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Programa de Pós-Graduação EAD UNIASSELVI-PÓS DIDÁTICA E EDUCAÇÃO DE SURDOS Autora: Flaviane Reis 419 R375d Reis, Flaviane. Didática e educação de surdos / Flaviane Reis. Indaial :. Uniasselvi, 2011. 89 p. il. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-7830-447-8 1. Linguagem de sinais – Educação de Surdos I. Centro Universitário Leonardo da Vinci CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Dr. Malcon Tafner Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Coordenador da Pós-Graduação EAD: Prof. Norberto Siegel Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Profa. Hiandra B. Götzinger Montibeller Profa. Izilene Conceição Amaro Ewald Profa. Jociane Stolf Revisão de Conteúdo: Profa. Anelize Donaduzzi Revisão Gramatical: Profa. Iara de Oliveira Diagramação e Capa: Carlinho Odorizzi Copyright © Editora Grupo UNIASSELVI 2011 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. UNIASSELVI – Indaial. Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Católica de Goiás (2004), e mestrado em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (2006). Atualmente é aluna do programa de Doutorado em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia (2011). Além disso, é professora efetiva na disciplina de Libras da Universidade Federal de Uberlândia. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação de Surdos, atuando principalmente nos seguintes temas: língua de sinais, educação, surdos, metodologia e expressão facial e corporal. Ministra cursos e palestras a nível nacional e internacional. É tradutora de língua portuguesa para a língua de sinais no curso de graduação Letras/Libras, intérprete de Sinais Internacionais. Pesquisadora e Militante Surda envolvendo na Educação de Surdos e educação bilíngue. Para conhecer um pouco mais sobre as pesquisas da professora Flaviane, você pode acessar o site www. ges.ced.ufsc.br, e ler a dissertação de mestrado, intitulada como “O professor Surdo: A política e a poética da transgressão pedagógica”. Flaviane Reis Sumário APRESENTAÇÃO ........................................................................... 7 CAPÍTULO 1 Condições de Ensino de Libras .................................................. 9 CAPÍTULO 2 Qualidade do Ensino de Língua de Sinais ................................ 21 CAPÍTULO 3 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino Fundamental ................................................................ 43 CAPÍTULO 4 O Currículo na Educação de Surdos ..................................... 61 APRESENTAÇÃO Caro(a) pós-graduando(a): A Didática e Educação de Surdos tem se destacado pelo modo como apresenta a educação bilíngue para surdos, incidindo na constituição de identidade e subjetividade dos surdos, moldando maneiras de ser, de viver, de pensar, enfim, ela se destaca pela forma como procura conhecer como ensinar e usar a didática para alunos surdos. E é, também, o que pretendemos neste Caderno de Estudo. A preocupação com questões didáticas na Educação de Surdos tem sido central nos últimos tempos em todo mundo. Muitos pesquisadores e professores surdos indicam a ocorrência de um movimento em favor da educação e cultura surda, o qual, após longos meses de discussão pela comunidade surda e pelos povos surdos, abriu os domínios do que vínhamos designando como educação bilíngue para surdos, expandindo-os e diversificando-os de uma forma nunca antes pensada, movimentando-nos para os territórios dos sujeitos surdos. As concepções da pós-modernidade para a educação bilíngue estão sendo revisitadas, criticadas amplamente nas discussões, implicando uma enorme diversificação de temas e questões. Os complexos e os híbridos discursos que caracterizam a era deslizante e fluída em que vivemos encarregam-se de inscrever-nos em um ambiente linguístico e educacional em que as fronteiras das línguas entre a realidade e a ficção, entre a experiência e a representação, entre o público e o privado, dentre tantas outras, estão cada vez mais esmaecidas e tendem a desaparecer as imposições sobre a nossa cultura surda. Esta questão, caracterizada pelo local de cultura, tem consequências importantes para a educação bilíngue para surdos. É a partir da consideração das especificidades, das singularidades do tempo-espaço em que vivemos e da complexidade das repercussões disso para a Educação de Surdos, que o curso de Didática e Educação de Surdos está realizando um estudo, uma discussão, um conhecimento amplo sobre a educação que nós surdos queremos, e, ao mesmo tempo, busca entender e conhecer o jeito de ensinar para surdos. Nas questões pedagógicas da Educação de Surdos, que nos fazem percorrer os múltiplos caminhos entre o êxtase e a perplexidade, entre o esforço e não esforço, o presente caderno de estudo se situa, objetivando abrir um espaço de discussão que possa contribuir para análise e debate das tão polêmicas questões, implicadas na relação entre educação e cultura na contemporaneidade, que estão se transformando na educação que nós surdos queremos, e situar a posição do jeito como são ensinadas as crianças surdas na sala de aula. A autora. CAPÍTULO 1 Condições de Ensino de Libras A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 9 Incentivar os alunos a conhecer a pesquisa do ensino de Libras nos Estudos Linguísticos e Estudos Surdos. 9 Incentivar a formação dos alunos para serem profissionais de Libras. 9 Incentivar os alunos a pesquisa na área de Libras. 10 Didática e educação de surdos 11 Condições de Ensino de LibrasCapítulo 1 Contextualização Vamos iniciar a nossa disciplina estudando alguns critérios que consideramos fundamentais para análise do ensino de Libras. Nossa perspectiva é a de alcançarmos, pelo esforço da formação dos professores surdos e dos professores bilíngues no ensino de Língua de Sinais, um ambiente linguístico na Educação de Surdos, em universidades públicas e privadas que se situam na sua posição de mais elevadas em qualidade. Inicialmente, é importante explicitar a nomenclatura da política da Educação de Surdos vinculados à área de Libras. A Constituição Federal do nosso país define sujeitos surdos com direitos linguísticos e culturais, respeitando nossa língua, nossa identidade e nossa cultura. Os termos das condições do ensino de Libras são muito discutidos atualmente e,apesar de ser reconhecida a sua importância, ainda falta clareza sobre o que realmente significa qualidade quando se trata da Educação Bilíngue, o que se deve inserir na grade curricular de Libras nas instituições municipais, estaduais, federais e privadas. Os professores surdos, preocupados com as condições de ensino de Libras para as crianças surdas, reuniram-se e organizaram uma discussão virtual mais marcante: o fechamento do INES - Instituto Nacional de Educação de Surdos, localizado no Rio de Janeiro, iniciando o movimento em favor da Educação de Surdos e Cultura Surda. A partir daí, analisando a discussão dos militantes surdos com base nos documentos produzidos, defende-se nossa Educação de Surdos ou Educação Bilíngue para surdos, bem como a importância de permanecer na Educação Básica do Ines, defendendo os direitos linguísticos das crianças surda, professores surdos e professores bilíngues nas escolas de surdos para não dissolver esses valores linguísticos e culturais nos espaços educacionais. Daquela discussão se procurava estruturar um documento definindo os critérios para análise da qualidade do ensino de Libras nos espaços educacionais, a exemplo do documento da Convenção da ONU que explicitaos direitos das pessoas com deficiência. No caso específico dos debates, a ideia era gerar um documento defendendo a cultura surda e o direito linguístico do surdo, em outras palavras, não se trata de criar uma receita, um modelo a ser seguido rigorosamente, e sim parâmetros de análise e um roteiro de definição da qualidade de ensino e de Educação de Surdos ou educação bilíngue para surdos. O documento divide-se em duas partes muito importantes para a Educação de Surdos e Educação Bilíngue: Convenção da ONU e Decreto de Libras. 12 Didática e educação de surdos O grupo de professores surdos da Comunidade Surda destacou, nos dois documentos, uma das questões mais importantes para a comunidade surda: a qualidade de ensino da Educação de Surdos. Os itens de cada documento serão explicados a seguir, separadamente. É importante lembrar que os itens não estão colocados em ordem de prioridade e também que apresentam fortes argumentos sobre os nossos direitos humanos, ou seja, não são questões isoladas nas legislações. Parte-se do pressuposto de que a qualidade na Educação de Surdos corresponde “à oportunidade de respeitar a nossa cultura surda com relação ao acesso da comunidade surda”, reforça-se, assim, o comprometimento e a responsabilidade das estruturas públicas na concretização desse direito humano das crianças surdas. Bem, vamos aos itens que correspondem às condições para a qualidade, analisando em alguns itens e de forma geral as condições da qualidade de ensino de Libras nos espaços educacionais no Brasil. Políticas Públicas para o Esino de Libras Este item significa a prioridade da Educação de Surdos e Educação Bilíngue nas políticas públicas desenvolvidas pelos governos. É, assim, questão importante para ser observada e definida como condição de qualidade de ensino de Libras. Hoje, no Brasil, a criança surda precisa estar sempre em destaque quando se trata de diagnósticos da situação da aquisição da linguagem e cultura do país, porém há uma grande distância entre os problemas que se observam, o que se declara que será realizado e o que se realiza quando as crianças surdas se desenvolvem precocemente em Língua de Sinais. É preciso, antes de tudo, construir uma identidade cultural através da identificação com os professores surdos para, então, entrar na dinâmica da convivência e relação surdo-surdo. O assunto está continuamente na pauta dos povos surdos em cargos públicos, ou seja, os professores surdos das Universidades, os quais declaram suas concepções e apresentam suas propostas, que nem sempre são cumpridas, como no caso da reunião para inserir a importância do currículo no documento “Educação Que Nós Surdos Queremos”, na Conferência Nacional de Educação (CONAE). Então, apresentam publicamente conceitos, como: Estimulação em Língua de Sinais nas crianças surdas, mostrando como é a construção de identidade cultural e compreender que as crianças surdas necessitam identificar-se nos professores surdos; o papel da creche para as crianças surdas e da comunidade surda na inclusão social; a função do setor público em relação aos professores surdos nos espaços educacionais. A criança surda precisa estar sempre em destaque quando se trata de diagnósticos da situação da aquisição da linguagem e cultura do país, porém há uma grande distância entre os problemas que se observam, o que se declara que será realizado e o que se realiza quando as crianças surdas se desenvolvem precocemente em Língua de Sinais. 13 Condições de Ensino de LibrasCapítulo 1 A verificação da efetiva prioridade da Educação de Surdos e Educação Bilíngue na mesma extensão das necessidades e dos compromissos políticos que necessitam ser assumidos é, portanto, uma questão de qualidade de ensino a ser observada. O sistema de Educação de Surdos e Educação Bilíngue necessita acontecer no misto entre duas línguas dentro da Educação: a Língua de Sinais e a Língua Portuguesa. No entanto, para nós, surdos, a nossa primeira língua é a Língua de Sinais e segunda língua a Língua Portuguesa. Isso faz com que se tenha uma estrutura gramatical diferente como acesso de comunicação para os surdos e sua inserção na Educação. Levando tal aspecto em consideração o Decreto de Libras estabelece como um dos direitos fundamentais do ser humano surdo o direito linguístico. Desse modo, as instituições públicas e privadas de ensino que representam uma parte significativa na organização dos direitos linguísticos dos surdos, precisam adaptar-se para atender principalmente as crianças surdas, que necessitam ter sua estimulação precoce no processo de aquisição da linguagem, tendo a Língua de Sinais como sua primeira língua. O Decreto de Libras nº 5.626/2004, no capítulo IV, em seu artigo 14, define que: Art. 14. As instituições federais de ensino devem garantir, obrigatoriamente, às pessoas surdas acesso à comunicação, à informação e à educação nos processos seletivos, nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas e modalidades de educação, desde a educação infantil até à superior. Em relação ao decreto, é importante difundir Libras nos espaços educacionais para formar profissionais que entendam Língua de Sinais e promover vários cursos de formação dos professores para o ensino e uso de Libras, tendo, assim, a possibilidade de atuar nas atividades relacionadas à Língua de Sinais para as crianças surdas. Legislação e Definição As Leis para a área de Libras devem refletir as escolhas políticas já declaradas e organizadas de forma não-fragmentada; definir os poderes jurídicos e responsabilidades dos níveis federal, estadual e municipal; fixar objetivos que possibilitem a garantia da qualidade de ensino de Libras; ser aplicadas para o setor público e privado; prever sanções quando não forem respeitadas e enquanto se obrigar os surdos a usarem o padrão linguístico dos ouvintes; respeitar a nossa Língua de Sinais como a primeira língua e usar o material educativo adaptado em O sistema de Educação de Surdos e Educação Bilíngue necessita acontecer no misto entre duas línguas dentro da Educação: a Língua de Sinais e a Língua Portuguesa. 14 Didática e educação de surdos Língua de Sinais; definir as necessidades as finalidades educativas na área de Libras para crianças surdas. Em termos de elaboração de leis, pode-se dizer que estabelecemos, no Brasil, “um grande marco histórico”, sendo o fundamental problema o não cumprimento do que foi decidido, acima de tudo, o não respeito à cultura surda. Cultura Surda: É o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo, a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-o às suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das “almas das comunidades surdas”. Isso significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos de povo surdo. Um exemplo se dá na formação dos professores surdos e professores bilíngues. Não só ainda temos profissionais atuando como instrutor de Libras sem formação acadêmica, como continuam sendo feitos concursos públicos nas prefeituras estaduais e municipais. O que nos preocupa é que haja a estimulação aos profissionais surdos para ter a sua formação acadêmica, entrar por meio de concursos públicos na educação para obter o nosso espaço educacional na área de Libras, e difundir o nosso respeito à Língua de Sinais e à Cultura Surda. Profissionais Trata-se dos profissionais surdos que desenvolvem suas pesquisas voltadas para a realização de alguns objetivos importantes: o atendimento às crianças surdas para estimular sua aquisição de linguagem e difundir a Língua de Sinais nos sistemas universitários. Têm papel fundamental os professores surdos, mas também os profissionais e pesquisadores surdos que não estão ligados diretamente às crianças surdas, como ensinaa Língua de Sinais para os ouvintes. Estes sujeitos surdos, além do desenvolvimento da suas tarefas específicas, devem também ser considerados como participantes do projeto educativo vinculado à área de Educação de Surdos, de Educação Bilíngue e de Linguística aplicada à Língua de Sinais, devendo ter consciência da Educação de Surdos, conhecimento e compreensão da realidade vivida como identidade surda. Esses profissionais surdos têm a sua identidade surda reconhecida como construção cultural na pós- modernidade e devem ter estabelecidas condições de trabalho respeitando o seu jeito de ensinar, seu jeito cultural, seu jeito de se produzir em Língua de Sinais. 15 Condições de Ensino de LibrasCapítulo 1 Esses profissionais surdos têm a sua identidade surda reconhecida como construção cultural na pós-modernidade e devem ter estabelecidas condições de trabalho respeitando o seu jeito de ensinar, seu jeito cultural, seu jeito de se produzir em Língua de Sinais, seu jeito de contar as histórias, seu jeito de se expressar culturalmente, próprio dos surdos, e seu jeito de sinalizar. Pós-Modernidade: É a condição sociocultural de estar após a modernidade, que prevalece na contemporaneidade, pode substituir a modernidade e pode significar englobar a consciência da filosofia cultural, traçando artes, literaturas, questões socioculturais, política cultural, identidade cultural, representando a diferença. Formação e Aperfeiçoamento Profissional Ainda é frequente e equivocada a concepção de que o sujeito surdo possui, naturalmente, as habilidades necessárias para a educação de crianças surdas, portanto, há necessidade de formação profissional para o trabalho nos espaços educacionais onde estão os alunos surdos. Além da formação, e por haver um desnivelamento de conhecimentos, é de grande valor a atualização/aperfeiçoamento como prática e criar sistemas para isso na área de Educação de Surdos e Educação Bilíngue. Há, como em toda e qualquer profissão especializada, a necessidade de acompanhar nos Estudos Surdos a contínua revisão das teorias especificamente cultural, identidade e linguística em Língua de Sinais, e das propostas voltadas para a Educação que nós surdos queremos. Também é preciso estar atentos às transformações que ocorrem em nossa sociedade para podermos acompanhá-las, bem como transgredir uma pedagogia da diferença, ou seja, pedagogia bilíngue nos espaços educacionais. O aperfeiçoamento deve ser encarado não como uma mera pedagogia tradicional e sim como uma transformação contemporânea para a pedagogia da diferença, ou seja, pedagogia Bilíngue para tomar conhecimentos em atividade cultural. Deve fazer parte da programação, ocorrendo periodicamente, como também se pode constituir em um trabalho cotidiano, que tem como base constantes discussões em grupo dos pesquisadores surdos, a programação do seu próprio trabalho, a definição de seus objetivos, a avaliação dos resultados 16 Didática e educação de surdos e, consequentemente, as reflexões sobre a visão dos surdos e as reformulações sempre que necessário sobre a visão cultural dos surdos. Nesse processo de aperfeiçoamento, a atuação da transgressão pedagógica dos surdos é algo novo para ter uma boa qualidade de ensino de Libras para as crianças surdas (a ideia de como ensinar através do jeito dos professores surdos). Consideramos importante organizar os programas culturais para aperfeiçoar o ensino de Libras, definindo os temas culturais em Língua de Sinais que se adaptam melhor à cultura surda dentro do currículo, a forma como serão trabalhados na sala de aula em Língua de Sinais, verificando constantemente a adequação da proposta da Educação de Surdos e Educação Bilíngue. Isso requer o conhecimento das necessidades da formação dos professores surdos quanto à satisfação de seus desejos, de forma que sejam estimulados. Transgressão Pedagógica: É um ato de transformação, transgredir algo para atualizar a forma de usar nessa transformação, como transformar a pedagogia tradicional na pedagogia da diferença na Educação de Surdos, uma quebra de regra, uma mudança com a perspectiva de construir. Pode-se elaborar e definir planos anuais de aperfeiçoamento, prevendo trabalhos realizados por experts no assunto, daí a importância do contato surdo-surdo e com a coordenação pedagógica, universidades e institutos que desenvolvem pesquisas científicas e estudos sobre temas da Educação de Surdos e Educação Bilíngue no campo de Estudos Surdos. A programação dos eventos de aperfeiçoamento deve ter toda a divulgação possível na comunidade surda brasileira e internacional, pais de filhos surdos, intérpretes de Libras e professores bilíngues junto às crianças surdas. É muito importante que se saiba do trabalho cultural que está sendo realizado nas escolas de surdos ou nas escolas bilíngues, inclusive dos assuntos tratados nos cursos de aperfeiçoamento com os professores surdos, para que a comunidade surda seja bem informada sobre o processo de qualificação das crianças surdas que se desenvolvem no ensino bilíngue como a Língua de Sinais e Língua Portuguesa. O aperfeiçoamento deve ser encarado não como uma mera pedagogia tradicional e sim como uma transformação contemporânea para a pedagogia da diferença, ou seja, pedagogia Bilíngue para tomar conhecimentos em atividade cultural. 17 Condições de Ensino de LibrasCapítulo 1 Caro(a) pós-graduando(a), neste site você poderá ler um artigo intitulado “Formação de professor, inclusão educativa: uma reflexão centrada no aluno surdo”, nele a autora faz algumas reflexões acerca do aluno surdo no contexto educacional. http://www.sj.cefetsc.edu.br/~nepes/docs/midiateca_artigos/ inclusao_educacao_ssurdos/texto69.pdf Pesquisa e Desenvolvimento Os professores surdos nos espaços educacionais precisam estar constantemente envolvidos nas pesquisas científicas sobre a Educação de Surdos e educação bilíngue, valorizando a importância da reflexão e utilização de conhecimentos produzidos. Por ser uma instituição que ocorre em qualquer lugar, a Educação de Surdos e Educação Bilíngue necessita de mais informações e de um conhecimento mais aprofundado sobre a pedagogia surda ou pedagogia da diferença, adaptado da cultura surda através da forma de ensino dos professores surdos. Por outro lado, produzir cultura surda nos espaços educacionais é um campo privilegiado de pesquisa para estudiosos das áreas educacionais e linguísticas e, em especial, da Educação de Surdos e Educação Bilíngue. Pesquisas que podem ser fundamentais na observação possibilitaram a modificação de algumas teorias, como, por exemplo, o desenvolvimento bilíngue para surdos, a partir de um novo campo nos Estudos Surdos na área de Estudos Linguísticos em Língua de Sinais, que mais tarde que foi conhecido como Educação Bilíngue, as modalidades de interação entre as duas línguas, a Língua de Sinais e a Língua Portuguesa para expor, tanto na modalidade oral quanto escrita, as relações do encontro surdo-surdo, currículo, pedagogia bilíngue, cultura surda, fazendo com que se torne uma forma de acesso das pessoas ao mundo social e linguístico. Assim, reforça-se a ideia da Educação Bilíngue como um verdadeiro sonho dos professores e pesquisadores surdos, lugar onde é possível colher um espaço bilíngue para surdos, utilizando as duas A ideia da Educação Bilíngue como um verdadeiro sonho dos professores e pesquisadores surdos, lugar onde é possível colher um espaço bilíngue para surdos, utilizando as duas línguas como fronteira de língua, e suas motivações podem ser introduzidas na própria Educação Bilíngue. 18 Didática e educação de surdos línguas como fronteira de língua, e suas motivações podem ser introduzidas na própria Educação Bilíngue, visando à melhoria na qualidade de processoeducacional. CONVENÇÃO DA ONU EM RELAÇÃO À LÍNGUA DE SINAIS [...] Art. 9.2 e) Oferecer formas de assistência humana ou animal e serviços de mediadores, incluindo guias, ledores e intérpretes profissionais da língua de sinais, para facilitar o acesso aos edifícios e outras instalações abertas ao público ou de uso público. [...] Art. 21, b) Aceitar e facilitar, em trâmites oficiais, o uso de línguas de sinais, braille, comunicação aumentativa e alternativa, e de todos os demais meios, modos e formatos acessíveis de comunicação, à escolha das pessoas com deficiência. [...] Art. 21 e) Reconhecer e promover o uso de línguas de sinais. [...] Art. 24, 3.b) Facilitação do aprendizado da língua de sinais e promoção da identidade linguística da comunidade surda. [...] Art. 30,4. As pessoas com deficiência farão jus, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, a que sua identidade cultural e linguística específica seja reconhecida e apoiada, incluindo as línguas de sinais e a cultura surda”. Fonte: Disponível em: <http://www.portaldeacessibilidade.rs.gov.br/portal/ index.php?id=legislacao&cat=4&cod=376>. Acesso em: 10 abr. 2011. 19 Condições de Ensino de LibrasCapítulo 1 Sobre o fato de a Convenção da ONU vincular a área de Língua de Sinais como um dos direitos humanos dos surdos, é importante destacar que essa convenção é um marco muito importante da legislação para a comunidade surda, pois fica garantido seu direito linguístico. E sabemos que se não há direito linguístico, não há direito humano! Atividade de Estudos: 1) Analisando as políticas voltadas para a área de Libras, o que você percebe que é declarado, mas não é realizado na Educação Bilíngue? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ 2) Quais elementos você sugeriria que todo professor bilíngue precisaria melhorar e transformar no sistema educacional para a Educação Bilíngue? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ 3) Dê algumas sugestões em relação à Convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência, especificamente em Língua de Sinais, e o que se necessita inserir na grade curricular na Educação Bilingue? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ 20 Didática e educação de surdos 4) Justifique a importância do aperfeiçoamento para os profissionais surdos de Língua de Sinais e professores bilíngues na Educação Bilíngue. _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ Algumas Considerações Viu como é importante conhecer e entender a legislação voltada para a área de Língua de Sinais? Então, vamos continuar... Não se preocupe, a prática do conhecimento nas legislações é uma grande aliada nestas horas, quanto mais exercitamos, melhor entenderemos os nossos direitos linguísticos! Vamos começar buscando compreender as qualidades do ensino de Libras. Este entendimento é algo para as nossas decisões como professores surdos e/ou professores bilíngues que trabalham na Educação de Surdos. Pois, são os nossos conceitos que embasam nossas escolhas pedagógicas das diferenças. Referências: BRASIL. Lei nº 5.626 de 2 de dezembro de 2004. Critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiências. Brasilia: MEC. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/ Decreto/D5296.htm>. Acesso em: 15 jan. 2011. CAPÍTULO 2 Qualidade do Ensino de Língua de Sinais A partir da concepção do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 9 Conhecer a política de acessibilidade para os surdos 9 Conhecer a visão dos pais sobre os surdos 9 Discutir sobre a formação dos professores de Libras 9 Discutir sobre os valores éticos profissionais dos professores de Libras 22 Didática e educação de surdos 23 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 Contextualização Neste capítulo, apresentaremos as qualidades necessárias para o ensino de Libras que determinam aspectos linguísticos nos espaços educacionais, principalmente nas escolas de surdos e escolas bilíngues para surdos, e permitem a análise do nível de qualidade da instituição, servindo o uso de Língua de Sinais para o planejamento e a intervenção das práticas educativas. A seguir, vamos apresentar os itens relacionados às condições de qualidade de ensino e os indicadores apresentados, que estão envolvidos nesta modalidade de aprendizagem e têm entre si forte correlação. Acessibilidade de uso em Língua de Sinais nos Espaços Educacionais Nesta seção iremos falar sobre acessibilidade, e a importância que isso tem para que os alunos ou as pessoas surdas tenham independência e uma vida normal como às demais pessoas. Além disso, a tecnologia favorece para que os surdos consigam se comunicar e exercer as diversas práticas sociais do dia a dia. Indica o nível de atendimento da demanda de acesso à comunicação entre surdos e ouvintes, bem como a localização da comunidade surda, ambas exigidas pela comunidade surda, por exemplo, como usar a tecnologia para surdos e sua adaptação, o que é o caso da última tecnologia chegada ao Brasil, a Viable, e outras aparelhagens adaptadas para surdos. Viable : É um aparelho de comunicação para surdos que atua de forma independente. É uma central intermediária entre intérprete e surdo de forma visual e sinalizando em Língua de Sinais. O usuário sinaliza para o intérprete, o intérprete traduz para o ouvinte ao telefone e o ouvinte responde aos intérpretes. Se você quiser conhecer como funciona o Viable, acesse o link abaixo e veja como um simples aparelho pode auxiliar tanto na independência e como na acessibilidade. Vale a pena assistir o vídeo e se inteirar das novas tecnologia que estão chagando no Brasil e auxiliando os surdos. http://www.viable.net/ 24 Didática e educação de surdos Essas adaptações são: campainha luminosa, celular vibratório, aparelho vibratório de bebê chorando, closed caption para legenda na TV, intérprete na janela da TV, mídia em Língua de Sinais nos locais como nos aeroportos, bancos e vários locais. Devido à situação em que a comunidade surda vive, é de grande importância a questão da acessibilidade para o povo surdo. Neste sentido, a questão do acesso precisa ser vista com atenção através da experiência visual. Experiência Visual: Denominar povo surdo é uma estratégia de poder, de identidade. O que constitui este povo? As associações, organizações locais, nacionais e mundiais de surdos, as lutas, a cultura, as políticas. É uma representação simbólica, não como uma simples comunidade a quem podem impor regras, mas como uma estrutura forte que se defende, impõe suas regras, seus princípios. (REIS, 2006). A escola de surdos e a escola bilíngue é um direito que toda criança surda tem para adquirir, como primeira língua, a Língua de Sinais. No entanto,o poder público ou sociedade vem tendo dificuldade para cumprir sua obrigação constitucional e precisa, nesta circunstância, priorizar o atendimento de comunicação em Língua de Sinais para surdos principalmente em famílias de filhos surdos. Há, assim, necessidade de planejamento com relação à acessibilidade aos locais onde serão construídas as escolas de surdos e escolas bilíngues para que exista uma postura democrática destas em relação às crianças surdas que poderão ser matriculadas. Escolas bilíngues com modelos organizativos, o modelo de bilíngue para surdos onde estes querem o seu jeito de ensinar, o porquê ensinar o jeito cultural dos surdos, ensinar a Língua de Sinais como a primeira língua são iniciativas realizadas pelos pesquisadores, que conhecem a área de Educação de Surdos e que estão há muitos anos trabalhando e batalhando pela comunidade surda. Eles querem sua nova proposta de educação bilíngue no documento do PNE – Plano Nacional de Educação. Nós pensamos, sentimos e tentamos excluir a visão equivocada dos ouvintes sobre nós, surdos, como acontece no Ministério da Educação, na Secretaria de Educação Especial Federal, Devido à situação em que a comunidade surda vive, é de grande importância a questão da acessibilidade para o povo surdo. Neste sentido, a questão do acesso precisa ser vista com atenção através da experiência visual. A escola de surdos e a escola bilíngue é um direito que toda criança surda. Escolas bilíngues com modelos organizativos, o modelo de bilíngue para surdos onde estes querem o seu jeito de ensinar, o porquê ensinar o jeito cultural dos surdos, ensinar a Língua de Sinais como a primeira língua são iniciativas realizadas pelos pesquisadores, que conhecem a área de Educação de Surdos e que estão há muitos anos trabalhando e batalhando pela comunidade surda. 25 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 já que estes órgãos não conseguem responder e cumprir as exigências para a educação que os surdos querem, como no caso do CONAE. Quer conhecer a moção que nós, surdos, propomos? Veja a moção abaixo: Conferência Nacional de Educação – Os surdos apresentaram o documento “Que Educação nós surdos queremos”, incluindo várias propostas, mas os próprios membros do CONAE excluíram os itens importantes que nós queremos, os quais estão registrados na moção. MOÇÃO DELEGADOS PROPONENTES: Cláudio Henrique Nunes Mourão e Cristian Alexandre Strack (RS); Cristiano de C.A. Koyama, Maria Inês Vieira, Moryse Vanessa Saruta e Neivaldo Augusto Zovico (SP); Mardênio dos Santos Aguiar (CE); Apresentamos esta moção, solicitando a inclusão de três parágrafos no Eixo VI, visto que as redações aprovas pelas Conferências realizadas nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná e Ceará, relacionadas à Educação de Surdos, foram parcialmente contempladas. Devido à especificidade da Educação de Surdos, cujo reconhecimento é reivindicado pelos movimentos políticos, articulados pelas comunidades surdas brasileiras, entendemos como fundamental a inclusão dos parágrafos a seguir para a efetiva consolidação das propostas de educação do nosso país. PARÁGRAFOS A INCLUIR Garantir a continuidade das escolas de surdos, desde a educação infantil até as séries finais da educação básica, assegurando sua regularidade no sistema de ensino, com projeto pedagógico estabelecido. Nos casos onde a população de surdos não comportar a existência de escola de surdos, garantir o atendimento dos alunos em classes de surdos, estabelecidas em escolas regulares de referência, ou ainda, nos casos em que isso não for possível, estimular espaços de compartilhamento da língua de sinais e demais aspectos culturais como condição do desenvolvimento linguístico, cognitivo, emocional, social, cultural e de construção de identidade. Garantir aos professores surdos e ouvintes que atuam nas escolas de surdos, bem como nas classes de surdos, que tenham formação específica e continuada sobre a história, aspectos 26 Didática e educação de surdos linguísticos, culturais e de identidade das comunidades surdas do Brasil e do Mundo. Garantir o ingresso de surdocegos e surdos com outras deficiências associadas, nas escolas de surdos, bem como nas classes de surdos, pautada na perspectiva da educação inclusiva, assegurando o direito a educação em língua de sinais como primeira língua, bem como a presença de professor assistente, do instrutor mediador ou do guia intérprete, de acordo com a necessidade do aluno. Fonte: A autora. Atividade de Estudos: 1) Quais as principais vantagens que o documento “Que Educação nós surdos queremos” possibilita aos alunos surdos nos espaços educacionais? Reflita sobre a importância e registre suas ideias. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 2) Quais as tecnologias adaptadas para surdos que já conheceu? ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 3) Quais são as suas vantagens e suas desvantagens para surdos? ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 27 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 A Escola Bilingue A escola de surdos e escola bilíngue para surdos, considerada como espaço visual e privilegiado de educação e desenvolvimento das crianças surdas, precisa reconhecer o valor e a importância de uma programação educativa. É fundamental a elaboração de um projeto pedagógico e material didático adaptado para a experiência visual que contemple a concepção de escola, de criança e de seu desenvolvimento, dando atenção visual à escolha dos instrumentos da ação educativa, aos projetos a serem desenvolvidos, aos jogos e aos materiais lúdico-didáticos em Língua de Sinais e Língua Portuguesa a serem trabalhados como bilíngues. Portanto, gostaria de enfatizar que a primeira língua dos surdos é a língua de sinais e segunda, a língua portuguesa, o que favorece as relações de contato, o encontro surdo-surdo e o contato com a cultura surda. Além disso, é necessário que o surdo se comunique na sua primeira língua – língua de sinais, da mesma forma que as pessoas, oralizadas se comunicam em língua portuguesa. E a escola bilíngue exerce com isso, um papel fundamental, o de proporcionar uma interação entre a língua de sinais, e até mesmo a pessoa surda compreender as diferentes formas de se comunicar na língua de sinais nas diversas situações sociais do dia a dia. E, a língua portuguesa, será a língua em que as crianças surdas poderão se comunicar de forma escrita e ter acesso a todos os materiais escritos que estão presentes na sociedade. A partir disso, vejamos alguns indicadores que se apresentam em uma programação educativa: • Permanência da construção da identidade surda das crianças e variação linguística em língua de sinais. Ou seja, da mesma forma que outras crianças que nascem em comunidades que falam línguas migratórias (alemão, italiano, francês, polonês, entre outras) as crianças surdas têm o direito de manter a sua cultura surda, ou seja, a sua identidade surda. Além disso, cabe lembrar que alíngua de sinais, é uma língua linguistica semelhante as demais, pois, irá haver diferentes variações sociolinguisticas nos diferentes contextos sociais das comunidades surdas. É necessário que o surdo se comunique na sua primeira língua – língua de sinais, da mesma forma que as pessoas, oralizadas se comunicam em língua portuguesa. E a escola bilíngue exerce com isso, um papel fundamental, o de proporcionar uma interação entre a língua de sinais, e até mesmo a pessoa surda compreender as diferentes formas de se comunicar na língua de sinais nas diversas situações sociais do dia a dia. 28 Didática e educação de surdos Identidade: [...] a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através dos processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”. (HALL 2006, p. 38). • Aceitação do jeito de ser surdo. Além de ser surdo, é preciso que a criança se aceite como surdo na comunidade que esteja inserido e que exerça uma vida normal no seu cotidiano. • Aceitação das crianças em usar a língua de sinais como a variação linguística. • Privacidade e sociabilidade como experiência visual. • Uso das imagens, gravuras com as palavras para a contextualização da criança surda. • Captação das imagens e suas respectivas palavras devido à visualidade. • Ensino e apresentação dos objetos e suas respectivas palavras para trabalhar no contexto e usar a segunda língua como a modalidade escrita. • Sequencialidade e imprevisibilidade em contexto de Língua de Sinais. • Os surdos usam o jeito em Língua de Sinais como contexto diferenciado do jeito dos ouvintes. • Uso da Língua de Sinais como cultural, o jeito dos surdos de se expressarem. • Ação e formalização/simbolização como expressão facial e corporal em Língua de Sinais. Os surdos usam mais as expressões faciais para facilitar a comunicação e perceber no contexto o que eles estão sinalizando. Sem expressão facial e corporal, não tem sentido a ser percebido pelos surdos. Consideram-se como atividades de aprendizagem aquelas que favorecem o desenvolvimento cognitivo, afetivo e sociocultural da criança surda. Portanto, todas as atividades realizadas nas escolas de surdos são atividades de aprendizagem, através da visualidade espacial, inclusive as ações de Língua de Sinais. Na próxima seção iremos conversar sobre o sistema de relações da Língua de Sinais. 29 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 Sistemas de Relações em Língua de Sinais Nesta seção iremos estudar o sistema de relações da Língua de Sinais, além disso, iremos compreender essas relações tanto na visão dos pais como da comunidade surda. Para o pesquisador Capovilla (2005) comprova que a criança surda, desde bem pequena, é capaz de estabelecer relações com o ambiente em que vive, ou seja, com as pessoas se comunicando em Língua de Sinais, principalmente pais surdos e filhos surdos com estimulação precoce em Língua de Sinais. Quanto mais elaborado e rico for o sistema de relações de comunicação, mais a criança surda terá oportunidade de aprender e crescer nas escolas bilíngues para surdos. A escola de surdos e a escola bilíngue é um espaço social entre surdos. A complexidade e o equilíbrio das relações de comunicação são fundamentais, bem como a qualidade das trocas de experiências visuais e a definição dos papéis. A relação do professor surdo/aluno surdo, em particular, pode ser natural e precisa ser considerada na construção de identidade, cultura e Língua de Sinais, isto é, na identificação cultural dos surdos. O professor surdo é um sujeito significativo e crucial, ponto de referência, e precisa ser um ativo de comunicação natural entre eles. Na relação criança surda/criança surda como encontro surdo- surdo, por sua vez, a criança aprende a estabelecer interações de prazer com outras crianças surdas. É uma relação que dificilmente ocorre sem conflitos e negociações, porém permite descobrir as diferentes identidades surdas. É nesta relação que ela aprende o que significa cooperação cultural e desfruta de importantes momentos de troca de igual para igual. Vê-se que a relação professor surdo/professor surdo envolve grande variedade de interações, podendo ocorrer nos espaços educacionais, nos eventos, nos encontros, nos cursos ou no ambiente cultural dos surdos. Constitui a “subjetividade surda”, que torna possível e significativamente as outras duas dimensões relacionais, como identificar a identidade surda e a cultural. a) Ponto de vista dos pais O termo “pais” não faz distinção entre pai e mãe e também pode ser representado por qualquer pessoa da família que se sinta e aja como responsável pela criança. Ocorre que, muitas vezes, os pais utilizam o sistema linguístico da Capovilla (2005) comprova que a criança surda, desde bem pequena, é capaz de estabelecer relações com o ambiente em que vive, ou seja, com as pessoas se comunicando em Língua de Sinais, principalmente pais surdos e filhos surdos com estimulação precoce em Língua de Sinais. Quanto mais elaborado e rico for o sistema de relações de comunicação, mais a criança surda terá oportunidade de aprender e crescer nas escolas bilíngues para surdos. 30 Didática e educação de surdos Língua Portuguesa, por não saber a Língua de Sinais. Ao agir dessa forma, fazem com que as crianças surdas aprendam tardiamente a Língua de Sinais, diferentemente do que ocorrem entre pais surdos e filhos surdos, cujos estímulos na Língua de Sinais já acontecem desde que o início do processo de aquisição da linguagem pela criança. A questão da relação com a família é ponto fundamental em um projeto autenticamente pedagógico–cultural, ampliando o conhecimento em Língua de Sinais. A participação dos pais é a base para que haja um conhecimento articulado e amplo sobre as crianças surdas nas suas diversas situações de vida através da experiência visual. Figura 1 – A família na educação das crianças surdas Fonte: Disponível em: <http://images.google.com.br/imgres?q=d%C3%BAvida&hl=pt- BR&gbv=2&tbm=isch&tbnid=XmbHQJipuEu4xM>. Acesso em: 12.abr. 2011. Como as crianças surdas podem construir a sua língua natural, a Língua de Sinais, em uma casa cuja família não sabe ou não usa a Língua de Sinais? Quando essa situação ocorre as crianças aprendem tardiamente a língua, somente quando chegam às escolas de surdos, a partir de 3 anos de idade. Apesar de sua importância, essa relação entre pais surdos / ouvintes e professores surdos/ bilíngues é bastante complexa. Envolve expectativas, atribuições, interpretações que nem sempre são explicitadas. É comum gerar conflitos por medo de julgamentos, disputas e discursos sobre quem sabe mais sobre as crianças surdas, sentimentos de culpa (pais) e superioridade (professores surdos e bilíngues). É preciso maturidade profissional. O professor surdo e bilíngue deve tornar possível o estabelecimento de uma comunicação mais esclarecida entre as famílias dos filhos surdos, cuja base está na consciência do professor surdo e bilíngue a respeito do seu papel nessa relação: o colaborador, o clarificador, o comunicador atento, o entender incansável. Ao agir dessa forma, fazem com que as crianças surdas aprendam tardiamente a Língua de Sinais, diferentemente do que ocorrem entre pais surdos e filhos surdos, cujos estímulos na Língua de Sinais já acontecem desde que o início do processo de aquisição da linguagem pela criança. 31 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 É preciso buscar permanentemente caminhos para alcançar a compreensão recíproca entre pais e professores. Devem-se criar novas formas de encontros sobre Educação de Surdos, sobre educação bilíngue para surdose o investimento na formação profissional visando a estes objetivos. Atividade de Estudos: Dúvidas dos pais ouvintes sobre qual a língua preferida para os filhos surdos. Reflita com as perguntas abaixo: 1) Se você tivesse um filho surdo, como você reagiria? Deixaria a responsabilidade para o professor surdo ou bilíngue que entende sobre crianças surdas? ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Imaginando que você tenha um filho surdo, buscaria entender a situação para educá-lo melhor? Faria o uso da Língua de Sinais na sua casa para se comunicar melhor com a família ou gostaria de normalizar, oralizá-lo, seguindo o modelo ouvinte? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Preciso maturidade profissional. O professor surdo e bilíngue deve tornar possível o estabelecimento de uma comunicação mais esclarecida entre as famílias dos filhos surdos, cuja base está na consciência do professor surdo e bilíngue a respeito do seu papel nessa relação: o colaborador, o clarificador, o comunicador atento, o entender incansável. 32 Didática e educação de surdos Comunidade Surda Por que dizer comunidade surda? Tem alguma relação com os sujeitos surdos? Por que sempre nos referimos à comunidade surda? Onde fica essa comunidade? O termo “comunidade” pode gerar língua e cultura em qualquer parte do mundo, conforme o conceito básico e geral da palavra: Do ponto de vista da sociologia, uma comunidade é um conjunto de pessoas que se organizam sob o mesmo conjunto de normas, geralmente vivem no mesmo local, sob o mesmo governo ou compartilham do mesmo legado cultural e histórico. Os estudantes que vivem no mesmo dormitório podem formar uma comunidade, assim como as pessoas que vivem no mesmo bairro, aldeia ou cidade. Fichter (1967), em suas Definições para uso didático, ressalta que uma palavra que é rodeada de significados múltiplos, requer uma cuidadosa definição técnica, ao que propõe: comunidade é um grupo territorial de indivíduos com relações recíprocas, que servem de meios comuns para lograr fins comuns. (WIKIPÉDIA, 2011). Para compreender o conceito sociológico de comunidade, observe as imagens a seguir sobre três grupos sociais distintos: os negros, os índios e os judaicos: Figura 2 – Comunidade indígena Fonte: Disponível em: <http://www.comunidadebancodoplaneta.com.br/ profiles/blogs/belo-monte-ibama-ja-da-a>. Acesso em: 12 abr. 2011. 33 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 Figura 3 – Comunidade Judaica Fonte: Disponível em: < http:://revistainclusiva.wordpress. com/2010/01/28/comunidade-judaica 79>. Acesso em: 19 abr. 2011. Figura 4 – Comunidade negra Fonte: Disponível em : http://galeradobartho.blogspot.com/2010/11/ dia-da-consciencia-negra.html&do. Acesso em: 25 de abr. 2011 Desse modo, a comunidade surda pode envolver-se nessa situação, ou seja, pode fazer parte do conceito básico e geral citado anteriormente. O conceito da comunidade surda fica esclarecido, bem como o pensamento dos povos surdos, nas afirmações dos autores surdos americanos: Uma comunidade surda é um grupo de pessoas que vivem num determinado local, partilham os objetivos comuns dos seus membros, e que por diversos meios trabalham no sentido de alcançarem estes objetivos. Uma comunidade surda pode incluir pessoas que não são elas próprias Surdas, mas que apóiam ativamente os objetivos da comunidade e trabalham em conjunto com as pessoas Surdas para os alcançar. (PADDEN; HUMPHRIES, 1993, p. 5). Uma comunidade surda é um grupo de pessoas que vivem num determinado local, partilham os objetivos comuns dos seus membros, e que por diversos meios trabalham no sentido de alcançarem estes objetivos. (PADDEN; HUMPHRIES, 1993, p. 5). 34 Didática e educação de surdos Entendemos que a comunidade surda não é só de sujeitos surdos, mas de qualquer pessoa que se envolva nessa comunidade e que compartilhe dos mesmos interesses profissionais e pessoais. Porém os povos surdos têm próprias formas de organizar-se: diferentes modos de vida, línguas e culturas. Vê-se que é preciso ter como perspectiva da comunidade surda a forma de gerir a escola de surdo com a participação dos professores e pesquisadores surdos, dos professores bilíngues, interpretes e representantes da comunidade surda. Isso contribui para a construção da imagem da escola bilíngue como uma instituição cultural e educativa de grande relevância, bem como um equipamento que pertence a essa comunidade surda. Avaliação dos Professores de Libras Avaliar é saber ensinar e interpretar a postura dos professores de Libras e, assim, melhor estabelecer a autoavaliação da programação educativa para melhorar o seu desempenho quanto ao uso de estratégia de ensino através da expressão facial e corporal e, preferencialmente, enfatizar o jeito cultural dos professores surdos. Avaliação é o ato de conhecimento e de reconhecimento de valores com base na subjetividade dos surdos. Portanto, não existe uma única forma de avaliar. Para que a avaliação se torne confiável e segura, podem-se definir os critérios: autoconsciência, saber ensinar os outros, observar o desenvolvimento das crianças surdas, solicitar a colaboração da criança surda, deixar claras as intenções através da Língua de Sinais para as crianças surdas enquanto estão construindo sua aquisição de linguagem, estar atento ao perigo dos instrumentos utilizados que impõem a Língua Portuguesa como a primeira língua aos sujeitos surdos. O importante é respeitar o jeito das crianças surdas que querem aprender a Língua Portuguesa como segunda língua sem imposição. Valores Éticos dos Profissionais Os princípios éticos de referência e o sistema adotado para a organização das escolas bilíngues para surdos constituem pontos de equilíbrio de todos os indicadores da qualidade de ensino na didática em Língua de Sinais. Quanto maior for a dificuldade em usar a Língua de Sinais, misturando com a Língua Portuguesa, maior será o risco de retardar a aquisição da Língua de Sinais e, consequentemente, de promover uma comunicação efetiva da comunidade surda. É preciso usar a Língua de Sinais desde o início do processo de aquisição da linguagem. Avaliação é o ato de conhecimento e de reconhecimento de valores com base na subjetividade dos surdos. Portanto, não existe uma única forma de avaliar. 35 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 Como usar os valores éticos dos profissionais no momento de usar a didática na Educação de Surdos? Para que isso ocorra, é preciso: • Saber bem a Língua de Sinais. • Respeitar a cultura surda. • Usar o currículo em Língua de Sinais nas várias disciplinas. • Usar o jeito de ensinar, de preferência, dos professores surdos e bilíngues. • Contar histórias adaptadas à cultura surda, como “Rapunzel Surda, Patinho Surdo, Adão e Eva; Ivo, Tibi e Joca”; e várias histórias utilizadas em Língua de Sinais que se relacionam ao mundo dos surdos. Para que você conheça alguns desses livros infantis, a seguir você poderá visualizar as capas desses livros, assim como uma pequena resenha de cada um deles. • A literatura infantil “Rapunzel Surda”é um livro de literatura infantil do Brasil escrito em língua de sinais. O livro Rapunzel Surda é uma versão do tradicional conto que insere elementos da cultura e identidade surda. Essa releitura inédita da história é acompanhada da escrita dos sinais (SW), ilustrações e uma versão em português. Voltada para o público surdo infantil, a obra é o resultado da pesquisa desenvolvida por Lodenir Becker Karnopp, Caroline Hessel e Fabiano Rosa. Figura 5 – Capa do livro Rapunzel Surda Fonte: Disponível em: < http://www.livrariacultura.com.br/scripts/ cultura/resenha/resenha> Acesso em: 05 mai. 2011. 36 Didática e educação de surdos • A literatura infantil “ O patinho Surdo” O nascimento de uma ave pertencente a outra espécie em um ninho de cisnes ouvintes e a dificuldade em estabelecer-se uma comunicação entre eles são contados em ‘Patinho surdo’. No livro, o protagonista reencontra a sua família e aprende a linguagem de sinais usada pelos bichinhos da lagoa. Figura 6 – Capa do livro Patinho Surdo Fonte: Disponível em: http://www.livrariacultura.com.br/ scripts/cultura>. Acesso em: 05 mai. 2011. • A literatura Infantil “ Tibi e Joca” este livro pode ser facilmente compreendido por crianças surdas e ouvintes. Esta é a história de Joca, um menino especial, e seu amigo Tibi. Joca é surdo. Juntos, eles fazem uma descoberta que mudará as vidas de Joca e sua família. Uma descoberta que pode ser importante para você também. Figura 7 – Capa do Livro Tibi e Joca Fonte: Disponível em: < http://www.livrus.com.br/site/perfil_livro. php?id_livro=42309>. Acesso em: 05 mai. 2011. • A literatura infantil “Adão e Eva” os autores contam a origem da língua de sinais através da criação do casal feita por Deus. Na história, os dois ficam sem roupa após comerem a maçã e vêem- se obrigados a usar a fala, já que as mãos estão ocupadas em esconder a nudez dos corpos. A versão desta história é recorrente 37 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 de encontro entre os autores e a comunidade de surdos, no qual são contados e recontados vários clássicos da literatura. Figura 8 – Capa do livro Adão e Eva Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/rc3oXU>. Acesso em: 05 mai. 2011. É preciso fazer as crianças surdas construírem sua identidade e sua cultura. Por acaso, você já conhece os livros ilustrados nas imagens? Caso não, tente comprá-los para que sejam trabalhados em sala e incentivem as crianças surdas a aceitarem-se como surdas. Vamos lá!!!! Além desses, existem outros clássicos infantis que foram traduzidos para a língua de sinais, e com isso estimular a inserção das crianças surdas nas práticas sociais de leitura. Se houver uma valorização dos aspectos culturais da criança surda, ficará mais fácil alcançar bons níveis de qualidade e de ética entre os profissionais. Sugestões de critérios para um atendimento na educação bilíngue que respeite os direitos fundamentais dos sujeitos surdos e o ambiente em que a escola de surdos e escola bilíngue para surdos precisam estar inseridas é também considerado como fator integrante do processo educativo. A escola de surdos e bilíngue para surdos é um espaço de educação que os surdos querem e, portanto, incluída no contexto do ambiente linguístico em Língua de Sinais de um sistema formativo. Requer a sua articulação no espaço educacional com as demais oportunidades, seja esse espaço público ou privado, de caráter linguístico e cultural. Esta articulação pode ser direta: inserção na própria programação de Educação de Surdos momentos específicos para uma educação de qualidade melhor para surdos, conforme o documento criado pela comunidade surda de São Paulo para o CONAE: 38 Didática e educação de surdos REIVINDICAÇÕES DA COMUNIDADE SURDA DE SÃO PAULO AO CONAE a) Garantir que as escolas de surdos promovam a Educação Bilíngue, desde a Creche e Educação Infantil. Para tanto, devem se constituir como ambiente linguístico no qual a língua de comunicação e instrução seja a Língua Brasileira de Sinais com o objetivo de promover sua aquisição como primeira língua do surdo e a Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda língua. b) Garantir a utilização da Língua Brasileira de Sinais como língua de construção e transmissão de conhecimentos e não somente como mecanismo de tradução, sem a exclusão do ensino da Língua Portuguesa, possibilitando estratégias de manutenção, fortalecimento e ampliação do uso dessas línguas em uma perspectiva de educação bilíngue. c) Garantir às famílias e aos surdos o direito de optar pela modalidade de ensino mais adequada para o pleno desenvolvimento linguístico, cognitivo, emocional, psíquico, social e cultural de crianças, jovens e adultos surdos, garantindo o acesso à educação bilíngue – LIBRAS e Língua Portuguesa. d) Garantir a oferta de atendimento educacional à criança surda, do nascimento aos três anos, propiciando a imersão em Língua de Sinais como primeira língua para promover a aquisição de linguagem e de conhecimento de mundo desde o nascimento. e) Assegurar a regularidade das escolas que ofertem educação para o surdo no sistema de ensino, garantindo seriação e que tenham projeto pedagógico estabelecido com base em um currículo bilíngue. f) Garantir o contato dos alunos surdos com professores surdos, oportunizando sua identificação linguística e cultural, o que colaborará para a construção de uma autoimagem positiva de surdo e de sua constituição como cidadão. g) Garantir que os professores surdos e ouvintes que atuem nas Escolas de surdos tenham formação sobre a história, cultura, identidade e comunidades surdas do Brasil e do mundo, bem como fluência em LIBRAS. h) Consolidar o ensino de LIBRAS nos cursos de formação de professores, ampliando os programas em uma perspectiva cultural relacionada às comunidades surdas, com destaque nas artes, literatura, gramática da Língua de Sinais, história dos movimentos surdos, entre outros. Que essas temáticas sejam incluídas nos currículos das escolas de surdos e nas escolas com alunos surdos incluídos. Garantir a utilização da Língua Brasileira de Sinais como língua de construção e transmissão de conhecimentos e não somente como mecanismo de tradução, sem a exclusão do ensino da Língua Portuguesa, possibilitando estratégias de manutenção, fortalecimento e ampliação do uso dessas línguas em uma perspectiva de educação bilíngue. 39 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 i) A escola de surdos deverá garantir o ingresso de surdos com outras deficiências associadas, pautada na perspectiva da educação inclusiva e assegurando o direito à educação em Língua de Sinais como primeira língua. j) Nos Municípios onde a população de surdos não comportar a existência de escolas de surdos, garantir que a inclusão seja cuidadosa, ou seja, classes de surdos em escolas de ouvintes, ou ainda, nos casos em que isso não for possível, estimular espaços de compartilhamento da Língua de Sinais e demais aspectos culturais como condição do desenvolvimento linguístico, cognitivo, emocional, social, cultural e de construção de identidade. k) Na oferta de atendimento inclusivo em escolas regulares privilegiar a organização de escolas-pólos, onde os surdos possam ter contatos com outros surdos, desenvolvendo, assim, sua identidade, tendo contato com sua cultura, através da troca com seus pares. É importante a presença de professores surdos permanentes para desenvolver projetos de aquisição/ desenvolvimento da Língua de Sinais, como também ministrar cursos de LIBRAS para todos os setores da escola. l) Os municípios devem oferecer transporte aos alunos surdos para que possam frequentar as escolas de surdos ou as escolas-pólos, pois alunos surdos necessitam conviver com outras crianças, jovens e adultos em sua primeira língua. m) As escolas de surdos ou que tenham surdos incluídos devem oferecer o curso de LIBRAS aos pais e familiares,garantindo a comunicação com seus filhos Surdos. n) Garantir a implementação da Lei no 10.436 de 24 de abril de 2002 e do Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, no que concerne a oficialização da Língua Brasileira de Sinais LIBRAS – no território nacional. Incentivar e apoiar financeiramente a criação de cursos de graduação Letras-LIBRAS (licenciatura e bacharelado) em IES públicas, de modo a garantir que os profissionais que atuarão como professores e tradutores-intérpretes dessa língua, tanto na Educação Básica como no Ensino Superior, possam aprofundar o conhecimento da Língua de Sinais. Consolidar o ensino de LIBRAS nos cursos de formação de professores, ampliando os programas em uma perspectiva cultural relacionada às comunidades surdas, com destaque nas artes, literatura, história dos movimentos surdos, entre outros. o) Incentivar e apoiar financeiramente a criação do curso de graduação Pedagogia Bilíngue em IES, de modo a garantir a formação de professores bilíngues, surdos e ouvintes, para atuarem na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. O professor de surdos deve ter conhecimentos básicos e formação em Educação de Surdos e esta formação deverá ser contínua e atualizada. p) Incentivar grupos de professores de surdos para que Consolidar o ensino de LIBRAS nos cursos de formação de professores, ampliando os programas em uma perspectiva cultural relacionada às comunidades surdas, com destaque nas artes, literatura, gramática da Língua de Sinais, história dos movimentos surdos, entre outros. Que essas temáticas sejam incluídas nos currículos das escolas de surdos e nas escolas com alunos surdos incluídos. 40 Didática e educação de surdos desenvolvam pesquisas sobre essa educação. Promover formação (inicial e continuada) e habilitação de professores surdos (em licenciatura bilíngue) e demais profissionais das escolas de surdos ou das escolas inclusivas com alunos surdos, propiciando a elaboração e o desenvolvimento de propostas pedagógicas e materiais didático-pedagógicos coerentes com as realidades e projetos bilíngues para a comunidade surda. q) Inserir prova de proficiência em LIBRAS nos concursos e outros processos seletivos para professores que atuarão com alunos surdos na educação Básica e na Educação de Jovens e Adultos surdos. Contemplar alternativas para os surdos quando da participação em cursos de formação e em concursos públicos para ingresso funcional. r) Oficializar a profissão de Tradutor/Intérprete de LIBRAS para surdos e do Guia Intérprete para surdocegos e garantir a presença desses profissionais nas escolas e IES que atendam os referidos alunos. A presença de aluno surdo em sala do ensino inclusivo ou em outros espaços educacionais é fator que determina a presença destes profissionais. s) Garantir a participação da comunidade surda em todos os momentos de decisão, acompanhamento e avaliação relacionados à educação, com representação na composição dos conselhos de educação, em nível federal, estadual e municipal. t) Garantir que a formulação e a execução da política linguística sejam realizadas com a participação dos educadores surdos e demais lideranças, professores, tradutores-intérpretes de LIBRAS e comunidades surdas, para que, junto com o gestor público, possam elaborar propostas que respondam às necessidades, interesses e projetos dessa comunidade. u) Estimular e ampliar programas específicos para elaboração de material didático e paradidático em LIBRAS, utilizando-se dos recursos de multimídias através do desenvolvimento de pesquisas nesta área em parceria com secretarias estaduais e municipais de educação, outros órgãos governamentais e da sociedade civil que desempenhem atividades junto às comunidades surdas. Na atualidade, não há como pensar a Educação de Surdos sem pensar em tecnologias e mídias. Para o surdo isto é de extrema importância, pois sendo esta uma educação viso-espacial, traz informações e possibilidades de registros do cotidiano, cultura e identidade surdas, podendo, assim, ser preservados e disseminados na comunidade escolar. Portanto, deve-se distribuir livros e materiais didáticos que estão sendo produzidos a partir de pesquisas sobre a cultura surda e não somente os materiais adaptados. v) Instituir e regulamentar nos sistemas estaduais de ensino a Inserir prova de proficiência em LIBRAS nos concursos e outros processos seletivos para professores que atuarão com alunos surdos na educação Básica e na Educação de Jovens e Adultos surdos. 41 Qualidade do Ensino de Língua de SinaisCapítulo 2 profissionalização e o reconhecimento público do magistério surdo, com carreira específica, com concurso de provas e títulos adequados às particularidades linguísticas e culturais para professores surdos. w) Inserir provas didáticas em LIBRAS nos concursos e outros processos seletivos para professores que atuarão com alunos surdos na Educação Infantil, na Educação Básica e na Educação de Jovens e Adultos surdos. Contemplar alternativas para os surdos quando da participação em cursos de formação e em concursos públicos para ingresso funcional. Fonte: Disponível em: < http://assp.sur10.net/files/2009/10/ registro-eixo-vi-pdf.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2011. Atividade de Estudos: 1) A partir dessas reinvidiações da comunidade surda, como você acha que o ensino das crianças surdas irá melhorar e como funcionarão as escolas bilíngues? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Algumas Considerações Caro(a) pós-graduando(a), neste capítulo conversamos mais um pouco sobre as políticas públicas, em especial o CONAE, a quem a comunidade surda reivindicou o direito das crianças surdas frequentarem escolas bilíngues. Além disso, foi possível compreender a importância das escolas bilíngues para a comunidade surda, assim como a tecnologia, que auxilia no processo de Inserir provas didáticas em LIBRAS nos concursos e outros processos seletivos para professores que atuarão com alunos surdos na Educação Infantil, na Educação Básica e na Educação de Jovens e Adultos surdos. 42 Didática e educação de surdos ensino-aprendizagem. No próximo capítulo, iremos compreender a experiência visual dos surdos, assim como a construção da sua identidade. Além disso, visualizaremos como trabalhar com as crianças surdas nas realidades culturais. Referências CAPOVILLA, Alessandra Gotuzo Seabra; CAPOVILLA, Fernando Cesar. Alfabetização fônica: construindo competência de leitura e escrita : livro do aluno.2. ed. São Paulo : Casa do Psicólogo, 2005. HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. PADDEN, Carol; HUMPHRIES, Tom. Sharing a Culture. WFD News, Mar.1993. REIS, Flaviane. Professor Surdo: A política e a poética da transgressão pedagógica. 2006. (Dissertação) Mestrado em Educação – Programa de Pós- Graduação em Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006. Disponível em: <http://www.ges.ced.ufsc.br/Dissertacao_Flaviane.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2011. WIKIPEDIA.Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidade>. Acesso em: 15 abr. 2011. CAPÍTULO 3 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino Fundamental A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 9 Entender o jeito da experiência visual dos surdos. 9 Conhecer a construção das identidades surdas. 9 Compreender como trabalhar comas crianças surdas, observando seus aspectos culturais. 9 Perceber as diferenças nos espaços educacionais. 44 Didática e educação de surdos 45 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino FundamentalCapítulo 3 Contextualização Para apresentar esta questão, vamos fazer uma leitura a respeito do ser surdo, mas, em uma experiência visual, em que há uma inclusão na identidade cultural e na Educação de Surdos. A referência para esta discussão está em entender o ser e estar sendo surdo e se encaixar nessa experiência visual. Na sua história cultural, as crianças surdas e a comunidade surda dedicam-se à inserção das pessoas surdas nas práticas sociais do dia a dia. Neste ano de 2011, a comunidade surda se mobilizou em Brasília, juntamente à Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (FENEIS), para lutar pelo direito das crianças surdas de estar em ambientes bilíngues, tanto nos espaços educacionais como os sociais, e , a partir disto, construir a Língua de Sinais, a identidade e a cultura da comunidade surda, tanto na Educação Infantil como no Ensino Fundamental. Para tanto, é preciso construir três identidades: 1) A criança surda ou a identidade negada. 2) A criança surda-filho dos adultos ouvintes ou identidade construída pela normalização. 3) A criança surda-filho dos adultos surdos ou sujeito cultural da comunidade surda. Caro(a) pós-graduando(a), convidamos você, nas próximas seções, a estudar e compreender essas três identidades da comunidade surda. Bons Estudos!!!! Primeira Construção de Identidade: “a Criança Surda ou a Identidade Negada” Nesta primeira seção iremos conversar sobre a criança surda e na sua construção da identidade. Para iniciar a nossa conversa convido, você pós- graduando, a assistir o documentário “Sou surdo e não sabia”. Este documentário conta a história de Sandrine, uma menina surda de nascença que é filha de pais ouvientes. Ao frequentar a escola, a menina começa a questionar como os demais colegas compreendem o que a professora estava ensinando. A partir disso vamos compreender junto com Sandrine, como uma criança surda descobre que as crianças de sua sala se comunicam através de sons, e que esses sons são produzidos pelo movimento dos lábios através das palavras. Esse documentário olha para a questão a partir de dentro, pela 46 Didática e educação de surdos perspectiva de Sandrine e sua história verídica. Paralelamente ao relato da autonomia conquistada com a Língua de Sinais, o filme levanta a discussão sobre a conveniência do implante coclear e da oralização de crianças surdas. Depois de assistir a esse filme, podemos fazer uma relação entre ele, seu título o o texto que leremos a respeito da identidade surda. Já sabemos que é muito importante refletir sobre as crianças surdas nos espaços educacionais onde devem construir a sua identidade. Vamos assistir a esse filme inédito!! Figura 9 – Cena do filme Sou Surdo e não sabia Fonte: Disponiível em : <http://filmessurdez.blogspot.com/2011/02/ sou-surdo-e-nao-sabia.html>. Acesso em: 10 abr.2011. http://www.curiosphere.tv/video-documentaire/42-citoyennete/107554- reportage-sourds-et-malentendus-premiere-amie# Youtube – Vídeo pequeno com a legenda de português: http://www.youtube.com/watch?v=qtXV_VKZqqg Viu como esse filme é bem interessante! E vamos continuar a estudá-lo nesse capítulo. Depois refletiremos sobre o texto e sua relação com o filme. 47 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino FundamentalCapítulo 3 Abade L’Eppe foi o reponsável por espalhar a Língua de Sinais na Educação de Surdos, na época de 1700. Até por volta do século XX, a Educação de Surdos não dava a devida importância à criança surda ou representava sua identidade surda e em casos mais graves chegava- se a negar a representação da criança e da identidade surda. É difícil crer que essa ausência da identidade surda ocorresse em virtude da incompetência ou da falta de construção de identidade. É mais provável que não houvesse lugar para a criança surda nesse mundo cuja visão dos ouvintes predomina, em que não há muito espaço para que os surdos adultos ajudem as crianças surdas a se construírem na sua identidade surda, e não pela identidade negada das crianças surdas, bem como pela imposição de uma tentativa de normalização perante na sociedade. Vamos imaginar a existência da identidade surda nas crianças surdas, de uma construção dentro da sua subjetividade, identificando-se nos surdos adultos, nos espaços educacionais onde há muitos surdos, no encontro surdo-surdo, no contato da primeira língua da família surda,nas associações e outros lugares: Como construir a identidade surda pela criança surda? - As crianças na escola de surdos se encontram outras crianças surdas e têm mais facilidade de construir sua identidade, sentem- se mais seguras, sentem mais liberdade em comunicar-se, sentem- se mais livres para expressar suas emoções, sua dimensão intelectual, suas produções, sentem mais necessidade de contato, sentem mais necessidade de compartilhar as ideias, sentem-se mais alegres, podem sinalizar tudo o que quiserem, é algo natural na sua subjetividade devido ao fato de sua língua natural ser a Língua de Sinais. O fazer com as crianças surdas quando negam assumir sua identidade surda? - Deixar as crianças agirem naturalmente, mostrar a história contada sobre os surdos, mostrar que outras crianças as quais têm postura de identidade surda estão felizes, mostrar o teatro em Língua de Sinais no qual os surdos têm seu orgulho e estão felizes, porém é importante mostrar tudo que os surdos estão fazendo, o que estão produzindo em Língua de Sinais. Por exemplo, usar uma fantasia de palhaço, comunicando-se em Língua de Sinais para estimular a valorização da identidade surda. A identidade surda é basicamente construída com base na Língua de Sinais, que utiliza como meio de expressão o corporal e o facial. Assim, as crianças podem assumir- Até por volta do século XX, a Educação de Surdos não dava a devida importância à criança surda ou representava sua identidade surda e em casos mais graves chegava- se a negar a representação da criança e da identidade surda. A identidade surda é basicamente construída com base na Língua de Sinais, que utiliza como meio de expressão o corporal e o facial. Assim, as crianças podem assumir-se e construir sua identidade surda, saindo da escola orgulhosa e feliz. Caso contrário, as crianças surdas podem se sentir confusas, não sabendo escolher entre a identidade surda ou a identidade imposta pelos ouvintes que querem normalizar os surdas, negando sua identidade. 48 Didática e educação de surdos se e construir sua identidade surda, saindo da escola orgulhosa e feliz. Caso contrário, as crianças surdas podem se sentir confusas, não sabendo escolher entre a identidade surda ou a identidade imposta pelos ouvintes que querem normalizar os surdas, negando sua identidade. Segunda Construção de Identidade: “a Criança Surda-filho dos Adultos Ouvintes ou Identidade Construída pela Normalização” É difícil imaginar a existência da criança surda isolada na sociedade, vivendo a complexidade de entender o que é ser surdo no meio de uma família de ouvintes, que não tem o conhecimento básico sobre a Educação de Surdos, da sua aquisição de linguagem no ambiente linguístico e ao mesmo tempo na escola inclusiva também, sempre sentindo-se escondida da sua identidade, que não pode construir de uma forma natural sem ter contato com os surdos, e tendo que assumir uma identidade construída pela normalização, sem o conceito cultural como uma identidade complexa, tornando-se uma pessoa “jogada e abandonada”. Isso ocorre com frequência quando se adquire a linguagem dos surdos tardiamente. As crianças surdas perderam muito pela falta de construção de uma identidade surda com base na utilização da Língua de Sinaise as que sobrevivam confundiram- se rapidamente com os surdos adultos quanto descobrem tarde quem são. Como é a construção de identidade de normalização imposta pelos ouvintes, ou seja, pela família? - Clínica, é claro! É uma visão clínica de quem se preocupa apenas em curar os ouvidos, fazer falar melhor, integrar melhor esta criança na sociedade para igualá-la aos demais, para que haja “uma vida melhor para os filhos surdos”. Preocupa-se em usar o avanço da tecnologia para fazer a criança “ouvir melhor”, como o implante coclear, por exemplo. Esta identidade normalizada é uma imposição dos ouvintes os quais não querem que seus filhos se integrem com as outras crianças surdas por desconhecimento da Língua de Sinais, pensando que não tem o seu valor linguístico. - As crianças surdas construídas pela identidade normalizada dos ouvintes não podem desenvolver adequadamente seu cognitivo usando a Língua de Sinais no meio das crianças surdas. A desculpa é que assim pode ter uma “vida 49 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino FundamentalCapítulo 3 melhor”. Vida melhor? Por que está preocupado com isso? Vida melhor para quem? Para a sociedade? Sente vergonha da identidade dela? Mesmo usando a Língua de Sinais também se pode ter uma vida melhor, como nos casos dos surdos que cursam mestrados e doutorados. Será que isso quer dizer que não têm vida melhor? Sim, há uma vida melhor mesmo usando a Língua de Sinais. É com a cultura surda que nossas crenças são alimentadas, que temos nossos valores, nossos costumes, nosso grupo social, nossos aspectos culturais, nosso ambiente linguístico em qualquer lugar onde os surdos estejam. - As crianças surdas e o contato com as crianças ouvintes. É importante integrar as crianças surdas, mas a maioria vive isolada, sozinha, sem poder comunicar-se com os outros. Às vezes, há crianças ouvintes usando a Língua de Sinais, mas não há a liberdade de tratar-se de igual para igual. Como a cultura surda é diferente da cultura dos ouvintes, é preciso levar em consideração que há uma forma de contar piadas no jeito dos surdos, há teatro no jeito dos surdos, há contação de história sobre os surdos em Língua de Sinais. Em virtude dessas diferenças, quase nunca acontecem situações como as mencionadas anteriormente na Educação Inclusiva. A preocupação é impor a Língua Portuguesa como a segunda língua, mesmo não respeitando a primeira língua que é a prioridade dentro do ambiente linguístico. Por outro lado, existe um sentimento superficial da criança surda, filho do adulto ouvinte, “[ser] reduzida ao contexto de Língua de Sinais” em seus primeiros anos de vida. A família se diverte com a criança surda como um animal de estimação sem compartilhar seu ambiente linguístico, sem usar a Língua de Sinais dentro da sua casa para ter a linguagem rica, comunicando-se com toda facilidade, recebendo todas as informações da família ouvinte. O que nos preocupa é a imposição da construção de identidade normalizada dos ouvintes, o que pode prejudicar o seu aprendizado, sua aquisição de linguagem e construção, compreensão de informações. Vejamos uma narrativa surda desse estado de educação no qual se perder a construção dos sujeitos surdos por meio de uma educação inclusiva imposta pela família ouvintes: [...] A típica criança surda, que nasceu surda ou que ficou surda antes de aprender o inglês, está completamente perdida no banco da turma de ouvintes. O que diz o professor? Como lhe posso tornar claros os meus pensamentos? O que posso fazer para ser aceito pelas outras crianças? Está aqui alguém que me possa explicar certas coisas depois das aulas? (LANE, 1992, p.39). O que nos preocupa é a imposição da construção de identidade normalizada dos ouvintes, o que pode prejudicar o seu aprendizado, sua aquisição de linguagem e construção, compreensão de informações. 50 Didática e educação de surdos Ainda sobre a expressão “reduzida a língua de sinais”, podemos dizer que mesmo atualmente tem-se um pouco deste sentimento, principalmente quando muitas escolas de inclusão trabalham com essa imposição, distorcendo a visão das crianças surdas, transformando-as em um animalzinho, em alguém que tem dificuldade de ler e escrever, rotulando-as de “um mimo”, “um nervoso”, “um louco”, “que grita”, “um coitadinho”, e vendo a Língua de Sinais como muleta, como suporte de comunicação. Isto é perceptível pela reação das crianças surdas em ambientes onde não há a Língua de Sinais. Lá elas se sentem inferiores no ambiente linguístico, por isso é importante a criação da Escola Bilíngue para que seu ambiente linguístico seja respeitado e para conviver de igual para igual. Podemos concluir que, neste campo de Educação Inclusiva, essa identidade da criança surda está definida pela não construção do sujeito cultural da comunidade surda, que ocorre não por haver um grande afeto pelas crianças surdas, filhos dos adultos ouvintes, ou porque na totalidade eram abandonadas ou desprezadas, mas sim porque não havia consciência da particularidade da criança surda, ou seja, não se distinguia a cultura surda. Atividade de Estudos: 1) Depois de ver o filme, o que você sentiu e entendeu sobre a relação das crianças surdas, a partir da sua identidade influenciada pelos pais ouvintes? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Por que os pais ouvintes querem ver as crianças surdas como “normalização” e com melhor vida perante da sociedade, mesmo não aceitando a sua identidade surda? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 51 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino FundamentalCapítulo 3 ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Terceira Construção: “a Criança Surda- Filho dos Adultos Surdos ou Sujeito Cultural da Comunidade Surda” Podemos conhecer o livro da autora Karin Strobel, “As imagens do outro sobre a cultura surda”, o qual ajuda muito a conhecer a cultura surda, a partir das crianças surdas com os pais surdos, e de como vive a comunidade surda e o jeito cultural dos surdos. Vamos estudar e discutir nessa seção que é muito importante ampliar o conhecimento e também sentir na pele o que os surdos estão querendo mostrar, como entendem, como vivem, enfim, a educação que querem. Figura 10 – Capa do livro As imagens do outro sobre a cultura surda Fonte: Disponível em: < http://profsurdogoulao.blogspot.com/2008/08/ karin-strobel.html>. Acesso em: 22 mai. 2011. Podemos começar perguntando: quem é a criança surda de hoje? Quando observamos nossas crianças surdas, podemos dizer que, apesar da sua construção de identidade surda e cultural, existem os aspectos culturais que podem ajudar a construir a identidade surda: 52 Didática e educação de surdos • A da criança surda pertencente a uma família surda, usuária natural em Língua de Sinais, que nasce já construindo sua aquisição de linguagem nessa língua. • A da criança surda que participa da comunidade surda e, por isso, tem a sua fluência em Língua de Sinais e assume ser surda envolvida na comunidadesurda e povo surdo. • A da criança surda, nas grandes cidades, acompanha os contatos, como o encontro surdo-surdo, sempre acompanha os eventos culturais dos surdos, nas escolas de surdos, nas associações, nas casas de surdos e festas comemorativas relacionadas aos dias de surdos. • A da criança surda que ajuda o pai surdo ou a mãe surda a se relacionar com a sociedade devido à tecnologia atual, isso é muito interessante! Todas as crianças surdas, porém, precisam ter suas situações de construção de sujeito cultural, condições de contato natural, tempo de escolarização, de brincadeiras com as outras crianças surdas que ajudam a desenvolver sua própria língua, que possa ser valorizada e rica como a experiência visual. É fundamental que tenhamos consciência desses aspectos culturais para que saibamos conhecer melhor as crianças com quem convivemos e com quem, como educadores, temos responsabilidade de ser firmes na sua construção cultural e identidade surda. A etapa histórica que as crianças surdas vivem na experiência visual, marcada pela construção cultural e por mudanças de transformação visando à Educação de Surdos e à educação bilíngue para surdos, apresenta o currículo cultural que aceita o jeito dos surdos que ensinam para as crianças surdas na Educação Infantil e Ensino Fundamental, que dá um salto nessa construção dentro de um espaço cultural que se afigura como uma forma de nos mantermos como diferentes e melhor visualizar as mudanças pós-modernas no sentido de compreender a criança surda como sujeito cultural e, portanto, um sujeito com direitos linguísticos. Atividade de Estudos: 1) Redija um texto sobre a importância da cultura surda e como as crianças surdas podem se envolver na cultura surda? ____________________________________________________ ____________________________________________________ Todas as crianças surdas, porém, precisam ter suas situações de construção de sujeito cultural, condições de contato natural, tempo de escolarização, de brincadeiras com as outras crianças surdas que ajudam a desenvolver sua própria língua, que possa ser valorizada e rica como a experiência visual. 53 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino FundamentalCapítulo 3 ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Tente conversar com algum professor dos anos iniciais do ensino fundamental, e verifique o que ele sabe sobre o ensino bilíngue para as crianças surdas. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Função dos espaços educacionais de Educação Infantil: Educar e Identificar a Cultura Surda A partir desses conceitos de criança surda, perguntamos: qual seria, então, a função dos espaços educacionais de Educação Infantil? A que eles se propõem? Quem vai nos ajudar a responder a estas questões é a pesquisadora Gladis Perlin, identificando sobre o seu ser surdo, vinculando essa experiência surda e cultura surda por meio do texto a seguir. A EXPERIÊNCIA DO SER SURDO A colocação de Juan Eugenio é uma oportunidade para o contato referente ao objeto final de interesse: ser surdo. Ser surdo, na experiência, implica uma resposta àqueles que se refugiam comodamente sob a palavra deficiência e a nomeiam em sua epistemologia. Equivale a uma recusa a ser na diversidade, um assumir a diferença. 54 Didática e educação de surdos Figura 11 – O ensino de LIBRAS Fonte: Perlin (2001, p.34) xcccAs identidades essenciais, imanentes aos surdos, mostram narrativas constantes e idênticas a de Juan Eugenio. Nas pesquisas, tive ocasião de encontrar narrativas bastante enfatizantes da intenção de desvendar a experiência referente a estas identidades orientadas no sentido de ser surdo. Igualmente, o produto nestas pesquisas que, em sua maioria devem fazer-se presente, identifica os aspectos da experiência. Inclusive exibe o conceito “surdos” como um conceito fluído no qual a epistemologia esgota o conhecimento presente na experiência e no jeito de ser do povo surdo (sem deixar que hibridismos fiquem à margem) e não mais o conceito da cura, da incapacidade, da invalidez. Não mais o conceito de ser surdo falante ou não falante, mas exclusivamente com sua língua e linguagem próprias e que pode optar ou não por utilizar-se da fala ou da Língua Portuguesa para intermediar o intercâmbio cultural na fronteira. Diga que queremos o direito de ser reconhecidos surdos como somos, com este jeito, com este idioma. E queremos ser atores da política surda também. O que propõe a experiência? Larrosa (2000) acentua a experiência do ser como algo que nos passa ou o que nos acontece ou o que nos toca. Eu diria que no surdo, a experiência é algo que nos passa, nos fica e que passa a ser parte de nós depois de ter experienciado. A experiência nos fica, mas a informação que leva a experiência se esvai como diz o mesmo autor: a informação não faz outra coisa que cancelar nossas possibilidades de experiências. Minha incursão pela pesquisa enfatiza o momento em que sentimos aproximar mais e mais os níveis de compreensão do ser e do estar sendo surdo ou o conceito de ser surdo e estar sendo surdos. 55 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino FundamentalCapítulo 3 Se perguntarmos aos surdos: o que é ser surdo? Entre as muitas narrativas temos resposta: ser surdo é uma questão de vida. Não se trata de uma deficiência, mas de uma experiência que nos toca (MW). Um que-fazer político que envolve a diferença. Experiência de ser surdo ou experiência visual significa mais que a utilização da visão como meio de comunicação. Desta experiência visual surge a cultura surda, representada pela Língua de Sinais, pelo modo diferente de ser, de ser povo surdo, de se expressar, de conhecer o mundo, de entrar nas artes, no conhecimento cientifico e acadêmico. A cultura surda comporta a Língua de Sinais, a necessidade do intérprete, de tecnologia de leitura. ESTAR SENDO SURDO E O OUTRO SURDO A preocupação de Juan Eugenio com o seu outro semelhante está transparecendo de forma a que ele se sinta responsável pelo outro, pelo povo. E daí? O advento da nova linguagem, do memorável do outro, da surpreendente juventude com que o surdo se ocupa com o outro surdo, toca sobremaneira e não pode ser deixado ao acaso. Por estas ideias de individuação, Levinas (2000, p. 80) chama atenção para as interativas com o processo: Desde o momento que o outro me olha, eu sou responsável por ele, sem nem sequer ter que tomar responsabilidades em relação com ele; sua responsabilidade me incumbe para que eu vá mais além. Este ir mais além entre os surdos se apresenta permeado de significações. O que preocupa o surdo em relação ao outro surdo, o que o preocupa com esta responsabilidade? O que faz do surdo um agente responsável pelo rosto do outro surdo? O que o coloca aí com tanto interesse pelo outro surdo? Voltar a pensar a questão de relação de alteridade surda e a dependência ou responsabilidade pelo outro surdo para espelhar-se? Completamente, está-se diante de uma responsabilidade com o outro, responsabilidade que não é baseada na vitimação e no sofrimento, no voltar-se contra a opressão colonialista, na responsabilidade para que ele seja o outro surdo, uma força moral, uma resistência. Um firmar-se como surdo; uma agência rearticulandoo ser surdo e repelindo o estereótipo. Vejamos a narrativa surda: Eles [ouvintes] determinaram que um grupo das crianças surdas fossem enviadas para outra escola. Por quê? Porque para eles ouvintes, estas crianças surdas são muito difíceis. Claro que elas são e serão 56 Didática e educação de surdos difíceis, elas estão iniciando a escola, começando a conhecer o mundo e a sua sagacidade na desbravação é tão intensa que elas se tornam hiperativas. Com um pouco de paciência teríamos controlado a situação. O lugar daqueles surdos era naquela escola, eu sou professora lá e sei que eles precisam de tempo para se adaptar. Se eles são tão rebeldes, precisamos saber que eu também fui, mas que os tempos são outros. Importa saber dialogar com estas crianças, mesmo que seja caso muito difícil. (R.) Onde está a linguagem do surdo que entende do diferente surdo está a responsabilidade pelo outro surdo. A linguagem que entende o outro surdo está com o surdo na sua experiência semelhante, na sua tensão de responsabilidade pelo outro. Uma responsabilidade que admite a diferença e a alteridade, inclusive admite epifania. PASSAR PELA EXPERIÊNCIA DE SER SURDO A experiência de ser surdo designa um passar a ser o “outro”. Skliar (2002), em uma palestra, diz que a experiência é vista como uma questão muito banalizada, pouco sublinhada e apresentada como uma hipótese que já está quase pronta. E a experiência surda é muito mais que algo pronto, traduz-se como uma orientação, um trabalho, uma ação para a liberação do jeito de ser surdo. Nós surdos nascemos num povo de ouvintes e nos transformamos em surdos. A experiência é este processo que nos passa (LARROSA, 2002) e leva a ser o outro surdo. Tudo parte de uma reflexão geral sobre o que o termo surdo dá a entender. Ser surdo, numa palavra, parece simplesmente se desenrolar. Então, parece que o que define o processo de ser surdo não especifica por tempo de formação, de transformação, mas o ato de estar sendo surdo agora. Mas existe o ato de transformação que se desenrola continuamente numa temporalidade, a partir da experienciação do estar sendo surdo. O surdo trabalha sua transformação em surdo, é a experiência que ele está vivenciando. Essa agência experiencial tem três aspectos, como citados por Skliar (2002): A experiência que o surdo faz no contato com a essência que está no outro surdo. É um ato de ir construindo a identidade, ato que permite novamente colocar a questão não resolvida das identidades nunca prontas, fragmentadas, em contínua construção, em uma temporalidade do deslocamento cultural. A experiência A linguagem que entende o outro surdo está com o surdo na sua experiência semelhante, na sua tensão de responsabilidade pelo outro. Mas digamos que o problema da experiência formatação do ser surdo é essa experiência: é só a experiência vivida, quanto à experiência pensada do próprio surdo é maior, ela se refere a respeito da experiência dos outros surdos que tem a ver com essa responsabilidade ética de um povo, com a política, com o intercâmbio com a outra cultura. 57 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino FundamentalCapítulo 3 no ato do surdo dar de sua experiência, do estar sendo surdo ao outro surdo novamente entra a pretensão das identidades em questão de dependência, que tem necessidade do outro semelhante. A experiência que simplesmente se transforma em resistência. Ela vai além da resistência e transforma em pretensão a sua pureza, de origem reposicionando as identidades transculturais. Uma experiência que evidencia que somos multiformes plurais visto que acontecem inclusive outras trocas como no caso de hibridismos. Este aspecto permite entrever o conteúdo do nosso ser surdo, nossa própria experiência como surdos ou se quiseram do jeito de ser de Juan Eugenio. Tem a ver com o pessoal, com a individualidade ou experiência de quem vai assumir/assumiu o ser o outro surdo. Protagoniza sobre a experiência de quem é surdo e está sendo surdo nesse tempo de formação. Manifesta-se na passagem para o programa: vir a ser surdo. É a nossa experiência a que vai aí dentro do programa do vir a ser surdo proposto pela maioria do povo surdo. Mas digamos que o problema da experiência formatação do ser surdo é essa experiência: é só a experiência vivida, quanto à experiência pensada do próprio surdo é maior, ela se refere a respeito da experiência dos outros surdos que tem a ver com essa responsabilidade ética de um povo, com a política, com o intercâmbio com a outra cultura. Neste contexto de experiência de si, Larrosa (1994, p. 43) diz mais: (A) própria experiência de si não é senão o resultado de um complexo processo histórico de fabricação no qual se entrecruzam os discursos que definem a verdade do sujeito, as práticas que regulam seu comportamento e as formas de subjetividade nas quais se constitui sua própria interioridade. É a própria experiência de si que se constitui historicamente como aquilo que pode e deve ser pensado. A experiência de si, historicamente constituída, é aquilo a respeito do qual o sujeito oferece seu próprio ser quando se observa, se decifra, se interpreta, se descreve, se julga, se narra, se domina, quando faz determinadas coisas consigo mesmo, etc. Skliar (2002) dá ênfase a essas duas experiências: a experiência vivida e a experiência pensada. Deduzindo de sua reflexão, percebo que as formas de viver a experiência surgem de dentro-e-como a diferença entre ambas delineia os fatos. Assim, temos que a experiência que é vivida o ser surdo que o inclui com sua diferença, seu dia a dia. A experiência que é pensada e que se refere aos líderes, ativistas, militantes surdos, os mais adentrados na cultura surda, que implicam as experiências vividas. Skliar (2002) dá ênfase a essas duas experiências: a experiência vivida e a experiência pensada. 58 Didática e educação de surdos Aquilo que estava no outro surdo era o igual que eu queria, tinha a comunicação que eu queria o que era dele era meu também. Figura 12 – Comunicação em LIBRAS Fonte: Perlin (2001, p.36) A experiência supõe uma transformação e não uma estatização em vista do ser. Ela concebe a produção do sujeito, as articulações da diferença, a constituição da alteridade e da identidade. Sendo experiência, propõe o deslocamento contínuo do estar sendo surdo. Como movimento, hospeda as projeções do estar sendo e do devir. A experiência vivida, aquela da maioria dos surdos, a experiência pensada se torna mais centrada nesta troca com o outro, neste ato de ser com a responsabilidade ético/cultural de um povo. O ser e o estar sendo surdo se constituem como identidade, como diferença, como alteridade no interior das representações surdas. A experiência de ser surdo nasce não entre ouvintes, mas entre surdos. A leitura que realizei desta afirmação de Woodward (2000, p. 55): “As posições que assumimos e com as quais nos identificamos constituem nossa identidade”, foi no sentido da experiência de identificação, de ser. Eu sou o outro no sentido de que há outro semelhante, não um modelo no sentido único, mas na identificação com outros semelhantes, uma vez que estes outros também se identificam com outros semelhantes. Para Woodward (2000) são posições, para mim são múltiplas referências que constituem nosso ser surdo. Estas posições onde nasce a experiência do ser surdo podem ser os amigos surdos, o professor surdo, os colegas surdos. É como dizia aquele sujeito altivo na defesa de sua diferença surda: “Devo a meu tio surdo minha percepção de ser diferente. Ele se escondia de mim porque a tendência da cópia, uma certa carência de ser, de identificação”. PERLIN, Gladis T.T. Ser surdos, corpos habitáveis: Representações sobre alteridade, diferença e identidade. Projeto de qualificação (Doutorado em Educação) - Universidade Federal do rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, 2001.59 A Experiência Visual: Educação Infantil e Ensino FundamentalCapítulo 3 Vê-se na leitura da pesquisadora surda, Gladis Perlin, a importância da experiência do seu ser surdo, de como identificar-se na cultura surda. O que podemos refletir é que muitos surdos conseguem recordar seu choque inicial quando se aperceberam de fato que havia outras pessoas que levavam as suas vidas numa língua completamente diferente. O que pode acontecer, às vezes, é que esse egocentrismo, decorrido em nome do nosso interesse mútuo, consiga superar a dificuldade da conscientização social como tal da criança surda, em conjunto com a vitória sobre o egocentrismo, aceitando a sua experiência de ser surdo perante a sociedade, mostrando a importância dessa cultura surda que seja reconhecida em sua língua natural e que essa língua possa ser ensinada. Atividade de Estudos: Depois de entender como é a experiência do ser surdo, será que os ouvintes podem continuar a diminuir o poder dos líderes surdos em diversas áreas que para eles são as mais importantes? Por exemplo: Pensando que nós surdos queremos uma escola bilíngue para surdos enquanto os líderes ouvintes continuam pensando que somos segregados. E aí, como fica essa situação? Nessa posição da questão, quais são os valores, os costumes, as formas de arte, as tradições, as organizações interdependentes e língua que caracterizam a cultura? ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 60 Didática e educação de surdos Algumas Considerações A identidade surda é ela própria muito importante. Os surdos podem pensar em concordar que uma pessoa que não seja surda nunca pode adquirir completamente aquela identidade e tornar-se um membro habilitado da comunidade surda, porém falar e pensar como uma pessoa ouvinte é negativamente considerado na cultura dos surdos. Eles pensam como um pertencimento da cultura surda, como sentem a mesma família, uma metáfora que é fundamental e que nunca vai se dissolver e nem acabar com a cultura surda. Também sentem menos egoísmo do que na sociedade dos ouvintes. Às vezes vemos que a comunidade surda se envolve em um “grande abraço”. Os surdos abraçam-se, frequentemente, nos encontros e, principalmente, nas festas – verdadeiros abraços! E também na comunidade surda acontece uma minoria linguística, mas possui uma rica cultura com as suas próprias formas de arte, história e estrutura social dos surdos. Referência: LANE, Harlan. A Máscara da Benevolência: A Comunidade Surda Amordaçada. Lisboa: Editora Instituto Piaget, 1992. PERLIN, Gladis T.T. Ser surdos, corpos habitáveis: Representações sobre alteridade, diferença e identidade. Projeto de qualificação (Doutorado em Educação) - Universidade Federal do rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, 2001. CAPÍTULO 4 O Currículo na Educação de Surdos A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 9 Conhecer o currículo na Educação de Surdos. 9 Perceber a polêmica sobre os currículos influenciados pelos ouvintes. 9 Identificar as formas adequadas de usar o currículo dos surdos. 9 Discutir sobre as diferenças nos dois currículos. 62 Didática e educação de surdos 63 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 Contextualização Neste capítulo, faremos o estudo sobre o currículo na Educação de Surdos e o porquê de trabalhar com tal currículo por meio do jeito cultural dos surdos na sala de aula, bem como com toda dinâmica em Língua de Sinais e a adequação da cultura surda dentro do currículo. Vamos, também, conhecer, pesquisar, discutir e aprofundar como trabalhar nesse currículo completamente diferente do jeito dos ouvintes, devido ao fato de a primeira língua ser a de Sinais e a segunda, a Língua Portuguesa. É importante entender e trabalhar esse currículo cultural que deve ser ensinado para alunos surdos na sala de aula sem receber a influenciada dos ouvintes, ou seja, que não haja a influência do jeito dos ouvintes no ensino para alunos surdos. No entanto, sabemos que há sempre polêmica quando se trata da relação ensino-aprendizagem entre surdos e ouvintes, do currículo, do plano de aula, das atividades, dos jogos (jeito dos ouvintes, por exemplo, no jogo de batata passa passa, telefone sem fio). Então, precisamos refletir sobre as crianças surdas na sala de aula que não estão adequadas à cultura surda, fazendo com que sejam excluídas das brincadeiras, das atividades e das dinâmicas , muitas vezes não relacionadas às crianças surdas. Outra questão é o ensino de português, de gramática. Por exemplo, aprender como é uma oxítona, uma paroxítona, uma proparoxítona, entre outras temáticas que são trabalhadas como modalidade oral fora da realidade dos surdos. Neste capítulo, aprenderemos a usar o currículo na Educação de surdos, a adequar o ensino à cultura surda, à experiência visual, a trabalhar no contexto em Língua de Sinais, a ensinar a Língua Portuguesa como a segunda língua para surdos, na modalidade escrita. E também vamos estudar e comparar os dois currículos: o de surdos e o de ouvintes Com esse contexto, precisamos refletir melhor sobre o currículo adequado à cultura surda. Vamos lá! O currículo na Educação de Surdos Vamos iniciar discutindo sobre o currículo na Educação de Surdos. Você já ouviu falar nesta discussão? Trata-se de um material elaborado e publicado pela pesquisadora surda Carolina Hessel Silveira, intitulado “O currículo de Língua de Sinais na Educação de Surdos” (2006). O próprio nome já explica que é um texto fundamental para a estruturação do currículo de caráter cultural para a Educação 64 Didática e educação de surdos Infantil. É um currículo que deve ser amplamente divulgado, por isso, vamos dedicar este item para sua apresentação nos detalhes necessários. Este currículo cultural sofreu e ainda sofre críticas por parte de alguns educadores que não são favoráveis à cultura surda, porém é consenso quanto ao seu valor de normalizar e padronizar o currículo escolar perante à sociedade. Isto porque, como você sabe, a Educação Infantil costuma ser posta em segundo plano e, neste caso, a publicação deste currículo cultural significou relevante avanço para a Educação de Surdos e educação bilíngue para surdos. Considerando que os materiais, práticos e teóricos, nesta área são muito raros, o que a pesquisadora produziu sobre o currículo da Língua de Sinais na Educação de Surdos acabou sendo um marco, reforçando a importância da Educação de Surdos. O que precisamos, entretanto, é de uma política nacional para a educação das crianças surdas desde o nascimento para que recebam as orientações da família e para construir sua aquisição de linguagem em Língua de Sinais, adequada aos currículos culturais, para que seja respeitada a cultura surda sem descolonizar a educação ouvintista, conforme as afirmações de Silva (1990, p. 207): Uma estratégia de descolonização do currículo supõe, evidentemente, o projeto, a construção e a elaboração de novos materiais que possam refletir as visões e representações alternativas dos grupossubordinados. É necessário ressaltar que todas as ideias e propostas contidas no currículo em Língua de Sinais são somente sugestões dadas pelos povos surdos. Ou seja, pretende-se que sirvam de base para discussões ou que orientem os trabalhos a serem desenvolvidos. Achamos importante segui-las. É aí que se coloca a grande diferença em relação à política nacional do MEC, a qual já conhecemos, e o que quer nos impor na Educação Inclusiva. Vamos a um resumo do currículo, isto é, à descrição de como foi estruturado este currículo de Língua de Sinais para a Educação de Surdos, quais são os assuntos que aborda, quais as principais ideias e propostas. O currículo de Língua de Sinais foi organizado pela experiência dos surdos na Educação de Surdos, comprovando que os professores surdos são uma das formas mais claras de resistência ao poder ouvintista. Mas os professores surdos não estão nas disciplinas convencionais, tradicionais. Outra conclusão: A maioria dos educadores Para Silva (1990), uma estratégia de descolonização do currículo supõe, evidentemente, o projeto, a construção e a elaboração de novos materiais que possam refletir as visões e representações alternativas dos grupos subordinados. O currículo de Língua de Sinais foi organizado pela experiência dos surdos na Educação de Surdos, comprovando que os professores surdos são uma das formas mais claras de resistência ao poder ouvintista. 65 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 ouvintes desconhece ou conhece muito pouco a estrutura da Língua de Sinais, conforme demonstrou a pesquisadora Márcia Lunardi (1998) ao discutir a questão do currículo na visão dos surdos. Continuando a discussão sobre o currículo em Língua de Sinais na Educação de Surdos, Carolina Hessel (2006), em sua dissertação, cita afirmações importantes de Lunardi (1998, p. 70): [...] é necessário que o currículo possa ser visto como um espaço privilegiado de relações de poder. Essas relações não se processam simplesmente através de formas homogêneas, repressivas, proibitivas; elas também se dão de formas benéficas, ou seja, heterogêneas, produtivas, provocativas. Portanto, analisar o currículo envolvido pelas relações de poder significa trazer esta discussão para o campo da educação, mais precisamente para o projeto educacional crítico. É interessante produzir o currículo de Língua de Sinais na Educação de Surdos ou educação bilíngue para surdos para ser trabalhado com as crianças surdas, respeitando-o e adequando-o à linguística em Língua de Sinais e cultural. Tal currículo ajuda a construir a identidade surda para assumir o jeito de ser surdo, através de uma proposta pedagógica diferenciada, específica e bilíngue, que é um grande encontro entre os fundamentos teóricos adotados e as orientações metodológicas da pedagogia bilíngue, adequados para surdos. Ou seja, a maioria das propostas não deixa claro como deve ser a articulação entre o que se deseja fazer e o que realmente se faz na Educação Inclusiva, na qual não há cultura surda, mas uma tentativa desesperada de sobrevivência da cultura surda das crianças na inclusão. Consideramos que tal tentativa tem caráter temporário, utilizada enquanto não há um currículo cultural visando à Língua de Sinais como a primeira língua, respeitando a sua política linguística e cultural. Por isso, a estrutura do currículo de Língua de Sinais foi pensada na intenção de tornar visível esta articulação, relacionando objetivos gerais e específicos, conteúdos e orientações didáticas, envolvendo a identidade cultural dentro do currículo, conforme se pode observar a seguir: 66 Didática e educação de surdos Figura 13 - Representação espacial de currículo feita por professor @surd@ Fonte: Hessel (2006, p. 50). Precisamos refletir sobre como trabalhar as estratégias com os alunos através deste método bilíngue, que é um método o qual deve trabalhar a Língua de Sinais como primeira língua e a Língua Portuguesa como segunda língua, na modalidade escrita. Acerca do trabalho pedagógico no currículo para surdos, voltado aos alunos surdos, devemos considerar um trabalho desenvolvido em um 67 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 ambiente bilíngue, em um espaço em que se utilize a Língua de Sinais e a Língua Portuguesa. A educação bilíngue para surdos deve acontecer em período diurno ou noturno, isto é, no contraturno dos estudos desses alunos. Não podemos esquecer que o trabalho do currículo cultural para o ensino de Libras deve contribuir para promover um ambiente educacional bilíngue, por isso, o professor que ministra aulas em Libras deve ser qualificado para evitar a prática do bimodalismo, ou seja, a mistura de Libras e Língua Portuguesa que são duas línguas de estruturas diferentes. Bimodalismo: É uma mistura de uso do oralismo e do português sinalizado ao mesmo tempo. Agora você entende como é a Educação Bilíngue, mas e a posição dos alunos surdos na sala de aula? Como devemos trabalhar com eles, adaptando o jeito dos surdos? O importante é entender que a posição cultural dos alunos surdos na sala de aula mostra os resultados das mudanças de visão que os surdos têm hoje sobre “um novo jeito de ser surdo”, ou seja, sobre “buscar identificação naquilo que rompe com os aspectos que envolvem a educação, que nos entendia como deficientes”. Assim, vemos como é a didática cultural para trabalhar com os alunos surdos, onde se encaixa no currículo cultural, por exemplo: Figura 14 – Didática aplicada em Libras Fonte: A autora. 68 Didática e educação de surdos Sobre esta questão, estivemos dando aula na pós-graduação em Libras, na cidade de Ariquemes, no estado de Roraima. Ministramos um curso sobre como usar a Didática aplicada em Língua de Sinais. Os pós-graduandos procuraram entender como é o sujeito surdo sob o ponto de vista dos surdos. Aqui estamos nos referindo ao sujeito surdo, somos sujeitos diferentes, somos os outros, somos estranhos, como se fôssemos estrangeiros. Há uma visão dos surdos distinta da visão dos ouvintes. Como diz Hall (2000, p. 90), “o conceito de representação desenvolve-se como uma teorização sobre identidade e diferença”. Ainda sobre a questão da diferença e da identidade dos sujeitos surdos, Perlin (2002, p. 12) analisa as afirmações de Hall: Neste contexto Hall deixa espaço para pensar as significações que compõem as representações. É evidente a representação engloba determinadas significações como a alteridade, a diferença e a identidade. A representação é concebida como um sistema de significação culturalmente aceitável e está constituída de forma que os pressupostos das significâncias híbridas perdem força e nesta medida vão sendo descartados. Deste modo, existe um contínuo ventilar de significações que promovem determinada cultura e captam-se ou descartam-se significações que pertencem a outras culturas. Este processo não é estável de forma que dê o veredicto. De acordo com as constantes mudanças culturais, igualmente se percebem aspectos de tolerância para com determinadas significações de outras representações culturais em vista da instabilidade cultural. Como podemos pensar sobre o que os sujeitos surdos querem e o seu significado quando nos veem? O que eles pensam sobre nós? Os surdos sempre se sentem como diferentes em virtude do uso da Língua de Sinais e de sua performance, mostrando sua expressão facial e corporal, como se flutuassem no ar com toda visualidade, seu olhar como representação cultural que molda os sujeitos surdos. Desse modo, temos possibilidade de cruzar as fronteiras das línguas, da Língua de Sinais e da Língua Portuguesa.. Assim somos sujeitos surdos, diferentes identitária e culturalmente. E o que temos dessa alteridade de nossa subjetividade surda? Vamos entender o significado de alteridade: A alteridade pode formar parte da diferença culturalentendida e aceitável. Sem que se tenha de pesquisar a cultura, ela pode imbuir-se de aspectos aceitáveis culturalmente nas marcas da identidade presente na cultura. Cultura e alteridade encontram-se juntas, ao mesmo tempo em que são diferentes. Contraditoriamente, a alteridade pode formar parte da diversidade cultural, pode sujeitar Para Hall (2000, p. 90), “o conceito de representação desenvolve- se como uma teorização sobre identidade e diferença”. 69 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 o outro aos discursos da invenção da alteridade, do estereótipo, da marginalização. Não é por este prisma que pretendo atuar, mesmo que o reconheça como presente quando se trata de meu campo de pesquisa. (PERLIN, 2002, p. 16, grifo da autora). Percebemos a importância de provarmos que o discurso hegemônico produzido na sociedade deve fazer com que o sujeito sinta e perceba forças culturais contraditórias e propostas discursivas homogenizadoras enquanto segue com a teoria cultural para a diferença. Então, o que surge com essa nova teorização, a qual relaciona a nova didática cultural, envolvendo os sujeitos surdos do seu ponto de vista cultural como um “estranho, diferente e alteridade”, é uma forma de visão cultural sobre os surdos. Qual é a melhor estratégia de ensino através do cultural? Como podemos entender quem é o sujeito surdo? Como podemos usar a didática em Libras através do seu jeito de ensinar, do seu jeito cultural? Vamos trabalhar com essas atividades para descobrir qual é a melhor estratégia de ensino para alunos surdos. Atividade de Estudos: 1) O controle sobre o que o sujeito aprende ou para a construção do conhecimento como motivação política e de identidades? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Porque é importante usar a didática não como ouvinte, e sim ensinar de forma cultural? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ A alteridade pode formar parte da diferença cultural entendida e aceitável. Sem que se tenha de pesquisar a cultura, ela pode imbuir-se de aspectos aceitáveis culturalmente nas marcas da identidade presente na cultura. 70 Didática e educação de surdos ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 3) No filme Sociedade dos Poetas Mortos, o professor de Literatura, John Keating (Robin Williams), segue qual teoria do Currículo, tendo em vista que ele repele a ideia de métodos tradicionais imperativos da instituição escolar? Figura 15 – Cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos Fonte: Disponível em: <http://stuffartie.com.br/blog/online/ff16- sociedade-dos-poetas-mortos>. Acesso em: 30 jul. 2011. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 4) No filme Filhos do Silêncio, o professor (Willian Hurt) usa uma didática mais próxima, ou seja, Teoria Crítica, teoria em que pode discutir o que pensa, diferente da metodologia utilizada por outros professores com a qual não concorda. O professor procura melhorar a metodologia e, para isso, toma sua aluna (Marlee Matlin) como exemplo, pois ela realmente insiste em se inserir e continuar com a cultura surda. A partir disso, o pode ser elencado de pontos diferentes entre os dois filmes? 71 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 Figura 16 – Cena do Filme Filhos do Silêncio Fonte: Disponível em: <www.planetaeducacao.com.br>. Acesso em: 30 jul. 2011. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 5) Escolha qualquer uma das escolaridades, da Educação Infantil ao Ensino Superior, bem como um dos temas a seguir e faça um planejamento de aula para os alunos surdos. a - Cultura Surda b - Identidades Surdas c - Escrita de Língua de Sinais d - Significados de normalidade\anormalidade e - Literatura Surda f - Políticas Educacionais de Surdos g - Histórica Cultural de Surdos h - Dia dos Surdos i - Dia do Índio Surdo j - Crianças Surdas ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 72 Didática e educação de surdos ____________________________________________________ ____________________________________________________ Caro pós-graduando, depois de discutir algumas questões sobre o currículo, os alunos surdos e a escola bilíngue, chegou a hora de discutirmos um pouco tanto sobre a pedagogia da diferença e o papel social do professor que estará em sala de aula com esses alunos. Cabe ressaltar que este é início de longo estudos, como vimos nos capítulos anteriores, a tecnologia é uma grande aliada para as pessoas surdas. E a cada dia que passa há mais pessoas preocupas que os surdos tenham uma vida normal e independente como as demais pessoas. Antes do fim desse capítulo iremos estudar a pedagogia da diferença ou dos surdos e situando a pedagogia do surdo, lembro a você que essas duas seções fazem parte da minha pesquisa de mestrado, então se você quiser aprofundar as discussões poderá baixá-la. http://www.ges.ced.ufsc.br/Dissertacao_Flaviane.pdf Pedagogia da Diferença ou dos Surdos A educação ocupa um lugar estratégico no pensamento dos professores surdos. Ela é a própria prática de que se ensina enquanto se produz o próprio processo de transgressão pedagógica. E segue uma nova pedagogia da diferença, mesmo que, como disse no início, nem todos os professores surdos tem a mesma estratégia. A preocupação em incentivar professores surdos capazes de transformar a pedagogia de surdos que está no povo surdo é sempre presente. Os professores surdos intelectuais traçam os caminhos da pedagogia dos surdos. Hoje, em dia, há uma articulação explícita entre educação e luta política. A educação traz um objetivo em si para guerrear a ignorância e a miséria, e também, é instrumento de atuação política contra os privilégios, as injustiças e todas as formas de exploração. Temos claro que nós, professores surdos, já temos condições de entender sobre a questão da enfatização da pedagogia: O que já sabemos e fizemos em Pedagogia? O que se vê hoje em dia, temos condições de saber e fazer? O que poderemos fazer com tudo isso? E, também, temos condições de responder sobre que já aconteceu conosco, o ser surdo. Já fizemos muita coisa e sabemos fazer 73 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 por nós próprios da pedagogia de surdos? Segue a narrativa da professora surda CH (2006), sua percepção sobre a pedagogia, sua identificação a diferenças pedagógicas existentes : Vou narrarsobre que pedagogia que temos em nossa escola. Formei-me em pedagogia há uns quase quatro anos atrás. Percebi que há muito tempo atrás não tinha nenhuma pedagogia de surdos, não tinha o que especifica a Educação de Surdos para saber ensinar aos alunos surdos, estimular os surdos e entre outras coisas. Isso que eu me preocupo, a Educação de Surdos no Brasil e, também, principalmente nas cidades do interior, porque percebi que a pedagogia aqui na minha escola, é igual a pedagogia dos ouvintes, segue sua pedagogia normal e não especifica sobre o surdo como a pedagogia própria, ou seja com identidade surda, como aprender é igual aos dos ouvintes. É outra observação que fiz no sentido da pedagogia que o professor surdo estava usando na sala de aula onde demonstra a sua estratégia pedagogicamente clara sobre a sua concepção de diferença. Em seguida à minha observação do professor surdo FF(2006), narrando a sua profissão de pedagogia. Ele é professor surdo, formado em outra área que não a pedagogia. Ele é professor surdo na sala de aula e sempre utiliza na disciplina de língua de sinais, que segue do currículo da escola. Adapta-a ao seu jeito usando a história dos surdos, cultura, língua escrita em sinais, classificador, narrativa de poesia, identidades surdas, entre outros assuntos associando-os ao mundo de surdos. Assim, na medida em que está por dentro dos Estudos Culturais a aproximação ao campo da Educação de Surdos, justifica que ele está recolhendo, adaptando e aproveitando metodologias que coincidem com a diferença neste caráter híbrido, tanto da educação no contexto moderno, quanto ao contexto dos Estudos Culturais. Neste contexto, portanto, de compreensão das diferenças, no qual está sujeito à influência das mesmas no seu processo de significação pessoal e de mundo, temos o surgimento da pedagogia da diferença, através dos Estudos Culturais, segundo veremos com o pesquisador Silva (2000, p.101): Em certo sentido, “pedagogia” significa precisamente “diferença”: educar significa introduzir a cunha da diferença em um mundo que sem ela se limitaria a reproduzir o mesmo e o idêntico, um mundo parado, um mundo morto. É nessa possibilidade de abertura para um outro mundo que podemos pensar na pedagogia como diferença. Na medida em que está por dentro dos Estudos Culturais a aproximação ao campo da Educação de Surdos, justifica que ele está recolhendo, adaptando e aproveitando metodologias que coincidem com a diferença neste caráter híbrido, tanto da educação no contexto moderno, quanto ao contexto dos Estudos Culturais. 74 Didática e educação de surdos Essa pedagogia da diferença induz uma nova construção, novas relações de poder, ligadas a novas estruturas discursivas, bem como narrativas e representação. O que se pode entender como a pedagogia da diferença, e o que quer dizer a diferença de que é o outro, além do seu respeito, Pardo (1996, p.154) diz: Respeitar a diferença não pode significar “deixar que o outro seja como eu sou” ou “deixar que o outro seja diferente de mim tal como eu sou diferente (do outro)”, mas deixar que o outro seja como eu não sou, deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu, que eu não posso ser, que não pode ser um (outro) eu; significa deixar que o outro seja diferente, deixar ser uma diferença que não seja, em absoluto, diferença entre duas identidades, mas diferença da identidade, deixar ser uma outridade que não é outra “relativamente ao mesmo”, mas que é absolutamente diferente, sem relação alguma com a identidade ou com a mesmidade. Na pedagogia cultural trata-se de trabalhar, sempre, com as diferenças, reforçá-las, e enfatizar pelo seu próprio jeito de ensinar, ou seja, no caso dos surdos viver todas as suas experiências visuais, políticas e de representação. É por nossa alteridade que estamos sendo desafiados, como professores surdos. Para que aconteça esta pedagogia, é importante assumir a responsabilidade de orientar a própria diferença. Com tudo isso, torna-se muito importante criar um novo currículo específico para os surdos. Os currículos além de sempre serem possíveis de apresentar novas estratégias pedagógicas, também necessitam de disciplinas que em suas práticas estimulam e promovam a identidade cultural. Ao utilizar na sala de aula a primeira língua como contação de histórias dos surdos, a utilização de recursos como poesia e narrativa dos surdos, isto levaria a uma maior consciência sobre a cultura surda. O ensino de uma forma escrita da língua de sinais dentro de uma disciplina de língua de sinais, além da discussão em torno da teoria de identidade surda, se apresenta como muito importante a transmitir aos alunos surdos. Isso é uma abordagem da pedagogia dos surdos que levaria em conta precisamente as contribuições da teoria cultural e da qual emergiria uma nova produção da identidade e da diferença do professor surdo na sala de aula. O que captei na observação do professor surdo, é que ele enfatiza a pedagogia da diferença e, também, se relaciona com a cultura de acordo com o jeito de ensinar de uma forma cultural que tem a realidade da cultura dentro da subjetividade dos sujeitos surdos. Por exemplo, observei que o professor surdo FF(2006) explicou na sala de aula a respeito da tecnologia para surdos, pois, sentem na mesma realidade deles. O jeito do professor surdo que ministrou na aula, segue em forma de diálogo: Na pedagogia cultural trata-se de trabalhar, sempre, com as diferenças, reforçá-las, e enfatizar pelo seu próprio jeito de ensinar, ou seja, no caso dos surdos viver todas as suas experiências visuais, políticas e de representação. 75 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 Os dados que vocês irão ler abaixo foram coletados durante a pesquisa de mestrado. O QUE TEM TECNOLOGIA PARA OS SURDOS? Responderam-lhe os alunos surdos: Mensagem do celular, TDD (telefone para surdos), televisão com legenda. O professor surdo logo acrescentou mais claramente a respeito da TDD. Mostrando o desenho do TDD numa propaganda comercial, explicou que é muito importante usar a experiência visual pelos surdos. Continuou explicando que tem uma empresa de São Paulo e que tem aparelhos à venda e está sob a responsabilidade de um surdo. Continuando a conversa sobre o responsável da empresa de São Paulo, explicou que este surdo foi a Porto Alegre deu uma palestra sobre a importância da tecnologia para os surdos e do TDD. Na palestra ele diz que há muitos ouvintes que usam o telefone público e os surdos também têm o direito de usá-los em qualquer espaço público. Sendo que é importante divulgar para os interessados poderem adquirir o TDD e também lutar para conseguir sua fixação em espaco público como: na prefeitura, em escolas e outros lugares. Na sua falta, explicou: os surdos podem sofrer por não ter conseguido comunicarem-se com os policiais, hospitais, bombeiros, etc em casos de emergência. Por isso é muito importante disponibilizar o TDD para os surdos poderem se comunicar com qualquer pessoa ouvinte em casos necessários. Explicou de uma forma clara para os surdos entenderem como funciona o centro de comunicação entre surdo e ouvinte: A este respeito ele fez uma dramatização na sala de aula sobre o uso do TDD: Surdo: Preciso falar com mamãe? Ouvinte: O que quer? Surdo: Vou teatro sexta feira tarde, pode? Ouvinte (traduzindo oralmente para mãe) Mãe: Pode livre, mas cuidado. Ouvinte: (escrevendo para a surda) Surda: Por que cuidado? Ouvinte: (traduzindo para mãe) Mãe: tem namorado, tem respeitar. Ouvinte: (escrevendo para a surda) Surda: Sério, pare brincar. Eu sei respeito e fiel meu namorado. Tchau, beijos e abraços! Ouvinte: (traduzindo para mãe). E se desligou o TDD. 76 Didática e educação de surdos Sintetizou que é muito importante a comunicação entre a mãe ouvinte e a filha surda. E os alunos surdos iniciaram o diálogodesabafando com as histórias que acontecem com eles referentes ao telefone público. O professor surdo os deixou conversando sobre a importância do TDD em público. Respondeu todas as dúvidas dos alunos inclusive disse que a funcionária da empresa telefônica que intermedia a ligação, tem a sua ética profissional, e ela não vai transgredir o diálogo na hora de traduzir. Em caso de não ter ética, pode ser processada pelo Ministério Público, por isso é certo ter uma funcionária atendente ética. Explicou por que precisa uma funcionária para ter uma comunicação com qualquer pessoa que não tem TDD, em caso que o tenha, apenas liga direto. E por finalizar, toda a tecnologia para os surdos são TDD, mensagem do celular, televisão com legenda, intérprete na TV, campainha luminosa, campainha para os bebês, internet e entre outros. O Professor surdo FF continuou perguntando: O que tem de comunicação sem tecnologia? E deu um exemplo que aconteceu na casa dele. Lá na minha casa só tinha uma pessoa surda, e um dia não tinha ninguém em casa, e também não tinha campainha luminosa. Quando veio uma pessoa apertar a campainha, o que aconteceu? O cachorro iniciou a latir. Claro que dá pra perceber que tinha gente apertando a campainha. O cão ajudava a atender as pessoas quando vinham apertar a campainha. Realmente é muito diferente, e até também se consegue comunicar com os cachorros através de sinais, mas não são todos, e apenas alguns sinais. Por exemplo: “sentar” e o cachorro senta; “rolar”e o cachorro rola. Neste caso, deve-se treinar com o sinal. Então o professor que explicou há um costume entre os surdos de treinar o visual, como no caso do cachorro que late e lembra a campainha da porta. E os alunos perguntaram então: se deve ensinar língua de sinais ao cachorro na idade precoce? O professor respondeu: Isso mesmo, só se for de cinco meses e se for tarde nunca vai conseguir aprender o sinalizar básico dos surdos para este fim como: “comer”, “passear” etc. Fonte: Disponível em: <http://www.ges.ced.ufsc.br/Dissertacao_ Flaviane.pdf>. Acesso em : 12 mar. 2011. 77 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 Atividade de Estudos: 1) A partir dessa conversa que você leu, converse com algumas pessoas que estão inseridas no contexto educacional, e ouça qual é a opinião delas sobre a educação bilíngue e a pedagogia escolar com a inserção de crianças surdas. A partir do que você ouviu escreva as suas impressões positivas e negativas a cerca da temática. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Entendo, portanto, essa pedagogia cultural como a possibilidade de aproximar a forma cotidiana de existência do sujeito com a sua prática de ensino. E que não se reduza a um conjunto de habilidades técnicas ou profissionais, a pedagogia dos surdos pretende ir além da sala de aula para desenvolver sua potencialidade. Ela mostra ser diferente da pedagogia tradicional, tem esta nova perspectiva, pois rompe com aquela. Lanço agora mão de um olhar sobre um professor surdo, neste emaranhado de significações e concepções. Trata-se de um sujeito surdo que por muito tempo permaneceu na sombra do professor ouvinte. Este professor surdo está reivindicando seu papel de agente formador, de identidade, de construtor da história. Isso tudo obviamente, com muita luta e resistência. Surgem aqui algumas perguntas: Há importância na identidade cultural do professor surdo? Que cultura é essa do sujeito surdo? Que identidades e concepções culturais o professor surdo têm passado aos seus educandos? Entendo, portanto, essa pedagogia cultural como a possibilidade de aproximar a forma cotidiana de existência do sujeito com a sua prática de ensino. E que não se reduza a um conjunto de habilidades técnicas ou profissionais, a pedagogia dos surdos pretende ir além da sala de aula para desenvolver sua potencialidade. 78 Didática e educação de surdos Penso, portanto ser significativo para que possa ajudar o professor a desenvolver a sua cultura e entender sua história, construindo a sua identidade a partir da diferença. Nós, os professores surdos, vivemos, atualmente, a busca da identificação de nossa diferença porque tem o sentido da produção da subjetividade. O professor surdo que se relaciona com a cultura tem atitudes políticamente e poeticamente de produzir o seu jeito de ensinar, o seu jeito de percepção do aprendizado dos alunos surdos, o seu jeito de entender no que os alunos se explicam. E entre outras coisas tem contato com a mesma cultura, sendo que captei a narrativa da professora surda CH (2006) relacionando com a sua subjetividade: “Agora dentro da minha subjetividade o que é importante hoje, a pedagogia transforma muitas coisas porque as pessoas preocupam com a pedagogia, e como faz: é igual ou não, ou diferente, como? Como ensinar, precisa aprender? Não é isso, é importante perceber que o surdo, o que ele é?” Deste ponto de vista, o surdo não se considera como fazendo parte da diversidade e, sim, da diferença devido ao poder cultural e da sua subjetividade. Essa dificuldade de reconhecimento é percebida, nas palavras de Skliar (1998, p. 5): ... habitualmente se utilizam termos como “deficiência” ou “diversidade”, Estes, no geral, mascaram e neutralizam as possíveis conseqüências políticas, colocam os outros sob um olhar paternalista e se revelam como estratégias conservadoras para ocultar uma intenção de normalização. A diferença como significação política, é construída e socialmente; e um processo e um produto de conflitos e movimentos sócios, de resistências ás assimetrias de poder e de saber, de uma outra interpretação sobre a alteridade e sobre o significado dos outros no discurso dominante. Vê-se que um professor surdo na sala de aula tem a sua liberdade em dar as suas aulas. Dentro da sala de aula regular ele é posto numa situação em que se lhe impõe uma aparente norma, ele é incluso dentro da diversidade. Muitas vezes, a inclusão está trabalhando na perspectiva da diversidade na escola regular, mas na verdade os surdos não estão dentro desta, porque ele é considerado como pertencente à diferença devido ao uso da sua própria língua, de sua cultura, de sua identidade. Um fato que pode atestar isto é o olhar de pedagogas (os) surdas (os) na sala de aula e de seu bom relacionamento com os alunos surdos devido ao uso de mesma língua e identificação cultural. O que vejo ainda são surdos com identidades construídas, conforme diz Perlin (1998), nas múltiplas identidades, o que pode explicar a identidade dos surdos em geral para esclarecer quanto à sua diferença. Ao pontuar o conceito de que o surdo é diferente, é de se esperar que o professor surdo participe das lutas políticas pelo poder cultural, e a melhoria 79 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 da educação dos surdos, é resultado das suas práticas devido à sua experiência que está por dentro da sua identidade cultural. É preciso refletir sobre a prática para buscar a defesa dos povos surdos. Particularmente, os professores surdos buscam desvendar as relações de poderes que subjugam e segregam a cultura surda. Isto vai depender do meio cultural em que estes surdos tiveram a sua experiência. Ser professor surdo pode significarpoder político, mas tem muitos professores surdos que não apresentam uma identidade surda porque alguns deles tiveram desde pequenos influência ouvintista. Isto pode prejudicar as relações entre o professor surdo e o aluno surdo. Por outro lado, há professores surdos que apresentam uma identidade surda, e conseguem ensinar fluentemente em língua de sinais, desenvolvem uma metodologia sem interferência dos padrões ouvintes. Estes teriam uma maior facilidade pra ensinar as crianças, para que elas pudessem ter a aquisição da língua e da sua identidade com o professor surdo como a identificação. Saliento em minha pesquisa o tipo de identidade do professor surdo: o hibridismo presente na atuação do professor surdo. O que acontece no momento de hibridismo, em relação das misturas, nos cruzamentos, sendo que é está no seu processo da construção a partir do ouvintismo devido da metodologia própria dos ouvintes. Este aspecto não fortalece a cultura surda devido ao domínio dos ouvintes, mas mesmo assim ele usa a língua de sinais sem metodologia pedagógica própria dos surdos. Enfim, este professor surdo não possui aspectos suficientes da identidade cultural à sua subjetividade. E também, sendo que um processo da construção de si mesmo ao ensinar para os alunos surdos mesmo sendo a sua subjetividade ou seja, de identidade surda, tem a sua cultura, usa a metodologia longe do domínio dos ouvintes. Cria a sua produção textual em língua de sinais, além de utilizar a sua própria língua, usa da resistência contra a prática dos ouvintismos. Que pode entrar numa relação de uma forma de negociação no espaço educacional onde tem o hibridismo presente na atuação do professor surdo. Segundo os autores Fleuri e Souza (2003, p. 62) que dizeram: [...] Nesse espaço do hibridismo, é provável que tenha acontecido o que Bhabha denomina processos simbólicos de negociação ou tradução, dentro de uma temporalidade que tornou possível a articulação de elementos antagônicos ou contraditórios. Tal espaço de hibridismo teria possibilitado a ultrapassagem das bases de oposição dadas (dominantes/ dominados). Não se trataria mais, nesse espaço de hibridismo, de uma coisa (dominantes), nem de outra (dominados), nem mesmo de uma superposição de ambas as 90 categorias Ser professor surdo pode significar poder político, mas tem muitos professores surdos que não apresentam uma identidade surda porque alguns deles tiveram desde pequenos influência ouvintista. 80 Didática e educação de surdos (dominantes e dominados), mas de um entrelugar que contestaria os termos e o território de ambas as categorias. Isso possibilita ir além e despertar o desejo de outro lugar e de outra coisa que, nesse caso, poderia ser identificado como novas possibilidades de relações pessoais e sociais entre sujeitos marcados por uma política de diferenças. É muito importante ter um espaço de negociação com os outros professores quando interver na cultura dos surdos, mas também é importante aceitar os professores ouvintes que conhecem a língua de sinais. E o que acontece dentro na sala de aula, é importante esclarecer para aceitar a nossa cultura, a nossa identidade, a nossa língua para respeitar os professores surdos no espaço educacional, e os surdos podem respeitar a cultura dos professores ouvintes dentro de um contexto político. Importa que continue acontecendo a resistência contra as práticas dos ouvintismos para não produzir a exploração e dominação de uns aos outros. Assim, que surge uma complexa relação de negociação, a partir de uma necessidade de fronteira cultural, que intervem á nossa cultura de que os professores que constroem aos alunos surdos a ter cultura dentro de um espaço educacional mas é importante ter a relação que pode ajudar a estimular. Conforme o autor Bhabha (1998, p. 27) que diz: [...] “fronteira cultural”, uma “borda deslizante e intervalar nas relações”, que estimula “o desejo de reconhecimento de ‘ outro lugar’ e de outra coisa”. Mais um desafio é o de elaborar a nova metodologia de que os professores surdos querem, porém, se situa como a pedagogia da diferença, onde é considerado ser diferente dos outros. E a partir desse desafio, ele também pode acontecer dentro do sistema de negociação entre os professores surdos e ouvintes para valorizar o espaço educacional. Neste recente despertar para o contexto pedagógico, aceita a diferença dos professores surdos, a partir da pedagogia da diferença, que é considerada que o conceito é uma celebração nos processos de negociação, há de ir e vir, há o retorno, há resistência, há a marcação da diferença para garantia de acesso e igualdade. Na prática ainda tem alguma influência dos ouvintes, só que ainda continuam resistindo enquanto professores surdos despertam pelo próprio de si mesmo e o que eles podem ser independentes de fazer a partir da transgressão pedagógica. Portanto, quanto o hibridismo presente na atuação do professor surdo dentro de um contexto de dependência colonial e negociação, o que deve situar essa pedagogia dos surdos, sendo o que se situa nele na área da Educação de Surdos. Na próxima seção iremos situar essa pedagogia na perspectiva dos surdos. 81 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 Situando a Pedagogia dos Surdos A pedagogia dos surdos é uma tentativa de reconstruir no espaço educacional da experiência visual, das políticas e histórias passadas aos alunos surdos. Apesar dos esforços dos professores surdos, ela ainda é desconhecida. Pesquisas estão sendo feitas, tímidas, insistentes. A chance da pedagogia da identidade enquanto pedagogia de surdos depende do que ela expressa e os trabalhos atuais que ela motiva. Como o meu objetivo era focalizar a prática dos professores surdos na sala de aula para chamar atenção sobre o despertar desta pedagogia que é diferente daquela os professores ouvintes, para ativar à pedagogia de surdos. A sua diferença se dá devido à cultura, ou seja: à língua de sinais, à identidade, à diferença. Aborda elementos condizentes às necessidades pedagógicas dos surdos. Os professores surdos estão despreparados em relação a ela. É em sala de aula, que iniciam a entender e a atender a atualidade da transformação pedagógica que se processa. Percebo agora que os professores surdos vivem em inquietações constantes.E a sua ansiedade pela pedagogia de surdos na sala de aula já a ultrapassa. Nota-se que quase nunca deram espaço e atenção aos professores surdos. Cada professor tem idéia que está ligada a interesses pela nova produção cultural, em particular, nas suas relações com o poder e conhecimento. Conforme o autor McLaren (1997, p. 182): “Minha perspectiva agora não é apontar um dedo inquisidor para qualquer grupo específico de pessoas, mas sim para as ideologias, estruturas e mitos que ajudam a reproduzir nossa presente cultura”. E o que acontece nos professores surdos? Eles estão situando, reforçando, mostrando as estratégias de tornarem a pedagogia dos surdos presentes. Identificam seus locais, locais onde eles podem sentir à vontade de ensinar e usar os instrumentos desta pedagogia. Isto concorre para ganhar o seu valor e senso de controle de negociação no espaço educacional cultural. Assim, trago aqui o trabalho da pedagogia dos surdos para que não seja de uma forma oculta que encara o poder. É importante mostrar o sucesso dos professores surdos que trabalham de maneira de uma forma própria cultural. Geralmente, os professores ouvintes alguns não têm experiência nem conhecem a verdadeira Educação de Surdos, somente só preocupam com os alunos: saber falar, ler e se integrar com os alunos A pedagogia dos surdos é uma tentativa de reconstruir no espaço educacional da experiência visual, das políticas e histórias passadas aos alunos surdos. Apesar dos esforços dos professores surdos, ela ainda é desconhecida. Pesquisas estão sendo feitas, tímidas, insistentes.Geralmente, os professores ouvintes alguns não têm experiência nem conhecem a verdadeira Educação de Surdos, somente só preocupam com os alunos: saber falar, ler e se integrar com os alunos ouvintes e mais nada. 82 Didática e educação de surdos ouvintes e mais nada. A minha visão sobre professores ouvintes e surdos é que têm um pouco complexo de conhecimento e se preocupa como tomar essa iniciativa como educar e relacionar com os alunos surdos devido à falta de conhecimento específico e de metodologias culturais para os surdos. Como o autor McLaren (1997, p. 266) disse: Os esforços atuais de reformas demonstram uma falta de vontade de construir e sustentar um projeto político claramente articulado, no qual a pedagogia possa ser relacionada à criação de práticas educacionais e referentes morais necessários para a construção de uma esfera pública democrática. Por isso, escolhi esse tema da prática do professor surdo, sua política e poética de transformação da pedagogia dos surdos. É claro que isto envolve nosso conhecimento sobre a pedagogia de surdos. E, também, para que a nossa educação seja cada vez mais respeitada, valorização devida à língua de sinais, nossa cultura, nossa diferença em sua nova metodologia. O que me preocupou nessa pesquisa foi procurar aquele lado onde a pedagogia dos surdos existe com alguns professores surdos. Para mim, todos os professores surdos que desenvolvem esta pedagogia dos surdos a desenvolvem como uma política pedagógica, que traz marca da sua identidade, sua diferença, ao questionarem, reconhecer e celebrar a identidade e até os pedagogos surdos acolhem o surdo como é na sua diferença com o ouvinte. Como diz Nuria Pérez de Lara (2003, p.11) em seu prefácio ao livro de Carlos Skliar: “Então, o que é dado se apresenta diante de nós como algo que não só não deve ou não pode ser superado como também como o que está ainda por ser alcançado em sua plenitude, visto que é o desejável”. A pedagogia dos surdos está aí, aguardando melhores dias, aguardando ser despertada, descrita, narrada, contada com as ferramentas que os Estudos Culturais têm. Mesmo que tivesse perspectivas em vista da formação pedagógica dos surdos e o olhar pela pedagogia da diferença devido à centralidade da cultura, da primeira língua, da identidade surda, de forma totalmente diferente, sei que a tarefa de descrevê-la é instigante. O importante é ter a reflexão pedagógica na prática educativa que resgata a possibilidade de criar, moldar, imaginar e dramatizar, representar o seu mundo construindo-se como cidadãos em seu cotidiano escolar. Como diz McLaren (1997,p. 31): No centro desta posição está a necessidade de desenvolver modos de investigação que examinem não apenas como a experiência é moldada, vivida e tolerada dentro de formas sociais particulares, tais como as escolas, mas também como certos aparatos de poder produzem formas de conhecimento que legitimam um tipo particular de verdade e estilo de vida. O importante é ter a reflexão pedagógica na prática educativa que resgata a possibilidade de criar, moldar, imaginar e dramatizar, representar o seu mundo construindo- se como cidadãos em seu cotidiano escolar. 83 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 A meu ver, têm os professores surdos estão preparados pedagogicamente e produzem formas de conhecimento que se aplica na Educação de Surdos e um novo terreno se apresenta uma experiência de que é moldada e vivida, mas a pedagogia dos surdos parece ser realidade. Eles têm língua de sinais, aos poucos descobrem que necessitam de instrumentos que os capacitem a exercer a função docente. Para buscar os instrumentos para o seu aperfeiçoamento, é necessária a busca na área pedagógica. Ao identificar seu problema, ocorrem pequenas mudanças, porém tem sido lentas e ainda pouco profundas, especialmente nas escolas de surdos ocupadas por profissionais ouvintes na maioria. Como espaço ocupado por profissionais surdos, estas escolas precisam incorporar e endossar as novas práticas. Essas escolas de surdos oferecem espaço a mudanças, embora seus resultados exaustivamente não sejam notados e comprovados como eficientes e seus procedimentos chegam muitas vezes a passarem despercebidos em pressupostos científicos que apontam caminhos bastante claros e possíveis. Entendo o professor surdo como o sujeito surdo possuidor de uma cultura e membro do povo surdo no sentido de uma diferença cultural que, devido à língua e cultura, também desenvolveu um meio de relacionar-se, construir história e compartilhar as mesmas experiências, ou seja, se de alguma forma esse sujeito foi privado ou privou-se de estar inserido nesta cultura constituída pelos sujeitos surdos através dos tempos, a esse sujeito definimos como identidade diferente de identidade cultural surda e não como surdo no contexto da palavra. Vê-se, a identidade do professor surdo como possível de transgressão, sem negar, no entanto a possibilidade também de estagnação a forma como foi moldada, segundo a pesquisadora surda, Perlin (1998, p.52): “A identidade é algo em questão, em construção, uma construção móvel que pode freqüentemente ser transformada ou estar em movimento, e que empurra o sujeito em diferentes posições”. O professor surdo culturalmente identificado deve estar inserido no povo surdo que segundo a pesquisadora surda Padden se presume: Uma comunidade surda é um grupo de pessoas que vivem num determinado local, partilham os objetivos comuns dos seus membros, e que por diversos meios trabalham no sentido de alcançarem estes objetivos. Uma comunidade surda pode incluir pessoas que não são elas próprias Surdas, mas que apóiam ativamente os objetivos da comunidade e trabalham em conjunto com as pessoas Surdas para alcançá-los. (PADDEN, 1998, p.58). Ao identificar seu problema, ocorrem pequenas mudanças, porém tem sido lentas e ainda pouco profundas, especialmente nas escolas de surdos ocupadas por profissionais ouvintes na maioria. 84 Didática e educação de surdos Meu argumento sobre este professor surdo interroga a partir da perspectiva do sujeito colonizado. Vejo também, no campo escolar, a influência do ouvintismo nas práticas pedagógicas do professor surdo, que tende a moldar-se naquilo que ao ouvinte parece correto, entendo a presença do ouvintismo como: Ouvintismo: Trata-se de um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e a narrar- se como se fosse ouvinte. Além disse, é nesse olhar-se, e nesse narrar-se que acontecem as percepções do ser deficiente, do não ser ouvinte; percepções que legitimam as práticas terapêuticas habituais. (SKLIAR, 1998, p.15). Ele tece um enunciado que é motivado pela compulsão colonial. Perlin deixa clara esta interferência do problema da questão da imposição cultural sobre a identidade do professor surdo. É evidente que as identidades surdas assumem formas multifacetadas em vista das fragmentações a que estão sujeitas face à presença do poder ouvintista que lhes impõem regras, inclusive, encontrado no estereótipo surdo uma resposta para a negação da representação da identidade surda ao sujeito surdo. Para representar o professor surdo, me baseio nos conceitos definidos por Hall (2000) e entendo representação como sendo o processo pelo qual a linguagem é utilizada para produzir significados culturais. É fundamental procurar perspectivas não no campo que comumente é trabalhada a Educação de Surdos; educação especial, medicalização da surdez, supervalorização da incapacidade. Não o discurso do campo da educação especial pois a mesma passou, assim como os demais conceitos criados pela modernidade, a vestir uma aparência bem aguda e estereotipada. Analisando, por exemplo, os Planos Nacionais de Educação Especial, podem perceber a indução de certa “Pedagogia Corretiva” que tenta corrigire “normalizar” o surdo. Lunardi (2004, p.23), afirma que: A educação especial como um dispositivo de normalização, ao diagnosticar a surdez como uma anormalidade, lança mão de suas estratégias terapêuticas e corretivas, a fim de docilizar, disciplinar, “ouvintizar” os sujeitos em indivíduos produtivos e governáveis para os pressupostos da epistême moderna. Acredito que neste contexto os Estudos Surdos se aliam aos Estudos Culturais. Encontrei, portanto neste campo muitas identificações, principalmente É fundamental procurar perspectivas não no campo que comumente é trabalhada a Educação de Surdos; educação especial, medicalização da surdez, supervalorização da incapacidade. 85 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 quando passamos a olhar além da carga pejorativa e clínica embutida na visão tradicional como sujeito da episteme moderna, segundo propõe Skliar: As idéias dominantes, nos últimos cem anos, são uns claros testemunhos do sentido comum segundo o qual os surdos correspondem, se encaixam e se adaptam com naturalidade a um modelo de medicalização da surdez, numa versão que amplifica e exagera os mecanismos da pedagogia corretiva, instaurada nos princípios do século XX e vigente até nossos dias. Foram mais de cem anos de práticas enceguecidas pela tentativa de correção, normalização e pela violência institucional; instituições especiais que foram reguladas tanto pela caridade e pela beneficiência, quanto pela cultura social vigente que requeria uma capacidade para controlar, separar e negar a existência da comunidade surda, da língua de sinais, das identidades surdas e das experiências visuais, que determinam o conjunto de diferenças dos surdos em relação a qualquer outro grupo de sujeitos. (SKLIAR, 1998, p. 07). É o sujeito transcendental e único, o sujeito que na definição kantiana é, simultaneamente, o sujeito cognoscente e objeto de seu próprio conhecimento. Para Veiga-Neto (2000), o sujeito compreendido pelo pensamento moderno representa as concepções de sujeito instauradas pela filosofia platônica e pela tradição hebraica, que mais tarde foram retomadas pelo Cristianismo, Humanismo e Idealismo Alemão. Na pedagogia, pode voltar então à adaptação do trabalho a ser feito sobre o professor surdo, agora baseados em um novo olhar, que reflete o antigo e situa a pedagogia de surdos do novo. A respeito desta reflexão pode destacar o pensamento de Klein sobre a luta para a pedagogia da diferença. Dirigindo nosso olhar aos ‘movimentos’ surdos, encontramos uma história de lutas em diferentes sentidos, na qual se procura marcar, entre os próprios surdos e a sociedade em geral, questões referentes a sua língua, suas identidades, sua cultura. Uma das marcas mais efetivamente colocadas diz respeito ás formas de entender a surdez e a experiência do estar sendo surdo a partir da diferença. Podemos problematizar daí, a relação de significados entre diversidade, termo tão disseminado nas políticas públicas, e diferença, assumida por diferentes grupos, entre os quais, os dois surdos. (KLEIN, 2004, p. 88). Na perspectiva agora dos Estudos Culturais, partimos então da idéia do sujeito surdo como possuidor de uma cultura própria e na relação de sua cultura 86 Didática e educação de surdos com as diferentes culturas existe relações de poder e dominação que devem ser questionadas. Os Estudos Culturais podem fundamentar as ações educativas para a diferença comprometidas com a construção de uma pedagogia dos surdos fundada na convivência entre identidades culturais e surdas. Para que isso ocorra é necessário que sejam questionada as relações de poder assimétricas que se manifestam nas atitudes preconceituosas e excludentes. Ao permitir analisar a atuação do professor surdo, pretendi ver também de que forma sua postura tem sido determinada pela cultura dominante para que, caso seja necessário, possa ocorrer a desconstrução das “condições que têm impedido outras pessoas de falar em locais onde aqueles que são privilegiados em virtude do legado do poder colonial assumem a autoridade e as condições para a ação humana” (GIROUX,1999, p.39). Minha pretensão, portanto, com base nessas premissas teóricas, e com a perspectiva analítica aqui retratada, foi de caracterizar o professor surdo dentro da sala de aula, identificar a existência do hibridismo cultural, tentando desvendar e fornecer ferramentas para a atuação competente e completa do docente surdo. Contudo não se consegue fugir ainda da visão do coletivo que produz estes discursos e práticas: a que patologiza a relação professor ouvinte e aluno surdo, colocando este como deficiente, tomam seu discurso, sempre imperfeito na forma, com locuções muitas vezes só compreendidas em parte, escrita incorreta, como uma voz que há de ser muito pouco levada em conta. E faz tudo para o surdo e desvaloriza suas contribuições à pedagogia dos surdos visto que ela é invisível. Como por exemplo: quando as explicações feitas em uma língua incompreensível, não surtem efeito, o surdo permanece à deriva, diz-se que não se esforça para aprender, não se sabendo ver o outro lado nobre e rico da pedagogia dos surdos. Então penso como identificar esses problemas nesta pesquisa para que eles estejam claros, por enquanto tem algumas pesquisas para tomar essa reflexão diante das perguntas: Todo surdo é adaptado para fazer acontecer a pedagogia dos surdos? De que modo a pedagogia dos surdos se apresenta no cotidiano do professor surdo? Ela é perceptível, palpável, pode ser adaptada? Como ela afeta a vida do professor surdo e do aluno surdo? Os Estudos Culturais podem fundamentar as ações educativas para a diferença comprometidas com a construção de uma pedagogia dos surdos fundada na convivência entre identidades culturais e surdas. 87 O Currículo na Educação de SurdosCapítulo 4 Para finalizar este capítulo, esperamos que você tenha gostando dessa reflexão a respeito do currículo e de como usar a didática para os alunos surdos, respeitando o seu jeito de ensinar de uma forma cultural. Não se esqueça de que o nosso objetivo é contribuir para que a educação não permaneça com a visão dos deficientes, mas apresente orientações práticas que ressaltem nossa diferença a partir da visão cultural. E o currículo dos alunos surdos? Como devemos trabalhar com os alunos surdos nos espaços educacionais a partir da sua identidade cultural? Também não se esqueça de como é importante que o currículo esteja plenamente adaptado à identidade cultural para que se possa trabalhar com base nesta nova metodologia. Algumas Considerações Ao longo deste Caderno de Estudos, vimos o currículo na Educação de Surdos, aprendemos como usar o currículo por meio do jeito cultural dentro da identidade cultural e as diversas possibilidades de identidade, bem como a questão da diferença e da alteridade como ponto de fuga da representação proposta pelo ouvintismo. Também evidenciamos a necessidade de usar um material didático adequado a este sujeito e priorizar o ensino de Língua de Sinais, que se encaixa na cultura surda. Ressaltamos que é preciso analisar a didática aplicada em Língua de Sinais nas escolas de surdos para captar essa prática dos professores surdos, para entender o jeito como eles ensinam para alunos surdos. Precisamos refletir e perguntar a nós mesmos o que é currículo para surdos? A resposta pode variar muito e pode depender da visão de mundo que se tem, mas é importante perguntar a opinião dos professores surdos, o que pensam desse currículo adequado à cultura surda e o que pensam que deve ser inserido na grade curricular? Devemos pensar sobre como situar o papel do professor surdo nas escolas de surdos e a visão dos ouvintes sobre ele, bem como o currículo na Educação de Surdos. Por isso, é importante trabalhar nessa prática para perceber como é o jeito cultural de se ensinar paraalunos surdos na sala de aula de uma forma diferenciada, específica e bilíngue, promovendo, assim, a transgressão pedagógica dos professores surdos. Sucesso! 88 Didática e educação de surdos Referências Bibliográficas: BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves.Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. FLEURI, R.M. Educação intercultural. Mediações necessárias. In: FLEURI, Reinaldo; SOUZA, Maria. 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