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Roteiro Farmaco 1 - Autacoides derivados dos lipídeos - COX 1 e 2. Os lipídeos da membrana fornecem substratos à síntese dos eicosanoides e do fator ativador plaquetário (PAF). Os eicosanoides — metabólitos do araquidonato, inclusive prostaglandinas (PGs), prostaciclina (PGI2), tromboxano A2 (TxA2), leucotrienos (LTs), lipoxinas e hepoxilinas — não são armazenados, mas sim produzidos pela maioria das células quando vários estímulos físicos, químicos e hormonais ativam as acil-hidrolases que tornam o araquidonato disponível. Os derivados da glicerofosfocolina da membrana podem ser modificados enzimaticamente para produzir o PAF, que é formado por um número mais limitado de células, principalmente leucócitos, plaquetas e células endoteliais. Os lipídeos dos eicosanoides e do PAF contribuem para a inflamação, o tônus da musculatura lisa, a hemostasia, a trombose, o trabalho de parto e as secreções gastrintestinais. Várias classes de fármacos, principalmente ácido acetilsalicílico, anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) tradicionais e inibidores específicos da ciclo-oxigenase 2 (COX- 2), como os coxibes, produzem seus efeitos terapêuticos por bloqueio da síntese dos eicosanoides. A biossíntese dos eicosanoides é limitada pela disponibilidade dos substratos e depende principalmente da liberação do AA esterificado no domínio sn-2 pelos fosfolipídeos da membrana celular, ou de outros lipídeos complexos, que ficam expostos às enzimas que sintetizam eicosanoides por meio das acil-hidrolases, principalmente a fosfolipase A2 (PLA2). Estímulos químicos e físicos ativam a translocação Ca2+-dependente da PLA2 citosólica do grupo IVA (cPLA2), que tem grande afinidade pelo AA, até a membrana, onde a enzima hidrolisa a ligação éster sn-2 dos fosfolipídeos da membrana (principalmente fosfatidilcolina e fosfatidiletanolamina), liberando araquidonato. Também existem caracterizadas várias outras isoformas da PLA2 (formas secretória [s] e Ca2+ -independente [i]). Em condições normais (sem estímulos), o AA liberado pela iPLA2 é incorporado novamente às membranas celulares, de forma que a biossíntese dos eicosanoides ocorre em quantidades insignificantes. Embora a cPLA2 predomine na liberação aguda de AA, a sPLA2 indutível contribui para produção de AA em condições de estimulação intensa ou persistente. Depois de ser liberado, parte do AA é metabolizada rapidamente em produtos oxigenados por vários sistemas enzimáticos diferentes, inclusive ciclo-oxigenases (COXs), lipo-oxigenases (LOXs) e CYPs. Algumas etapas da biossíntese descritas antes podem ser inibidas farmacologicamente. A inibição da PLA2 reduz a liberação do ácido graxo precursor e, desse modo, as sínteses de todos os seus metabólitos. Como a PLA2 é ativada pelo Ca2+ e pela calmodulina, esta enzima pode ser inibida pelos fármacos que reduzem a disponibilidade do Ca2+. Os glicocorticoides também inibem a PLA2, mas isto parece ocorrer por indução da síntese de um grupo de proteínas conhecidas como anexinas (antes conhecidas como lipocortinas) que modulam a atividade desta enzima. Os glicocorticoides também hiporregulam a expressão induzida da COX-2, mas não da COX-1. Estudos iniciais demonstraram que o ácido acetilsalicílico e os AINEs impediam a síntese das PGs a partir do AA nos tecidos homogeneizados. Hoje está demonstrado que esses fármacos inibem a molécula da COX, mas não da POX, dos PGs G/H sintetases e, desse modo, a formação dos produtos postanoides subsequentes. Além disso, esses fármacos não inibem as LOXs e podem aumentar a produção dos LTs por desvio dos substratos para as vias metabólicas destas enzimas. Os LTs podem contribuir para os efeitos colaterais GI associados aos AINEs. Os inibidores duplos da COX e da 5-LOX, principalmente a licofelona, estão sendo investigados. Contudo, ainda é preciso definir a interrelação exata entre essas famílias de enzimas. A COX-1 e a COX-2 diferem quanto às suas sensibilidades à inibição por determinados fármacos anti-inflamatórios. Essa observação resultou no desenvolvimento recente dos inibidores seletivos da COX-2, inclusive os coxibes. Alguns autores sugeriram que esses fármacos poderiam ter vantagens terapêuticas em comparação com os AINEs, entre os quais muitos não são seletivos para a COX- 1 ou COX-2. A COX-2 é a isoforma predominante nos tecidos inflamados, ao passo que a COX-1 é a fonte principal das PGs citoprotetoras do trato GI. Dois estudos randomizados com inibidores seletivos da COX-2 demonstraram sua superioridade quanto à segurança GI, quando comparados com os AINEts. Entretanto, hoje, existem evidências convincentes de que os inibidores da COX-2 acarretam vários riscos cardiovasculares, como infarto do miocárdio, acidente vascular encefálico, hipertensão sistêmica e pulmonar, insuficiência cardíaca congestiva e morte súbita cardíaca. O mecanismo responsável por esses riscos pode ser explicado pela supressão das PGs cardioprotetoras derivadas da COX-2, principalmente a PGI2, que é um atenuador geral dos estímulos endógenos — inclusive TxA2 derivado da COX- 1 plaquetária — para a ativação das plaquetas, a proliferação e a remodelagem dos vasos sanguíneos, a hipertensão, a aterogênese e a função cardíaca. Os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são empregados no tratamento da inflamação, da dor e da febre e os fármacos usados para a hiperuricemia e gota. Os AINEs tradicionais (AINEts), mais comumente disponíveis agem inibindo as prostaglandinas sintases (PG) G/H, enzimas conhecidas coloquialmente como ciclo- oxigenases (COX). Supõe-se que a inibição da ciclo-oxigenase 2 (COX-2) medeia em grande parte as ações antipiréticas, analgésicas e anti-inflamatórias dos AINEts, ao passo que a inibição simultânea da ciclo-oxigenase 1 (COX-1) responde em grande parte, mas não exclusivamente, pelos efeitos adversos indesejáveis sobre o trato GI. Os inibidores seletivos da COX-2 (celecoxibe, etoricoxibe, lumiracoxibe), uma subclasse dos AINEs, também são discutidos. O ácido acetilsalicílico, que acetila irreversivelmente a COX, é discutido juntamente com as várias subclasses de AINEts, incluindo os derivados do ácido propiônico (ibuprofeno, naproxeno), os derivados do ácido acético (indometacina) e os ácidos enólicos (piroxicam), todos competindo de modo reversível com o ácido araquidônico (AA) como substrato do local ativo da COX- 1 e da COX-2. O paracetamol (acetaminofeno) é um antiinflamatório muito fraco, sendo eficaz como antipirético e analgésico em doses típicas que inibem parcialmente as COX. O paracetamol tem menos efeitos colaterais gastrintestinais que os AINEts. A biossíntese de prostanoides é significativamente aumentada em tecidos inflamados. Inibidores da COX, que deprimem a formação de prostanoides, são agentes anti-inflamatórios eficazes e amplamente utilizados, destacando o papel geral de prostanoides como mediadores pró-inflamatórios. A rápida indução de COX- 2 em tecidos inflamados e células infiltrantes serviram de justificativa para o desenvolvimento de inibidores seletivos da COX-2 para o tratamento da inflamação. Embora COX-2 seja a principal fonte de prostanoides pró-inflamatórios, a COX-1 também contribui. Ambas as isoenzimas COX são expressas em células inflamatórias circulantes ex vivo, e COX-1 é responsável por aproximadamente 10-15% da formação de PG induzida por lipopolissacarídeos em voluntários. As respostas inflamatórias deficientes têm sido relatadas nos modelos murinos deficientes de COX- 1 e COX-2, embora haja divergências entre elas quanto ao curso de tempo e intensidade. Os dados em humanos são compatíveis com o conceito de que os produtos derivados da COX-1 desempenham um papel dominante na fase inicial de uma reposta inflamatória aguda, enquanto COX-2 é suprarregulada em e algumas horas. 2 - Mecanismo de ação dos AINES. Os AINEs são tradicionalmente agrupados porsuas características químicas. Após o desenvolvimento dos inibidores seletivos da COX-2, surgiu a classificação em AINEts, que inibem tanto COX-1 quanto COX-2, e AINEs seletivos para COX-2. Inicialmente, apenas agentes projetados especificamente para a finalidade de inibição seletiva de COX-2 — coloquialmente chamados de coxibes — foram atribuídos ao grupo de AINEs seletivos para COX-2. No entanto, alguns AINEs mais antigos (p. ex., diclofenaco, meloxicam, nimessulida) mostram um grau de seletividade para COX-2 semelhante ao do primeiro coxibe, celecoxibe. Assim, esses fármacos poderiam ser mais bem classificados como AINEs seletivos para COX-2, embora este não seja, por enquanto, comum (Figura 34-1). Outras classificações de AINEs foram desenvolvidas com base na meia-vida, tais como aqueles com meias-vidas mais curtas (< 6 h) ou mais longas (> 10 h). A maioria dos AINEs é de inibidores ativos locais competitivos, reversíveis das enzimas COX. No entanto, o ácido acetilsalicílico acetila as isoenzimas e inibe-as de maneira irreversível; assim, o ácido acetilsalicílico frequentemente é distinguido dos AINEts. Da mesma maneira, o paracetamol, que é antipirético e analgésico, mas desprovido de atividade anti-inflamatória, também é convencionalmente segregado do grupo, apesar de compartilhar muitas propriedades com AINEts relevantes para sua ação clínica in vivo. Mecanismo de ação Inibição da ciclo-oxigenase. Os principais efeitos terapêuticos dos AINEs derivam da sua capacidade de inibir a produção de PG. A primeira enzima na via sintética das PG é COX, também conhecida como PG G/H sintase. Essa enzima converte o AA nos intermediários instáveis PGG2 e PGH2, além de promover a produção de prostanoides, TxA2 e de uma variedade de PG. Existem duas formas de COX, COX-1 e COX-2. A COX-1, expressa de maneira constitutiva na maioria das células, é a fonte dominante (mas não exclusiva) de prostanoides para funções de manutenção, como a citoproteção epitelial gástrica e hemostasia. Em contrapartida, COX-2, induzida por citocinas, estresse de cisalhamento e promotores de tumor, é a fonte mais importante de formação de prostanoides na inflamação e talvez no câncer. No entanto, ambas as enzimas contribuem para a geração de prostanoides autorreguladores e homeostáticos e ambos podem contribuir para a formação de prostanoide nas síndromes de inflamação humana e dor. De maneira importante, COX-1 é expresso como a isoforma constitutiva dominante nas células epiteliais gástricas e é considerada a principal fonte de formação de PG citoprotetora. A inibição da COX-1 nesse local é tida como, em grande parte, a responsável pelos eventos gástricos adversos que complicam o tratamento com os AINEts, fornecendo assim a razão para o desenvolvimento de AINEs específicos para a inibição da COX-2. O ácido acetilsalicílico e os AINEs inibem as enzimas COX e a produção de PG; eles não inibem as vias da lipo-oxigenase (LOX) no metabolismo do AA e por isso não suprimem a formação de LT. Os glicocorticoides suprimem a expressão induzida de COX-2 e, portanto, a produção de prostaglandinas mediada por COX-2. Eles também inibem a ação da PLA2, que libera AA a partir das membranas celulares. Tais efeitos contribuem para as ações anti-inflamatórias dos glicocorticoides. Inibição seletiva de ciclo-oxigenase. O uso terapêutico de AINEts é limitado pela sua tolerabilidade GI precária. Os usuários crônicos são propensos a sofrer irritação GI em ≤ 20% dos casos. Após a descoberta da COX-2, foi proposto que COX-1 constitutivamente expressa era a fonte predominante de PG citoprotetoras formadas pelo epitélio GI. Pelo fato de sua expressão ser regulada por citocinas e mitógenos, acreditava-se que a COX-2 era a fonte dominante de formação de PG em inflamação e câncer. Assim, os inibidores seletivos de COX-2 foram desenvolvidos com base na hipótese de que eles iriam promover efi cácia semelhante aos AINEts com melhor tolerabilidade GI. Seis inibidores da COX-2 especificamente projetados para esse propósito, os coxibes, foram inicialmente aprovados para uso nos EUA ou UE: celecoxibe, rofecoxibe, valdecoxibe e seu pró-fármaco parecoxibe, etoricoxibe e lumiracoxibe. A maioria dos coxibes foi gravemente restringida em seu uso ou retirada do mercado, tendo em vista seu perfil de efeitos adversos. O celecoxibe é atualmente o único inibidor da COX-2 licenciado para uso nos EUA. Absorção, distribuição e eliminação Absorção. A maioria dos AINEs é rapidamente absorvida após ingestão oral e as concentrações plasmáticas de pico geralmente são atingidas em 2-3 h. Todos os AINEs seletivos para COX-2 são bem absorvidos, mas as concentrações de pico são obtidas com lumiracoxibe e etoricoxibe em aproximadamente 1 hora, em comparação a 2-4 h com outros agentes. A baixa solubilidade aquosa da maioria dos AINEs frequentemente é refletida por um aumento inferior ao proporcional da área sob a curva (AUC) das curvas de concentração plasmática-tempo, devido à dissolução incompleta, quando a dose é aumentada. A ingestão de alimentos pode retardar a absorção e às vezes diminuir a disponibilidade sistêmica (ou seja, fenoprofeno, sulindaco). Antiácidos, comumente prescritos para pacientes em terapia com AINEs, variavelmente atrasam, mas raramente reduzem a absorção. Distribuição. A maioria dos AINEs está extensamente ligada às proteínas plasmáticas (95-99%), geralmente a albumina. A ligação às proteínas plasmáticas com frequência é dependente da concentração (ou seja, naproxeno, ibuprofeno) e saturável em altas concentrações. As condições que alteram a concentração da proteína plasmática podem resultar em uma fração livre do fármaco com potenciais efeitos tóxicos. Os AINEs altamente ligados à proteína têm o potencial de deslocar outros fármacos, se eles competirem pelos mesmos locais de ligação. A maioria dos AINEs é amplamente distribuída por todo o corpo e penetra imediatamente nas articulações artríticas, produzindo concentrações no líquido sinovial no intervalo de metade da concentração plasmática (ou seja, ibuprofeno, naproxeno, piroxicam). Algumas substâncias produzem concentrações semelhantes do fármaco na sinóvia (ou seja, indometacina), ou mesmo concentrações plasmáticas superiores (ou seja, tolmetina). A maioria dos AINEs atinge concentrações sufi cientes no SNC para ter um efeito analgésico central. O celecoxibe é particular mente lipofílico, por isso se acumula na gordura e é facilmente transportado para o SNC. O lumiracoxibe é mais ácido do que outros AINEs seletivos para COX-2, o que pode favorecer seu acúmulo em locais de inflamação. Eliminação. A meia-vida plasmática varia consideravelmente entre os AINEs. Por exemplo, ibuprofeno, diclofenaco e paracetamol têm eliminação relativamente rápida (meia-vida de 1-4 h), enquanto o piroxicam tem uma meia-vida de aproximadamente 50 h em estado estacionário, que pode aumentar para até 75 h em idosos. Estimativas publicadas da meia-vida dos AINEs seletivos para COX-2 variam (2-6 h para o lumiracoxibe, 6-12 h para o celecoxibe e 20-26 h para etoricoxibe). No entanto, as concentrações plasmáticas de pico de lumiracoxibe em doses comercializadas excedem consideravelmente aquelas necessárias para inibir a COX-2, sugerindo uma ampliação da meia-vida farmacodinâmica. A biotransformação hepática e a excreção renal são as principais vias de eliminação da maioria dos AINEs. Alguns têm metabólitos ativos (p. ex., fembufeno, nabumetona, ácido meclofenâmico, sulindaco). As vias de eliminação frequentemente envolvem a oxidação ou hidroxilação. O paracetamol, em doses terapêuticas, é oxidado em pequena fração formando traços do metabólito altamente reativo, N-acetil-p-benzoquinona imina (NAPQI). Quando ocorre uma overdose (geralmente > 10 g de paracetamol), no entanto, as principais vias metabólicas são saturadas e as concentraçõesde NAPQI hepatotóxicas podem ser formadas (ver Capítulos 4 e 6). Raramente, outros AINEs também podem ser complicados pela hepatotoxicidade (p. ex., diclofenaco, lumiracoxibe). Vários AINEs ou seus metabólitos são glicuronidados ou conjugados de outro modo. Em alguns casos, tais como os derivados do ácido propiônico naproxeno e cetoprofeno, os metabólitos glicuronídeos podem hidrolisar de volta formando o fármaco precursor ativo quando o metabólito não é removido efi cientemente, devido à insuficiência renal ou competição pela excreção renal com outros fármacos. Isso pode prolongar a eliminação dos AINEs de maneira significativa. Os AINEs geralmente não são removidos por hemodiálise, devido à sua extensa ligação às proteínas plasmáticas; o ácido salicílico é uma exceção a esta regra. Em geral, os AINEs não são recomendados em caso de doença renal ou hepática avançada, devido a seus efeitos farmacodinâmicos adversos. 3- Principais sistemas afetados pelas reações adversas e os grupos de risco para sua utilização. Os eventos adversos que comumente complicam o tratamento com ácido acetilsalicílico e AINEs estão descritos no Quadro 34-2. A idade em geral se correlaciona a uma probabilidade maior de desenvolver reações adversas sérias aos AINEs, e em pacientes idosos é necessário o cuidado de instituir uma menor dose inicial. Os AINEs são rotulados com uma tarja preta de adverência (“black for warning”) relacionada aos riscos cardiovasculares e são especificamente contraindicados após cirurgia de revascularização da artéria coronária. Gastrintestinais. Os sintomas mais comuns associados a esses fármacos são gastrintestinais, incluindo anorexia, náuseas, dispepsia, dor abdominal e diarreia, podendo estar relacionados com a indução de úlceras gástricas ou intestinais, que, segundo estimativas, ocorrem em 15-30% dos usuários regulares. As ulcerações podem variar desde pequenas erosões superficiais até perfurações de toda a espessura da muscular da mucosa. As úlceras podem ser únicas ou múltiplas e as ulcerações podem ser complicadas ou não por sangramento, perfuração ou obstrução. A perda de sangue pode ser gradual, ocasionando anemia com o tempo, ou aguda e fatal. O risco é ainda maior nos infectados por Helicobacter pylori, quando há consumo excessivo de álcool ou na presença de outros fatores de risco para lesão de mucosa, incluindo o uso concomitante de glicocorticoides. Embora exista a percepção de que os AINEts variam consideravelmente em sua tendência para causar tais erosões e úlceras, tal percepção tem como base análises globais de vários estudos heterogêneos e pequenos, frequentemente realizadas com doses únicas de um único AINEt. A lesão gástrica por AINEs pode ser evocada por pelo menos dois mecanismos distintos. A inibição da COX-1 nas células epiteliais gástricas reduz as prostaglandinas citoprotetoras da mucosa, especialmente a PGI2 e a PGE2, eicosanoides que inibem a secreção de ácido pelo estômago, intensificam o fluxo sanguíneo da mucosa e promovem a secreção de muco citoprotetor no intestino. A inibição da síntese de PGI2 e PGE2 pode tornar o estômago mais suscetível a lesão e ocorrer com a administração oral, parenteral ou transdérmica de ácido acetilsalicílico ou AINEs. Há alguma evidência de que a COX-2 também contribui para a formação constitutiva dessas prostaglandinas no epitélio gástrico humano; produtos da COX-2 certamente contribuem para o fechamento de úlceras em roedores. Isso pode refletir em parte um comprometimento da angiogênese pelos inibidores. De fato, a inibição ou a supressão concomitante de COX-1 e COX-2 parece necessária para reproduzir a gastropatia induzida por AINE em camundongos e há algumas evidências de doença gástrica na vigência de supressão ou inibição prolongada apenas da COX-2. Outro mecanismo pelo qual os AINEs ou o ácido acetilsalicílico podem causar ulceração é a irritação local pelo contato entre o fármaco administrado por via oral e a mucosa gástrica. A irritação local permite a difusão retrógrada do ácido para o interior da mucosa e induz lesão tecidual. Entretanto, a incidência de eventos GI adversos não é significativamente reduzida por formulações que reduzem o contato do fármaco com a mucosa gástrica, como o revestimento entérico ou as soluções eferentes, sugerindo que a contribuição de irritação direta ao risco global é menor. Também é possível que a maior geração de produtos da LOX (p. ex., os LT) contribua para a ulcerogênese em pacientes tratados com AINEs. Cardiovascular. AINEs seletivos para COX-2 foram desenvolvidos para melhorar a segurança GI do tratamento anti-inflamatório em pacientes com risco elevado de complicações GI. Entretanto, experimentos placebo-controlados com três compostos estruturalmente distintos — celecoxibe, valdecoxibe (fabricação suspensa) e rofecoxibe (fabricação suspensa) — revelaram um aumento na incidência de infarto do miocárdio, acidente vascular encefálico e trombose. Parece que o risco também se estende àqueles AINEs mais antigos, que são bastante seletivos para COX-2, como diclofenaco, meloxicam e nimessulida. Os órgãos reguladores dos EUA, Europa e Austrália concluíram que os AINEs têm o potencial de aumentar o risco de ataque cardíaco e de acidente vascular encefálico. O prejuízo cardiovascular é plausivelmente explicado pela depressão de prostanoides dependentes de COX-2 formada na vasculatura e nos rins. A PGI2 vascular limita o efeito dos estímulos protrombóticos e aterogênicos, e a PGI2 e PGE2 formadas por COX-2 contribuem para a homeostase da pressão arterial. A supressão genética do receptor de PGI2, IP, em camundongos, aumenta a resposta trombótica à lesão endotelial, acelera a aterogênese experimental, aumenta a proliferação vascular e é adicional aos efeitos dos estímulos hipertensivos. A supressão genética ou inibição de COX-2 acelera a resposta aos estímulos trombóticos e eleva a pressão arterial. Juntos, seria de se esperar que esses mecanismos alterassem o risco cardiovascular dos seres humanos, pois a inibição de COX-2 em seres humanos deprime a síntese de PGI2. Na verdade, uma mutação humana de IP, que prejudica sua sinalização, está associada a aumento do risco cardiovascular. Os pacientes sob maior risco de doença cardiovascular ou trombose provavelmente estão particularmente propensos a eventos cardiovasculares adversos enquanto estão sob tratamento com esses agentes. Isso inclui pacientes com artrite reumatoide, pois o risco relativo de infarto do miocárdio é aumentado nesses pacientes se comparado a pacientes com osteoartrite ou sem artrite. O risco parece ser condicionado por fatores que influenciam a exposição ao fármaco, como dose, meia- vida, grau de seletividade, potência e duração do tratamento. Assim, a menor dose possível deve ser prescrita pelo menor período possível. Os AINEs com seletividade para COX-2 devem ser reservados para pacientes com alto risco de complicações gastrintestinais. Pressão arterial, eventos adversos renais e renovasculares. Os AINEts e os inibidores da COX-2 associaram-se a eventos adversos renais e renovasculares. Os AINEs têm pouco efeito sobre a função renal ou sobre a pressão arterial em seres humanos normais. Entretanto, na vigência de insuficiência cardíaca congestiva, cirrose hepática, doença renal crônica, hipovolemia e outros estados de ativação dos sistemas simpaticoadrenal e renina-angiotensina, a formação de prostaglandinas torna-se crucial, tanto em sistemas-modelo quanto em seres humanos. Os AINEs associam-se à abolição da inibição induzida por prostaglandinas na reabsorção de Cl– e na ação do hormônio antidiurético, ocasionando retenção de sal e de água. Experimentos em camundongos que atribuem a geração de prostaglandinas vasodilatadoras (PGE2 e PGI2) à COX-2 levantaram a possibilidade de que a incidência de complicações hipertensivas(seja seu aparecimento, seja a piora do seu controle) induzidas pelos AINEs em pacientes pode correlacionar-se com o grau de inibição da COX-2 no rim e com a seletividade com que essa inibição é obtida. As supressões dos receptores de PGI2 e de PGE2 elevam a pressão arterial em camundongos, integrando mecanicamente a hipertensão com uma predisposição à trombose. Embora essa hipótese nunca tenha sido abordada diretamente, estudos epidemiológicos sugerem que as complicações hipertensivas ocorrem mais comumente em pacientes tratados com coxibes que nos tratados com AINEts. Nefropatia por analgésicos. A nefropatia por analgésicos é um estado de insuficiência renal lentamente progressiva, redução da capacidade de concentração do túbulo renal e piúria estéril. Os fatores de risco são o uso crônico de altas doses de combinação de AINEs e infecções frequentes do trato urinário. Se a nefropatia é reconhecida precocemente, a interrupção dos AINEs permite a recuperação da função renal. Gravidez e lactação. Nas horas que antecedem o parto, há indução da expressão de COX-2 no miométrio e os níveis de prostaglandina E2 e F2α no miométrio aumentam notavelmente durante o trabalho de parto. O prolongamento da gestação pelos AINEs foi demonstrado em sistemas-modelo e em seres humanos. Alguns AINEs, em particular a indometacina, têm sido usados fora de suas indicações formais para interromper o trabalho de parto prematuro. Entretanto, esse uso associa-se ao fechamento do canal arterial e ao comprometimento da circulação fetal in utero, particularmente em fetos com mais de 32 semanas de gestação. Os inibidores seletivos da COX-2 já foram usados como agentes tocolíticos; tal uso associou-se à estenose do canal arterial e oligoidrâmnio. Por fim, o uso dos AINEs e de ácido acetilsalicílico no final da gestação pode aumentar o risco de hemorragia pós-parto. Portanto a gestação, em especial quando próxima ao termo, é uma contraindicação relativa ao uso de todos os AINEs. Além disso, seu emprego nessa situação deve ser feito tendo em mente os potenciais riscos para o feto, mesmo em casos de trabalho prematuro, e especialmente nos casos de hipertensão induzida pela gestação. Hipersensibilidade. Certos indivíduos exibem hipersensibilidade ao ácido acetilsalicílico e aos AINEs, manifestada por sintomas que variam desde rinite vasomotora, urticária generalizada e asma brônquica até edema de laringe, broncoconstrição, rubor, hipotensão e choque. A intolerância ao ácido acetilsalicílico é uma contraindicação ao tratamento com qualquer outro AINE porque a sensibilidade cruzada pode provocar uma reação potencialmente fatal, lembrando um choque anafilático. Apesar da semelhança com a anafilaxia, tal reação não parece ser de natureza imunológica. Embora menos comum em crianças, essa sensibilidade cruzada pode ocorrer em 10- 25% dos pacientes com asma, pólipos nasais ou urticária crônica e em 1% dos indivíduos aparentemente saudáveis, sendo provocada mesmo por doses baixas (< 80 mg) de ácido acetilsalicílico e aparentemente envolve a inibição da COX. A sensibilidade cruzada se estende aos outros salicilatos com estrutura diferente daquela dos AINEs e raramente ao paracetamol. O tratamento da hipersensibilidade ao ácido acetilsalicílico é semelhante ao de outras reações graves de hipersensibilidade, com suporte da função dos órgãos vitais e administração de epinefrina. A hipersensibilidade ao ácido acetilsalicílico associa-se a um aumento da biossíntese de LT, talvez refletindo o desvio de AA para o metabolismo da LOX. De fato, resultados obtidos em um pequeno número de pacientes sugerem que o bloqueio da 5-LOX com o fármaco zileutona ou o uso fora das indicações da bula de antagonistas dos receptores de leucotrienos podem melhorar os sintomas e os sinais de intolerância ao ácido acetilsalicílico, ainda que incompletamente. Resistência ao ácido acetilsalicílico. Todas as formas de insucesso terapêutico com o ácido acetilsalicílico foram coletivamente denominadas resistência ao ácido acetilsalicílico. Embora tenha atraído muita atenção, há pouca informação a respeito de uma resistência específica e estável ao ácido acetilsalicílico, ou dos mecanismos exatos que poderiam ocasionar essa “resistência”. Já foram descritas variantes genéticas da COX-1 que se cossegregam com a resistência, mas sua relação com a evolução clínica não é clara. Síndrome de Reye. Devido à possível associação à síndrome de Reye, o ácido acetilsalicílico e outros salicilatos são contraindicados em crianças e adultos jovens com menos de 20 anos de idade com febre associada à doença viral. A síndrome de Reye, uma doença grave e muitas vezes fatal, é caracterizada pelo início agudo de encefalopatia, disfunção hepática e infiltração de gordura no fígado e em outras vísceras. A etiologia e fisiopatologia não estão claras, nem está claro se existe uma relação causal entre o ácido acetilsalicílico e a síndrome de Reye. No entanto, a evidência epidemiológica de que uma associação entre o uso de ácido acetilsalicílico e a síndrome de Reye parecia tão suficientemente convincente que a rotulagem do ácido acetilsalicílico e de medicamentos que o contêm indicasse a síndrome de Reye como um risco em crianças foi exigida pela primeira vez em 1986 e estendeu-se para o subsalicilato de bismuto em 2004. Desde então, o uso de ácido acetilsalicílico em crianças diminuiu drasticamente e a síndrome de Reye quase desapareceu. O paracetamol não tem sido implicado na síndrome de Reye e é o fármaco de escolha para antipirexia em crianças, adolescentes e adultos jovens. Uso concomitante de AINEs e ácido acetilsalicílico em baixas doses. Muitos pacientes combinam os AINEts ou os inibidores da COX-2 com baixas doses “cardioprotetoras” de ácido acetilsalicílico. Estudos epidemiológicos sugerem que esse tratamento combinado aumenta significativamente a probabilidade de eventos adversos gastrintestinais em comparação com o uso isolado de qualquer classe de AINEs. 4- Diferenciar AINEs não seletivos e seletivos: citar exemplos e indicações clínicas. Os inibidores seletivos da COX-2, ou coxibes, foram desenvolvidos na tentativa de inibir a síntese de prostaglandinas pela isoenzima COX-2 induzida em locais de inflamação, sem afetar a ação da isoenzima COX-2 de “manutenção” constitutivamente ativa, encontrada no trato GI, nos rins e nas plaquetas. De forma semelhante, os inibidores da COX-2, em doses habituais, não têm impacto sobre a agregação plaquetária, que é mediada pelo tromboxano produzido pela isoenzima COX-1. Em contrapartida, eles inibem a síntese de prostaciclina mediada pela COX- 2 no endotélio vascular. Em consequência, os inibidores da COX-2 não apresentam os efeitos cardioprotetores dos AINEs não seletivos tradicionais. As doses recomendadas de inibidores da COX-2 causam toxicidades renais semelhantes àquelas associadas a AINEs tradicionais. Os dados clínicos disponíveis sugerem uma maior incidência de eventos trombóticos cardiovasculares associados aos inibidores da COX-2, como rofecoxibe e valdecoxibe, o que levou à sua retirada do mercado. 5-Descrever as principais indicações dos seguintes AINEs: Ácido Acetilsalicílico (aas, salicilatos, diflunisal): Usos sistêmicos. As doses de salicilato dependem da condição a ser tratada. A dose analgésica-antipirética de ácido acetilsalicílico para adultos é de 324-1.000 mg VO a cada 6 h. As doses anti-inflamatórias de ácido acetilsalicílico recomendadas para artrite, espondiloartropatias e lúpus eritematoso sistêmico (LES) variam de 3-4 g/dia em doses fracionadas. Os salicilatos estão contraindicados para febres associadas a infecções virais em crianças (risco de Síndrome de Reye); para etiologias não virais, recomendam-se 40-60 mg/kg/dia fracionados em 6 doses, a cada 4 h. A dose diária máxima recomendada de ácido acetilsalicílico paraadultos e crianças maiores de 12 anos é de 4 g. A administração retal de supositórios de ácido acetilsalicílico pode ser preferível em lactentes ou quando a via oral não está disponível. Embora o ácido acetilsalicílico seja considerado o padrão com o qual os outros fármacos devem ser comparados no tratamento da artrite reumatoide, muitos clínicos preferem outros AINEs, que parecem ter melhor tolerabilidade gastrintestinal, mesmo que isso ainda não tenha sido comprovado por ensaios clínicos randomizados. Os salicilatos suprimem os sinais clínicos e melhoram a inflamação dos tecidos na febre reumática aguda. Grande parte do dano tecidual possível posterior, como lesões cardíacas e outros envolvimentos viscerais, no entanto, não é afetada pela terapia com salicilato. Outros salicilatos disponíveis para uso sistêmico incluem salsalato (ácido salicilsalicílico), que é hidrolisado em ácido salicílico, durante e após a absorção, e salicilato de magnésio (comprimidos). Uma combinação de salicilato de colina e salicilato de magnésio (trissalicilato de colina e magnésio) também está disponível. Esses fármacos incluem o salicilato de colina e magnésio, o salicilato de sódio e o salicilsalicilato. Todos os salicilatos não acetilados são fármacos anti-inflamatórios efetivos, embora possam ser analgésicos menos efetivos do que o ácido acetilsalicílico. Por serem muito menos efetivos do que o ácido acetilsalicílico como inibidores da COX e por não inibirem a agregação plaquetária, seu uso pode ser preferível quando não se deseja a inibição da COX, como em pacientes com asma, em pacientes com tendência hemorrágica e até mesmo (sob estreita supervisão) naqueles com disfunção renal. Os salicilatos não acetilados são administrados em doses de até 3 a 4 g de salicilato por dia e podem ser monitorados pela determinação dos níveis séricos de salicilato. O diflunisal é um derivado difluorofenil do ácido salicílico que não é convertido em ácido salicílico in vivo. O diflunisal é mais potente que o ácido acetilsalicílico nos testes anti-inflamatórios em animais e parece ser um inibidor competitivo da COX. No entanto, é amplamente desprovido de efeitos antipiréticos, talvez devido à pouca penetração no SNC. O fármaco tem sido utilizado principalmente como analgésico no tratamento de osteoartrite e entorses ou estiramentos músculos esqueléticos; nestas circunstâncias, é cerca de 3-4 vezes mais potente que o ácido acetilsalicílico. A dose inicial habitual é de 1.000 mg, seguida de 500 mg a cada 8-12 h. Para artrite reumatoide ou osteoartrite, 250-1.000 mg/dia administrados em duas doses divididas; a dose de manutenção não deve exceder 1,5 g/dia. O diflunisal produz menos efeitos colaterais auditivos e parece causar menos efeitos antiplaquetários e GI e com menor intensidade do que o ácido acetilsalicílico. Usos locais. A mesalazina (ácido 5-aminossalicílico - conhecida nos EUA como mesalamina) é um salicilato usado por seus efeitos locais no tratamento da doença inflamatória intestinal. O fármaco como uma formulação de liberação imediata não seria eficaz por via oral por ser pouco absorvido e inativado antes de alcançar o intestino baixo. Entretanto, formulações orais que liberam o fármaco no intestino inferior — mesalazina, sob a forma de comprimido de liberação retardada, coberto por um polímero sensível ao pH; uma cápsula de liberação prolongada de mesalazina e olsalazina (azodissalicilato de sódio, um dímero de 5-aminosalicilato ligado por uma ligação azo) — são eficazes no tratamento da doença inflamatória intestinal (em particular da colite ulcerativa). A mesalazina está disponível como enema retal para tratamento de colite ulcerativa, proctite e proctosigmoidite e como supositório retal para tratamento de proctite ulcerativa ativa. A sulfassalazina (salicilazosulfapiridina) contém mesalazina ligada de forma covalente à sulfapiridina e a balsalazida contém mesalazina ligada à molécula portadora inerte 4-aminobenzoil. Ambos os fármacos são pouco absorvidos após administração oral e clivados em sua porção ativa por bactérias do cólon. A sulfassalazina e olsalazina já foram usadas no tratamento da artrite reumatoide e da espondilite ancilosante. Alguns medicamentos de venda sem prescrição para alívio de indigestão e diarreia contêm subsalicilato de bismuto e têm potencial para causar intoxicação por salicilato, especialmente em crianças. A ação ceratolítica do ácido salicílico livre é utilizada para o tratamento local das verrugas, calos, infecções fúngicas e alguns tipos de dermatite eczematosa. Após o tratamento com ácido salicílico, as células de tecidos incham, amolecem e descamam. O salicilato de metila (óleo de gaultéria) é um ingrediente comum de pomadas e unguentos para aquecimento profundo utilizados no tratamento da dor músculo esquelética; também está disponível em medicamentos fitoterápicos e como agente aromatizante. A aplicação cutânea de salicilato de metila pode resultar em concentrações sistêmicas de salicilato farmacologicamente ativas, e até mesmo tóxicas, e relata-se que aumenta o tempo de protrombina em pacientes que recebem varfarina. Ácido fenil-acético (diclofenaco): O diclofenaco está aprovado nos EUA para tratamento sintomático a longo prazo da artrite reumatoide, da osteoartrite e da espondilite ancilosante, dor, dismenorreia primária e enxaqueca aguda. Quatro formulações orais estão disponíveis: comprimidos e cápsulas de liberação imediata, comprimidos de liberação retardada, comprimidos de liberação prolongada e um pó para solução oral. A dose diária habitual é de 100-200 mg, fracionada em várias vezes. Para enxaqueca, um pacote de pó (50 mg) dissolvido em 30-60 g de água é administrado. O diclofenaco para uso tópico está disponível como gel e como adesivo transdérmico; acredita-se que as concentrações sistemicamente ativas liberadas dessas preparações contribuem mais para o alívio dos sintomas do que o transporte direto através da pele para o tecido inflamado. O diclofenaco também está disponível em combinação com o misoprostol, um análogo da PGE1. Tal combinação retém a eficácia do diclofenaco e ao mesmo reduz a frequência de úlceras e erosões GI. Além disso, dispõe-se de uma solução oftálmica de diclofenaco para o tratamento da inflamação pós-operatória após a extração de cataratas e dor pós-operatória e fotofobia após cirurgia refrativa da córnea. A ulceração GI pode ocorrer menos frequentemente do que com alguns outros AINEs. Uma preparação que associa o diclofenaco e o misoprostol diminui a ulceração GI alta, mas pode resultar em diarreia. Outra associação de diclofenaco com omeprazol também demonstrou ser efetiva na prevenção de sangramento recorrente; entretanto, os efeitos colaterais renais foram comuns em pacientes de alto risco. O diclofenaco, em uma dose de 150 mg/dia, parece comprometer o fluxo sanguíneo renal e a taxa de filtração glomerular. A elevação dos níveis séricos das aminotransferases é mais comum com esse fármaco do que com outros AINEs. Recomenda-se uma preparação oftálmica a 0,1% para a prevenção da inflamação oftálmica pós-operatória; essa preparação pode ser usada após implante de lente intraocular e cirurgia para estrabismo. Um gel tópico contendo diclofenaco a 3% é efetivo para a ceratose solar. O diclofenaco na forma de supositório retal pode ser considerado para analgesia preemptiva e náuseas pós- -operatórias. Na Europa, o diclofenaco também está disponível na forma de colutório e para administração intramuscular. Ácido propiônico (ibuprofeno, cetoprofeno, naproxeno, flubiprofeno): Ibuprofeno. O ibuprofeno é fornecido em comprimidos, cápsulas, pílulas e cápsulas gelatinosas contendo 50-800 mg, em gotas orais e suspensão oral. As formas farmacêuticas contendo ≤ 200 mg estão disponíveis para venda sem prescrição. O ibuprofeno é licenciado para a comercializaçãoem combinações de dose fixa com anti-histamínicos, descongestionantes, oxicodona e hidrocodona. Uma formulação injetável para o fechamento da patência do canal (ibuprofeno lisina) está licenciada desde 2006, e uma formulação injetável para dor que foi inicialmente aprovado em 1974 foi licenciada pelo FDA em 2009 para uso hospitalar. Doses de ≤ 800 mg 4 vezes/dia podem ser usadas no tratamento da artrite reumatoide e osteoartrite, mas doses mais baixas frequentemente são suficientes. A dose habitual para dor branda a moderada, como a da dismenorreia primária, é de 400 mg a cada 4-6 h, conforme necessário. Para dor ou febre, o ibuprofeno intravenoso é administrado na dose de 100-800 mg durante 30 min a cada 4-6 h. O ibuprofeno é um derivado simples do ácido fenilpropiônico. Em doses de cerca de 2.400 mg ao dia, equivale a 4 g de ácido acetilsalicílico em seu efeito anti-inflamatório. O ibuprofeno oral é frequentemente prescrito em doses menores (< 2.400 mg/dia), com as quais apresenta eficácia analgésica, mas não anti-inflamatória. Está disponível como fármaco de venda livre em baixas doses com vários nomes comerciais. O ibuprofeno por via oral e IV é efetivo no fechamento do canal arterial em prematuros, com grande parte da mesma eficácia e segurança da indometacina. Uma preparação tópica em creme parece ser absorvida na fáscia e no músculo; o creme de ibuprofeno foi mais efetivo do que o creme de placebo no tratamento da OA primária do joelho. Uma preparação em gel líquido de ibuprofeno, de 400 mg, proporciona alívio imediato e tem boa eficácia global na dor dentária pós-operatória. Em comparação com a indometacina, o ibuprofeno diminui menos o débito urinário e também provoca menos retenção hídrica. O fármaco está relativamente contraindicado para indivíduos com pólipos nasais, angioedema e reatividade broncospástica ao ácido acetilsalicílico. Foi relatada a ocorrência de meningite asséptica (particularmente em pacientes com LES) e retenção hídrica. A administração concomitante de ibuprofeno e ácido acetilsalicílico antagoniza a inibição plaquetária irreversível induzida pelo ácido acetilsalicílico. Por conseguinte, o tratamento com ibuprofeno em pacientes com risco cardiovascular aumentado pode limitar os efeitos cardioprotetores do ácido acetilsalicílico. Além disso, o uso concomitante de ibuprofeno e ácido salicílico pode diminuir o efeito anti-inflamatório total. Os efeitos hematológicos raros consistem em agranulocitose e anemia aplásica. Cetoprofeno. O cetoprofeno é um derivado do ácido propiônico, que inibe tanto a COX (de modo não seletivo) como a lipoxigenase. A administração concomitante de probenecida eleva os níveis de cetoprofeno e prolonga sua meia-vida plasmática. A eficiência do cetoprofeno, em doses de 100 a 300 mg/dia, equivale a de outros AINEs. Os principais efeitos colaterais desse fármaco afetam o trato GI e o sistema nervoso central (SNC). Naproxifeno. O naproxeno é fornecido em comprimidos, comprimidos de liberação retardada, comprimidos de liberação controlada, cápsulas gelatinosas e tabletes (caplets) contendo 200-750 mg de naproxeno ou naproxeno sódico e como suspensão oral. As formas de dosagem contendo 200 mg ou menos estão disponíveis sem necessidade de prescrição. O naproxeno está licenciado para a comercialização em combinações de doses fixas com pseudoefedrina e sumatriptano e é coembalado juntamente com lansoprazol. O naproxeno tem mais indicações aprovadas pelo FDA que outros AINEts. É indicado para artrite juvenil e reumatoide, osteoartrite, espondilite ancilosante, dor, dismenorreia primaria, tendinite, bursite e gota aguda. O naproxeno é um derivado do ácido naftilpropiônico. Trata-se do único AINE atualmente comercializado como enantiômero isolado. A fração livre do naproxeno é significativamente maior nas mulheres do que nos homens, porém sua meia-vida é semelhante em ambos os sexos. Esse fármaco mostra-se efetivo para as indicações reumatológicas habituais e está disponível em uma formulação de liberação lenta, como suspensão oral e de venda livre. Dispõe-se também de uma preparação tópica e de uma solução oftálmica. A incidência de sangramento GI superior com preparações de venda livre é baixa, porém ainda é duas vezes maior que a do ibuprofeno de venda livre (talvez devido a um efeito da dose). Foram observados casos raros de pneumonite alérgica, vasculite leucocitoclástica e pseudoporfiria, bem como os efeitos colaterais comuns associados aos AINEs. Flurbiprofeno. O flurbiprofeno está disponível na forma de comprimidos e como solução oftálmica indicado para miose intraoperatória. As propriedades farmacológicas, indicações terapêuticas e efeitos adversos da administração oral de flurbiprofeno são semelhantes aos de outros anti-inflamatórios derivados do ácido propiônico e já foram revistos. O flurbiprofeno é um derivado do ácido propiônico cujo mecanismo de ação provavelmente é mais complexo que o de outros AINEs. Seu enantiômero (S)(−) inibe a COX de modo não seletivo; entretanto, foi constatado, no tecido de rato, que o fármaco também afeta a síntese do TNF-a e do óxido nítrico. O metabolismo hepático é extenso; seus enantiômeros (R)(+) e (S)(−) são metabolizados de modo diferente, e o flurbiprofeno não sofre conversão quiral. O fármaco não apresenta circulação êntero-hepática. O flurbiprofeno também está disponível em uma formulação oftálmica tópica para a inibição da miose intraoperatória. O uso por via intravenosa mostra-se efetivo para analgesia perioperatória em cirurgias de orelha, pescoço e nariz de menor porte e, na forma de pastilhas (lozenges), para a faringite. Embora seu perfil de efeitos colaterais seja semelhante ao de outros AINEs na maioria dos aspectos, o flurbiprofeno também raramente está associado a rigidez em roda dentada, ataxia, tremor e mioclonia. Pirazolônicos (dipirona): É um grupo de fármacos que inclui a fenilbutazona, a oxifembutazona, a fenazona (antipirina), a aminopirina e a dipirona (metamizol); atualmente, apenas a fenazona em gotas para o ouvido está disponível para uso humano nos EUA. Esses fármacos foram usados clinicamente por muitos anos mas foram completamente abandonados pela sua propensão a causar agranulocitose irreversível. A dipirona foi reintroduzida na UE há uma década, pois estudos epidemiológicos sugeriram que o risco de efeitos adversos era similar ao do paracetamol e menor do que o do ácido acetilsalicílico. Entretanto, o uso da dipirona permanece limitado. Oxicams (tenoxicam, meloxicam): Os derivados do oxicam são ácidos enólicos que inibem a COX-1 e a COX-2 e têm atividade anti-inflamatória, analgésica e antipirética. Em geral são inibidores não seletivos das COX, embora um membro (o meloxicam) mostre seletividade modesta para a COX-2, comparável à do celecoxibe no sangue humano in vitro, tendo sido aprovado como AINE seletivo da COX-2 em alguns países. Os derivados oxicans têm eficácia similar à do ácido acetilsalicílico, da indometacina ou do naproxeno no tratamento a longo prazo da artrite reumatoide ou osteoartrite. Ensaios controlados comparando a tolerabilidade gastrintestinal com a do ácido acetilsalicílico não foram realizados. A principal vantagem sugerida para esses compostos é sua longa meia- vida, que permite seu uso em dose única diária. Meloxicam. O meloxicam é aprovado pelo FDA para uso na osteoartrite e já foi revisto. A dose recomendada de meloxicam é de 7,5-15 mg 1 vez/dia. Em média, em ensaios ex vivo, o meloxicam exibe seletividade pela COX-2 10 vezes maior. Entretanto, essa seletividade é bem variável e sua vantagem ou risco clínico ainda devem ser estabelecidos. De fato, mesmo com marcadores substitutos, a relação com a dose não é linear. Há significativamente menos lesões gástricas em comparação com o piroxicam (20 mg/dia) em indivíduos tratados com 7,5 mg/dia demeloxicam, mas a vantagem se perde com uma dose de 15 mg/dia. Metano-sulfonilides (nimesulide): A nimessulida é uma sulfonamida disponível na Europa que demonstra, em ensaios de sangue total, uma seletividade para a COX-2 similar à do celecoxibe. Os efeitos adicionais incluem inibição da ativação dos neutrófilos, diminuição da produção de citocinas, redução da produção de enzimas degradantes e possivelmente a ativação de receptores para os glicocorticoides. A nimessulida é administrada por via oral em doses iguais ou inferiores a 100 mg 2 vezes/dia como anti-inflamatório, analgésico e antipirético. Seu uso na Europa é limitado a no máximo 15 dias devido ao risco de hepatotoxicidade. Coxibs (celecoxib, valdecoxib): Os primeiros AINEs seletivos para COX-2 eram os coxibes diaril-heterocíclicos. O celeboxibe é o único desses compostos ainda aprovado nos EUA. O etoricoxibe é aprovado em vários países; o rofecoxibe e o valdecoxibe foram retirados do mercado em todo o mundo. O parecoxibe é um prófármaco injetável hidrossolúvel comercializado para o tratamento de dor aguda em vários países. O lumiracoxibe, um análogo estrutural do derivado do ácido fenilacético diclofenaco, também não está disponível nos EUA. Celecoxibe. O celecoxibe é aprovado nos EUA para o tratamento de dor aguda em adultos, para o tratamento de osteoartrose, artrite reumatoide, artrite reumatoide juvenil, espondilite anquilosante e dismenorreia primária. A dose recomendada para o tratamento da osteoartrite é de 200 mg/dia em dose única ou dividida em duas doses de 100 mg. No tratamento da artrite reumatoide, a dose recomendada é de 100-200 mg 2 vezes/dia. Devido ao risco cardiovascular, os médicos são aconselhados a usar a menor dose possível pelo menor tempo possível. Evidências atuais não apoiam o uso de celecoxibe como primeira escolha entre os AINEts. O celecoxibe também é aprovado para a quimioprevenção de polipose coli; no entanto, ensaios controlados por placebo revelaram um aumento dependente da dose no infarto do miocárdio e no acidente vascular encefálico.