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Bioquímica Básica Bioquímica Básica 1ª e d iç ão Michel Miranda Edição por Larissa Silva dos Santos Bioquímica Básica DIREÇÃO SUPERIOR Chanceler Joaquim de Oliveira Reitora Marlene Salgado de Oliveira Presidente da Mantenedora Wellington Salgado de Oliveira Pró-Reitor de Planejamento e Finanças Wellington Salgado de Oliveira Pró-Reitor de Organização e Desenvolvimento Jefferson Salgado de Oliveira Pró-Reitor Administrativo Wallace Salgado de Oliveira Pró-Reitora Acadêmica Jaina dos Santos Mello Ferreira Pró-Reitor de Extensão Manuel de Souza Esteves DEPARTAMENTO DE ENSINO A DISTÂNCIA Gerência Nacional do EAD Bruno Mello Ferreira Gestor Acadêmico Diogo Pereira da Silva FICHA TÉCNICA Texto: Michel Miranda Revisão Ortográfica: Rafael Dias de Carvalho Moraes Projeto Gráfico e Editoração: Andreza Nacif, Antonia Machado, Eduardo Bordoni, Fabrício Ramos. Supervisão de Materiais Instrucionais: Antonia Machado Ilustração: Eduardo Bordoni e Fabrício Ramos Capa: Eduardo Bordoni e Fabrício Ramos COORDENAÇÃO GERAL: Departamento de Ensino a Distância Rua Marechal Deodoro 217, Centro, Niterói, RJ, CEP 24020-420 www.universo.edu.br Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universo – Campus Niterói Bibliotecária: ELIZABETH FRANCO MARTINS – CRB 7/4990 Informamos que é de única e exclusiva responsabilidade do autor a originalidade desta obra, não se responsabilizando a ASOEC pelo conteúdo do texto formulado. © Departamento de Ensino a Distância - Universidade Salgado de Oliveira Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, arquivada ou transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio sem permissão expressa e por escrito da Associação Salgado de Oliveira de Educação e Cultura, mantenedora da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO). http://www.universo.edu.br/ Bioquímica Básica Palavra da Reitora Acompanhando as necessidades de um mundo cada vez mais complexo, exigente e necessitado de aprendizagem contínua, a Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) apresenta a UNIVERSO Virtual, que reúne os diferentes segmentos do ensino a distância na universidade. Nosso programa foi desenvolvido segundo as diretrizes do MEC e baseado em experiências do gênero bem-sucedidas mundialmente. São inúmeras as vantagens de se estudar a distância e somente por meio dessa modalidade de ensino são sanadas as dificuldades de tempo e espaço presentes nos dias de hoje. O aluno tem a possibilidade de administrar seu próprio tempo e gerenciar seu estudo de acordo com sua disponibilidade, tornando-se responsável pela própria aprendizagem. O ensino a distância complementa os estudos presenciais à medida que permite que alunos e professores, fisicamente distanciados, possam estar a todo momento ligados por ferramentas de interação presentes na Internet através de nossa plataforma. Além disso, nosso material didático foi desenvolvido por professores especializados nessa modalidade de ensino, em que a clareza e objetividade são fundamentais para a perfeita compreensão dos conteúdos. A UNIVERSO tem uma história de sucesso no que diz respeito à educação a distância. Nossa experiência nos remete ao final da década de 80, com o bem- sucedido projeto Novo Saber. Hoje, oferece uma estrutura em constante processo de atualização, ampliando as possibilidades de acesso a cursos de atualização, graduação ou pós-graduação. Reafirmando seu compromisso com a excelência no ensino e compartilhando as novas tendências em educação, a UNIVERSO convida seu alunado a conhecer o programa e usufruir das vantagens que o estudar a distância proporciona. Seja bem-vindo à UNIVERSO Virtual! Professora Marlene Salgado de Oliveira Reitora. Bioquímica Básica 4 1 Introdução à Bioquímica Bioquímica Básica 5 Nesta unidade vamos entender a cerca das características físico-químicas da água e os seus efeitos sobre as biomoléculas e as células. Objetivos da Unidade Conhecer as características físico-químicas da água Compreender as interações químicas entre a água e as biomoléculas Saber como a água afeta os sistemas biológicos Definir pH e sistema tampão Plano da Unidade A água Interação da água com as substâncias polares Ionização da água Sistema tampão. Bons Estudos! Bioquímica Básica 6 Os seres vivos são formados por uma extensa variedade de substâncias. Dentre estas, podemos citar as substâncias inorgânicas (ex: água, íons e sais minerais) e substâncias orgânicas (ex: carboidratos, lipídios, proteínas, vitaminas e ácidos nucléicos). Para compreendermos a importância do estudo da bioquímica, é necessário entender que nosso organismo é formado pelas moléculas que serão estudadas ao longo dos capítulos. O funcionamento orgânico não poderia ser elucidado sem que essas substâncias, comuns aos seres vivos, fossem analisadas. A água A água é a substância mais abundante dos seres vivos, perfazendo 70% ou mais da massa da maioria dos organismos. Em alguns seres como águas-vivas, o conteúdo de água pode chegar a 94% do total. O corpo humano tem em média 60% da sua massa de água, cuja distribuição varia conforme o tecido. Enquanto o tecido adiposo praticamente não contém água, os músculos esqueléticos são constituídos por cerca de 73% de água. O plasma sanguíneo chega a ter mais de 90% de água. O conteúdo de água também varia com a idade do organismo, pois quanto mais velho é o ser vivo, menos água corpórea ele terá. O início da vida aconteceu em ambiente aquoso e a maioria das reações químicas ocorre na presença da água. A água é de fundamental importância para todos os seres vivos na natureza pelo fato de muitas reações químicas, tanto no interior quanto no exterior das células serem mediadas pela água. A solubilização e distribuição de substâncias no citoplasma das células dependem da presença da água citoplasmática. A digestão de alimentos no tubo digestivo depende de enzimas que utilizam a água para quebrar as ligações químicas entre as moléculas. O fluxo sanguíneo existe devido ao plasma sanguíneo ser líquido. A evolução da vida na Terra dependeu das características incomuns da água, a começar por sua capacidade de atuar como solvente para inúmeras substâncias. A abundância da água e sua temperatura elevada de fusão e ebulição permitiram o surgimento de grandes oceanos na Terra primitiva onde a vida teve origem. Atualmente, muitas plantas e animais evoluíram para a vida terrestre, no entanto, a dependência da água jamais deixou de existir. http://pt.wikipedia.org/wiki/Corpo_humano http://pt.wikipedia.org/wiki/Tecido_adiposo http://pt.wikipedia.org/wiki/Tecido_adiposo http://pt.wikipedia.org/wiki/Tecido_adiposo http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%BAsculo_esquel%C3%A9tico http://pt.wikipedia.org/wiki/Plasma_sangu%C3%ADneo http://pt.wikipedia.org/wiki/Seres_vivos http://pt.wikipedia.org/wiki/Natureza http://pt.wikipedia.org/wiki/Evolu%C3%A7%C3%A3o Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 7 A água é um solvente biológico ideal, por dissolver a maioria das substâncias presentes no planeta. A capacidade solvente da água inclui a solubilização dos íons, de muitos açúcares, proteínas e vitaminas e de outras moléculas não relacionadas, como por exemplo, alguns medicamentos. A água é uma molécula formada por três átomos: dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio (H2O). Estes três elementos se unem por ligações covalentes (em que há compartilhamento de elétrons) criando uma estrutura assimétrica H – O – H com ângulo de ligação de 104,5º e com carga elétrica parcial negativa no oxigênio e parcial positiva nos hidrogênios, gerando uma estrutura bipolar. O oxigênio, por ser mais eletronegativo que os hidrogênios, adquire a carga parcialnegativa ao atrair os dois hidrogênios para si para a formação da água (figura 1). Figura 1: Estrutura da molécula da água. A estrutura bipolar da água é mostrada aqui no modelo bola e bastão. Os átomos de hidrogênio e oxigênio se unem através de ligações covalentes. A carga parcial dos seus átomos é determinada pelo símbolo (δ). O oxigênio, mais eletronegativo que os hidrogênios, apresenta carga parcial negativa e os hidrogênios, cargas parciais positivas. Fonte: Lehninger, princípios de Bioquímica. Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 8 Vamos lembrar: A união de dois ou mais átomos forma as moléculas. Para formar uma molécula os átomos precisam fazer ligações químicas. Duas ligações químicas são importantes nos sistemas biológicos: a ligação covalente (ocorre através do compartilhamento de elétrons, quando os átomos que formam a molécula apresentam a tendência de ganhar elétrons) e a ligação iônica (ocorre quando o átomo que precisa ganhar elétrons “rouba” um ou mais elétrons do átomo que precisa perder elétrons). A eletronegatividade é a capacidade que um átomo tem de atrair para si outro átomo, para a formação das moléculas. Na escala de eletronegatividade, que vai de 0 à 4,0, o flúor, o oxigênio e o nitrogênio são bastante eletronegativos (valores 4,0, 3,5 e 3,0 respectivamente) (tabela 1). Uma decorrência importante do estudo da eletronegatividade dos elementos é que, em função da diferença de eletronegatividade entre os átomos envolvidos, podemos classificar as ligações em apolares (diferença de eletronegatividade entre os átomos de 0 à 0,5) e polares (diferença maior que 0,5, sendo que quanto maior a diferença, maior é a polaridade da ligação química). Ligações covalentes podem ser apolares (diferença de eletronegatividade entre 0 e 0,5) ou polares (diferença de eletronegatividade entre 0,6 e 1,6) enquanto as ligações iônicas (diferença de eletronegatividade entre 1,7 e 4,0) são sempre polares. Desse modo as moléculas podem ter caráter polar ou apolar. A água por ter seus átomos com diferença de eletronegatividade de 1,4 (tabela 1) é então uma substância polar. Tabela 1: A eletronegatividade de alguns elementos químicos Elemen to *Eletronegativi dade Elemen to Eletronegativi dade Elemen to Eletronegativi dade F 4,0 Se 2,4 Zn 1,6 O 3,5 P 2,1 Mn 1,5 Cl 3,0 H 2,1 Mg 1,2 N 3,0 Cu 1,9 Ca 1,0 BR 2,8 Fe 1,8 Li 1,0 S 2,5 Co 1,8 Na 0,9 C 2,5 Ni 1,8 K 0,8 I 2,5 Mo 1,8 *Quanto mais eletronegatividade, mais o elemento atrai o outro. Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 9 Interação da água com as substâncias polares A água pode interagir com outras moléculas de água. Ao se aproximarem, o oxigênio de uma molécula de água faz uma interação química com o hidrogênio de outra molécula de água. Esta interação é chamada ponte (ou ligação) de hidrogênio, representada por um tracejado e não por um traço como a ligação covalente (figura 2). Figura 2: A ponte de hidrogênio. Ponte de hidrogênio entre as moléculas de água é uma interação (atração) fraca que ocorre entre o oxigênio de uma água e o hidrogênio de outra água. Fonte: Lehninger, princípios de Bioquímica. Uma molécula de água pode fazer até quatro pontes de hidrogênio com outras moléculas de água (figura 3). Apesar da ponte de hidrogênio ser uma interação considerada fraca nos sistemas biológicos (ligações covalentes requerem de 214 à 930 kj/mol para que sejam rompidas, enquanto a ponte é rompida com energia da ordem de 12 à 30 kj/mol), o alto número de pontes de hidrogênio entre as moléculas de água determina uma alta coesão entre as moléculas. Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 10 Vamos lembrar: Nos sistemas biológicos, a ponte de hidrogênio é formada entre o hidrogênio de uma molécula e o oxigênio, nitrogênio ou flúor de outra molécula. No entanto o hidrogênio precisa estar ligado a um elemento bem eletronegativo como os três elementos químicos citados anteriormente. Hidrogênios ligados a carbono não fazem pontes de hidrogênio com a água porque o carbono tem eletronegatividade semelhante ao do hidrogênio (tabela 1), determinando uma região apolar, incapaz de fazer tal interação. Figura 3: Pontes de hidrogênio entre moléculas de água. Cada molécula de água forma um máximo de quatro pontes de hidrogênio. Nesta situação a água está na forma de gelo. À medida que as pontes de hidrogênio são rompidas (por exemplo, por aumento de temperatura), a água se torna respectivamente líquida (média de 3,4 pontes de hidrogênio com outras moléculas de água) e gasosa (média de 1,5 pontes de hidrogênio) Na imagem, as circunferências azuis representam os átomos de oxigênio e, as cinzas, os de hidrogênio. Fonte: Lehninger, princípios de Bioquímica. Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 11 As pontes de hidrogênio não se resumem à interação molecular. Os estados físicos da água são determinados pelo número de pontes de hidrogênio entre as moléculas (figura 3). Além disso, a água tem alto ponto de fusão (0 o C), alto ponto de ebulição (100 o C) e alto calor de vaporização (2.260 j/g) quando comparada com a maioria dos solventes. Estas propriedades são uma consequência da atração das moléculas de água por pontes de hidrogênio, que confere à água uma alta coesão. Outra consequência importante das pontes de hidrogênio existentes na água é a sua alta tensão superficial (figura 4). As moléculas que estão no interior do líquido atraem e são atraídas por todas as moléculas vizinhas, de tal modo que estas forças se equilibram. Já as moléculas da superfície só são atraídas pelas moléculas “de baixo” e “dos lados”. Consequentemente, estas moléculas se atraem mais fortemente e criam uma película semelhante a uma película elástica na superfície da água. A tensão superficial da água explica vários fenômenos dentre os quais citamos a forma esférica das gotas de água e o fato de alguns insetos poderem caminhar sobre a água. Figura 4: Representação das forças que produzem a tensão superficial. Fonte: Husman & Orth, 2015. Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 12 As pontes de hidrogênio não estão somente presentes na água, mas também são responsáveis pela interação da água com outras substâncias. A água dissolve biomoléculas polares. Dentre estes grupos funcionais incluímos as hidroxilas, os aldeídos, as cetonas, os ácidos carboxílicos e grupamentos contendo N – H, como as aminas. Ao se colocar, por exemplo, sacarose (açúcar de cozinha) em água, seja em um suco, cafezinho ou até mesmo na produção do soro caseiro, observa-se que o açúcar em poucos segundos desaparece na água. Na verdade, o desaparecimento da sacarose é explicado não pelo fato da água estar quebrando a sacarose, mas pelo fato das moléculas de água estarem fazendo pontes de hidrogênio com as hidroxilas (O – H ou mais comumente representado por OH) das moléculas de sacarose. O etanol se mistura com a água através de pontes de hidrogênio entre o oxigênio da água e a hidroxila presente no etanol (figura 5). Figura 5: Interação da água com etanol. O etanol (álcool comercial) se mistura facilmente com a água por fazer pontes de hidrogênio com a água. Fonte: www.ebah.com.br, acesso em 11/10/2014. As pontes de hidrogênio não estão restritas à água. Outros líquidos e macromoléculas importantes das células podem fazer pontes de hidrogênio entre si, sem a necessidade da presença da água. A estrutura tridimensional das proteínas contém várias pontes de hidrogênio entre os aminoácidos que as compõe. Na constituição do DNA, as bases nitrogenadas(adenina e timina assim como citosina e guanina) dos nucleotídeos fazem pontes de hidrogênio para estabilização da dupla fita de DNA. http://www.ebah.com.br/ Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 13 Além da interação da água com outras substâncias por pontes de hidrogênio, a água interage também eletrostaticamente com solutos que exibem carga elétrica. Assim como as pontes de hidrogênio, as interações eletrostáticas são interações fracas nos sistemas biológicos (a energia necessária para romper a ligação é da ordem de 4 à 80 kj/mol), mas importantes para a formação de macromoléculas como, por exemplo, as proteínas. A água dissolve sais como o NaCl (cloreto de sódio) hidratando e estabilizando os íons Na + e Cl - , enfraquecendo as interações eletrostáticas entre as moléculas de NaCl e impedindo que estas moléculas voltem a se agrupar, por fazer interações eletrostáticas com estes átomos (figura 6). É importante observar que na interação da água com o NaCl não é possível a realização de pontes de hidrogênio entre a água e o NaCl pelo fato de não atender as condições explicadas anteriormente para a realização desta interação molecular. Vamos lembrar: A interação eletrostática é uma atração entre cargas opostas de regiões moleculares. Isto pode ocorrer entre água e sais, água e grupos funcionais com carga elétrica das moléculas orgânicas e entre diferentes grupos funcionais com carga elétrica na mesma molécula, como ocorrem entre cargas elétricas de alguns aminoácidos nas proteínas. Desse modo, assim como a ponte de hidrogênio, a interação eletrostática ocorre entre substâncias polares ou regiões polares das moléculas. Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 14 Figura 6: Solubilidade do NaCl em água. A água dissolve sais como o NaCl por meio da hidratação e estabilização dos átomos que compõe a molécula. À medida que as moléculas de água se agrupam ao redor dos íons Na+ e Cl- a interação (atração) eletrostática necessária para a formação do sal é rompida. Fonte: www.profpc.com.br, acesso em 11/10/2014. Outra interação química importante nos sistemas biológicos, diferente das pontes de hidrogênio e das interações eletrostáticas, é a interação hidrofóbica. Esta interação fraca (a energia necessária para romper a ligação é da ordem de 3 a 12 kj/mol) ocorre entre moléculas apolares. Líquidos incapazes de se misturar com a água geralmente possuem moléculas apolares chamadas hidrocarbonetos (contendo carbono e hidrogênio) e são conhecidos como solventes orgânicos, incluindo a gasolina, o hexano, o benzeno, o tolueno e outros. Na formação destes líquidos os hidrocarbonetos se atraem através da interação hidrofóbica. Além das substâncias polares e apolares, algumas substâncias são anfipáticas. Estas contêm uma região polar e outra apolar. A região polar interage com a água enquanto a região apolar não. Os ácidos graxos, os fosfolipídios e o colesterol são exemplos de substâncias anfipáticas que serão estudadas nas próximas unidades. Ionização da água. Nesta unidade, foi visto que a molécula de água é H2O. No entanto, uma pequena proporção de moléculas de água se encontra em uma forma chamada dissociada, criando íons H + (prótons) e OH - . A ionização da água pode ser medida por sua condutividade elétrica e é expressa por uma constante de equilíbrio. Esta constante (Keq) é determinada por condutividade elétrica corresponde à 1,8 x 10 -16 M (onde M significa molar). Em água pura, a molaridade da água à 25 o C (1000 dividido pelo peso molecular da água que é 18) é de 55,5. Com estes valores, uma nova constante para a dissociação da água, o Kw (produto iônico da água) é criada, obtendo-se o valor de 1 x 10 -14 M 2 , como mostrado abaixo: H2O H + + OH - Keq = [H + ][OH - ]/[H2O] = Keq = [H + ][OH - ]/55,5M http://www.profpc.com.br/ Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 15 (55,5M) (Keq) = [H + ][OH - ] = Kw = Kw = [H + ][OH - ] = 55,5M x 1,8 x 10 -16 M Kw = 100 x 10 -16 M 2 ou Kw = 1 x 10 -14 M 2 Sendo assim, em água pura, onde as concentrações dos íons H + e OH - são equivalentes, cada íon equivale a 1 x 10 -7 M ou 10 -7 M. Como o produto iônico da água é constante, sempre que [H + ] for maior que 10 -7 M, [OH - ] será menor que 10 -7 M, ou vice-versa. O produto iônico da água é a base para escala de pH (tabela 2). Existe uma fórmula onde: pH = log/[H + ] = pH = log/[10 -7 ] = pH = log10 7 = pH = 7,0. Ou seja, em água pura, onde as concentrações dos íons H + e OH - são equivalentes, o pH será sempre 7,0 (neutro). Este valor significa que a água tem pH neutro. Valores abaixos de 7,0 determinam pH ácido enquanto valores acima de 7,0 determinam pH alcalino (básico) (figura 7). Pelo fato da escala de pH ser logarítmica, se um líquido tem pH 7,0 e outro tem pH 8,0, o segundo tem 10 X mais OH - (ou 10 X menos H + ) que o primeiro. Então se compararmos o pH da água do mar (aproximadamente 7,8) com o pH do suco gástrico (aproximadamente 1,8), a diferença na concentração de H + (e consequentemente de OH - ) é de 1 milhão de vezes. Tabela 2. A escala de pH. Usuário Realce Bioquímica Básica 16 O pH varia na razão inversa a da concentração de H + . Desse modo o aumento de H + diminui o pH e vice-versa. pOH é exatamente o inverso do pH. Note que para todos os casos pH + pOH = 14. Figura 7. O pH de alguns líquidos. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. [H + ] (M) pH [OH - ] (M) pOH 10 0 0 10 14 14 10 1 1 10 13 13 10 2 2 10 12 12 10 3 3 10 11 11 10 4 4 10 10 10 10 5 5 10 9 9 10 6 6 10 8 8 10 7 7 10 7 7 10 8 8 10 6 6 10 9 9 10 5 5 10 10 10 10 4 4 10 11 11 10 3 3 10 12 12 10 2 2 10 13 13 10 1 1 10 14 14 10 0 0 Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 17 Sistema tampão O pH afeta a estrutura e a função das macromoléculas biológicas. Por exemplo, a atividade das enzimas depende de pH ideal. Mudanças significativas nos valores de pH onde estão as enzimas levam a desnaturação das mesmas e consequentemente a diminuição ou perda da função. O pH sanguíneo normal está entre 7,3 e 7,45. Valores abaixo de 7,3 podem levar a um quadro de acidose, e valores acima de 7,45 podem levar a um quadro de alcalose. Em ambos os casos pode ser fatal. A absorção de alguns medicamentos também é influenciada pelo pH. Enquanto alguns medicamentos são mais bem absorvidos pelo estômago, outros são mais bem absorvidos pelo intestino delgado. A concentração de H+ afeta a maioria dos processos nos sistemas biológicos. Os ácidos e as bases podem alterar o pH. Ácidos são substâncias que entregam H+ e bases são substâncias que entregam OH- (ou roubam H+). Por exemplo, ácido clorídrico (HCl) em água sofre dissociação em H+ e Cl-, assim entregando H+ para a água e acidificando a mesma. Já o hidróxido de sódio (NaOH) em água sofre dissociação em Na+ e OH-, assim entregando OH- para a água e alcalinizando a mesma. O grau de dissociação – separação – define os ácidos e bases como fortes e fracos. Ácidos e bases fortes são aqueles que, praticamente, se dissociam completamente em água. Alguns exemplos de ácidos fortes incluem o ácido clorídrico, o ácido sulfúrico e o ácido nítrico e alguns exemplos de bases fortes incluem o hidróxido de sódio e o hidróxido de potássio. Os ácidos e bases fracos dissociam pouco em água e são chamados de tampões. Quando ácidoacético (CH3COOH), um ácido fraco, é adicionado à água, algumas moléculas se dissociam em CH3COO e H+ enquanto outras se mantêm na forma associada (CH3COOH), estabelecendo um equilíbrio entre as duas formas. Enquanto a forma associada é o ácido conjugado (que doa H+), a forma dissociada é a base conjugada (que pode receber H+). CH3COOH H + + CH3COO - A regulação do pH nos líquidos biológicos é essencial para a vida dos seres vivos. Uma pequena mudança nas concentrações de H + e OH - afeta a estrutura e a Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 18 função das macromoléculas celulares. A concentração destes íons intra e extracelular é mantida por sistemas tampões que fazem com que o líquido resista á variações de pH quando pequenas quantidades de ácido ou base são adicionadas. Quando um ácido forte é adicionado á água, todo o ácido se dissocia acidificando fortemente a água, mas quando o ácido forte é adicionado a uma solução contendo um ácido fraco em equilíbrio com sua base conjugada, seu pH não se altera tão dramaticamente, pois parte dos H + adicionados pelo ácido forte são “roubados” pelas moléculas de ácido fraco que estão na forma dissociada (base conjugada). Quando uma base forte é adicionada à água, toda a base se dissocia alcalinizando fortemente a água, mas quando a base forte é adicionada a uma solução contendo um ácido fraco em equilíbrio com sua base conjugada, seu pH não se altera tanto pois parte dos OH - liberados da base recebem H + das moléculas do ácido fraco que ainda estão na forma associada, gerando H2O. Entretanto isto só ocorre em uma faixa estreita de pH, a faixa tampão. Um tampão, geralmente, é uma solução que contém um par ácido-base conjugado fraco, assim resistindo consideravelmente à variação de pH quando pequenas quantidades de ácido ou de base fortes são adicionadas a essa solução. Os dois tampões fisiológicos mais importantes são o tampão bicarbonato e o tampão fosfato. O tampão fosfato consiste de um ácido fraco em equilíbrio com sua base conjugada representada abaixo: H2PO4 - H + + HPO4 -- O sistema tampão fosfato age no citoplasma de todas as células evitando variações bruscas no pH intracelular por tamponar o citoplasma na faixa entre pH 5,86 e 7,86. Por isso, nas células, o pH intracelular está sempre entre 6,9 e 7,4. O tampão bicarbonato funciona no sangue, consistindo de ácido carbônico (H2CO3) como doador de prótons e bicarbonato (HCO3 - ) como aceptor de prótons. H2CO3 H + + HCO3 - Quando H + aumenta no sangue (seja pela produção de lactato no exercício físico intenso, este que ao sair do músculo para o sangue carrega um H + ou pelo Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 19 excesso de produção de corpos cetônicos no fígado de diabéticos, que também levam H + para o sangue), a reação se desloca para a produção de ácido carbônico, com produção de CO2 e liberação deste gás pela respiração. No entanto, se o pH do plasma sanguíneo aumenta (que pode ocorrer pela produção de NH3 durante o metabolismo de proteínas), a reação se desloca para a produção de bicarbonato, provocando uma maior dissolução de CO2 dos pulmões para o plasma sanguíneo. H + + HCO3 - H2CO3 CO2 + H2O Isto significa que o sistema tampão bicarbonato regula o pH do sangue evitando que o mesmo se torne ácido ou alcalino à ponto de afetar a velocidade de algumas reações vitais para o organismo. O controle biológico do pH das células e dos fluidos corporais é, portanto, de importância fundamental em todos os aspectos celulares. Leitura complementar DEVLIN, T. Manual de bioquímica com correlações clínicas. Edgard Blucher, 2007. HARPER, H. A. Bioquímica. Atheneu, 2002. LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. Worth publishers, 2006. STRYER, L. Bioquímica. Guanabara Koogan, 2004. VOET, D., VOET, J.G., PRATT, C.W. Fundamentos de Bioquímica. Artmed, 2002. É HORA DE SE AVALIAR Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 20 ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de ensino-aprendizagem. Bioquímica Básica 21 Exercícios - Unidade 1 1. A chuva ácida é a designação dada à chuva que ocorre em regiões onde existem na atmosfera terrestre gases e partículas ricos em enxofre e nitrogênio que, em combinação com a água, formam ácidos fortes. Isto ocorre pela queima dos combustíveis fósseis e oxidação das impurezas sulfurosas existentes na maior parte dos carvões e petróleos. Ao longo das últimas décadas têm sido reportadas leituras de pH na água de gotas de chuva e em gotículas de nevoeiro, colhidas em regiões industrializadas, com valores próximos de 2,3 (a mesma acidez do vinagre). Na ausência de qualquer contaminante atmosférico, a água precipitada pela chuva é levemente ácida, sendo de esperar um pH de aproximadamente 5,2 a 25ºC. A partir do texto acima, a diferença no nível de acidez entre a água da chuva ácida e a água da chuva normal é de aproximadamente: (0,5 pontos) a) 10X b) 100X c) 3X d) 1000X e) 30X 2. A água é a substância mais abundante da constituição dos mamíferos. É encontrada nos compartimentos extracelulares (líquido intersticial), intracelulares (citoplasma celular) e transcelulares (dentro de órgãos como estômago e intestino). Sobre a água e sua presença nos mamíferos é CORRETO afirmar que: http://pt.wikipedia.org/wiki/Chuva http://pt.wikipedia.org/wiki/Atmosfera_terrestre http://pt.wikipedia.org/wiki/Enxofre http://pt.wikipedia.org/wiki/Combust%C3%ADvel_f%C3%B3ssil http://pt.wikipedia.org/wiki/Carv%C3%A3o http://pt.wikipedia.org/wiki/Petr%C3%B3leo http://pt.wikipedia.org/wiki/Vinagre http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81gua http://pt.wikipedia.org/wiki/Chuva http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81cida http://pt.wikipedia.org/wiki/PH http://pt.wikipedia.org/wiki/C Usuário Realce 300x??? Bioquímica Básica 22 a) A quantidade de água nos seres é invariável b) Com o passar dos anos o conteúdo de água tem o seu percentual aumentado c) É importante fator de regulação térmica dos organismos d) Em tecidos metabolicamente ativos é inexistente e) Poucas reações químicas nos organismos dependem da água 3. Um ser humano adulto tem cerca de 60% de sua massa corpórea constituída por água. A maior parte dessa água encontra-se localizada: a) no meio intracelular b) no líquido linfático c) nas secreções glandulares e intestinais d) na saliva e) no plasma sanguíneo 4- Uma solução que contém um par ácido-base conjugado fraco, assim resistindo consideravelmente à variação de pH é denominada: a) ácido acético b) tampão c) hidrocarboneto d) fosfatase e) colagenase 5. De acordo com a questão anterior o ácido considerado mais fraco é o: Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 23 a) ácido acético b) tris c) fosfato diácido d) amônio e) ácido acetil salicílico 6. A água interage e dissolve moléculas através de dois processos importantes. Estes processos são: a) pontes de hidrogênio e interações hidrofóbicas b) pontes de hidrogênio e ligações covalentes c) interações hidrofóbicas e pontes de hidrogênio d) interações eletrostáticas e ligações covalentes e) interações eletrostáticas e pontes de hidrogênio 7. Na água pura, as concentrações dos íons H+ e OH- sãoiguais e o seu pH é 7,0 a 25ºC. O pH da água do mar é aproximadamente 8,0 à mesma temperatura. O íon em maior concentração no mar, assim como a diferença de concentração deste íon entre a água pura e a água do mar são: a) H+ e 10X b) H+ e 1X c) OH- e 10X d) OH- e 1X e) OH- e 100X Usuário Realce Usuário Realce Usuário Realce Bioquímica Básica 24 8. Você já deve ter observado um inseto caminhando pela superfície da água de uma lagoa. A propriedade da água que permite que a pata do inseto não rompa a camada de água é denominada: a) adesão. b) calor específico. c) tensão superficial. d) calor de vaporização. e) capilaridade. 9. De acordo com as pontes de hidrogênio, responda: a) Qual é a sua relação com os estados físicos da água? b) Como esta interação química é produzida? c) Na ausência da água, esta interação química pode ser produzida? Justifique. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 10. Abaixo podemos observar a curva de titulação de um ácido fraco. Usuário Realce Bioquímica Básica 25 Responda: a) Como funciona um sistema tampão? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Bioquímica Básica 26 2 Proteínas Bioquímica Básica 27 Nesta unidade, vamos entender a cerca das características gerais dos aminoácidos e das proteínas, suas estruturas químicas, suas funções celulares e as diferentes técnicas de identificação, separação, purificação e análise destas moléculas. Objetivos da Unidade Identificar e compreender as propriedades dos aminoácidos, Conhecer as funções das proteínas Estudar os diferentes níveis estruturais das proteínas Conhecer as técnicas de identificação, separação, purificação e análise de proteínas. Caracterizar as enzimas Plano da Unidade Os aminoácidos Classificação dos Aminoácidos Peptídeos Estrutura e funções das proteínas Desnaturação de proteínas Enzimas Bons Estudos! Bioquímica Básica 28 As proteínas (ou também conhecidas como polipeptídeos) são as macromoléculas mais abundantes nas células vivas e com o maior número de funções. São instrumentos moleculares nos quais a informação genética é expressa. Todas as proteínas são formadas por moléculas menores chamadas aminoácidos. A quantidade e a ordem destes aminoácidos provêm de uma quantidade enorme de diferentes proteínas celulares. Os aminoácidos Os aminoácidos são as unidades formadoras das proteínas. São mais de 200 tipos de aminoácidos diferentes na natureza, mas somente 20 são encontrados nas proteínas. Estes aminoácidos possuem regiões em comum como um carbono central (α), no qual estão ligados um hidrogênio, uma região amina (NH2), uma região carboxila ou também conhecida como ácido carboxílico (COOH) e uma cadeia lateral (ou grupamento R) (figura 1), com exceção da prolina que é considerado um iminoácido e, portanto não apresenta uma amina. Em pH fisiológico (próximo de 7,0), os aminoácidos estão carregados na forma de íons dipolares (ou zwitterions) tendo a amina como NH3+ e a carboxila como COO-, no entanto, esta característica não interfere nas propriedades químicas dos aminoácidos (figura 2). Bioquímica Básica 29 Figura 1: Representação da região comum a quase todos os aminoácidos em que R representa a cadeia lateral variável. Adaptado de http://docentes.esalq.usp.br/luagallo/aminoacidos.html Os aminoácidos são diferenciados entre si pelas suas cadeias laterais. As cadeias laterais variam em tamanho, forma, carga elétrica, reatividade química e definem os aminoácidos como polares ou apolares, no entanto esta denominação só funciona quando os aminoácidos estão incorporados nas proteínas, pois todos os aminoácidos livres são, a princípio, solúveis em água. Neste contexto, os aminoácidos glicina, alanina, prolina, valina, leucina, isoleucina, metionina, triptofano e fenilalanina são considerados apolares, enquanto os demais, por ter em suas cadeias laterais regiões capazes de interagir com a água, seja por pontes de hidrogênio ou por interações eletrostáticas, são aminoácidos polares (figura 2). Bioquímica Básica 30 Figura 2: Os aminoácidos formadores das proteínas. As fórmulas acima mostram as formas zwitterion dos aminoácidos (em pH fisiológico). Acido glutâmico e ácido aspártico são aminoácidos comumente referidos respectivamente como glutamato e aspartato. A cadeia lateral da glicina está destacada das demais por ser a mais simples. Fonte: www.infoescola.com, acesso em 18/10/2014, adaptado. http://www.infoescola.com/ Bioquímica Básica 31 Os aminoácidos podem apresentar algumas características funcionais interessantes: o aminoácido mais simples, a glicina, tem este nome por ter gosto doce, assim lembrando o nome glicose, além de ser um neurotransmissor; o glutamato e o triptofano são usados na produção dos neurotransmissores ácidos γ- aminobutírico, serotonina e melatonina; leucina, isoleucina e valina são os aminoácidos conhecidos como BCAA (aminoácidos de cadeia lateral ramificada), muito procurados por praticantes de alguma atividade física, que serão estudados nas próximas unidades; aspartato e fenilalanina são usados na produção do adoçante aspartame; arginina participa do ciclo da uréia (importante via metabólica que ocorre no fígado e que será estudada nas próximas unidades); tirosina é usada na formação do hormônio tiroxina. Além dos 20 aminoácidos descritos anteriormente, algumas raras proteínas podem conter aminoácidos modificados após a sua incorporação na cadeia polipeptídica. Dentre estes podemos incluir a 4-hidroxiprolina e a 5-hidroxilisina, encontradas no colágeno, a 6-N-metillisina, encontrada na miosina, a desmosina, encontrada na elastina e o γ-carboxiglutamato, encontrado na protrombina. Os aminoácidos podem também ser classificados como naturais (não- essenciais) e essenciais. Os naturais são os aminoácidos produzidos pelo organismo. Os essenciais não são produzidos pelo organismo e, portanto, precisam ser adquiridos na alimentação. Os vegetais produzem todos os 20 aminoácidos que formam as proteínas e, portanto só possuem aminoácidos naturais. Os humanos produzem somente 11 (alanina, arginina, asparagina, aspartato, cisteina, glicina, glutamato, glutamina, prolina, serina e tirosina) do total de 20 aminoácidos. Deste modo, ao ingerir proteínas e através da produção pelo nosso organismo, os humanos obtêm os 20 aminoácidos. É importante ressaltar que para formar as proteínas são necessários todos os 20 aminoácidos. Bioquímica Básica 32 Classificação dos Aminoácidos Como os aminoácidos possuem grupamentos amina e carboxila capazes de se ionizar, a forma iônica predominante dos aminoácidos é dependente do pH no qual este aminoácido se encontra. Os aminoácidos podem apresentar 2 ou 3 grupamentos ionizáveisreferentes a amina, a carboxila e algumas cadeias laterais, ou seja 2 ou 3 regiões com poder tamponante. Com base na polaridade das cadeias laterais, os aminoácidos podem ser classificados como: - Aminoácidos com cadeia lateral apolar ou hidrofóbico, cuja cadeia é formada quase que exclusivamente por carbono e hidrogênio. São: Fenilalanina, Isoleucina, Leucina, Metionina, Prolina, Triptofano e Valina - Aminoácidos com cadeia lateral polar ou hidrofílico Cadeia lateral carregada positivamente. São: Aspargina, Histidina e Lisina. Cadeia lateral carregada negativamente. São: Ácido Aspártico, Ácido glutâmico, Hidroxilisina, Hidroxiprolina e Beta alanina. Quanto à nomenclatura dos aminoácidos, duas abreviações de três letras para o mesmo aminoácido significam abreviação adotada no Inglês e no Português respectivamente. As demais são abreviações universais (tabela 1). Bioquímica Básica 33 Tabela 1: Nomenclatura dos aminoácidos. Aminoácido Nome Abreviação de três letras Abreviação de uma letra Alanina Ala A Arginina Arg R Asparagina Asn N Aspartato Asp D Cisteína Cys (Cis) C Fenilalanina Phe (Fen) F Glicina Gly (Gli) G Glutamato Glu E Glutamina Gln Q Histidina His H Isoleucina Ile I Leucina Leu L Lisina Lys (Lis) K Metionina Met M Prolina Pro P Serina Ser S Tirosina Tyr (Tir) Y Treonina Ter T Triptofano Trp W Valina Val V Quanto ao destino no metabolismo animal, os aminoácidos podem ser classificados como: - Glucogênicos: Podem ser transformados em glicose. Exemplo: Alanina, arginina, metionina, cisteína, cistina, histidina, treonina e valina. - Glucocetogênicos: Podem se transformar em glicose ou em corpos cetônicos. Exemplo: fenilalanina, tirosina e triptofano, isoleucina e lisina. - Cetogênicos: Podem se transformar em corpos cetônicos. Exemplo: Leucina Os aminoácidos se unem para formar proteínas através da ligação peptídica. Esta ligação covalente é formada a partir de uma reação entre o grupamento amina de um aminoácido e o grupamento carboxila do outro aminoácido, resultando na saída de uma molécula de água (figura 3). Esta reação química ocorre somente no Bioquímica Básica 34 citoplasma ou nas membranas do retículo endoplasmático rugoso das células, dentro de uma estrutura chamada ribossomo. Figura 3: A ligação peptídica. Esta ligação (representada com um traço em vermelho) é formada a partir de uma reação de condensação entre o grupamento amina de um aminoácido e o grupamento carboxila do outro aminoácido. Fonte: www.colegiovascodagama.com, acesso em 18/10/2014. Peptídeos Os peptídeos são biomoléculas com uma quantidade pequena de aminoácidos. Diversos autores citam peptídeos como moléculas contendo 2 aminoácidos (dipeptídeos) ou de 3 até um máximo de 50 aminoácidos (oligopeptídeos). Acima de 50 aminoácidos a molécula já é considerada uma proteína. Peptídeos, apesar de pequenos, apresentam funções biológicas importantes: a ocitocina (com 9 aminoácidos), secretada pela hipófise, é responsável pelas contrações musculares do útero no parto e na produção de leite pelas glândulas mamárias; a bradicinina (com 9 aminoácidos) inibe inflamação nos tecidos; o glucagom (com 29 aminoácidos) é produzido pelo pâncreas em situações de hipoglicemia sanguínea; a glutationa (com 3 aminoácidos) atua como agente redutor e protege as células dos efeitos oxidantes de algumas substâncias como a água oxigenada; o hormônio http://www.colegiovascodagama.com/ Bioquímica Básica 35 antidiurético (com 9 aminoácidos) é sintetizado pelo hipotálamo e estimula os rins a reter água. Estrutura e função das proteínas Como descrito anteriormente, as proteínas são macromoléculas formadas por aminoácidos através de ligações peptídicas. As proteínas diferem quanto à quantidade e a sequência de aminoácidos que possuem. Por exemplo, duas proteínas contendo o mesmo número de aminoácidos não são necessariamente idênticas porque podem ter diferentes sequências de aminoácidos. O tamanho das proteínas varia desde moléculas pequenas como a insulina (com 51 aminoácidos de tamanho) até moléculas bem grandes como a hemoglobina (com 574 aminoácidos de tamanho). As proteínas podem ser encontradas tanto intra quanto extracelularmente e apresentam diversas funções, incluindo hormonal (ex: insulina, produzida pelo pâncreas e GH produzido na hipófise), nutricional (ex: caseína, a principal proteína do leite e ovalbumina, a principal proteína da clara do ovo), imunológica (ex: imunoglobulinas), contração (ex: actina e miosina, as principais proteínas de contração muscular), motilidade (ex: tubulina, encontrada no flagelo dos espermatozóides e cílios de protozoários), transporte (ex: hemoglobina, encontrada nas hemácias e albumina, transportadora de lipídios no plasma sanguíneo), estrutural (ex: colágeno e queratina) e enzimática (será detalhada no final desta unidade). Baseada em sua composição as proteínas podem ser simples ou conjugadas. As simples apresentam somente aminoácidos na sua estrutura. As conjugadas apresentam, além de aminoácidos, outros componentes como íons (ex: ferro, zinco, cobre nas metaloproteínas) ou moléculas (ex: lipídios nas lipoproteínas, oligossacarídeos nas glicoproteínas e fosfato nas fosfoproteínas). A estrutura das proteínas é bastante complexa. Distinguem-se quatro níveis de organização nas proteínas: estrutura primária, secundária, terciária e quaternária. A estrutura primária é a forma da proteína que acaba de ser sintetizada na célula. Esta forma contém aminoácidos unidos por ligações peptídicas e em algumas proteínas, também por pontes (ligações) dissulfeto. Esta ligação covalente (em Bioquímica Básica 36 alguns casos referidos também como interação química) ocorre através de uma reação química entre os grupamentos sulfidrila (SH) das cadeias laterais dos aminoácidos cisteína que estão próximos na cadeia polipeptídica, criando uma ligação covalente entre dois átomos de enxofre (S-S). Cada estrutura primária é formada de acordo com a informação genética contida nos genes do organismo. Atualmente, é conhecida a estrutura primária de centenas de proteínas. A primeira a ter a sua estrutura elucidada foi a insulina, com duas cadeias peptídicas, uma com 21 e outra com 30 aminoácidos, contendo três pontes dissulfeto. A forma primária de uma proteína ainda não tem função. Para ter função esta forma deverá assumir uma conformação final: secundária, terciária ou quaternária. Abaixo um modelo de dobramento de uma proteína sem forma definida e consequentemente sem função (estrutura primária) para uma forma terciária (figura 4). Figura 4: Dobramento (enovelamento) de uma proteína. A estrutura primária (proteína recém-sintetizada na célula) assumindo a forma final terciária. Esta figura é representada como modelo em fita. Fonte: www.dc205.4shared.com, acesso em 18/10/2014. A estrutura secundária pode se apresentar como dois modelos: a α-hélice e a folha-β (ou β-pregueada). Em ambos os modelos a estrutura secundária é estabilizada por pontes de hidrogênio. Na estrutura α-hélice, as pontes de http://www.dc205.4shared.com/ Bioquímica Básica 37 hidrogênio ocorrem entre o oxigênio da região C=O da ligação peptídica de um aminoácido e o hidrogênio da região N-H da ligação peptídica de outro aminoácido, distantes quatro aminoácidos entre si, criando uma forma helicoidal, daí o nome hélice (figura 5). Além disso, nesta conformação costumam ocorrer com freqüência interações eletrostáticas entre cadeias laterais de cargas opostas e interações hidrofóbicas entre cadeias laterais apolares dos aminoácidos, pois em ambos os casos estas cadeias laterais estão distantes três ou quatro aminoácidos, fazendo com que estas interações possam ocorrer e assim contribuir para a configuração da hélice. A folha-β é bemdiferente da alfa hélice, pois é quase totalmente distendida ao invés de enrolada. A folha-β é estabilizada por pontes de hidrogênio entre grupos N-H e C=O de 2 ou mais moléculas polipeptídicas adjacentes, estas que podem estar paralelas (no mesmo sentido) ou antiparalelas (sentidos opostos), enquanto que nas α-hélices as pontes de hidrogênio entre grupos N-H e C=O são na mesma molécula (figura 5). As formas secundárias, também conhecidas como estruturas fibrosas, são conhecidamente insolúveis em água. A explicação se baseia no fato destas proteínas apresentarem muitos aminoácidos com cadeias laterais apolares, tanto no interior quanto na superfície da proteína assim como a maioria das cadeias laterais polares dos aminoácidos estarem no interior da proteína, escondidas da água, dificultando ainda mais a interação da água com a proteína. Bioquímica Básica 38 α β Figura 5: As conformações secundárias das proteínas. Na conformação A, encontra-se a α-hélice e na conformação B encontra-se a folha-β no modelo antiparalelo. Ambas as formas são estabilizadas por pontes de hidrogênio. As regiões R representam as cadeias laterais dos aminoácidos. Fonte: www.bioquimica.faculdade.zip.net, acesso em 19/10/2014. O colágeno, proteína mais abundante dos vertebrados (representa mais de 30% do total de proteínas), encontrado na pele, dentina, córnea, tendões, cartilagens e ossos é uma proteína fibrosa. O colágeno é classificado em 12 tipos (I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X, XI e XII), sendo o tipo I o mais comum, amplamente distribuído pelo http://www.bioquimica.faculdade.zip.net/ Bioquímica Básica 39 corpo. Cada molécula de colágeno pode se apresentar como uma estrutura em hélice simples ou conter três cadeias polipeptídicas (tripla hélice) enroladas uma em torno da outra, criando uma estrutura chamada super-hélice (também referida como estrutura quaternária do colágeno), bastante resistente, estabilizadas por pontes de hidrogênio e algumas ligações covalentes cruzadas (figura 6). Analisando a sua composição química, encontram-se muitos aminoácidos com cadeia lateral apolar, incluindo 35% de glicina, 11% de alanina e 21% de prolina/4-hidroxiprolina, o que, em parte, explica sua insolubilidade em água. No corpo humano, o colágeno desempenha várias funções como, por exemplo, unir e fortalecer tecidos. A deficiência de colágeno no organismo leva a um quadro de colagenose, gerando má formação óssea, rigidez muscular, inflamação de juntas ósseas etc. Na formação do colágeno é necessária a participação da vitamina C. Sob a deficiência desta vitamina, pode ocorrer o escorbuto, uma doença cujos sintomas vão desde hemorragias na gengiva, fragilidade dos vasos sanguíneos até a morte. Mutações nos genes relacionados ao colágeno levam a produção de proteínas anormais. A osteogênese imperfeita é uma doença rara (1:25.000 nascimentos) relacionada a um defeito na síntese de colágeno tipo I, que leva a uma formação óssea anormal em bebês, com conseqüentes fraturas e deformidades ósseas. Já a doença Ehlers- Danlos (1:3.000.000 nascimentos) se caracteriza por um defeito na síntese de colágeno tipo I, III ou IV, levando a frouxidão em ligamentos, hipotonia muscular, desvios de coluna etc. Bioquímica Básica 40 Figura 6: Estrutura do colágeno. Em A, está o colágeno evidenciando os seus principais aminoácidos. Em B, está a representação das três moléculas adjacentes de colágeno e em C a união das três moléculas, criando a super-hélice. Fonte: www.bifi.es, acesso em 19/10/2014. A queratina, outra proteína fibrosa, é encontrada nos animais, na pele, cabelos, unhas, garras, chifres, cascos e penas. Sua composição de aminoácidos revela um alto número dos aminoácidos hidrofóbicos alanina, valina, leucina, isoleucina, fenilalanina e metionina. A queratina apresenta duas cadeias polipeptídicas enroladas em espiral, contendo ligações covalentes cruzadas através de um grande número de pontes dissulfeto, conferindo à molécula alta resistência. A elastina é uma proteína fibrosa encontrada em vários locais do corpo dos animais vertebrados como no pavilhão auditivo, na epiglote, em algumas cartilagens e nas artérias elásticas. Tal como o colageno, ela é produzida pelos fibroblastos do tecido conectivo (derme). A elastina se caracteriza por formar fibras mais finas que aquelas formadas pelo colágeno. Essas fibras cedem bastante à tração, mas retornam à forma original quando é cessada a força, portanto a elastina http://www.bifi.es/ http://pt.wikipedia.org/wiki/Epiglote http://pt.wikipedia.org/wiki/Art%C3%A9ria http://pt.wikipedia.org/wiki/Col%C3%A1geno Bioquímica Básica 41 confere a estas fibras elasticidade e resistência. Assim como o colágeno e a queratina, a elastina é uma proteína composta na sua maioria por aminoácidos com cadeia lateral apolar (glicina, valina, alanina e prolina). A estrutura terciária das proteínas é conhecida como estrutura globular ou enovelada. As proteínas terciárias são solúveis em água por apresentarem a maioria dos aminoácidos com cadeias laterais hidrofóbicas voltadas para o interior da proteína, enquanto a maioria das cadeias laterais polares está exposta, facilitando a interação da água por pontes de hidrogênio e interações eletrostáticas. Proteínas enoveladas podem conter várias regiões α-hélice, várias regiões folha-β ou uma mistura das duas regiões. Encontramos neste modelo de proteína um alto número de interações entre as cadeias laterais dos aminoácidos, incluindo as pontes dissulfeto, interações hidrofóbicas, pontes de hidrogênio e interações eletrostáticas, isto porque os aminoácidos que estão distantes na proteína podem interagir nesta forma terciária devido ao enovelamento poder aproximar aminoácidos muito distantes, até mesmo o primeiro e o último aminoácido da cadeia polipeptídica. A mioglobina, uma proteína pequena, com 153 aminoácidos e um grupo heme (consiste de uma estrutura orgânica cíclica, a protoporfirina, no qual se encontra um átomo de ferro no estado ferroso, Fe ++ , capaz de se ligar reversivelmente ao oxigênio) é um exemplo de estrutura terciária (figura 7). Sua estrutura molecular mostra 78% de regiões α-hélice e sem regiões folha-β. Presente no citoplasma das células musculares, a mioglobina é uma proteína transportadora e armazenadora de oxigênio nos músculos estriados do corpo (músculos esqueléticos e cardíacos). O interior da molécula é bastante apolar, contendo muitos aminoácidos leucina, valina, metionina e fenilalanina; já o exterior da molécula é bastante polar. Esta proteína não contém pontes dissulfeto, porém apresenta várias interações hidrofóbicas, interações eletrostáticas e pontes de hidrogênio. O citocromo C, uma proteína de 104 aminoácidos, é também uma proteína terciária contendo heme. A proteína está relacionada com a cadeia respiratória mitocondrial e funciona como uma transportadora de elétrons (esta função será estudada nas próximas unidades). Apenas cerca de 40% da proteína é formada por α-hélice; o restante da proteína não contém folhas-β, no entanto é composta por segmentos enovelados irregularmente e estendidos. Bioquímica Básica 42 Diferente do observado na mioglobina e no citocromo C, a lisozima, uma proteína terciária de 129 aminoácidos, contém tanto regiões α-hélice quanto folhas- β. Enquanto as regiões α-hélice são representadas por espirais, as regiões folhas-β são representadas por setas (figura 7). Esta proteína está presente na saliva, lágrima e na clara do ovo e atua como bactericida, quebrando ligações químicas de moléculas chamadas peptidoglicano, presentes na parede celular de bactérias Gram + , como por exemplo, bactérias dos gêneros Estafilococos e Estreptococos. A estrutura quaternária das proteínas se refere à união de duas ou mais cadeias polipeptídicasterciárias, podendo chegar a centenas de cadeias polipeptídicas terciárias agrupadas. Sendo assim, a estrutura quaternária é também chamada de globular, enovelada ou solúvel e possui as mesmas interações químicas encontradas na estrutura terciária. A primeira proteína quaternária a ter a sua estrutura decifrada foi a hemoglobina. Esta proteína, de 574 aminoácidos, presente nas hemácias, contém quatro cadeias terciárias, sendo duas de 141 aminoácidos (cadeias α) e duas de 146 aminoácidos (cadeias β), estabilizadas por pontes de hidrogênio e interações eletrostáticas (figura 7). Apesar das cadeias terem estas denominações, em nada se refere às estruturas secundárias estudadas anteriormente, pois a hemoglobina não apresenta regiões folha-β, mas somente regiões α-hélice. Cada cadeia polipeptídica contém um grupamento heme, capaz de ligar ao oxigênio. Sua função é a de transportar oxigênio dos pulmões para os tecidos e gás carbônico dos tecidos para os pulmões para liberação pela respiração. Enquanto a mioglobina apresenta alta afinidade pelo oxigênio, a hemoglobina apresenta afinidade que aumenta à medida que o primeiro oxigênio se liga, facilitando a ligação dos outros oxigênios. De modo inverso, a saída do primeiro oxigênio da hemoglobina para os tecidos facilita a liberação dos demais. A ligação dos oxigênios à hemoglobina é afetada por vários fatores: assim que o sangue atinge os tecidos, moléculas de CO2 se difundem para as hemácias, causando redução do pH nos tecidos. Esta redução do pH favorece a liberação do oxigênio da hemoglobina. Quando as hemácias chegam aos pulmões, o CO2 liberado aumenta o pH e consequentemente aumenta a ligação de novas moléculas de O2 à hemoglobina. Este efeito do pH e da concentração de CO2 sobre a ligação e liberação de O2 pela hemoglobina é chamada de efeito Bohr; o 2,3-BPG (2,3-bifosfoglicerato, produzido à partir do 1,3-bifosfoglicerato, que será estudado Bioquímica Básica 43 nas próximas unidades) regula a ligação do oxigênio à hemoglobina. Nas hemácias o 2,3-BPG diminui a afinidade do oxigênio à hemoglobina por se ligar a hemoglobina desoxigenada, mas não à hemoglobina já com oxigênio. Ao nível do mar, nos pulmões, a quantidade de O2 liberada nos tecidos está em 40% do máximo que pode ser transportada pelo sangue. Em grandes altitudes, a entrega de O2 diminui, entretanto um aumento na concentração de 2,3-BPG diminui a afinidade da hemoglobina pelo O2, facilitando a entrega do O2 da hemoglobina para os tecidos e melhorando a respiração no ambiente com pouco oxigênio. Figura 7: As estruturas moleculares da mioglobina, lisozima e hemoglobina (representação em fita). A mioglobina (A) e a lisozima (B) são proteínas terciárias por serem somente formadas por uma única proteína enovelada. Já a hemoglobina (C) é uma proteína quaternária por ser formada por mais de uma proteína terciária (neste caso, formada por quatro proteínas terciárias). A estrutura heme da mioglobina e as cadeias laterais dos aminoácidos no local de ligação da lisozima à parede celular das bactérias Gram+ estão mostradas em vermelho. As regiões α-hélice são representadas por espirais enquanto as regiões folhas-β são representadas por setas. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Várias enfermidades são associadas a problemas relacionados à hemoglobina e são conhecidas como hemoglobinopatias: na anemia falciforme, uma mutação nos genes para as cadeias β da hemoglobina (localizados no cromossomo 11) faz com que estas cadeias apresentem uma modificação de ácido glutâmico (aminoácido com cadeia lateral polar) para valina (aminoácido com cadeia lateral apolar) no 6º aminoácido das duas cadeias β da hemoglobina. Em condições de baixa tensão de oxigênio as moléculas de hemoglobina agregam-se levando à formação de polímeros fibrosos de hemoglobina com precipitação destas moléculas e conseqüente deformação das hemácias para uma forma de foice, provocando isquemia local, hemólise acentuada, coágulos, acidentes vasculares cerebrais dentre Bioquímica Básica 44 outros problemas, levando em alguns casos a morte. Já as talassemias são doenças relacionadas à hemoglobina por serem caracterizadas pela redução ou ausência da síntese das cadeias α ou β da hemoglobina, levando a quadros de anemia desde leve até profunda, hepatomegalia, esplenomegalia e outros problemas também potencialmente fatais. Desnaturação de proteínas As proteínas podem sofrer desnaturação. A desnaturação é a perda da estrutura da proteína (através do rompimento de suas interações químicas, com exceção das ligações peptídicas) com consequente perda parcial ou total da sua função biológica. O aquecimento do ovo revela um modelo de desnaturação. A ovalbumina da clara do ovo é um exemplo de proteína que, ao sofrer desnaturação, não renatura mais. A clara do ovo antes de ser submetida à alta temperatura é líquida e incolor, mas, ao ser aquecida, se torna branca e sólida, evidenciando a desnaturação da proteína. No entanto, ao resfriarmos o ovo, a clara não volta mais a ser líquida e transparente. A febre alta pode causar uma leve desnaturação de algumas proteínas do corpo. Vários agentes químicos e físicos podem causar desnaturação em uma proteína. Dentre eles, podemos citar: a) alteração no pH: rompe interações eletrostáticas e pontes de hidrogênio na proteína; b) alta temperatura: rompe interações eletrostáticas, interações hidrofóbicas e pontes de hidrogênio na proteína; c) detergentes: rompem interações hidrofóbicas na proteína; d) solventes orgânicos: rompem interações hidrofóbicas na proteína; e) redutores: rompem pontes dissulfeto na proteína; f) metais pesados: rompem interações eletrostáticas na proteína; Bioquímica Básica 45 g) radiações: dependendo da radiação (U.V, X, gama) pode romper qualquer interação química na proteína. A modelagem do cabelo em um salão de beleza é um processo que envolve desnaturação. O cabelo é submetido a um agente redutor (geralmente tioglicolato, guanidina, formol etc) e também à alta temperatura (com auxílio de touca térmica). Deste modo, rompem-se todas as interações (interações eletrostáticas, interações hidrofóbicas, pontes dissulfeto e pontes de hidrogênio) da queratina. Após certo tempo, remove-se o agente redutor, aplica-se um agente oxidante e resfria-se o cabelo, restaurando a conformação em α-hélice da queratina, mas com pontes dissulfeto em locais diferentes do usual na queratina, por isso consegue-se moldar o fio do jeito que se deseja. Algumas proteínas podem, ao ser removido o agente redutor, sofrer renaturação, recuperando a sua forma nativa e consequentemente a sua função biológica. A ribonuclease, uma proteína terciária secretada pelo pâncreas e liberada no intestino delgado para a quebra de RNAs oriundos da dieta é um exemplo de proteína que consegue se renaturar. Enzimas As enzimas são moléculas capazes de acelerar reações químicas, catalisando reações tanto dentro quanto fora das células (por exemplo, em lúmen de órgãos). Com exceção de alguns RNAs com atividade catalítica, todas as enzimas são proteínas. As enzimas podem acelerar uma reação química no mínimo 10 6 vezes em relação à mesma reação não catalisada, algumas enzimas aceleram a reação na ordem de 10 17 vezes. Alguns aspectos importantes sobre as enzimas incluem: 1. Alto grau de especificidade; 2. Catálise de reações de síntese e degradação de moléculas; 3. Conservação e transformação de energia química; Bioquímica Básica 46 4. Algumas doenças são o resultado da ausência de uma ou mais enzimas e outras pelo excesso da atividade de uma determinada enzima; 5. Muitos medicamentos e toxinas exercem seu efeito biológico através da interação com enzimas; 6. Algumas enzimas são utilizadas no diagnóstico de doenças através da medidada sua atividade; 7. São ferramentas importantes na indústria química, no processamento de alimentos e na agricultura; 8. Possuem mecanismo de renovação, desempenhando a mesma função consecutivamente, sem serem consumidas no processo. Cada organismo vivo produz centenas de enzimas em pequenas quantidades. Os microorganismos podem produzir enzimas em quantidades muito altas e as excretar no ambiente como mecanismo de digestão extracelular. As enzimas são classificadas de acordo com as reações que catalisam em seis classes (tabela 2). Uma classe bastante conhecida é a das hidrolases. Estas enzimas utilizam a água para a quebra de ligações químicas. No tubo digestivo, praticamente todas as enzimas são hidrolases, quebrando, com o auxílio da água, proteínas, triglicerídeos, fosfolipídios, oligossacarídeos, polissacarídeos e outras moléculas. Nos lisossomos das células, há cerca de 50 tipos diferentes de hidrolases, por isso esta organela tem a função primordial de digestão intracelular. Tabela 2: Classes de enzimas Classes Subclasses Óxido-redutases desidrogenases, oxidases, peroxidases, catalase, oxigenases, hidroxilases Transferases transaldolases e transcetolases, acil, metil, glicosil e fosforiltransferases, quinases, fosfomutases Hidrolases esterases, glicosidases, peptidases, fosfatases tiolases, fosfolipases, amidases, desamidases ribonucleases Liases descarboxilases, aldolases, hidratases, desidratases sintases, liases Isomerases racemases, epimerases, isomerases, mutases Ligases sintetases, carboxilases Bioquímica Básica 47 As óxido-redutases catalisam reações de oxidação e redução entre moléculas; as transferases transferem grupos funcionais entre doadores e aceptores, sendo os grupos amino, acil, fosfato, carbono e glicosil, os principais resíduos transferidos; as hidrolases usam a água para a clivagem hidrolítica de ligações C-O, C-N, O-P e C-S; as liases adicionam ou removem os elementos da água, de amônia ou de dióxido de carbono para a formação ou rompimento de ligações duplas; as isomerases catalisam isomerizações de vários tipos, entre elas as interconversões cis-trans e aldose-cetose e as ligases estão envolvidas em reações de síntese, nas quais duas moléculas são unidas, às custas do ATP. Como as enzimas funcionam? As enzimas atuam em moléculas específicas chamadas substratos. Devido à alta especificidade das enzimas, a maioria reage com apenas um substrato, no entanto algumas enzimas podem ter mais de um substrato. Durante a reação, os substratos se convertem em produtos. A ligação do substrato na enzima ocorre em uma região da enzima chamada sítio ativo (ou centro ativo), contendo várias cadeias laterais de aminoácidos capazes de ligação ao substrato por interações eletrostáticas, interações hidrofóbicas ou pontes de hidrogênio (figura 8). A reação enzimática é esquematizada como se segue: onde E = enzima, S = substrato e P = produto. A enzima não se altera durante o curso da reação, somente o substrato, este que se torna produto. Bioquímica Básica 48 Figura 8: Interação enzima-substrato. Na figura acima, o substrato se liga na enzima em um local chamado sítio ativo, formando o complexo ES. Em seguida ocorre a catálise, formando um produto da reação que é liberado do sítio ativo da enzima. Fonte: www.biologiaufsj.blogspot.com, acesso em 20/10/2014. Existem dois modelos de interação enzima substrato: o modelo chave- fechadura e o modelo do ajuste induzido. No primeiro modelo, o substrato se encaixa perfeitamente no sítio ativo da enzima; no segundo modelo o substrato induz uma pequena alteração conformacional na enzima, promovendo o reposicionamento dos aminoácidos do sítio ativo para que o substrato se encaixe na enzima (figura 9). http://www.biologiaufsj.blogspot.com/ Bioquímica Básica 49 Figura 9: Modelos de interação enzima-substrato. Fonte: www.docentes.esalq.usp.br, acesso em 19/10/2014. Algumas enzimas são designadas pela incorporação do sufixo “ase” ao nome do substrato no qual elas atuam. Por exemplo, a enzima maltase atua quebrando a maltose, a amilase quebra o amido, a β-galactosidase (lactase) quebra a lactose etc. Em outros casos a designação é devido à reação que catalisa, por exemplo, glicose 6-fosfatase remove o fosfato do carbono 6 da glicose. Para uma enzima atuar são necessários alguns requerimentos: pH ideal, temperatura ideal, substrato disponível e em alguns casos a presença de um cofator, uma coenzima ou ambos. O pH e a temperatura ideais são necessários devido ao fato de alterações nestes parâmetros levarem a quebra de interações da proteína (desnaturação) e consequente perda da atividade enzimática. Enzimas humanas têm sua atividade ótima em temperaturas entre 36,5 e 37,5. Com relação ao pH, algumas enzimas como a pepsina tem atividade ótima em pH próximo de 2,0 enquanto tripsina (uma proteína do suco entérico) tem atividade ótima em pH próximo de 8,0. Deste modo, a influência da temperatura e do pH na atividade das enzimas pode ser vista em gráficos onde a atividade ótima de uma enzima ocorre em temperatura e pH ideais (figura 10). http://www.docentes.esalq.usp.br/ Bioquímica Básica 50 Figura 10: Influência da temperatura e do pH na atividade das enzimas. As enzimas são testadas em diferentes temperaturas e pHs, fornecendo gráficos onde as curvas mostram atividade ótima das enzimas em temperatura e pH específicos. Fora do ponto ótimo as enzimas vão perdendo a atividade por estarem sofrendo desnaturação. Fonte: www.dc347.4shared.com, acesso em 20/10/2014. Os cofatores são íons importantes para o funcionamento de algumas enzimas (tabela 3). Estes íons alteram o sítio ativo da enzima ou finalizam o encaixe correto do substrato na enzima. Tabela 3: Algumas enzimas e seus cofatores Enzimas Cofatores (elementos inorgânicos) citocromo oxidase Cu +2 catalase, peroxidase Fe +2 ou Fe +3 piruvato quinase K + hexoquinase Mg +2 arginase Mn +2 urease Ni +2 Álcool desidrogenase Zn +2 As coenzimas são moléculas derivadas de vitaminas (daí a importância de muitas vitaminas na nossa dieta). As coenzimas, seus precursores e as reações nas quais estão envolvidas se encontram na tabela abaixo: http://www.dc347.4shared.com/ Bioquímica Básica 51 Tabela 4: Algumas enzimas e suas coenzimas Enzimas Coenzimas Precursores dietéticos Grupos químicos transferidos Piruvato Desidrogenase Tiamina Pirofosfato (TTP) Tiamina (vitamina B1) Aldeídos Isocitrato Desidrogenase Nicotinamida Adenina Dinucleotideo (NAD) Niacina (vitamina PP) Íon hidreto (:H-) Acetil CoA Carboxilase Coenzima A Ácido Pantotênico (vitamina B5) Acilas Piruvato Carboxilase Biocitina Biotina (vitamina H) CO2 Succinato Desidrogenase Flavina Adenina Dinucleotideo (FAD) Riboflavina (vitamina B2) Elétrons e prótons Glicogênio Fosforilase Piridoxal Fosfato Piridoxina (vitamina B6) Grupos amino Timidilato Sintase Tetrahidrofolato Ácido fólico (vitamina B9) Grupos de 1 C De acordo com a termodinâmica, as enzimas aceleram as reações químicas convertendo substrato em produto através da diminuição da energia de ativação das reações químicas. Esta está relacionada com quanta barreira existe para o substrato se converter em produto. Mudança na energia de ativação (ou energia livre de ativação, representada por ΔG ‡ ) acontece quando a enzima interage com substrato, estabilizando o substrato em uma forma que permitirá a formação de produto. Este é chamado estado de transição. Quanto mais estável é o estado de transição, menos energia será necessária para a conversão de substrato em produto e mais rápida será a reação. A velocidade de uma reação é então inversamente proporcional ao valor de sua energia livre de ativação: quantomaior o valor de ΔG ‡ , menor será a velocidade da reação (figura 11). Bioquímica Básica 52 Figura 11: Diagrama de uma reação catalítica, mostrando o nível de energia em cada etapa da reação. Normalmente, o substrato necessita de uma quantidade elevada de energia para conseguir chegar ao estado de transição, decaindo depois até a um produto final. A enzima estabiliza o estado de transição, diminuindo a energia de ativação, assim reduzindo o valor de energia necessário para que se formem os produtos. ΔG'º: energia livre padrão na bioquímica; ΔG‡: energia de ativação Fonte: www.lookfordiagnosis.com, acesso em 20/10/2014. A cinética enzimática (estudo da atividade de uma reação enzimática) mostra indiretamente a especificidade das enzimas, o mecanismo de ação, os fatores que podem afetar a velocidade das reações, a concentração de substrato ideal para a dosagem de uma enzima etc. A relação entre a velocidade de uma reação enzimática (conversão de substrato em produto por tempo) e a concentração do seu substrato foi definida por Leonor Michaelis e Maud Menten. Em experimentos cinéticos, se mede a velocidade inicial (Vo) da reação em função do aumento do substrato. Em concentrações baixas de substrato, a Vo aumenta com o aumento do substrato até que a reação tenha uma quantidade de substrato na qual a enzima não consegue ser mais veloz na formação de produto, atingindo assim a velocidade máxima (Vmax) da reação (figura 12). Bioquímica Básica 53 Enzimas com mais de um substrato apresentam diferentes velocidades e afinidades, refletindo em mudanças na cinética (figura 12). Cada enzima tem uma Vmax e um Km específicos, levando-se em consideração as condições de temperatura e pH ideais. Figura 12: Cinética enzimática. Em A, o efeito da concentração do substrato na velocidade inicial catalisada por uma enzima é mostrada em uma curva onde à medida que se aumenta o substrato, a velocidade da reação aumenta até que em um dado momento todas as enzimas estarão ocupadas com substrato (saturadas), atingindo assim a Vmax. O Km é a concentração de substrato necessária para a enzima trabalhar na metade da Vmax e reflete a afinidade da enzima pelo seu substrato. Um baixo Km significa uma alta afinidade da enzima pelo substrato e vice-versa. Em B, cinética da enzima hexoquinase com dois substratos: glicose e frutose. O Km para glicose é de 0,15 mM e para frutose é de 1,5mM (ambos não mostrados). Isso significa que é necessária uma concentração de 0,15mM de glicose para que metade da enzima disponível encontre-se ligada a glicose, formando o complexo ES, no entanto é necessária uma concentração de frutose 10 vezes maior, ou seja, 1,5mM. A hexoquinase tem, portanto, afinidade muito maior pela glicose do que pela frutose. Fontes: www.dc349.4shared.com e www.ebah.com.br, acessos em 20/10/2014. As enzimas intracelulares e extracelulares costumam trabalhar com concentrações baixas de substrato, ou seja, nunca estão saturadas de substrato. O Kcat (constante catalítica) avalia a eficiência catalítica de uma enzima, representando o número de moléculas de substrato convertidas em produto por segundo, por http://www.dc349.4shared.com/ http://www.ebah.com.br/ Bioquímica Básica 54 enzima. A constante catalítica de uma enzima pode ser desde muito baixa (Kcat S -1 = 299 para a enzima citidina desaminase) até muito alta (Kcat S -1 = 1.000.000 para a enzima anidrase carbônica). A relação Kcat/Km (constante de especificidade) relaciona a eficiência catalítica da enzima com a sua afinidade pelo substrato. Se Kcat S -1 for alto e o Km for baixo, o resultado será uma alta eficiência catalítica da enzima pelo seu substrato. Por exemplo, a enzima anidrase carbônica, tem valor de Kcat/Km alto (8,3 x 10 7 ), portanto alta eficiência, enquanto a urease tem valor de Kcat/Km baixo (4,5 x 10 5 ), portanto baixa eficiência. As enzimas podem ser inibidas. Inibidores são substâncias que reduzem ou inibem completamente a atividade de uma enzima. Alguns medicamentos como analgésicos, antimicrobianos, antivirais, redutores de colesterol, assim como algumas moléculas encontradas em venenos de serpentes, cobras, escorpiões e plantas são conhecidamente inibidoras de enzimas. Leitura complementar DEVLIN, T. Manual de bioquímica com correlações clínicas. Edgard Blucher, 2007. HARPER, H. A. Bioquímica. Atheneu, 2002. LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. Worth publishers, 2006. STRYER, L. Bioquímica. Guanabara Koogan, 2004. VOET, D., VOET, J.G., PRATT, C.W. Fundamentos de Bioquímica. Artmed, 2002. É HORA DE SE AVALIAR Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de ensino-aprendizagem. Bioquímica Básica 55 Exercícios – Unidade 2 1. A figura a seguir representa a unidade formadora de uma importante biomolécula. Sobre o grupo de moléculas representado por essa figura, é CORRETO afirmar que a) o grupo é base do código genético. b) o grupo não pode ser sintetizado por todos os organismos humanos. c) apenas sem ele há atividade celular. d) esse grupo forma o DNA. e) o grupo é a unidade básica das proteínas. 2. Recentemente, houve grande interesse por parte dos obesos quanto ao início da comercialização do medicamento Xenical no Brasil. Esse medicamento impede a metabolização de um terço da gordura consumida pela pessoa. Assim, pode-se concluir que o Xenical inibe a ação da enzima: a) Maltase b) Protease Bioquímica Básica 56 c) Lipase d) Amilase e) Sacaridase 3. As enzimas são proteínas com capacidade de acelerar reações químicas nas células e foram necessárias na atividade metabólica e na formação das primeiras células. Dentre as opções abaixo a única que NÃO é um requerimento para a atividade de uma enzima é: a) Substrato b) PH ideal c) Temperatura ideal d) Ambiente aquoso e) Solvente orgânico 4. Modificar a queratina e assim alterar a forma do cabelo é bioquímica pura!!! Na queratina existe um número grande de aminoácidos cisteína. Estes quando próximos uns dos outros interagem através do elemento enxofre de suas cadeias laterais. Para modificar a forma do cabelo, é necessário o rompimento destas interações para depois refazê-las de modo diferente ao anterior. Este tipo de interação entre os aminoácidos cisteína é chamada: Bioquímica Básica 57 a) Ligação peptídica b) Ponte de hidrogênio c) Ponte dissulfeto d) Interação eletrostática e) Interação hidrofóbica 5. As proteínas são formadas pela união de moléculas de aminoácidos e desempenham diversos papéis no organismo, como função estrutural, enzimática, imunológica, dentre outras. De acordo com os seus conhecimentos sobre as proteínas, marque a alternativa errada. a) As proteínas podem diferir uma das outras nos seguintes aspectos: quantidade de aminoácidos na cadeia polipeptídica; tipos de aminoácidos presentes na cadeia polipeptídica e sequência de aminoácidos na cadeia polipeptídica b) Os aminoácidos essenciais são aqueles que um organismo não consegue produzir c) A ligação entre dois aminoácidos vizinhos em uma molécula de proteína é chamada de ligação peptídica e se estabelece sempre entre um grupo amina de um aminoácido e o grupo carboxila do outro aminoácido d) Todas as enzimas são proteínas, sendo que muitas são proteínas simples e outras conjugadas. Bioquímica Básica 58 e) No final da reação, a molécula do produto se separa da enzima, que é descartada pelo organismo. 6. Consideram-se aminoácidos essenciais para um determinado organismo, aqueles: a) De que ele necessita e sintetiza a partir de vitaminas b) De que ele necessita, mas não consegue sintetizar, tendo que recebê-los em sua dieta c) Deque ele necessita apenas na infância d) Resultantes da degradação de suas próprias proteínas e) Desnecessários para a produção das proteínas 7. As proteínas, formadas pela união de aminoácidos, são componentes químicos fundamentais na fisiologia e na estrutura celular dos organismos. Em relação às proteínas, assinale a proposição correta. a) O colágeno é a proteína menos abundante no corpo humano apresentando forma enovelada (globular) como a maioria das proteínas b) A ligação peptídica entre dois aminoácidos acontece pela reação do grupo carboxila de um aminoácido com o grupo amino de outro aminoácido c) A ptialina (amilase salivar), enzima produzida pelas glândulas salivares, atua na digestão de proteínas. d) A insulina, envolvida no metabolismo da glicose, é um exemplo de hormônio lipídico. e) As proteínas caseína e ovalbumina são encontradas na carne e na clara do ovo, respectivamente. Bioquímica Básica 59 8. Considere as afirmações abaixo relativas a enzimas: I. São proteínas com função catalisadora; II. Todas as enzimas atuam quimicamente em diferentes substratos; III. Continuam quimicamente intactas após a reação; IV. Não se alteram com as modificações da temperatura e do pH do meio. São verdadeiras: a) I e III apenas b) II e IV apenas c) I, III e IV apenas d) II, III e IV apenas e) I, II, III e IV 9..Enzimas são essenciais para o correto funcionamento do organismo humano. De que maneira as vitaminas podem auxiliar o funcionamento enzimático? Explique. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 10. Considerando as características bioquímicas das proteínas, de que maneira a febre pode afetar o equilíbrio do organismo humano? Explique. ____________________________________________________________________ Bioquímica Básica 60 ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Bioquímica Básica 61 Carboidratos e metabolismo 3 Carboidratos e metabolismo 3 Bioquímica Básica 62 Nesta unidade, vamos entender a cerca das características gerais dos carboidratos, suas estruturas e funções, as vias metabólicas para a obtenção de energia, a partir destas moléculas, e a síntese e armazenamento dos carboidratos no organismo. Objetivos da Unidade Conhecer as características gerais dos carboidratos Classificar os carboidratos Descrever a digestão, a absorção e o transporte dos carboidratos para as células Estudar as vias de produção de energia utilizando carboidratos Descrever a síntese e a degradação do glicogênio Compreender a gliconeogênese Plano da Unidade Carboidratos Digestão e absorção de carboidratos Obtenção de energia com carboidratos Glicogênese Glicogenólise Gliconeogênese Via das pentoses-fosfato Bons Estudos! Bioquímica Básica 63 Carboidratos Os carboidratos (também conhecidos como oses, osídeos, glicídios ou simplesmente açúcares) são moléculas com inúmeras funções celulares. Além de serem utilizados como fonte de energia, podem atuar como estruturas de reconhecimento celular, como lubrificantes de junções esqueléticas, como polímeros insolúveis na superfície de alguns organismos, etc. Os carboidratos podem estar associados a outras moléculas formando os chamados glicoconjugados (glicoproteínas e glicolipídios). Os carboidratos são classificados, de acordo com o seu tamanho, em monossacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos. Os monossacarídeos são os açúcares mais simples, contendo de 3 a 7 carbonos. Os monossacarídeos de 3 carbonos são chamados de trioses, os de 4 carbonos, tetroses, os de 5 carbonos, pentoses etc. Além de carbono, todos contêm oxigênio e hidrogênio, onde suas estruturas moleculares apresentam várias hidroxilas e um grupamento químico aldeído ou cetona, ou seja, são conhecidos como polihidroxialdeídos ou aldoses (ex: glicose) e polihidroxicetonas ou cetoses (ex: frutose) com a fórmula geral (CH2O)n. Enquanto o aldeído está sempre no carbono 1, a cetona está sempre no carbono 2. No entanto alguns monossacarídeos apresentam outros elementos químicos como nitrogênio, formando aminas (ex: N- acetilglicosamina) e fósforo, formando fosfatos (ex: glicose 6-fosfato). Sendo assim, os monossacarídeos são distinguíveis pelo seu tamanho, por ter aldeído ou cetona, pela posição das suas hidroxilas e pela presença de outros grupamentos químicos diferentes da hidroxila, aldeído e cetona (figura 1). Bioquímica Básica 64 Figura 1: Alguns monossacarídeos de ocorrência natural. Os monossacarídeos são aldoses (A) ou cetoses (B) contendo de 3 à 7 carbonos (os monossacarídeos de 7 carbonos não estão representados na figura). Em C, alguns monossacarídeos contendo outros grupamentos químicos diferentes da hidroxila, aldeído e cetona. Note que os monossacarídeos em A e B estão na forma linear, enquanto os em C estão na forma cíclica (esta diferença será explicada ao longo da unidade). Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Bioquímica Básica 65 Todos os monossacarídeos, exceto a dihidroxiacetona, contêm um ou mais carbonos assimétricos, apresentando assim formas isoméricas opticamente ativas. Quando a hidroxila do penúltimo carbono da molécula está no lado direito da molécula, o açúcar é o D-isômero, mas quando a hidroxila do penúltimo carbono da molécula está no lado esquerdo, o açúcar é o L-isômero. Quase 100% dos carboidratos na natureza estão na forma D (figura 1). Dois açúcares que diferem na posição da hidroxila em um único carbono são chamados de epímeros, como na comparação entre glicose e galactose ou entre glicose e manose. Manose e galactose não são epímeros por apresentarem diferenças na posição das hidroxilas em 2 carbonos (figura 1). Na natureza, os monossacarídeos de 3 e 4 carbonos são estruturas lineares, mas os de 5, 6 e 7 carbonos se apresentam como estruturas cíclicas (em forma de anéis). (figura 2). Anéis hexagonais são chamados de piranos (ex: glicose cíclica) e pentagonais são chamados de furanos (ex: frutose cíclica) (figura 3). Bioquímica Básica 66 Figura 2: Estrutura cíclica da glicose. A reação entre o aldeído do carbono 1 e a hidroxila do carbono 5 gera dois isômeros, o α (hidroxila representada “para baixo”) e o β (hidroxila representada “para cima”). Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Bioquímica Básica 67 Figura 3: Formas piranosídicas da glicose e furanosídicas da frutose. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Dentre as funções dos monossacarídeos destaca-se a nutricional (muitos estão na dieta, como a glicose, frutose, sorbose, manose etc), a estrutural (a desoxirribose e a ribose são pentoses presentes na constituição do DNA e do RNA respectivamente), a energética (a maioria dos monossacarídeos da dieta são utilizados na produção de energia) e a redutora. Os monossacarídeos nas formas fechadas podem se unir formando açúcares maiores (oligossacarídeos e polissacarídeos). A ligação entre dois monossacarídeos se chama ligação glicosídica. Esta ligação covalente é uma reação química que ocorre entre a hidroxila do carbono 1 de um monossacarídeo e a hidroxila de qualquer carbono do outro monossacarídeo, coma saída de uma molécula de água, sendo as ligações glicosídicas mais comuns entre C1-C4 e C1-C6 (figura 4). Bioquímica Básica 68 Figura 4: A ligação glicosídica. Esta ligação é uma reação química que ocorre entre a hidroxila do carbono 1 de um monossacarídeo e a hidroxila de qualquer carbono do outro monossacarídeo, com a saída de uma molécula de água. Na formação da sacarose (um oligossacarídeo) a ligação glicosídica envolve o carbono 1 da glicose e o carbono 2 da frutose. Alguns hidrogênios da glicose e da frutose não estão representados na figura para evidenciar a reação entre hidroxilas dos monossacarídeos. Fonte: www.brasilescola.com, acesso em 26/10/2014. Os oligossacarídeos são açúcares formados pela união de dois até vinte monossacarídeos. Os oligossacarídeos mais conhecidos são os dissacarídeos (formados pela união de dois monossacarídeos). Dentre estes podemos citar a sacarose (açúcar da cana, formado por glicose + frutose unidos por ligação glicosídica C1-C2), a maltose (açúcar do malte, presente nas cervejas, formado por glicose + glicose unidos por ligação glicosídica C1-C4), a trealose (presente nos cogumelos, formado por glicose + glicose unidos por ligação glicosídica C1-C1), a isomaltose (açúcar também encontrado no malte, formado por glicose + glicose unidos por ligação glicosídica C1-C6), e a lactose (açúcar do leite, formado por galactose + glicose unidos por ligação glicosídica C1-C4) (figura 5). Ambos fazem parte da dieta da maioria dos humanos e precisam ter suas ligações glicosídicas quebradas por enzimas hidrolases do intestino delgado para que seus monossacarídeos sejam absorvidos. Porém, nem todos os oligossacarídeos da dieta são totalmente quebrados. A rafinose, trissacarídeo formado por galactose, glicose e frutose unidas por ligações glicosídicas C1-C6 e C1-C2, está na dieta (encontrado http://www.brasilescola.com/ Bioquímica Básica 69 no feijão, repolho, brócolis, grãos integrais e outros alimentos), mas os humanos conseguem somente quebrá-la em frutose e melibiose (galactose + glicose), não hidrolisando totalmente a rafinose (figura 5). Deste modo a frutose é absorvida, mas a melibiose não. No intestino grosso, a rafinose e a melibiose podem ser degradadas enzimaticamente por bactérias, produzindo CO2, metano e/ou hidrogênio, provocando flatulência associada à ingestão de feijão e outros legumes. http://pt.wikipedia.org/wiki/Intestino_grosso http://pt.wikipedia.org/wiki/Hidrog%C3%AAnio Bioquímica Básica 70 Figura 5: Alguns oligossacarídeos de ocorrência natural. Em A, os dissacarídeos maltose (glicose + glicose), lactose (galactose + glicose) e sacarose (glicose + frutose). Em B, o trissacarídeo rafinose (galactose + glicose + frutose), onde B1 mostra a rafinose inteira e após digestão com a enzima invertase (a mesma que hidrolisa sacarose em glicose e frutose), os produtos de digestão melibiose (B2) e frutose (B3). Fontes: Lehninger, Princípios de Bioquímica e www.braukaiser.com, acesso em 26/10/2014. http://www.braukaiser.com/ Bioquímica Básica 71 Outros oligossacarídeos maiores, encontrados na membrana das células, estão associados a proteínas (glicoproteínas) e a lipídios (glicolipídios) e formam o glicocálix (figura 6), importante região de membrana responsável pelo reconhecimento celular: a GP120 é uma glicoproteína do HIV, capaz de reconhecer e se ligar simultaneamente à glicoproteína receptora de membrana CD4 e à proteína CCR5 de linfócitos T auxiliares, para iniciar o processo de infecção e multiplicação viral. Glicolipídios na superfície das hemácias são importantes determinantes dos grupos sanguíneos humanos, podendo, em transfusões equivocadas, serem reconhecidos por anticorpos plasmáticos e provocar aglutinação (agrupamento de hemácias, o que pode entupir vasos sanguíneos e comprometer a circulação do sangue no organismo, levando à morte do indivíduo). O receptor de manose é uma glicoproteína, presente na superfície dos macrófagos e outras células ,que reconhece os monossacarídeos manose, fucose e N-acetilglicosamina de glicoproteínas na superfície de bactérias, protozoários e fungos para a fagocitose destes microorganismos. As funções dos oligossacarídeos são as mesmas dos monossacarídeos: estrutural, nutricional, energética etc. Os oligossacarídeos podem ser ou não redutores: se algum carbono anomérico do oligossacarídeo estiver livre para ser oxidado, o oligossacarídeo será redutor (ex: maltose e lactose), mas se todos os carbonos anoméricos do oligossacarídeo estiverem sendo usados nas ligações glicosídicas, o açúcar é considerado não redutor (ex: sacarose e trealose). Os polissacarídeos são açúcares contendo desde várias dezenas até milhares de monossacarídeos. Os polissacarídeos podem ser homopolissacarídeos (contendo sempre o mesmo tipo de monossacarídeo), incluindo o amido, o glicogênio, a celulose e a quitina ou heteropolissacarídeos (contendo dois ou mais tipos de monossacarídeos ao longo da molécula), incluindo o peptidoglicano e os glicosaminoglicanos. As principais funções dos polissacarídeos são a reserva de energia e a estrutural. O amido é um polissacarídeo de reserva energética encontrado principalmente nos tubérculos (ex: batatas) e sementes (ex: grão de milho) dos vegetais, formado por milhares de moléculas de glicose. Pode se apresentar em duas formas: a amilose, contendo somente ligações glicosídicas C1-C4 entre as moléculas de glicose (chamada de forma linear do amido) e a amilopectina, contendo ligações Bioquímica Básica 72 glicosídicas C1-C4, porém também ligações C1-C6 (ponto de ramificação) a cada 24 – 30 moléculas de glicose (chamada de forma ramificada do amido) (figura 6). O glicogênio, assim como o amido, é um polissacarídeo de reserva energética muito grande encontrado em seres animais e fungos. As fontes de glicogênio na dieta são peixes e carnes vermelhas e brancas. Todas as células humanas são capazes de produzir glicogênio, mas os hepatócitos (células do fígado) e os miócitos (células musculares) são os maiores produtores de glicogênio. O glicogênio é semelhante à amilopectina por ter várias moléculas de glicose unidas por ligações glicosídicas C1- C6 (um ponto de ramificação a cada 8 – 12 moléculas de glicose) (figura 6). Ambos amido e glicogênio são solúveis porque apresentam várias hidroxilas expostas para fazer pontes de hidrogênio com a água. A celulose, outra molécula de origem vegetal formada por moléculas de glicose, não tem função energética, mas sim estrutural, estando presente na parede celular das células vegetais (figura 6). A celulose tem importante aplicação industrial, sendo usada na fabricação de papel, papelão, celofane etc. Pelo fato dos seres humanos não terem a enzima celulase, capaz de hidrolisar a celulose, não podemos aproveitar as glicoses da celulose, sendo assim, a celulose funciona como uma fibra na dieta, saindo inteira nas fezes. Já para a digestão do amido e do glicogênio da dieta, os humanos têm enzimas amilases na boca e no intestino delgado. Na celulose, as moléculas de glicose (10.000 a 15.000) são unidas por ligações glicosídicas C1-C4, e a molécula é insolúvel em água. A quitina, um polissacarídeo estrutural encontrado na superfície dos artrópodes e dos fungos, é formada por milhares de moléculas de N-acetilglicosamina unidos por ligações β1-4 (figura 6), sendo também um polissacarídeo insolúvel em água. É o segundo polissacarídeo mais abundante do planeta depois da celulose. Pessoas que se alimentam de crustáceos como siri, caranguejo, camarão e lagosta ou de alguns cogumelos têm a quitina na dieta, mas como não temos enzimas capazes de digeri- la, a quitina também se comporta como fibra. A partir da desacetilação dos monossacarídeos N-acetilglicosamina que formam a quitina se produz a quitosana, uma moléculamuito consumida por pessoas que desejam emagrecer e reduzir o colesterol sanguíneo, pois a quitosana diminui expressivamente a absorção de triglicerídeos e colesterol da dieta. Bioquímica Básica 73 O peptidoglicano é uma molécula insolúvel encontrada na parede celular de bactérias Gram + e no espaço periplásmico (entre a parede celular e a membrana celular) de bactérias Gram - . Sua estrutura molecular contém peptídeos formados por glicina, alanina, glutamato e lisina, ligados covalentemente à dissacarídeos repetidos de ácido N-acetilmurâmico e N-acetilglicosamina unidos por ligações β1-4 (figura 6). A lisozima, encontrada na lágrima e na saliva mata bactérias por atuar hidrolisando as ligações glicosídicas entre os monossacarídeos do peptidoglicano. Os glicosaminoglicanos são moléculas componentes da matriz extracelular, formadas por milhares de unidades repetidas de dissacarídeos, sendo um dos monossacarídeos o N-acetilglicosamina ou N-acetilgalactosamina e o outro o ácido D-glucurônico ou ácido L-idurônico. O ácido hialurônico, um glicosaminoglicano, funciona como lubrificante nas articulações e confere resistência e elasticidade da cartilagem e dos tendões. Os glicosaminoglicanos estão ligados covalentemente ou não-covalentemente a proteínas de membrana ou proteínas extracelulares para formar os proteoglicanos, muito abundantes nos tecidos conectivos, como o tecido conjuntivo propriamente dito, o tecido cartilaginoso, o tecido ósseo e os vasos sanguíneos. Estes glicoconjugados dão rigidez à matriz, regulam a passagem de moléculas através da matriz extracelular, bloqueiam e estimulam ou guiam a migração e dispersão celular através da matriz, além de contribuir para um ambiente bastante hidratado. Bioquímica Básica 74 Bioquímica Básica 75 Figura 6. Alguns polissacarídeos de ocorrência natural. Em A, pequeno segmento das duas formas do amido, a forma linear amilose, mostrando somente ligações C1-C4 (esquerda) e a forma ramificada amilopectina, mostrando ligações C1-C4 e C1-C6 (direita). Em B, pequeno segmento do glicogênio mostrando ligações C1-C4 e C1-C6. Em C, segmento curto da celulose (esquerda) e da quitina (direita). Em D, pequeno segmento do peptidoglicano, evidenciando os dissacarídeos repetidos de N-acetilglicosamina (também observado na quitina) e N- acetilmurâmico ligados aos aminoácidos glicina, alanina (Ala), glutamato (Glu) e lisina (Lys); Fontes: Lehninger, Princípios de Bioquímica, www.biologia.edu.ar, www.homepage.ufp.pt, www.bifi.es, www.ebah.com.br e www.carboidratos.farmfametro.blogspot.com, acessos em 26/10/2014. http://www.biologia.edu.ar/ http://www.homepage.ufp.pt/ http://www.bifi.es/ http://www.ebah.com.br/ http://www.carboidratos.farmfametro.blogspot.com/ Bioquímica Básica 76 Digestão e absorção de carboidratos Como descrito anteriormente, muitos carboidratos são obtidos na dieta. Destes, a maioria são oligossacarídeos (ex: sacarose, lactose, maltose, trealose e rafinose) e polissacarídeos (ex: amido, glicogênio, celulose e quitina), mas alguns monossacarídeos livres (ex: glicose, frutose e sorbose) também podem ser obtidos. O uso de suplementos alimentares aumentou a lista de açúcares ingeridos (ex: quitosana, um polissacarídeo descrito anteriormente e maltodextrina, um oligossacarídeo contendo, em média, 8 unidades de glicose com algumas ligações C1-C6). Os humanos absorvem somente monossacarídeos, portanto, faz-se necessária a hidrólise dos oligossacarídeos e polissacarídeos. Para isso, o tubo digestivo deve contar com um arsenal de enzimas digestivas para estes açúcares maiores a fim de liberar os monossacarídeos. O ser humano não possui todas as enzimas necessárias para a digestão de todos os açúcares ingeridos, então os que não são digeridos ou são apenas parcialmente digeridos acabam atuando como fibras, incluindo a quitina, a quitosana, a celulose e outros não citados nesta unidade, mas que também fazem parte da dieta, como as hemiceluloses, (polissacarídeos contendo xilose, manose, arabinose, glicose, ácido glucurônico, ácido galacturônico, fucose e galactose em várias combinações) as pectinas (polissacarídeos contendo ácido galacturônico, ramnose, arabinose e galactose em várias combinações) e as gomas (polissacarídeos contendo galactose, arabinose, ramnose, ácido glucurônico e glicoproteínas em várias combinações). A amilase salivar é a única enzima digestiva na boca para os açúcares da dieta; as demais enzimas estão no lúmen do intestino delgado (figura 7). Bioquímica Básica 77 Sacarose Lactose Maltose Trealose Rafinose Figura 7: Carboidratos da dieta. Os açúcares amido, glicogênio, sacarose, lactose, maltose e rafinose ao serem digeridos liberam os monossacarídeos glicose, frutose e galactose que vão do intestino delgado para o sangue e em seguida para todas as células do corpo. Glicose(n) significa um número indeterminado de moléculas de glicose após a digestão do amido e do glicogênio, por estes terem tamanhos variados. Outro monossacarídeo, a manose, obtida da digestão de alguns polissacarídeos e glicoproteínas celulares presentes na dieta também vai do intestino delgado para as células do corpo. Após a digestão, glicose, galactose e manose são transportados do lúmen intestinal para o epitélio intestinal acoplados a Na + pela proteína transportadora de membrana SGLT1 e em seguida ambos são levados para o sangue pela proteína transportadora de membrana GLUT2 presente na membrana das células do epitélio intestinal voltada para o sangue. A frutose é transportada do lúmen para o epitélio por outro transportador, o GLUT5, independente do acoplamento com Na + , mas assim como para os outros monossacarídeos, o GLUT2 também transporta a frutose para o sangue. O Na + é liberado para o sangue trocando com K + através da proteína Maltose Maltotriose Isomaltose Dextrinas Amilase salivar e pancreática Glicose (n) Amido Glicogênio Maltase Isomaltase Dextrinases Glicose + frutose Invertase (sacaridase) Galactose + glicose β-galactosidase (lactase) Maltase Glicose + glicose Invertase Melibiose + Frutose Trealase Glicose + glicose Bioquímica Básica 78 de membrana conhecida como bomba de Na + e K + (figura 8). Do sangue, os monossacarídeos são captados pelas células também por proteínas transportadoras, como a GLUT4 das células musculares esqueléticas e cardíacas e células do tecido adiposo e a GLUT3 dos neurônios. Figura 8: Absorção de monossacarídeos. Os oligossacarídeos e polissacarídeos são hidrolisados e os monossacarídeos são transportados do lúmen para o epitélio intestinal por proteínas transportadoras presentes na membrana das células voltada para o lúmen do órgão e voltada para o sangue. Fonte: www.bloglowcarb.blogspot.com, acesso em 26/10/2014. http://www.bloglowcarb.blogspot.com/ Bioquímica Básica 79 Obtenção de energia com carboidratos Ao entrar nas células, os monossacarídeos podem ser utilizados para obtenção de energia. Para obter energia são necessárias três etapas: a glicólise, o ciclo de Krebs (ou ciclo do ácido cítrico) e a cadeia respiratória. A glicólise, também chamada de via glicolítica ou via de Embden-Meyerhof- Parnas, é a primeira via metabólica na obtenção de energia. Todas as células vivas, desde bactérias até as células humanas, fazem glicólise. Nesta via, que ocorre no citoplasma das células, glicose, frutose, galactose e manose são convertidas em duas moléculas de piruvato através de várias etapas enzimáticas. Durante o processo, parte da energia destes monossacarídeos é conservada na produção líquida de duas moléculas de ATP e de duas moléculas de NADH (também descrita como NADH + H+) (figura 9). Em células oxigenadas,as moléculas de piruvato vão para uma organela da célula chamada mitocôndria, são convertidas em acetilcoenzima A (acetilCoA) e o metabolismo energético prossegue. No entanto, se a célula está com pouco ou nenhum oxigênio ou se a célula não apresenta mitocôndrias ou então apresenta mitocôndrias defeituosas, o metabolismo energético não prossegue e as moléculas de piruvato são convertidas no citoplasma em lactato ou etanol, dependendo da célula na qual está ocorrendo a glicólise. Piruvato pode ainda ser convertido no aminoácido alanina, quando a célula necessita deste para a síntese de proteínas. Bioquímica Básica 80 Figura 9: A via glicolítica. Em A, a via glicolítica resumida, mostrando a glicose sendo convertida em duas moléculas de piruvato com produção líquida de 2 ATP e 2 NADH + 2 H + . Em B, a via glicolítica detalhada evidenciando as estruturas moleculares e as enzimas envolvidas no processo. À partir de gliceraldeído 3-fosfato todas as moléculas estão em dobro, assim como as moléculas de ATP formadas. Várias destas enzimas precisam do cofator Mg ++ para suas atividades catalíticas (não mostrado na figura). Fontes: www.profdorival.com.br e www.professorthiagorenno.blogspot.com, acessos em 26/10/2014. Usando a glicose como exemplo, na primeira etapa da glicólise, a glicose é convertida em glicose 6-fosfato (a glicose recebe um fosfato no carbono 6) através da enzima hexoquinase. Este passo é importante porque ao receber o fosfato, a glicose fica presa na célula, pois não existem transportadores de glicose 6-fosfato nas membranas celulares. A reação de formação da glicose 6-fosfato requer o ATP, assim o ATP vira ADP e o fosfato liberado é o que se liga à glicose. A segunda etapa http://www.profdorival.com.br/ http://www.professorthiagorenno.blogspot.com/ Bioquímica Básica 81 envolve a conversão de glicose 6-fosfato em frutose 6-fosfato, catalisada pela enzima fosfohexose (ou fosfoglicose) isomerase. Na terceira etapa a frutose 6- fosfato é fosforilada à frutose 1,6-bifosfato, através da enzima fosfofrutoquinase 1 (PFK-1). Esta fosforilação é dependente de ATP, assim um novo ATP é consumido e o fosfato liberado é inserido no carbono 1 da frutose 6-fosfato. Até o momento, o saldo energético é – 2 ATP. A quarta etapa envolve a clivagem da frutose 1,6- bifosfato pela enzima aldolase, em duas moléculas de três carbonos, o gliceraldeído 3-fosfato e a dihidroxiacetona fosfato, está última, em uma quinta etapa, convertida imediatamente em gliceraldeído 3-fosfato pela enzima triose fosfato isomerase, pois somente o gliceraldeído 3-fosfato pode ser metabolizado nas etapas subsequentes da glicólise. Na sexta etapa, cada molécula de gliceraldeído 3-fosfato é oxidada à 1,3-bifosfoglicerato à partir da incorporação de um fosfato inorgânico, reação catalisada pela enzima gliceraldeído 3-fosfato desidrogenase (G3PDH). Esta enzima tem o NAD + como coenzima. Esta molécula é uma aceptora de prótons e elétrons, recebendo dois elétrons e um próton (hidreto) resultante da oxidação do gliceraldeído 3-fosfato na reação enzimática, convertendo o NAD + em NADH. Como dois prótons e dois elétrons são liberados na reação, mas o NAD + só pode incorporar um hidreto, a reação é descrita como NADH (NAD + contendo o hidreto) + H + (próton livre que não foi incorporado ao NAD + ) Este NADH + H + necessita posteriormente ser reconvertido em NAD + (será explicado posteriormente nesta unidade) para que a glicólise nunca pare, pois NAD + existe em quantidades baixas na célula e assim precisa estar disponível para que sempre ocorra a via glicolítica. A sétima etapa revela a formação de ATP. A enzima fosfoglicerato quinase catalisa a transferência do fosfato do carbono 1 do 1,3-bifosfoglicerato para o ADP, formando ATP e 3- fosfoglicerato. A oitava etapa envolve a conversão de 3-fosfoglicerato em 2- fosfoglicerato pela enzima fosfoglicerato mutase. A nona etapa, catalisada pela enolase, desidrata o 2-fosfoglicerato, produzindo o fosfoenolpiruvato e finalmente a décima etapa envolve a transferência do fosfato do fosfoenolpiruvato para o ADP, formando ATP e piruvato, reação catalisada pela enzima piruvato quinase. As enzimas hexoquinase, fosfohexose isomerase, fosfofrutoquinase-1, fosfogliceratoquinase, fosfoglicerato mutase e piruvato quinase são dependentes do cofator Mg ++ para as suas atividades catalíticas, sendo que a piruvato quinase também é dependente do cofator K + . Bioquímica Básica 82 Como foi descrito acima, duas moléculas de gliceraldeído 3-fosfato foram anteriormente produzidas a partir de frutose 1,6-bifosfato, então na verdade, foram produzidas 4 moléculas de ATP, 2 moléculas de NADH + 2 H + e 2 moléculas de piruvato. No entanto o saldo energético líquido é de 2 ATP porque foram consumidos (gastos) 2 ATP no início da glicólise (durante as reações de glicose até frutose 1,6-bifosfato). A fórmula geral da glicólise é então: Glicose + 2 ADP + 2 NAD + = 2 piruvato + 2 ATP + 2 NADH + 2 H + + 2 H2O Vamos lembrar: Energia é derivada da oxidação de combustíveis metabólicos utilizados pelo organismo (carboidratos, lipídios e proteínas). O elo essencial entre as vias de produção e de utilização de energia é o ATP (adenosina trifosfato). Esta molécula é uma D-ribose com uma base nitrogenada adenina ligada por uma ligação glicosídica no carbono 1 e três grupos fosforil (fosfatos) no carbono 5 (figura 10). Reações catabólicas liberam energia, esta que é geralmente armazenada na forma de ATP. Os dois grupos fosforil terminais são ligações ricas em energia, assim quando ocorre hidrolise do ATP, forma-se ADP e energia é liberada para trabalho biológico. Por exemplo, no músculo esquelético, a energia química contida nos fosfatos é convertida em energia mecânica durante a contração muscular. O transporte ativo de substâncias através das membranas celulares, inclusive para a propagação do impulso nervoso e para a síntese de macromoléculas são outros exemplos que envolvem a transferência de energia do ATP. Nas reações oxidativas do catabolismo, enzimas desidrogenases transferem equivalentes de redução, isto é, prótons (H + ) e elétrons (e - ) para as coenzimas NAD + (Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo), NADP (Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo Fosfato) ou FAD (Flavina Adenina Dinucleotídeo) para produzir as formas reduzidas NADH, NADPH e FADH2 (figura 11). Enquanto NAD + e NADP se reduzem após incorporar um hidreto, FAD se reduz com 2 prótons e 2 elétrons. Estes equivalentes de redução são transferidos para uma cadeia de transporte de elétrons (cadeia respiratória) nas mitocôndrias das células e estes elétrons são entregues ao O2. Estas reações liberam energia que é usada na síntese de ATP. Outras moléculas similares trifosfatadas Bioquímica Básica 83 (GTP, CTP e UTP) também estão envolvidas em transferência de energia em vias biossintéticas. Figura 10: Estrutura do ATP e do ADP. Em A, a estrutura do ATP com os seus três grupamentos fosfato e do ADP após hidrólise do ATP, com consequente liberação de fosfato inorgânico. Em B, o esquema da interconversão ATP-ADP nas células. Fontes: Lubert Stryer, Bioquímica e www.hyperphysics.phy-astr.gsu.edu, acesso em 28/10/2014. Bioquímica Básica 84 Outros monossacarídeos que podem entrar na via glicolítica: a frutose pode ser convertida em frutose 6-fosfato pela ação da enzima hexoquinase (comum no músculo e tecido adiposo) que segue na via glicolítica, ou então, em frutose 1- fosfato pela ação da enzima frutoquinase (no fígado). A frutose 1-fosfato é clivada pela enzima aldolase em dihidroxiacetona fosfato e gliceraldeído. Pela ação da enzima gliceraldeído quinase, o gliceraldeído é fosforilado (usando o fosfato do ATP) gerando gliceraldeído 3-fosfato, que segue na via glicolítica. Já a dihidroxiacetona-fosfatoé convertida em gliceraldeído 3-fosfato por ação da enzima triose fosfato isomerase que também segue na via glicolítica; a manose é convertida em manose 6-fosfato pela ação da enzima hexoquinase e em seguida, por ação da enzima fosfomanose isomerase, a manose 6-fosfato é convertida em frutose 6-fosfato que segue na via glicolítica; a galactose é inicialmente convertida em galactose 1-fosfato pela ação da enzima galactoquinase. Em seguida, em uma reação catalisada pela enzima galactose 1-fosfato uridiltransferase a galactose 1- fosfato perde o seu fosfato, recebe UTP (uridina trifosfato) no carbono 1 e com a saída de mais um fosfato, é transformada em UDP-galactose. A UDP-galactose é convertida em UDP-glicose por ação da enzima UDP-galactose epimerase e em seguida em glicose 1-fosfato pela ação da enzima UDP-glicose pirofosforilase. A glicose 1-fosfato pode ser enfim convertida em glicose 6-fosfato pela ação da enzima fosfoglicomutase e seguir na via glicolítica (figura 11). Assim como para a glicose, qualquer monossacarídeo usado na via glicolítica levará a um saldo energético líquido de 2 ATP. Bioquímica Básica 85 Figura 11: Aproveitamento da galactose (A), manose (B) e frutose (C) para a via glicolítica. Fonte: Walter Motta, Bioquímica. Bioquímica Básica 86 Em condições anaeróbicas, as células não usam a mitocôndria para continuar o processo de produção de energia. Nestas condições, células animais e algumas bactérias (ex: lactobacilos) fazem a chamada fermentação, convertendo piruvato em lactato, em uma reação catalisada pela enzima lactato desidrogenase, com conversão do NADH + H + (formado na conversão de gliceraldeído 3-fosfato em 1,3- bifosfoglicerato) em NAD + . Músculos muito ativos costumam estar em condições de baixa oxigenação (hipoxia) e assim produzem muito lactato. Nas hemácias, o lactato é o produto final do metabolismo energético pelo fato destas células não terem mitocôndrias, então para cada glicose ou outro monossacarídeo, o saldo energético obtido é sempre 2 ATP. Células cancerígenas também dependem da glicólise como via produtora de energia, por vários motivos incluindo a pouca oxigenação, o número inferior de mitocôndrias e a superprodução de algumas enzimas da via glicolítica. Excesso de lactato é ruim para o corpo porque o lactato produzido no citoplasma das células extra-hepáticas vai para o sangue com destino ao fígado a fim de ser usado na gliconeogênese (esta via será detalhada no final desta unidade), porém levando um H + . Então produção excessiva de lactato significa muito H + no sangue e consequentemente acidose sanguínea. Além disso, o lactato intramuscular é o responsável pela fadiga muscular. Da mesma forma que piruvato se converte em lactato, a mesma enzima, em ambiente oxigenado, pode fazer o processo inverso, no entanto, somente dentro da célula (o lactato que já está no sangue não pode ser convertido em piruvato) (figura 12). Em fungos submetidos a condições de baixa oxigenação, o piruvato é convertido em acetaldeído (pela ação da enzima piruvato descarboxilase) e em seguida em etanol (pela ação da enzima álcool desidrogenase), com liberação de CO2 e conversão do NADH + H + em NAD + (figura 12). Esta estratégia é a base para a produção das bebidas alcoólicas usando açúcares (principalmente da cana de açúcar) e fungos capazes de se manterem vivos na ausência de oxigênio. O fígado dos seres humanos contem a enzima álcool desidrogenase que é capaz de converter o etanol das bebidas alcoólicas em acetaldeído, com produção de NADH + H + à partir de NAD + . Este vai para a mitocôndria e por ação da enzima aldeído desidrogenase e convertido em acetato, com nova produção de NADH + H + (figura 12). Por último a enzima mitocondrial acetilCoA sintetase converte o acetato Bioquímica Básica 87 em acetilCoA para prosseguir na via de produção de energia ou então o acetato sai do fígado e vai para outros órgãos (principalmente músculos) para, na mitocôndria destas células ser convertido em acetilCoA. A via metabolica do etanol no fígado dos humanos não é exatamente o reverso da produção de etanol nos fungos porque os humanos não têm uma enzima capaz de converter o acetaldeído em piruvato. Em resumo, o etanol das bebidas pode ser usado na produção de energia hepática e/ou muscular, mas em contraste com esta característica positiva para o metabolismo energético, vários problemas estão associados à ingestão de etanol: sendo um depressor do sistema nervoso central, o etanol diminui a sua atividade, ou seja, facilita a ação do maior neurotransmissor depressor no cérebro (GABA) e inibe a ação do maior neurotransmissor excitatório do cérebro, o glutamato, então, atuando especificamente sobre estes receptores, o etanol abranda o funcionamento do sistema nervoso; além disso, o acetaldeído formado a partir do etanol é cerca de 30 vezes mais tóxico que o etanol e assim que é produzido, sai do fígado e viaja por todo o corpo causando lesões em diversos órgãos até voltar ao fígado e ser convertido em acetato; somando-se a isso, o excesso de NADH formado a partir do metabolismo do etanol inibe a gliconeogênese no fígado, pois esta via contém enzimas dependentes de NAD + ; excesso de etanol no fígado e consequentemente da produção de acetilCoA leva a síntese de colesterol e de triglicerídeos (esta via será detalhada na próxima unidade), aumentando o índice de triglicerídeos e colesterol no sangue e gerando o chamado fígado gorduroso; além disso pode ocorrer hepatite e cirrose causadas pelo etanol; o consumo excessivo de álcool é a principal causa da pancreatite crônica, por fatores ainda desconhecidos, mas acredita-se que seja por lesões causadas pelo acetaldeído; o etanol também perturba a função renal por inibir o hormônio antidiurético (ADH): este hormônio atua no rim fazendo com que o mesmo diminua a produção de urina, através da retenção de água, daí a vontade excessiva de urinar dos alcoólatras, podendo levar a desidratação; o etanol pode, em parte, contribuir para a supressão da atividade reprodutora dos machos, por atrofia testicular, disfunção dos órgãos reprodutores acessórios, supressão da espermatogênese e infertilidade; pode também ter influência direta no crescimento e desenvolvimento da criança: a criança pode nascer com Síndrome Fetal Alcoólica (FAS). http://pt.wikipedia.org/wiki/Atrofia_testicular Bioquímica Básica 88 Figura 12: Destinos do piruvato em condição anaeróbica. Em A, células animais ou algumas bactérias submetidas à condições de pouca ou nenhuma oxigenação convertem piruvato em lactato. Em B, fungos nas mesmas condições citadas, convertem piruvato em etanol. A TPP (tiamina pirofosfato) e o Mg ++ são respectivamente coenzima e cofator da enzima piruvato descarboxilase. Em ambos os casos, o NADH + H + é convertido em NAD + para ser usado na via glicolítica. Em C, a via de metabolização do etanol no fígado dos seres humanos. ADH: álcool desidrogenase, ALDH: aldeído desidrogenase. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica e www.bioquímicadoalcool.blogspot.com, acesso em 26/10/2014. A glicólise pode ser regulada. Três enzimas são reguladas na glicólise: hexoquinase, fosfofrutoquinase e piruvato quinase. Estas enzimas são reguladas por modificação covalente ou efetores alostéricos de acordo com a necessidade da célula em manter a glicólise ativa. Por exemplo, uma célula com muita energia (muito ATP intracelular) costuma inibir a glicólise, regulando negativamente a atividade das três enzimas citadas, no entanto uma célula com pouca energia faz o http://www.bioqu�micadoalcool.blogspot.com/ Bioquímica Básica 89 processo inverso, ativando a glicólise. A hexoquinase é inibida pelo excesso do próprio produto da sua reação (glicose 6-fosfato), mas é ativada pela falta deste produto.Fosfofrutoquinase-1 pode ser inibida por excesso de ATP ou por pH intracelular baixo, mas é ativada por excesso de ADP ou de frutose 2,6-bifosfato. Esta última é produzida a partir de frutose 6-fosfato (um dos intermediários da glicólise) pela enzima fosfofrutoquinase 2, assim, quando se faz necessário a ativação da fosfofrutoquinase-1, a enzima fosfofrutoquinase 2 produz frutose 2,6- bifosfato, que vai ativar a fosfofrutoquinase-1 para que esta converta frutose 6- fosfato em frutose 1,6-bifosfato (explicado anteriormente) e assim prosseguir a glicólise. Piruvato quinase é inibida por excesso de ATP e ativada por excesso de frutose 1,6-bifosfato. A figura 13 mostra as diferenças de cinética enzimática quando a enzima fosfofrutoquinase-1 é positivamente ou negativamente regulada. Figura 13: Regulação da fosfofrutoquinase-1. Em condições de baixa quantidade de ATP (alto conteúdo de ADP) nas células, a enzima fosfofrutoquinase- 1 (PFK-1) é ativada, mas quando o nível de ATP é alto, a enzima é inibida. Isto se reflete nas cinéticas, onde a curva mais “em pé” (linha preta) terá um pequeno Km assim a afinidade da enzima pelo seu substrato (frutose 6-fosfato) é alta, porém a curva mais “deitada” (linha vermelha) terá Km maior e então a enzima terá menor afinidade pelo substrato. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Bioquímica Básica 90 Em condições aeróbicas, as moléculas de piruvato vão para a mitocôndria (figura 14). Como a mitocôndria tem duas membranas, proteínas de membrana específicas transportam o piruvato do citoplasma para o interior (matriz) da mitocôndria, como por exemplo, a proteína translocadora de piruvato na membrana mitocondrial interna, que transporta o piruvato que se encontra no espaço entre as duas membranas para a matriz. Figura 14: Diagrama da mitocôndria. A mitocôndria é subdividida em membranna externa, membrana interna e matriz. Entre as membranas encontra-se o espaço intermembrana. A matriz é também conhecida como o interior da mitocôndria. Na matriz encontram-se as várias enzimas incluindo as enzimas do ciclo de Krebs. A membrana interna contém cristas e nelas estão as proteínas da cadeia respiratória. Fonte: Lubert Stryer, Bioquímica. Assim que chega à matriz, o piruvato sofre ação de um complexo contendo 3 enzimas chamado complexo da piruvato desidrogenase. Este complexo multienzimático depende de 5 coenzimas, dentre elas o NAD + e a coenzima A. O piruvato na presença deste complexo enzimático é primeiramente descarboxilado (um processo irreversível de oxidação na qual o grupo carboxila é removido do Bioquímica Básica 91 piruvato) formando CO2 e um derivado hidroxietil. Em seguida esta molécula sofre desidrogenação, formando acetil e a coenzima A é incorporada ao acetil formando acetilcoenzima A. Por último, elétrons e prótons liberados nas reações são entregues ao NAD + que é convertido em NADH + H + . A reação resumida se encontra na figura 15. O principal destino metabólico do acetilCoA produzido na mitocôndria das células musculares é a sua entrada no ciclo de Krebs para a produção de energia. Nos adipócitos, hepatócitos e glândulas mamárias de animais em lactação, além da produção de energia, o acetilCoA é bastante usado na síntese de ácidos graxos para a produção de triglicerídeos. Também no fígado o acetilCoA pode ser usado para a produção de colesterol e corpos cetônicos. Com exceção do ciclo de Krebs, todas as outras vias metabólicas citadas serão estudadas na próxima unidade. Figura 15: Produção de acetilcoenzima A. Em A, através de reações enzimáticas catalisadas pelo complexo da piruvato desidrogenase, o piruvato é convertido em acetilcoenzima A (acetilCoA) com produção de CO2 e NADH + H+. Em vermelho está evidenciada a origem do CO2 durante a reação. A coenzima A é também Bioquímica Básica 92 referida como CoA-SH por ter um grupamento sulfidrila ou tiol (SH) usado na reação de formação da acetilCoA. Em B, a estrutura detalhada da coenzima, mostrando em vermelho o ácido pantotênico, vitamina da dieta usada na formação da coenzima A. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Para iniciar o ciclo do Krebs, o acetilCoA transfere o seu grupo acetil (contendo 2 carbonos) para uma molécula de 4 carbonos, o oxaloacetato, formando citrato, um composto com 6 átomos de carbono. A partir do citrato, uma série de 8 reações regeneram o oxaloacetato com produção líquida de 1 ATP ou GTP, 3 NADH + 3 H+, 1 FADH2 e 2 CO2. Esta via tem este nome em homenagem a Sir Hans Krebs que detalhou a via em 1937 (figura 16). A primeira etapa do ciclo de Krebs envolve a condensação do grupamento acetil do acetilCoA com o oxaloacetato para formar citrato e coenzima A livre, catalisada pela enzima citrato sintase. A segunda etapa envolve a isomerização do citrato em isocitrato, catalisada pela enzima aconitase. Na terceira etapa a enzima isocitrato desidrogenase dependente da coenzima NAD+ oxida e descarboxila o isocitrato formando α-cetoglutarato, com a formação de NADH + H+ e liberação de CO2. A quarta etapa envolve o complexo multienzimático α-cetoglutarato desidrogenase. A enzima, que é dependente de várias coenzimas, incluindo NAD+ e coenzima A, oxida e descarboxila o α-cetoglutarato, formando succinilCoA, NADH + H+ e CO2. A quinta etapa envolve a hidrólise da sucinilCoA para formar succinato e coenzima A livre, catalisada pela enzima succinilCoA sintetase. A energia liberada na reação é conservada em uma molécula de ATP ou de GTP, esta última que, por intermédio da enzima nucleosídio difosfato quinase, é convertida em ATP. A sexta etapa catalisada pela enzima succinato desidrogenase dependente de FAD, oxida o succinato, formando fumarato e FADH2. Esta enzima é a única do ciclo de Krebs que não está na matriz da mitocôndria, mas sim na membrana interna da mitocôndria, atuando não somente no ciclo de Krebs, mas também na cadeia respiratória (será estudada mais à frente). Na sétima etapa, a enzima fumarase hidrata o fumarato, criando malato e na oitava etapa o malato é oxidado, regenerando o oxaloacetato. Esta reação é catalisada pela enzima malato desidrogenase dependente de NAD+, assim na reação se produz mais um NADH + H+. Bioquímica Básica 93 Para cada monossacarídeo são obtidas duas moléculas de piruvato. Os dois piruvatos, ao irem para a mitocôndria são convertidos em duas moléculas de acetilCoA, assim dois ciclos de Krebs ocorrem. Portanto, em dois ciclos de Krebs, obtem-se 2 ATP ou GTP, 6 NADH + 6 H+, 2 FADH2 e 4 CO2. É importante perceber que, na formação de acetilCoA e ao longo do ciclo de Krebs, ocorrem descarboxilação de moléculas e assim são produzidos CO2. São justamente estes CO2 produzidos durante as etapas metabólicas que o organismo expulsa durante a respiração, assim respiração celular e respiração fisiológica atuam simultaneamente. Outro ponto importante é que, a partir destas observações, diferente do que muitos pensam O2 não vira CO2 nas células. Ao longo desta unidade será explicado que o O2 vira H2O na mitocôndria das células. Figura 16: As reações do ciclo de Krebs. Nesta figura estão mostradas as estruturas moleculares e as enzimas envolvidas no processo. Na via são produzidos 1 ATP ou GTP, 3 NADH + 3 H + , 1 FADH2 e 2 CO2. Fonte: www.bioquímicaufal.blogspot.com, acesso em 28/10/2014. http://www.bioqu�micaufal.blogspot.com/ Bioquímica Básica 94 Assim como a glicólise, o ciclo de Krebs pode ser regulado. A enzima citrato sintase é inibida por excesso de citrato, succinilCoA, NADH e ATP, mas ativada quando a célula está com excesso de ADP. Isocitrato desidrogenase é inibida por excesso de NADH e ATP e ativada por excesso de ADP e NAD + . O complexo multienzimático α-cetoglutarato desidrogenase é inibido por excesso de NADH e succinilCoA e ativado por excesso de Ca ++ intramitocondrial.A cadeia respiratória é a última etapa da via de produção de energia. Nesta etapa, os elétrons de todos os NADH e FADH2 produzidos nas duas etapas anteriores (glicólise e ciclo de Krebs) são transferidos, por meio de uma cadeia de transporte de elétrons, para o aceptor final de elétrons que é o O2. Grande parte da energia liberada no sistema é usada para o bombeamento de prótons da matriz (lado N) para o espaço entre as membranas da mitocôndria (lado P) que cria um gradiente eletroquímico. A volta dos prótons para a matriz libera energia para a síntese de ATP a partir de ADP + Pi (fenômeno chamado de fosforilação oxidativa). Os prótons também vão para o O2 e a combinação de oxigênio, elétrons e prótons produz água, caracterizando o consumo de oxigênio (figura 17). Os transportadores de elétrons são complexos multienzimáticos conhecidos como complexo I (complexo da NADH desidrogenase ou NADH-coenzima Q oxidoredutase), complexo II (succinato desidrogenase ou succinato-coenzima Q oxidoredutase), complexo III (coenzima Q-citocromo C oxidoredutase ou citocromo bc1) e complexo IV (citocromo C oxidase). Bioquímica Básica 95 Figura 17: As reações da cadeia respiratória. Nesta figura são mostrados os transportadores de elétrons na membrana mitocondrial interna, o gradiente eletroquímico criado pelo fluxo de prótons, a síntese de ATP e o consumo de oxigênio. Fonte: www.nutrisdoexercicio.wordpress.com, acesso em 29/10/2014. As reações da cadeia respiratória se iniciam com a transferência do hidreto (2 elétrons e 1 próton) do NADH e também de 1 próton da matriz, para um lipídio transportador de elétrons chamado coenzima Q (CoQ). O complexo I catalisa esta reação. Neste complexo existem vários grupos prostéticos incluindo 7 centros ferro- enxofre (Fe-S). Os elétrons e prótons são transferidos primeiro para uma coenzima do complexo multienzimático chamada flavina mononucleotídeo (FMN), e em seguida, para os centros ferro-enxofre a fim de este chegar a CoQ que se transforma em CoQH2. Durante a transferência dos elétrons pelo complexo I, produz-se energia suficiente para o bombeamento de 4 prótons da matriz para o espaço intermembrana da mitocôndria. Os elétrons podem também ser liberados para a CoQ via complexo II. O complexo II contém a enzima succinato desidrogenase que também atua no ciclo de Krebs. Além disso, o complexo II contém FAD e dois complexos ferro-enxofre. No ciclo de Krebs foi dito que a succinato desidrogenase converte succinato em fumarato, com produção de FADH2 a partir de FAD. Diferente do NADH + H + que é http://www.nutrisdoexercicio.wordpress.com/ Bioquímica Básica 96 liberado após as reações das desidrogenases, o FADH2 não deixa o complexo II, mas assim que é produzido, libera seus elétrons e prótons para os centros ferro-enxofre a fim de este chegar a CoQ. Durante as reações no complexo II não há bombeamento de prótons, devido à quantidade de energia livre liberada na reação ser insuficiente. O complexo III catalisa a transferência de elétrons da CoQH2 para uma proteína transportadora de elétrons chamada citocromo C. O complexo III é formado por várias proteínas incluindo citocromos b, um citocromo c1 e uma proteína ferro-enxofre. Os citocromos são proteínas contendo átomos de ferro que, sem receber elétrons, se apresentam como Fe +++ , mas quando recebem um elétron se apresentam como Fe ++ . Para reoxidar a CoQH2 são necessários dois citocromos b, onde cada um aceita 1 elétron. Os elétrons são então passados para o citocromo c1 e em seguida para o citocromo C usando os átomos de ferro que assim estão sempre alternando entre os estados oxidado (Fe +++ ) e reduzido (Fe ++ ). Nesta reação de oxidação a CoQ é então restaurada e 4 prótons são bombeados através da membrana mitocondrial interna para o espaço intermembrana (dois da matriz e dois da CoQH2). O complexo IV transfere 2 elétrons do citocromo C (oriundos do NADH ou do FADH2) para o O2 para formar água. O complexo IV contém um citocromo a, um citocromo a3 e dois centros de cobre (CuA e CuB). Durante o processo, cada elétron vai do citocromo C para o CuA e depois para o citocromo a. Em seguida o elétron vai para o citocromo a3 e depois para o CuB e finalmente para o O2 que se encontra ligado ao complexo IV. Desse modo, assim como no complexo III, as reações no complexo IV envolvem reduções e oxidações de átomos de ferro e cobre até os elétrons serem entregues ao O2. Para consumir o oxigênio na formação da água são necessários uma molécula de oxigênio, 4 elétrons (oriundos do NADH e/ou FADH2) e 4 prótons (que estão na matriz), como na fórmula abaixo: 4e - + 4H + + O2 = 2H2O, sendo a fórmula resumida: 2e - + 2H + + ½ O2 = H2O A fosforilação oxidativa é o processo no qual a energia liberada durante a transferência de elétrons pelos complexos multienzimáticos da membrana interna da mitocôndria é usada no bombeamento de prótons para a produção de ATP a Bioquímica Básica 97 partir de ADP e Pi. Para cada NADH oxidado à NAD + iniciado no complexo I, são bombeados 10 prótons para o espaço intermembrana. Estes prótons voltam para a matriz através de uma enzima chamada ATP-sintase. A energia livre liberada pelo potencial eletroquímico no processo é usada na produção de ATP. A ATP-sintase tem duas subunidades a F0 e a F1. A F0 forma um canal para translocação dos prótons através da membrana interna da mitocôndria; a F1 contém os sítios de ligação para ADP e ATP e é onde ocorre a síntese do ATP. Para cada ATP produzido são necessários 4 prótons: 3 passando pela ATP sintase e 1 para carrear Pi para a matriz da mitocôndria. Este último transporte envolve a proteína fosfato-translocase que se localiza na membrana interna da mitocôndria entre o complexo IV e a ATP-sintase. Além disso, também na membrana interna da mitocôndria, entre o complexo IV e a ATP-sintase, existe uma proteína translocase ATP-ADP que transporta ao mesmo tempo um ATP produzido ao nível da ATP sintase no lado da matriz para o espaço intermembrana (que depois consegue sair da mitocôndria para ser usado no citoplasma da célula) e um ADP do espaço intermembrana para a matriz (para ser usado junto com Pi na produção de ATP). Desse modo, como 4 H + são necessários para se ter a produção de 1 ATP, com os 10 H + bombeados, são produzidos 2,5 ATP. Como são produzidos na glicólise, na formação de acetilCoA e no ciclo de Krebs um total de 10 NADH + 10 H + , então são produzidos 25 ATP. Para cada FADH2 oxidado à FAD iniciado no complexo II, são bombeados 6 prótons para o espaço intermembrana, que vão propiciar a produção de 1,5 ATP. Como no ciclo de Krebs são produzidos dois FADH2, consegue-se 3 ATP. Então o somatório do número de moléculas de ATP produzidos na cadeia respiratória é de 28 ATP. Sendo assim, se compararmos o nível de energia armazenada na forma de ATP na ausência e na presença de oxigênio, temos 2 ATP no ambiente desoxigenado (oriundos da glicólise) contra 32 ATP (2 ATP na glicólise, 1 ATP em cada um dos dois ciclos de Krebs e 28 ATP na cadeia respiratória), mostrando um aumento de 16 vezes no nível de ATP quando se tem oxigênio nas células. Os dois NADH produzidos no citoplasma durante a glicólise não podem atravessar as membranas da mitocôndria. Para estes NADH serem usados na cadeia respiratória existem dois sistemas na membrana mitocondrial interna: a lançadeira malato-aspartato (usada, por exemplo, nas células hepáticas, renais e cardíacas) e a Bioquímica Básica 98 lançadeira glicerol-fosfato (usada, por exemplo, nas células musculares esqueléticas e cerebrais) (figura 18). No sistema da lançadeira malato-aspartato, oxaloacetato da matriz mitocondrial se converte à aspartato pela ação da enzima glutamato- oxaloacetato transaminase mitocondrial e vai para o citoplasma pelo transportador aspartato-glutamato.Lá o aspartato é reconvertido em oxaloacetato pela ação da enzima glutamato-oxaloacetato transaminase citoplasmática e, através da enzima malato desidrogenase, é reduzido, sendo transformado em malato, com conversão de NADH + H + em NAD + . Malato sai do citoplasma, entra na matriz da mitocôndria pelo transportador malato-α-cetoglutarato presente na membrana interna e, em seguida é reconvertido à oxaloacetato pela ação da enzima malato desidrogenase mitocôndrial, produzindo NADH que é usado na cadeia respiratória. No sistema da lançadeira glicerol-fosfato, uma enzima glicerol 3-fosfato desidrogenase no citoplasma reduz dihidroxiacetona-fosfato à glicerol 3-fosfato, com conversão de NADH + H + em NAD + . O glicerol 3-fosfato penetra no espaço intermembrana e sob ação da enzima glicerol 3-fosfato desidrogenase mitocôndrial o glicerol 3-fosfato é re-convertido em dihidroxiacetona-fosfato, mas desta vez, como a enzima contém a coenzima FAD, ao invés de NADH, é formado FADH2 que é usado na cadeia respiratória. Sendo assim, se for usada a lançadeira malato-aspartato, a quantidade de ATP produzida na cadeia respiratória será de 28 ATP, mas se for usada a lançadeira glicerol-fosfato, como são trocados dois NADH por dois FADH2, dois ATP a menos são produzidos, então o saldo energético final (glicólise + ciclo de Krebs + cadeia respiratória) pode ser 30 ou 32 ATP dependendo da lançadeira usada para aproveitar os equivalentes de redução dos 2 NADH produzidos durante a glicólise. Bioquímica Básica 99 Figura 18: Lançadeiras para o transporte de equivalentes de redução do citoplasma para a cadeia respiratória mitocondrial. Em A, a lançadeira malato- aspartato e em B, a lançadeira glicerol-fosfato. Fontes: www.dc583.4shared.com e slideplayer.com.br, acessos em 29/10/2014. Bioquímica Básica 100 A maioria dos mamíferos recém-nascidos, incluindo o homem, depende da atividade de um tipo especial de tecido: o tecido adiposo marrom. Neste tecido, as células apresentam mitocôndrias contendo na membrana interna uma proteína chamada termogenina. Esta proteína na forma ativa proporciona uma via alternativa para a passagem de prótons do espaço intermembrana para a matriz sem passar pela ATP-sintase. Deste modo, a maior parte da energia da transferência de elétrons e fluxo de prótons não é usada na síntese de ATP, mas na produção de calor para manter os recém-nascidos quentinhos. A ativação da termogenina depende do hormônio norepinefrina que estimula a quebra de triglicerídeos no tecido adiposo, liberando ácidos graxos (estes que ativam a termogenina). A oxidação dos ácidos graxos (será estudada na próxima unidade) leva a produção de NADH e FADH2 para a cadeia respiratória e consequentemente para a produção de ATP, mas também para a produção de calor. Animais que hibernam também dependem da termogenina nas mitocôndrias das células do tecido marrom para gerar calor durante a hibernação. Glicogênese Como anteriormente descrito ao longo desta unidade, o glicogênio é um polissacarídeo contendo milhares de moléculas de glicose, sendo a maioria das moléculas unidas por ligações glicosídicas C1-C4 e algumas unidas por ligações glicosídicas C1-C6 (pontos de ramificação). O glicogênio é geralmente formado após as refeições: quando a dieta contém mais glicose que o necessário para as necessidades energéticas do organismo, glicogênio é produzido e serve como um reservatório de glicose. A glicogênese (síntese de glicogênio) ocorre em todas as células do corpo, mas as células que mais produzem glicogênio são as hepáticas e as musculares esqueléticas. A síntese de glicogênio inicia da mesma maneira que a via glicolítica: a glicose é convertida em glicose 6-fosfato por ação da enzima hexoquinase (no músculo e outros tecidos extra-hepáticos) ou glicoquinase (uma forma da hexoquinase) no fígado. O fígado contém tanto hexoquinase quanto glicoquinase. A afinidade da Bioquímica Básica 101 glicoquinase pela glicose é pequena e, assim, para ativar a glicoquinase é necessária uma alta quantidade de glicose nas células hepáticas. Além disso, diferente da hexoquinase que é inibida por excesso de glicose 6-fosfato, a glicoquinase não é inibida por excesso desta molécula, mas sim por frutose 6-fosfato, assim, quando a concentração de glicose sanguínea é muito alta (após uma refeição), as células hepáticas captam muita dessa glicose, independente da quantidade de glicose 6- fosfato intracelular, tornando possível armazenar muita glicose na forma de glicogênio. Se a célula precisa de energia, a glicose 6-fosfato segue na via glicolítica se convertendo em frutose 6-fosfato pela ação da enzima fosfoglicose isomerase (figura 9). No entanto, se o nível de ATP intracelular está alto, a molécula de glicose 6-fosfato sofre ação da enzima fosfoglicomutase se convertendo em glicose 1- fosfato. Em seguida, por ação da enzima UDP-glicose pirofosforilase (glicose 1- fosfato uridiltransferase), a molécula de glicose 1-fosfato perde o seu fosfato, recebe uma molécula de UTP (uridina trifosfato) no carbono 1 e com a saída de mais um fosfato, se converte em UDP-glicose (uma “glicose ativada” à partir do qual glicogênio pode ser sintetizado). Os dois fosfatos saem juntos (na forma de pirofosfato), porém uma enzima, a pirofosfatase inorgânica, hidrolisa a molécula, separando os dois fosfatos, estes que podem ser usados posteriormente em outras reações químicas (figura 19). Bioquímica Básica 102 Figura 19: Produção de UDP-glicose. A reação, cartalisada pela UDP-glicose pirofosforilase envolve a união da glicose 1-fosfato e do UTP com saída de dois fosfatos inorgânicos e produção da forma ativada da glicose, a UDP-glicose. Fonte: Walter Motta, Bioquímica. Bioquímica Básica 103 A enzima capaz de criar ligações glicosídicas C1-C4 entre as moléculas de glicose para a formação do glicogênio é a glicogênio sintase. No entanto a glicogênio sintase não consegue iniciar a cadeia de moléculas de glicose adicionando a primeira molécula, mas necessita de uma sequência de moléculas de glicose previamente montada. A enzima glicogenina faz este passo inicial: primeiro, a enzima, através de uma atividade glicosil transferase, liga o carbono 1 de uma molécula de UDP-glicose a um aminoácido tirosina pertencente a própria enzima (como a UDP está no carbono 1 da glicose, a ligação da glicose à glicogenina promove a saída do UDP); a enzima glicogênio sintase se liga em seguida à glicogenina. Depois, mais seis moléculas de glicose são incorporadas por ligações glicosídicas C1-C4 até atingir sete moléculas de glicose, onde novamente cada ligação entre as moléculas de glicose promove a saída do UDP. A partir daí a glicogênio sintase se dissocia da glicogenina e assume a função catalítica na síntese do glicogênio, transferindo seqüencialmente moléculas de UDP-glicose para o carbono 4 de uma cadeia de glicogênio em crescimento, com saída das moléculas de UDP (figura 21). Cada UDP é reconvertida em UTP a partir da transferência de um fosfato do ATP para o UDP, catalisada pela enzima nucleosídeo difosfato quinase. Assim, para cada molécula de glicose usada na formação do glicogênio, são gastos duas moléculas de ATP (um ATP na conversão de glicose em glicose 6- fosfato e um ATP na formação do UTP). Como visto no inicio da unidade, o glicogênio contém, além das ligações glicosídicas C1-C4, também algumas ligações glicosídicas C1-C6 (figura 6). A glicogênio sintase não pode fazer ligações glicosídicas C1-C6, então, outra enzima, a enzima de ramificação, através de uma atividade glicosil transferase, transfere um fragmento terminal de sete moléculas de glicose, removido de uma sequência de pelo menos 11 moléculas de glicose unidas por ligações glicosídicas C1-C4, para a hidroxila do carbono 6 de uma glicose pertencentea esta mesma cadeia ou a uma outra cadeia de moléculas de glicose, criando ligações glicosídicas C1-C6 (ponto de ramificação). Isto aumenta a quantidade de extremidades não redutoras (C4 livre) para a ação da enzima glicogênio sintase. A montagem final do glicogênio depende então da ação catalítica sequencial do glicogênio sintase, criando ligações glicosídicas C1-C4 e da enzima de ramificação, criando ligações glicosídicas C1-C6. A glicogenina se mantém presa ao glicogênio pela ligação covalente a primeira glicose da cadeia de glicogênio (figura 20). Bioquímica Básica 104 Figura 21: Síntese de glicogênio. Em A, alongamento de uma cadeia de glicogênio pela glicogênio sintase. A UDP-glicose é transferida para o carbono 4 de uma cadeia de glicogênio em crescimento, com saída da molécula de UDP. Em B, a enzima de ramificação do glicogênio criando uma ligação glicosídica C1-C6 (ponto de ramificação) durante a síntese do glicogênio. Em C, síntese de glicogênio iniciada pela atividade catalítica da glicogenina e em seguida pelas enzimas glicogênio sintase e enzima de ramificação. Bioquímica Básica 105 Glicogenólise Em um músculo com atividade intensa ou mesmo em repouso, o glicogênio é rapidamente degradado, no entanto o glicogênio hepático é degradado lentamente para manter a glicemia sanguínea e nutrir órgãos que estejam precisando de glicose, prinicipalmente durante um jejum prolongado ao longo do dia como durante o sono. A glicogenólise (degradação do glicogênio) ocorre nas células por ação das enzimas glicogênio fosforilase, enzima de desramificação e fosfoglicomutase. A glicogênio fosforilase quebra ligações glicosídicas C1-C4 das moléculas de glicose, adicionando um grupamento fosfato no carbono 1 da glicose terminal (extremidade não redutora) do glicogênio, liberando glicose 1-fosfato (figura 21). A glicogênio fosforilase vai adicionando fosfato em moléculas de glicose presentes em uma extremidade não redutora até que a cadeia atinja 4 moléculas de glicose, ou seja, esteja à 4 monossacarídeos do ponto de ramificação (ligação glicosídica C1- C6). Então, entra em ação a enzima de desramificação do glicogênio. As moléculas de glicose próximas do ponto de ramificação são removidas da seguinte maneira: a atividade transferase da enzima transfere um bloco de 3 moléculas de glicose para uma ponta não redutora próxima, prendendo estas moléculas por ligações glicosídicas C1-C4. Esta cadeia, assim como todas as outras cadeias de glicose do glicogênio serão substratos para a enzima glicogênio fosforilase. Em seguida a única glicose ligada por ligação glicosídica C1-C6 é liberada como glicose pela ação glicosidase da enzima. Deste modo muitas moléculas de glicose são liberadas do glicogênio como glicose 1-fosfato e algumas são liberadas como glicose (figura 21). As moléculas de glicose 1-fosfato são convertidas em glicose 6-fosfato pela ação da enzima fosfoglicomutase e assim estas moléculas de glicose 6-fosfato, bem como as moléculas de glicose que também foram liberadas do glicogênio podem ser usadas na via glicolítica. Bioquímica Básica 106 No músculo, as moléculas de glicose e de glicose 6-fosfato liberadas após degradação do glicogênio seguem exclusivamente a via glicolítica, ou seja, estas moléculas sempre serão usadas para a via de produção de energia. No fígado existe uma enzima chamada glicose 6-fosfatase que remove o fosfato do carbono 6 da glicose, permitindo que a mesma saia da célula e vá para a corrente sanguínea para nutrir outros órgãos. Em outras palavras, o fígado é um regulador da glicemia sanguínea e um doador de glicose para células que estão precisando de açúcares. As vias de síntese e degradação do glicogênio são reguladas ao nível das enzimas glicogênio sintase e glicogênio fosforilase. Estas duas enzimas podem estar nas formas a (ativa) e b (inativa ou pouco ativa). Estas enzimas podem ser inibidas alostéricamente (uma molécula se liga ao sítio regulatório da enzima) ou por modificação covalente através da fosforilação e desfosforilação. No controle alostérico, excesso de ATP e glicose 6-fosfato inibe a glicogênio fosforilase (forma b) e assim inibe a degradação do glicogênio, mas ativa a glicogênio sintase (forma a), assim estimulando a síntese de glicogênio. Já pouco ATP e glicose 6-fosfato ativa a glicogênio fosforilase (forma a) e inibe a glicogênio sintase (forma b). No controle por fosforilação e desfosforilação, a enzima fosforilase-quinase usa o ATP para fosforilar e inativar momentaneamente a enzima glicogênio sintase (forma b). Esta pode ser reconvertida a forma a (ativa) pela ação da enzima fosfoproteína-fosfatase 1. Desse modo, a enzima glicogênio sintase é inativada quando fosforilada, mas está ativa quando não possui fosfato. Na regulação da glicogênio fosforilase, a enzima fosforilase-quinase, através do ATP, fosforila e ativa a enzima glicogênio fosforilase (forma a) enquanto a enzima fosfoproteína-fosfatase 1 remove o fosfato e inativa momentaneamente a enzima (forma b). Bioquímica Básica 107 Bioquímica Básica 108 Figura 21: Degradação do glicogênio. Em A, a remoção sequencial de moléculas de glicose unidas por ligações glicosídicas C1-C4 é catalisada pela enzima glicogênio fosforilase. Quatro moléculas de glicose restantes em uma cadeia são alvo da enzima de desramificação, onde a atividade transferase da enzima remove as três últimas moléculas de glicose em bloco para uma cadeia próxima e a glicose que restou é removida do glicogênio pela atividade glicosidase da enzima. Em B, a reação detalhada catalisada pela enzima glicogênio fosforilase. Fontes: Lehninger, Princípios de Bioquímica e Walter Motta, Bioquímica. Bioquímica Básica 109 Gliconeogênese A gliconeogênese (produção de novas moléculas de glicose) ocorre no fígado a partir de fontes não glicídicas, como lactato, alanina, oxaloacetato e glicerol. Quando os níveis de glicose sanguínea e glicogênio hepático e muscular estão muito baixos, a gliconeogênese é uma alternativa para aumentar a glicemia tanto sanguínea quanto dos órgãos. Lactato é obtido geralmente de hemácias (que não possuem mitocôndrias e, portanto produzem intensamente lactato) e de células musculares em intensa atividade. O lactato migra das células para o sangue e em seguida para o fígado, onde através da enzima lactato desidrogenase, é convertido em piruvato para seguir na gliconeogênese. A alanina é obtida da degradação de proteínas musculares durante períodos de jejum prolongado. Ao chegar ao fígado a alanina perde o grupamento amina e é convertida em piruvato para a gliconeogênese. O oxaloacetato (um intermediário do ciclo de Krebs) é obtido do próprio fígado. Ao invés de ser usado pela enzima citrato sintase para a formação de citrato, a molécula é desviada para a formação de glicose na gliconeogênese. O glicerol é obtido após digestão enzimática dos triglicerídeos no tecido adiposo. No fígado o glicerol é fosforilado e convertido em glicerol 3-fosfato pela ação da enzima glicerol quinase. O glicerol 3-fosfato é em seguida convertido em dihidroxiacetona fosfato pela ação da enzima glicerol 3-fosfato desidrogenase para seguir na gliconeogênese (figura 22). Após piruvato ter sido produzido a partir de lactato e alanina na mitocôndria das células hepáticas, este se transforma em oxaloacetato, porém o restante da via de produção de glicose ocorre no citoplasma. Como a membrana interna da mitocôndria é impermeável ao oxaloacetato, este é convertido em malato pela ação da enzima malato desidrogenase mitocôndrial, com conversão de NADH + H + em NAD + . Após o malato atravessar as membranas mitocondriais, ocorre reação inversa por ação de uma enzima malato desidrogenase citoplasmática, para regenerar o oxaloacetato e NADH + H + e assimdar continuidade a gliconeogênese. Bioquímica Básica 110 A gliconeogênese parece ser o reverso da glicólise pelo fato da maioria dos intermediários e das enzimas das duas vias serem as mesmas, uma vez que 7 passos da via glicolítica são reversíveis ou seja as mesmas enzimas que catalisam as reações no sentido da conversão de glicose em piruvato, catalisam as reações no sentido da conversão de piruvato em glicose. No entanto, na glicólise as reações catalisadas pelas enzimas hexoquinase, fosfofrutoquinase 1 e piruvato quinase são irreversíveis. Para contornar isto, quatro enzimas, exclusivas da gliconeogênese são requeridas: a piruvato carboxilase, a fosfoenolpiruvato carboxiquinase, a frutose 1,6-bifosfatase e a glicose 6-fosfatase. Para produzir glicose são necessários o consumo de 2, 4 ou 6 ATP, dependendo da molécula usada para iniciar a gliconeogênese (figura 23). Bioquímica Básica 111 Bioquímica Básica 112 Figura 22: As reações da gliconeogênese. Apesar de parecer ser o inverso da glicólise, a gliconeogênese tem suas particularidades como a etapa na qual piruvato é convertido a oxaloacetato (um intermediário do ciclo de Krebs) antes de se converter em fosfoenolpiruvato. Além disso, quatro enzimas são exclusivas da gliconeogênese: a piruvato carboxilase, a fosfoenolpiruvato carboxiquinase, a frutose 1,6-bifosfatase e a glicose 6-fosfatase. Fonte: Walter Motta, Bioquímica. Via das pentoses-fosfato Além da produção de energia e da síntese de glicogênio, a glicose pode servir para a via de síntese das pentoses fosfato. Esta via, também conhecida como a via do fosfogliconato produz NADPH e ribose 5-fosfato. Praticamente todas as células podem fazer a via das pentoses-fosfato, mas a via é muito mais ativa em tecidos que sintetizam constantemente ácidos graxos e esteróides, como o fígado e o tecido adiposo, pois o NADPH é essencial na síntese destes lipídios (estas reações metabólicas serão vistas na próxima unidade), sendo pouco ativa, por exemplo, no músculo esquelético e no cérebro, uma vez que estas células sintetizam poucos lipídios (geralmente fosfolipídios para as membranas). Já a ribose 5-fosfato é empregada na síntese de D-ribose, monossacarídeo constituinte do ATP, do NAD + , do NADP + , do FADH2, da coenzima A e dos nucleotídeos que compõem o ácido ribonucléico (RNA). A primeira etapa da via é semelhante à glicólise e a glicogênese e envolve a conversão da glicose em glicose 6-fosfato catalisada pela enzima hexoquinase, com gasto de 1 ATP. Em seguida a enzima glicose 6-fosfato desidrogenase dependente de NADP + , converte glicose 6-fosfato em 6-fosfogliconolactona, com produção de NADPH + H + . Esta é convertida em 6-fosfogliconato por ação da enzima 6- fosfoglicono lactonase. Em seguida o 6-fosfogliconato é desidrogenado e descarboxilado pela enzima 6-fosfogliconato desidrogenase dependente de NADP + , gerando D-ribulose 5-fosfato, NADPH + H + e CO2 e finalmente a enzima fosfopentose isomerase converte a D-ribulose 5-fosfato em ribose 5-fosfato (figura 23). Bioquímica Básica 113 O NADPH também tem papel importante na proteção das células contra danos causados por agentes oxidativos, como água oxigenada e superóxidos, principalmente em hemácias, que são células muito sujeitas ao dano oxidativo (oxidação de ácidos nucléicos e de proteínas, peroxidação lipídica, dentre outros efeitos lesivos causando destruição celular). Por isso, pessoas que não produzem a enzima glicose 6-fosfato desidrogenase, não são capazes de fazer a via das pentoses-fosfato, levando a diminuição da produção de NADPH (não cessa a produção de NADPH pelo fato desta molécula poder ser criada em outras vias metabólicas) e aumento do dano oxidativo. Uma das moléculas importantes na proteção contra oxidação celular, a enzima glutationa peroxidase, usa a glutationa reduzida (GSH) para converter água oxigenada em água, diminuindo o efeito lesivo celular, mas durante o processo, a glutationa fica oxidada (GS-SG). Esta forma da glutationa depende do NADPH para voltar a forma reduzida e assim iniciar novamente o ciclo de proteção celular. Desse modo, nas células que dependem muito de NADPH não somente para a síntese acentuada de lipídios, mas também para proteção contra danos oxidativos, é comum boa parte da D-ribose 5-fosfato ser novamente convertida em glicose 6-fosfato (a via não será detalhada) para que a via das pentoses-fosfato ocorra novamente, com mais produção de NADPH. Bioquímica Básica 114 Bioquímica Básica 115 Figura 23: As reações da via das pentoses-fosfato. Nesta via, através de cinco reações enzimáticas (a conversão de glicose em glicose 6-fosfato catalisada pela enzima hexoquinase não está mostrada na figura) a glicose é convertida em D- ribose 5-fosfato, com produção de duas moléculas de NADPH + H + . Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Leitura complementar DEVLIN, T. Manual de bioquímica com correlações clínicas. Edgard Blucher, 2007. HARPER, H. A. Bioquímica. Atheneu, 2002. LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. Worth publishers, 2006. STRYER, L. Bioquímica. Guanabara Koogan, 2004. VOET, D., VOET, J.G., PRATT, C.W. Fundamentos de Bioquímica. Artmed, 2002. É HORA DE SE AVALIAR Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de ensino-aprendizagem. Bioquímica Básica 116 Exercícios – Unidade 3 1. As reações oxidativas da via das pentoses fosfato, a partir de glicose 6- fosfato conduzem a formação de: a) Frutose 6-fosfato b) Galactose 1-fosfato c) Glicose 1-fosfato d) Maltose 5-fosfato e) Ribose 5-fosfato 2. No gráfico a seguir observa-se a produção de CO2 e de lactato no músculo de um atleta em atividade física. Sobre a variação da produção de CO2 e lactato em A e B, analise as seguintes afirmativas: I. A partir de T1 o suprimento de O2 no músculo é insuficiente para o músculo realizar respiração aeróbica. II. O CO2 produzido em A, é um dos produtos da respiração aeróbica, durante o processo de produção de ATP pelas células musculares. Bioquímica Básica 117 III. Em A as células musculares estão realizando respiração aeróbica e em B um tipo de fermentação. IV. A partir de T1 a produção de ATP pelas células musculares deverá aumentar. Das afirmativas acima, são corretas: a) Apenas I e II b) Apenas III e IV c) Apenas I, II e III d) Apenas I, II e IV e) Apenas II, III e IV 3. Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações referentes à respiração celular. ( ) O metabolismo energético de carboidratos é constituído por três rotas: a glicólise, o ciclo de Krebs e a via das pentoses-fosfato. ( ) Durante o bombeamento de prótons ao longo da cadeia respiratória, há liberação de elétrons que vão sendo captados por transportadores como a coenzima Q e os citocromos. ( ) No ciclo de Krebs, ocorre uma maior produção de ATP do que durante a fase de glicólise. ( ) Nos eucariontes, a fase de glicólise ocorre no interior das mitocôndrias e na ausência de oxigênio. Bioquímica Básica 118 A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: a) F - F - F - V b) F - V - F - F c) V - V - V - F d) V - F - V - V e) F- V - V - F 4. O cianeto atua inibindo o complexo IV da cadeia respiratória. Quanto ao que pode acontecer com a célula, em consequência desta inibição, é CORRETO afirmar que: a) Não há interrupção na cadeia transportadora de elétrons e a produção de ATP não é alterada b) Toda a cadeia respiratória se interrompe, inclusive a produção de ATP e o consumo de oxigênio. c) Não há interrupção na cadeia transportadora de elétrons e sim um aumentocompensatório na produção de ATP d) A célula torna-se dependente da fermentação cujo rendimento energético é superior ao da respiração aeróbica e) Não há interrupção da cadeia respiratória, somente a produção de ATP é alterada Bioquímica Básica 119 5. Os carboidratos, também conhecidos como glicídios ou açúcares, são as macromoléculas mais abundantes na natureza. As seguintes afirmativas se referem a alguns destes carboidratos. I. Os mais simples, chamados de monossacarídeos, podem ter de 3 a 7 átomos de carbono, e os mais conhecidos, glicose, frutose e galactose, têm 6. II. O amido e a celulose são polissacarídeos formados pelo mesmo número de moléculas de glicose, que se diferenciam pela presença de ramificações na estrutura do amido. III. A quitina é um importante polissacarídeo que constitui o exoesqueleto de fungos e artrópodes. IV. A glicose é armazenada nos mamíferos sob a forma de glicogênio. As seguintes afirmativas estão corretas: a) I, II e IV b) II e III c) I, III e IV d) II e IV e) III e IV Bioquímica Básica 120 6. O esquema a seguir resume as etapas de síntese e degradação do glicogênio no fígado, órgão responsável pela regulação da glicemia sanguínea. As enzimas representadas pelos números são: (1) Glicoquinase (2) Glicose 6-fosfatase (3) Fosfoglicomutase (4) UDP glicose pirofosforilase (5) Glicogênio sintase (6) Glicogênio fosforilase Um paciente portador de um defeito genético apresenta hipoglicemia nos intervalos entre as refeições, embora a taxa de glicogênio hepático permaneça elevada. No paciente, as enzimas que provavelmente estão apresentando atividade deficiente são: a) Glicoquinase e fosfoglicomutase b) Fosfoglicomutase e glicogênio sintase c) Glicose 6-fosfatase e UDP glicose pirofosforilase d) Glicogênio fosforilase e glicose 6-fosfatase e) Glicoquinase e glicogênio sintase Bioquímica Básica 121 7. O beribéri é uma doença nutricional causada pela falta de vitamina B1 (tiamina) no organismo, resulta em fraqueza muscular, problemas gastro- intestinais e dificuldades respiratórias. A tiamina na forma de tiamina pirofosfato (TPP) é importante para a produção de acetilcoenzima A na mitocôndria das células. Pessoas com beribéri apresentam constantemente níveis elevados de: a) Piruvato e oxaloacetato b) Lactato e citrato c) Succinil CoA e etanol d) Isocitrato e malato e) Succinato e fumarato 8. O destino das moléculas de celulose presente em alguns alimentos de origem vegetal ingerida por uma pessoa é: a) Entrar nas células e ser oxidada nas mitocôndrias, liberando energia para o organismo b) Ser metabolizada extracelularmente tanto no tubo digestivo quanto no sangue c) Entrar nas células e ser utilizada para a síntese de proteínas d) Ser eliminada pelas fezes, sem sofrer alteração no tubo digestivo e) Servir de matéria-prima para a síntese de glicogênio http://pt.wikipedia.org/wiki/Doen%C3%A7a http://pt.wikipedia.org/wiki/Vitamina_B1 http://pt.wikipedia.org/wiki/Vitamina_B1 http://pt.wikipedia.org/wiki/Vitamina_B1 Bioquímica Básica 122 9. Os esquemas representam três rotas metabólicas possíveis, pelas quais a glicose é utilizada como fonte de energia. a) Quais rotas ocorrem em ambiente totalmente anaeróbico? b) Qual rota é inexistente na espécie humana? c) Qual é o saldo energético obtido na rota C? Bioquímica Básica 123 10. Células de um maratonista foram extraídas e cultivadas em dois tubos de ensaio à 37 o C (tubo A e tubo B) contendo glicose como fonte de energia. Após 24 horas foram avaliados o consumo de glicose e a formação de ATP em cada tubo obtendo-se os seguintes resultados: Para cada célula observada nos tubos Consumo de Glicose (Moléculas de glicose consumidas) Formação de ATP (Moleculas de ATP formadas) Tubo A 1 32 Tubo B 16 32 A análise de cada tubo também mostrou que no tubo B acumulava-se lactato enquanto que no tubo A, observa-se o acúmulo imediato de bolhas. a) Explique bioquimicamente o acúmulo de lactato no tubo B e as bolhas do tubo A. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ b) Porque o consumo de glicose é maior no meio B embora a quantidade de ATP produzida seja a mesma? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Bioquímica Básica 124 4 Lipídios e metabolismo Bioquímica Básica 125 Nesta unidade, vamos entender a cerca das características gerais dos lipídios, suas estruturas químicas, suas funções e localizações celulares. Objetivos da Unidade Conhecer as estruturas dos principais lipídios. Diferenciar os lipídios citoplasmáticos dos lipídios de membrana celular. Estudar a digestão, absorção e transporte de lipídios. Caracterizar a obtenção de energia com lipídios. Descrever a síntese de ácidos graxos, triglicerídeos e lipídios de membrana. Plano da Unidade Ácidos graxos e triglicerídeos Lipídios de membrana celular Eicosanóides Vitaminas lipossolúveis Digestão, absorção e transporte de lipídios Oxidação de ácidos graxos e obtenção de energia Corpos cetônicos Síntese de ácidos graxos e de triglicerídeos Degradação de triglicerídeos Síntese de lipídios de membrana Bons estudos! Bioquímica Básica 126 Os lipídios são moléculas com uma característica comum: são moléculas hidrofóbicas, isto é, insolúveis em água, porém solúveis nos chamados solventes orgânicos (benzeno, éter, tolueno, hexano, clorofórmio etc). São moléculas apolares ou anfipáticas com várias funções celulares incluindo armazenamento de energia, estrutural na formação das membranas celulares, mensageiros intracelulares, transportadores de elétrons, pigmentos absorvedores de luz, emulsionantes, coenzimas e hormônios. Ácidos graxos e triglicerídeos A maioria dos lipídios contém ou é originado de ácidos graxos. Os ácidos graxos são moléculas contendo um ácido carboxílico e uma cadeia de carbonos e hidrogênios (hidrocarboneto) que pode variar de 3 à 36 carbonos. Na dieta dos seres humanos, os ácidos graxos costumam conter de 4 à 24 carbonos. Geralmente os ácidos graxos de cadeia curta são os contendo até 5 carbonos, os de cadeia média, de 6 à 11 carbonos, os de cadeia longa, de 12 à 18 carbonos e os de cadeia muito longa, acima de 18 carbonos. Os ácidos graxos são exemplos de moléculas anfipáticas, pois contém uma região capaz de interagir com a água (o ácido carboxílico) e outra região incapaz de interagir com a água (o hidrocarboneto). Os ácidos graxos podem ser saturados, quando a cadeia de carbonos contém somente ligações simples, ou insaturados, quando contém ligações duplas entre carbonos (figura 1), sendo monoinsaturados os ácidos graxos com uma única ligação dupla ao longo da cadeia de carbonos e poliinsaturados os ácidos graxos com duas ou mais ligações duplas. Bioquímica Básica 127 Figura 1: Estrutura geral dos ácidos graxos. Os ácidos graxos possuem um ácido carboxílico e uma cadeia de carbonos e hidrogênios. O ácido graxo saturado tem uma cadeia de carbonos contendo somente ligações simples. Já o ácido graxo insaturado tem pelo menos uma ligação dupla (monoinsaturado) ou mais de uma ligação dupla (poliinsaturado) entre carbonos. Em A, representação mais comum dos ácidos graxos, mostrando carbonos, hidrogênios e as ligações químicas simples eduplas. Em B, representação dos ácidos graxos em ziguezague, onde cada ponta do ziguezague representa um carbono e o duplo traço representa a ligação dupla. Se nos carbonos que contém a ligação dupla os hidrogênios estiverem para o mesmo lado, como na figura A, a configuração é chamada cis, mas se os hidrogênios estiverem opostos um em relação ao outro a configuração é trans. Á título de observação, enquanto o ácido graxo saturado na figura A tem 8 carbonos, o ácido graxo saturado na figura B tem 10 carbonos. Fontes: www.brasilescola.com e www.wikimonsa.wikispaces.com, acessos em 07/11/2014. http://www.brasilescola.com/ Bioquímica Básica 128 As propriedades físico-químicas dos ácidos graxos são determinadas pelo tamanho e grau de saturação dos ácidos graxos: quanto maior o ácido graxo, menor a sua solubilidade em água e vice-versa; substâncias contendo ácidos graxos saturados apresentam consistência sólida e quanto maior forem os ácidos graxos, mais sólidos será o composto; no entanto, quanto mais insaturados forem os ácidos graxos que compõem a substância, mais líquido será o composto. Além disso, o grau de saturação dos ácidos graxos influencia na saúde do ser humano: por mecanismos ainda não totalmente esclarecidos, ácidos graxos insaturados são mais saudáveis que ácidos graxos saturados por reduzir a pressão arterial, melhorar a coagulação sanguínea e prevenir doenças ligadas ao coração. Já os ácidos graxos saturados têm relação direta com a elevação de triglicerídeos e colesterol sanguíneo. No entanto, não se devem retirar os ácidos graxos saturados da dieta, apenas reduzi-los a cerca de 30%, pois além de ser uma fonte rica de energia, estes são necessários na formação das membranas e alguns são antimicrobianos. Apesar do ser humano conseguir produzir ácidos graxos saturados e monoinsaturados, é incapaz de produzir ácidos graxos poliinsaturados, sendo assim, estes precisam obrigatoriamente ser adquiridos na dieta. O calor influencia na saturação dos ácidos graxos: à medida que um ácido graxo é aquecido, suas ligações duplas são convertidas em ligações simples, fazendo com que o ácido graxo insaturado se torne saturado. Deste modo, o aquecimento prolongado de um alimento contendo ácidos graxos é prejudicial para a saúde. Os principais ácidos graxos saturados na dieta são: ácido palmítico, ácido esteárico e ácido eicosanóico. Há também pequenas quantidades de ácido láurico e ácido mirístico . As principais fontes alimentares de ácidos graxos saturados são os produtos lácteos e sorvetes, biscoitos, carnes (especialmente as processadas) e produtos gordurosos. Os principais ácidos graxos insaturados na dieta são o ácido palmitoleico, o ácido oleico, o ácido α-linolênico e o ácido linoleico. As principais fontes alimentares de ácidos graxos insaturados são os vegetais e seus óleos, azeites, óleos de peixe, cereais, sementes e grãos. Na maioria dos casos, os ácidos graxos são referidos como o sal do ácido ou o ácido graxo ionizado. Por exemplo, ácido palmítico é referido como palmitato, ácido esteárico, como estearato, ácido láurico como laurato etc. A figura 2 compara três destes alimentos de acordo com o tipo de ácidos graxos. Bioquímica Básica 129 Figura 2: Tipos de ácidos graxos de três alimentos. Ambos os óleo de oliva, manteiga e gordura de carne de boi contém triglicerídeos com ácidos graxos de diferentes tamanhos e graus de saturação. O óleo por conter um percentual maior de ácidos graxos insaturados em seus triglicerídeos, inclusive de cadeia longa, é líquido à temperatura ambiente. Já a manteiga contém muitos ácidos graxos saturados de cadeia longa e alguns ácidos graxos saturados de cadeia curta, por isso é um sólido à temperatura ambiente, porém mole por conter também uma quantidade moderada de ácidos graxos insaturados de cadeia longa. Por último, a gordura da carne do boi é bem sólida à temperatura ambiente por conter grande quantidade de ácidos graxos saturados de cadeia longa. È importante observar que ambas as manteigas e gorduras apresentam maior percentual de ácidos graxos saturados em relação aos insaturados em seus triglicerídeos. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Bioquímica Básica 130 Os ácidos graxos α-linolênico e linoleico são exemplos de ácidos graxos conhecidos respectivamente como ômega-3 e ômega-6. Estes são ácidos graxos poliinsaturados, por isso são essenciais, e precisam estar na dieta. Para ser considerado ômega-3, a última ligação dupla precisa estar a 3 carbonos do fim da molécula enquanto no ômega-6 a última ligação dupla está à 6 carbonos do fim da molécula. A partir destes dois ácidos graxos são produzidos outros ácidos graxos poliinsaturados muito importantes (será detalhado ao longo da unidade). Um problema comum relacionado aos ácidos graxos poliinsaturados é o seu alto poder de oxidação: o oxigênio reage com as duplas ligações danificando a estrutura destes ácidos graxos (peroxidação lipídica) e gerando radicais livres, principais causadores do envelhecimento e morte celular, assim o seu consumo deve estar associado à ingestão de vitaminas A, C e E e outros anti-oxidantes. Os ácidos graxos monoinsaturados, por ter somente uma ligação dupla são mais resistentes ao ataque das moléculas de oxigênio. Outros ácidos graxos do tipo ômega (ômega-7 e ômega-9) são ácidos graxos saturados e monoinsaturados e, portanto, apesar de estarem na dieta, também são produzidos pelo organismo. A tabela 1 mostra o conteúdo de ácidos graxos saturados, monoinsaturados e poliinsaturados em alguns alimentos. Bioquímica Básica 131 Tabela 1: Teor de ácidos graxos (g) em 100 g dos alimentos Alimentos Ácidos graxos (g) Saturados Monoinsaturados Poliinsaturados Abacate 2,5 16,5 2 Azeite de oliva 14 70 11 Azeitona 1 6 1 Bacalhau fresco 0,15 0 0,25 Bacon 32,5 36 6 Carne de boi 5 5 0,5 Carne de frango (sem pele) 11,5 2 0,5 Carne de peru (sem pele) 0,5 0,5 1 Carne suína 12,5 14 2,5 Castanha-do-Pará 15,5 20 23 Creme de leite 12,5 6,5 0,5 Leite integral 2,2 1,2 0,1 Leite condensado 5,5 3 0,2 Manteiga 49 26 2,2 Margarina 30 38 9,5 Óleo de soja 14 24 56,5 Óleo de milho 16,5 29,5 50 Óleo de canola 5 64 25 Óleo de girassol 13 32 50 Ovo 3,5 14,2 1,2 Queijo parmesão 17,5 9,5 1 Queijo cottage 2,4 1,3 0,1 Sardinha 3 3 3,5 Salmão 3 4,5 3 Os triglicerídeos (ou triacilgliceróis) são moléculas formadas pela união de 3 ácidos graxos (geralmente dois ou os três ácidos graxos são diferentes entre sí) ligados a um glicerol cujas três hidroxilas do glicerol reagem com os ácidos carboxílicos dos ácidos graxos através da saída de três moléculas de água (figura 3). Os triglicerídeos são compostos essencialmente apolares, pois as regiões polares do glicerol e dos ácidos graxos desapareceram na formação das ligações do tipo éster. Por isso, constituem moléculas muito hidrofóbicas. Os representantes dos http://pt.wikipedia.org/wiki/Hidrof%C3%B3bica Bioquímica Básica 132 triglicerídeos são as gorduras e os óleos. Enquanto as gorduras contêm triglicerídeos com a maioria dos ácidos graxos saturados (por isso as gorduras são sólidas à temperatura ambiente), os óleos contêm triglicerídeos com a maioria dos ácidos graxos insaturados (por isso os óleos são líquidos à temperatura ambiente). Figura 3: Estrutura do triglicerídeo. Em A, a formação do triglicerídeo através da união de três ácidos graxos com um glicerol. Na reação saem três moléculas de água. Os “R” nos ácidos graxos representam cadeias de carbonos sem tamanho e grau de saturação definidos. Em B, representação do triglicerídeo onde, de cima para baixo, a primeira cadeia de carbonos é saturada, a segunda cadeia de carbonos é monoinsaturada e a terceira cadeia de carbonos é poliinsaturada. Nesta última estão mostrados os carbonos ondeocorrem as ligações duplas. Fontes: www.especialista24.com e www.duplat.blogspot.com, acessos em 07/11/2014. http://www.especialista24.com/ http://www.duplat.blogspot.com/ Bioquímica Básica 133 Os triglicerídeos costumam estar no citoplasma das células humanas principalmente nas células do tecido adiposo e do fígado e são uma forma de armazenamento de energia mais interessante que glicogênio, pois um triglicerídeo fornece bem mais energia por grama que o glicogênio. Além disso, enquanto o corpo humano armazena gramas de glicose na forma de glicogênio, são armazenados quilos de gordura no tecido adiposo. Além da função de armazenamento de energia, os triglicerídeos são eficientes isolantes térmicos contra baixas temperaturas: não é a toa que animais de clima frio, como focas, ursos polares, pingüins e leões marinhos apresentam grande quantidade de triglicerídeo corporal seja na forma de gordura ou óleo. Os triglicerídeos podem ser hidrolisados, liberando com isso, ácidos graxos e glicerol (será detalhado ao longo da unidade). Se esta hidrólise é feita em meio alcalino, por exemplo, pela adição de uma base forte como o hidróxido de sódio (soda cáustica) e sob a alta temperatura, formam-se sais de ácidos graxos, os sabões, e o processo é chamado de saponificação (figura 4). Figura 4: O processo da saponificação. Na produção do sabão, os triglicerídeos são misturados a uma base forte em alta temperatura, liberando os sais de ácidos graxos (sabões) e o glicerol. Fonte: www.quimicasemsegredos.com, acesso em 07/11/2014. http://pt.wikipedia.org/wiki/Hidr%C3%B3lise http://pt.wikipedia.org/wiki/Saponifica%C3%A7%C3%A3o http://www.quimicasemsegredos.com/ Bioquímica Básica 134 Sendo assim, o sabão é um sal de ácido carboxílico contendo uma longa cadeia de carbonos em sua estrutura molecular, com capacidade de interagir tanto com estruturas polares quanto apolares (estrutura anfipática). Desse modo, ao lavarmos uma panela suja de óleo ou gordura, formam-se as micelas, gotículas microscópicas de gordura envolvidas por moléculas de sabão, orientadas com as cadeias apolares direcionadas para dentro (interagindo com o óleo ou gordura) e as extremidades polares para fora (interagindo com a água). A água usada para enxaguar a panela interage com a parte externa das micelas, que é constituída pelas extremidades polares das moléculas de sabão. Assim, as micelas são dispersas na água e levadas por ela no enxágue da panela, o que torna fácil remover, com auxílio do sabão, substâncias apolares (figura 5). O processo de formação de micelas é denominado emulsificação. Dizemos que o sabão atua como emulsificante ou emulsionante, ou seja, ele tem a propriedade de fazer com que o óleo se disperse na água, na forma de micelas. Figura 5: Comportamento do óleo e sabão em presença de água. Na presença de água, o sabão e o óleo formam micelas, com regiões polares do sabão voltadas para fora da mistura (para contato com água) e regiões apolares da mistura voltadas para dentro (onde ocorre a interação do óleo com o sabão), assim o sabão atua como emulsificante ou emulsionante, fazendo com que o óleo se disperse na água, na forma de micelas. Fonte: www.negacrazy.blogspot.com, acesso em 08/11/2014. http://www.negacrazy.blogspot.com/ Bioquímica Básica 135 Lipídios de membrana celular As membranas biológicas são formadas por uma bicamada de lipídios contendo proteínas. Nos eucariontes encontram-se também carboidratos. Estes lipídios são anfipáticos, pois a região polar da molécula está voltada para o espaço extracelular ou para o citoplasma da célula (estas áreas são geralmente aquosas), enquanto a parte apolar está escondida no meio da bicamada lipídica, sem acesso à água interna ou externa. Os lipídios das membranas são os fosfolipídios (subdivididos em glicerofosfolipídios e esfingolipídios) e os esteróis (figura 6). Figura 6: Arquitetura da membrana plasmática. Na figura estão mostrados a bicamada de fosfolipídios, comum nas membranas das células procariontes (bactérias) e eucariontes (demais tipos celulares), contendo proteínas, carboidratos e esteróis (o esterol na figura é o colesterol), sendo os dois últimos ausentes nos procariontes. Fonte: www.infoescola.com, acesso em 07/11/2014. http://www.infoescola.com/ Bioquímica Básica 136 Glicerofosfolipídios são as principais classes de lipídios nas membranas, estando presente na membrana plasmática de procariontes e eucariontes e nas membranas das organelas do citoplasma de eucariontes. Estes lipídios contêm dois ácidos graxos e um grupamento fosfato ligados a um glicerol. O fosfato é a parte polar da molécula e assim é a que fica voltado tanto para o interior, quanto para o exterior das membranas e o restante é a parte apolar. Um dos ácidos graxos é sempre saturado contendo 16 ou 18 carbonos e o outro é insaturado contendo 18, 20 ou 22 carbonos. Além disso, várias moléculas diferentes podem estar ligadas ao fosfato, criando os diferentes glicerofosfolipídios (figura 7). Bioquímica Básica 137 Figura 6: Estrutura molecular do glicerofosfolipídio e suas variantes. Glicerofosfolipídios são lipídios anfipáticos contendo dois ácidos graxos e um grupamento fosfato ligados a glicerol. Em A, a estrutura geral do glicerofosfolipídio, com ácido graxo saturado na posição 1 e o ácido graxo insaturado na posição 2. Em B, os diferentes tipos de glicerofosfolipídios nas membranas celulares. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Os esfingolipídios são a segunda classe mais abundante de lipídios nas membranas. Encontrados somente em eucariontes, são compostos de uma parte apolar contendo um ácido graxo de cadeia longa e uma esfingosina (um aminoálcool) no lugar do segundo ácido graxo e do glicerol e uma parte polar variável como nos glicerofosfolipídios, criando os diferentes esfingolipídios (figura 7). Bioquímica Básica 138 Figura 7: Estrutura molecular do esfingolipídio e suas variantes. Esfingolipídios são lipídios anfipáticos contendo um ácido graxo de cadeia muito longa, uma esfingosina (um aminoálcool) e uma parte polar variável como nos glicerofosfolipídios. Em A, a estrutura geral do esfingolipídio. Em B, os diferentes tipos de esfingolipídios nas membranas celulares. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Muitos esfingolipídios são glicolipídios (figura 7), estando à porção carboidrato sempre voltada para fora da célula formando o glicocálix. Os esfingolipídios são abundantes na membrana plasmática de neurônios, formando a bainha de mielina para a transmissão do impulso nervoso e são sítios de reconhecimento celular, principalmente nas hemácias, determinando os grupos sanguíneos humanos. Além disso, podem atuar como receptores para toxinas liberadas por bactérias e serem reconhecidos por células bacterianas e vírus para o início da infecção. Os esteróis são a terceira classe de lipídios nas membranas. Sua estrutura anfipática contém uma região polar (geralmente uma hidroxila no carbono 3) e uma região apolar composta por 4 anéis de carbonos, sendo 3 de seis carbonos e 1 de cinco carbonos (núcleo esteróide) e uma cadeia hidrocarboneto não cíclica (figura 8). O esterol das células animais é o colesterol. As células dos outros seres vivos (exceto procariontes) também apresentam esteróis nas membranas: fitoesteróis nas células vegetais, ergosterol nos fungos etc. Os fitoesteróis na dieta tem a capacidade de reduzir a absorção do colesterol total, através de um mecanismo de competição que ocorre no intestino delgado, onde pelo fato de ambos fitoesteróis e colesterol serem muito semelhantes (figura 8), ocorre inibição da absorção do colesterol pelos fitoesteróis, reduzindo o conteúdo de colesterol plasmático. O colesterol é sintetizado no fígado ou obtido na dieta. Seu esqueletoserve para a formação de várias moléculas, incluindo a vitamina D, os sais biliares e hormônios esteróides como a progesterona, a testosterona e o estradiol (o metabolismo do colesterol será visto ao longo da unidade). Bioquímica Básica 139 Figura 8: O colesterol. Em A, a estrutura detalhada do colesterol, evidenciando a numeração dos carbonos da molécula no núcleo esteróide e na cadeia de carbonos externa aos anéis. Em B, comparação entre o colesterol e três fitoesteróis da dieta, evidenciando a pequena diferença entre os quatro esteróis através de círculos coloridos nos carbonos 22 e 24 das moléculas. Fontes: Lehninger, Princípios de Bioquímica e www.biobiocolesterol.blogspot.com.br, acesso em 08/11/2014. http://www.biobiocolesterol.blogspot.com.br/ Bioquímica Básica 140 Eicosanóides Eicosanóides são moléculas lipídicas anfipáticas derivadas de um ácido graxo de 20 carbonos chamado ácido araquidônico (figura 9). Esse ácido graxo pode ser obtido diretamente na dieta ou ser produzido através do ácido linoléico, um ômega- 6. Praticamente todo ácido araquidônico está em fosfolipídios, assim, é necessária uma reação enzimática catalisada por uma fosfolipase para remoção do ácido araquidônico do fosfolipídio e seu uso na produção dos eicosanóides (figura 9). Os eicosanóides se comportam como mensageiros químicos um pouco diferente dos hormônios, pelo fato de não serem distribuídos pela corrente sanguínea para diferentes órgãos, mas sim atuarem no tecido onde foi produzido. Existem 3 classes de eicosanóides: as prostaglandinas, os leucotrienos e as tromboxanas. Enzimas ciclooxigenases (COX) são responsáveis pela conversão de ácido araquidônico em prostaglandinas. As prostaglandinas (figura 9) são produzidas por quase todas as células, geralmente em locais de dano tecidual ou infecção. São moléculas capazes de elevar a temperatura do corpo, causar inflamação e dor, aumentar a perrmeabilidade capilar e a quimiotaxia, atraindo células como macrófagos especializados na fagocitose de restos celulares durante o processo inflamatório. A inibição das ciclooxigenases por analgésicos e anti-inflamatórios (drogas não esteroidais anti-inflamatórias ou NSAIDs) como aspirina, ibuprofeno e paracetamol, implica na diminuição da síntese de prostaglandinas e consequentemente da dor e febre. Além disso, as prostaglandinas estão responsáveis pelo estímulo das contrações uterinas durante a menstruação e o parto, pela vasodilatação, pelo aumento da secreção de muco no estômago etc. http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A9lula http://pt.wikipedia.org/wiki/Infec%C3%A7%C3%A3o http://pt.wikipedia.org/wiki/Inflama%C3%A7%C3%A3o http://pt.wikipedia.org/wiki/Inflama%C3%A7%C3%A3o http://pt.wikipedia.org/wiki/Inflama%C3%A7%C3%A3o Bioquímica Básica 141 Tromboxanos (nomeados em referência à sua capacidade de formar trombos) são produzidos nas plaquetas também a partir de reação catalisada por ciclooxigenases. São moléculas vasoconstritores na circulação sanguínea e vasodilatadores na circulação pulmonar e potentes agentes hipertensivos, além de facilitarem a agregação plaquetária: o tromboxano A2 (figura 9), produzido por plaquetas ativadas, estimula a ativação de outras plaquetas, aumentando a agregação plaquetária. Medicamentos inibidores de ciclooxigenases afetam a produção de tromboxanos, levando ao aparecimento de hemorragias com maior freqüência. Leucotrienos (figura 9) são moléculas produzidas por células inflamatórias como leucócitos polimorfonucleares, macrófagos ativados e mastócitos através de reação catalisada pela enzima lipooxigenase (LOX). Os leucotrienos são mediadores lipídicos que apresentam papel relevante na resposta inflamatória tecidual aumentando a permeabilidade vascular, induzindo a inflamação, ativando células para função efetora ou inibindo a função de células. São também extremamente potentes na vasoconstrição e broncoconstrição, levando a contração da musculatura lisa dos vasos sanguíneos e a passagem de ar nos pulmões no edema, levando a perda de líquidos dos vasos sanguíneos. Leucotrienos também estimulam a síntese de colágeno e quimiotaxia de fibroblastos. A superprodução de leucotrienos causa asma e muitas drogas antiasmáticas atuam bloqueando a enzima lipooxigenase. http://pt.wikipedia.org/wiki/Trombo http://pt.wikipedia.org/wiki/Plaqueta http://pt.wikipedia.org/wiki/Vasoconstri%C3%A7%C3%A3o http://pt.wikipedia.org/wiki/Plaquetas Bioquímica Básica 142 Figura 9: O ácido araquidônico e os eicosanóides. Em A, o ácido araquidônico no fosfolipídio é liberado por ação da enzima fosfolipase A2, uma das diferentes fosfolipases atuantes nos fosfolipídios. Em B, dependendo do tipo celular, o ácido araquidônico, por intermédio de enzimas COX ou LOX, é convertido em prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos, onde cada eicosanóide responderá por uma ou muitas funções celulares no tecido onde foi sintetizado. NSAIDs são potentes bloqueadores da produção de prostaglandinas e tromboxanos, afetando diversos processos fisiológicos. Fonte: Lehninger, Princípios de Bioquímica. Bioquímica Básica 143 Vitaminas lipossolúveis São quatro as vitaminas de natureza lipídica: A, D, E e K. Estas moléculas são anfipáticas com inúmeras funções celulares. A vitamina A (figura 10) é produzida a partir de uma molécula chamada β- caroteno. O β-caroteno é uma molécula da família dos carotenóides. Os carotenóides são compostos abundantemente encontrados na natureza, sendo os responsáveis pela cor da maioria dos frutos e vegetais, a qual pode variar desde o amarelo até o vermelho vivo. Dos mais de 600 carotenoides conhecidos, aproximadamente 50 são precursores da vitamina A. Entre os carotenoides, o β- caroteno é o mais abundante em alimentos e o que apresenta a maior atividade de pró-vitamina A. A principal via de produção da vitamina A é a clivagem central catalisada pela enzima 15-15’β-caroteno oxigenase. Ela cliva o β-caroteno em sua ligação dupla central, obtendo retinol (vitamina A), que pode ser, no corpo humano, convertido reversivelmente em 11-cis-retinal ou irreversivelmente em acido retinóico. A vitamina A é encontrada em muitos alimentos, como vegetais, ovos, fígado, manteiga etc. O 11-cis-retinal é de vital importância no ciclo visual, atuando nos bastonetes, células que funcionam com baixa intensidade de luz, insensíveis às cores. O ácido retinóico é encontrado no interior das células, onde desempenha funções relacionadas ao ciclo celular. A vitamina A também está relacionada com o desenvolvimento dos ossos, ação protetora na pele e mucosa, possui função essencial na capacidade funcional dos órgãos do trato reprodutivo, participa do fortalecimento do sistema imunológico, está relacionada com o desenvolvimento e manutenção do tecido epitelial, contribui para o desenvolvimento normal dos dentes, para a conservação do esmalte dentário, manutenção do bom estado do cabelo e na prevenção da oxidação celular. A deficiência de vitamina A, acarreta xeroftalmia. A xeroftalmia é o nome genérico dado aos diversos sinais e sintomas oculares da carência de vitamina A. A forma clínica mais precoce da xeroftalmia é a cegueira noturna onde não se consegue boa adaptação visual em ambientes pouco iluminados, podendo evoluir para um quadro de ceratomalacia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Xeroftalmia Bioquímica Básica 144 uma cegueira irreversível causada por ulceração progressiva da córnea levando à necrose e destruição do globo ocular. A vitamina D é também conhecida como colecalciferol (figura 10). A principal ação da vitamina D é aumentar o transporte de cálcio e fósforo do meio extracelular para o intracelular e mobilizar cálcio dos estoques intracelulares. Além disso, possui papel mediador em processos inflamatórios e auto imunitários. A deficiência de VitaminaD pode ser observada em indivíduos que tenham pouca exposição ao sol, e naqueles que tenham problemas na absorção de lipídios ou problemas na dieta. Em crianças, a deficiência de vitamina D pode resultar no raquitismo, doença decorrente da inadequada mineralização do osso durante o crescimento com consequentes anormalidades ósseas, entretanto, isso é raro nos dias atuais, devido, sobretudo à fortificação dos alimentos. A deficiência grave em adultos leva à osteomalácia, condição caracterizada pela falha na mineralização da matriz orgânica do osso, resultando em ossos fracos, sensíveis à pressão, fraqueza nos músculos proximais e frequência de fraturas aumentada, além de ter efeitos importantes no desenvolvimento da osteoporose. Em idosos, a deficiência de vitamina D é decorrente das alterações fisiológicas e mudanças no hábito de vida decorrente deste grupo, como por exemplo, a diminuição da exposição ao sol e mudanças na dieta. As fontes de vitamina D da dieta são os óleos de fígado de peixes e alimentos derivados do leite, como manteiga e queijos gordurosos. Além disso, a exposição do corpo aos raios do sol leva à síntese desta vitamina pelo organismo: a vitamina D é formada na pele á partir de uma forma modificada do colesterol, o 7-desidrocolesterol em uma reação fotoquímica catalisada pelos raios UV do sol (por isso é importante o “banho de sol” no início da manhã em crianças recém-nascidas e a exposição, pelo menos leve, ao sol ao longo da vida). A vitamina D é no fígado convertida em 25-hidroxicolecalciferol e depois no rim em 1,25- dihidroxicolecalciferol, o hormônio ativo, responsável pelo metabolismo de cálcio e fósforo. http://pt.wikipedia.org/wiki/Necrose Bioquímica Básica 145 A vitamina E (figura 10) é uma vitamina lipossolúvel, representada por um grupo de oito compostos estruturalmente relacionados, os tocoferóis e tocotrienóis, sendo o α -tocoferol com maior atividade biológica antioxidante, apresentando um papel fundamental na proteção do organismo contra os efeitos prejudiciais (danos oxidativos) dos radicais livres. O anel aromático da molécula reage com os radicais livres e os destrói, desse modo protegendo proteínas, ácidos nucléicos e as ligações duplas dos ácidos graxos dos fosfolipídios da oxidação. A vitamina E é encontrada em alimentos de origem vegetal, principalmente nos vegetais verde-escuros, nas sementes oleaginosas, nos óleos vegetais e no germe de trigo, além de estar presente também em alimentos de origem animal, como gema de ovo e fígado. A baixa ingestão de vitamina E causa agregação plaquetária, anemia hemolítica, degeneração neuronal (pois causa lesão na bainha de mielina), lesões musculares e esqueléticas e alterações hepáticas. A vitamina K é uma vitamina anti-hemorragica (figura 10). A molécula é usada na produção da pró-trombina, uma proteína do plasma sanguíneo essencial para a formação do coágulo. A filoquinona é a forma predominante de vitamina K em alimentos. Outra forma da vitamina K, a menaquinona é formada por bactérias no intestino. Vegetais verdes folhosos, óleos vegetais, gorduras, frutas e hortaliças são as principais fontes desta vitamina. A deficiência clínica da vitamina tem sido classicamente descrita como hipoprotrombinemia e está associada ao retardo na coagulação do sangue, que pode ser fatal. Bioquímica Básica 146 Figura 10: Estrutura química das vitaminas lipossolúveis. Fontes: www.as- vitaminas.blogspot.com.br, www.quimicanocotidiano2013.blogspot.com.br, www.infoescola.com e www.laboratóriocentralmm.com.br, acessos em 09/11/2014. Digestão, absorção e transporte de lipídios Os lipídios da dieta são triglicerídeos, ácidos graxos livres, fosfolipídios (geralmente glicerofosfolipídios), colesterol livre, ésteres de colesterol, fitoesteróis e vitaminas lipossolúveis. Alguns destes lipídios, por serem grandes demais para serem absorvidos, precisam ser digeridos por enzimas encontradas no intestino delgado. Como os lipídios são moléculas insolúveis no lúmen do intestino, para as enzimas atuarem, é necessário que estes lipídios se encontrem solúveis. Para isso, a vesícula biliar envia sais biliares para o intestino delgado. Estas moléculas anfipáticas, sintetizadas no fígado a partir do colesterol (descrito anteriormente) e armazenados na vesícula biliar, atuam como detergentes, emulsionando os lipídios, formando micelas e facilitando a ação das enzimas lípases. Como o suco entérico http://www.as-vitaminas.blogspot.com.br/ http://www.as-vitaminas.blogspot.com.br/ http://www.infoescola.com/ http://www.laborat�riocentralmm.com.br/ Bioquímica Básica 147 não contém todas as enzimas necessárias para a digestão dos lipídios grandes, o pâncreas envia para o intestino delgado o suco pancreático, contendo algumas lípases. Os triglicerídeos são hidrolisados por lípases liberando os ácidos graxos dos carbonos 1 e 3 e a molécula 2-monoacilglicerol. Alguns 2-monoacilgliceróis podem ser hidrolisados por uma esterase separando o ácido graxo restante, do glicerol. Os fosfolipídios sofrem ação da enzima fosfolipase A2, liberando o ácido graxo do carbono 2 e 1-acillisofosfolipídio. Ésteres de colesterol e ésteres de vitamina A são hidrolisados por esterases específicas liberando o colesterol e a vitamina A dos ácidos graxos. As digestões enzimáticas dos lipídios da dieta estão resumidas abaixo: Triglicerídeos 2-monoacilglicerol Fosfolipídios Éster de colesterol Éster de vitamina A Lípases entérica e pancreática 2 ácidos graxos 2-monoacilglicerol Fosfolipase A2 Ácido graxo 1-acillisofosfolipídio Colesterol-esterase Ácido graxo Colesterol Ácido graxo Vitamina A Retinil-esterase Ácido graxo Glicerol Monoacilglicerol-esterase Bioquímica Básica 148 Terminada a digestão, os ácidos graxos, 2-monoacilgliceróis, 1- acillisofosfolipídios, vitaminas A, D, E e K além do colesterol nas micelas são enviados do lúmen para o interior das células do epitélio intestinal. Fitoesteróis, apesar de estarem na dieta, não são praticamente absorvidos e atrapalham a absorção do colesterol, atuando como fibras (descrito anteriormente). Do interior das células do epitélio intestinal, os ácidos graxos de cadeia curta e média vão para a corrente sanguínea em direção ao fígado sendo transportados pela albumina plasmática. Os ácidos graxos maiores são usados na remontagem dos triglicerídeos, fosfolipídios, ésteres de colesterol e ésteres de vitamina A, que, juntamente com as outras vitaminas lipossolúveis, colesterol livre e proteínas específicas (apoproteínas), formam lipoproteínas chamadas quilomícrons. Os quilomícrons viajam pelos vasos linfáticos intestinais antes de ir para o sangue e chegar ao fígado. Durante o trajeto, músculos e tecido adiposo (tecidos extra-hepáticos) captam ácidos graxos: a enzima lipoproteína-lipase sintetizada por músculos e tecido adiposo e ligada à superfície endotelial dos capilares sanguíneos destes órgãos hidrolisa os triglicerídeos, os convertendo em ácidos graxos e glicerol. A apoproteína C-II (ApoC-II) presente na superfície dos quilomícrons ativa a lipoproteína-lípase destes tecidos. Por ação desta enzima, parte da vitamina E nos quilomícrons também é captada por estes tecidos extra-hepáticos. Os ácidos graxos captados pelos músculos são primariamente usados para obtenção de energia, mas também podem ser usados pra a síntese de membranas. Os ácidos graxos e glicerol captados pelo tecido adiposo são primariamente usados na formação de triglicerídeos para armazenamento, mas síntese de membranas também ocorre. Boa parte do glicerol resultante da hidrólise dos triglicerídeos dos quilomícrons vai do sangue para o fígado onde podem ser usados na glicólise, na produção de triglicerídeos, na produção de fosfolipídios ou na gliconeogênese. Osquilomícrons contém também a apoproteína E (ApoE), que é reconhecida por receptores presentes nas células hepáticas. Os quilomícrons remanescentes que chegam ao fígado são endocitados pelas células hepáticas, encaminhados aos lisossomos, degradados e suas moléculas (aminoácidos, glicerol, ácidos graxos, fosfolipídios, colesterol, vitaminas lipossolúveis etc) aproveitadas pelo fígado (figura 10). Bioquímica Básica 149 O próprio fígado é um grande produtor de triglicerídeos e colesterol. Se a ingestão de triglicerídeos e colesterol ultrapassar as necessidades do indivíduo, a digestão dos quilomícrons remanescentes no fígado irá liberar muitos ácidos graxos e colesterol. Isso fará com que o fígado use todo este colesterol e triglicerídeos (produzidos no próprio fígado e da dieta) para a criação de lipoproteínas chamadas VLDLs (lipoproteínas de muito baixa densidade). A maior parte da vitamina E, e praticamente toda vitamina K assim como a forma da vitamina D, 25- hidroxicolecalciferol (explicado anteriormente), também são incorporadas em VLDLs. Estas lipoproteínas, ricas em triglicerídeos e colesterol e contendo dentre várias apoproteínas, a ApoB-100, são liberadas para o sangue. Em paralelo, o fígado produz outra lipoproteína, a HDL (lipoproteínas de alta densidade) que contém triglicerídeos, um pouco de colesterol, várias apoproteínas, dentre elas ApoA-I, ApoE e ApoC-II e a enzima LCAT (lecitina:colesterol acil transferase). No sangue, os HDLs entregam ApoE e ApoC-II para VLDLs e quilomícrons, a fim de que estes sejam reconhecidos por lipoproteínas-lipases e por receptores celulares para internalização (figura 10). À medida que ácidos graxos são captados dos VLDLs por tecidos periféricos (principalmente músculos e tecido adiposo), estas lipoproteínas se tornam IDLs (lipoproteínas de densidade intermediária) e com a saída de mais ácidos graxos se tornam LDLs (lipoproteínas de baixa densidade, pobres em triglicerídeos, mas ricas em colesterol). Os LDLs devem ser removidos da corrente sanguínea, pois são responsáveis por entupimento de vasos sanguíneos. Para isso, algumas células como as hepáticas, endoteliais e os macrófagos podem endocitar LDLs por um mecanismo de endocitose mediada por receptor, onde as ApoB-100 das LDLs são reconhecidas pelos receptores celulares para a endocitose. Além disso, os HDLs também participam da remoção do excesso de colesterol do plasma e dos tecidos extra-hepáticos transportando-as para o fígado (figura 10). A transferência de colesterol das membranas das células periféricas para HDL envolve interação das HDLs com receptores de superfície celular, acionando um transporte passivo do excesso de colesterol das células para HDLs. Outra maneira envolve a interação da apoproteína ApoA-I das HDLs com um transportador de membrana chamado ABCA-1 em uma célula rica em colesterol, onde a ABCA-1 transfere colesterol para Bioquímica Básica 150 HDLs. As HDLs conseguem captar também colesterol e fosfatidilcolina (um fosfolipídio) dos quilomícrons remanescentes e VLDLs. Na superfície das HDLs a enzima LCAT esterifica o colesterol com a fosfatidilcolina. Todo o colesterol vai para o fígado nas HDLs e em seguida é convertido em sais biliares. Estes são enviados à vesícula biliar para reiniciar o ciclo. Desse modo, o LDL é conhecido popularmente como colesterol ruim, pois sua presença no plasma aumenta o risco de doenças cardiovasculares, enquanto o HDL é conhecido popularmente como colesterol bom, pois contribui para diminuir os níveis de LDL plasmático. As características das lipoproteínas estão mostradas na tabela 2. Tabela 2: Composição das lipoproteínas plasmáticas humanas Moléculas Lipoproteínas Quilomicron VLDL LDL HDL Colesterol livre (%) 2 5-8 13 6 Colesterol esterificado (%) 5 11-14 39 13 Fosfolipídios (%) 7 20-23 17 28 Triglicerídeos (%) 85 44-60 10 4 Proteínas (%) 2 4-11 20 50 Apoproteínas ApoA-I, ApoA- II, ApoA-IV, ApoB-48, ApoC-I, ApoC-II, ApoC- III, ApoE ApoB-100, ApoC-I, ApoC-II, ApoC-III, ApoE ApoB-100 ApoA-I, ApoA-II, ApoA-IV, ApoC- I, ApoC-II, ApoC- III, ApoD, ApoE Bioquímica Básica 151 Figura 10: Órgãos e vias envolvidas no transporte de lipídios da dieta. Na figura estão mostradas a produção de lipoproteínas no intestino delgado e no fígado e a dinâmica de captação de ácidos graxos e colesterol livres ou em lipoproteínas remanescentes. FA (ácido graxo), TG (triglicerídeo), MG (2-monoacilglicerol). Fonte: Devlin, manual de Bioquímica com correlações clínicas. Bioquímica Básica 152 Oxidação de ácidos graxos e obtenção de energia Ácidos graxos captados da circulação sanguínea são primariamente usados para a obtenção de energia. O tecido adiposo e o fígado são exceções: os ácidos graxos em quilomícrons e VLDLs captados pelo adiposo são na maioria usados para a síntese de triglicerídeos, assim como os ácidos graxos captados pelo fígado a partir da endocitose de quilomícrons remanescentes (será detalhado ao longo da unidade). A produção de energia pelos ácidos graxos ocorre exclusivamente na mitocôndria, onde o ácido graxo é oxidado (a oxidação do ácido graxo é referido também como β-oxidação) e o esqueleto de carbonos destas moléculas são usadas para a produção de vários acetilCoA e equivalentes de redução na forma de NADH + H+ e FADH2. O uso de ácidos graxos para obter energia depende do estado metabólico do organismo. Por exemplo, após uma refeição rica em açúcares, o uso de ácidos graxos para gerar energia será praticamente nulo, porém em ambos os jejum ou exercício físicos prolongados, o uso de ácidos graxos para gerar energia é significativamente alto. O primeiro passo na oxidação de um ácido graxo é a sua conversão em acilCoA (ativação do ácido graxo), em reação catalisada pela enzima acilCoA sintetase localizada na membrana externa da mitocôndria ou no retículo endoplasmático (figura 11). O processo envolve a conversão de ATP em AMP (adenosina monofosfato) e PPi (pirofosfato inorgânico) ao invés de ADP e Pi. Como em seguida uma enzima pirofosfatase inorgânica hidrolisa o PPi gerando dois fosfatos livres, diz-se que na reação foram consumidas duas ligações fosfato de alta energia (uma da quebra do ATP e outro da quebra do PPi), então a oxidação de um ácido graxo começa energeticamente desfavorável, com saldo negativo de -2 ATP. Acil é um termo usado para uma cadeia de carbonos indefinida, uma vez que o ácido graxo pode ter tamanhos variados. Bioquímica Básica 153 Em seguida, os ácidos graxos de cadeia longa e muito longa são transportados para a matriz da mitocôndria pela carnitina (os de cadeia curta e média vão para a matriz mitocondrial independente de carnitina). Esta molécula é produzida à partir do aminoácido lisina ou obtida na dieta à partir da ingestão de carnes (figura 11). Uma enzima na membrana externa da mitocôndria, a CPT-I (carnitina palmitoil transferase I) transfere o acil da CoA para a carnitina, com a CoA retornando ao citoplasma. A molécula acilcarnitina é levada para a matriz por uma proteína translocase na membrana interna da mitocôndria. Uma enzima ligada à translocase, a CPT-II, transfere o acil para uma CoA que já está na matriz, restaurada o acilCoA e a carnitina volta para o espaço intermembranas para um novo ciclo (figura 11). O malonilCoA, uma molécula produzida para a síntese de ácidos graxos é inibidora desse processo (será detalhado ao longo da unidade). A carnitina é usada como suplemento alimentar por muitas pessoas que desejam emagrecer. A idéia é a aceleração da mobilização de ácidos graxos para a matriz da mitocôndria para a geração de energia, que, de algum modo, estimularia o tecido adiposo a quebrar mais triglicerídeos, assim diminuindo a gordura corporal. No entanto ainda não se tem estudos conclusivos sobre o usoda carnitina como emagrecedor. Bioquímica Básica 154 Figura 11: Estrutura e função da carnitina. A carnitina é uma transportadora de acilas do espaço intermembrana para a matriz da mitocôndria para oxidação e produção de energia. Em A, a estrutura molecular da carnitina. Em B, as reações enzimáticas que usam a carnitina como a molécula transportadora de acilas. Fontes: Devlin, manual de Bioquímica com correlações clínicas e www.supermusculo.com, acesso em 12/11/2014. Na matriz da mitocôndria o acilCoA sofrerá encurtamento através da remoção sucessiva de moléculas de dois carbonos na forma de acetilCoA, sendo este encurtamento iniciado na extremidade ácido carboxílico do ácido graxo. Para liberar um acetilCoA, é necessário uma sequencia de 4 reações enzimáticas: na primeira reação, a enzima acilCoA desidrogenase dependente da coenzima FAD atua nos 3 primeiros carbonos da molécula criando uma ligação dupla entre os carbonos 2 e 3. Isso leva a formação de enoilCoA com liberação de 2 prótons e 2 elétrons e consequente formação de FADH2; na segunda reação a enzima enoilCoA hidratase adiciona água à ligação dupla, criando 3-hidroxiacilCoA; na terceira reação a enzima β-hidroxiacilCoA desidrogenase dependente de NAD+ desidrogena a 3- hidroxiacilCoA, criando a β-cetoacilCoA com formação de NADH + H+; por último, a enzima β-cetoacilCoA tiolase promove a reação da β-cetoacilCoA com uma coenzimaA para clivar a β-cetoacilCoA no segundo carbono, liberando acetilCoA e um acilCoA reduzido em dois carbonos (figura 12). O ciclo recomeça até que todo o ácido graxo seja transformado em moléculas de acetilCoA. Para o palmitato (na forma de palmitoilCoA), com 16 carbonos, são necessários 7 ciclos destas 4 reações enzimáticas, onde um total de 8 moléculas de acetilCoA são produzidas. http://www.supermusculo.com/ Bioquímica Básica 155 Figura 12: Inicio da oxidação de ácidos graxos. Uma molécula de 16 carbonos, ativada com coenzimaA (palmitoilCoA) sofre ação de 4 enzimas para a remoção de um acetilCoA (em vermelho). Seis outras sequências destas reações liberam as outras sete moléculas de acetilCoA. Fonte: Lehninger, princípios de Bioquímica. Bioquímica Básica 156 Cada ciclo de oxidação do acilCoA gera 1 NADH, 1 FADH2 (ambos para a cadeia respiratória) e 1 acetilCoA (para ciclo de Krebs), no entanto o último ciclo gera 2 acetilCoA (o que é liberado do acilCoA após as 4 reações enzimáticas e o que sobra, que é outro acetilCoA). Usando novamente o palmitoilCoA como exemplo, os 7 NADH e 7 FADH2 produzidos conferem, na cadeia respiratória um total de 28 ATP. Com os 8 acetilCoA, são realizados 8 cíclos de Krebs, com produção de 8 ATP e liberação de 24 NADH e 8 FADH2. Estes NADH e FADH2 na cadeia respiratória conferem um total de 72 ATP. Somando todos estes ATP tem-se um total de 108 ATP, porém, como para ativar o ácido graxo, dois equivalentes de ATP foram utilizados, então o saldo energético obtido na oxidação completa do palmitoilCoA em CO2 e H2O é de 106 ATP. A oxidação de ácidos graxos pode ocorrer também em outra organela da célula, o peroxissomo. Nesta organela os ácidos graxos não são quebrados até o fim, mas somente até octanoilCoA (8C). Este então sai do peroxissomo com destino a mitocôndria para o término da oxidação. Outra diferença é que, na primeira etapa da sequencia de 4 reações enzimáticas para liberar acetilCoA, a enzima acilCoA desidrogenase dependente de FAD é substituída por uma enzima acilCoA oxidase, também dependente de FAD, porém os elétrons e prótons neste caso não são entregues em uma cadeia respiratória, mas sim para o O2, criando H2O2 (água oxigenada) que em seguida é rapidamente degradada à H2O e O2 pela enzima catalase, presente no próprio peroxissomo. Comparando o saldo energético de um palmitoilCoA, que foi totalmente oxidado na mitocôndria, com um palmitoilCoA que foi encurtado até octanoilCoA no peroxissomo para depois terminar a oxidação na mitocôndria, obtém-se 6 ATP a menos quando o peroxissomo atua na oxidação, pois 4 FADH2 deixarão de entregar elétrons e prótons na cadeia respiratória. Bioquímica Básica 157 Corpos cetônicos Em condições normais, onde o organismo contém açúcares para oxidação, a velocidade de oxidação de ácidos graxos é muito baixa. Quando o nível de glicose do sangue assim como o de glicogênio hepático e muscular está baixo, a velocidade de oxidação dos ácidos graxos no músculo e fígado aumenta. Em certas condições como diabetes mal controlada, dieta mal elaborada ou jejum muito longo, onde o nível de açúcar é normalmente muito baixo, ocorre aumento na quebra de triglicerídeos no tecido adiposo (será detalhado ao longo da unidade) com posterior mobilização de ácidos graxos para o sangue com destino aos músculos para obtenção de energia. Da mesma forma, a velocidade de oxidação de ácidos graxos no fígado também aumenta. Tudo isso é extremamente controlado e coordenado de modo que enquanto ácidos graxos vão nutrindo músculos, glicerol (oriundo da quebra dos triglicerídeos) migra do tecido adiposo para o fígado e é usado na gliconeogênese a fim de se tentar restabelecer a glicemia. Oxaloacetato no fígado também pode ser usado na gliconeogênese, ficando indisponível para ciclo de Krebs e assim o excesso de acetilCoA produzido no fígado à partir da oxidação de ácidos graxos é usado na formação de moléculas chamadas corpos cetônicos. Os corpos cetônicos são formados em mitocôndrias de fígado e rim e são uma imprescindível fonte de energia para músculos e cérebro. Na ausência de açúcar, a fonte de energia para o cérebro é basicamente corpo cetônico, uma vez que muito pouco ácido graxo chega neste órgão devido à barreira hematoencefálica. A síntese de corpos cetônicos ocorre na matriz da mitocôndria e se inicia com a união de duas moléculas de acetil-CoA formando acetoacetil-CoA em reação catalisada pela enzima β-cetotiolase. Em seguida o acetoacetilCoA é condensado com outro acetilCoA formando hidroximetilglutarilCoA (HMG-CoA) pela ação da enzima HMG-CoA sintase. O HMG-CoA então sofre clivagem através da enzima HMG-CoA liase, liberando um acetilCoA e acetoacetato (corpo cetônico). Uma fração do acetoacetato é espontaneamente descarboxilado e convertido em acetona (corpo cetônico) que é liberada pelas vias aéreas na expiração e faz parte da halitose característica de pessoas em jejum longo como, por exemplo, mendigos Bioquímica Básica 158 além de ser útil no diagnóstico da diabetes. Outra fração é reduzida à β- hidroxibutirato (corpo cetônico) em ação catalisada pela enzima β-hidroxibutirato desidrogenase (figura 15). Até 25% do NADH produzido durante a oxidação de ácidos graxos é usado na produção de β-hidroxibutirato. Ambos acetoacetato e β-hidroxibutirato saem do fígado e rim para uso em outros tecidos, principalmente cérebro que já começa a usar corpos cetônicos a partir do segundo dia de jejum. Músculos (principalmente cardíaco) consomem ácidos graxos e corpos cetônicos no inicio do jejum, mas à medida que o jejum prossegue, diminuem o consumo de corpos cetônicos para que estes sejam metabolizados somente no cérebro. O consumo se dá seguinte maneira: o β-hidroxibutirato a chegar aos tecidos é convertido em acetoacetato pela mesma enzima que faz o passo inverso (a β- hidroxibutirato desidrogenase). Todo acetoacetato então é convertido em acetoacetilCoA por ação da enzima tioforase, que transfere a coenzimaA da succinilCoA (um intermediário do ciclo de Krebs) liberando succinato. Por último a enzima cetotiolase transfere uma coenzimaA para o acetoacetilCoA a convertendo em 2 acetilCoA que entram no ciclo de Krebs (figura 13). A enzima tioforase não está presente no fígado, assim, os corpos cetônicosproduzidos não podem ser usados pelo próprio órgão. Bioquímica Básica 159 Figura 13: Formação e utilização de corpos cetônicos. Em A, a formação dos corpos cetônicos acetona, acetoacetato e β-hidroxibutirato no fígado a partir do excesso de acetilCoA. Em B, a utilização de acetoacetato e β-hidroxibutirato como combustível principalmente em músculos e cérebro. Fonte: Lehninger, princípios de Bioquímica. A oxidação de ácidos graxos no fígado depende da concentração de CoenzimaA livre na matriz das mitocôndrias hepáticas. Como existe uma quantidade limitada de Bioquímica Básica 160 coenzimaA, a formação de corpos cetônicos é importante não só como combustível energético, mas também para liberar a coenzimaA e obrigar o fígado a continuar oxidando ácidos graxos. O uso dos corpos cetônicos como combustível energético parece ser uma solução para o jejum severo ou a diabetes, mas o aumento de corpos cetônicos no sangue leva a um quadro de acidose (o corpo cetônico ao sair do fígado leva um H+) que pode ser fatal, assim faz-se necessário o restabelecimento da glicemia, seja pela gliconeogênese ou através da alimentação. Síntese de ácidos graxos e de triglicerídeos Os ácidos graxos são sintetizados em diferentes tecidos, mas principalmente em fígado, tecido adiposo e glândulas mamárias em lactação, a partir do excesso de acetilCoA proveniente da glicose ingerida acima da necessária para a produção de energia e para a síntese do glicogênio. Como a maioria dos ácidos graxos sintetizados vão para a síntese de triglicerídeos, existe uma relação direta entre consumo excessivo de açúcar e obesidade. Os ácidos graxos podem também ser usados para a síntese de fosfolipídios e para esterificar colesterol. Degradação de triglicerídeos A fonte de triglicerídeos é o tecido adiposo. A degradação de triglicerídeos é mediada por lipases que vão liberando sequencialmente os três ácidos graxos de cada triglicerídeo (figura 14). Estes ácidos graxos vão então para o sangue, se ligam à proteína albumina (pois precisam ser transportados na forma de lipoproteínas) e são transportados principalmente para músculos e córtex renal para serem usados na produção de energia. O glicerol resultante da quebra do triglicerídeo pode, no próprio adiposo, ser fosforilado a glicerol 3-fosfato pela enzima glicerol quinase. Em seguida, por ação das enzimas glicerol 3-fosfato desidrogenase dependente de NAD+ e triose fosfato isomerase, o glicerol 3-fosfato se converte em gliceraldeído 3- Bioquímica Básica 161 fosfato com produção de NADH + H+. O gliceraldeído entra na via glicolítica para produção de energia. Como explicado anteriormente, o glicerol pode também ir para o sangue com destino ao fígado para ser usado na gliconeogênese. Figura 14: Hidrólise de triglicerídeos. Lípases removem sequencialmente os ácidos graxos dos triglicerídeos os separando do glicerol. Fonte: www.scielo.br, acesso em 12/11/2014. http://www.scielo.br/ Bioquímica Básica 162 Síntese de lipídios de membrana Os lipídios de membrana são os fosfolipídios (glicerofosfolipídios e esfingolipídios) e esteróis. Os glicerofosfolipídios sintetizados são a fosfatidiletanolamina, a fosfatidilcolina, a fosfatidilserina, o fosfatidilinositol, o fosfatidilglicerol e a cardiolipina. Os esfingolipídios sintetizados são a esfingomielina, os cerebrosídeos, os globosídeos e os gangliosídeos. Com exceção de hemácias maduras, todas as células humanas sintetizam fosfolipídios e esteróis, inclusive todos os seres vivos do planeta. Já a síntese de esteróis ocorre somente nos eucariontes. A síntese de glicerofosfolipídios ocorre nas membranas do retículo endoplasmático. A síntese de esfingolipídios ocorre também no retículo endoplasmático, com abundância em neurônios e hemácias jovens e depende da formação inicial da ceramida, derivada da esfingosina, um aminoálcool de cadeia longa . Colesterol, o esterol das células animais é produzido por praticamente todas as células humanas, com exceção das hemácias, mas a sua produção é muito maior no fígado, intestino e tecidos reprodutores como ovários, testículos e placenta. Para produzir colesterol, é necessário acetilCoA. Este pode vir do piruvato, da oxidação de ácidos graxos, da oxidação de alguns aminoácidos (será detalhado na próxima unidade) ou a partir de acetato. O colesterol pode ser esterificado para armazenamento no fígado (geralmente é esterificado com ácidos graxos insaturados) ou para transporte em VLDLs, pode ser convertido em sais biliares, vitamina D e hormônios esteróides. Bioquímica Básica 163 Leitura complementar DEVLIN, T. Manual de bioquímica com correlações clínicas. Edgard Blucher, 2007. HARPER, H. A. Bioquímica. Atheneu, 2002. LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. Worth publishers, 2006. STRYER, L. Bioquímica. Guanabara Koogan, 2004. VOET, D., VOET, J.G., PRATT, C.W. Fundamentos de Bioquímica. Artmed, 2002. É HORA DE SE AVALIAR! Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de ensino-aprendizagem. Bioquímica Básica 164 Exercícios – Unidade 4 1. Os lipídios são: a) Os compostos energéticos consumidos preferencialmente pelo organismo b) Mais abundantes na composição química dos vegetais do que na dos animais c) Substâncias insolúveis na água, mas solúveis nos chamados solventes orgânicos (álcool, éter, benzeno) d) Presentes como fosfolipídios no interior da célula, mas nunca na estrutura da membrana plasmática e) Moléculas bem diferentes de hidrocarbonetos 2. O excesso de corpos cetônicos em presença de baixa glicose sanguínea é comum, principalmente em hipoglicemia induzida por jejum. Além disso, os corpos cetônicos: a) São formados pelo excesso de propionilCoA obtido dos ácidos graxos de cadeia impar b) São sintetizados no tecido muscular c) São escassos em pessoas diabéticas d) São sintetizados quando a degradação de ácidos graxos é interrompida e) São sintetizados no fígado e enviados para o cérebro para servir de alimento, substituindo temporariamente a glicose Bioquímica Básica 165 3. Um rapaz jovem chega a um consultório para uma indicação dietética com o seguinte histórico médico: cansaço intenso, dificuldade em realizar exercícios, ganho de peso contínuo e uma biopsia revelando um elevado depósito de triglicerídeos nas células musculares. O diagnóstico é que ele apresenta uma diminuição exagerada na quantidade de carnitina intramuscular. Sendo assim, este paciente apresenta: a) Dificuldade de sintetizar e degradar glicogênio muscular b) Excesso de creatina nas células musculares c) Excesso de corpos cetônicos nas células musculares d) Dificuldade de produzir glicose pela gliconeogênese e) Dificuldade de transporte de ácidos graxos de cadeia longa para dentro da mitocôndria das células musculares 4. Um laboratório de Bioquímica recebeu uma amostra de ácido graxo contendo mais de uma ligação dupla entre seus carbonos. Pode-se dizer sobre o composto: a) Monoinsaturado b) Saturado c) Poliinsaturado d) Glicídico e) Proteico Bioquímica Básica 166 5. Um dos mecanismos abaixo NÃO contribui para a redução dos níveis de colesterol no sangue. a) Dieta com altos níveis de ácidos graxos insaturados b) Dieta com altos níveis de ácidos graxos saturados c) Dieta com altos níveis de fibras d) Dieta com altos níveis de fitoesteróis e) Drogas da família das vastatinas 6. A revista Veja - edição 1858 - ano 37 - nº 24, de 16 de junho de 2004, em sua matéria de capa, destaca: "Um santo remédio? Eficazes para baixar o colesterol, as estatinas já são as drogas mais vendidas no mundo". No conteúdo da matéria, as articulistasAnna Paula Buchalla e Paula Neiva discorrem sobre os efeitos desta nova droga no combate seguro aos altos níveis de colesterol. Sobre o colesterol, analise as proposições abaixo: I. O colesterol é um dos mais importantes esteróis animais, produzido pelo fígado ou obtido na dieta. II. O colesterol participa da composição química da membrana das células animais, além de atuar como precursor de hormônios, como a testosterona e a progesterona. III. Quando atinge baixos níveis no sangue, o colesterol contribui para a formação de placas de ateroma nas artérias, provocando-lhes um estreitamento. IV. Há dois tipos de colesterol: O LDL e o HDL. O primeiro é o "colesterol bom", que remove o excesso de gordura da circulação sangüínea. Bioquímica Básica 167 Assinale a alternativa correta: a) Apenas as proposições I e III são corretas b) Apenas as proposições II e IV são corretas c) Apenas as proposições I e II são corretas d) Apenas as proposições I, III e IV são corretas. e) Todas as proposições são corretas 7. Defende-se que a inclusão da carne bovina na dieta é importante por ser uma excelente fonte de proteínas. Por outro lado, pesquisas apontam efeitos prejudiciais que a carne bovina traz à saúde, como o risco de doenças cardiovasculares. Devido aos teores de colesterol e de gordura, há quem decida substituí-la por outros tipos de carne, como a de frango e a suína. O quadro abaixo apresenta a quantidade de colesterol em diversos tipos de carne crua e cozida. Alimento Colesterol (mg/100g) cru cozido Carne de frango (branca) sem pele 58 75 Carne de frango (escura) sem pele 80 124 Pele de frango 104 139 Carne suína (bisteca) 49 97 Carne suína (toucinho) 54 56 Carne bovina (contrafilé)) 51 66 Carne bovina (músculo) 52 67 Revista PRO TESTE, N.º54, dez./2006 (com adaptações) Bioquímica Básica 168 Com base nessas informações, avalie as afirmativas a seguir. I. O risco de ocorrerem doenças cardiovasculares por ingestões habituais da mesma quantidade de carne é menor se esta for carne branca de frango do que se for toucinho. II. Uma porção de contrafilé cru possui, aproximadamente, 50% de sua massa constituída de colesterol. III. A retirada da pele de uma porção cozida de carne escura de frango altera a quantidade de colesterol a ser ingerida. IV. A bisteca é a carne mais alterada percentualmente no teor de colesterol após o cozimento. É correto apenas o que se afirma em: a) I e II b) I e III c) II e III d) II e IV e) III e IV 8. O saldo energético obtido na oxidação completa do palmitoilCoA: a) 106 ATP b) 120 ATP c) 134 ATP d) 150 ATP e) 166 ATP Bioquímica Básica 169 9. A tabela abaixo expressa a composição em ácidos graxos de dois tipos de triglicerídeos alimentares. Percentagem de ácidos graxos Triglicerídeo Saturados Monoinsaturados Polinsaturados A 60 36 4 B 14 24 62 Faça uma previsão do estado físico de cada tipo de triglicerídeo à temperatura ambiente, de acordo com a composição de seus ácidos graxos, justificando sua escolha. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 10. Pode-se afirmar que a utilização dos ácidos graxos como combustíveis gera equivalentes de redução para a cadeia respiratória em dois momentos metabólicos distintos. Que momentos são estes? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Bioquímica Básica 170 5 Metabolismo de proteínas Bioquímica Básica 171 Nesta unidade vamos entender acerca do metabolismo das proteínas, a utilização dos aminoácidos na produção de energia e a excreção de compostos nitrogenados. Objetivos da Unidade Identificar os processos de digestão das proteínas da dieta; Mostrar a absorção dos aminoácidos; Caracterizar a liberação da amônia na forma de ureia; Entender o catabolismo dos aminoácidos. Plano da Unidade Digestão de proteínas e absorção de aminoácidos. Catabolismo de aminoácidos. Ciclo da ureia. Catabolismo de aminoácidos individuais Bons estudos! Bioquímica Básica 172 Digestão de proteínas e absorção de aminoácidos Já foi explicado em outra unidade que as proteínas são as macromoléculas com o maior número de funções celulares. As proteínas são quebradas por enzimas presentes no estômago e intestino delgado. Quando proteínas da dieta chegam ao estômago, células da mucosa estomacal secretam o hormônio gastrina, que por sua vez estimula a produção de ácido clorídrico (HCl) e o pepsinogênio (a forma inativa da enzima pepsina) por outras células estomacais. O HCl é um desnaturante, desestruturando as proteínas. O pepsinogênio, por ação autocatalítica, se converte em pepsina e inicia a hidrólise das proteínas nas ligações peptídicas do lado amino dos aminoácidos tirosina, triptofano e fenilalanina. Como a pepsina reconhece somente estes três aminoácidos, as proteínas são quebradas em peptídios que vão em seguida para o intestino delgado. No intestino delgado, existe uma enzima aminopeptidase que reconhece ligações peptídicas no lado amino destes peptídios. No entanto, como a aminopeptidase não é suficiente para converter os peptídios em aminoácidos livres, esses peptídios, assim que chegam ao intestino delgado, estimulam algumas células intestinais a liberar o hormônio colecistoquinina, que estimula o pâncreas a liberar várias enzimas digestivas para o intestino (existe uma conexão intestino-pâncreas chamada duto pancreático). As enzimas são liberadas do pâncreas na forma inativa (quimiotripsinogênio, tripsinogênio, pró-carboxipeptidase A, pró-carboxipeptidase B e pró-elastase) e, no intestino delgado se convertem na forma ativa (quimiotripsina, tripsina, carboxipeptidase A, carboxipeptidase B e elastase). Assim como a pepsina, cada uma destas enzimas reconhece ligações peptídicas de aminoácidos específicos, seja no lado amino seja no lado carbonila dos aminoácidos, assim os peptídios resultantes da quebra parcial das proteínas no estômago são finalmente convertidos em aminoácidos livres. Assim como foi descrito para a absorção dos monossacarídeos, os aminoácidos também são levados do lúmen para o epitélio intestinal acoplado a sódio e em seguida liberados para o sangue por proteínas transportadoras de aminoácidos. Bioquímica Básica 173 Para cada aminoácido existe um transportador específico tanto na superfície do epitélio intestinal voltada para o lúmen quanto na superfície voltada para o sangue. Como descrito em outra unidade, os aminoácidos podem também ser classificados como naturais (não essenciais) e essenciais, onde os naturais são os aminoácidos produzidos pelo organismo e os essenciais não são produzidos pelo organismo, portanto precisam ser adquiridos na alimentação. A partir do NO3 os vegetais produzem todos os 20 tipos de aminoácidos que formam as proteínas. Os humanos produzem somente 11 (alanina, arginina, asparagina, aspartato, cisteina, glicina, glutamato, glutamina, prolina, serina e tirosina) do total de 20 aminoácidos. Assim, muitos dos aminoácidos obtidos da dieta já são naturalmente produzidos no corpo humano. Esta unidade não tem como objetivo apresentar as rotas enzimáticas para a biossíntese de aminoácidos nos animais, a não ser em algumas vias metabólicas onde, durante o catabolismo, um aminoácido pode ser convertido em outro. BioquímicaBásica 174 Catabolismo de aminoácidos Os aminoácidos na corrente sanguínea chegam a todos os tecidos, principalmente músculos e fígado. Nestes órgãos a principal utilização dos aminoácidos é para a síntese de proteínas, uma vez que as células dependem da produção de diferentes tipos de proteínas (estruturais, transportadoras, imunológicas, contráteis, enzimas, hormônios etc.). No entanto, se a ingestão de aminoácidos for superior às necessidades do organismo, o excesso de aminoácidos é oxidado para a produção de energia (catabolismo de aminoácidos). Na degradação normal das proteínas, alguns aminoácidos liberados podem também sofrer oxidação, assim como em diversas situações, incluindo exercício físico intenso, jejum prolongado e no diabetes, no qual oxidação de aminoácidos normalmente ocorre. No jejum e no diabetes, como o nível de açúcar está baixo, gliconeogênese e produção de corpos cetônicos no fígado acabam ocorrendo em paralelo ao uso dos aminoácidos como combustível energético. Quando os aminoácidos chegam às células hepáticas, uma maior parte é então utilizada na síntese de proteínas. Outra fração de aminoácidos sofre remoção de grupos amino (desaminação) gerando os chamados α-cetoácidos que podem sofrer oxidação na mitocôndria para a produção de energia. Esta reação, catalisada por enzimas aminotransferases (ou transaminases) transfere o grupamento amino do aminoácido para uma molécula, o α-cetoglutarato (um cetoácido e um intermediário do ciclo de Krebs), gerando glutamato e o α-cetoácido correspondente ao aminoácido que perdeu a amina (figura 1).. Bioquímica Básica 175 A transaminação é a reação mais comum envolvendo aminoácidos, mas poucos aminoácidos, como serina, treonina e lisina não participam de reações de aminotransferases. Além disso, a arginina, glutamina e asparagina participam indiretamente em processos de transaminação, quando liberam suas aminas e se convertem respectivamente em ornitina, glutamato e aspartato, estes que então podem participar em processos de transaminação. Figura 1: Metabolismo dos grupos amino. Os grupamentos amino dos aminoácidos são transferidos, por ação das aminotransferases, para o α- cetoglutarato formando glutamato. O aminoácido que perde o amino se transforma no α-cetoácido correspondente. Fonte: Lehninger, princípios de Bioquímica. Bioquímica Básica 176 Esta reação, que ocorre no citoplasma das células, tem o objetivo de coletar os grupamentos amino dos diferentes aminoácidos para formar o glutamato. O glutamato migra para o interior da mitocôndria, onde é novamente convertido em α-cetoglutarato (seu α-cetoácido) por ação da enzima glutamato desidrogenase dependente de NAD + ou NADP + , liberando amônia (figura 2). O α-cetoglutarato pode entrar no ciclo de Krebs ou ser usado na gliconeogênese. A amônia é convertida em ureia parta ser excretada pelo rim na urina (será detalhada ao longo desta unidade). O glutamato, ao se tornar α-cetoglutarato pode também entregar sua amina para o oxaloacetato, onde este se transforma em aspartato. Neste caso, uma aminotransferase, ao invés da glutamato desidrogenase é requerida e isto é importante pelo fato do aspartato ser essencial no ciclo da ureia, uma vez que o aspartato da dieta não consegue entrar na mitocôndria para ser usado na produção da ureia. Figura 2: A reação catalisada pela enzima glutamato desidrogenase. Fonte: LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. Bioquímica Básica 177 Quando os aminoácidos chegam às células dos tecidos extra-hepáticos, o objetivo é o mesmo do observado no fígado, onde a maioria dos aminoácidos é usada na síntese de proteínas e uma pequena fração sofre remoção de grupos amino, por aminotransferases, gerando α-cetoácidos para oxidação na mitocôndria. O aceptor dos grupamentos amino é também o α-cetoglutarato formando glutamato. Como somente o fígado usa as aminas na produção de ureia, as aminas removidas dos aminoácidos e entregues ao α-cetoglutarato precisam chegar ao fígado. Assim, o glutamato é convertido em glutamina por ação da enzima glutamina sintetase dependente de ATP, que, em dois passos, produz um intermediário fosforilado (γ-glutamilfosfato) e depois combina uma amônia a este intermediário, formando a glutamina (figura 3). Esta amônia pode vir de vários processos, como por exemplo, degradação de nucleotídeos. A glutamina vai para o sangue com destino as mitocôndrias das células hepáticas e lá, por ação da enzima glutaminase, volta a ser glutamato, liberando amônia para a síntese de ureia (figura 3). O rim também tem na mitocôndria das suas células uma glutaminase. Esta atua nas glutaminas que, do sangue, entram nas células renais, gerando glutamato e amônia. Isto explica a excreção de amônia pelo rim juntamente com a ureia na urina, estando o aumento de amônia na urina diretamente relacionado com o excesso de glutamina na dieta. Em situações de acidose sanguínea, a glutamina liberada de tecidos extra-hepáticos vai mais para o rim do que para o fígado. Isto ocorre porque a formação de ureia usando a amônia liberada da glutamina requer bicarbonato (será detalhada ao longo da unidade), assim o bicarbonato, ao invés de ser usado na síntese de ureia, é usado para corrigir o pH sanguíneo. Em compensação, este desvio de rota aumenta o nível de amônia na urina, uma vez que o rim não consegue produzir ureia com estas amônias. Apesar da pequena excreção de amônia, os mamíferos, incluindo os seres humanos são considerados ureotélicos (cuja produção e excreta nitrogenada são a ureia). Bioquímica Básica 178 Figura 3: A reação catalisada pela enzima glutamina sintetase. Fonte: LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. Bioquímica Básica 179 Por mecanismos ainda não esclarecidos, a amônia é extremamente tóxica para os animais, por isto precisa ser excretada diretamente pelo rim, ou convertida em ureia no fígado. Parece que o excesso de amônia leva a uma drástica diminuição no nível de ATP principalmente no cérebro, pela redução no ciclo de Krebs, comprometendo diversos processos incluindo a transmissão do impulso nervoso. Os mamíferos também podem excretar pela urina, mesmo que em pequenas quantidades, ácido úrico. A formação de ácido úrico ocorre durante o metabolismo de nucleotídeos. O cérebro é o principal órgão afetado pelo excesso da produção de amônia e ácido úrico, no entanto o rim também é bastante afetado pelo excesso de ácido úrico que se deposita nos túbulos renais e provoca inflamação, além de cálculos renais. Além da glutamina, os tecidos extra-hepáticos, principalmente os músculos, usam também outro aminoácido, a alanina, para o transporte de aminas do sangue para o fígado. Neste caso, o glutamato, ao invés de formar glutamina, entrega sua amina para o piruvato e este se torna alanina. A alanina, ao chegar ao fígado, volta a ser piruvato (seu α-cetoácido), através da transferência da sua amina para o α- cetoglutarato, formando glutamato, que pode entrar na mitocôndria e, por ação da enzima glutamato desidrogenase, liberar a amina na forma de amônia para a formação de ureia. O piruvato pode ser usado na gliconeogênese. O resumo do catabolismo de aminoácidos para a produção de energia e para a síntese de ureia, interligando fígado e tecidos extra-hepáticos, encontra-se na figura 4. Bioquímica Básica 180 Figura 4: Interligação do catabolismo de aminoácidos no fígado e em tecidos extra-hepáticos. Fonte: LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. . Bioquímica Básica 181 Ciclo da ureia O ciclo da ureia é o mecanismo de excreção de nitrogênio adotado poralgumas células animais, incluindo os seres humanos. A síntese da ureia ocorre somente nas células hepáticas e se inicia na matriz da mitocôndria com a união de amônia e bicarbonato para formar o carbamil fosfato em reação catalisada pela enzima carbamil fosfato sintetase I, com gasto de 2 ATP. Em seguida, o grupo carbamil do carbamil fosfato se condensa com a molécula ornitina, gerando a citrulina em reação catalisada pela enzima ornitina transcarbamilase. A citrulina vai para o citoplasma e, por ação da enzima argininosuccinato sintase, recebe uma amina do aspartato (formada por transaminação do glutamato, descrita anteriormente), se convertendo em argininosuccinato. A reação envolve a conversão de ATP em AMP + PPi, o que equivale a hidrólise de duas moléculas de ATP. Clivagem de argininosuccinato pela enzima argininosuccinato liase produz fumarato (intermediário do ciclo de Krebs) e arginina. Por último, a arginina é hidrolisada pela enzima arginase, produzindo ornitina e ureia (figura 5). O cíclo da ureia requer então energia, com gasto equivalente de quatro moléculas de ATP. Bioquímica Básica 182 Figura 5: O ciclo da ureia. Passos 1 e 2, catalisados respectivamente pelas enzimas carbamil fosfato sintetase I e ornitina transcarbamilase, ocorrem na mitocôndria. Os três passos seguintes, catalisados respectivamente pelas enzimas argininosuccinato sintase, argininosuccinato liase e arginase ocorrem no citoplasma e terminam a síntese da ureia. Proteínas transportadoras na membrana interna da mitocôndria funcionam transportando a citrulina da mitocôndria para o citoplasma e a ornitina do citoplasma para a matriz da mitocôndria. Fonte: www.desenvolvimentovirtual.com, acesso em 19/11/2014. http://www.desenvolvimentovirtual.com/ Bioquímica Básica 183 A ureia é liberada do fígado com destino ao rim. A maior parte da ureia chega ao rim, mas uma pequena fração difunde-se do fígado ao intestino onde sofre ação de bactérias que clivam a ureia em CO2 e NH4 + . Esta amônia pode ser reabsorvida ou fazer parte das fezes. A ornitina volta para a matriz da mitocôndria para reiniciar um novo ciclo da ureia. O fumarato produzido anteriormente pode ser convertido tanto no citoplasma quanto na mitocôndria em malato e em seguida em oxaloacetato, uma vez que as enzimas que catalisam as reações (fumarase e malato desidrogenase) ocorrem nos dois compartimentos celulares. O oxaloacetato pode ser novamente convertido em aspartato para um novo ciclo da ureia, ou então ser usado na gliconeogênese. Assim o ciclo de Krebs e o ciclo da ureia estão interligados, sendo referido como bicicleta de Krebs (figura 6). Figura 6: Interligação entre o ciclo de Krebs e o ciclo da ureia. Fonte: LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. Bioquímica Básica 184 Catabolismo de aminoácidos individuais A maioria dos aminoácidos, que são convertidos nos seus cetoácidos correspondentes, assim como os poucos que não participam das reações de transaminação, converge para formar cinco produtos, entrando no ciclo de Krebs. A partir daí podem ser usados na gliconeogênese, na formação de corpos cetônicos ou serem oxidados para a produção de energia. Os aminoácidos utilizados na síntese de glicose são chamados de glicogênicos e os usados na formação dos corpos cetônicos são chamados de cetogênicos. Seis aminoácidos (triptofano, lisina, leucina, isoleucina, fenilalanina e tirosina) são convertidos em acetilCoA e/ou acetoacetilCoA, seis aminoácidos (alanina, serina, glicina, cisteína, treonina e triptofano) são convertidos em piruvato, cinco aminoácidos (arginina, histidina, glutamato, glutamina e prolina) são convertidos em α-cetoglutarato, quatro aminoácidos (metionina, isoleucina, treonina e valina) são convertidos em succinilCoA e dois aminoácidos (asparagina e aspartato) são convertidos em oxaloacetato. É importante observar que os aminoácidos triptofano, isoleucina e treonina são catabolisados e convertidos em dois produtos diferentes. Um resumo do metabolismo de todos os 20 aminoácidos, mostrando a entrada no ciclo de Krebs além dos envolvidos na formação de corpos cetônicos e na gliconeogênese se encontra na figura 7. O catabolismo dos aminoácidos leucina, isoleucina e valina (também conhecidos como BCAAs ou aminoácidos de cadeia lateral ramificada) é diferente dos demais pelo fato destes aminoácidos serem preferencialmente catabolizados nos músculos ao invés do fígado. A atividade das enzimas aminotransferases para estes três aminoácidos é muito maior no músculo que no fígado. Vários NADH e FADH2 são produzidos durante o catabolismo destes três aminoácidos até a formação de acetilCoA ou succinilCoA o que os tornam excelentes fontes de energia para o músculo. Desse modo, estes três aminoácidos ao entrar no fígado são usados para a síntese de proteínas, porém o excesso, por não ser praticamente catabolizado, sai do fígado e ao ser captado por músculos são catabolizados para a geração de energia. Bioquímica Básica 185 Os aminoácidos convertidos em acetilCoA e/ou acetoacetilCoA são cetogênicos porque acetoacetilCoA pode ser convertido nos corpos cetônicos acetona e β- hidroxibutirato. Os aminoácidos capazes de serem convertidos em piruvato, α- cetoglutarato, succinilCoA, fumarato e oxaloacetato podem ser usados para a gliconeogênese e, portanto, são glicogênicos. Porém, quatro aminoácidos (triptofano, fenilalanina, tirosina e isoleucina) são ao mesmo tempo cetogênicos e glicogênicos. Em algumas vias de catabolismo de aminoácidos o número de reações é tão grande que vários passos enzimáticos são omitidos. De um modo geral, o nível de ATP obtido por cada aminoácido varia de aproximadamente 10 a 20 ATP, portanto a contribuição dos aminoácidos para a energia do organismo existe, mas não é tão grande quando comparado com a energia fornecida por monossacarídeos ou ácidos graxos. Bioquímica Básica 186 Figura 7: Resumo do metabolismo de aminoácidos. A figura mostra os pontos de entrada dos aminoácidos no ciclo de Krebs. Os aminoácidos em azul são os cetogênicos, cujos produtos do catabolismo podem ser usados na formação dos corpos cetônicos. Os aminoácidos em vermelho são os glicogênicos cujos produtos do catabolismo podem ser usados na gliconeogênese. Quatro aminoácidos (fenilalanina, isoleucina, triptofano e tirosina) são tanto glicogênicos quanto cetogênicos. Leucina e lisina são exclusivamente cetogênicos. Fonte: LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. Bioquímica Básica 187 LEITURA COMPLEMENTAR: DEVLIN, T. M. (Coord.). Manual de Bioquímica com Correlações Clínicas. Trad. da 6. ed. americana. São Paulo: Edgard Blücher, 2007. HARPER, H. A. Bioquímica. São Paulo: Atheneu, 2002. LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. STRYER, L. Bioquímica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. VOET, D., VOET, J.G., PRATT, C.W. Fundamentos de Bioquímica. Porto Alegre: Artmed, 2002. É HORA DE SE AVALIAR! Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de ensino- aprendizagem. Bioquímica Básica 188 Exercícios – Unidade 5 1. Os aminoácidos alanina e leucina se convertem em acetilCoA para entrar no ciclo de Krebs, através dos intermediários: a) piruvato e malonilCoA b) piruvato e acetoacetilCoA c) propionil e enoilCoA d) aspartato e lactato e) 2-fosfoglicerato e fosfoenolpiruvato 2. A maioria dos tecidos é capaz de degradar os aminoácidos, mas só o fígado é capaz de produzir ureia. O nitrogênio proveniente dos aminoácidos degradados chega até o fígado através dos aminoácidos: a) serina e glicina b) metionina e serina c) glutaminae alanina d) metionina e glicina e) glutamina e glicina 3. Os cetoácidos produzidos a partir das transaminações dos aminoácidos aspartato, glutamato e alanina são respectivamente: a) oxaloacetato, -cetoglutarato e piruvato b) oxaloacetato, piruvato e -cetoglutarato c) piruvato, oxaloacetato e -cetoglutarato d) piruvato, -cetoglutarato e oxaloacetato e) -cetoglutarato, oxaloacetato e piruvato Bioquímica Básica 189 4. Todas as seguintes afirmativas são verdadeiras sobre aminoácidos de cadeia lateral ramificada (BCAA), exceto: a) são metabolizados primariamente nos músculos b) estes aminoácidos são a leucina, a lisina e a valina c) um deles é glicogênico, um é cetogênico e outro é classificado como ambos d) são essenciais na dieta e) entram no ciclo de Krebs através da acetilCoA e succinilCoA 5. Na formação da ureia a partir de amônia, todas as alternativas estão corretas exceto: a) aspartato fornece uma das aminas para a formação da ureia b) o ciclo da ureia consome ATP c) o ciclo da ureia está conectado ao ciclo de Krebs através do fumarato d) duas etapas são citoplasmáticas e três etapas são mitocôndriais e) a ureia é produzida no fígado e no rim 6. No catabolismo de aminoácidos, a entrada no ciclo de Krebs pode ocorrer em vários pontos do ciclo, incluindo: a) succinilCoA b) citrato c) malato d) succinato e) isocitrato Bioquímica Básica 190 7. Composto precurso da pepsina, a qual participa da digestão de proteínas: a) pepsinogênio b) tripsinogênio c) calistogênio d) fibrogênio e) coleatogênio 8. Aminoácidos glicogênicos são aqueles utilizados para a: a) síntese de glicogênio b) degradação do glicogênio c) glicólise d) síntese de glicose pela gliconeogênese e) síntese de qualquer glicídio 9. O esquema abaixo representa uma típica reação de transferência de grupo amino, catalizada por enzimas denominadas transaminases: aminoácido X + -cetoácido 1 -cetoácido 2 + aminoácido Y O -cetoácido 1 é frequentemente o -cetoglutarato, que gera glutamato (aminoácido Y) ao receber o grupo amino retirado do aminoácido transaminado. Responda, baseando-se em seus conhecimentos do catabolismo de aminoácidos: Bioquímica Básica 191 a) qual o destino do glutamato formado nas reações de transaminação no fígado? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ b) Dê um nome para o aminoácido X e para o -cetoácido 2. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 10. O plasma sanguíneo contém todos os aminoácidos necessários para a síntese protéica das proteínas corporais. Entretanto, estes não se apresentam em concentrações equivalentes, predominando alanina e glutamina. Sugira a razão para isso. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Bioquímica Básica 192 6 Integração do metabolismo energético Bioquímica Básica 193 Nesta unidade, vamos entender acerca da integração do metabolismo energético do organismo, com ênfase nos mamíferos, incluindo os seres humanos, a distribuição dos nutrientes nos diferentes órgãos e a participação dos hormônios no metabolismo. Objetivos da Unidade Compreender as estratégias de integração do metabolismo energético; Estudar o efeito dos hormônios hidrofílicos e hidrofóbicos no metabolismo; Identificar os órgãos atuantes no metabolismo integrado; Relacionar as três classes de nutrientes capazes de serem usados para obtenção de energia (carboidratos, lipídios e proteínas); Comparar o metabolismo nos estados de jejum e alimentado. Plano da Unidade Integração metabólica e o fígado Integração metabólica e o tecido muscular Integração metabólica e o tecido adiposo Integração metabólica e o cérebro Hormônios peptídeos, proteínas, derivados de aminoácidos e o metabolismo energético Hormônios de natureza lipídica e o metabolismo energético Ciclo jejum-alimentação Bons estudos! Bioquímica Básica 194 Integração metabólica e o fígado O fígado é o órgão que praticamente inicia toda a integração do metabolismo energético do organismo. A maioria dos monossacarídeos e aminoácidos da dieta, obtidos da digestão na boca, estômago e intestino delgado de moléculas maiores (oligossacarídeos, polissacarídeos e proteínas) chegam primariamente, via veia porta, ao fígado. Poucos monossacarídeos e aminoácidos vão diretamente da veia porta para a circulação sanguínea geral e então diretamente para tecidos como o muscular e renal, No caso dos ácidos graxos, estes, em lipoproteínas, chegam a sua maioria, diretamente do sistema linfático aos tecidos muscular e adiposo. A glicose, assim como outros monossacarídeos (frutose, galactose e manose) é transportada para dentro das células hepáticas pela proteína transportadora de membrana GLUT2, de modo independente de insulina. Estes monossacarídeos que chegam do intestino ao fígado são fosforilados respectivamente à glicose 6-fosfato, frutose 1-fosfato, galactose 1-fosfato e manose 6-fosfato. Frutose 1-fosfato e manose 6-fosfato são usados na via glicolítica. Galactose 1-fosfato é convertida, por algumas etapas enzimáticas em glicose 6-fosfato. Glicose 6-fosfato oriunda da glicose ou da galactose 1-fosfato pode ser usada em quatro diferentes rotas metabólicas: a glicose 6-fosfato pode simplesmente ser desfosforilada pela glicose 6-fosfatase e ir novamente ao sangue para nutrir outros órgãos; a glicose 6-fosfato pode, como a frutose 1-fosfato e manose 6-fosfato, ir para a via glicolítica e o acetilCoA formado após a descarboxilação do piruvato ir para ciclo de Krebs a fim de se obter energia, ou para a síntese de ácidos graxos e colesterol; a glicose 6-fosfato pode ser usada também na síntese de glicogênio e finalmente a glicose 6-fosfato pode ser usada na via das pentoses-fosfato (figura 1). Bioquímica Básica 195 Figura 1: Destinos da glicose 6-fosfato no fígado. (1) a glicose 6-fosfato pode ser desfosforilada pela glicose 6-fosfatase e ir para o sangue para nutrir outros órgãos. (2) a glicose 6-fosfato pode ser usada na síntese de glicogênio. (3) a glicose 6-fosfato pode, como a frutose 1-fosfato e manose 6-fosfato, ir para a via glicolítica e o acetilCoA formado ir para ciclo de Krebs a fim de se obter energia, ou (4) para a síntese de ácidos graxos e colesterol. (5) a glicose 6-fosfato pode ser usada na via Bioquímica Básica 196 das pentoses-fosfato. Fonte:LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. Ácidos graxos que chegam do intestino em lipoproteínas, entram nas células hepáticas por difusão e podem ser utilizados na β-oxidação. Os acetilCoA produzidos podem ser usados para gerar ciclo de Krebs para obtenção de energia, para a formação de colesterol ou para a formação de corpos cetônicos. A produção de corpos cetônicos é comum em situações de baixa concentração de açúcares no organismo, uma vez que serve de combustível para músculos e principalmente cérebro, este último, que na ausência de monossacarídeos, não usa ácidos graxo como combustível energético imediato,como fazem os músculos. Os ácidos graxos podem também ser usados na síntese de triglicerídeos e fosfolipídios. Uma fração dos triglicerídeos, fosfolipídios e colesterol é usada na formação de lipoproteínas que vão para o sangue com destino aos diferentes órgãos. Outra parte é usada pelo próprio órgão, tanto para energia quanto para formação de suas membranas. Uma parte dos ácidos graxos pode ir diretamente para o sangue e serem transportados ligados à albumina plasmática (figura 2). Bioquímica Básica 197 Figura 2: Destinos dos ácidos graxos do fígado. (1) ácidos graxos podem ser usados na síntese de triglicerídeos e fosfolipídios. (2) ácidos graxos podem ser utilizados na β-oxidação. (3) ácidos graxos podem ser usados para a formação de corpos cetônicos ou (4) para a formação de colesterol. (5) ácidos graxos podem ser usados, juntamente com fosfolipídios e colesterol na formação de lipoproteínas. (6) ácidos graxos podem ir diretamente para o sangue e serem transportados ligados à albumina plasmática. Fonte: Bioquímica Básica 198 LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. Aminoácidos que chegam do intestino entram nas células hepáticas através de transportadores de membrana específicos para cada aminoácido e são usados primariamente na síntese de proteínas. Uma parte dos aminoácidos volta para o sangue para nutrir outros órgãos. Os aminoácidos podem também ser usados na síntese de outros compostos nitrogenados como nucleotídeos. Além disso, os aminoácidos podem também ser desaminados para que seus α-cetoácidos correspondentes possam ser usados no ciclo de Krebs para a produção de energia, na gliconeogênese, na síntese de ácidos graxos (para a produção de triglicerídeos e fosfolipídios), na síntese de colesterol ou na síntese de corpos cetônicos. Além da produção dos corpos cetônicos, a gliconeogênese também é comum em situações de baixa concentração de açúcares no organismo. Juntamente com os α-cetoácidos, a amônia produzida no metabolismo de aminoácidos é convertida em ureia e liberada para o rim para excreção. Os aminoácidos alanina e glutamina que chegam dos tecidos periféricos ao fígado podem ser também desaminados e seus α- cetoácidos correspondentes usados na gliconeogênese, na síntese de corpos cetônicos e em menor grau, na produção de energia (figura 3). Bioquímica Básica 199 Figura 3: Destinos dos aminoácidos do fígado. (1) aminoácidos são usados primariamente na síntese de proteínas. (2) uma parte dos aminoácidos volta para o sangue para nutrir outros órgãos. (3) aminoácidos podem ser usados na síntese de diferentes compostos nitrogenados. (4) aminoácidos podem ser desaminados para que seus α-cetoácidos correspondentes possam ser usados (4a) na gliconeogênese, (4b) no ciclo de Krebs para a produção de energia, (4c) na síntese de ácidos graxos, triglicerídeos, fosfolipídios e colesterol e (4d) a amônia produzida no metabolismo Bioquímica Básica 200 de aminoácidos é convertida em ureia. (5) aminoácidos podem ser usados na gliconeogênese. Integração metabólica e o tecido muscular O tecido muscular usa monossacarídeos, ácidos graxos e corpos cetônicos como combustíveis energéticos. Boa parte da glicose e ácidos graxos chega aos músculos diretamente da dieta. Uma parte da glicose que chega ao músculo é proveniente da gliconeogênese hepática assim como os corpos cetônicos que também são oriundos do fígado. No entanto, como explicado anteriormente, gliconeogênese e corpos cetônicos ocorrem em condições de baixa concentração de açúcares no organismo. Uma parte dos ácidos graxos chega ao músculo via lipoproteínas produzidas no fígado. A glicose é transportada para o interior das células musculares pelo transportador de membrana GLUT4, de modo dependente de insulina. Sem insulina circulante no sangue, GLUT4 está em vesículas no citoplasma e, portanto não está na membrana para promover a captação de glicose. Outros transportadores de membrana para monossacarídeos existem na membrana das células musculares para o transporte de frutose, galactose e manose. Uma quantidade significativa da glicose muscular é usada na síntese de glicogênio que será uma reserva conveniente de glicose a ser usada em diversas condições como atividade física ou jejum. Pouco triglicerídeo é também produzido a partir dos ácidos graxos e usado como reserva de energia. Em condições basais, quando o músculo esquelético está em repouso, o mesmo obtém energia geralmente da oxidação dos ácidos graxos e em menor grau da oxidação de monossacarídeos aerobicamente. No entanto, o músculo esquelético em atividade intensa obtém energia principalmente da oxidação de monossacarídeos tanto aerobicamente, pelo ciclo de Krebs e cadeia respiratória quanto anaerobicamente gerando como produto final o lactato, uma vez que o sangue não consegue fornecer oxigênio suficiente para o ATP que precisa ser produzido na atividade intensa. O lactato vai para o fígado para ser usado na gliconeogênese. Além disso, o músculo esquelético contém uma quantidade Bioquímica Básica 201 relativamente grande de creatina na forma de creatina-fosfato que rapidamente sintetiza ATP no músculo em esforço prolongado. Os músculos liso e cardíaco apresentam uma pequena diferença em relação ao esquelético por praticamente não metabolizar monossacarídeos anaerobicamente e por conter menos creatina-fosfato. Aminoácidos que chegam do fígado aos músculos são usados primariamente na síntese de proteínas, porém uma quantidade significativa destes aminoácidos (principalmente leucina, isoleucina e valina, que fazem parte dos BCAA) podem ser desaminados e os α-cetoácidos correspondentes usados no ciclo de Krebs para a produção de energia. Em condições de baixa concentração de açúcar ou no esforço muscular prolongado, além do uso dos ácidos graxos e dos corpos cetônicos como combustível energético, pode haver degradação de proteínas no músculo, levando ao aumento do uso de aminoácidos para gerar energia. Integração metabólica e o tecido adiposo O tecido adiposo metaboliza primariamente monossacarídeos para obtenção de energia, principalmente a glicose, seu principal combustível energético. A glicose é transportada para as células do tecido adiposo também pelo transportador de membrana GLUT4 dependente de insulina. Os aminoácidos que chegam ao tecido adiposo são usados basicamente na síntese de proteínas. Uma parcela muito pequena dos aminoácidos é desaminada e seus α-cetoácidos correspondentes são usados somente no ciclo de Krebs para a produção de energia e na síntese de ácidos graxos (o tecido adiposo não tem as enzimas capazes de sintetizar corpos cetônicos e colesterol e para a gliconeogênese). Pouca síntese de glicogênio ocorre neste órgão, porém ocorre muita síntese de triglicerídeos. Estes triglicerídeos são produzidos tanto a partir de ácidos graxos sintetizados no próprio órgão pelo acetilCoA oriundo da desaminação de alguns aminoácidos quanto do excesso de glicose que entra nos adipócitos e dos ácidos graxos obtidos das lipoproteínas ou ligados à albumina plasmática. Quando o organismo está com o nível de açúcar baixo, estes triglicerídeos são hidrolisados e muitos ácidos graxos liberados para o sangue vão principalmente para músculos do Bioquímica Básica 202 corpo. Alguns destes ácidos graxos são usados pelo próprio tecido adiposo para satisfazer suas necessidades energéticas na ausência de glicose. O glicerol resultante da quebra dos triglicerídeos vai para o fígado para ser usado na gliconeogênese a fim de restabelecer a glicemia sanguínea e nutrir órgãos como os músculos e o cérebro. Integração metabólica e o cérebro O cérebro usa somente monossacarídeos, principalmente glicose, seja diretamente do sangue ou do fígado (apósdesfosforilação da glicose 6-fosfato e liberação da glicose no sangue ou pela gliconeogênese). No cérebro, praticamente não ocorre o metabolismo da glicose de maneira anaeróbica devido ao alto conteúdo de oxigênio que chega ao órgão. Apesar de o cérebro sintetizar glicogênio, esta síntese é bem menor que a que ocorre nos músculos e, portanto a manutenção da glicemia sanguínea é importante para manter as funções cerebrais. A glicose é transportada para as células cerebrais pelo transportador de membrana GLUT3, de modo independente de insulina. O cérebro consome cerca de 120 gramas de glicose por dia, que corresponde à cerca de 60% de toda a glicose consumida pelo corpo. Isto é necessário para se ter uma alta concentração de ATP a fim de manter ativa a proteína bomba de sódio e potássio nos neurônios responsável pelo impulso nervoso. GLUT1 é um transportador de glicose encontrado na barreira hemato-encefálica. A barreira hemato-encefálica é uma estrutura composta de células endoteliais, que são agrupadas muito unidas nos capilares cerebrais, atuando principalmente na proteção do sistema nervoso central de substâncias químicas presentes no sangue e permitindo ao mesmo tempo a função metabólica normal do cérebro. Em condições de baixa concentração de glicose, o cérebro acaba usando muito pouco os ácidos graxos para gerar energia pelo fato do transporte dos ácidos graxos do sangue para o cérebro ser limitado pela barreira hemato-encefálica e assim o que chega ao cérebro acaba sendo usado na síntese de triglicerídeos e fosfolipídios. Deste modo, o cérebro usa corpos cetônicos produzidos no fígado como sua segunda fonte de energia. Como último recurso para manter as funções cerebrais, Bioquímica Básica 203 as proteínas musculares fornecem os aminoácidos para o fígado para a gliconeogênese e assim mais glicose é enviada para o cérebro. Hormônios peptídeos, proteínas, derivados de aminoácidos e o metabolismo energético O sangue precisa conter glicose em concentração próxima de 5 mM. Para isto organismo conta com a ação integrada de vários hormônios, incluindo insulina, glucagon e adrenalina. A adrenalina (epinefrina), hormônio produzido no cérebro e outros tecidos neurais e na glândula suprarrenal (região localizada acima dos rins), é uma molécula derivada do aminoácido tirosina (figura 4). Quando lançada na corrente sanguínea, devido a quaisquer condições ambientais que ameacem a integridade do organismo, seja física ou psicológica, a adrenalina aumenta a frequência dos batimentos cardíacos e o volume de sangue por batimento, aumentando a pressão arterial e consequentemente o fluxo de oxigênio e de outras moléculas (principalmente combustíveis energéticos) para os tecidos. A adrenalina atua no fígado, tecido adiposo, músculo e pâncreas. É liberada na corrente sanguínea em condições de baixa concentração de glicose. Estimula nos tecidos a degradação do glicogênio pela ativação da enzima glicogênio fosforilase e inibe a síntese do glicogênio pela inibição da enzima glicogênio sintase, assim aumentando a glicemia sanguínea. Estimula a glicólise no músculo pela ativação de uma das enzimas da via glicolítica, a fosfofrutoquinase-1, a gliconeogênese no fígado, pela ativação da enzima fosfoenolpiruvato carboxiquinase e a degradação de triglicerídeos no tecido adiposo, pela ativação de enzimas lípases. Além disso, a adrenalina estimula a secreção de glucagon (hormônio com funções similares as da adrenalina) e inibe a secreção de insulina (hormônio com funções contrárias as da adrenalina e do glucagon). Bioquímica Básica 204 Figura 4: Estrutura química da adrenalina. Fonte: LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. O glucagon, hormônio produzido pelas células alfa do pâncreas, é um peptídeo de 29 aminoácidos que atua no fígado e tecido adiposo, mas não no músculo. Assim como a adrenalina, o glucagon surge no sangue quando a concentração de glicose é baixa (abaixo de 5 mM). Estimula a degradação do glicogênio hepático e inibe a sua síntese da mesma maneira que a adrenalina. Inibe a glicólise através da inibição das enzimas fosfofrutoquinase-1 e piruvato quinase e ativa a enzima frutose 1,6- bifosfatase, assim forçando fosfoenolpiruvato a ser usada na gliconeogênese e promovendo a exportação da glicose para o sangue com consequente aumento da glicemia sanguínea. Ativa também a enzima lípase nos adipócitos para a hidrólise dos triglicerídeos e em seguida a liberação de ácidos graxos para serem usados pelo músculo como combustível energético e glicerol para ser usado no fígado na gliconeogênese. Ativa a gliconeogênse da mesma maneira que a adrenalina. A insulina, hormônio produzido pelas células beta do pâncreas, é uma proteína de 51 aminoácidos (são duas cadeias peptídicas, uma de 21 e outra de 30 aminoácidos unidos por pontes dissulfeto) que atua no fígado, tecido adiposo e músculo. A insulina surge no sangue, logo após uma refeição rica em carboidratos, que geralmente eleva o nível de açúcar no sangue para praticamente o dobro do normal. O hormônio então estimula a produção do transportador de glicose GLUT4 nos músculos, assim aumentando a captação da glicose em excesso para o interior destas células. Ativa as enzimas fosfofrutoquinase-1 e o complexo da piruvato desidrogenase assim ativando também a glicólise. Estimula a síntese de glicogênio através da ativação da enzima glicogênio sintase e inibe a degradação do glicogênio, através da inibição da enzima glicogênio fosforilase, além de estimular a captação e síntese de ácidos graxos e de triglicerídeos, pela ativação das enzimas acetilCoA carboxilase e lipoproteína lípase. Por último, inibe a gliconeogênese, pela Bioquímica Básica 205 inibição da enzima fosfoenolpiruvato carboxiquinase e estimula síntese de proteínas, por ativar alguns fatores de iniciação da tradução. Hormônios de natureza lipídica e o metabolismo energético O cortisol é um dos vários hormônios esteroides derivado do colesterol. Assim como a adrenalina, é também produzido pela glândula suprarrenal em condições de estresse e hipoglicemia, atuando no fígado, tecido adiposo e músculo. Estimula a degradação de proteínas musculares para fornecer aminoácidos para o fígado para a gliconeogênese. Ativa a gliconeogênese da mesma forma que o glucagon e a adrenalina. Apesar de atuar aumentando a glicemia sanguínea, não estimula a degradação do glicogênio hepático. Ativa também a lípase nos adipócitos para a hidrólise dos triglicerídeos e posterior liberação de ácidos graxos para serem usados pelo músculo como combustível energético e glicerol para ser usado no fígado na gliconeogênese. Ciclo jejum-alimentação O ciclo jejum-alimentação é uma maneira resumida, integrada e conveniente de entender as mudanças metabólicas envolvendo os diferentes tipos celulares e os hormônios. No estado alimentado, insulina é bastante produzida enquanto os outros hormônios do metabolismo energético são suprimidos. Monossacarídeos como a glicose e aminoácidos saem do intestino delgado e vão via veia porta para o fígado. Os ácidos graxos vão, em quilomícrons, do intestino para o sistema linfático e então para diferentes tecidos para depois chegar ao fígado como quilomícrons remanescentes. O fígado usa a maioria da glicose para a síntese de glicogênio e o restante da glicose e outros monossacarídeos para glicólise. Os ácidos graxos são armazenados no fígado na forma de triglicerídeos. Excesso de glicose também é usado na síntese de ácidos graxos e consequentemente de triglicerídeos. Aminoácidos são praticamente usados na síntese de proteínas e produção de energia e outros compostos nitrogenados. Praticamente não ocorre gliconeogênese e produção de corpos cetônicos no fígado. O cérebro usa glicose na via glicolítica e BioquímicaBásica 206 alguma glicose restante é usada na síntese de glicogênio. O músculo usa a maioria dos ácidos graxos para obtenção de energia e um pouco para a síntese de triglicerídeos, além da maioria da glicose na síntese de glicogênio e o restante da glicose além de outros monossacarídeos na via glicolítica. O tecido adiposo usa glicose como fonte preferencial de energia e sintetiza muito triglicerídeos para atuar como reserva energética do organismo. Lactato proveniente das hemácias e do músculo (em menor quantidade) é enviado ao fígado para serem usados na síntese de ácidos graxos e então de triglicerídeos (figura 5). Bioquímica Básica 207 Figura 5: Uso dos combustíveis energéticos por vários tipos celulares no estado alimentado. As bolinhas cinza grandes são quilomícrons e as bolinhas pequenas pretas são quilomícrons remanescentes. Fonte: DEVLIN, T. Manual de Bioquímica com Correlações Clínicas. São Paulo: Edgard Blucher, 2007. Bioquímica Básica 208 No jejum inicial (12 a 24 horas) a síntese de insulina é inibida, dando lugar à síntese de glucagon, adrenalina e cortisol (na verdade, o glucagon já é produzido nas primeiras horas após a refeição para contribuir na manutenção da glicemia sanguínea através do estímulo da degradação do glicogênio hepático). Nesta etapa do jejum, a degradação do glicogênio hepático é o principal mantenedor da glicemia sanguínea. Alanina e glutamina do músculo e lactato do músculo e das hemácias são enviados para o fígado para a gliconeogênese. A gliconeogênese ajuda na glicemia e nas funções cerebrais (figura 6). Bioquímica Básica 209 Figura 6: Inter-relações metabólicas dos vários tipos celulares no jejum inicial. Fonte: DEVLIN, T. Manual de Bioquímica com Correlações Clínicas. São Paulo: Edgard Blucher, 2007. Bioquímica Básica 210 No jejum avançado (após 24 horas), quando os níveis de glicogênio hepático estão muito baixos e o glicogênio muscular e cerebral estão praticamente esgotados, a gliconeogênese está bastante ativa no fígado (além da alanina, glutamina e lactato, o oxaloacetato hepático também é usado na gliconeogênese). Tecido adiposo hidrolisa triglicerídeos para enviar ativamente ácidos graxos para o sangue para nutrir músculos e para nutrição do próprio órgão e isto prossegue por muitos dias, dependendo da reserva de triglicerídeos de cada pessoa. Fígado capta boa parte destes ácidos graxos e hidrolisa também seus triglicerídeos liberando mais ácidos graxos. O excesso de acetilCoA produzido na oxidação destes ácidos graxos leva a produção de corpos cetônicos para nutrir músculos e principalmente cérebro. O cérebro passa a depender exclusivamente da gliconeogênese e dos corpos cetônicos como combustível energético. O glicerol gerado da hidrólise dos triglicerídeos tanto no adiposo quanto no fígado também é usado na gliconeogênese. Se o jejum se mantiver por vários dias, proteínas musculares começam a ser degradadas e os aminoácidos são usados para a obtenção de energia, assim como proteínas hepáticas são degradadas e os aminoácidos são usados na gliconeogênese. Em paralelo, mais aminoácidos alanina e glutamina são enviados do músculo para o fígado para a gliconeogênese. O aumento da produção de corpos cetônicos leva o organismo a poupar as proteínas musculares, porém causam acidose sanguínea e em alguns casos, a morte. A gliconeogênese a partir do glicerol, lactato, oxaloacetato e aminoácidos podem suprimir a produção de corpos cetônicos (figura 7). Realimentação através de uma dieta balanceada contendo açúcares, triglicerídeos e proteínas leva à diminuição progressiva da gliconeogênese e da produção de corpos cetônicos no fígado, da degradação de triglicerídeos do tecido adiposo e da degradação de proteínas musculares. A glicemia é restabelecida, os níveis de glicogênio e triglicerídeos vão aumentando e assim se obtém novamente o balanço normal entre a síntese de insulina e de glucagon. Bioquímica Básica 211 Figura 7: Inter-relações metabólicas dos vários tipos celulares no jejum avançado. Fonte: DEVLIN, T. Manual de Bioquímica com Correlações Clínicas. São Paulo: Edgard Blucher, 2007. Bioquímica Básica 212 LEITURA COMPLEMENTAR DEVLIN, T. Manual de Bioquímica com Correlações Clínicas. São Paulo: Edgard Blucher, 2007. HARPER, H. A. Bioquímica. Rio de Janeiro: Atheneu, 2002. LEHNINGER, A.L. Princípios de Bioquímica. New York: Worth publishers, 2006. STRYER, L. Bioquímica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. VOET, D., VOET, J.G., PRATT, C.W. Fundamentos de Bioquímica. Rio de Janeiro: Artmed, 2002. É HORA DE SE AVALIAR! Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de ensino- aprendizagem. Bioquímica Básica 213 Exercícios – Unidade 6 1. De acordo com as regras do metabolismo, existem moléculas que o corpo prefere metabolizar. Estas moléculas preferenciais são: a) carboidratos b) lipídios c) proteínas d) vitaminas e) sais minerais 2. Alguns hormônios têm participação direta no metabolismo de moléculas alimentares. Dentre os diversos tipos de hormônios, existe um em especial que participa estimulando o armazenamento de glicogênio e de triglicerídeos nas células. Este hormônio é o/a: a) glucagon b) Norepinefrina c) cortisol d) insulina e) epinefrina 3. Hormônio que estimula a degradação do glicogênio hepático e inibe a sua síntese da mesma maneira que a adrenalina: a) glucagon b) insulina c) treonina d) alanina Bioquímica Básica 214 e) asparagina 4. Tecido adiposo responde ao glucagom: a) sintetizando triglicerídeos b) realizando gliconeogênese c) degradando triglicerídeos d) produzindo corpos cetônicos e) ativando a lipoproteína lípase 5. Um paciente foi diagnosticado como portador de uma deficiência genética no receptor para glucagon nos hepatócitos. As consequências desta deficiência sobre os níveis sanguíneos de glicose e sobre a r eserva de glicogênio hepático seriam: a) baixa glicemia sanguínea e diminuição dos níveis de glicogênio hepático b) baixa glicemia sanguínea e aumento dos níveis de glicogênio hepático c) alta glicemia sanguínea e diminuição dos níveis de glicogênio hepático d) alta glicemia sanguínea e aumento dos níveis de glicogênio hepático e) indiferente, pois as células hepáticas não possuem receptores para glucagon Bioquímica Básica 215 6. Um indivíduo em regime de emagrecimento manteve uma dieta muito pobre em açúcares e rica em proteínas. Após um mês, foi observado um aumento dos níveis de ureia (no sangue e na urina) e sintomas de acidose metabólica. Um pedido de dosagem hormonal sanguínea apontaria o aumento da concentração de qual (is) hormônio(s)? a) insulina b) insulina e adrenalina c) glucagon e insulina d) insulina e cortisol e) glucagon e adrenalina 7. Em algumas partes do mundo, a carne é consumida em grandes quantidades, frequentemente mais do que outros alimentos. A obesidade pode ocorrer nesses comedores compulsivos de carne se a sua ingestão exceder as suas necessidades calóricas. Uma explicação sobre a relação direta entre a ingestão excessiva de carne (rica em proteínas) e aumento da obesidade seria: a) proteína em excesso na dieta pode, através do catabolismo dos aminoácidos, levar a produção de muito acetilCoA, promovendo síntese de ácidos graxos e consequentemente triglicerídeos no tecido adiposo, causando obesidade. b) proteína em excesso na dieta pode ser acumulada no tecido adiposo, causando obesidade. c) proteína em excesso na dieta pode induzir a multiplicação de células do tecido adiposo, causando obesidade. d) proteína em excesso na dieta pode contribuirpara a formação de corpos cetônicos e estes podem se acumular no tecido adiposo causando obesidade. e) proteína em excesso na dieta pode aumentar a gliconeogênese, fenômeno associado diretamente com a obesidade. Bioquímica Básica 216 8. Três grupos de células hepáticas (A, B e C) foram colocados separadamente em meio de cultura contendo glicose. Na cultura A adicionou-se glucagon, na B foi adicionada adrenalina e na C insulina. Após um determinado tempo, foram retiradas amostras contendo células de cada grupo. Dosou-se glicose do meio de cultivo e glicogênio intracelular. Espera-se observar: a) células A e B apresentaram muito glicogênio intracelular e o meio de cultivo continha pouca glicose. b) célula A apresentou pouco glicogênio intracelular, mas o meio de cultivo também continha pouca glicose. c) células B e C apresentaram muito glicogênio intracelular e o meio de cultivo continha muita glicose. d) célula C apresentou muito glicogênio intracelular e o meio de cultivo continha assim pouca glicose. e) as células A, B e C apresentaram pouco glicogênio intracelular e o meio de cultivo continha pouca glicose. . 9. Células hepáticas e musculares foram cultivadas em frascos separados na presença de insulina e glicose. Após 24 horas o meio de cultivo de cada uma foi trocado sendo que o novo meio não continha glicose e ao invés de insulina foi adicionada glucagon. a) O que acontecerá ao nível do metabolismo de glicogênio nas duas situações na presença de insulina? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Bioquímica Básica 217 b) Na segunda etapa do experimento (sem glicose + glucagon) um dos dois tipos celulares liberava glicose do interior da célula para o meio de cultivo. Qual das duas células era capaz de fazer isso? Porquê? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 10. Pessoas com diabetes costumam adotar uma dieta pobre em carboidratos, principalmente glicose. Assim, os tecidos dos pacientes, por não utilizarem a glicose como combustível, oxidam grandes quantidades de ácidos graxos, tanto nos músculos quanto no fígado e tecido adiposo. O cérebro, dependente de glicose, é talvez o tecido mais prejudicado. Além disso, o fígado gasta quantidades consideráveis de intermediários metabólicos e energia no processo de gliconeogênese. Nestas condições, o acetil-CoA produzido a partir da -oxidação dos ácidos graxos tende a acumular-se na mitocôndria das células hepáticas. Embora o acetil-CoA não seja tóxico, as mitocôndrias hepáticas encontram mecanismos para evitar o acúmulo deste metabólito, inclusive favorecendo o cérebro. Responda: a) Qual a solução encontrada pelas células hepáticas para evitar esse acúmulo? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ b) Além do cérebro, qual outro tecido é favorecido neste processo? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Bioquímica Básica 218 Bioquímica Básica 219 Considerações Finais Chegamos ao final dos estudos da disciplina Bioquímica básica. Ao iniciar os estudos, lá na unidade I, talvez você, estudante, tivesse achado que seria muito difícil a compreensão da mesma, uma vez que nem sempre o estudante possui os conceitos celulares e moleculares básicos para encarar os conceitos bioquímicos. O próprio nome – Bioquímica – por si só já assusta, mas ao longo das unidades a disciplina foi gradativamente fornecendo os conhecimentos básicos, técnicos e modernos e assim você foi aos poucos assimilando a Bioquímica. Hoje, ao final da disciplina, não há dúvidas da evolução do conhecimento no(a) estudante. Lembrando que este material não contém toda a Bioquímica, mas somente o necessário para que o estudante possa prosseguir na sua trajetória acadêmica. Portanto a leitura de livros, revistas e artigos é imprescindível para quem quer estar sempre atualizado no tema. Boa sorte e sucesso! Bioquímica Básica 220 Bioquímica Básica 221 Conhecendo o autor Michel do Nascimento Miranda é graduado em Ciências Biológicas pela UERJ (1994-1997), Mestre em Biologia, área de concentração em Biociências Nucleares pela UERJ (1998-2000), Doutor em Ciências, área de concentração em Biociências Nucleares pela UERJ (2001-2005) e tem dois Pós-doutorados, sendo um no instituto de Bioquímica Médica da UFRJ (2006-2011) e outro como pesquisador na empresa Hygeia Biotecnologia Aplicada, vinculada à UFRJ (2011). É professor da UNIVERSO, campus São Gonçalo desde 2001, lecionando as disciplinas Biologia Celular, Bioquímica, Genética, Biofísica e Microbiologia para diferentes cursos da área da saúde. Possui também na UNIVERSO dois projetos de extensão, um intitulado Genética e Saúde e outro intitulado reciclagem de óleo para a produção de sabões, detergentes e biodiesel. Também é, desde 2011, oficial (2º tenente) da Aeronáutica atuando como professor de Ciências e Biologia no Colégio Brigadeiro Newton Braga. Já foi professor substituto da UERJ (2004-2005), professor da Universidade Santa Úrsula (2005) e professor do colégio/curso Equipe 1 – sistema Miguel Couto de Ensino (2007-2009). Possui três artigos em revistas científicas internacionais e um quarto artigo em fase final de preparação, já participou de duas bancas examinadoras de graduação, tem outras duas aprovações em concursos públicos, uma na UFF (2009) e outra na UFRJ (2010), além de ter ministrado diversos cursos de extensão e palestras ao longo de sua trajetória acadêmica. O link para o curriculum Lattes do autor está disponível em: <http://lattes.cnpq.br/3473392810555188>. Bioquímica Básica 222 Bioquímica Básica 223 Referências DEVLIN, T. Manual de Bioquímica com Correlações Clínicas. 6. ed., São Paulo: Edgard Blücher, 2007. HARPER, H. A. Bioquímica. 8. ed., Rio de Janeiro: Atheneu, 2002. LEHNINGER, A. L. Princípios de Bioquímica. 3. Ed., Editora Worth publishers, 2006. STRYER, L. Bioquímica. 3. ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. MOTTA, V. T. Bioquímica. 2. ed., Rio de Janeiro: Medbook, 2011. VOET, D., VOET, J. G., PRATT, C. W. Fundamentos de Bioquímica. 2. ed., Porto Alegre: Artmed, 2002. Bioquímica Básica 224 Metabolismo de proteínas