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tratamento da capsulite adesiva do ombro pelo bloqueio no n. supra-escapular associado ao uso de corticoide

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Tratamento da capsulite adesiva do ombro
pelo bloqueio do nervo supra-escapular,
associado ao uso de corticóide*
SÉRGIO L. CHECCHIA1, PEDRO DONEUX S.2, EDGARDO MARTINEZ P.3,
CARLOS M. GARCIA S.3, HÉLIO P. LEAL3
RESUMO
Existem evidências de que a capsulite adesiva (CA)
do ombro é um transtorno relacionado a alteração do sis-
tema nervoso autônomo, localizado na região do ombro.
A inervação autônoma e sensitiva do ombro é dada prin-
cipalmente pelo nervo supra-escapular. Os bloqueios sim-
páticos levam a bons resultados no tratamento das algo-
distrofias e, portanto, o bloqueio seletivo do nervo supra-
escapular poderia levar a bons resultados no tratamento
da CA. Treze pacientes (14 ombros) foram tratados e ava-
liados prospectivamente com bloqueios do nervo supra-
escapular a intervalos de três semanas, técnica simples e
ambulatorial. Os corticóides foram utilizados como anti-
inflamatórios e de maneira a não interferir com o meta-
bolismo normal desta substância. O sistema de avaliação
escolhido foi o UCLA e os movimentos articulares foram
medidos segundo a orientação da AAOS. O seguimento
médio foi de dez meses e os resultados obtidos foram clas-
sificados como quatro excelentes, cinco bons, quatro regu-
lares e um ruim. O bloqueio do nervo supra-escapular é
um método eficaz para o tratamento da capsulite adesiva,
pois diminuiu a dor rapidamente e proporcionou exce-
lentes e bons resultados em 71,5% dos pacientes tratados.
Unitermos - Ombro – sistema nervoso autônomo; capsulite adesi-
va - tratamento; nervo supra-escapular – bloqueio
anestésico.
*
1.
2.
3.
Trab. realiz. pelo Grupo de Ombro do Dep. de Ortop. e Traumatol. da
Santa Casa de Miseric. de São Paulo (Diretor: Prof. Dr. José Soares Hungria
Neto).
Chefe do Grupo de Ombro.
Assistente do Grupo de Ombro.
Estagiário do Grupo de Ombro.
Rev Bras Ortop - Vol. 29, Nº 9 – Setembro, 1994
SUMMARY
Treatment of frozen shoulder by suprascapular nerve block
associated to corticosteroid use
It is supposed that the frozen shoulder is a condition re-
lated to some localized dysfunction of the sympathetic ner-
vous system. The sensitive and sympathetic innervations of
the shoulder are made mostly through the suprascapular
nerve. If anesthetic blocks of the sympathetic system are used,
with good results, to treat its dysfunctions, a selective supra -
scapular nerve block could give the same results in the treat-
ment of the frozen shoulder. Fourteen shoulders in 13 pa-
tients had been prospectively treated and evaluated by these
simple blocks, in an outpatient clinic basis, every 3 weeks. The
corticosteroids were used only as anti-inflammatory drugs,
and the UCLA rating system was used to access the final
results. The mean follow-up was 10 months. The authors obtai-
ned 4 excellent, 5 good, 4 fair and 1 poor result. The supra-
scapular nerve block is an effective method to treat the fro-
zen shoulder as far as it relieved the patients’ pain rapidly
and gave excellent and good results in 71.5% of them.
Key words – Shoulder – autonomous nerve system; frozen shoulder –
treatment; suprascapular nerve -- anesthetic block.
INTRODUÇÃO
Dentre as diversas doenças de etiologia desconhecida
que afetam o corpo humano, a capsulite adesiva (CA) tem
importância pela sua relativa freqüência, dor muitas vezes
incapacitante, limitação prolongada ou permanente da fun-
ção e pela dificuldade de obter resultados satisfatórios e cons-
tantes com os métodos de tratamento até então conhecidos.
Duplay (22), em 1872, em seu artigo intitulado “A respei-
to da periartrite escapulumeral e da rigidez do ombro como
627
S. L. CHECCHIA, P. DONEUX S., E. MARTINEZ P. , C.M. GARCIA S. & H.P. LEAL
sua conseqüência” , é quem descreve pela primeira vez esta
doença. Salienta que o problema se deve a aderências das es-
truturas pericapsulares ao músculo deltóide e preconiza que
o tratamento deve ter como objetivo a liberação destas; isso
seria obtido através da manipulação sob narcose, método este
descrito originalmente neste trabalho e utilizado até os dias
de hoje por inúmeros autores ( 1 5 , 1 9 , 2 2 , 4 0 , 4 4 , 5 3 , 5 6 , 5 7 , 6 7 , 6 8 , 7 0 , 7 2 , 7 6 ) .
Klapp & Riedel(39)(1916) pela primeira vez imputam a
cápsula articular como a sede do problema, sendo que Nevia-
ser
(54)
, em 1945, dissecando vários cadáveres, confirmou o
espessamento e a retração da mesma, além de sinais de pro-
cesso inflamatório localizado, chamando então essa doença
de “capsulite adesiva”. O mesmo autor, em 1962(55), descreve
os achados artrográficos da CA, observando diminuição do
volume articular, com obliteração do recesso axilar e da bursa
subescapular; recomenda este exame como teste diagnóstico
importante para diferenciar a CA verdadeira de outras cau-
sas de dor e rigidez. Payr (56), em 1931, realiza a distensão hi-
dráulica do tecido capsular retraído através de injeções intra-
articulares, método que é uma das opções de tratamen-
t o( 2 , 2 5 , 3 5 , 4 0 , 4 4 , 5 7 ) .
Codman(14), em 1934, denomina esta entidade de “om-
bro congelado” e a atribui a uma tendinite dos rotadores cur-
tos. Lippman(42)( 1943) atribui a causa a uma tendinite da ca-
beça longa do músculo bíceps, teoria esta popularizada por
De Palma(18), em 1952. Steinbrocker(65), em 1947, pela pri-
meira vez correlaciona a CA a uma disfunção do mecanismo
reflexo neurovascular (como síndrome ombro-mão, distrofia
de Sudeck, etc.), teoria esta aceita por outros autores(37,46,74,) .
McLaughlin (47,48) , em 1951 e em 1961, enfatiza as mui-
tas diferentes causas da CA e salienta a necessidade de tratar
a causa primária. Alerta a respeito das complicações que
podem ocorrer após a manipulação fechada do ombro, pois,
baseado na sua experiência pessoal, encontrou que o tendão
do músculo subescapular, a cápsula articular anterior e a ca-
beça longa do músculo bíceps do braço se rompem rotineira-
mente durante a manobra, podendo inclusive ocorrer fratu-
ras do úmero proximal ou luxação glenumeral. Esta preocu-
pação também é manifestada por De Palma(18) e por Watson-
Jones (75), porém outros autores, como Lundberg(44) e Neer(53),
apesar de referirem que estas complicações poderiam ocor-
rer, consideram a manipulação como um tratamento adequa-
do.
Janda & Hawkins(36)(l993) referem que a manipulação
sob narcose não modifica o curso da doença em pacientes
com diabetes melito.
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Coventry (16), em 1953, enfatiza que a melhor maneira
para se tratar a CA é o diagnóstico precoce, encarando-a como
uma forma de distrofia simpático-reflexa, referindo que se-
ria possível tratar estes casos com bloqueios simpáticos. Su-
gere que alguns pacientes apresentam distúrbios de compor-
tamento, chamando estes distúrbios de “personalidade periar-
trítica”. Mani & col. (46) (1989) e Jeracitano & col.(37) (1992)
demonstram a correlação entre a CA e a disfunção local do
sistema nervoso autônomo (simpático) e isso é verificado pe-
las alterações encontradas na resposta da microcirculação a
estímulos, resposta esta medida pelo sistema neurovegetativo.
Crisp & Kendall(17), em 1955, obtêm bons resultados no
tratamento da CA com infiltrações locais de corticosteróides.
Resultados semelhantes também foram obtidos por vários
autores (6,8,34,66,67,70,78) , porém Murnaghan & McIntosh(51) não
obtiveram os mesmos resultados com este método de trata-
mento.
Lundberg (44)(1969), em importante estudo, analisa 147
casos de CA primária e 69 secundárias. Enfatizando a dife-
rença entre ambas, ressalta que a CA primária difere em mui-
tos aspectos da secundária, porém a retração articular e os
efeitos imediatos da manipulação são os mesmos em ambos
os grupos. Nota que a manipulação sob anestesia aumenta a
velocidade da recuperação dos movimentos, porém não en-
curta a duração da doença, o que também ocorre nos casos
tratados com distensão hidráulica. Faz também excelente
estudo epidemiológico da doença.
Em 1972, Bridgman(11) identifica significativo aumento
da CA em pacientes com diabetes melito, principalmente nos
insulino-dependentes, quando comparados com