamento, do trata- mento dos materiais encontrados e as descobertas realizadas pelas pesqui- sas em sítios arqueológicos. Com relação à definição de sítio arqueológico, o que é correto afirmar? Assinale as sentenças a seguir atribuindo V para as verdadeiras e F para as falsas: ( ) Jazidas, jazigos, poços sepulcrais, montes artificiais, sambaquis e estea- rias realizadas a partir da era das grandes navegações são considerados como sítios arqueológicos. ( ) Os vestígios dispostos em grutas, lapas e abrigos sob rocha não podem ser considerados como sítios arqueológicos devido ao grau de interferên- cia humana que sofreram ao longo dos anos. ( ) Jazidas, jazigos, poços sepulcrais, montes artificiais, sambaquis e estea- rias dos povos paleoameríndios são considerados sítios arqueológicos. ( ) Cemitérios, sepulturas, locais de pouso, inscrições rupestres ou locais de sulcos de polimentos de utensílios e outros vestígios são considerados sítios arqueológicos. AUTOATIVIDADE 102 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – V – F. b) ( ) F – V – V – F. c) ( ) F – F – V – V. d) ( ) V – V – F – F. 3 Conforme os temas e objetos de estudos a arqueologia pode se desdobrar em diferentes ramos e áreas. Tais como arqueologia botânica, arqueologia de ambientes aquáticos, arqueologia clássica, arqueologia egípcia, arqueo- logia pré-histórica, arqueologia da paisagem, arqueologia urbana, arqueo- logia pública e arqueologia de contrato. Sobre a arqueologia de contrato é correto afirmar que. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Está preocupada com o contato com a comunidade, dialogar e sensibi- lizar os mais diferentes públicos. b) ( ) Consiste na elaboração pareceres à licenciamentos (liberação ou não) de projetos e obras e pode ser solicitada tanto por empresas públicas e/ou privadas. c) ( ) Almeja identificar as feições, os atributos e a distribuições espaciais de prédios, ruas, praças, monumentos e demais edificações que se encon- tram em cidades.d) ( ) Estuda a relação dos grupos humanos com a paisagem, com os ele- mentos naturais, em especial às maneiras de perceber, construir e par- tilhar a paisagem. 103 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Os centros históricos das cidades do Brasil ilustram as relações entre presente e passado, as mudanças e as permanências em termos de modos e costumes de vida, formas de trabalho, lazer, tradições religiosas das pessoas, assim como nas estruturas e edificações das cidades, os equipamentos urbanos, as necessidades entre outros. Os centros históricos geralmente foram formados em períodos anteriores ao século XIX; reúnem as aglomerações urbanas originais, núcleos antigos e monumentais das cidades. Constituem o ‘coração da cidade’ a partir do qual se expandiram outras áreas urbanas através do tempo; centralizam atividades e serviços comerciais, religiosos, cívicos, lazer, entretenimento, administração pública entre outros consideradas importantes à coletividade. Para Benévolo (1995, p. 229) os centros históricos “funcionam preponderante não só como suporte de tudo o resto, como sinal de identificações dos lugares e referência da imaginação coletiva, mas também como aglomerado dos bens culturais”. Na recomendação de Nairóbi (UNESCO, 1976, p. 3), ficou considerado como centro histórico: [...] todo agrupamento de construções e de espaços, inclusive os sítios arqueológicos e paleontológicos, que constituam um assentamento humano, tanto no meio urbano quanto no rural e cuja coesão e valor são reconhecidos do ponto de vista arqueológico, arquitetônico, pré- histórico, histórico, estético ou sociocultural. Ainda no conteúdo da Recomendação de Nairóbi (UNESCO, 1976) consta que “os conjuntos históricos e os seus enquadramentos formam um patrimônio universal insubstituível e que é fundamental a sua salvaguarda e integração na vida coletiva”. Bohigas (1999, p. 203) explica que: Os centros históricos das cidades constituem-se ainda hoje como espaços urbanos muito identificáveis, de alta qualidade representativa, cheios de elementos emblemáticos e a cidade como tal, com todos os seus atributos, reconhece-se no centro: o nome, a identidade, a representação, os monu- mentos, a integração coletiva, a qualidade urbana encontram aí o seu eixo gravitacional, sendo por tal fundamental a sua salvaguarda e valorização. TÓPICO 2 — CENTROS HISTÓRICOS 104 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: As recomendações de Nairóbi (UNESCO, 1976) preveem que deve ocorrer uma política de revitalização cultural preocupada em converter os conjuntos históricos em polos de atividades culturais e atribuir-lhes um papel essencial no desenvolvimento cultural das comunidades circundantes. Nas últimas décadas do século XX e nos primeiros anos do século XXI, observou-se o desenvolvimento de diversos projetos que almejavam revitalizar os centros históricos das principais cidades, bem como locais em que são realizadas atividades artesanais, porém nem sempre estes locais contaram com esse tipo de iniciativa. Em diferentes momentos, e por muito tempo, foram considerados empecilhos aos projetos de modernização das cidades, bem como foram alvo de ataques e demolições por parte da especulação imobiliária e até do poder público. Paira uma espécie de consenso de que os centros históricos devem atender muito mais aos interesses comerciais, aos negócios imobiliários e da construção civil do que aos interesses pela memória, pela história e demais demandas simbólicas coletivas. Caro acadêmico, para compreender melhor a dinâmica dos processos históricos que recaíram aos centros históricos, bem como conhecer as cidades históricas, as atividades artesanais e as comunidades rurais do Brasil, prossiga na leitura do texto! 2 CENTROS HISTÓRICOS: TRAJETÓRIA E DESAFIOS CON- TEMPORÂNEOS Nos primeiros anos do século XX as principais capitais e cidades do mundo ocidental foram palco de projetos que almejavam modernizar os espaços de viver e conviver. Os idealizadores destes projetos foram os franceses G. E. Haussmann (1809-1891) e Le Corbusier (1887- 1965). Modernizar, nos primeiros anos do século XX, significava demolir as antigas edificações, assim como as que eram consideradas insalubres à convivência humana, tais como moradias populares e cortiços. Em contrapartida, as novas edificações tendiam à verticalização e à funcionalidade, os projetos previam a abertura de vias largas e amplas, que facilitassem a circulação de mercadorias e pessoas, de saneamento básico e iluminação pública, bem como instituir regras e leis que normatizavam o acesso e o funcionamento dos locais públicos; e, por fim, a criação de novos espaços de sociabilidade tais como boulevards, parques, largos, teatros, museus, galerias de arte, cassinos entre outros. Marques (2005) explica que o cenário das cidades partir dos anos de 1950, no contexto do pós-guerra, era de muitas cidades europeias parcialmente destruídas, a perda da centralidade radial das cidades americanas ou seja TÓPICO 2 — CENTROS HISTÓRICOS 105 as cidades e as metrópoles estenderam-se na superfície do território, com a descentralização, que também é chamada de suburbanização, fazendo com que centralidades periféricas emergissem. Salgueiro (1999) descreve que, nos anos de 1970, o cenário das cidades formava uma paisagem típica das sociedades pós-industriais, no qual o declínio das cidades históricas ficava ainda mais visível, agravados pelo progresso da tecnologia, dos transportes e das comunicações. Cavém (2007) explica que o desenvolvimento dos transportes favoreceu o processo de separação entre o local de trabalho e o de residência que, por sua vez, acabou por colocar graves problemas às áreas urbanas. Foi também o momento em que quando passou a ocorrer um maior consumo de solo e pelo aumento dos deslocamentos pendulares, que, por um lado, resultou no aumento do consumo de energia, e que acarretou o abandono dos centros históricos das cidades, deixando-os degradados e envelhecidos. Chico (2008) reflete que o que permaneceu na cidade, ou no coração da cidade, foi o centro cívico e as atividades comerciais. O aumento da população, a aparição da periferia, a consequente instalação de nova oferta comercial, a massificação do automóvel, o esvaziamento da população dos centros históricos, compõem o conjunto de elementos e fenômenos que devem ser considerados como os principais responsáveis pela crise e pelo enfraquecimento das regiões históricas das cidades. A partir de 1970 ocorreu uma mudança em relação à finalidade dos centros históricos, passou-se das ações de preservação e salvaguarda à ideia de integração com a cidade contemporânea, no sentido de que estes locais deveriam ser abordados como possuidores de função ativa na vida coletiva, para além do mero valor histórico e das belezas naturais. Para tanto, foram empreendidas ações de reabilitação, revitalização e requalificação, no sentido de entregar à população uma espécie de “centro velho” revitalizado. Bolonha/Itália, Barcelona/Espanha e Londres/Inglaterra são cidades reconhecidas como exemplares destes projetos. Nas recomendações de Nairóbi (UNESCO, 1976, p. 4) consta que: Nas condições da urbanização moderna, que produz um aumento considerável na escala e na densidade das construções, ao perigo da destruição direta dos conjuntos históricos ou tradicionais se agrega o perigo real de que os novos conjuntos destruam indiretamente a ambiência e o caráter dos conjuntos históricos adjacentes. Os arquitetos e urbanistas deveriam empenhar-se para que a visão dos monumentos e conjuntos históricos, ou a visão que a partir deles se obtém, não se deteriore e para que esses conjuntos se integrem harmoniosamente na vida contemporânea. 106 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: Nesse sentido, os projetos de revitalização dos centros históricos procuram romper com a ideia de monumentos congelados e/ou “museus à céu aberto”, centrar-se em tentativas de preservação dopatrimônio histórico-cultural, no sentido de atrair novos moradores e reter os que ali se encontram, diversificar as atividades econômicas e os estabelecimentos de prestação de serviços. No decorrer dos anos de 1980 as ações em centros históricos passam a privilegiar projetos de viabilidade econômica, como forma de disponibilizar alternativas ao cenário comercial, que, por sua vez, conciliaram-se aos projetos no campo do turismo. Atrelado a estas questões econômicas, as cidades passaram gradualmente a ser abordadas na sua dimensão imaterial, simbólica e do imaginário, mais que pela sua espessura material, edificada e a representação real propriamente dita. No que tange os desafios contemporâneos, ocorrem impasses com relação aos projetos para com centros históricos no que se refere aos condicionantes em termos das próprias estruturas da edificação e/ou do terreno, a incompatibilidade entre a edificação e as atividades comerciais, fontes de financiamento; por outro lado existem proprietários desinteressados, ou proprietários que possuem alta expectativa e supervalorização de seus imóveis, assim como questões de heranças e inventários ainda não destrinchados, entre outros. Bohigas (1999, p. 204) explica que os projetos de revitalização de centros históricos devem passar por uma intervenção em nível físico e funcional, através de uma reabilitação conjunta que preserve os valores paisagísticos representativos destas áreas e faça “a adequada reutilização dos edifícios de qualidade que hoje são funcionalmente obsoletos”. Salgueiro (1999, p. 390) adverte que os projetos devem estar para além de práticas que contemplam atividades de conservação e pequenos reparos, as intervenções devem também ser em caráter profundo, ou seja, envolver a conservação, restauro e reconstituição do edifício através de intervenções nas suas estruturas, por meio de obras que visem a sua manutenção. O autor ainda destaca que, quando das intervenções estruturais, deve ocorrer fortes projetos de revitalização na dinamização no que tange as esferas econômicas e sociais, no sentido de conservar as características funcionais e atividades compatíveis com a resistência. Ademais, os projetos devem atentar para atrair os mais diferentes públicos, prevendo a criação de praças, bares, mercados públicos, feiras populares, restaurantes, hotelaria, esplanadas, demais setores de lazer e serviços. Devem representar um espaço alternativo de consumo e lazer, cujo diferencial está nos aspectos históricos, patrimoniais, urbanísticos e comerciais. Para tanto, é necessário fidelizar visitantes e consumidores e fortalecer às âncoras lúdico- recreativas. TÓPICO 2 — CENTROS HISTÓRICOS 107 3 PRINCIPAIS PROJETOS BRASILEIROS EM CENTROS HISTÓ- RICOS Cada geração tem, de sua cidade, a memória de acontecimentos que são pontos de amarração de sua história”; e acrescenta: “As lembranças se apoiam nas pedras da cidade”. É esse espaço urbano de ruas e edificações de aspecto familiar a todos os cidadãos, aparentemente estável, que lhes dá a impressão de que tudo está tranquilo, embora a agitação humana do dia-a-dia continue ininterruptamente. (Ecléa Bosi) Dentre os principais centros históricos brasileiros estão os conjuntos arquitetônicos de cidades como Ouro Preto (MG), Paraty (RJ), Olinda (PE), São Francisco do Sul/SC, São Luís (MA) e os paisagísticos, como Lençóis (MA), Serra do Curral (Belo Horizonte), Grutas do Lago Azul e de Nossa Senhora Aparecida (Bonito, MS) e o Corcovado (Rio de Janeiro) entre outros. FIGURA 9 – CENTRO HISTÓRICO DE PARATY/RJ FONTE: <https://bit.ly/31lA2Nh>. Acesso em: 5 jan. 2020. 108 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: FIGURA 10 – VISTA DA LADEIRA QUE LEVA À IGREJA DE SÃO FRANCISCO DE PAULA/OURO PRETO/MG FONTE: <https://bit.ly/2DdGvln>. Acesso em: 7 jan. 2020. FIGURA 11 – CORCOVADO. RIO DE JANEIRO/RJ FONTE: <https://bit.ly/39XNSsZ>. Acesso em: 7 jan. 2020. FIGURA 12 – GRUTAS DO LAGO AZUL E DE NOSSA SENHORA APARECIDA (BONITO, MS) FONTE: <https://bit.ly/2Pv7zic>. Acesso em: 7 jan. 2020. Estes locais possuem, geralmente, tombamentos que envolveram e comprometeram as esferas políticas e deliberativas tanto à nível municipal, estadual, federal/Iphan e até mundial/Unesco. No Brasil, os primeiros esforços TÓPICO 2 — CENTROS HISTÓRICOS 109 em salvaguardar os centros históricos podem ser reconhecidos quando do início dos primeiros processos de tombamento realizados logo após a fundação Iphan, no final da década de 1930. Caro acadêmico, a seguir procura-se tratar de dois projetos realizados em âmbito federal pelo Iphan, o Programa Monumenta e o Roteiros Nacionais de Imigração, ambos iniciados nas últimas décadas do século XX e entregues nos primeiros anos do século XXI, prossiga na leitura! 3.1 PROGRAMA MONUMENTA O Programa Monumenta surgiu como resposta aos desafios de reabilitar os centros históricos por meio de atividades de preservação, habitação, o turismo cultural e ao desenvolvimento local, conciliando interesses históricos e ambientais, a conservação e a utilização de monumentos e lugares de interesse histórico e artístico. O programa buscou embasamento e fundamentação junto à Carta de Quito, publicada em 1967 e nas recomendações de Nairóbi, de 1976. Diogo (2009) explica que o projeto Monumenta procurou ampliar a agenda nacional que havia sido cumprida pelo projeto anterior chamado de Programa Integrado de Reconstrução de Cidades Históricas (PCH), que foi instituído em 1973 junto à Secretaria de Planejamento da Presidência da República, ao Iphan e à Embratur. Agora com o Monumenta o desafio era o de ir além dos projetos de preservação e inserir o centro histórico à dinâmica urbana da cidade. O programa Monumenta operou com financiamentos oriundos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e foi apoiado tecnicamente pela Unesco. Centrou seus esforços na reabilitação da habitabilidade, acessibilidade e a dinamização econômica, para tanto foi imprescindível a participação de moradores, usuários, proprietários, empreendedores, a sociedade civil de modo geral. Preocupou-se também em criar condições para desenvolver certa autonomia municipal na conservação do patrimônio das cidades, no sentido de reduzir a dependência do governo federal e estadual, em especial em favorecer a descentralização administrativa. A maior parte dos casarios datam do final do século XVIII, XIX e primeira metade do século XX, e foram resultantes do auge das atividades econômicas da agricultura. O projeto Monumenta não realizou projetos apenas pontuais junto às edificações, também realizou intervenções estruturantes e de requalificação de itens como praças, parques, orla fluvial e marítima. Leal (2017) descreve que um levantamento preliminar listou 101 cidades com potencial e necessidade do projeto, porém somente 26 conseguiram ser con- templadas, dentre elas estão: Alcântara-MA, Belém-PA, Cachoeira-BA, Congo- 110 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: nhas-MG, Corumbá-MS, Diamantina-MG, Goiás-GO, Icó-CE, Laranjeiras-SE, Len- çóis-BA, Manaus-AM, Mariana-MG, Natividade-TO, Oeiras-PI, Olinda-PE, Ouro Preto-MG, Pelotas-RS, Penedo-AL, Porto Alegre-RS, Recife-PE, Rio de Janeiro-RJ, Salvador-BA, São Cristóvão-SE, São Francisco do Sul-SC, São Paulo-SP e Serro-MG. FIGURA 13 – CENTRO HISTÓRICO DE SÃO FRANCISCO DO SUL/SC FONTE: <https://bit.ly/33uyuDi>. Acesso em: 6 jan. 2020. As preocupações centrais do Programa Monumenta residiram em perceber o patrimônio cultural como fonte de conhecimento e de rentabilidade financeira, no sentido de atuar na transformação das áreas culturais, incentivando a economia por meio do incremento do turismo cultural e geração de empregos, para tanto foi primordial o apoio entre o Programa, os estados e municípios, no sentido de alcançar não somente a economia, mas em especial a educação e a cultura local. 3.2 ROTEIROS NACIONAIS DE IMIGRAÇÃO EM SANTA CA- TARINA/SC O século XIX foi marcado por grandes transformaçõesno campo das atividades de trabalho e de emprego. A revolução industrial e a industrialização das atividades agrícolas foram responsáveis por gerar números significativos de desempregos, que impulsionaram as ondas de imigração da população europeia para outras regiões do mundo, como, por exemplo, a América. Em contrapartida os governos dos países americanos buscavam atrair a entrada de imigrantes devido à falta de mão de obra nas indústrias, bem como para a ocupação/colonização do território. No caso brasileiro, foram criadas políticas que incentivavam a entrada no país de levas de estrangeiros, tais como parcelamento dos custos da viagem, incentivos às atividades agrícolas com a distribuição de sementes e equipamentos agrícolas. No Brasil, as levas de imigrantes destinaram-se às regiões do sul e sudes- te. Como resultado dessas políticas e contexto, é possível encontrar no estado de 111 Santa Catarina movimentações de imigrantes italianos, poloneses, alemães, aus- tríacos, húngaros, suíços, franceses entre outros. O resultado desta ampla circula- ção de etnias e culturas encontra-se expresso no interior de comunidade em meio à pequenas propriedades rurais, compostas por casas e ranchos com arquiteturas e volumetrias peculiares, acompanhadas de paisagens naturais exuberantes, con- tornadas por montanhas, vales e cursos d´água, pastagens e plantações. Associa- das a esse cenário encontram-se expressões como danças, festas, comidas típicas, dialetos, artesanato compondo uma paisagem cultural singular. FIGURA 14 – PAISAGEM NO INTERIOR DE SANTA CATARINA TOMBADA PELO ROTEIRO NACIO- NAL DE IMIGRAÇÃO/SC FONTE: <https://bit.ly/2XtxVWA>. Acesso em: 7 jan. 2020. A região das cidades contempladas pelos Roteiros Nacionais de Imigração em Santa Catarina possui maior potencial no que tange o patrimônio rural, que é composto por pequenas propriedades rurais policultoras, sustentadas pela mão de obra familiar, que produziam itens do gênero alimentício para abastecer a família, a comunidade e outras cidades do núcleo colonial. Trata-se de um projeto antigo, que remonta aos anos de 1980 quando o Iphan deu início à projetos de inventários e tombamentos de bens relacionados aos processos de imigração no estado. Entre os anos de 2007 e 2014, por meio do projeto Roteiros Nacionais de Imigração mais de 60 bens foram tombados no que tange os setores de arquitetura religiosa, residências, comércios, sedes recreativas e instituições, escolas e cemitério. 112 FIGURA 15 – ROTEIROS NACIONAIS DE IMIGRAÇÃO DE SANTA CATARINA FONTE: <https://bit.ly/2DCtWjn>. Acesso em: 5 jan. 2020. Os trabalhos do Projeto Roteiros Nacionais de Imigração contemplaram tanto conjuntos urbanos como as áreas rurais, compondo um montante de 17 municípios, prevendo o envolvimento dos detentores, evidenciando as especificidades culturais, gerar alternativas de trabalho e renda. Nesta edição do projeto foram tombados 110 imóveis, distribuídos nos municípios de Ascurra, Blumenau, Indaial, Itaiópolis, Jaraguá do Sul, Joinville, Orleans, Pomerode, São Bento do Sul, Timbó, Urussanga, Vargem e Vidal Ramos. Foram realizadas atividades de pesquisas, inventários, obras de restauração e conservação, elaboração de planos de gestão e projetos estratégicos que envolveram governo federal, estadual e municipal. Os objetivos foram de tornar conhecido, reconhecido e valorizado o patrimônio dos imigrantes que vieram para o Brasil a partir do século XIX, em especial, garantir um espaço de reflexão sobre as peculiaridades, misturas e diferenças da composição da nação brasileira. Os tombamentos são apenas uma parte do grande leque de ações de preservação e valorização do patrimônio dos imigrantes em Santa Catarina, já que existe um termo de cooperação técnica envolvendo o Iphan, os ministérios da Cultura, do Turismo, de desenvolvimento Agrário e em nível estadual a Fundação Catarinense de Cultura (FCC), a Agência de Desenvolvimento do Turismo em Santa Catarina (Santur), Empresa Pesquisa Agropecuária Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/SC) e as prefeituras municipais. Para se integrarem no projeto, os municípios se responsabilizaram em se adequar à legislação municipal de preservação do patrimônio e ordenamento territorial, em mover esforços pelo fortalecimento das áreas rurais, pela criação de Centros de Recepção e Venda de Produtos Tradicionais, pela disponibilização de técnicos e pela criação de um fundo municipal de preservação dos bens históricos. Os resultados mais imediatos do projeto foram de que essas cidades passaram a ser procuradas por diversas modalidades de turismo. Tem-se 113 destacado as modalidades de cicloturismo e os mochileiros. Para atender a demanda desses ramos do turismo, foi criado o “Circuito Vale Europeu de Turismo” que é responsável por atrair simpatizantes de diversas regiões do Brasil e em especial apresentar informações e sugerir atividades turísticas nas cidades que integram o Vale Europeu/SC. Conheça mais sobre o Circuito Vale Europeu catarinense. Disponível em: https://bit.ly/30sH6s7. DICAS 4 PRINCIPAIS ABORDAGENS AOS CENTROS HISTÓRICOS Os estudos sobre centros históricos fornecem condições de expandir os espaços e os currículos escolares, o desenvolvimento do espírito investigativo, crítico, a formulação e elucidação de hipóteses, a construção de narrativas. Esses locais permitem amplo campo de investigação e abordagens interdisciplinares para as áreas e os temas da história, da geografia, da sociologia, da antropologia, da arqueologia, da arquitetura, do urbanismo, do meio ambiente entre outros. A seguir, procura-se relacionar algumas sugestões de atividades de ensino- aprendizagem para centros históricos. As atividades podem ser realizadas com estudantes das mais diferentes séries e idades. Observe os itens que propomos: • ATIVIDADE 1: CAMINHADA NO CENTRO HISTÓRICO A preparação: 1. Contextualização: preparar os estudantes em sala de aula antes e/ou depois da visita por meio de contextualizações geográficas e históricas dos centros históricos, mostrar imagens e mapas de onde se concentram as edificações e do entorno, identificando os principais prédios históricos, ruas, praças, monumentos entre outros; estabelecer relações com o maior número de conteúdos presentes nas disciplinas. 2. Mapas mentais: sugerir aos estudantes a criação de mapas para que eles possam descrever a partir da casa/rua onde moram até a escola o maior número de edifícios e detalhamento possível das edificações; enfatizando a importância que é dada a determinados espaços e os que não foram lembrados, procurando identificar e refletir sobre estes motivos. 3. Exercícios de comparação: procure montar um painel ou cartaz com imagens dos mais variados edifícios e diferentes épocas, destacando diferentes modelos 114 de telhados, portas, janelas entre outros, procurando identificar em que época e cultura foram mais usados. A caminhada Oriente aos estudantes que usem roupas confortáveis, calçados adequados, usem protetor solar, carreguem consigo água para ingerir ao longo do percurso. É interessante fazer refeições junto aos estabelecimentos disponíveis no centro histórico e com preocupação em consumir e prestigiar o cardápio de alimentos locais, assim como conhecer as feiras e lojas de produtos artesanais, para que seja observada a dinâmica e o funcionamento econômico que o centro histórico é responsável por movimentar. Oportunidade também para que sejam percebidos os aspectos dos significados, dinâmica das mudanças, a coexistência entre o novo e antigo, o estado de conservação dos edifícios propriamente ditos. Os estudantes podem produzir fotos e vídeos sobre a ruas, edificações e a paisagem que ilustram os estudos e as análises feitas anteriormente sobre o centro histórico. Ao longo do percurso, você, enquanto professor mediador, pode sugerir perguntas como por exemplo:— O centro histórico precisa de revitalização? — As fachadas deveriam ser restauradas? — Existem edificações que devem ser demolidas? — Seria interessante demolir o centro histórico e construir um shopping center e condomínios residenciais? — É necessário plantar ou eliminar árvores? — A presença de automóveis prejudica as caminhas pelo centro histórico? — A presença da fiação elétrica, antenas, toldos, placas, ar condicionados prejudicam a apreciação das edificações? Entre outras. Caro acadêmico, a seguir sugere-se uma ficha que pode ser utilizada para aprofundar e registrar as atividades de visita à centros históricos, ela também pode fornecer informações à continuidade das atividades em sala de aula. Trata- se de uma sugestão, um roteiro, sinta-se à vontade em fazer ajustes, adaptações e ampliações conforme melhor atender os seus objetivos para com a atividade. A ficha pode ser preenchida no final da caminhada ao centro histórico, de forma individual ou em dupla. Providencie o número de cópias suficiente. Peça que os estudantes levem consigo uma prancheta ou material resistente que eles possam utilizar para se apoiar para escrever. No início da caminhada anuncie a atividade, mas procure entregar a ficha somente ao final da visita, quando os estudantes puderam conhecer e contemplar todo o conjunto que compõem o centro histórico. Nesse momento, sugira que os estudantes retornem aos locais já visitados e escolham as edificações que mais os impressionaram para realizar o preenchimento dela. 115 QUADRO 2 – FICHA DE IDENTIFICAÇÃO DE EDIFICAÇÕES NO CENTRO HISTÓRICO FONTE: A Autora 116 • ATIVIDADE 2: JOGO DE SIMULAÇÃO: TEMA MODERNIZAÇÃO DAS VIAS Uma vez que o centro histórico já foi estudado e visitado, é possível avançar para atividades de maior complexidade, como por exemplo o jogo de simulação com base em problemas a serem solucionados. Sugere-se que seja apresentada uma questão como por exemplo a necessidade de demolições de antigas edificações no centro histórico para realização de melhorias nas ruas para facilitar as atividades comerciais e a circulação de automóveis e pessoas. Defina papéis específicos e distribua/sorteie entre os estudantes como, por exemplo, empresários do ramo: urbanistas, arquitetos, historiadores, profissionais da engenharia dos transportes, moradores das casas, comerciantes entre outros. Os estudantes devem apresentar argumentos na forma de texto informando seu posicionamento em relação a situação, o texto deverá ser lido/apresentado em sala de aula ao grande grupo. Uma vez que foram apresentados todos os argumentos, é possível fazer uma síntese geral dos argumentos e consultar junto ao grande grupo dos estudantes como estes se posicionariam diante da situação e qual seria a melhor decisão a ser tomada. É muito válido conduzir a atividade na perspectiva da complexidade dos projetos urbanísticos que impactam em patrimônios históricos, da necessidade do envolvimento de representantes dos mais diversos setores da sociedade, em especial a comunidade, os moradores que são diretamente afetados, em alternativas que não sacrifiquem as edificações históricas, entre outras. • ATIVIDADE 3: EXERCÍCIO COMPARATIVO ENTRE O PRESENTE E O PASSADO POR MEIO DE FOTOS Outra atividade que pode ser realizada com os estudantes em sala de aula é o uso comparativo com fotografias antigas e recentes, procurando evidenciar como era o local antigamente e as principais transformações que ocorreram no presente, listar as principais mudanças e a permanências, bem como os impactos das mesmas na natureza e no modo de vida das pessoas. 5 PRÁTICAS ARTESANAIS Os produtos de natureza artesanal ganharam forte impulso desde a Constituição de 1988, em especial nos artigos 215 e 216 que incluía aos saberes e ofícios tradicionais como sendo exemplares de patrimônio histórico e cultural, bem como processos de inventários, tombamentos e reconhecimentos públicos. No ano de 1991, foi criado o PAB — Programa do Artesanato Brasileiro — vinculado ao Ministério da Ação Social, e nos anos seguintes foi associado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), 117 compondo a estrutura do Departamento de Micro, Pequenas e Médias Empresas, da Secretaria de Comércio e Serviços, que teve como meta consolidar o artesanato brasileiro como oportunidade e alternativa de trabalho e renda. Nos últimos anos, as atividades artesanais têm sido amplamente revisitadas nos mais diversos setores de produtos. Dentre os principais produtos artesanais que estão sendo solicitados pelo público pode-se mencionar a fabricação de roupas, alimentos e bebidas, utensílios domésticos e decorações, aromatizantes de ambientes, cosméticos, bijuterias, brinquedos, instrumentos musicais, artigos religiosos e místicos, móveis, calçados, armamentos e até manejo de solo e criação de animais e aves, entre outros. As matérias primas que podem ser utilizadas para os trabalhos artesanais podem ser diversas como vimes, lã, cerâmica, areia, borracha, cera, parafina, gesso, ossos, conchas, escamas, couro, peles, cascas, sementes, fibras vegetais, tecidos, madeira, metais, pedras, papel, vidro, argila, fibras sintéticas, materiais recicláveis entre outros. As escalas de produção artesanal podem ser desde arte popular, artesanato conceitual, artesanato doméstico, artesanato indígena, artesanato tradicional, artesanato cultural, produtos típicos, artesanato utilitário, artesanato industrial. Outro aspecto, também, que não pode ser esquecido é o fator de “qualidade” e “singularidade” que é atribuído aos produtos artesanais, tanto no que diz respeito às receitas, aos modos de fazer e de consumir, todo produto artesanal tende a ser feito com forte controle de qualidade das matérias primas e, em especial, tendem à ser peças únicas. FIGURA 16 – FEIRA DE ARTESANATO PARAENSE FONTE: <https://imagem.band.com.br/f_370258.jpg>. Acesso em: 7 jan. 2020. Os mestres artesãos são pessoas que dedicaram sua vida e obra à produção e manutenção das práticas e dos saberes da arte e do artesanato tradicional. Atuam como mediadores entre o passado e o presente de memórias e tradições e técnicas antigas, possuem conhecimento notório reconhecido pela comunidade, pelos pares e especialistas, possuem longa experiência e permanência no ramo em que atuam. 118 Horodyski (2006) explica que a valorização das atividades e técnicas artesanais é de fundamental importância para que os produtores não abandonem a atividade. A valorização dos produtos artesanais está amplamente relacionada com as atividades de desenvolvimento regional e local, assim como empreendedorismo e economia/renda familiar. As atividades artesanais envolvem e acionam os temas de sociedade, cultura, turismo, patrimônio, identidade e memória. Podem ser contempladas em atividades de ensino e aprendizagem em meios aos conteúdos que abordam as atividades pré-industriais, revolução industrial, alternativas de trabalho e renda e demais temas do mundo do trabalho como um todo. É possível realizar visitas às comunidades, feiras, oficinas de artesãos e/ ou à locais de produção artesanal. Convidar um artesão para contar sobre sua experiência de trabalho. Outra possibilidade reside também em verificar se os pais dos estudantes produzem e/ou trabalham com artesanato, bem como realizar oficinas e organizar uma exposição com itens artesanais que foram elaborados pelos estudantes. Conheça o site do PAB, o Portal do Artesanato, lá você vai encontrar a história de criação, normas e legislações, a relação dos principais mestres artesãos e suas produções entre outros. Disponível em: http://www.artesanatobrasileiro.gov.br/. DICAS 119 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Os centros históricos reúnem as aglomerações urbanas originais, núcleos antigos e monumentais das cidades. Constituem o “coração da cidade” a partir do qual irradiaram outras áreas urbanas através do tempo.• Os projetos mais recentes centram-se em tentativas de preservação do patrimônio histórico-cultural, no sentido de atrair novos moradores e reter os que ali se encontram, diversificar as atividades econômicas e os estabelecimentos de prestação de serviços. • O Programa Monumenta/Iphan teve como objetivo promover a reabilitação da habitabilidade, acessibilidade e dinamização econômica dos centros históricos urbanos; procurou ouvir, envolver e conciliar os interesses de moradores, usuários, proprietários, empreendedores, a sociedade civil de modo geral. • O projeto Roteiros Nacionais de Imigração em Santa Catarina/Iphan contemplou o patrimônio rural, que é composto por pequenas propriedades rurais policultoras, sustentadas pela mão de obra familiar, que produziam itens do gênero alimentício para abastecer a família, a comunidade e outras cidades do núcleo colonial. • As atividades artesanais, o artesanato, envolvem e acionam os temas como patrimônio, identidade, memória, cultura e turismo. A valorização dos produtos artesanais está diretamente relacionada com as atividades de desenvolvimento regional e local, assim como economia e renda familiar. • Os mestres artesãos são pessoas que se dedicam à produção e manutenção das práticas e dos saberes da arte e do artesanato tradicional. Atuam como mediadores entre o passado e o presente de memórias, tradições e técnicas antigas, possuem conhecimento reconhecido pela comunidade, pelos pares e especialistas. 120 1 Ruas das palmeiras, praças, portos marítimos, mercados públicos, centros comerciais e de feiras, marcos/pontos zero, santuários, grutas são os princi- pais exemplares de Centros e Sítios Históricos e Paisagísticos. Esses locais permitem que se compreenda a dimensão do meio em que transcorre a história e a ação humana, em especial perceber, avaliar a interferência e a influência do homem no território e na paisagem local. Como é possível compreender e tornar estes locais e espaços ainda mais significativos en- quanto exemplares de patrimônio histórico e cultural? Diante disso, analise as sentenças a seguir: I- Podem ser feitas pesquisas de como e quando foi construído, quem construiu, qual a forma que apresenta, que fatos transcorreram no local e como foi usado. II- Tombamentos por meio de legislações municipais, estaduais e federais são os únicos responsáveis por garantir a continuidade desses locais. III- Podem ser feitas pesquisas em cartórios e registros de imóveis, mapas, fotografias e plantas, entrevistas com moradores antigos e recentes. IV- Podem ser feitos estudos comparativos de como o local funcionava em outras épocas destacando as semelhanças e as diferenças nos modos de viver. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As alternativas I, III e IV estão corretas. b) ( ) As alternativas I, II, III estão corretas. c) ( ) Somente as alternativas III e IV estão corretas. d) ( ) Somente as alternativas II e III estão corretas. 2 Os Roteiros Nacionais de Imigração consistem em um projeto do Iphan e do governo federal de interligar cidades que possuem evidencias e expressões de atividades econômicas, religiosas, arquitetônicas e culturais que apre- sentam influência dos modelos das nações de origem e que se diferenciam na paisagem rural e urbana das demais comunidades e cidades do país. Como exemplo do roteiro de imigração europeia do século XIX podem ser relacionadas as cidades de: a) ( ) Blumenau, Pomerode, Jaraguá do Sul e Timbó, em Santa Catarina. b) ( ) Rio de Janeiro, Rezende e Petrópolis no Rio de Janeiro. c) ( ) Ouro Preto, São João del Rei e Diamantina em Minas Gerais. d) ( ) Salvador, Paulo Afonso e Itabuna na Bahia. 3 Londres, Nova York e Berlim são exemplos de cidades que implementaram projetos modernistas de arquitetura e urbanismo no final do século XIX e primeiros anos do século XX. G. H. Haussmann e Le Corbusier foram AUTOATIVIDADE 121 arquitetos e urbanistas responsáveis por projetos que incorreram em práticas de demolições das edificações existentes nos centros históricos. Em termos de novas estruturas e equipamentos urbanos, o que foi criado e desenvolvido no espaço urbano a partir dos projetos do início do século XX? Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Shoppings centers, estádios de futebol e parques aquáticos. b) ( ) Campos, bosques, pântanos e florestas. c) ( ) Parques públicos, largos, boulevards, museus, galerias de arte. d) ( ) Castelos, muralhas, igrejas e catedrais. 122 123 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Uma cidade inventa seu passado, construindo um mito das origens, descobre pais ancestrais, elege seus heróis fundadores, identifica um patrimônio, cataloga monumentos, transforma espaços em lugares com significados. Mais do que isso, tal processo imaginário de invenção da cidade é capaz de construir utopias, regressivas ou progressivas, através das quais a urbs sonha a si mesma. (Sandra Pesavento) Caro acadêmico, neste tópico é abordado os espaços de museus, as coleções, os objetos antigos e os arquivos como possibilidade de atividades de ensino e aprendizagem como contributos ao ensino da história e das demais humanidades, em especial aos projetos de educação patrimonial. Estas expressões do patrimônio histórico e cultural constituem espaços geralmente relacionados aos bens do patrimônio público, já estão consagrados pela historiografia oficial, encontram-se privilegiados na paisagem e no mapa da cidade, entretanto sofrem de descaso por parte da administração pública bem como pela sociedade de maneira geral. Não é surpresa ou espanto quando os noticiários anunciam um incêndio, um roubo, um ato de vandalismo ou outro ataque qualquer a locais como museus, exposições, arquivos, bibliotecas entre outros. Ocorre que um cenário amplo de descaso paira sobre esses locais e expressões. Não lhes são destinadas verbas suficientes para a manutenção em termos de infraestrutura, contratação de funcionários e profissionais especializados, investimentos em divulgação de exposições, aquisição de material de expediente, melhorias nas estruturas de exposição e acervo assim como à realização de projetos educativos. Em contrapartida, o público e a plateia desses locais ainda se restringem a grupos de interessados que se encontram de alguma forma ali, prestigiados/ homenageados e/ou por pesquisadores e especialistas. Os projetos de interface e diálogo com a comunidade em geral, com a comunidade escolar e com os detentores ainda são insipientes e de curta duração. Caro acadêmico, os desafios são muitos e o fazer profissional da história e a possibilidade de atuação em espaços e contextos educacionais lhe proporcionarão TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 124 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: oportunidades privilegiadas para contribuir na superação dos impasses e desafios que se apresentam, prossiga nos estudos que maiores elementos e informações serão abordados no que tange estas questões como um todo! Boa leitura! 2 OS MUSEUS “O verdadeiro museu não ensina a repetir o passado, porém a tirar dele tudo quanto ele nos dá dinamicamente para avançar em cultura dentro de nós, e em transformação dentro do progresso social”. (Mário de Andrade) Coelho (1997) explica que a origem da palavra museu é do grego mouseion que se refere ao templo das musas, mas seu significado e definição foi amplamente alterado ao longo do tempo. Na Grécia clássica, consistia em uma instituição filosófica, na qual era possível dedicar-se às artes e às ciências, lugar especial à prática da contemplação. No Egito, no reinado de Ptolomeu I, o significado de museus estava associado à um local de discussão e ensino, semelhante ao sentido atual que é atribuído às universidades. Na antiga Roma, correspondia à um local de discussões filosóficas. Os romanos se dedicavam à prática de colecionar obras de arte e curiosidades e apreciavam os momentos em que ocorriam as exibições nos templos. Durante a Idade Média, a Igrejafoi a grande colecionadora de obras de arte e objetos variados – em especial, de relíquias eclesiásticas guardadas nos espaços institucionais. No século XV esta realidade passou a ser alterada quando os príncipes das cidades italianas começaram a compor suas coleções particulares e, a partir de então, a noção de museu passou a ser utilizada para designar tanto uma coleção como um prédio em que elas eram guardadas. Já no século XVII as coleções de curiosidades difundiram-se por toda a Europa e passaram a receber o nome de museu. A partir de então, livros, quadros, esculturas, instrumentos científicos, itens do mundo natural, objetos vindos de regiões distantes que estavam sendo explorados etc. passam a compor as coleções. Com este incremento em termos de acervo os museus passam também a ser chamados de gabinetes ou câmaras de curiosidades. O acesso aos museus, de certa forma, sempre permaneceu restrito e privados às famílias que os guardavam, aos grupos que os confeccionavam, aos grupos de religiosos, e aos grupos de estudiosos e cientistas, e foi somente com a Revolução Francesa que as instituições de museus passam à ser utilizadas no campo educacional e respectivamente adquirir caráter público e social. TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 125 Coelho (1997) apresenta que, a partir de então, na França, foi aberto o Museu do Louvre no ano de 1793; em Viena, o Museu/palácio Belvedere, no ano de 1783; em Amsterdam, o Museu Real dos Países Baixos, no ano de 1808; em Berlim, o Altes Museum, no ano de 1810; na Espanha, o Museu do Prado, no ano de 1819; em Leningrado, o Museu Hermitage, no ano de 1852. No Brasil, no Rio de Janeiro, o Museu Nacional foi criado no ano de 1815; no Pará, o Museu Emílio Goeldi, no ano de 1866; e em São Paulo, o Museu Paulista, no ano de 1892. Ao longo do século XX, mesmo com as preocupações voltadas ao ensino, educação e instrução pública, os museus pouco romperam com a postura de espaços depositários e conservadores de itens e objetos exóticos e antigos. A partir dos anos de 1970, passaram a ocorrem maiores preocupações para com campanhas de atração de público e projetos educacionais; passaram a ser criados museus sem acervos ou coleções, museus ao ar livre e ecomuseus; exposições itinerantes e transitórias; por outro lado os museus passaram a fazer parcerias com outras instituições culturais e formar complexos culturais proporcionando espaços e atividades amplas de convivência e entretenimento. No ano de 1974, a reunião do Conselho Internacional de Museus/ICOM definiu que museu consistia em um estabelecimento permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberto ao público, uma instituição que coleciona, conserva, pesquisa, comunica e exibe, para o estudo, a educação e o entretenimento, evidências materiais do homem e seu meio ambiente”. Já no ano de 2007, o Conselho Internacional dos Museus/ICOM publicou nova definição para museu, nos termos de que um museu passou a constituir uma constituição permanente, aberta ao público, que não visa lucro, que se encontra à disposição da sociedade e do seu desenvolvimento, que conserva, adquire, recebe, expõe, comunica e transmite o patrimônio imaterial para fins de pesquisa, estudo, educação e deleite. É salutar destacar que as contribuições e avanços que podem ser percebidos entre as definições publicadas no ano de 1974 e a de 2007, está no fato da inclusão da dimensão imaterial e intangível dos bens considerados como patrimônio e expressões da cultura humana. No Brasil, o congresso nacional e a presidência da república sancionaram a Lei n° 11.904, de 14 de janeiro de 2009, que versa sobre o Estatuto de Museus. No artigo 1° consta que museus são: [...] as instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpretam e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artístico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento (BRASIL, 2009, s.p.). 126 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: Observa-se que o ponto de alteração em relação às definições publicadas anteriormente pelo ICOM de 1974 e 2007, é o aspecto do turismo, indicando que as instituições dos museus contribuam ao desenvolvimento econômico das cidades pela via do turismo cultural, que os museus forneçam alternativas em termos de referências e atividades à agenda turística das cidades. Com o desenvolvimento da tecnologia da informática e do universo digital passou-se a cogitar a ideia de museus virtuais, nos quais são digitalizadas obras, objetos e acervos, e disponibilizados os arquivos destes museus ao público interessado, bem como existem museus que possibilitam visitas virtuais à exposições e acervos o que, por sua vez, favorece ainda mais a democratização para além das fronteiras territoriais. 2.1 AS CONTRIBUIÇÕES DOS MUSEUS AO UNIVERSO ES- COLAR Coelho (1997, p. 269) explica que museu congrega uma terminologia que pode abarcar desde “jardins botânicos, zoológicos, aquários, planetários, sociedades históricas, casas e propriedades históricas”. Abud (2010) defende a ampla formação que os museus proporcionam, em especial, a formação da consciência cidadã e histórica, leia nas palavras da autora: Assim, visitar museus é um exercício de cidadania, pois possibilita o contato com temas relativos à natureza, sociedade, política, artes, religião. Leva a conhecer espaços e tempos, próximos e distantes, estranhos e familiares, e a refletir sobre eles; aguça a percepção por meio da linguagem dos objetos e da iconografia, desafia o pensamento histórico com base na visualização das mudanças históricas, permitindo repensar o cotidiano (ABUD, 2010, p. 136). Caetano (2012) debate que os museus por muito tempo significaram um local em que ficavam guardadas e expostas velharias, na espera de visitantes curiosos por objetos obsoletos e sem utilidade, porém, desde as últimas décadas “os museus são entendidos como um ambiente dinamizador de memórias, de conhecimento e de aprendizagem” (CAETANO, 2012, p. 1). Com o desenvolvimento deste debate e com a participação da sociedade, os museus passaram a ser instituições fundamentais para o aprendizado e educação fora das instituições de ensino tradicionais como, escolas e universidades. Os museus passaram por processos de renovação em termos de tecnologias, narrativas e linguagens, bem como ampla democratização, ou seja, maior aproximação com a comunidade. TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 127 Pereira (2008, p. 1) explica que ainda persistem inúmeros desafios no que tange o universo dos museus: Os museus são instituições sociais e culturais. Ao preservar indícios das memórias propõem chaves de interpretação de realidade sócio histórica. São, dessa maneira, instituições testemunhais, cenários convocados: convocantes [...]. São dessa maneira, expressões de uma sociedade que nos convoca a testemunhar memórias, evidentemente, silenciando ou ignorando tantas outras... São em grande medida, o registro da eleição de histórias que pessoas, grupos e/ou nações elegem no tempo para perpetuar diante da inevitabilidade da evasão inerente à própria vivência histórica. Meneses (1994) defende que a História possui lugar privilegiado em um Museu Histórico. O museu é responsável por coletar, reunir, estudar e comunicar documentos históricos. Descreve que os museus e os espetáculos dos grupos sociais dominantes são responsáveis por causar fascínio e deslumbramento em meio aos estudantes que, por sua vez, manifestam expressões e falas emocionadas. O autor problematiza ainda que: É possível ensinar história sem ensinar a fazer História? É possível aprender História sem aprender a fazer História? [...] A diretriz educacional, na procura de atrair o público, parece ser a infantilizaçãoda linguagem. Assim para redimir-se do elitismo, o museu pode, muitas vezes, iludir-se por um populismo sem responsabilidade política, esquecendo-se de que populismo e elitismo têm a mesma matriz autoritária – imprópria, como todos sabemos, para a verdadeira educação. [...] A primeira tarefa educativa do museu é ensinar como ele deve ser usado. O museu não é uma instituição natural, mas criada, histórica, circunstancial. [...] Se o museu quiser educar, não pode deixar de trazer à tona, sempre que possível, a parte não visível do iceberg (MENESES, 1994, p. 3-4). Mas Chagas (2005, p. 34) adverte que: Os museus celebrativos da memória do poder – ainda que tenham tido origem, em termos de modelo, no século XVIII e XIX – continuaram sobrevivendo e proliferando durante todo o século XX e alcançaram o século XXI. É óbvio que não se está falando aqui de museus esquecidos e perdidos na poeira do tempo; ao contrário, a referência tem por base modelos museológicos que, superando as previsões de alguns especialistas, sobrevivem [...] e continuam a ditar regras. Pereira e Siman (2009, p, 285) descrevem que além da relevância histórica, do distinto acervo e o material em exposição, existem outros aspectos que atuam voluntariamente e involuntariamente em emocionar e impactar os visitantes: 128 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: [...] os museus possuem mapas sonoros, compostos pelos ruídos e silêncios, pelo burburinho, riso, espanto e atritos. Nesse espaço, acontecem os chamados mapas relacionais: encontros, partilhas, trocas de experiência, vivências e sensibilidades. Nele são traçados linhas de fuga: ambientes vazios, paredes brancas, espaços de falta; lugares de vazão do olhar – por onde podemos ver o que não se dá a ver. E há ainda os mapas territoriais – trilhas, ensejos em chão a ser descoberto, que não se confundem com os mapas mentais e sensoriais, embora se entrecruzem. Bittencourt (2004) adverte que é necessário que se ultrapasse a mera ex- pectativa e o senso de curiosidade, ou o mero valor estético dos itens e objetos expostos nos museus, ou o grau de contraste em relação aos itens e objetos atuais, e que se avance para uma postura e olhar que remete à indagação, à problema- tização e à busca por maiores informações sobre a história da trajetória humana. 2.2 PREPARANDO UMA VISITA AO MUSEU Caro acadêmico considerando que os museus são espaços de inúmeras possibilidades em termos de atividades de ensino e aprendizagem, pesquisa, exercício do pensamento crítico, consciência cidadã não deixe de proporcionar experiências de visitação aos estudantes, bem como estimulá-los a visitar museus, exposições, feiras e galerias. Ao preparar uma visita à um museu ou exposição, procure antecipadamente contatar a equipe educacional do museu sobre as previsões de agendamento, sobre a disponibilidade de acompanhamento por monitores, bem como a possibilidade de incluir a turma em oficinas, conversas com expositores, workshops e demais atividades. Procure visitar a exposição antes de ir com os estudantes; converse com a equipe do museu que atenderá os estudantes e destaque os pontos e temas que são mais relevantes e que vão de encontro aos conteúdos que estão sendo estudados; observe a política do museu em relação à realização de fotos e vídeos e oriente os estudantes quanto a isto. A seguir, procura-se apresentar um modelo de ficha que pode ser utilizado como registro e avaliação de atividades realizadas em museus, sinta-se à vontade em fazer adaptações e ajustes. Procure entregar a ficha ao final da visitação ou logo no primeiro encontro em aula após à ida ao museu. TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 129 QUADRO 3 - FICHA DE REGISTRO DE ATIVIDADES EM MUSEU REGISTRO DE ATIVIDADES EM MUSEU ESTUDANTE: TURMA: Nome do Museu: Data: Quais exposições foram visitadas? Qual e/ou o que você mais gostou? Comente: Como o Museu e/ou as exposições contribuíram no entendimento da história ou da sociedade? Comente: Que relações é possível fazer com os conteúdos estudados? Algo na visita e/ou nas exposições lhe deixou com dúvidas e/ou perguntas? Comente: As instalações do museu lhe agradaram? Por quê? Você recomendaria o museu à outras pesso- as? Comente: Fonte: A autora Os museus assumem as mais diversas e envolventes funções possíveis do universo da cultura. A vontade de memória, história e identidade é latente nas pessoas e as leva a procurar pelas inscrições, registros e expressões tanto antigas como novas. Os museus representam espaços de sociabilidade que favorecem o espírito investigativo, a criatividade, a troca de conhecimentos e de afetos. Desfrute, proporcione! 130 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 3 AS COLEÇÕES A relação do homem com seus objetos sugere inúmeras questões e temas às mais diversas áreas do conhecimento. O hábito de colecionar remonta aos tempos mais longínquos da história do homem em sociedade, bem como marcam a história das ciências naturais e humanas, em especial, a arqueologia e a etnologia. Por outro lado, as coleções se confundem com a história dos museus, pois os museus atuaram e atuam muito para guardar coleções. Na antiguidade clássica, entre os gregos e os romanos, o colecionismo compreendia uma prática competitiva e elitista, responsável por conferir status e distinção econômica e cultural aos colecionadores. As coleções desse período eram organizadas em templos e ocorriam visitações a estes locais. Segundo Roque (2011), na Idade Média, o colecionismo ficou mais restrito aos tesouros eclesiásticos, em meio aos quais se destacavam objetos devocionais e litúrgicos, notabilizando a Igreja à qual perten ciam. A visitação era restrita e não era permitido tocar nos itens e bens, as coleções transformaram-se num importante local de culto e peregrinação. Na Europa renascentista, as mentalidades da época reconheciam o Homem e a Natureza como fontes de conhecimento, o que, por sua vez, foi responsável por impulsionar significativamente as práticas de colecionar. Em decorrência desse processo, os séculos XV e XVI foram palco do desenvolvimento das co leções enciclopédicas, alimentadas pelo culto da curiosidade e caracterizadas pela enorme diversidade de objetos. As famílias procuravam se distinguir no campo político, econômico e simbólico e para tanto se utilizavam das coleções. Os principais itens colecionáveis nesse período foram obras de arte de artistas da época e objetos oriundos da exploração nas terras e povos das regiões do Atlântico. Os primeiros museus se constituíram desde os séculos XV e XVI a partir do acúmulo de objetos, oriundos dos novos continentes explorados pela era das grandes navegações realizadas pelos países europeus. A partir de então, cada vez mais ocorreu o destaque das atividades de colecionismo, bem como a especialização e a racionalização nos sistemas de organização das coleções. No final do século XVIII, a Revolução Francesa, foi fundamental para a mudança de concepção em relação às coleções e aos museus, foi o momento em que estes serviram aos interesses do Estado-nação, do nacionalismo, ao saber e ao esclarecimento público. Já no século XIX a dinâmica do industrialismo e do imperialismo favoreceram museus e coleções que exaltavam as invenções tecnológicas e as coleções de ciências naturais. Ao longo do século XX, com a produção e o consumo de objetos em massa, novamente ocorreu a proliferação do colecionismo, ao ponto de que passaram a ser criadas associações de colecionadores, antiquários, brechós e feiras especializadas para troca e venda dos bens colecionáveis. TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 131 As coleções foram responsáveis pela criação de milhares de museus, gabinetes e galerias de artes, história, ciências e curiosidades. As coleções são constituídas de objetos que foram extraídos de uma determinada realidade e contexto, uma vez que as coleções são constituídas pode-se interpretarque as mesmas funcionam como sementes responsáveis por dar corpo e alma aos museus. As coleções se referem ao conjunto de objetos materiais e imateriais que um estabelecimento ou um indivíduo reuniu, agrupou, selecionou, classificou coerentemente e significativamente, bem como conservou em condições para serem apresentadas e comunicadas a um público. As coleções podem ser guardadas de modo público ou privado pelos respectivos colecionadores ou por instituições como museus. Este ato relaciona-se com a vontade de reconhecer, identificar, classificar, organizar, guardar, expor, apresentar coisas, bem como a comparação, a interação e socialização com outros colecionadores. Blom (2003) explica que muitas pessoas costumam, em algum momento da vida, iniciar coleções e este fato encontra-se numa relação muito íntima com o responsável pela coleção, que pode se relacionar e cumprir funções terapêuticas e restauradoras para situações de perdas, carências, privações que ocorreram em algum determinado momento da vida do indivíduo. Como podem revelar aspectos da personalidade, por outro lado, também podem criar referência de identidade, ser usada para obter reconhecimento e distinção, prolongar a imagem e a relevância do colecionador para um determinado grupo e público/plateia. Favorecer o diálogo, a construção das identidades, da autoestima de quem as possui, ampliar do repertório no sentido de conhecimento específico de um determinado item. As coleções são responsáveis por demandar todo um processo de elaboração, organização, sistematização e manutenção, por favorecer o aprofundamento, enriquecimento de conhecimentos e saberes; proporcionam experiências de natureza científica, histórica, estética e educativa. Os museus contemporâneos contam com inúmeros recursos que podem ampliar ainda mais o potencial e o alcance das coleções, tais como materiais audiovisuais, jogos interativos, fotografias, documentos, entrevistas, ilustrações entre outros. Os itens mais populares que são colecionados pelos interessados neste ofício vão desde moedas, cédulas, medalhas, papel de carta, chaveiros, cartas, cartões postais, cartões telefônicos, lápis, canetas, botões, isqueiros, caixas de fósforo, gibis, discos, fitas, brinquedos, bonecas, livros, bebidas, latas e garrafas, orquídeas, souvenirs, miniaturas, bem como itens mais inusitados e/ou que requerem maiores investimentos como sapatos, carros, obras de arte, exemplares autografados, primeiras edições, edições estrangeiras, edições de luxo. 132 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: FONTE: <https://bit.ly/3aaklfX>. Acesso em: 5 jan. 2020. A raridade e a excepcionalidade dos itens costumam atribuir ao objeto co- lecionado ainda mais prestígio, bem como por agregar ainda mais valor e notorie- dade à coleção. Por outro lado, existe também uma demanda e comprometimento do orçamento pessoal e familiar do colecionador, bem como de espaço e condi- ções ideais à manutenção dela. O ato de colecionar e as coleções são responsáveis pela realização das tradicionais feiras, brechós e antiquários, bem como a criação de organizações, associações, sociedades, grupos nas mídias virtuais. • COLECIONISMO.COM.BR: grupo criado em 2012, pelo colecionista Marcelo Motoyama e conta com mais de dois mil integrantes, tem como objetivo reunir informações em textos e imagens sobre qualquer tipo de coleção. Disponível em: https://bit.ly/2ERdHPT. • CASA DA MOEDA/BR: procure conhecer um pouco do evento “Colecionismo em mo- vimento. 2019. Numismática e Filatelia”, evento gratuito, realizado pela Casa da Moeda e que está na segunda edição, e teve como objetivos fortalecer a prática de colecionismo para selos, cédulas, moedas e medalhas. Disponível em: https://bit.ly/2PoxOXK. DICAS É possível verificar, entre os estudantes, quais deles possuem coleções ou já iniciaram coleções, sugerir que tragam as mesmas à sala de aula para uma pequena exposição e apresentação. Abordar o tema de coleções em sala de aula pode ser uma estratégia para despertar a curiosidade e a investigação, bem como uma oportunidade para FIGURA 17 – COLEÇÃO DE MINIATURAS DE CARROS TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 133 superar contextos em que os ocorram problemas de diálogo, de autoestima, de empatia entre os estudantes. É possível verificar, entre os estudantes, quais deles possuem coleções ou já iniciaram coleções, sugerir que tragam as mesmas à sala de aula para um momento de apresentação e uma pequena exposição. A mediação da atividade pode ocorrer da forma de que cada um dos colecionadores exponha, demonstre os itens de coleção; apresente aos colegas e se coloque à disposição para as dúvidas e curiosidades que possam ocorrer. As perguntas que podem motivar a atividade de apresentação são: quando iniciou a coleção; quantos itens possuí; como está organizada e/ou classificada; quais as peças mais fundamentais; quais as variações; quais as raridades; está completa (sim ou não); quantos itens ainda faltam; é possível concluí-la (sim ou não); valor estimado para o mercado; valor estimado para colecionadores; fatos curiosos entre outros. 4 OBJETOS ANTIGOS “A alma encontra no objeto o ninho de uma imensidão”. (Gaston Bachelard) Horta, Grumberg e Monteiro (1999) defende que os objetos que perten- cem ao uso cotidiano no interior dos espaços e habitações podem proporcionar uma vasta gama de informações sobre o contexto social e histórico no qual fo- ram elaborados e utilizados, os usos que lhe foram atribuídos, as funções que desempenharam e o valor e significado que possuíam e/ou ainda possuem. Dentre os principais itens que podem ser considerados objetos antigos estão: cadeira, cama, guarda-roupa, chapeleira, mesa, cachimbos, óculos, lustres, abajures e luminárias, criado-mudo, telefones, rádios, relógios, xícaras, copos, pratas, calçados, bules, talheres, panelas, acessórios, roupas, malas, quintal, solar, varada, sobrado, quarto, cozinha, sala, biblioteca, entre outros... FIGURA 18 – MERCADO DE ANTIGUIDADES FONTE: <https://bit.ly/2EMc31U>. Acesso em: 19 fev. 2020. 134 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: No processo de observação, investigação, estudo, discussão de um objeto cul- tural é importante que sejam feitas perguntas no que diz respeito aos aspectos físicos: como a cor, cheiro, barulho, material, textura, dimensões, decorações, como se encon- tra; sobre a construção e uso, quem, onde e como foi feito, para que finalidade, que uso foi feito; funções básicas, usos atribuídos, contextos a que pertenceram, adaptações que sofreram; sentidos e significados que possuem em relação a quem os possuía e a quem os guarda; estimar o valor que possui para quem fez, para quem usou, para quem o guarda, para o banco; valor em termos de raridade, excepcionalidade, de compra e venda; valor histórico, valor afetivo e simbólico; fazer comparações: identificar as mu- danças, as permanências, os revisitamentos, as atualizações, as superações; aspectos que se fazem necessário pesquisar, empresas, indústrias, profissões que já não existem mais entre outros, enfim, as possibilidades são inúmeras. 4.1 DESCOBRINDO UM OBJETO ANTIGO Solicite com antecedência que os estudantes escolham e tragam para a sala de aula um objeto antigo que ele possua ou que algum familiar possa emprestar. Oriente para que seja tomado todo o cuidado ao embalar e transportar o objeto. Na sala de aula, procure dispor os objetos em uma mesa e de uma forma que fiquem visíveis à todos, atente para que os estudantes possam facilmente interagir entre si e também com os objetos. Sugira que cada estudante conte brevemente sobre as informações que possui sobre o objeto que trouxe, informações como o nome do objeto, a quem pertenceu, para que foi usado, se ainda é usado, quem o guarda, como é guardado, por que foi guardado, fatos e situações curiosas, quem pretender herdar entre outros; posteriormente cada estudante pode realizar o preenchimento da fichaque é sugerida a seguir. Caro acadêmico, a seguir procura-se apresentar uma ficha de como pode ser feita a abordagem com intuito investigativo para os objetos antigos, observe: TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 135 QUADRO 4 – FICHA DE IDENTIFICAÇÃO DE OBJETO ANTIGO ASPECTOS A OBSERVAR PERGUNTAS EVIDÊNCIAS ASPECTOS À PESQUISAR ASPECTOS FÍ- SICOS O que parece ser o objeto? Que cor possui? Que cheiro tem? Que barulho produz? Que textura apresenta? Quais dimensões possui? CONSTRUÇÃO Como foi feito? Onde foi feito? Quando? É artesanal ou manufaturado? Está completo? Foi alterado, adaptado ou consertado? Onde foi feito? É peça única e ou possui par- tes separadas? Como foi montado (parafu- sos, pregos, encaixes? De que material foi feito? FUNÇÃO Para que foi fei- to? Quem fez? Para que finalidade? Como foi usado? FORMA Tem uma boa for- ma? É bem dese- nhado? A forma indica a função que possui? É adequado? É decorado ou ornamentado? Como é a decoração? A aparência lhe agrada? VALOR Quanto vale? Para quem o fabricou: Para quem o usou: Para quem o guarda: Para quem o vende: Para você: Para um banco: Para um museu: FONTE: Horta, Grunberg e Monteiro (1999, p. 12) Esta ficha, bem como as demais apresentadas anteriormente, representa um caminho, uma sugestão, sinta-se à vontade para fazer adaptações e amplia- ções, conforme as condições e os contextos solicitarem. Objetos antigos são portadores de potencial relevador de usos, gostos, valores, preferências, hábitos, costumes, nível de desenvolvimento de matérias primas e tec- nológico, do contexto histórico-temporal, das relações sociais, políticas e econômicas. 136 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: Ramos (2004) descreve que as atividades vinculadas à “historicidade dos objetos” incitam a percepção dos estudantes em saborear com mais intensidade e que, por isso, possuem vantagens em relação às possibilidades oferecidas pelos objetos dispostos em museus. Segundo o autor: [...] não se trata mais de ´visitar o passado´, e sim de animar estudos sobre o tempo pretérito, em relação com o que é vivido no presente. Com a excitação para a aventura de conhecer através de perguntas sobre o objeto, abre-se espaço para a percepção mais ampla diante da exposição museológica. Mais que isso: alarga-se o juízo crítico sobre o mundo que nos rodeia (RAMOS, 2004, p. 24). A BNCC (BRASIL, 2017, p. 398), destaca que “os processos de identifi- cação, comparação, contextualização, interpretação e análise de um objeto esti- mulam o pensamento”. Ramos (2004) ressalta que o exercício de comparação en- tre objetos do passado e os do presente desencadeia uma pedagogia dos objetos como prática envolvida na pedagogia da pergunta e da indignação. A noção de historicidade começa a ser trabalhada de modo mais direto e espontâneo, abre-se a percepção ao campo das possibilidades de permanências e mudanças, o nasci- mento, a morte e a transformação pela qual passam os bens materiais. 5 OS ARQUIVOS PÚBLICOS Os arquivos são compostos de fundos, ou seja, um conjunto de documen- tos de diferentes naturezas, datas, forma e suporte material produzidos, recebi- dos, reunidos, criados, acumulados e utilizados por uma pessoa física, por uma família, organismo público ou privado ao longo do exercício de suas atividades, funções e trajetória de vida. Geralmente, não ocorre seleção ou a intenção de constituir um conjunto coerente. Geralmente a necessidade surge quando que um arquivo desperta interesse em meio aos estudiosos e pesquisadores. Bellotto (2002) explica que os primeiros arquivos surgiram em meio às civilizações do Médio Oriente, na Mesopotâmia, com o povo sumério que carecia de arquivos aos registros das atividades realizadas em templos ou palácios, eram utilizados pelos grupos dirigentes, para atividades como pagamentos de tributos e apontamentos contabilísticos, os resultados dos trabalhos agrícolas, decisões judiciais, textos literários, descrições históricas e hinos religiosos. Porto (2013) descreve que na Grécia Antiga, nas cidades de Gea e Palas Atena, foram encontrados arquivos na espécie de depósitos que datam de, aproximadamente, de 460 a.C., cujos conteúdos se referiam a depósitos de documentos governamentais, judiciais entre outros. Os arquivos romanos, datam de aproximadamente 509 a.C., en- tre os mais relevantes está o arquivo Tabularium, situado no Templo de Saturno em Roma, que foi gerido por críticos e funcionários responsabilizados pela organização das listagens de recenseamento. Nos arquivos romanos era possível encontrar inscri- ções financeiras, registos do senado, anotações das províncias bem como editais do TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 137 imperador. Porto (2013, p. 17) explica que: Os romanos atribuíam extrema importância à administração do Império. Cada secção de serviço ao imperador tinha o seu arquivo independente, organizado por repartições e estantes com os documentos ordenados em séries. Organizados também cronologicamente e alguns numerados, pos- sibilitavam assim o progresso do arquivo com normas ainda hoje usadas. Ao longo da Idade Média, os arquivos eclesiásticos geridos pelas autorida- des religiosas ganham destaque, eles ficavam guardados em mosteiros, conventos e catedrais. Esse cenário passa a ser modificado somente a partir do século XII, XIII e XIV, quando instituições privadas e públicas, em especial as universidades, passam a criar arquivos centrais, agora regidos por normas e regras de organização específicas. Dentre os novos arquivos merece destaque o Arquivo Geral de Simancas, na Espanha, criado ainda no século XVI pela Coroa de Castela e considerado o primeiro arquivo de Estado na sociedade Ocidental, observe a sua edificação na figura a seguir: FIGURA 19 – ARQUIVO GERAL DE SIMANCAS, NA ESPANHA FONTE: <https://bit.ly/2PtWwpQ>. Acesso em: 5 jan. 2020. Na época moderna, com o Iluminismo, assim como ocorreu com os museus, os documentos de arquivos passam a ganhar teor científico e preocupação pública. Belloto (2002, p. 14) apresenta que “ocorre uma certa abertura dos arquivos públi- cos aos cidadãos e se procede à reunião da documentação oficial”. No ano de 1790, em Paris, foi criado o Archives Nationales, considerado o primeiro arquivo nacional do mundo. Reunia documentos do passado e do presente e do governo central. A partir da criação do arquivo nacional, criaram arquivos regionais e provinciais. A partir da época contemporânea passa a se desenvolver uma espécie de era documental e informacional, que, por sua vez, foi incrementada com novas tec- nologias associadas aos compromissos de atender às necessidades administrativas dos governos e atender aos interesses dos cidadãos. Couture e Rousseau (1998, p. 34) descrevem que “na segunda metade do século XIX e no decorrer do século XX, 138 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: assistiu-se à transformação dos arquivos em autênticos laboratórios de conheci- mento histórico, conservando e gerindo a lembrança do passado da humanidade”. Os documentos históricos, ou trechos dos mesmos, são amplamente arrolados em meio aos livros didáticos, porém, o desafio que é lançado a partir de agora é que se- jam estabelecidos relação e contato com os arquivos públicos propriamente ditos, que estes locais passem a ser entendidos também como locais de ensino e aprendizagem. Segundo Bellotto (2006, p. 227): Os arquivos públicos existem com a função precípua de recolher, custodiar, preservar e organizar fundos documentais originados na área governamen- tal, transferindo-lhes informações de modo a servir ao administrador, ao ci- dadão e ao historiador. Mas, para além dessa competência, que justifica e ali- menta sua criação e desenvolvimento, cumpre-lhe ainda uma atividade que, embora secundária, é a que melhor pode desenhar os seus contornos sociais, dando-lhe projeção na comunidade, trazendo-lhe a necessária dimensão po- pular e cultural que reforça e mantém o seu objetivoprimeiro. Trata-se de seus serviços editoriais, de difusão cultural e de assistência educativa. Fratini (2009) corrobora enfatizando a importância dos arquivos e dos tra- balhos com documentos históricos no sentido de que: O fato de o documento de arquivo apresentar essas características - ser pro- va ou evidência de uma ação e ser em grande parte escrito, pelo menos no que diz respeito a documentos de arquivos de administração pública – tor- na a sua exploração ainda mais interessante para atividades de ação edu- cativa. É grande o aprendizado que se pode obter a partir de um trabalho com documentos de arquivo escritos, em termos de construção de saberes linguísticos, históricos e de cidadania, já que os documentos refletem a ad- ministração pública de uma cidade, estado ou país, e envolvem questões de direitos e deveres entre governo e cidadãos (FRATINI, 2009, p. 6). Ocorre que ainda não existe uma prática e um projeto consolidados entre sociedade, unidades escolares e as instituições de arquivos públicos. Logo inda- ga-se: — como agir diante deste cenário? Caro acadêmico, enquanto profissional da história, procure inovar e construir essas oportunidades. Procure fazer contato com os arquivos públicos de sua cidade e região, na tentativa de saber se eles estão abertos à visitação de grupos escolares, se está ocorrendo exposições ou sendo oferecidas oficinas de conservação de documentos históricos e fotografias e se é possível agendar a visitação para seus estudantes tam- bém. Motive os estudantes a se preocupar com a história de sua família, comunida- de e cidade, e que os arquivos públicos representam um local privilegiado à obten- ção destas informações. A educação patrimonial favorece a aquisição de conceitos e habilidades, o espírito curioso e investigativo no sentido de reconhecer, pesquisar e elucidar situações inusitadas e significativas tanto no cotidiano da vida prática como as questões referentes às instituições, fenômenos, movimentos, expressões de arte, cultura, memória por meio de processos de ensino e aprendizagem. TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 139 6 A CULTURA MATERIAL, A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E O ENSINO DE HISTÓRIA Na transposição do conhecimento histórico ao universo escolar é de salutar importância que os profissionais da história ultrapassem o uso apenas do livro didá- tico e que se utilizem dos mais diferentes materiais, ferramentas, recursos, contextos, metodologias e abordagens e, como aqui se propõe, dos itens, artefatos e os mais diferentes objetos da cultura material. Aragon (2003, p. 63-64) advoga no sentido que: [...] só os objetos transcendem a fronteira do tempo e do espaço. [...] Eles circulam no seio das sociedades humanas e por isso, um mesmo objeto pode adquirir diversos significados em mais de um contexto ou lugar. [...] “Eles podem ser re-experenciados; eles são autênticos, e são material histórico primário para ser estudado em primeira mão. Os artefatos são evidências históricas”. [...] Os objetos são neste sentido, contadores de histórias, veículos de transmissão cultural e emocional. Funari (2005, p. 85) explica que “tudo que antes era coletado como objeto de colecionador, de estátuas a pequenos objetos de uso quotidiano, agora passou a ser considerado não mais como algo para o simples deleite, mas uma fonte de informa- ção, capaz de trazer novos dados, indisponíveis nos documentos escritos”. A cultu- ra material rata-se de possibilidades que enriquecem e ampliam as possibilidades o conhecimento até então conhecido e sabido. Bucaille e Pesez (1989) ressaltam que: É provável que a história nunca tenha ignorado totalmente a cultura mate- rial, mas concedeu-lhe, durante muito tempo, um interesse bastante limita- do. [...] Acabadas as idades da pré-história, que se definiam precisamente, mas excepcionalmente, através dos seus utensílios (Idade da Pedra, Idade do Bronze e do Ferro), não se falava mais disso. Só mais tarde se introdu- ziram capítulos dedicados à vida quotidiana, onde também a cultura ma- terial tinha o seu lugar e a que se devem notícias esporádicas sobre a vida antiga, sobre a toga do cidadão romano, sobre os utensílios do camponês egípcio, sobre a nave do mercador sírio (BUCAILLE; PESEZ, 1989, p. 20). Barros (2009) defende que a cultura material, até o menor um objeto sim- ples, é capaz de captar, sintetizar e revelar toda uma complexidade social, o autor ainda explica que: Através do objeto, o historiador deve mostrar-se capaz de ler relações de poder, identificar padrões de pensamento e processos de simbo- lização, perceber hierarquizações sociais e funcionais, compreender as tensões que surgem entre a vida humana e a sua apropriação dos objetos e materiais que os homens encontram na natureza para trans- formá-los em seguida (BARROS, 2009, p.15). Custódio (2010, p. 8) sugere que “o estudo das representações, uma obser- vação sobre aspectos do cotidiano dos antigos por comparação aos nossos dias, permite ampliar o nosso conhecimento sobre os modos de vida do passado, bem como sobre a trajetória do homem e as transformações operadas ao longo do tem- po”. Para o autor, o enriquecimento e a ilustração de conteúdos que é possibilitado 140 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 6.1 A PRESENÇA DOS TEMAS DO PATRIMONIO HISTÓRI- CO E CULTURAL MATERIAL NA BNCC A BNCC (BRASIL, 2017) apresenta dentre as habilidades específicas que os conteúdos de história devem tornar os estudantes aptos à selecionar e com- preender o uso, a função, o significado e a importância de documentos e objetos pessoais como fontes ao acesso à histórias de vida e memórias diversas tanto no âmbito familiar, escolar, comunitário entre outras; reconhecer os marcos históri- cos (nomes de ruas, monumentos, museus, edifícios entre outros), os patrimônios históricos e culturais e/ou no município e região em que se encontra inserido, à partir da utilização pela cultura material constitui um aporte que permite a articu- lação de várias áreas do conhecimento escolar, em especial estabelecer relação com as experiências e as vivências do cotidiano, o que possibilitam a inclusão da história da vida, do contexto, do cotidiano no qual os estudantes se encontram inseridos. Uma vez que os itens, objetos e artefatos passam a ser abordados no contexto de possibilidades de ensino e aprendizagem em que seu valor histórico, tecnológico, simbólico e cultural é destacado, as chances de estes serem salvaguardados, conser- vados e transmitidos de uma geração à outra aumentam de forma significativa. No que diz respeito às atividades de salvaguardo e conservação da cultura ma- terial por parte do poder público, no ano de 2018, o Ministério da Cultura, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e o Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização, publicou a Portaria nº 375, de 19 de Setembro de 2018, que institui a Po- lítica de Patrimônio Cultural Material (PPCM) e demais procidências (BRASIL, 2018). O documento prescreve que o Patrimônio Cultural Material é responsável por garantir a humanização, a cidadania e a dignidade dos indivíduos, que de- vem ser pensados atentando para os valores de sustentabilidade, que atentem aos princípios de diversidade geográfica, socioeconômica e cultural. De que todos os indivíduos tenham direito e acesso equitativo, que a preservação dos exemplares e bens é de responsabilidade tanto do poder público (municipal, estadual e fede- ral) como da sociedade como um todo, que a gestão pode ser pensada em uma rede de articulação que envolvem os atores como o poder público, instituições privadas, profissionais que atuam na área, e demais atividades que fortaleçam os movimentos e os grupos sociais, das comunidades tradicionais. O documento ainda recomenda que se compreenda os bens da cultura ma- terial na sua trajetória em meio às sociedades, que se reconheça as diferentes res- significações que receberam ao longo das épocas e das gerações, mas que as ações devemcontemplar as necessidades do momento presente; que as ações da Educa- ção Patrimonial para com a cultura material devem estar pautadas no diálogo, na participação e na interlocução com a sociedade, nas preocupações para com ações e atividades que envolvam processos educativos formais e não formais. TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 141 discutir as razões culturais e políticas que os forjam e legitimam. Sobre os objetos históricos e culturais a BNCC (BRASIL, 2017, p. 398), versa que: Os registros e vestígios das mais diversas naturezas (mobiliário, instru- mentos de trabalho, música etc.) deixados pelos indivíduos carregam em si mesmos a experiência humana, as formas específicas de produção, con- sumo e circulação, tanto de objetos quanto de saberes. Nessa dimensão, o objeto histórico transforma-se em exercício, em laboratório da memória voltado para a produção de um saber próprio da história. A utilização de objetos materiais pode auxiliar o professor e os alunos a colocar em questão o significado das coisas do mundo, estimulando a produção do conhecimento histórico em âmbito escolar. Por meio dessa prática, docen- tes e discentes poderão desempenhar o papel de agentes do processo de ensino e aprendizagem, assumindo, ambos, uma “atitude historiadora” diante dos conteúdos propostos, no âmbito de um processo adequado ao Ensino Fundamental. Os processos de identificação, comparação, contex- tualização, interpretação e análise de um objeto estimulam o pensamento. Com relação aos documentos, a BNCC (BRASIL, 2017, p. 418) descreve que: Os documentos são portadores de sentido, capazes de sugerir mediações entre o que é visível (pedra, por exemplo) e o que é invisível (amuleto, por exemplo), permitindo ao sujeito formular problemas e colocar em questão a sociedade que os produziu. Os procedimentos básicos para o trato com a documentação envolvem: identificação das propriedades do objeto (peso, textura, sabor, cheiro etc.); compreensão dos sentidos que a sociedade atribuiu ao objeto e seus usos (máquina que produz mercado- rias, objeto de arte, conhecimento etc.); e utilização e transformações de significado a que o objeto foi exposto ao longo do tempo. Além disso a BNCC (BRASIL, 2017) contempla amplamente em seus eixos temáticos os conteúdos como o surgimento da escrita, os marcos e demais regis- tros, a sobrevivência e a relação com a natureza, as tecnologias, os objetos, as pin- turas, os monumentos, os museus, edifícios entre outros. A BNCC (BRASIL, 2017, p. 566) enfatiza que “os indivíduos estão inseridos em culturas (urbanas, rurais, eruditas, de massas, populares, regionais, locais etc.) e, dessa forma, são produto- res e produto das transformações culturais e sociais de seu tempo” e que a partir dos artefatos, dos símbolos, dos códigos e símbolos de comunicação e comporta- mento é possível compreender os modos de produção, circulação e consumo em meio aos sistemas culturais, em especial captar o caráter polissêmico da cultura. Acadêmico, não sinta receio em utilizar dos exemplares e das possibilida- des do patrimônio histórico e cultural material que foram apresentados ao longo dos conteúdos desta Unidade, pois a BNCC (BRASIL, 2017), que é o documento que contém as bases, os princípio, as diretrizes que regem a educação tanto em nível de ensino fundamental como no ensino médio de todo o país, contempla e enfatiza que tais temas sejam utilizados pelos profissionais da História. Caro acadêmico, a leitura complementar a seguir, elaborada pela professora e pesquisadora Andrea Machado, inicialmente, aborda mais elementos sobre a trajetória 142 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: dos museus, em especial, os museus brasileiros e, num segundo momento, menciona a questão de acessibilidade nos museus apresentando os testemunhos e experiências de duas pessoas cegas que participaram de uma visitação sensorial, prossiga na leitura: TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 143 LEITURA COMPLEMENTAR A constituição dos museus brasileiros: um espaço de direito para poucos Andrea Machado Os museus brasileiros foram criados a partir do século XIX por D. João VI, alicerçados nos modelos europeus com perfil científico e enfoque em diversos as- pectos do saber. Conforme Letícia Julião (2014, p. 23) esses museus enciclopédicos começaram a entrar em declínio entre 1920 e 1930 não apenas no Brasil, mas, no resto do mundo “[...] em face da superação das teorias evolucionistas que os sustentavam”. A historiadora explica que, com a criação do Museu Histórico Nacional em 1922 nasce um novo modelo de museu no Brasil onde a questão nacional ganhou destaque. Naquele contexto, conforme Julião (2014, p. 22), as instituições museológicas contribuíram para “[...] as construções simbólicas de nação brasilei- ra” e para a consolidação de uma identidade nacional “alicerçada em uma cultura genuinamente brasileira, o que representou valorizar o passado e as tradições nacionais num esforço de conciliação do antigo com o novo”. Segundo Julião (2014, p. 23), a “cultura genuinamente brasileira” representa- da por suntuosos acervos e coleções, difundia uma mensagem de “evolução brasilei- ra”. Cabe ressaltar que até meados do século XX, os bens coletados, salvaguardados e preservados representavam apenas alguns setores da sociedade brasileira, em par- ticular, a elite branca e letrada. Sendo assim, as impressões que os museus passavam aos visitantes era que “a evolução brasileira” e a construção da história e da memória nacional eram obras da elite e do Estado e não da população brasileira em geral. Maria Célia Moura Santos (2008, p. 80) destaca em seus estudos que du- rante o regime militar, os museus continuaram legitimando a história oficial e apresentando ao público as histórias dos “grandes heróis nacionais”. Conforme a museóloga (Santos, 1994, p. 55) entre os anos de 1964 e 1980 foram instalados muitos museus com incentivo dos governos militares que tinham como missão prioritária “[...] guardar objetos produzidos por determinados segmentos da so- ciedade, representando em suas exposições uma mensagem de conteúdo pouco questionado que se esgotava na análise do passado e no objeto por si só”. Nos amparando nos estudos de Julião e Santos podemos considerar que até as décadas de 1970 e 1980, a pesquisa e a comunicação dos museus apresen- tavam-se de forma descontextualizada da realidade vivenciada pela maioria dos brasileiros, o que causava aos visitantes um sentimento de não pertencimento aqueles espaços. Com a redemocratização, a definição de museu foi ganhando novos significados e a função social das instituições museológicas entrou na pau- ta de debates das organizações governamentais e não governamentais. 144 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: E desde então, a política nacional de museus vem se adequando as defini- ções estabelecidas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciên- cia e a Cultura — UNESCO e pela Internacional Council of Museums — ICOM, tam- bém chamado de Conselho Internacional de Museus. De acordo com a definição estabelecida pelo ICOM: “o museu é uma instituição a serviço da sociedade” e que “adquire, conserva e investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para a educação e deleite da sociedade”. A partir dessa nova definição de museu, algumas instituições museológicas que até então se alinhavam a antigos modelos do século XIX ou XX e se configuravam como “es- paços sagrados” muitas vezes inacessíveis à maioria da população, precisaram se ajustar a política nacional e ao princípio fundamental dos museus na atualidade que é a preservação da cultura do povo e a sua importante função educativa. A IMPORTÂNCIA DO MUSEU PARA A EDUCAÇÃO PELA PERCEPÇÃO DOS VISITANTES: OS TESTEMUNHOS DE IRINEU E ELIANA [...] eu nem imaginei nada sobre como era um museu porque eu nem sabia direito o que era um museu. Mas, quando comecei a pegar os objetosna mão, senti que era um objeto conhecido, relembrei a minha infância. Eu gostei muito do museu, muito, porque lá nos reencontramos a nossa história. Vi as ferramentas (de trabalho) que usava antigamente (KRIZANSKI, 2014 apud MACHADO, 2015, p. 121). Trata-se de um trecho de entrevista concedida por Irineu Krizanski, no dia 17 de junho de 2014, nas dependências da ACEVALI — Associação de Cegos do Vale do Itajaí, de Blumenau. O entrevistado é natural de Pomerode (Santa Catarina), mas, “se criou no interior do Paraná”. Na época, o entrevistado tinha 55 anos, estudou até o 4º ano do Ensino Fundamental e desde criança contava com aproximadamente 30% da visão. Ficou cego aos 23 anos e então, voltou a morar em Santa Catarina na cidade de Timbó, região que pertencia aos domínios da antiga Colônia Blumenau. O relato de Irineu Krizanski, integrante da Associação de Cegos do Vale do Itajaí — ACEVALI, exprime a suas impressões sobre visita a uma exposição sensorial em uma instituição museológica na cidade de Timbó (Santa Catarina). Segundo Irineu, antes da visita nem imaginava o que era um museu, mas, ao manipular algumas peças do acervo, dentre as quais: uma máquina de costura manual, alguns utensílios domésticos e ferramentas de trabalho como uma antiga plantadeira de milho manual e uma moenda de cana manual de madeira se reconheceu no espaço, relembrou e (re)significou suas memórias de infância. TÓPICO 3 MUSEUS, COLEÇÕES, OBJETOS ANTIGOS E ARQUIVOS 145 FIGURA – MÁQUINA DE COSTURA MANUAL FONTE: <https://bit.ly/39XdqX2>. Acesso em: 24 out. 2019. Irineu também destacou a importância dos museus para a educação, “não apenas para os jovens”, mas, também para as pessoas da sua geração: A visita ao museu [...] me trouxe memórias e uma alegria em saber que tem gente que está se interessando em preservar a história e continuar essa obra, dando oportunidade de o jovem conhecer as histórias passadas. [...] para a nossa geração ainda é importante saber. [...] olha, onde tiver um museu eu gostaria de visitar porque eu penso que toda cidade e todo o estado deve ter museus. Então, vamos supor, o estado de Santa Catarina tem um tipo de museu onde o sistema de trabalhar era um, com um tipo de ferramentas. O Paraná já é outro, assim como lá para o Norte e Nordeste. Por isso que eu acho que todos os museus são importantes de visitar, para poder conhecer a cultura de cada povo (KRIZANSKI, 2014 apud MACHADO, 2015, p. 135). A seguir apresenta-se outro trecho da entrevista concedida por Eliana Ro- cha Vanzuita, 17 de junho de 2014 nas dependências da ACEVALI – Associação de Cegos do Vale do Itajaí, de Blumenau. A entrevistada é integrante da ACEVALI que diferente da maioria dos visitantes não é descendente de imigrantes alemães ou italianos, também contribuiu muito durante a ação sensorial, porque tinha lem- branças do processo imigratório que aprendeu com seus professores na escola: Eu imagino então como foi a dificuldade de viajar de um país para o outro (no século XIX), como deve ser uma viagem cheia de aventuras e angústias, porque não sabe nem se vai conseguir chegar até o local desejado. Levava até três meses de viagem (da Alemanha até o Brasil). [...] Então, como nós temos muito acesso aos filmes antigos, nós ouvimos os sons das coisas antigas, mas, não sabemos exatamente como são, porque nós não temos uma formação visual das duas épocas, ou das três épocas (séculos XIX, XX e XXI). [...]. Eu penso que deve ter sido muito difícil para as mulheres transitarem entre as épocas (períodos históricos abordados durante a ação museológica - século XIX e XX) (VANZUITA, 2014 apud MACHADO, 2015, p. 136). Eliana é cega desde o nascimento e relata suas impressões sobre a visita a uma exposição sensorial oferecida por um museu localizado no município de Timbó (Santa Catarina) no ano de 2012 que representa o cotidiano dos imigrantes alemães e italianos que chegaram ao Vale do Itajaí (antiga Colônia Blumenau) no século XIX. Durante três meses a instituição museológica garantiu a mais de 150 visitantes cegos ou com baixa visão o acesso a parte das peças do acervo em du- 146 plicidade ou a réplicas. Através da análise das entrevistas concedidas por Irineu que desde criança contava com aproximadamente 30% da visão e ficou cego aos 23 anos; Eliana, cega desde o nascimento e outras pessoas que participaram da ação sensorial na instituição museológica em Timbó, entendemos o quanto o a acesso ao patrimônio histórico e aos bens culturais é importante para as pessoas cegas ou com baixa visão para a compreensão de diferentes contextos históricos e para problematizar e até mesmo (re)significar o tempo presente. Contudo, constatamos por meio de uma pesquisa de mestrado que até o ano de 2015, dos quase quatro mil museus brasileiros, apenas quinze foram considerados acessíveis para as pessoas com deficiência pelo Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM. Portanto, podemos afirmar que ao longo da história os museus se configuraram como espaços de direito para poucos e na atualidade, apesar da Lei nº 11.903/2009 garantir o acesso universal a todos os públicos, na prática, as pessoas com deficiência ainda pre- cisam enfrentar muitas barreiras que impedem a inclusão nos espaços museais, dentre elas, as barreiras físicas, comunicacionais e principalmente atitudinais. FONTE: MACHADO, A. Educação museal na perspectiva da educação inclusiva: o museu no contexto das pessoas cegas ou com baixa visão. Dissertação (Mestrado em Educação) - Progra- ma de Pós-Graduação em Educação da Universidade Regional de Blumenau, Blumenau, 2015. 147 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • O acesso aos museus, de certa forma, permaneceu restrito e privado às fa- mílias que os guardavam, aos grupos que os confeccionavam, aos grupos de religiosos e aos grupos de estudiosos e cientistas; foi somente com a Revolu- ção Francesa que as instituições de museus passam à ser utilizadas no campo educacional e respectivamente adquirir caráter público e social. • Segundo o Conselho Internacional dos Museus (2007) museu consiste em uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, estuda, expõe e transmite o patrimônio material e imaterial da humanidade e do seu meio, com fins de estudo, educação e deleite. • Coleções constituem um conjunto de objetos materiais e imateriais que um estabelecimento ou um indivíduo reuniu, agrupou, selecionou, classificou co- erentemente e significativamente, bem como conservou em condições para serem apresentados e comunicados a um público. • Os objetos que pertencem a coleções foram extraídos de determinada realida- de e contexto para assim representá-la, constituem microcosmos, reveladores de macrocosmos; por outro lado são entendidas também como sementes, que, por sua vez, se tornam corpo e alma dos museus, galerias e bibliotecas, sejam eles antropológicos, de história natural, de geologia ou históricos. • Objetos antigos são portadores de potencial relevador de usos, gostos, valores, pre- ferências, hábitos, costumes, nível de desenvolvimento de matérias primas e tecno- lógico, do contexto histórico-temporal, das relações sociais, políticas e econômicas. 148 • Arquivos são compostos de fundos, ou seja, um conjunto de documentos de di- ferentes naturezas, datas, forma e suporte material produzidos, recebidos, reuni- dos, criados, acumulados e utilizados por uma pessoa física, por uma família, or- ganismo público ou privado ao longo do exercício de suas atividades e funções. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 149 1 No ano de 1974, a reunião do Conselho Internacional de Museus (ICOM) definiu que o museu consistia em um estabelecimento permanente, sem fins lucrativos, a serviço dasociedade e de seu desenvolvimento, aberto ao público, uma instituição que coleciona, conserva, pesquisa, comunica e exibe, para o estudo, a educação e o entretenimento, evidências materiais do homem e seu meio ambiente. No entanto, as definições mais recentes atribuíram aspectos que até então não haviam sido contemplados. Com relação às definições mais recentes sobre museus, analise as sentenças a seguir, atribuindo V para as verdadeiras e F para as falsas: ( ) No ano de 2007, o Conselho Internacional dos Museus (ICOM) publicou nova definição para museu incluindo a dimensão imaterial e intangível dos bens e expressões culturais. ( ) O Estatuto de Museus de 2009 prevê que os espaços de museus não podem sofrer alterações estruturais à fim de proporcionar a inclusão de pessoas com deficiência. ( ) No ano de 2007, o Conselho Internacional dos Museus (ICOM) publicou nova definição contemplando os sítios arqueológicos como museus à céu aberto. ( ) O Estatuto de Museus de 2009 enfatiza que as instituições dos museus contribuam ao desenvolvimento do turismo cultural das cidades. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F – V. b) ( ) F – V – V – F. c) ( ) F – F – V – V. d) ( ) V – V – F – F. 2 Os arquivos romanos, datam de aproximadamente 509 a.C., entre os mais relevantes está o arquivo Tabularium, situado no Templo de Saturno em Roma, que foi gerido por críticos e funcionários do Império Romano. Nos arquivos romanos era possível encontrar inscrições financeiras, registos do senado, anotações das províncias bem como editais do imperador. O que mais é correto afirmar sobre os arquivos romanos? Analise as sentenças a seguir: I- Os romanos não atribuíam importância à administração do Império, dedicavam-se exclusivamente às atividades militares. II- Cada secção de serviço ao imperador possuía um arquivo independente, organizado por repartições e estantes com os documentos ordenados em séries. III- Os arquivos romanos eram organizados cronologicamente e alguns numerados, procedimentos que ainda hoje são utilizados. IV- Os arquivos romanos só não favoreceram os trabalhos dos recenseadores. AUTOATIVIDADE 150 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As alternativas I, III e IV estão corretas. b) ( ) As alternativas I, II, III estão corretas. c) ( ) Somente as alternativas III e IV estão corretas. d) ( ) Somente as alternativas II e III estão corretas. 3 Dentre os principais itens que podem ser considerados objetos antigos estão: cadeira, cama, guarda-roupa, chapeleira, mesa, cachimbos, óculos, lustres, abajures e luminárias, criado-mudo, telefones, rádios, relógios, xícaras, copos, pratas, calçados, bules, talheres, panelas, acessórios, roupas, malas, quintal, solar, varada, sobrado, quarto, cozinha, sala, biblioteca, entre outros. Como estes objetos podem contribuir aos estudos dos conteúdos da história? Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Podem fornecer informações sobre o contexto social e histórico no qual foram elaborados e utilizados. b) ( ) Os usos que lhes foram atribuídos e as funções que desempenharam só podem ser conhecidos se os verdadeiros proprietários estiverem vivos. c) ( ) Os objetos antigos podem demonstrar como as novas tecnologias são obsoletas e redundantes. d) ( ) Os objetos antigos devem ser utilizados nos estudos da História a partir do momento que deixaram de funcionar e que saíram de circulação comercial. 151 UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: EXPRESSÕES IMATERIAIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • estudar o que são “saberes tradicionais” de indivíduos e comu- nidades, os “modos de fazer” de bens culturais, as celebrações religiosas, os lugares de memória e as paisagens culturais como exemplares de expressões do patrimônio cultural imaterial; • reconhecer a importância que comunidades, grupos ou indiví- duos possuem no sentido de expressar, alimentar e transmitir os exemplares e expressões do patrimônio cultural imaterial; • abordar a paisagem cultural, os caminhos/estradas e fotografias antigas como possibilidades de experiências de contemplação, sensibilização de lembranças, contextualização de memórias; • conhecer algumas das expressões de festas populares que ocorrem no interior do Brasil; alguns exemplares de gastronomia e itens da indu- mentária cultural mundial que são indicados como itens do patrimônio cultural imaterial; • fomentar a educação patrimonial por meio de atividades de ensino e aprendizagem que contemplam o patrimônio cultural imaterial, tanto em espaços de sala de aula como por meio de visitas à locais/espaços em que as expressões e os exemplares do patrimônio cultural imaterial podem ser prestigiados, experienciados e vivenciados. 152 Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA PLANO DE ESTUDOS Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA TÓPICO 2 – PAISAGEM CULTURAL, CAMINHOS/ESTRADAS E FOTOGRAFIAS ANTIGAS TÓPICO 3 – FESTAS POPULARES, GASTRONOMIA E ENDUMENTÁRIA CULTURAL 153 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, a presença dos termos “cultura popular”, “cultura imaterial”, “patrimônio cultural imaterial”, “patrimônio cultural intangível”, na literatura e historiografia passou a ocorrer nas últimas décadas do século XX e tem se fortalecido ao longo dos primeiros anos do século XXI. Esses conceitos têm sido utilizados no sentido de complementar o já conhecido e consagrado patrimônio material e/ou edificado, geralmente referido como ‘patrimônio histórico, arqueológico e artístico’. A partir dos avanços no campo teórico-conceitual e em termos de legislações passou-se a perceber uma maior valorização da cultura popular e as tradições culturais regionais, em especial em meio às análises e debates sobre os impasses impostos pela sociedade contemporânea, a qual é marcada pela fragmentação, pela descentralização, pelo retorno ao indivíduo, pela subjetividade entre outros. Como resultado deste movimento, testemunha-se a emergência de experiências oriundas das esferas e escalas espaciais como do “local” e do “regional”, para além dos eixos dos grandes centros e capitais. Dito de outro modo, trata-se de formas e alternativas de superação aos projetos de modernização, industrialização, racionalização e homogeneização da sociedade e dos indivíduos, para tanto, aciona-se o local, o regional, as memórias e narrativas familiares e comunitárias, o artesanal, a confiança, a solidariedade, os laços de amizade, os afetos, a devoção, a fé, as festas e, enfim, alternativas que proporcionam vivências compartilhadas e experiências coletivas. Caro acadêmico, o conceito de ‘patrimônio cultural imaterial’ não possui uma definição única, isolada e objetiva, trata-se de um conceito que está diretamente relacionado com a noção de ‘patrimônio cultural material’, que foi abordada na Unidade 2. Se o patrimônio cultural material consiste em itens, objetos, artefatos, instrumentos, edificações e lugares de memória, o ‘patrimônio cultural imaterial’ em grande parte pode ser entendido pelas formas de uso, de manipulação e de consumo, que ocorrem tendo como base e suporte os bens e exemplares do patrimônio material. Sendo assim, o ‘patrimônio cultural imaterial’ deve ser compreendido pelas práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas, com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados. TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 154 A Unesco (2003) defende que o patrimônio cultural imaterial é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu ambiente, da sua interaçãocom a natureza e da própria trajetória de transmissão entre as gerações, gerando sentimentos de identidade e continuidade, bem como promovendo a criatividade humana e a diversidade cultural, contribuindo, por fim, ao fortalecimento dos direitos humanos e ao desenvolvimento sustentável. Assim sendo, entende-se que são as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos que elegem e reconhecem o que é considerado e o que faz parte integrante do seu repertório cultural. No Brasil, a partir da Constituição de 1988, em específico nos artigos 215 e 216, constam as diretrizes que possibilitaram a ampliação das concepções de patrimônio histórico, artístico e cultural. Em decorrência da publicação da Constituição, anos depois ocorreu a publicação do Decreto nº 3551 de 4 de agosto de 2000, que foi responsável por instituir o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial. Weffort (2003, p. 26) explica que, com a publicação deste decreto e registro, criou-se um mecanismo institucional fundamental, bem como tornou-se "obrigação pública e governamental, sobretudo de inventariar, documentar, acompanhar e apoiar a dinâmica das manifestações culturais”. Em termos institucionais, o decreto prescreveu que no ato da inscrição dos bens e expressões culturais, toda a natureza e a tangibilidade destes bens e expressões, deveriam ser respeitados. Para tanto, livros específicos foram criados, como constam na relação a seguir (BRASIL, 2000, art. 1°, § 1°, grifo nosso): I- Livro de Registro dos Saberes: para conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades; II- Livro de Registro das Celebrações: sobre rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social; III- Livro de Registro das Formas de Expressão: para manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas; IV- Livro de Registro dos Lugares: sobre mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas. Sant’anna (2005) também corrobora que a propriedade e a natureza dos bens culturais imateriais requerem que se enfatize e reconheça suas especificidades. Para tanto, o autor destaca três principais pontos: • A abrangência do bem registrado numa esfera local, estadual, regional ou nacional. • A forma de auto-organização dos detentores, grupos e segmentos do bem cultural. • Estratégias para assegurar a ampla participação efetiva dos detentores, grupos, segmentos e parceiros envolvidos nas ações e atividades. Sant’anna (2005) ainda defende que os bens culturais imateriais constituem expressões e manifestações ‘vivas’, cuja fonte e repositório encontram-se na mente TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 155 e memória dos detentores e que, o principal veículo de comunicação e expressão é a própria fala e o corpo, dito de outro modo, os bens e as expressões da cultura imaterial dependem diretamente dos indivíduos, grupos ou comunidades, que são seus produtores, detentores ou portadores para que ocorram os processos de acesso, uso, transmissão, apreciação e fruição. Diante disso, as ações de salvaguardo de bens culturais imateriais devem centralizar os esforços na valorização do ser humano e nas formas mais apropriadas de registro como cada bem e expressão requer. Entre os anos de 2000 e 2018, foram implementadas, pelos órgãos federais, estaduais, municipais e demais instituições, ações decorrentes do Decreto e da criação dos livros. Dentre as ações destaca-se o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI), que teve como principais frentes a pesquisa, a documentação e a informação, desenvolvida por meio de mapeamentos, inventários, a criação de banco de dados e acervos; o reconhecimento e a valorização, cujas ações almejaram destacar o valor patrimonial desde as comunidades detentoras das referências patrimoniais; a sustentabilidade, ações que atentaram ao fortalecimento dos processos de transmissão dos conhecimentos e saberes, a organização comunitária, a gestão compartilhada e a coparticipação de instâncias públicas e privadas; a promoção e a difusão, que almejou a divulgação e a apropriação por parte da sociedade civil, por meio de programas educativos, da educação patrimonial e ações de sensibilização sobre a importância das expressões de patrimônio imaterial; e, por fim, a capacitação e o fortalecimento institucional que, aliando instituições tanto públicas como privadas, atuou na formação de agentes à gestão e ao salvaguardo do patrimônio cultural imaterial (BRASIL, 2000). Todas estas ações foram e são salutares, porém os trabalhos e projetos não podem se dar por encerrados, é necessária a continuidade e a ampliação dos projetos, em especial no que diz respeito à educação patrimonial, tanto por parte dos órgãos e instituições competentes como parte da sociedade civil e da iniciativa privada. Caro acadêmico, tendo em vista o processo histórico e institucional, bem como das recomendações que são feitas ao salvaguardo do patrimônio cultural imaterial descrito anteriormente, procura-se, ao longo desta unidade, apresentar alguns dos inúmeros saberes, modos, fazeres, ofícios, paisagem cultural, fotografias antigas, festas populares, gastronomia e indumentária cultural que são criados e vivenciados pelos detentores e comunidades. Antecipa-se que, infelizmente, não foi possível apresentar de forma ilustrada e aprofundada todos os exemplares consagrados e tombados, a maior parte pôde apenas ser mencionados. Diante disso, conforme a sua disponibilidade, em um momento oportuno, sinta-se convidado a desenvolver mais leituras, conforme os “UNI DICAS” acrescentados neste tópico e agora, por gentileza, queira prosseguir na leitura! Votos de um belo aprendizado pela frente! UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 156 2 SABERES, MODOS DE FAZER E OFÍCIOS Você deve se perguntar: como é possível agrupar ou explicar este conjunto de saberes, modos de fazer e ofícios? Que estruturas e relações compartilham entre si? Vamos lá! Os saberes, os modos de fazer e os ofícios constituem uma lógica de processos complexos, que ganham forma por meio de práticas, técnicas, conhecimentos e aspectos culturais. Encontram-se circunscritos a um espaço, seja ele local ou regional e a um contexto social e cultural, dos quais emanam também significados simbólicos e abstratos. Geralmente, foram e são elaborados a partir de experiências já existentes em meio a um cotidiano imediato e material; foram gestados, desenvolvidos, experimentados, ajustados, implementados, comunicados e transmitidos ao longo de diferentes gerações. Cada estágio destes foi responsável por demandar tempo, esforços físicos, mentais e investimentos financeiros, tanto por parte dos indivíduos quanto dos familiares e das comunidades como um todo. Dito de outro modo, foram e são responsáveis por exigir dedicação diária e integral, bem como mobilizar relações de parentesco e amizade. Desenvolveram e desenvolvem habilidades e competências como o autodidatismo, o associativismo, o cooperativismo e a interdisciplinaridade. Os detentores e mestres de ofício costumam dizer que só se aprende fazendo, pelo caminho do empirismo, mencionam também experiências como de revelações, visões, sonhos e o próprio dom. Eles são os responsáveis por pensar, avaliar, classificar, ordenar e instituir as próprias categorias e experimentam, testam a recepção e a eficácia de suas produções. Dentre os meios e formas que se utilizam à transmissão e à aquisição pode-se mencionar a troca, a compra, a conquista por meio de disputas assim como as alianças matrimoniais e comunitárias. Os saberes, os modos de fazer e os ofícios se justificam por meio da cultura, da tradição, do passado, das histórias de vida, como forma de legitimação num momento histórico e que vislumbraram outros tempos. Não podem ser enquadrados dentro de modelos globais fechados, homogêneose generalistas, são portadores de um dinamismo singular e específico. Em meio aos trabalhos e esforços do Iphan, de instituições estaduais e municipais, já puderam ser inventariados e tombados os seguintes saberes, modos de fazer e ofícios: • Ofício das Paneleiras de Goiabeiras. TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 157 • Modo de Fazer da Viola-de-cocho. • Ofício das Baianas de Acarajé. • Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas, nas Regiões do Serro e das Serras da Canastra e do Salitre. • Ofício dos Mestres de Capoeira. • Modo de Fazer Renda Irlandesa em Divina Pastora. • Ofício de Sineiro em Minas Gerais. • Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro. • Saberes e Práticas Associados aos Modos de Fazer Bonecas Karajá. • Produção Tradicional e Práticas Socioculturais Associadas à Cajuína no Piauí. • Modo de Fazer Cuias no Baixo Amazonas. • Tradições Doceiras da Região de Pelotas e Antiga Pelotas (Arroio do Padre, Capão do Leão, Morro Redondo, Turuçu). • Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira. FIGURA 1 – SISTEMA AGRÍCOLA TRADICIONAL DO RIO NEGRO/AM FONTE: <https://bit.ly/3i9vGzs>. Acesso em: 13 maio 2020. UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 158 FIGURA 2 – BONECAS KARAJA FONTE: <https://central3.to.gov.br/arquivo/69429_450.jpg>. Acesso em: 27 mar. 2020. FIGURA 3 – RODA DE CAPOEIRA FONTE: <https://bit.ly/2DzavYL>. Acesso em:27 mar. 2020. TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 159 Caro acadêmico, a seguir procura-se apresentar o exemplo da Renda Irlandesa da Divina Pastora/SE, que é reconhecido como um saber, ofício e modo de fazer do patrimônio cultural imaterial, prossiga na leitura: 2.1 A RENDA IRLANDESA DA DIVINA PASTORA/SE Ao longo da primeira metade do século XIX haveria ocorrido a introdução da renda irlandesa em Divina Pastora/SE, a transmissão do saber e do fazer haveria sido proporcionada pelas freiras estrangeiras que ensinavam as filhas da aristocracia rural nos conventos ou colégios internos naquela cidade na época. A renda irlandesa é um tipo de renda resultante do uso de agulha e do lacê (um cordão produzido industrialmente, de forma achatado, sedoso, brilhante e flexível. A peça fundamental para a execução das figuras da renda é o debuxo ou risco, isto é, o modelo, o molde ou o gabarito em papel manteiga que é superposto a um papel grosso e repousando numa almofada, observe a figura a seguir: FONTE: <https://bit.ly/2DmW6yY>. Acesso em: 27 mar. 2020. FIGURA 4 – DOCES DE PELOTAS/RS UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 160 FIGURA 5 – MODO DE FAZER RENDA IRLANDESA DE DIVINA PASTORA/SE FONTE: <https://bit.ly/33wE8Vo>. Acesso em: 4 mar. 2020. O debuxo fornece o percurso sinuoso, deixando espaços vazios que são posteriormente preenchidos pelos pontos. Os pontos dos espaços livres são preenchidos pelo lacê com volteios e sinuosidades. É sobretudo nos pontos que podem ser encontrados alguns motivos ou atributos estilísticos que representem uma contribuição capaz de tornar brasileira essa renda de remota a origem irlandesa. O modo de fazer a renda proporciona um acabamento como um tecido de malhas abertas, cuja trama formam desenhos, constituídos por fios e, às vezes, fitilhos ou ainda cordões. A renda irlandesa é normalmente usada como adereço de roupas, decorações em objetos domésticos, peças cerimoniais, assim como é possível encontrar a renda também como peça de vestuário. Caro acadêmico, dentre as atividades de educação patrimonial e de ensi- no-aprendizagem sobre essas expressões do patrimônio cultural imaterial, podem ser encaminhadas atividades que objetivem produzir memoriais da história e da trajetória de vida dos detentores e mestres dos ofícios; fazer visitas, realizar entrevistas, conhecer as oficinas, os locais de produção e apresentação, convidá-los para rodas de conversas, para que apresentem e exponham sua produção aos grupos de estudantes e demais interes- sados junto ao espaço escolar. Avalie e adapte conforme as melhores condições de seu contexto. IMPORTANT E TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 161 3 LUGARES DE MEMÓRIA No ano de 1984, o historiador francês Pierre Nora publicou a obra Les lieux de mémóire (Lugares de memória) que foi responsável por cunhar o termo em meio à comunidade de historiadores e em especial criar uma temática no campo de estudos da história cultural. Nora (1997) defendeu que: A memória é vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta daquilo que não é mais. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma representação do passado. Porque é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências de cenas, censuras ou projeções. A história, porque operação intelectual e laicizante, demanda análise e discurso crítico. A memória instala a lembrança no sagrado, a história liberta, e a torna sempre prosaica. A memória emerge de um grupo que ela une, o que quer dizer, como Halbwachs o fez, que há tantas memórias quantos grupos existem; que ela é, por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada. A história, ao contrário, pertence a todos e a ninguém, o que lhe dá uma vocação para o universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas. A memória é um absoluto e a história só conhece o relativo (NORA, 1997, p. 25). Nora (1993) ainda contribui que o termo “lugares de memória” abrange simultaneamente desde o objeto material, concreto, funcional e prático ao mais abstrato e simbólico, observe nos termos do autor: Mesmo um lugar de aparência puramente material, como um depósito de arquivos, só é lugar de memória se a imaginação o investe de aura simbólica. Mesmo um lugar puramente funcional, como um manual de aula, um testamento, uma associação de antigos combatentes, só entra na categoria se for objeto de um ritual. Mesmo um minuto de silêncio, que parece o extremo de uma significação simbólica, é, ao mesmo tempo, um corte material de uma unidade temporal e serve, periodicamente, a um lembrete concentrado de lembrar. Os três aspectos coexistem sempre [...]. É material por seu conteúdo demográfico; funcional por hipótese, pois garante ao mesmo tempo a cristalização da lembrança e sua transmissão; mas simbólica por definição visto que caracteriza por um acontecimento ou uma experiência vivida por pequeno número diante de uma maioria que deles não participou (NORA, 1993, p. 21-22). Candau (2011, p. 156-157) afirma que “um lugar de memória é um lugar onde a memória trabalha” e que a função identitária dos lugares de memória UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 162 está no sentido de que “toda unidade significativa, de ordem material ou ideal, da qual a vontade dos homens ou o trabalho do tempo fez um elemento simbólico do patrimônio memorial de uma comunidade qualquer”. Cardoso (2012, p. 37) corrobora no sentido de que a nossa herança cultural e os lugares de memória estão diretamente ligados à construção da cidadania, porque “a noção de território compreende tanto o espaço particular, como o espaço coletivo da casa, do trabalho, da diversão e da devoção”. A partir da circulação e aceitação por parte dos profissionais da arquitetura, das artes, da história, da antropologia entre outros, estas concepções, agora mais amplas e associadas às mais diferentes possibilidades patrimônio e memória por meio das expressões imateriais, passaramtambém a compor as publicações e os documentos emitidos tanto pela Unesco, como pelo ICOMUS e pelo Iphan. No Brasil, desde a criação do SPHAN, no ano de 1937 e ao longo do século XX, foram empreendidos esforços preservacionistas mais significativos em espaços com edificações em centros históricos e que remontam o período colonial e imperial, como, por exemplo: disso tem-se os tombamentos realizados em cidades do litoral brasileiro e no interior do estado de Minas Gerais, evidenciando uma forte preocu- pação com o processo de ocupação do território, com a colonização europeia, ao ciclo econômico do ouro e da presença do estilo artístico-arquitetônico do barroco. Foi nas últimas décadas do século XX e primeiros anos do século XXI que o Iphan, por meio dos projetos e processos institucionais de inventários e tomba- mento mais recentes, em especial com o Livro de Registro dos Lugares, registrou os seguintes espaços como lugares de memória: • Cachoeira de Iauaretê – Lugar Sagrado dos Povos Indígenas dos Rios Uaupés e Papuri. • Feira de Caruaru, Tava, que é lugar de Referência para o Povo Guarani. • Feira de Campina Grande/PB. FIGURA 6 – FEIRA DE CAMPINA GRANDE/PB FONTE: <https://bit.ly/30y7zoh>. Acesso em: 1º maio 2020. TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 163 A Feira de Campina Grande, na Paraíba, é conhecida como a feira em que ‘de tudo se encontra’. É formada por 75 mil metros quadrados mais as atividades que envolvem e alcançam as imediações. A feira ocorre de segunda à sábado e é possível encontrar desde cereais, hortaliças, frutas, ervas, doces, flores, carnes, animais (abatidos ou vivos), roupas, artesanatos, comida local e regional, bem como mestres fazedores de selas e balaios, fabricantes de calhas (bicas), bucheiros/tripeiros, vendedores ambulantes, raizeiros, barbeiros entre outros. A feira também é palco de diversas apresentações musicais e artísticas como de repentistas, forrozeiros, emboladores de coco, violeiros entre outros. A Feira constitui um lugar de criação, expressão, referência e sociabilidade da identidade do povo do nordeste. A existência da feira remonta ao século XVIII e ao longo de sua história sofreu mudanças de local bem como impacto dos projetos de modernização urbana. Ocorrem diversos casos em que os participantes registram que se deu a transmissão/continuidade entre as gerações do ramo/atividade exercida, como de ponto/local de venda e até das próprias famílias de fregueses. 3.1 CELEBRAÇÕES, RITUAIS E PRÁTICAS RELIGIOSAS Para Cheuíche (1995) a religião é responsável por fornecer orientação no que tange a criação/origem e o sentido da vida, faz parte dos processos de humanização e autorrealização. Exerce influência determinante em meio às mais diferentes culturas e sociedades, geralmente ocupando espaço privilegiado, exercendo influência decisiva nos sistemas culturais. Valla (2001, p. 33) explica que: [...] o campo religioso popular brasileiro é diversificado e bastante sincrético. Diversas vertentes, advindas de continentes e tradições diferentes, concorrem para a formação das religiões populares no Brasil. Essa diversidade religiosa que se manifesta nas fronteiras das religiões também pode ser observada no próprio interior das próprias tradições religiosas. Berger (1973) explica que no campo religioso, a festa, tanto a sagrada como a profana, é responsável por celebrar e reconciliar os indivíduos com a vida. A festa é responsável por suspender e romper com o ritmo do cotidiano, permite que se entre no ritmo e no tempo mítico, que se experimente a eternidade, as manifestações do divino; possibilita a vivência, a partilha, a fraternidade, a manifestação da fé e das emoções, bem como a troca de afetos. As festas e as celebrações são responsáveis por alimentar e renovar as manifestações religiosas e as tradições e em especial transmiti-las às novas gerações. A partir dos trabalhos de inventários, registros e tombamentos foram UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 164 inscritas inúmeras celebrações e práticas religiosas. No Livro de Registro das Celebrações, constam: • Círio de Nossa Senhora de Nazaré/PA/AP/AC. • Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis/GO. • Ritual Yaokwa do Povo Indígena Enawene Nawe/MT. • Festa de Sant´Ana de Caicó/RN. • Complexo Cultural do Bumba meu boi do Maranhão/MA. • Festa do Divino Espírito Santo de Paraty/RJ. • Festa do Senhor Bom Jesus do Bonfim/BA. • Festividades do Glorioso São Sebastião na Região do Marajó/PA. • Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio em Barbalha/CE. • Romaria de Carros de Bois da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade/GO. • Procissão Nosso Senhor dos Passos em Florianópolis/SC. • Complexo Cultural dos Bois Bumbás do Médio Amazonas e de Parintins/AM. FIGURA 7 – PROCISSÃO NOSSO SENHOR DOS PASSOS/FLORIANÓPOLIS/SC FONTE: <https://bit.ly/2DAngSH>. Acesso em: 28 mar. 2020. TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 165 FONTE: <https://bit.ly/33wjV1N>. Acesso em: 28 mar. 2020. FIGURA 9 – BOIS BUMBÁS DE PARINTINS/AM FONTE: <https://bit.ly/3gynIzo>. Acesso em: 28 mar. 2020. FIGURA 8 – FESTA DE SANT´ANA.CAICÓ/RN UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 166 FIGURA 10 – ROMARIA DE CARROS DE BOIS DA FESTA DO DINO PAI ETERNO DE TRINDADE/GO FONTE: <https://bit.ly/30tpKeI>. Acesso em: 13 maio 2020. 3.1.1 O Ritual Yaokwa do povo indígena Enawene Nawe/ MT O Ritual Yaokwa do Povo Indígena Enawene Nawe da região noroeste do Mato Grosso representa uma das mais longas e importantes tradições do calendário daquelas populações. FIGURA 11 – YAOKWA DO POVO INDÍGENA ENAWENE NAWE/MT FONTE: <https://bit.ly/2DmYaqI>. Acesso em: 28 mar. 2020. TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 167 A tribo é dividida entre os Harikane (responsáveis pelos rituais) e os Yaokwa (os pescadores). O ritual conta com a duração de sete meses e é responsável por dar início ao novo ano da tribo. Os trabalhos começam em janeiro, com a colheita da mandioca e com a coleta de cascas de árvores e cipós que serão utilizadas na confecção das armadilhas de pesca. É o momento também em que são feitos oferendas, cantos e danças aos Yakairiti — os temidos seres naturais que habitam o patamar subterrâneo. Outra parte significativa do ritual começa quando os Yaokwa saem para realizar a pesca coletiva de barragem, que por sua vez devem trazer grandes quantidades de peixes para serem oferecidos aos Yakairiti, para que estes não se voltem contra a tribo. Os rituais se estendem ao longo do ano. Os rituais, em qualquer sociedade que ocorram, seja indígena, aborígene, judaica, islâmica, cristã entre outros; geralmente são realizados para organizar e ordenar os fatos e fenômenos do cotidiano, da vida social, cultural, política, religiosa da comunidade. Os rituais consagram o local, a data, orientam a experiência e a percepção, posicionam as condutas e os comportamentos, sistematicamente promovem controle, coesão, pertencimento, acolhimento e aceitação. Graças ao hábito da formalização, da repetição, da identificação, do reconhecimento e da transmissão, os rituais costumam atravessar as épocas históricas e as diferentes gerações. Os rituais não somente podem se referir aos eventos que ocorrem nos contextos de celebrações ou associados aos grupos religiosos, militares, escolares, familiares, como também são amplamente utilizados para atribuir autoridade e legitimação à determinadas pessoas, lugares, expressões, manifestações e performances nas mais diferentes esferas da sociedade e da cultura. Os ritos de passagem dizem respeito aos processos e trabalhos, cerimônias especiais que marcam, que consagram a transição e/ou mudança de status de um indivíduo dentro de um determinado contexto, grupo e/ou sociedade. Dentre os principais ritos de passagem estão os ritos relacionados ao nascimento, ao casamento e ao falecimento que praticamente existem em todas as tradições religiosas. Van Gennep (1960), descreve que os ritos de passagemde modo geral encontram-se divididos em três modalidades: ritos de separação, ritos de margem e ritos de agregação. Os ritos de separação destinam-se a marcar e distinguir as normas, os valores, as práticas do antigo e do novo campo social; exemplo de ritos que enfatizas a separação são os ritos fúnebres. Os ritos de margem ou transição dizem respeito aos processos e eventos formativos destinados ao aprendizado de novas normas, valores ao novo status do sujeito, em especial novos comportamentos e habilidades à assimilação de uma nova identidade. Um exemplo de rito de margem pode ser reconhecido na presença de um pórtico na entrada de uma cidade. Simbolicamente, o pórtico separa as leis gerais que recaem à toda região das leis específicas daquela cidade; UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 168 neste contexto, a função do pórtico é a de informar e comunicar que a partir daquela edificação existem leis e regras que são específicas daquela cidade. Os ritos de agregação ou incorporação, consistem nos trabalhos e atividades de entrada, de fechamento, de conclusão, de demonstração da absorção completa por parte do indivíduo ao novo status e do reconhecimento disto por parte do grande grupo; um exemplo de rito que enfatiza a agregação é o nascimento. 3.1.2 Atividades didático-pedagógicas com rituais iniciáticos e de passagem Caro acadêmico, como sugestão de atividades didático-pedagógicas nos espaços escolares para o tema de ritos de passagem é possível construir uma linha do tempo e/ou trajetória sobre os rituais/ritos e passagens que os estudantes já realizaram e os que ainda precisaram realizar tanto para completar/concluir o ciclo/estágio em que se encontram bem quanto para ter acesso aos níveis e estágios seguintes. Para favorecer o entendimento de como deve ser preenchido o quadro, procurou-se descrever os principais estágios dentro da tradição religiosa cristã católica, observe o esquema a seguir, e lembre-se de ajustá-lo e adaptá-lo à cada uma das instâncias, níveis e em especial à realidade dos estudantes: TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 169 N ÍV EI S/ IN S- TÂ N C IA S IN ÍC IO /E N TR A D A A PR ES EN TA Ç Ã O C O N FI RM A Ç Ã O PR O G RE SS Ã O /N Í- V EI S ES TA BI LI ZA Ç Ã O SA ÍD A FA M ÍL IA RE LI G IÃ O Tr ad iç ão re lig io sa c ri st ã ca tó lic a Pa rt ic ip aç ão re gu la r d a fa m íli a na c om un id ad e e cu m pr im en to d os sa cr am en to s, p ar ti- ci pa çã o de m is sa s e de m ai s at iv id ad es re la ci on ad as , p ag a- m en to d e dí zi m o. BA TI SM O : c ur so d e pa is e p ad ri nh os , r ea - liz aç ão d e m is sa e sp e- cí fic a pa ra o s ba tis m os da d o re cé m -n as ci do ou c ri an ça , n a qu al de ve m e st ar p re se nt es a fa m íli a, o s p ad ri nh os e a co m un id ad e. EU C A RI ST IA : c ur so de fo rm aç ão e sp e- cí fic a. C el eb ra çã o re lig io sa co m m is sa c om a ap re se nt aç ão d o pr é- ad ol es ce nt e, ac om pa nh ad o da fa - m íli a e em p re se nç a da c om un id ad e. C RI SM A : c ur so d e fo rm aç ão e sp ec ífi ca : Ri tu al d e ce le br aç ão re lig io sa c om m is sa , pa rt ic ip aç ão d o ad ol es ce nt e, a co m pa - nh ad o de p ad ri nh os , do s fa m ili ar es e n a pr es en ça d a co m un i- da de . C A SA M A N TO : cu rs o de n oi vo s, ce le br aç ão re lig io sa de m is sa c om a pa rt ic ip aç ão d e pa - dr in ho s, d a fa m íli a e da c om un id ad e. M O RT E: b en çã o fo rn ec id a pe lo pa dr e de no m in a- da d e U nç ão d os en fe rm os /m or - to s e/ ou b en çã o fin al , r ea liz aç ão de v el ór io , m is sa de s ep ul ta m en to e do e nt er ro e m ce m ité ri o; m is sa de s ét im o di a. ED U C A Ç Ã O ES PO RT ES FONTE: A autora QUADRO 1 – PRINCIPAIS ESTÁGIOS E RITOS/PASSAGENS UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 170 Caro acadêmico, procure preencher cada um dos espaços com a situação de concluído, em andamento, e/ou interrompido, bem como com informações do nome/título da etapa/fase que é atribuído ao rito propriamente dito. É possível também trabalhar com uma espécie de memorial descritivo sobre cada um dos ritos, no qual o estudantes relatam como ocorreram as cerimônias (início, desenvolvimento e conclusão), quem as conduzia, que papéis desempenhavam, quem eram os participantes, que homenagens e festejos foram feitos, sobre os locais, a presença de alimentos, músicas, danças entre outros. 3.2 PROCISSÕES E ROMARIAS Sanchis (1997) explica que as romarias ocorrem a partir de um conjunto mítico-ritualístico de cunho cristão; constituem fenômenos e locais que justificam os quadros reguladores e discriminatórios das instituições que os promovem e que costumam ser locais em que também se apreciam e prestigiam costumes, tradições e as mais variadas relações humanas. Cordeiro (2008, p. 3) define que: As romarias enquanto eventos religiosos encerram em si um sentido de busca na medida em que se constituem ritos de passagem do comum para o extraordinário, do cotidiano para o excepcional. Embora se revistam de um caráter individual – já que cada peregrino refere-se a motivações de foro íntimo, não se trata de trajetória percorrida por indivíduos isolados, mas do universo simbólico criado coletivamente como reflexo de processos sociais mais abrangentes, na medida em que a experiência religiosa da romaria se fundamenta em princípios introjetados, levando o indivíduo a adotar, juntamente com o grupo do qual faz parte, um universo de simbologias, cujos sentidos direcionam formas de viver e entender o mundo. Araújo (2009) descreve também que aqueles que se dirigem e participam das procissões e romarias, esperam por algo em troca, levam consigo uma prece, um pedido que almejam alcançar ou realizar, ou se encontram no momento do pagamento, cumprindo de uma promessa que havia sido feita. Araújo (2009, p. 49) explica que “quando o romeiro ou peregrino deixa seu lar, sai de seus hábitos, do seu cotidiano, impondo a si mesmo a penitência de uma caminhada relativamente cansativa, ele entra em contado e em comunhão com outros caminhantes”. Dito de outro modo, as procissões e as romarias oportunizam um espaço que favorecem a convivência com outros caminhantes e o reconhecimento de que existe um objetivo comum em meio aos muitos desconhecidos. Caro acadêmico, a seguir, procura-se apresentar algumas das principais romarias que ocorrem no Brasil, as quais foram responsáveis por favorecer as TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 171 formações das peregrinações religiosas, queira prosseguir com a leitura. 3.2.1 Romaria de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida do Norte/SP Oliveira (2008, p. 78) descreve que, em 12 de outubro de 1717, “os pescadores João Alves, Domingos Garcia e Felipe Pedrosa, recolheram numa rede de pesca no Rio Paraíba, uma pequena imagem de uma santa em cerâmica, com 30 centímetros de tamanho”. A partir deste fato a vizinhança passou a reunir-se para orar em homenagem à Santa e gradualmente a devoção passou a aumentar. Dentro de poucos anos foi construído um oratório junto ao Porto de Itaguaçu, no Rio Paraíba e, no ano de 1734, a pedido do vigário local e com esmolas dos romeiros, foi construída a primeira capela. A procura e a visita de devotos foi se intensificando. No ano de 1834 foi dado início à construção de uma igreja maior, a Basílica Velha como era conhecida, que foi inaugurada em 8 de dezembro de 1888. Böing (2007) descreve que no ano de 1904, a princesa Isabel doou uma coroa de ouro e pedraspreciosas à Santa, e que em 1930 a Santa foi proclamada a Padroeira do Brasil. A nova basílica teve a pedra fundamental lançada em 10 de setembro de 1946, porém a construção foi iniciada somente no ano de 1955. Com a nova estrutura, o local passou a ser considerado o maior Santuário Mariano do mundo. No ano de 1980, a altar da Basílica Nova, foi consagrado pelo Papa João Paulo II. FIGURA 12 – SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA APARECIDA FONTE: <https://bit.ly/3a0zhgq>. Acesso em: 1º mar. 2020. UNIDADE 3 — EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: 172 O santuário recebe anualmente aproximadamente 12 milhões de peregrinos. A data do dia 12 de outubro é considerada a data de maior procura e mobilização de fiéis no local. A agenda de atividades religiosas que os fiéis podem desfrutar ao ir ao Santuário de Aparecida consiste em: participação de missas, visitação da imagem e da sala de promessas, realização de orações, acender velas, fazer preces e pagar promessas. Além disso os romeiros também podem visitar outros locais como por exemplo o Museu Nossa Senhora Aparecida, o Mirante, o Memorial da Devoção, o Nicho, o Bondinho, Morro do Cruzeiro, Memorial Redentorista e o Porto Itaguaçu. Acesse o site do Santuário Nacional Aparecida, disponível no endereço a seguir: https://www.a12.com/santuario/noticias. DICAS 3.2.2 Romaria do Pe. Cícero, em Juazeiro do Norte/CE Reeber (2002) explica que a romaria de Juazeiro do Norte, no estado do Ceará, surgiu em torno do sacerdote católico Pe. Cícero. Cícero Ramão Batista nasceu na cidade de Crato, em 24 de março de 1844. Juazeiro foi a cidade em que Padre Cícero concedeu a primeira missa e onde veio a falecer aos 90 anos de idade, em 20 de julho de 1934. Quando dos 20 anos de sacerdócio na comunidade, Pe. Cícero testemunhou o primeiro milagre, que consistiu na transformação de uma hóstia em sangue na boca de uma devota. O milagre ocorreu depois de horas de oração e jejum no período da Quaresma, período que antecede a Páscoa. O fato curioso é que o milagre voltou a acontecer outras vezes com a mesma beata. A notícia do ocorrido logo se espalhou pela região e o padre passou a ser procurado por um número cada vez maior de féis. ‘Padim Ciço’, como também Pe. Cicero foi chamado pelos devotos, se dedicou à muitos projetos e obras na cidade e região, tais como: doou terras à construção do primeiro campo de futebol e aeroporto; construiu as Capelas do Socorro, de São Vicente e a Igreja de Nossa Senhora das Dores (atual Basílica Menor); ajudou na fundação do O Rebate, o primeiro jornal da cidade; fundou a Associação dos Empregados do Comércio e o Apostolado da Oração; incentivou o artesanato artístico e utilitário como fonte de renda, a instalação do ramo de ourivesaria (arte de trabalho com materiais preciosos), a instalação da Escola Normal Rural, o Colégio Salesiano e o Orfanato Jesus Maria José; e sempre se colocou ao lado da população nas situações de secas e epidemias. TÓPICO 1 — SABERES, CELEBRAÇÕES E LUGARES DE MEMÓRIA 173 FIGURA 13 – ROMARIA DE PADRE CÍCERO FONTE: <https://bit.ly/2EVDAOD>. Acesso em: 1º mar. 2020. A Romaria de Padre Cícero ocorre desde o ano de 1889, é um evento que acontece, todos os anos, na semana de 24 de maço, data de aniversário de Pe. Cícero, e é responsável por reunir aproximadamente 500 mil pessoas. Além das atividades de homenagens ao Padre, os romeiros podem prestigiar também apresentações musicais, teatrais, danças, queima de fogos, shows, exposições, procissão de flores e degustar de um bolo que conta com quase 200 metros. Conheça Projeto Híbridos: religiosidades e ritualísticas do Brasil, disponível em: https://hibridos.cc/po/rituals/padre-cicero/. DICAS 3.2.3 Romaria do Bom Jesus da Lapa, em Bom Jesus da Lapa/BA No sertão baiano, cerca de 900 quilômetros de Salvador, nas margens do rio São Francisco, encontra-se o santuário do Bom Jesus da Lapa. Trata-se de um dos santuários mais celebrados pelos sertanejos de peregrinação popular. No livro Os Sertões de Euclides da Cunha, publicado no ano de 1902, o autor se referia a cidade de Bom Jesus da Lapa como a ‘Meca dos sertanejos’. 174 Tudo começou quando o monge Francisco Mendonça Mar, também conhecido como Padre Francisco da Soledade, chegou na região e edificou um pequeno santuário com a imagem do Bom Jesus. Com o tempo os devotos que procuravam o local passaram a construir suas moradias na região. O monge também cuidava de pobres e doentes e aos poucos construiu, junto ao santuário, um hospital e um asilo. FIGURA 14 – ROMARIA DO BOM JESUS DA LAPA/BA FONTE: <https://bit.ly/2F1lM4z>. Acesso em: 1º mar. 2020. A Romaria de Bom Jesus da Lapa, é considerada a terceira maior romaria do país. Ocorre na primeira semana de agosto, especificamente no dia 6, e as atividades se estendem até o dia 15 de setembro, quando se dá a festa de Nossa Senhora da Soledade. Reúne aproximadamente 600 mil peregrinos, chegando até um milhão entre as datas que antecedem e sucedem ao evento oficial da romaria. Dentre as principais atividades oferecidas aos romeiros encontra-se novenários e procissões. 3.2.4 Atividades didático-pedagógicas com fenômenos religiosos Caro acadêmico, expressões religiosas, como romarias, podem ser abordadas por meio de projetos interdisciplinares que envolvem também os professores das disciplinas de ensino religioso, filosofia e sociologia. No que tange à disciplina e aos conteúdos de História, sugira aos estudantes identificarem na 175 própria cidade e/ou região a ocorrência de fenômenos de devoção religiosa, bem como a presença de locais como santuários, grutas, capelas, romarias entre outros. A partir da identificação dos fenômenos e locais é possível desenvolver estudos e pesquisas para os seguintes pontos: • Surgimento da devoção, bem como de fatos associados à história da cidade, do desenvolvimento da cidade, e as relações com outras atividades na comunidade e região. • Identificação dos locais e marcos fundantes como santuários, grutas, capelas, demais edificações, monumentos, museus, memoriais entre outros que se referem à romaria ou ao fenômeno de devoção. • Entrevistas orais com antigos devotos que acompanham a romaria desde muitas edições, com fiéis que tiveram preces e milagres alcançados e/ou que vivenciaram algum fenômeno relacionado. • Acompanhamento das atividades da romaria ou do fenômeno religioso, obtendo informações sobre a programação, as atividades que fazem parte da romaria e as que são paralelas, mas que se destinam a atender aos romeiros. • Registros fotográficos das principais atividades e momentos da romaria ou do fenômeno religioso. • Entrevistas/questionários com os romeiros e/ou pessoas que estiveram trabalhando na romaria. Os estudantes podem ser divididos em grupos de trabalho conforme as variáveis anteriores e os resultados podem ser socializados junto ao grande grupo. Procure consultar a direção da escola sobre a possibilidades de elaboração de um mural na sala de aula o no interior do espaço da escola no qual sejam expostos os resultados dos estudos, pesquisas e trabalhos realizados. Caro acadêmico, devido às crenças religiosas dos estudantes e de seus familiares, pode ser que surja alguma incompatibilidade religiosa ou oposição por parte dos estudantes com relação a proposta de atividade com os fenômenos religiosos tomados aos estudos e as tradições religiosas praticas pelos estudantes e seus familiares. Diante disso, procure conduzir a atividade de uma forma que os estudantes se sintam e desempenhem o papel de pesquisadores/investigadores de um fenômeno de natureza religiosa, enfatizando que não há necessidade de que estes se identifiquem ou simpatizem com esses fenômenos, apenas que tolerem, respeitem e reconheçam a importância histórica, social, econômica e religiosa que o mesmo possui à comunidade, à cidade e região. Caso a situação não se dissolva dessa forma e persista, sem manifestar maiores agravantes procure encaminhar umaatividade paralela aos estudantes que assim preferirem. 176 3.3 OS ESPAÇOS DE CEMITÉRIOS Em meio às sociedades ocidentais contemporâneas o tema da morte e os espaços dos cemitérios ocupam uma posição não bem refletida e resolvida, pois lhes são atribuídos tabus, estigmas e interdições; e em específico aos espaços de cemitérios recai a ideia de que se tratam de locais insalubres, inóspitos e propícios à atos ilícitos. Todavia, ainda nos tempos mais antigos da humanidade, encontram-se vestígios e evidências sobre os hábitos de sepultamento, dos ritos fúnebres, do ato de cobrir os corpos com pedras, sinalizar a existência de um sepultamento, ou seja, lhe atribuir distinção dos demais locais; visitá-los periodicamente, realizar rituais, fazer oferendas, depositar preces e pagar promessas, entre outras manifestações e expressões. Segundo Mumford (1991, p. 13), desde os tempos mais remotos, o respeito do homem pelos mortos é evidente e, “em meio às andanças inquietas do homem paleolítico, os mortos foram os primeiros a ter uma morada permanente: uma caverna, ou uma cova assinalada por um monte de pedras”. E é nesse lugar que, provavelmente, o homem retornava, de tempos em tempos, para “comungar com os espíritos ancestrais”, em sinal de respeito e devoção. Ragon (1981) descreve que o cemitério pode ser considerado a segunda morada, em que o túmulo é a casa e o cemitério é a projeção de um quarteirão, de uma vila ou até mesmo de uma cidade. Para o autor, é nos cemitérios que se repetem os elementos arquitetônicos e paisagísticos presentes nas cidades e onde se reproduz, de fato ou de forma idealizada, a ordem socioeconômica dos vivos. Bittar (2018, p. 195) contribui que: [...] à vista de todos, erguem mausoléus, jazigos, sepulcros, sepulturas, carneiros, catacumbas, gavetas, monumentos funerários suntuosos, verdadeiras obras de arquitetura, diferenciando-se nos tratamentos e epitáfios das populares covas rasas, com suas modestas cruzes em argamassa ou em madeira, com um simples número a identificar o ocupante, jazido sob um discreto mais revelador monte de dois palmos de altura. Por outro lado, os espaços dos cemitérios são portadores de múltiplas linguagens e discursos potenciais nos quais ocorrem manifestações arquitetônicas, artísticas, culturais, de ideologias, crenças religiosas, valores, sentimentos, emoções entre outros. Osman e Ribeiro (2007) explicam que os cemitérios como o Père Lachaise, o Montparnasse e o Montmartre na França; os Highgate e Golders Green Crematorium na Inglaterra, o da Recoleta, em Buenos Aires, na Argentina; os cemitérios brasileiros, da Consolação e do Morumbi, em São Paulo e, São João Baptista, no Rio de Janeiro constituem locais para os quais milhares de pessoas 177 se dirigem todos os anos, seja nas datas relacionadas ao Dia de Finados, a Sexta- Feira Santa; nas datas em que se comemora o dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, ou visitas à jazigos devocionais. Osman e Ribeiro (2007, p. 3) ainda contribui que: Como ponto turístico consolidado nos mais diferentes países do mundo, os cemitérios atraem romarias de visitantes interessados em conhecer túmulos de personalidades mundiais da literatura, das artes, da política, da história como também para apreciar túmulos e jazigos que podem ser vistos como verdadeiras obras de arte. Além de sua importância histórica, os cemitérios são ainda vistos como locais por onde se podem percorrer jardins arborizados, alamedas floridas e desfrutar de momentos de paz e tranquilidade como numa ilha no meio do caos urbano das grandes cidades. Tal percepção favoreceu, também, com que outras cidades como Curitiba, Belo Horizonte, Passo Fundo no Brasil, Arlington nos Estados Unidos, países como Portugal, Itália e Alemanha incluíssem seus cemitérios nos mapas, guias e roteiros turísticos. Os cemitérios das comunidades rurais geralmente localizam- se ao lado das Igrejas e comunidades religiosas, ao longo das principais estradas o que, por sua vez, favorece ampla visão pela linha de horizonte na qual cadeias de montadas compõem a paisagem cultural e natural. Todavia, as paisagens que acompanham os cemitérios encontram- se em perigo diante do fato de que não existem legislações que garantam o amortecimento das edificações ou resguardam a paisagem e a visualidade destes locais, a curto e médio prazo, com a expansão da urbanidade e de edificações verticais poderão provocar interferências no desfrute da paisagem que os cemitérios proporcionam. Lima (1994) descreve que as sepulturas e todo o aparato que as acompanha permanecem, na quase totalidade, nas primitivas posições sem que ocorram alterações significativas ao contexto original e isto acaba por propiciar uma configuração ímpar em termos de controle de dados. Sendo assim, os cemitérios convencionais contam com jazigos cujas edificações arquitetônicas e a presença de lápides fornecem dados datáveis com precisão para nascimentos e falecimentos, informações biográficas dos indivíduos e das famílias falecidas; é possível também encontrar a presença de epitáfios, que contam com mensagens e estatuária disposta sob os jazigos, que versam sobre as referências do repertório religioso, artístico e cultural dos sepultados. Cymbalista (2001) discute que as edificações dos jazigos e a estatuária não são espontâneas e nem gratuitas, antes representam texto e pretexto, possuem linguagens capazes de produzir e reproduzir discursos e ideologias acerca da morte e da vida. Borges (2002) explica que existem interferências que, a pedido dos familiares, são realizadas por arquitetos e artistas plásticos e que se caracterizam pela inserção de obras de arte, em especial esculturas modernas e contemporâneas. 178 Fochi (2016) defende que os espaços de cemitérios e as questões pertinentes ao tema da morte representam e constituem tema de pesquisa e debate que devem ser pensados em toda a sua densidade de forma integrada aos campos da memória, patrimônio, cultura e sociedade como um todo e numa dimensão interdisciplinar e transversal da produção do conhecimento. Os temas de morte e cemitérios podem possibilitar pesquisas sobre temas populacionais e qualidade de vida, causas mortis, epidemias, de meio ambiente e sustentabilidade, urbanização e planejamento urbano, entre outras pesquisas. Dentre os cemitérios brasileiros que são tombados pelo Iphan, destacam-se: • Cemitério de Santa Isabel de Mucugê/BA. • Portão do Cemitério de Arez/RN. • Cemitério do Batalhão/PI. • Cemitério da Soledade/PA. • Cemitério do Imigrante de Joinville/SC. 3.3.1 Cemitério de Santa Isabel de Mucugê/BA O Cemitério Santa Isabel (1855) fica situado na cidade de Mucugê, no interior da Chapada Diamantina. O Cemitério foi criado pela Câmara Municipal da então Santa Isabel do Paraguaçu, diante da grande mortalidade provocada pela epidemia de cólera da época. FIGURA 15 – CEMITÉRIO DE SANTA ISABEL E MUCUGÊ/BA FONTE: <https://bit.ly/3kAbUiO>. Acesso em: 1º mar. 2020. 179 FIGURA 16 – CEMITÉRIO DE SANTA ISABEL E MUCUGÊ/BA FONTE: <https://bit.ly/31xEMiQ>. Acesso em: 1º mar. 2020. Uma das partes do cemitério contém túmulos instalados sobre pedras, construídos de tijolos, revestidos de reboco e caiados de branco seguindo um pa- drão muito singular, o que levou a população a denominar o cemitério de ‘cemi- tério bizantino’. Os jazigos não contam com esculturas, ocorrem poucos relevos esculpidos, os epitáfios mais antigos datam dos anos de 1909 e 1915. O cemitério foi tombado pelo Iphan no ano 1980 e encontra-se em pleno funcionamento. 3.3.2 Atividades didático-pedagógicas com espaços de cemitérios Caro acadêmico, a seguir, apresenta-se algumas possibilidades de atividades de educação patrimonial e de ensino-aprendizagem que podem ser realizadas com os espaços de cemitérios. Para as atividades como de visitas a cemitérios, sugere-se que seja realizado um estudo sobre a criação/abertura do cemitério em questão, no sentido de identificar