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APRESENTAÇÃO Vício na fala Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mio Para pior pio Para telha dizem teia Para telhado dizem teiado E vão fazendo telhados (Oswald de Andrade) Antes de mais nada, gostaria que atentasse para o poema acima, pois nele se configura uma das temáticas de que tratamos na disciplina Linguística Descritiva e Textual, a fonética e a fonologia Esse conteúdo é abordado em diversos momentos do curso de Letras, pois o estudo e a compreensão da linguística são fundamentais para a formação do professor, portanto, não estranhe a constante retomada de conceitos e conteúdos nos primeiros momentos dessa disciplina e outras disciplinas que abortem a linguística ☺ O poeta Oswald de Andrade retratou, nos versos, peculiaridades de nossa fala, ou seja, características que nós, falantes do português, temos, ao pronunciarmos determinadas palavras. Tomemos, por exemplo, o verso: Para pior pio. Quem nunca falou ou ouviu alguém dizer canta para cantar; ama para amar; bebe para beber? Tenho certeza de que a resposta será afirmativa, pois a perda do erre final das palavras é um fenômeno comum entre os falantes da Língua Portuguesa. Ainda sobre o poema, atente para os versos: Para dizerem milho dizem mio/ Para telha dizem teia/ Para telhado dizem teiado. Como se observa, em lugar de lh, alguns falantes, mas não todos, pronunciam um som i. Deixando de lado as especificidades da fala retratadas no poema, há que se destacar que, mesmo como vício na fala, como nas palavras do poeta, o povo vai fazendo telhados, entendido como a construção de uma nação. Poemas à parte, vamos ao que nos interessa: Fonética e Fonologia, foco da primeira parte de nossos encontros. Os estudos da Linguística Textual apresentam-se como possibilidades de entendimento do texto e de ensino de Língua Portuguesa. O objeto de estudo da Linguística Textual é o texto, entendido como unidade linguística com propriedades estruturais específicas e não como sequência de frases isoladas. A Linguística Textual, para o estudo do texto, aborda dois elementos básicos: a coerência e a coesão. A Coerência diz respeito ao sentido do texto. É profunda e seu estabelecimento depende de vários fatores. É considerando os fatores de coerência que um enunciado como: “Era inverno. Fazia um calor terrível” é perfeitamente coerente, principalmente, se considerarmos o contexto e a situação em que foi dita. Em um país como o Brasil, cujas estações do ano não são bem definidas, em cujo inverno observamos veranicos com temperaturas de 30 graus, há que se classificar tal enunciado como coerente, embora possa não sê-lo na Europa, por exemplo, onde inverno é inverno e verão é verão. A coesão, obtida por meio de elementos da gramática e do léxico, diferentemente, se dá na superfície textual e seus estudos enfocam como as frases se organizam na expressão de proposições. Prof.ª Dr.ª Vera Lúcia Massoni Xavier da Silva PROGRAMA DA DISCIPLINA EMENTA: Objeto da Fonética e da Fonologia. Fonética articulatória. Fonologia. Fonema e traços distintivos. Fonemas e variantes. Arquifonema. Estrutura da sílaba em português. Variação fonológica e mudança. Fases da Linguística Textual. Dos conceitos de coerência e de coesão. Coerência textual: fatores. Coerência e texto conversacional. Coesão. Tipos de coesão: referencial e sequencial. OBJETIVOS: Estudar conceitos fundamentais de Fonética e Fonologia e sua importância na prática profissional; Analisar mecanismos responsáveis pela produção e diferenciação dos sons da fala (fonação e articulação); Estudar os principais fenômenos de variação fonética. Explicitar os conceitos de coerência e coesão; Estudar os fatores de coerência; Propiciar conhecimentos sobre coesão textual. CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS: Fonética, fonologia e fonema; Anatomia e fisiologia do aparelho fonador; Transcrição fonética e transcrição fonológica; Classificação das vogais; Grupos vocálicos e consonânticos; Estrutura silábica e tonicidade.; Traços distintivos das vogais; Traços distintivos das consoantes; Situando a Linguística Textual; conceitos de coerência e de coesão; Fatores de Coerência; Coerência e Texto Conversacional; Coesão Referencial; Coesão Sequencial; Sequenciação Frástica; O Encadeamento Textual: Justaposição e Conexão METODOLOGIA: Adotamos para a disciplina Linguística Descritiva e Textual uma metodologia que alia a teoria à prática, propiciada por meio de atividades que permitam, a partir de exemplos, a reflexão sobre os pressupostos básicos dos conteúdos abordados. AVALIAÇÃO: No sistema EAD, a legislação determina que haja avaliação presencial, sem, entretanto, se caracterizar como a única forma possível e recomendada. Na avaliação presencial, todos os alunos estão na mesma condição, em horário e espaço pré- determinados, diferentemente, a avaliação a distância permite que o aluno realize as atividades avaliativas no seu tempo, respeitando-se, obviamente, a necessidade de estabelecimento de prazos. A avaliação terá caráter processual e, portanto, contínuo, sendo os seguintes instrumentos utilizados para a verificação da aprendizagem: 1) Trabalhos avaliativos realizados diretamente no AVA; 2) Provas semestrais realizadas presencialmente; As estratégias de recuperação incluirão: 1) Retomada eventual dos conteúdos abordados nas unidades, quando não satisfatoriamente dominados pelo aluno; BIBLIOGRAFIA BÁSICA CALLOU, D.; LEITE, Y. Iniciação à fonética e à fonologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. CÂMARA JR. J. Mattoso. Estrutura da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Vozes: 1970. FÁVERO, L. L. Coesão e coerência textuais. São Paulo: Ática, 2000 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR BASTOS, L. K.; MATTOS, M. A. A produção escrita e a gramática. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. BORBA, F. da Silva. Introdução aos estudos linguísticos. São Paulo: Nacional, 1984. CAGLIARI, Luiz Carlos. Elementos de Fonética do Português Brasileiro. 1a. Ed. São Paulo: Paulistana, 2007. CRISTÓFARO-SILVA, Thaïs. Fonética e Fonologia do Português: Roteiro de Estudos e Guia de Exercícios. 9a. Ed. São Paulo: Contexto, 2007. DUBOIS, J. et al. (Org.). Dicionário de linguística. São Paulo: Cultrix, 1999. FARIA, E. Fonética histórica do latim. 2. ed. Rio de Janeiro, Acadêmica, 1970. FIORIN, J. L. (Org.). Introdução à linguística: I: objetos teóricos. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2005. KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual. São Paulo: Contexto, 1997. KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 17. ed. São Paulo: Contexto, 2002. MORI, A. C. Fonologia. IN: MUSSALIN, F. & BENTES, A. C. Introdução à Linguística: Domínios e Fronteiras. São Paulo Cortez, 2001. MUSSALIN, F.; BENTES, A. C. (Org.) Introdução à linguística. São Paulo: Cortez, 2001. vol. 1: domínios e fronteiras. SOUZA, P. C.& SANTOS, R. S. Fonologia. IN: FIORIN, J. L. (org.) Introdução à Linguística II. Princípios de Análise. São Paulo: Contexto, 2003. ____ Fonética. IN: FIORIN, J. L. (org.) Introdução à Linguística II. Princípios de Análise. São Paulo: Contexto, 2003. SUMÁRIO UNIDADE 01 - DOS CONCEITOS DE FONÉTICA E DE FONOLOGIA ............................................................ 7 UNIDADE 02 – AS ABORDAGENS FONÉTICAS ..............................................................................................11 UNIDADE 03 - CLASSIFICAÇÃO DOS FONEMAS ..........................................................................................14 UNIDADE 04- O PONTO DE ARTICULAÇÃO DAS CONSOANTES ...............................................................18 UNIDADE 05 - AS CAVIDADES BUCO-NASAL E AS CORDAS VOCAIS. .......................................................21 UNIDADE 06 - AS VOGAIS DA LÍNGUA PORTUGUESA ................................................................................24UNIDADE 07 - VOGAIS E SEMIVOGAIS OU SEMICONSOANTES? ...............................................................28 UNIDADE 08 – FONOLOGIA ...........................................................................................................................31 UNIDADE 09 - FONEMAS E VARIANTES ........................................................................................................37 UNIDADE 10 - DISTRIBUIÇÃO COMPLEMENTAR, NEUTRALIZAÇÃO E ARQUIFONEMA ...........................40 UNIDADE 11- PROCESSOS FONOLÓGICOS .................................................................................................42 UNIDADE 12 - SITUANDO A LINGUÍSTICA TEXTUAL ....................................................................................44 UNIDADE 13 - DISCUTINDO OS CONCEITOS DE COERÊNCIA E DE COESÃO ...........................................49 UNIDADE 14 - FATORES DE COERÊNCIA: ELEMENTOS LINGUÍSTICOS, CONHECIMENTO DE MUNDO, CONHECIMENTO PARTILHADO, INFERÊNCIAS ..................................................................... 57 UNIDADE 15 - FATORES DE COERÊNCIA: CONTEXTUALIZAÇÃO, SITUACIONALIDADE, INFORMATIVIDADE E FOCALIZAÇÃO .................................................................................... 64 UNIDADE 16 - FATORES DE COERÊNCIA: INTERTEXTUALIDADE, INTENCIONALIDADE E CONSISTÊNCIA E RELEVÂNCIA ............................................................................................................................. 71 UNIDADE 17- COERÊNCIA E TEXTO CONVERSACIONAL ............................................................................79 UNIDADE 18 - COESÃO: DISCUTINDO CONCEITOS ....................................................................................87 UNIDADE 19 - COESÃO REFERENCIAL ..........................................................................................................93 UNIDADE 20 - COESÃO SEQUENCIAL ........................................................................................................ 101 UNIDADE 21- SEQUENCIAÇÃO FRÁSTICA ................................................................................................. 105 UNIDADE 22- O ENCADEAMENTO TEXTUAL: JUSTAPOSIÇÃO ................................................................ 110 UNIDADE 23 - ENCADEAMENTO: CONEXÃO ............................................................................................ 113 7 UNIDADE 01 - DOS CONCEITOS DE FONÉTICA E DE FONOLOGIA CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Introduzir o aluno nos conceitos básicos de Fonética e Fonologia; Explicitar o objeto de estudo da Fonética e da Fonologia. Fonética e Fonologia são ramos da Linguística, cujo objetivo maior é o estudo dos sons da fala. Bom, você poderia me questionar: se esses dois ramos possuem um único objeto, em que consiste a diferença entre eles? Boa pergunta. Embora possuam o mesmo objeto, fonética e fonologia diferem, pois cada uma toma o som da fala, sob uma perspectiva diferente. ESTUDANDO E REFLETINDO A Fonética tem como função descrever as possibilidades de articulação dos sons. Assim, cabe à Fonética o estudo dos sons, enquanto entidades físico-articulatórias. Diferentemente, à fonologia cabe o estudo do ponto de vista funcional. Em outras palavras, a Fonética descreve os sons da linguagem humana e os analisa, a partir de suas particularidades articulatórias, acústicas e perceptivas. A Fonologia estuda os sons do ponto de vista de suas diferenças intencionais, distintivas a que se vinculam diferenças de significação. Nada como um bom exemplo para explicitarmos o afirmado. Partimos de palavras como pata e bata. Do ponto de vista fonético, para a produção do som / p /, o ar que vem dos pulmões sofre uma oclusão, isto é, um fechamento súbito e momentâneo, para, em seguida, ser pronunciado. Para isso, há a necessidade de juntarmos os dois lábios. Procedimento análogo ocorre para a emissão do som / b /. 8 Esses dois sons, entretanto, possuem uma diferença: um é surdo: não ocorre vibração das cordas vocais, que se encontram abertas; o outro é sonoro, ocorre vibração das cordas vocais. É, portanto, surdez e sonoridade o traço que distingue esses dois sons. Vale dizer, ainda, que a troca de um som por outro produz significados (palavras) diferentes, já que enfocados do ponto de vista fonológico. Em essência, a Fonologia, a partir da descrição fonética dos sons, procura interpretá-los e explicar, por exemplo, por que os falantes da Língua Portuguesa reconhecem como um mesmo fonema as realizações [ d ] e [ dƷ ] “djê”, possíveis nas palavras dá e dia, respectivamente, não obstante sejam articulados de maneira fonética completamente diferentes. De acordo com o abordado acima, pode-se afirmar que a Fonética é descritiva, enquanto a Fonologia é explicativa, interpretativa. BUSCANDO CONHECIMENTO Tradicionalmente, distinguem-se dois ramos da Fonética: a Fonética Articulatória, cujo enfoque é o estudo dos movimentos dos órgãos articuladores por ocasião da produção da mensagem e a Fonética Acústica, que estuda a transmissão da mensagem pelas vibrações do ar e o modo como ela chega ao ouvido do receptor. De maneira mais simples, a fonética articulatória, preocupa-se com a produção dos sons pelo aparelho fonador, enquanto a acústica refere-se ao resultado dessa produção em relação à percepção do ouvinte. Claro que, para um estudo de fonética acústica, há a necessidade de aparelhos especializados. 9 A fonologia, diferentemente, tem como meta o estudo dos sons, considerando-se sua função no sistema de comunicação linguística. Vamos entender isso? É simples, a meta da fonologia é explicar os elementos que distinguem, em uma mesma língua, duas mensagens com sentidos diferentes. Assim, por exemplo, tomando-se as palavras “bala” e “mala”, a fonologia dedica-se ao estudo dos elementos / b / e / m / responsáveis pela produção de palavras diferentes na língua portuguesa. Faz parte de seu estudo também, verificar a diferença em relação à posição do acento, como ocorre nas palavras “sábia, sabia, sabiá”, o que abordaremos em unidades posteriores. APROFUNDANDO O CONHECIMENTO Para saber mais, sugerimos que ouça o poema ‘No meio do Caminho’, declamado por Drummond. Reflita sobre as pedras com que a sociedade se depara na atualidade. Agora pense nas pedras do seu caminho. a) Agora, deixe as pedras do caminho de lado e destaque do poema palavras em que não ocorra correspondência entre fala e escrita. b) Retire uma palavra em que o som [ t ] é produzido diferentemente do observado em tatu. Após ouvirmos Drummond, na voz do próprio Drummond, ouçamos Cecília Meireles declamando a poesia Retrato. Para isso, clique ao lado. Você já deve ter percebido meu gosto pela poesia. No texto Retrato, é possível opormos dois tempos: o passado e o presente. Como Cecília trabalha essa oposição? É simples ao negar o passado: Eu não tinha (...), ela afirma o presente, ou seja, se no passado ela não tinha o rosto triste, magro, implica que o tem no presente. Em essência, o que se depreende no poema é a constatação do passar do tempo, afetando a imagem física e psicológica (Nem estes olhos tão vazios/ nem o lábio amargo/ Coração que nem se 10 mostra/ lábios ama) do ser humano. Daí o questionamento observado: Em que espelho ficou perdida a minha face? a) Ouça novamente o poema e responda como se dá a produção do som / l / da palavra fácil. Gabarito 1- a) Que, cuja pronúncia é “qui”; b) Na palavra tinha, o / t / é pronunciado “tch” 2 O som / l / é pronunciado “ u” 11 UNIDADE 02 – AS ABORDAGENS FONÉTICAS CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Detalhar os pressupostos da Fonética Articulatória. Falar é tão natural quanto qualquer outrosentido: olfato, tato, visão e paladar. No entanto, só nos atemos à explicação e exame de seu funcionamento em caso de privação. O que possibilita esse ato tão comum é o que veremos nesta unidade. ESTUDANDO E REFLETINDO Os estudos fonéticos podem ser realizados, adotando-se três pontos de vista: a) A partir da forma como os sons são produzidos. Nessa perspectiva, abordam-se os movimentos do aparelho fonador humano, os órgãos desse aparelho que concorrem para a produção de sons. Trata-se da Fonética Articulatória, objeto de estudos posteriores; b) Do ponto de vista dos efeitos físicos que os sons provocam no ouvido do destinatário dos signos: Fonética Auditiva; c) Do ponto de vista das propriedades físicas das ondas sonoras que se propagam no ar. Trata-se da Fonética Acústica. Em decorrência de as outras abordagens fonéticas necessitarem de aparelhos especializados, nosso foco será a fonética articulatória. Vale dizer que a linguagem humana é distinta dos outros sistemas simbólicos por ser segmentável em unidades menores, com número finito, mas que possibilitam a formação de inúmeras mensagens, pelo fato de combinarem-se, recombinarem-se para expressar ideias diferentes. Assim, observando-se a palavra “Roma”, por exemplo, a troca de seus segmentos fônicos permite-nos formar a palavra “amor”, o mesmo ocorre com as 12 palavras “alma”, cuja troca dos elementos forma a palavra “lama”. Entendeu o que é combinação e recombinação a que nos referimos. Embora o ser humano seja capaz de produzir inúmeras variedades de sons, nem todos são empregados para fins linguísticos de compor palavras. Como exemplo, citamos o “arroto” que, em algumas culturas, significa plenitude após as refeições e, na nossa expressa, falta de educação, de etiqueta. Fonética Articulatória tem dois sentidos: um mais amplo, que descreve qualquer som produzido pelo aparelho fonador humano; outro mais restrito que esmiúça os mecanismos existentes nas línguas humanas e que concorrem para a enunciação (produção de enunciados). Os sons são produzidos por um mecanismo fisiológico específico, convencionalmente, chamado de aparelho fonador BUSCANDO CONHECIMENTO Aparelho Fonador Humano O aparelho fonador humano é formado por três conjuntos de órgãos. Para conhecê-lo, observe a imagem ao lado. O primeiro conjunto é o respiratório, formado pelos pulmões, cuja função é fornecer a corrente de ar para a produção do som. O Conjunto Energético é formado pela laringe onde estão situadas a glote e as cordas vocais. 13 Finalmente, há o conjunto ressonador, formado pela faringe, órgãos bucais (língua, dentes, palato, véu palatino, lábios e úvula) e fossas nasais. Você sabe o que é um som? Som é uma coluna de ar em movimento, que se inicia nos pulmões, na fase expiratória do processo de respiração, percorre todo o aparelho fonador. Na laringe, saliência que existe no pescoço e que no homem é mais realçada (pomo de Adão), encontram-se as cordas vocais, que têm a forma de dois lábios e tecido elástico. Elas são responsáveis pela produção dos sons surdos (o ar passa livremente, pois elas estão abertas) e sonoros (as cordas estão fechadas, o ar força a passagem, fazendo-as vibrar). A Boca e as Fossas Nasais são responsáveis pela produção de sons orais e nasais. Para saber a diferença entre um som oral e nasal, pronuncie as palavras cato (do verbo catar: pegar) e canto (do verbo cantar). Em canto, há o som nasal / ã /, pois o ar escoa parte pela boca e parte pelo nariz. Já em cato, o som / a / é oral, pois escoa apenas pela boca. Sabe o que impede a passagem de ar pelo nariz? É a úvula ou comumente chamada de campainha. É ela que fecha a passagem do ar (som oral) e da comida pelo nariz. 14 UNIDADE 03 - CLASSIFICAÇÃO DOS FONEMAS CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicitar os critérios de articulação dos fonemas Antes de mais nada, há fonemas consonantais e fonemas vocálicos. Vogais e consoantes diferem entre si, pois as vogais são fonemas mais livres, uma vez que o ar vindo dos pulmões não é obstruído em nenhum ponto da boca. Diferentemente, para a produção de consoantes, a corrente de ar sofre algum tipo de bloqueio na boca. Para perceber bem isso, diga o som / a /. Disse? Você deve ter percebido que a boca ficou meio aberta e não houve contato de órgão algum dentro da boca, ou seja, o ar escoou livremente. Agora diga o som / p /. Percebeu o que ocorreu? Para pronunciá-lo, tivemos que juntar os dois lábios, o que significa dizer que houve bloqueio. Além dessa distinção, as vogais são o centro da sílaba em português. Isso significa que não existe sílaba sem vogal. Para a classificação das consoantes, há quatro critérios: Modo de Articulação, Ponto de Articulação, Papel das Cavidades Bucal e Nasal e Papel das Cordas Vocais, porém, nesta unidade abordaremos apenas o modo de articulação. ESTUDANDO E REFLETINDO Modo de Articulação das Consoantes A corrente de ar que provém dos pulmões, chegando à boca, poderá ser comprimida de vários modos, resultando uma obstrução total ou parcial. Vamos entender o que é isso. Pronuncie o som / p /. O que aconteceu? O ar proveniente dos pulmões foi totalmente interrompido, justamente porque você juntou os dois lábios. Agora, diga o som / f / (não é efe, é f). Disse? O que você percebeu? Provavelmente, você percebeu 15 que a corrente de ar foi um pouquinho interrompida, pois você uniu os dentes superiores aos lábios inferiores. Do mesmo modo, a pronúncia da consoante / l / resulta de uma interrupção parcial do ar. Essa interrupção ocorre, quando você coloca a língua nos alvéolos (as nervurinhas que se encontram pertos dos dentes do lado interno). Vejamos agora, os diferentes modos de articulação das consoantes em português. 1- Fonemas Oclusivos- resultam de uma interrupção total e momentânea (se não o for, o som não sai) da corrente de ar em alguma parte da boca. São Oclusivas: a) / P / /T/ /K/ ( o / k / é dito quê e não c (letra) b) / B / /D / / G / Observação: Sabe como guardar as consoantes oclusivas? Basta lembrar as palavras: PeTeCa e BoDeGa. 2- Fonemas Constritivos- são resultantes do efeito de atrito a que a corrente de ar se submete, cujo trajeto é parcialmente desviado e, por isso, se desvia pelo canal formado pela língua. Vejam bem, é a língua que exerce a função de desviar parcialmente o som. Os fonemas resultantes desse modo de articulação são denominados, também, de chiantes, porque o som realmente é um chiado, tal qual na palavra chuva, ou de sibilantes, porque produzem um som semelhante ao barulho da cigarra (SSSSSSSSSS). São constritivos os fonemas: a) / F / / S / / ʃ / b) / V / / Z / / Ʒ / 16 Vocês devem estar se perguntando que sons são esses em azul. É simples o / ʃ /equivale às letras x (xadrez) e ch (chuva), enquanto o / Ʒ / se refere às letras g (gente) e j (jeito). Observação: o / f / e o / v / são consoantes de sopro; o / s / e o / z / são sibilantes, já o / ʃ / e o / Ʒ / são as chiantes. Sabem como memorizar os fonemas constritivos? Basta reter as palavras: FeCHa-Se e VaZaGem. Quando abordamos os sons / ʃ / e / Ʒ /, que podem, respectivamente, ser representados pelas letras x e ch; g e j, dá para se ter uma ideia do quanto sofre nosso aluno: um mesmo som, representado por letras diferentes. Então, percebemos que a letra (ortografia) é diferente do fonema (som). 3- Fonemas Laterais- São resultantes da obstrução da corrente de ar, no centro da boca. Uma vez, bloqueado, no centro, o ar escoa pelas laterais. São laterais os fonemas a) / L / (não é ele –letra, é Lê mesmo) e / ʎ / . Vocês devem estar dizendo: “Meu Deus! O que é esse Y de ponta cabeça? Nada mais, nada menos do que a letra lh de velho, telha.4- Vibrantes- São resultantes de brevíssimos e repetidos bloqueamentos parciais da corrente de ar, provocados por movimentos vibratórios da língua, ao encostar nos dentes. Em português há dois tipos de vibrantes: a) Vibrante simples / r /, presente na palavra caro (também denominado tepe, ou seja, caracteriza-se por uma batida rápida da ponta da língua nos alvéolos) b) Vibrante múltipla / R /, presente na palavra carro. 17 5- Nasais- Resultam da passagem de parte do ar pela boca e parte pelas fossas nasais. São nasais os fonemas: a) / m / (não é eme-letra, é me mesmo) / n / (não é ene- letra; é ne) e / Ƞ /. Loucura! o que é / Ƞ / ? Não se espantem, é a letra nh. Observações: Massini e Cagliari (2001) introduzem os sons africados, conceituando-os como sons que apresentam bloqueio completo da corrente de ar na boca, em seu início e obstrução que produz o barulho semelhante a uma fricção, no final de sua articulação, como ocorre com os sons / tʃ / e / dƷ / presentes nas palavras tia, dia, pote, pode. Os autores classificam ainda como sons retroflexos aqueles produzidos por uma obstrução da corrente de ar produzido pelo encurvamento da ponta da língua para cima e para trás. Trata-se do nosso erre caipira / r /. Resumo: As consoantes podem ser oclusivas, constritivas, laterais, vibrantes e nasais, quanto ao modo como são articuladas, isto é, quanto ao que acontece, na boca, com a corrente de ar vinda dos pulmões: ou ele é totalmente bloqueado, ou parcialmente bloqueado. APROFUNDANDO O CONHECIMENTO Para aprender mais acesse o site www.youtube.com/watch?v=FH-LxGklco, ouça a música Chuva, Suor e Cerveja e faça o que se pede. a) A repetição de um determinado som produz um som que imita um fenômeno da natureza. Que som é esse? Qual é o fenômeno? Resposta: È o som ch que reproduz o barulho da chuva. 18 UNIDADE 04- O PONTO DE ARTICULAÇÃO DAS CONSOANTES CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Descrever e explicar o ponto de articulação dos fonemas consonantais. O ponto de articulação diz respeito ao local exato, na cavidade bucal, em que se produz o contato dos articuladores. Vamos estudá-los e aprender onde são pronunciadas, na boca, as consoantes de nossa língua. ESTUDANDO E REFLETINDO Os articuladores são os órgãos que obstruem, total ou parcialmente, a corrente de ar oriunda dos pulmões. Esses órgãos são de dois tipos: articuladores ativos, pois se movimentam e são constituídos pelos lábios, língua, véu palatino, úvula (campainha) e articuladores passivos, não se movimentam, cujos integrantes são dentes, palato (céu da boca) e alvéolos. Para a localização desses órgãos, examine a imagem abaixo, 19 Denomina-se ponto de articulação as diferentes áreas em que dois articuladores entram em contato. BUSCANDO CONHECIMENTO De acordo com o ponto exato, na boca, em que as consoantes são pronunciadas, há a seguinte classificação: a) Bilabiais- Resultantes da junção dos dois lábios. São elas: / P / / B / / M / b) Labiodentais- Contato firme do lábio inferior com os dentes incisivos superiores. Nesse caso, as consoantes são: / F / / V / c) Linguodentais- Caracterizam-se pelo contato do ápice (ponta) da língua com os dentes superiores, tais como as consoantes: / T / /D / / N / d) Linguoalveolares- Contato do ápice da língua nos alvéolos superiores. Nesse ponto de articulação, observamos as consoantes: / L / / r / (de caro) / S / / Z / e) Linguopalatais- Contato do dorso (meio) da língua com o palato (céu da boca). As consoantes produzidas nesse ponto são: / ʎ / (lh) / Ƞ / (nh) / ʃ / (X, CH) / Ʒ / (G e J) f) Velares- Contato entre a parte mais próxima da raiz da língua com o véu palatino (parte mole do céu da boca, fica bem lá no fundo). Nesse ponto de articulação, observamos as consoantes: / K / / G / / R / (de carro) 20 APROFUNDANDO O CONHECIMENTO Escreva sobre o travessão o nome da consoante que corresponde ao ponto de articulação descrito a) Lábio inferior aproximando-se dos dentes superiores_________ b) Lábio contra lábio________________________________. c) Raiz da língua contra véu palatino____________________. d) Dorso da língua contra o céu da boca__________________. e) Língua aproximando-se dos alvéolos ou neles tocando__________. Gabarito a- Labiodentais b- Bilabiais c- Velares d- Linguopalatal e- Linguoalveolares 21 UNIDADE 05 - AS CAVIDADES BUCO-NASAL E AS CORDAS VOCAIS. CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicitar o modo de produção de sons orais e nasais e das consoantes surdas e sonoras; verificar como se produzem sons surdos e sonoros e sons orais e nasais. ESTUDANDO E REFLETINDO Cavidade Bucal e Cavidade Nasal Essas cavidades têm grande importância quando falamos e precisamos produzir certos fonemas. Ao expirar o ar, ele cria uma corrente vinda dos pulmões que encontra o véu palatino abaixado e a passagem nasofaríngea aberta, isso acarreta em um desvio de parte desse ar que acaba saindo pela boca e pelas fossas nasais ao mesmo tempo, criando sons nasais. São fonemas nasais em português: / m / / n / / Ƞ / (nh) Já os sons orais encontram a passagem naso-faríngea fechada pela elevação do véu palatino depois de passar pela glote, assim, escoam pela cavidade bucal sem ‘dividir’ a corrente de ar. Exceto os fonemas nasais citados anteriormente, as demais consoantes são orais. Callou e Leite (1993) apresentam distinções entre os sons nasais e os sons nasalizados, pois, nos sons nasais, além do abaixamento de véu palatino, há também uma obstrução na cavidade bucal, como podemos verifica na pronúncia das consoantes: / m /, / n /, / Ƞ /., ou seja, o fechamento dos lábios ao final do som. Já na pronúncia dos sons nasalizados não tem obstrução da corrente de ar na cavidade bucal. Sons nasalizados são as vogais nasais da língua portuguesa, pois, ao serem emitidas não ocorre junção dos órgãos da boca. 22 Cordas Vocais Na região da laringe, está um importante órgão para a fonação: as cordas ou pregas vocais. As cordas vocais se assemelham à forma de dois lábios e são constituídas do músculo tireo-cricóide, um tecido elástico denominado ligamento. Observe a imagem das cordas vocais abaixo. GLOTE ABERTA GLOTE FECHADA • Cordas vocais separadas • O ar passa livremente • Produz consoantes surdas • Sons desvozeados • Cordas vocais unidas • O ar passa vibrando • Produz consoantes sonoras • Sons vozeados De acordo com o exposto, em português, há fonemas surdos e fonemas sonoros. São fonemas surdos as consoantes: / P / / T / / K / e / F / / ʃ / / S / Observação: Lembram-se da dica: PeTeKa e FeCHa-Se? A peteca e o fecha-se são fonemas surdos. Todas as demais consoantes da Língua Portuguesa são sonoras. 23 BUSCANDO CONHECIMENTO Quadro Geral de Classificação das Consoantes Abaixo explanamos o quadro geral dos fonemas consonantais da Língua Portuguesa. Modo de Articulação Papel das cordas vocais Ponto de Articulação Bilabiais Labiodentais Linguodentais Linguo- alveolares Linguo- palatais Velares Surdas / P / / T / / K / Oclusivas Sonoras / B / / D / / G / Surdas / F / / S / ʃ Constritivas Sonoras / V / / Z / Ʒ Laterais Sonoras / L / ʎ Vibrante Simples Sonora / r / Vibrante Múltipla Sonora / R / Nasais Sonoras / M / / N / Ƞ 24 UNIDADE 06 - AS VOGAIS DA LÍNGUA PORTUGUESA CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Descrever e classificar as vogais em Língua Portuguesa. ESTUDANDO E REFLETINDO As vogais são fonemas produzidos pela passagem livre da corrente de ar pela boca, diferentedo que ocorre com as consoantes o ar não é bloqueado em nenhum ponto da boca e desse modo, podemos dizer que as vogais são os fonemas mais limpos da língua portuguesa. Como o ar não é interrompido pelos dentes ou lábios quando produzimos vogais, a boca tem o papel de caixa de ressonância para o som produzido. As vogais possuem três propriedades, que lhes são inerentes: a) Apresentam maior abrimento dos órgãos articulatórios: a boca fica normalmente aberta ou entreaberta, ao se pronunciar uma vogal. Diga, por exemplo, a vogal / a /. Disse? Viu como a boca fica aberta? b) Apresentam maior número de vibrações das cordas vocais, isto é, têm maior frequência. c) São os únicos fonemas do português a integrarem o centro da sílaba. As vogais são classificadas usando quatro critérios: • posição da língua; • altura da língua; • posição dos lábios; • papel das cavidades buco-nasais. 25 Classificação das vogais quanto à posição da língua Prestemos atenção na posição da língua em nossa boca. Para isso, digam a vogal / a /. Disseram? Como ficou o corpo da língua? Percebeu que ficou em posição de repouso? Quietinha na base da boca, tocando os dentes inferiores, certo? Façam o mesmo para a vogal / e /. Para pronunciar o / e / a língua fez um leve movimento para frente. Agora o fonema / o /. O movimento da língua foi ligeiramente para trás, não foi? Muito bem, a partir da posição da língua, nós podemos classificar as vogais em: a) Central- A língua fica em posição de repouso, abaixada, tocando os dentes inferiores. A vogal resultante dessa posição é / a /; b) Anteriores- A língua executa um ligeiro movimento para frente. As vogais anteriores são: / E / (como o é de pé ) / e / ( como o ê de você); e / i /; c) Posteriores- A língua faz um ligeiro e gradativo recuo. São posteriores as vogais: / ɔ / (esse fonema equivale à letra ó da palavra avó); / o / (como o ô de avô) e / u /. O número de fonemas vocálicos é maior que o número de letras, as vogais grafadas na língua portuguesa são cinco, mas, na realidade a língua falada apresenta sete fonemas vocálicos: / a / / E / , / e / , / i / , / ɔ / / o / , / u /. 26 BUSCANDO CONHECIMENTO Classificação das Vogais quanto à Altura da Língua Classificaremos, agora, as vogais considerando a língua em seu movimento vertical, a altura. Fale as vogais / a /; / e /; / i /. Diga novamente a vogal / a / e, em seguida, as vogais / o / e / u /. Na pronúncia, a língua, para a vogal / a /, ficou bem embaixo, tocando os dentes inferiores. Para as vogais / e / e / o /, você deve ter percebido que ela se elevou um pouquinho. Diferentemente, nas vogais / i / e / u /, a língua se eleva ao máximo, quase tocando os dentes superiores, não é? De acordo com o exposto, quanto à altura da língua, as vogais são classificadas em: c) Baixa – Língua embaixo, junto aos dentes inferiores. Trata-se da vogal / a / b) Médias- Uma elevação gradual da língua, ou seja, a língua fica no meio, entre os dentes inferiores e os posteriores. São vogais médias: / E / (de pé) / e / (de fez), / ɔ / (de avó) e / o / (de avô). c) Altas- A língua eleva-se de tal forma que toca os dentes superiores. Nesse caso, as vogais são: / i / e / u /. Classificação das vogais quanto à posição dos lábios Na pronúncia das vogais, os lábios exercem papel crucial. Vejamos a pronúncia dos sons / a /, / E /, / e /, / i /. Como ficaram os seus lábios? Com certeza, estendidos, não é? Agora diga os fonemas / ɔ / , / o /, / u /. Nesses fonemas, os seus lábios devem ter ficado arrendondados, não é? É isso mesmo, quanto à posição dos lábios, as vogais são: a) Não-arredondadas – Os lábios ficam estendidos. São as vogais / a /, / E /, / e / , / i /. b) Arredondadas- Ocorre um ligeiro arredondamento dos lábios. São vogais desse tipo: / ɔ /, / o / / u /. 27 Classificação das Vogais quanto ao Papel das Cavidades Bucal e Nasal Você já sabe o que é um som nasal: o ar sai parte pela boca e parte pelas fossas nasais. Para entender, vamos opor certas palavras: Lá x Lã Vê x Vem Vi X Vim Do (nota música) x Dom Tuba x Tumba São sons completamente diferentes, não é? As vogais orais são sete, mas as vogais nasais são cinco, a saber: / ã /, /ë /, / ï /, / ö /, / ü / 28 UNIDADE 07 - VOGAIS E SEMIVOGAIS OU SEMICONSOANTES? CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Discutir as semivogais da Língua Portuguesa; Discutimos a imprecisão terminológica a respeito dos “glides”. ESTUDANDO E REFLETINDO Iniciamos nossa discussão, definido “glides”, termo empregado para designar os fonemas que integram a posição assilábica e que formam os ditongos e tritongos da língua portuguesa. A gramática tradicional emprega usualmente o termo semivogal, para assinalar os fonemas integrantes dos ditongos e tritongos. Em linguística, o tratamento desses fonemas não encontra acordo, pois alguns autores consideram-nos semivogais; outros, semiconsoantes. Você poderia me questionar sobre as consequências dessa imprecisão terminológica. Ora, é simples, em se considerando semiconsantes, haveria uma ampliação do quadro desses fonemas, pois seriam introduzidos / y / e / w/; ao serem entendidos como semivogais, acarretaria uma alteração na estrutura silábica. Câmara Jr. (1970) parece dar-nos uma posição mais coerente para o tratamento desses fonemas. Para tanto, recorremos aos estudos que faz sobre a estrutura da sílaba em português. Segundo o autor citado, as sílabas podem vir representadas pelas vogais, centro da sílaba (V) e pelas consoantes (C), elementos que integram as margens da sílaba. Com base nessas considerações, estabelece os seguintes esquemas silábicos: V- sílaba simples- quando há uma só vogal, como, por exemplo, a sílaba a- da palavra “asa”; 29 CV- sílaba complexa crescente, aberta, como “pá”, por exemplo; VC- sílaba complexa crescente- decrescente, fechada ou travada, como ocorre em “ar”; CVC- sílaba complexa, travada, como “par”. Retomando nosso questionamento, se consideramos os fonemas / y / e / w / como semivogais, teríamos para “pauta” um novo sistema silábico “CVV”; caso a consideremos como semiconsoantes, teríamos: CVC. No primeiro caso, ocorreria sílaba aberta; no segundo, fechada. Mattoso considera que os fonemas / i / e / u /, quando juntos a outra vogal, formando uma só sílaba, devem ser considerados como vogais assilábicas, isto é, devem ser representados ao lado das vogais a que se juntam. Assim, em “peito” e pauta, por exemplo, teríamos "peị to” e “ pau ta” Nas palavras de Mattoso, as semivogais são quase vogais e devem, portanto ser indicadas como letras exponenciais “i; u”. Se consideradas semiconsoantes, são representadas pelos fonemas / y / (i) e / w / (u). BUSCANDO CONHECIMENTO Mattoso questiona a existência de ditongos na Língua Portuguesa, indagando se a sequência denominada ditongo não poderia ser interpretada como hiato (encontro de duas vogais em sílabas separadas). 30 Na sua discussão, o autor recorre à existência de pares opositivos, tais como sai e saí, explicitando tratar-se, respectivamente de vogal tônica seguida de átona e vogal átona seguida de tônica. Mattoso destaca que só são aceitáveis ditongos na Língua Portuguesa, quando um dos elementos vocálicos for tônico, pois dois átonos permitem variação livre, isto é, como ditongo ou hiato. Assim enumera onze ditongos decrescentes e um muito restrito crescente. Vamos conhecê-los? Ditongos Decrescentes: / ai /: sai; / au /: pau; / éi /: papeis / ei /: lei; / iu /: riu; / ói /: mói; / oi /: boi; / ou /: vou / ui /: fui. Como ditongo crescente considera apenas os formados pelos grupos qu e gu, como água; quase, por exemplo. Ditongos como glória, ciência,série, considerados pela gramática como crescentes, segundo Mattoso, podem ser sentidos como ditongos: uma só emissão, ou hiatos. APROFUNDANDO O CONHECIMENTO Classifique os encontros vocálicos em: ditongo, tritongo, hiato a- Coração b- Enxaguou c- Quieto d- Olham Reposta a- Ditongo decrescente b- Tritongo c- Hiato d- Ditongo Cuidado: palavras como bem, ama. Em qual, há um tritongo: / kwaw/ 31 UNIDADE 08 – FONOLOGIA CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Explicitar o conceito de Fonema; Conceituar e explicitar os traços prosódicos e distintivos. Já tivemos oportunidade de assinalar a diferença entre a fonética e fonologia. Retomamos essa distinção, assinalando que o objeto de estudo da Fonologia é o fonema, cujos conceitos explicitamos abaixo. ESTUDANDO E REFLETINDO A partir de 1930, o conceito de fonema passou a ser formulado com mais precisão: fonemas são unidades da língua; sons, por sua vez, são unidades da fala. Trubetzkoy entende o fonema como unidade distintiva do sistema de som, sendo, portanto, a menor unidade funcional da língua. Bloomfield o definiu como unidade de traço fônico distintivo, indivisível. Para Jakobson, “fonema é um feixe de traços distintivos”. Pode-se afirmar que fonema é um som, que, no sistema fônico, tem valor diferenciador de vocábulos Para deixar bem clara a definição de fonema, vamos recordar um pouco. Nas aulas de Fundamentos de Linguística Geral, abordamos a Dupla Articulação da Linguagem. Vamos revê-la? Nossa fala não se concretiza em blocos, mas por sequências lineares, que podem ser segmentadas até que nenhuma outra divisão seja possível. Estamos falando da 1ª e da 2ª articulação. 32 Vamos entender bem isso. O enunciado “A casa é branca”, é possível dividirmos em segmentos como: a- casa – é- branca. Outra divisão pode ser feita: o a (em negrito) da palavra casa é uma vogal temática que classifica os substantivos terminados em a; é- verbo ser, conjugado na 3ª pessoa do singular; o outro a da palavra branca é também uma vogal temática. Vejam bem. Nessa segmentação, ainda lidamos com elementos mínimos portadores, de significado. Esses elementos são denominados morfemas. Outros exemplos: em menina, o a é um morfema de gênero que indica as palavras femininas, como doutora; médica, dentre outras. Na palavra patada, o segmento pat significa parte inferior do membro animal, diferentemente, o ada significa golpe, daí patada ter o significado de golpe dado com uma pata e facada ter o significado de golpe dado com uma faca. Os exemplos acima ilustram a 1ª articulação da língua, isto é, divisão dos segmentos das palavras em elementos mínimos com significado. As divisões que efetuamos acima não são as únicas possíveis, pois diante da palavra pata, podemos segmentá-la em / p /; / a /; / t /; / a /. Cada elemento resultante dessa divisão não tem significado, isto é, o que é um p sozinho? Estamos diante dos fonemas, elementos da língua sem significado. Entretanto, os fonemas têm uma função: distinguem signos, palavras. Por exemplo, se trocarmos o fonema / p / da palavra pata pelo fonema / b / teremos outra palavra: bata. Essa divisão da palavra em segmentos menores, até que nenhuma outra divisão seja possível, é que denominamos 2ª articulação da linguagem. 33 É isso aí. Fonema é o elemento mínimo, indivisível, da segunda articulação. Embora seja um elemento sem significado, o fonema tem uma função: distinguir signos (palavras) da língua. Vamos ver como isso funciona? Um som / b / ocorre em palavras como bata e bingo, enquanto que em pata e pingo, há outro som / p /. Há diferenças entre esses dois fonemas. Trata-se de uma diferença fonológica, pois distingue duas palavras diferentes na língua portuguesa, mas há pontos comuns entre eles: são sons produzidos pelo aparelho fonador humano; são oclusivos e bilabiais. A única diferença é que o / p / é surdo e o / b / é sonoro. Daí estarmos diante do traço distintivo (traço que difere, distingue um fonema de outro): surdez e sonoridade. Para o estudo fonológico, há dois tipos de traços: distintivos e prosódicos. Traços prosódicos não são fonemas, mas exercem função distintiva. Entenderam? Acho que não, mas vamos lá. Leia os enunciados abaixo e explique a diferença entre eles: a) Não, desisti do negócio b) Não desisti do negócio Em a e b, observamos, exatamente, as mesmas palavras, porém, você deve ter percebido que o sentido é diferente. Em outras palavras, a vírgula inserida após o advérbio de negação não indica uma pausa, uma parada. É essa pausa que me faz ler o dito, em a, como alguém que vai desistir do negócio. Diferentemente, em b, o sentido que se depreende é que esse alguém vai realizar o negócio, ou seja, ele não desistiu de fazer o negócio. Então, a pausa é um traço prosódico que exerce a função, nesses enunciados de estabelecer diferentes significados. 34 Os tipos de Traços Prosódicos são: a) Entonação- importante para diferenciar sentidos, pois tem a função de distinguir frases afirmativas, exclamativas e interrogativas Você vai. Você vai? Você vai! b) Acento- é o realce de uma sílaba na palavra. Pelo acento somos levados a distinguir palavras como sábia, sabia e sabiá. Observe, agora, o trava-língua: Você sabia que o sabiá sabia assobiar? A diferença entre os signos sabia e sabiá é decorrente do acento, já que os fonemas são os mesmos. c) Função demarcatória do acento e das pausas- Nas línguas, onde a previsão do acento é imprevisível, a demarcação de fronteiras entre as sílabas e as unidades lexicais apresenta dificuldade. Assim, uma sílaba átona final e a sílaba inicial concorrem para a delimitação de vocábulos como: de leite x deleite; de vida x devida; defenda x dê fenda; amá-la x a mala. Como você deve ter observado, as palavras dos pares são pronunciadas da mesma maneira. BUSCANDO CONHECIMENTO Os Traços Distintivos são denominados funcionais, porque distinguem significados. Os traços distintivos articulatórios ou acústicos vão caracterizar um fonema em relação ao outro. Trata-se de uma diferença mínima de uma unidade em relação a outra. Assim, ao opormos os fonemas / p / e / b /, o primeiro passo é sua descrição, isto é, o / p / é consoante oclusiva, bilabial surda; o / b / é oclusiva, bilabial, sonora. Ora, comparando- se a descrição dos dois fonemas, observamos que o traço diferenciador é a sonoridade, já que um é surdo e o outro é sonoro. O mesmo se dá em relação aos fonemas / f / e / 35 v /; / t / e / d /, já que todos possuem o mesmo modo e ponto de articulação, porém, / t / e / f / são surdos e / f / e / v / são sonoros. E quanto às vogais, você sabe como verificar o traço distintivo? É simples. Vamos retomar a fonética articulatória, mais precisamente, a classificação das vogais. Um som / ɔ / se opõe ao / o /, pois temos pares opositivos: avó e avô. Os dois fonemas são posteriores, orais, porém o traço distintivo entre eles é que em avó o fonema é aberto e, em avô, é fechado. Daí dizermos que o traço distintivo é abertura/fechamento das vogais. Tomando-se, agora, os sons / o / e / u /, o traço que os diferencia é que / o / é média e / u / é alta. É bom saber que, para reconhecermos os fonemas de uma língua, necessitamos aplicar o método da segmentação, isto é, divisão da linha de expressão até a unidade mínima sem significado: o fonema. Vamos segmentar? Tome a palavra saca / saka /. A segmentação permite-nos detectar os seguintes fonemas: / s / a / k / a /. A partir daí, aplicamos a comutação, isto é, troca de um fonema por outro, no mesmo ponto da cadeia. Por exemplo, no ponto 1, comutamos (trocamos) o / s / por / m /; no 2, o / a / por / e /; no 3, o / k / por / l / e, no 4, o / a / por / e /. Vamos visualizar os resultados? / s / / a / / k / /a / “saca” / m / a / / k / / a / “maca” 1 2 3 4 1 2 3 4 / s / / a / / k / / a / “saca” / s / e / / k / / a / “seca” 1 2 3 4 1 2 3 4 / s / / a / / k / / a / “saca” / s / a / / l / / a / “sala” 1 2 3 4 1 2 3 4 36 / s / / a / / k / / a / “saca” / s / a / / k / / e / “saque” 1 2 3 4 1 2 3 4 A cada substituição efetuada, há o surgimento de um novo signo da língua portuguesa e, no contexto, que nos serviu de exemplo, detectamos os seguintes fonemas do português: / s / a / k / m / e / l / Os mecanismos de segmentação e comutação, como observamos acima, permitem-nos detectar os fonemas de uma língua. Assim, ao trocarmos um fonema por outro, o resultado é um novo signo da língua. Vale dizer que, se são fonemas diferentes, ocorre oposição. Isso se evidencia a partir de pares mínimos, como podemos observar abaixo. Lá x Lã- a oposição que subjaz a esse par é oralidade (lá) versus nasalidade (lã) do fonema / ã / Vela x Velha- a diferença entre essas palavras reside na oposição entre o fonema / l / (lateral, linguoalveolar) e / ʎ /- lateral linguopalatal. 37 UNIDADE 09 - FONEMAS E VARIANTES CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicitar a diferença entre fonemas e variantes; Conceituar os tipos de variantes. Na unidade anterior, abordamos como detectar os fonemas de uma língua. Neste momento, vamos tratar das variantes ou alofones. Certamente, você já ouviu duas pessoas conversando e percebeu que elas não falam, exatamente, iguais. Vamos precisar bem isso. O que estou dizendo é que as pessoas pronunciam as consonantes de forma diferente. Atente para os artistas da televisão. Você já prestou atenção, como determinados atores falam o erre e o esse? Muito bem, os cariocas, principalmente, têm uma forma peculiar de realizar esses fonemas. Isso é o que chamamos variantes. ESTUDANDO E REFLETINDO Sabemos que os fonemas de uma língua permitem distinguir significados, ou seja, são responsáveis pela criação de palavras na língua, a partir do momento que trocamos um fonema por outro, produzimos novos signos, novas palavras. No entanto, é bom dizer que um mesmo fonema permite realizações diferentes. Estamos diante do conceito de variantes ou alofones: realizações diferentes de um mesmo fonema, isto é, falo de forma diferente, mas refiro-me à mesma palavra. Entenderam? Parece complicado, mas é muito simples, se observarmos dados concretos. Na Unidade 1, especificamente, no item Aprofundando o Conhecimento, e tenho certeza de que despertei sua curiosidade para ouvir a voz do poeta Drummond, você deve ter percebido que para tinha, ao invés de o poeta dizer o fonema / t / ele realiza esse som como / t /. Agora, atente bem: dizer / t / ou / tʃ / para tinha não implica a criação de uma nova palavra, mas expressa, unicamente, maneiras diferentes de se dizer uma mesma coisa. A 38 isso denominamos alofones ou variantes. Fato análogo ocorre quando dizemos / meys /; / mey / ou / mês / para a palavra mês, em que se observam maneiras diferentes para nos referirmos a uma mesma realidade, a um mesmo signo da língua. BUSCANDO CONHECIMENTO Tipos de Alofones ou Variantes As variantes são de vários tipos: posicionais (contextuais), livres e estilísticas. Vamos entendê-las? Variantes posicionais ou contextuais são as realizações condicionadas pelo contexto fônico em que aparecem. Em português, é comum os fonemas / t / e / d / realizarem- se, respectivamente, como / tʃ / e / dƷ /. Assim, eu posso dizer / tʃ i ra / ou / tira /, assim como posso dizer / dƷ ita / ou / dita /, para referir-me, respectivamente, aos mesmos signos. Resta saber por que / tʃ / e / dƷ / são variantes posicionais ou contextuais. Essas variantes só ocorrem, quando o / t / e / d / estiverem diante de / i /. É por essa razão que ninguém diz, por exemplo, / tʃ a tʃ u / para a palavra “tatu”. Você poderia me questionar por que as variantes são / tʃ / e / dƷ / e não / t / e / d /. É muito simples, pois o que se considera é o maior número de realizações, ou seja, / t / e / d / combinam-se com maior número de vogais: / a /; / e /; / E /; / i /; / o /; / ɔ /; / u /. Outro exemplo de variante posicional é o fonema / s / que, em final de palavra se realiza como / s /, como em / ´belas /. Em posição não final e antes de consoantes surdas também são ditos / s /, como em: / ´tEs ta /, porém em posição final de sílaba, antes de consoantes sonoras seguida de vogal, possuem som de / z /. Pronuncie a palavra “mesmo”. Pronunciou? Se o fez, deve ter percebido que o som aí produzido é / z /: / ´mezmu /. 39 Vamos estudar os alofones do fonema / a /. Para isso, pronuncie as palavras “pá” e “caso”. Pronunciou? Percebeu que, para falar o / a /, você abriu bem a boca? Agora, fale, lentamente, as palavras “bela” e “menina”. Você deve ter observado que o / a / dessas palavras foi pronunciado com uma abertura menor da boca. Neste caso, há que se observar que o / a / apresenta os seguintes alofones: [ a ], posição tônica, cuja pronúncia é bem aberta; / ɐ / posição átona, cuja pronúncia se dá com menor abertura e / ɐ ͂ /, quando nasal, pois é realizado com abertura da boca menor que a tônica oral. Compare as palavras: “pá”, “pampa”, percebeu como a oral é mais aberta? Variantes livres não são condicionadas pelo contexto fônico, mas dependem única e exclusivamente dos hábitos articulatórios do falante. Se atentarmos, por exemplo, para o falar nordestino, observaremos a tendência de abertura das vogais. Assim, para “menino”, dizem / ´mE ni nu/, para “coração”, dizem / k ɔ ra´ sãw /. Outro exemplo de variação livre é a realização do / r / e do / s / carioca, pois, para “mas”, dizem / ´mayʃ /. Vale dizer ainda que as variantes livres, segundo Labov (1996), são determinados fatores extra e intra-linguísticos de forma previsível. Embora o pesquisador não possa predizer, quando o falante vai realizar uma ou outra variante, quando ditas, é possível mostrar que elas são empregadas em consonância com a classe social a que pertence o falante, ao sexo e à faixa etária. Variação Estilística são realizações que dependem da intencionalidade emotiva do falante. É comum o falante despender maior intencionalidade e um determinado fonema, como, por exemplo, / mi´ni: nu/. Pode-se afirmar que na música “Pelados em Santos” do grupo ‘Mamonas Assassinas’ ocorre uma variação estilística, pois para “doidão”, o grupo diz / dƷ o y ´d Ʒ ã w /. O apóstrofe ( ´) indica que a sílaba seguinte é a tônica. Os dois pontos introduzidos na palavra menino indicam um prolongamento da vogal: miniiinu. 40 UNIDADE 10 - DISTRIBUIÇÃO COMPLEMENTAR, NEUTRALIZAÇÃO E ARQUIFONEMA CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicitar os conceitos de distribuição complementar, neutralização e arquifonema. Até esta etapa de nossos estudos, observamos que os fonemas permitem variação, no tocante a sua realização. Nesta unidade, vamos aprender novos conceitos importantes para os estudos de fonética e de fonologia. ESTUDANDO E REFLETINDO Vejamos o conceito de Distribuição Complementar. Para os estudiosos, a distribuição complementar caracteriza-se por dois fones (fonemas) diferentes que não se encontram jamais no mesmo contexto fônico. Assim, dizemos que a lateral linguoalveolar / l /, presente nas palavras “lama” e “alma”; a lateral vocalizada / w /, presente em / ´awma /; a lateral velarizada / ɫ /, comum no Rio Grande do Sul e que ocorre fechando sílaba como em / ´a ɫ ma / e / ´k a ɫ da/, por exemplo. A distribuição complementar se dá, porque uma variante não ocorre em lugar da outra. Vamos entender bem isso. O / l / realiza-secomo / l /, linguoalveolar, sempre que iniciar sílaba; fechando sílaba, sua realização é vocalizada / w / ou velarizada / ɫ /, no Rio Grande do Sul. Neste caso específico, ninguém diz, por exemplo, / a ́ wadu /, para a palavra, “alado”. Analogamente, não dizemos / mal / para “mal”. Você deve ter percebido que as variantes posicionais ou contextuais são casos de distribuição complementar. 41 BUSCANDO CONHECIMENTO Já observamos que o que caracteriza fonemas diferentes na língua é o traço opositivo o distintivo. Assim, se tomarmos, por exemplo, as vogais anteriores, observamos que / e / e / i / são anteriores, orais, não arredondados, mas são diferentes, porque um é médio e o outro alto, respectivamente. No entanto, sempre que o / e / for átono, ele é realizado como / i /, não havendo, então, a oposição: média/ alta, como se observa em: [ ´ʃ a ve / ´ʃ a vi] = chave. Nessa perspectiva, cessa a oposição como a que se constata, por exemplo, nas palavras “vê-la” e “vila”. Fato análogo ocorre com as vogais posteriores, pois / o / e / u / apresentam, o traço distintivo médio e alto, respectivamente, mas, na fala, essa oposição é neutralizada, pois / o / é pronunciado / u /, como se observa em / ´bo lu /. Então, neutralização é a perda do traço distintivo entre dois fonemas. Em outras palavras, a oposição média e alta desaparece, quando das realizações de / e / - / i / e / o /- / u /. Essa variação da fala, no sistema fonológico, dá origem ao arquifonema que nada mais é do que a soma de um feixe de traços pertinentes comuns a dois fonemas, que são os únicos a apresentarem tais traços, excluídos os opositivos que os oporiam um ao outro. O arquifonema é registrado com letra maiúscula, que implica a junção de traços pertinentes a dois fonemas, como podemos verificar abaixo. ARQUIFONEMA / i / vogal anterior alta / I / / e / vogal anterior média ARQUIFONEMA / U / Vogal Posterior Alta / U / / o / Vogal Posterior Média 42 UNIDADE 11- PROCESSOS FONOLÓGICOS CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Propiciar conhecimentos sobre os processos fonológicos. Como sabemos a língua sofre alterações e modificações. Além disso, vale dizer que, todo momento, criam-se expressões novas, palavras novas, acarretando modificações determinadas por fatores fonéticos, morfológicos sintáticos. Fatores prosódicos: entonação, pausa, por exemplo, também devem ser levados em conta. Como ilustração, podemos citar que as vogais não acentuadas, átonas, por serem mais débeis, propiciam o fenômeno da neutralização, como abordamos na unidade anterior. Vamos conhecer, agora, os principais processos fonológicos da língua portuguesa. ESTUDANDO E REFLETINDO Para Callou e Leite (1993), existem três processos fonológicos básicos: Processos que acrescentam traços ou mudam a especificação dos traços; Processos que inserem segmentos e Processos que apagam segmentos. Nos processos que acrescentam traços ou mudam a especificação dos traços, podemos incluir: a) Assimilação- termo genérico referente a qualquer processo em que um som adquire características ou traços de outros que o rodeia. Por exemplo, um segmento pode assumir o ponto de articulação de outro vizinho. Neste caso, a nasalização é um bom exemplo. Sabe o que é nasalização? É simples: vogal que precede consoante nasal se nasaliza. Como exemplo, podemos citar as palavras cama, tema, time, dono, rumo. Palatização- uma consoante realiza-se como palatal, quando diante de vogal anterior. Por exemplo, o fonema / t / de “tira” é classificado como oclusivo, linguodental, mas, diante do / i / é pronunciado / tʃ / 43 Harmonização vocálica- ação assimilatória da vogal tônica sobre a pretônica. Como exemplo, “minino; filiz, furmiga”. Metafonia- ocorre a ação assimilatória da átona para a tônica. Um exemplo são os plurais com metafonia, como formoso, formosos; povo, povos. Nos Processos que inserem segmentos, merecem destaque: a) Ditongação- processo em que se insere uma semivogal. Como exemplo temos “mês” [ meys]; rapaz [Rapays] b) Epêntese- processo em que se insere uma vogal, como ocorre em: ad(i)vogado; ab(i)soluto. Nos processos que apagam segmentos, merecem destaque: a) Síncope- há perda de fonemas no interior do vocábulo. Por exemplo, “xicra” (xícara), “oclus” (óculos). b) Aférese- supressão no início do vocábulo: “pêra” por espera; “tá” por estar. c) Apócope- queda de fonema no final da palavra: “fala” por falar; “bebe”, por beber. BUSCANDO CONHECIMENTO É bom lembrar que a relação grafema / som não se dá uma a uma, mas, pode ocorrer a necessidade de mais de uma letra para a produção de um único som. Assim, para um som / ʃ /, podem ocorrer duas leras ch, como, por exemplo, na palavra chapéu. Estamos diante dos famosos dígrafos. Vale dizer ainda que as letras não são o som, mas representações dos sons e que nosso alfabeto é ortográfico e não fonético. Daí dizermos / kaza / e, ortograficamente registramos casa; dizermos / ´sapu /, /´naser / e registramos, na escrita, sapo e nascer, em que se observa um único som, representado por letras diferentes. 44 UNIDADE 12 - SITUANDO A LINGUÍSTICA TEXTUAL CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicitar os três momentos da Linguística Textual. Nesta unidade enfocamos as fases pelas quais a Linguística Textual passou até se firmar como ciência. ESTUDANDO E REFLETINDO Os estudos da língua, no passado, eram calcados na palavra isolada. Sabe o que isso significa? Tenho certeza de que já estudou a língua a partir da palavra isolada. Normalmente, tomava-se uma palavra qualquer, enquadrava-a em uma classificação gramatical: artigo, substantivo, verbo, advérbio, por exemplo, e com isso, acreditava-se estudar a língua. Não que não se deve abordar a palavra isolada, mas mais do que classificá-la em uma categoria gramatical há que se atentar para sua formação na produção de sentido. Vamos examinar as construções abaixo: A) Aqui está a lista B) Aqui está uma lista C) Um menino chegou. Um menino estava chorando D) Um menino chegou. O menino estava chorando Nas estruturas A, B, C e D, podemos destacar o artigo definido, em A, e o indefinido B, C e D. Gramaticalmente, o artigo definido indica algo conhecido pelo falante e pelo ouvinte; diferentemente, o indefinido expressa algo desconhecido dos interlocutores. No entanto, 45 o mais importante é saber que nos exemplos A e B há implicações de sentido. Em outras palavras, ao dizer “Aqui está a lista”, significa afirmar que falante e ouvinte sabem de que lista estamos nos referindo, mas em B, o interlocutor não conhece a lista. No exemplo C, ao empregarmos o indefinido um, nas duas orações, significa falarmos de meninos diferentes. Em D, observamos tratar-se do mesmo menino. Eis a função dos artigos: o indefinido introduz o elemento novo pela primeira vez no texto. Sua retomada deve ser feita por meio do artigo definido. É normal o professor estudar os verbos por meio de memorização de tempos. No entanto, há que se lembrar que uma forma verbal de futuro, por exemplo, pode indicar modo imperativo e não tempo, como se observa em: Não matarás Honrarás pai e mãe. Com o advento do estruturalismo, principalmente, a partir dos estudos de Saussure, que concebia a língua como um sistema, um conjunto de elementos organizados, estruturados, a unidade de estudo da língua passou a ser a frase e não mais a palavra isolada. Então, a frase é a maior unidade de estudo da língua. Vale lembrar que, para o estruturalismo, a língua é uma grandeza imanente, isto é, basta em si e por si mesma, isto é, excluem-se dos estudos da língua quaisquer fatores externos a ela. 46 BUSCANDO CONHECIMENTO A Linguística textual é bastante recente e pode-se afirmar,conforme Fávero e Koch (1988), que passou por três momentos distintos: análise transfrástica; construção das gramáticas textuais e elaboração de uma teoria de texto. A análise transfrástica parte da frase isolada e preconiza a relação entre as frases, isto é, a relação entre frases e períodos. Esse momento foi motivado por perceberem que havia fenômenos não explicáveis pelas teorias sintáticas e/ou semânticas. Assim, ao dizermos: “Pedro foi a São Paulo. Ele adorou a capital”, observamos que o “ele” é mais do que um pronome do caso reto de terceira pessoa. Vamos entender isso. Para a gramática tradicional, os pronomes são substitutos dos nomes, mas, para a Linguística Textual, a relação que o pronome estabelece não é de pura substituição, mas fornece ao ouvinte/leitor instruções de conexão entre o predicado (adorou a capital) e o próprio SN, considerado como aquele sobre o qual já se disse algo: foi a São Paulo. Não é apenas pela concordância que concluímos que “ele” refere-se a Pedro, mas pelo fato de esse elemento possuir duas predicações: ir a São Paulo e Adorar a capital. Trata- se da correferenciação. Outros estudos fizeram parte desse momento, destacando-se a função textual dos artigos, como já abordamos anteriormente, e a relação entre os enunciados com ou sem conectores, como se verifica, nos exemplos abaixo. A- Não fiz a tarefa. Não sabia os conceitos teóricos. B- Não fiz a tarefa. Fui reprovado na disciplina C- Não fiz a tarefa. Justifiquei-me com o professor 47 Mesmo os conectores não estando explícitos nas frases acima, é possível o estabelecimento de relações. Assim, em A, observamos relação de causa e consequência: Não fiz a tarefa, porque não sabia os conceitos teóricos; em B, há a relação lógica: Não fiz a tarefa, logo fui reprovado na disciplina; em C, há uma relação de oposição: Não fiz a tarefa, mas justifiquei-me com o professor. O que se pode concluir dos dados acima é que o leitor deve estabelecer as relações. Então, além do conhecimento da língua, há que se considerar a intuição do falante e também os contextos em que ocorrem os enunciados. O segundo momento refere-se à elaboração das gramáticas textuais. Tentou-se evidenciar que o texto possuía propriedades referentes à própria língua. O texto passou a ser considerado modelo mental, sistema uniforme e isso significa que todo falante nativo sabe o que é um texto. Nesse momento, Charolles (1989) postula três capacidades textuais básicas do falante: a- Capacidade formativa- permite ao falante produzir e compreender um número elevado e ilimitado de textos inéditos e ainda perceber se os textos são bem ou mal formados; b- Capacidade transformativa- o falante possui capacidade para reformular, parafrasear, resumir um texto dado; c- Capacidade qualitativa- o falante tem capacidade para tipificar os textos, isto é, dizer se o texto é narrativo, descritivo ou dissertativo, dentre outros; Há que se salientar que a elaboração da gramática de texto não deu conta de todas as variedades de textos existentes. 48 O terceiro momento caracteriza-se por considerar o texto como unidade maior e, como tal, passou a ser estudado, considerando-se o seu contexto pragmático, isto é, o texto se estende para o contexto (conjunto de condições externas da produção/recepção e interpretação 49 UNIDADE 13 - DISCUTINDO OS CONCEITOS DE COERÊNCIA E DE COESÃO CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Discutir os conceitos de coerência e coesão. A todo momento dizemos ou ouvimos alguém dizer: “Você não é coerente”. Mas o que é ser coerente? O que faz com que um texto seja coerente? Como se processa a coesão textual? Essa é a temática de nossa unidade. ESTUDANDO E REFLETINDO Para iniciarmos nosso estudo proponho o texto Canção, de Cecília Meireles, cujas estrofes estão, propositalmente, colocadas fora de ordem. Vamos a elas? Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre dos meus dedos colore as areias desertas Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça. O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio... Depois, tudo estará perfeito: praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas. Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; depois, abri o mar com as mãos para o meu sonho naufragar. Seu trabalho, agora é colocar as estrofes em ordem. Pense um pouco e numere a ordem correta das estrofes. Numerou? Agora, vamos ver se você acertou. 50 Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; depois, abri o mar com as mãos para o meu sonho naufragar. Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre dos meus dedos colore as areias desertas O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio... Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça. Depois, tudo estará perfeito: praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas. Se você acertou, então é um bom começo para o entendimento da coerência, que diz respeito à interpretação e envolve o leitor. A primeira coisa a assinalar é que a relação entre a primeira e a segunda estrofe diz respeito ao conhecimento pragmático. Ora, se abri o mar com as mãos, obviamente, implica elas estarem molhadas. Falei que a função do artigo indefinido é introduzir o elemento novo pela primeira vez no texto: Pus o meu sonho num navio. A retomada de navio se dá a partir do artigo definido o “e o navio em cima do mar”. O conhecimento de mundo também é ativado para a colocação do texto em ordem. Assim, sabemos o que é sonho, mas a autora nos fala de algo novo: querer matar o sonho. Daí a construção do mundo para que o sonho morra. 51 Na terceira estrofe, a autora nos afirma que os sonhos estão morrendo, mas devagar. Daí o emprego do presente contínuo: o vento vem vindo, vai morrendo, em que o gerúndio indica uma ação em processo. O processo de matar o sonho é lento, gradativo. Por essa razão, na quarta estrofe, observamos uma projeção para o futuro: chorarei quanto for preciso. Ora, sabemos que chorar implica lágrimas, então quanto mais lágrimas no navio, mais pesado ele fica e mais rápido ele afunda. Então, as lágrimas são para aumentar o mar, para que ele adquira força (ou mais força) para matar o sonho mais rápido e eficazmente. Finalmente, na última estrofe, observamos: “depois tudo estará tranquilo” em que “depois”, de certa maneira, retoma todos os versos anteriores: colocar o navio no mar, abri-lo com as mãos, chorar e ele afundar. Na verdade, podemos afirmar que afundar os sonhos é matar o amor. Pelo que você observou, na análise, trabalhamos com coerência, pois abordamos o princípio de interpretação, mas não excluímos a coesão, ligação entre as passagens do texto, elementos da superfície que nos permitiu a colocação do texto em ordem. A coerência, então, diz respeito à interpretação; a coesão à ligação entre os elementos na superfície textual. BUSCANDO CONHECIMENTO Koch, em todas as suas obras sobre coerência, assinala-nos a dificuldade de definir, com precisão, o termo. No entanto, apresenta-nos alguns conceitos que nos auxiliam a definir coerência. Vamos a eles? 52 Num primeiro momento, devemos conceber coerência como “boa formação textual”. No entanto cabem, aqui, algumas considerações. O que você entende por boa formação textual? Você poderá sertentado a afirmar que boa formação textual tem a ver com um texto escrito certinho, conforme apregoa a gramática normativa. Mas não é bem assim. Para entender bem isso, observe os exemplos abaixo. Texto A As flores são bonitas. Elas dão alegria para nós. Eu gosto muito de flores. Na minha casa tem muitas flores. Nós devemos cuidar das flores. Texto B Eu e meu til a genti fomu compra flores pra ponha no tumlo da vó. O homi falô qui num tinha mais e nóis fico tristi e meu til falô que a genti ia rezá e e´la ficava com tenti. Se você atentar para o texto A, certamente, tenderá a afirmar tratar-se de um texto com boa formação textual. Mas será que é? Para responder a isso passemos ao texto B. O texto B apresenta-se com enormes problemas linguísticos na superfície textual. Há empregos de palavras, concordância totalmente fora dos padrões gramaticais da norma culta. O texto A, diferentemente, encontra-se em perfeita harmonia com tais padrões. Não há desvios gramaticais. Vale dizer, no entanto, que o texto B apresenta boa formação textual. A que se deve essa afirmação? É simples, neste texto, observamos unidade de sentido. Trata-se de uma narração, cujas categorias encontram-se manifestadas no texto. A saber: Introdução- comprar flores para levar para a avó Complicação- Não ter flores Desenvolvimento- ficar triste por não ter flores Clímax- rezar Conclusão- a avó ficar contente 53 No texto A, diferentemente, em termos de interlocução, não observamos a unidade de sentido, apenas uma série de informações sobre flores. Então, boa formação textual nada tem a ver com normas gramaticais, mas com interlocução: o texto deve levar o outro a um agir. Coerência tem a ver com o princípio de interpretabilidade textual. Nesse sentido, ela depende do leitor que transfere, no ato da leitura, todo seu conhecimento de mundo. Então, a interpretação do texto não depende só do texto, mas do leitor também, que incorpora aos conhecimentos expressos no texto, o seu conhecimento de mundo. O texto acima foi publicado na Folha de S. Paulo, em 1 de abril de 2001. Trata-se de uma charge, cujo cenário ao fundo apresenta Brasília. O texto verbal faz referência ao gênero enciclopédico, cujo efeito de sentido é propiciar maior objetividade e neutralidade por parte de seu produtor. A interpretação desse texto exige do leitor determinados conhecimentos de mundo, tais como: a corrupção no Brasil é antiga, desde a época de seus colonizadores; a corrupção 54 maior encontra-se no Planalto Central, Brasília, e se espalha por todo Brasil. Se o leitor não possuir esse conhecimento de mundo, a leitura do texto fica comprometida. A coerência diz respeito à unidade e continuidade de sentido. Isso implica dizer que todos os elementos do texto devem estar ligados entre si. Mas devemos atentar que essa ligação não é apenas do tipo lógico, mas também relacionada a elementos sócio- culturais. Nesse sentido, concorrem os processos cognitivos e interpessoais. Os processos cognitivos permitem a criação de um mundo textual. Vamos ver como isso se dá. Para tanto, observe o texto de Dalton Trevisan. Apelo (Dalton Trevisan) Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho. Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia. Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor. O leitor, para a compreensão do texto acima, deve fazer inferências, que completem as informações do texto, principalmente, sobre o passado do personagem e das situações em que a mulher tudo lhe fazia. Vamos tomar para análise o elemento “e” presente no texto. “Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham” 55 Em princípio, a considerar que plantas necessitam água para se manter, então, esse “ e” significa “mas”, oposição, contrariando a lógica: mais água; mais vida. Vale dizer, no entanto, que as violetas não necessitam de muita água. Se eu tiver esse conhecimento de mundo, o “e” deixa de ter sentido de oposição e passa a implicar o sentido de “então”, ou seja, por colocar muita água nas violetas, elas murcham. Na verdade, como o eu poético está perdido sem a sua senhora, que fazia tudo na casa, ele está sem saber o que fazer com as violetas, pois não conhece que muita água faz mal a elas. Os processos interpessoais dizem respeito à influência do falante na situação de comunicação. São as intenções comunicativas do falante colocadas em jogo no texto. Imagine a seguinte situação: Você tem uma visita em sua casa. Ela não resolve ir embora e já é tarde. Então, você olha no relógio e diz: “Nossa! onze horas, já” Ora, sua intenção não é informar a hora, mas, provavelmente dizer à visita que já está na hora de ir embora. Coerência está relacionada à semântica e à pragmática. O que é isso? Vejamos: semântica relaciona-se ao sentido do texto e pragmática à situação de uso do texto, situação de comunicação. Assim, os enunciados devem estar em consonância com a situação de comunicação. Um enunciado pode ser pertinente em dada situação e provocar equívoco em outra. 56 Coerência é global e hierarquizadora dos elementos do texto. Isso significa que o texto não é, simplesmente, a soma de suas partes, mas cada parte deve relacionar-se com outras com vistas à produção de sentido. Dos vários conceitos de coerência, pode-se afirmar que: 1- Coerência é o princípio de interpretabilidade do texto. Liga-se, portanto, à produção, pois à medida que leio um texto, produzo também. 2- Coerência é diz respeito ao sentido do texto, o que implica afirmar que o usuário tem competência textual e comunicativa. O que dizer da coesão? A coesão revela-se por meio de marcas linguísticas, índices formais na estrutura superficial do texto. A coesão é o elo de ligação disseminado na superfície textual. É linear, pois se manifesta na organização sequencial do texto. É sintática e gramatical. APROFUNDANDO O CONHECIMENTO À primeira vista, o texto ao lado parece não ter sentido. Considerando os conceitos de coerência, explique como ela se estabelece no texto. RESPOSTA Cada estrofe aparece com um subtítulo, além da imagem gráfica ao lado de cada uma delas. Na verdade, o texto aborda as fases da vida de uma pessoa e suas características: infância, adolescência, maturidade e velhice. Esses são os elementos que permitem o estabelecimento da coerência 57 UNIDADE 14 - FATORES DE COERÊNCIA: ELEMENTOS LINGUÍSTICOS, CONHECIMENTO DE MUNDO, CONHECIMENTO PARTILHADO, INFERÊNCIAS CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Estudar os fatores de Coerência A coerência é tentacular. Sabe o que é isso? Não? Então é O momento de sabê-lo. Tentacular, porque depende de vários fatores. São esses fatores o tema desta unidade. ESTUDANDO E REFLETINDO Elementos Linguísticos O estabelecimento da coerência não depende, exclusivamente, do conhecimento que possuímos detodas as palavras do texto. No entanto, saber o significado das palavras ajuda para que possamos imprimir ao texto a unidade de sentido. Na verdade, os elementos linguísticos, de certa maneira, funcionam como pistas, como ponto de partida para captarmos a orientação argumentativa dos textos. Segundo Koch A ordem de apresentação desses elementos, o modo como se inter- relacionam para veicular sentidos, as marcas usadas para esse fim, as “famílias” de significado a que as palavras pertencem, os recursos que permitem retomar coisas já ditas e/ ou apontar para elementos que serão apresentados posteriormente, enfim, todo contexto lingüístico- ou co-texto- vai contribuir de maneira ativa na construção da coerência. KOCH e TRAVAGLIA, 2007, p. 71. É claro que se apresentarmos a não falantes de Mandarim um texto todo escrito nessa língua, não haverá entendimento, pois não ocorre o mínimo conhecimento linguístico para o estabelecimento de marcas, de detonadores de sentido explicitados por Koch. Para ilustrar o afirmado acima, vamos examinar, atentamente, a tira abaixo. 58 Dayly News 09/01/2012 Mesmo não sabendo o significado de todas as palavras do texto acima, já que se trata da língua inglesa, qualquer falante sabe que picles e ketchup são vegetais, são vegetais, a que se introduzem conservantes, portanto, são produtos industrializados e é justamente isso que imprime efeito de humor ao texto. Então, o estabelecimento de sentido do texto vai além da simples decodificação do significado das palavras e, nesse texto, em específico entra em jogo um novo fator: Conhecimento de mundo. Conhecimento de mundo é todo o saber que temos acumulado em nossa memória. Esse conhecimento é adquirido, a partir de nossa vivência, de nossas experiências na vida. Vale dizer que buscamos o conhecimento de mundo nos textos que lemos, nas histórias que ouvimos, nas diferentes situações de nossa vida. O conhecimento de mundo é um fator preponderante para o estabelecimento da coerência, pois se nos deparamos com um texto, cujo conteúdo não é conhecido por nós, dificilmente conseguimos estabelecer o sentido. 59 Ressalte-se que todo nosso conhecimento de mundo não está arquivado em nossa memória de maneira desordenada, mas estrutura-se em blocos, denominados modelos cognitivos. Dentre os vários modelos cognitivos, Koch e Travaglia (2007) citam: a) Frames- conjunto de conhecimento armazenado a partir de um certo rótulo, sem que haja uma ordem entre eles. Por exemplo, ao lermos ou ouvirmos a palavra Natal, imediatamente, nos ocorre: presente, Papai Noel, ceia, peru, árvore, família, Cristo. Lembro-me de que, certa vez, ministrava um curso para professores e alguém, para o frame de Natal, introduziu a palavra tristeza. Quando questionei sobre o porquê dessa palavra, a professora respondeu-me: “Minha mãe morreu na noite de Natal”. Esse exemplo deixa bem claro a importância de termos o conhecimento de mundo para o estabelecimento do sentido do texto. b) Esquemas- referem-se a um conjunto de elementos armazenados em nossa memória, segundo uma ordem que pode ser temporal ou causal. Por exemplo, nós temos um esquema do que devemos fazer para efetuar um depósito bancário, no caixa, ou seja, primeiro nos dirigimos à agência, retiramos de nossa bolsa, celular e metais; passamos pela porta giratória, apanhamos a senha de atendimento e, finalmente, quando chega nossa vez, dirigimo-nos ao caixa. c) Planos- referem-se ao conjunto de conhecimento que formulamos, quando queremos atingir determinado objetivo. Os treinadores de futebol elaboram planos para surpreender o adversário. d) Scripts- são conhecimentos de linguagem, inclusive culturais, que nos permitem agir diante de certas situações. Por exemplo, nós temos um script de como agir em um velório. Assim, para os parentes do falecido, expressamos nossos sentimentos, pêsames e nunca damos os parabéns. e) Superestruturas textuais- conjunto de conhecimento sobre as estruturas dos textos. Neste caso, nós, falantes, temos uma ideia da estrutura de uma história, por exemplo. 60 Para entendermos bem a importância do conhecimento de mundo, examinemos o texto ao lado. Carandiru, depois da prisão da dona da Daslu O primeiro conhecimento de mundo que devemos ativar para a leitura do texto acima é o significado de Carandiru, um presídio. No entanto, isto não basta, pois essa prisão encontra-se finamente decorada. O importante é saber o que é a Daslu. Trata-se de uma das lojas mais caras e sofisticadas do Brasil. Daí, sim, entendermos o humor da imagem. Vale dizer que a prisão da dona da Daslu se deu em virtude de sonegação de impostos. Conhecimento Partilhado diz respeito ao conhecimento mínimo e comum que os interlocutores devem possuir para que se estabeleça a comunicação e a leitura textual. Vale dizer que é impossível que duas pessoas possuam, exatamente, o mesmo conhecimento de mundo, mas deve haver um conhecimento que seja comum entre os envolvidos com o texto. O conhecimento partilhado, segundo Koch e Travaglia (2007) constitui a informação velha, aquilo que os envolvidos já dominam, já sabem, o que vai ser introduzida é a informação nova. Todo texto deve ter informação velha e informação nova. Se apresentar apenas informações velhas, é redundante. Se, por acaso, só exibir informações novas, não ocorre o compartilhamento das informações, pois não há o mínimo comum. 61 As informações dadas podem ser retomadas no próprio texto (co-texto), como podemos verificar no exemplo abaixo. Meu filho me ligou ontem. Ele estava muito feliz. (ele retoma meu filho.) As informações dadas podem referir-se à situação comunicativa, ao conhecimento geral de uma cultura e ao conhecimento comum ao emissor e receptor, conforme se pode observar nos exemplos abaixo. Luana, guarda este vestido na mala (contexto situacional, os interlocutores sabem de que vestido estão falando, pois estão no mesmo contexto de comunicação) Em 7 de setembro, comemoramos a Independência do Brasil e haverá desfile (conhecimento da cultura de nosso país) Hoje é dia do aniversário da Luana. (conhecimento comum do falante e do ouvinte) Os frames também contribuem para que façamos inferências, a partir de elementos expressos no texto. Maria mexia um doce de abóbora. O cheiro se espalhava por toda cozinha. Ora, sabemos que cheiro só pode ser do doce que Maria fazia e qualquer receptor pode entender isso. 62 BUSCANDO CONHECIMENTO Outro fator de coerência são as Inferências. Sabe o que são inferências? Trata-se de um fator bastante importante e consiste em o leitor/ouvinte, a partir do conhecimento de mundo, estabelecer relações entre elementos e expressões do texto, ainda que não estejam explícitas na superfície textual. Os textos requerem de nós uma série de inferências, pois, se assim não o fizéssemos,seriam extremamente longos. Por exemplo, se dissermos: Fui a um restaurante e comi uma deliciosa feijoada, as inferências que devemos fazer são: escolhi o restaurante, selecionei uma mesa, fui atendido, pedi o prato, comi e paguei. Vamos examinar os exemplos abaixo. Pedro comprou um BMW 2012. As inferências que fazemos são: a- Pedro tem um carro; b- Pedro tinha dinheiro para comprar um BMW; c- Pedro é rico; d- Pedro é um partidão para as mulheres casadoiras. Algumas inferências, conforme Koch e Travaglia (2007) só podem ser feitas retroativamente, isto é, depois que conhecemos a sequência do texto. Assim, conforme a sequência do texto é que saberemos tratar-se de uma sala de aula ou sala de estar. Ele entrou na sala. Começou a colocar o ponto na lousa Ligou a televisão. Examine, agora, o diálogo abaixo. - José chegou - Estou terminando de me arrumar. 63 No diálogo acima, épossível estabelecermos ligação entre as falas. Neste caso, o texto integral seria: a) - José chegou e está te chamando. b) - Não posso recebê-lo agora, pois estou terminando de me arrumar. c) - Tudo bem, eu falo para ele te esperar. 64 UNIDADE 15 - FATORES DE COERÊNCIA: CONTEXTUALIZAÇÃO, SITUACIONALIDADE, INFORMATIVIDADE E FOCALIZAÇÃO CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicar contextualização, situacionalidade, informatividade e focalização e sua importância na tessitura textual. Na unidade anterior, abordamos alguns fatores de coerência. Nesta unidade, nosso foco é dar a conhecer outros fatores que concorrem para o estabelecimento da coerência textual. Vamos a eles? ESTUDANDO E REFLETINDO Fatores de contextualização amarram o texto em uma determinada situação comunicativa. Segundo Marcuschi, 1983 (apud Koch e Travaglia, 2007), os contextualizadores podem ser de dois tipos: a) Datas, local, assinatura, elementos gráficos etc. São os contextualizadores propriamente ditos; b) Contextualizadores perspectivos, como títulos dos textos, autor, início do texto, estilo de época, corrente científica, filosófica ou religiosa a que pertence o texto. Ao nos depararmos com um determinado autor, Millor Fernandes, por exemplo, já sabemos que teremos um texto de humor. Já, com Machado de Assis, imediatamente, somos conduzidos à expectativa de um texto realista com teor filosófico sobre o homem. Examine o texto abaixo: Apesar de Você Amanhã vai ser outro dia Hoje você é quem manda Falou, tá falado Não tem discussão, não A minha gente hoje anda Falando de lado e olhando pro chão 65 Viu? Você que inventou esse Estado Inventou de inventar Toda escuridão Você que inventou o pecado Esqueceu-se de inventar o perdão Chico Buarque, 1970 Ora, se não considerarmos a data, dificilmente, depreenderíamos o referente de você. Considerando-se que o Brasil passava por um regime militar, em que havia censura, você ganha estatuto de militar. Situacionalidade pode ser visualizada em duas direções: da situação para o texto e do texto para a situação. Vamos observar como isso ocorre. Falar em situacionalidade da situação para o texto implica considerar em que medida a situação comunicativa interfere na produção de sentido. A situação comunicativa exerce papel preponderante, pois sabemos que todo texto deve a ela se adequar, inclusive, em termos de variantes linguísticas empregadas. O lugar e o momento da comunicação também são fundamentais e devem ser considerados para o estabelecimento da coerência de um texto. Examinemos o texto abaixo. A vaguidão específica Millôr Fernandes La Insignia. Brasil, fevereiro de 2005. "As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica." -Richard Gehman- - Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte. - Junto com as outras? - Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia. - Sim senhora. Olha, o homem está aí. - Aquele de quando choveu? - Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo. 66 - Que é que você disse a ele? - Eu disse pra ele continuar. - Ele já começou? - Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse. - É bom? - Mais ou menos. O outro parece mais capaz. - Você trouxe tudo pra cima? - Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar até a véspera. - Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite. - Está bem, vou ver como. A leitura do texto A Vaguidão Específica permite-nos uma série de considerações. A primeira diz respeito ao estabelecimento do referente de certos itens presentes, tais como: isso, junto com as outras, o outro, lugar do outro dia, o homem está aí, tudo, dentre outros elementos. Ora nós, leitores, não conseguimos saber, extamente, do que as duas pessoas falam, mas elas o sabem, pois dividem o mesmo espaço da comunicação. No entanto, é possível estabelecermos sentido para esse texto, considerando nosso conhecimento de mundo. A primeira diz respeito ao fato de os locutores serem duas mulheres, uma das quais, provavelmente, é a patroa, dado o tratamento de senhora. Outro fato a considerar é o de ser uma situação de reforma ou de mudança, pois há o enunciado “na ocasião descemos tudo de novo” O mundo textual não é idêntico ao mundo real. Assim, o produtor do texto recria um mundo. Vamos examinar o texto de Wood Allen “A safira pertenceu originalmente a um sultão que morreu em circunstâncias misteriosas, quando uma mão saiu do seu prato de sopa e o estrangulou. O proprietário seguinte foi um lorde inglês, o qual foi encontrado certo dia, florindo maravilhosamente numa jardineira. Nada se soube da jóia durante algum tempo. Então, anos depois, ela reapareceu na posse de um milionário texano que se incendiou enquanto escovava os dentes” (Woody Allen) À primeira vista o texto aparenta ser algo sem coerência, no entanto não o é, pois inferimos tratar-se da história de uma safira misteriosa. O que parece ilógico no mundo 67 natural, no texto, é coerente uma vez que aborda o sobrenatural. Neste caso, partimos do texto para a situação de produção. Informatividade é outro fator de coerência e diz respeito ao grau de previsibilidade da informação contida no texto. Assim, podemos afirmar que quanto mais previsível for a informação veiculada no texto, menos informativo ele é e quanto mais imprevisível maior quantidade de informações teremos. Todas as frutas se conservaram, mas o tomate se estragou. Ora, esse enunciado é bastante informativo, pois introduz uma informação que nem todos sabem: tomate ser fruta. Focalização é o mecanismo que consiste na concentração do produtor/receptor do texto em parte do conhecimento. Segundo Koch e Travaglia (2007) Seria como uma câmera que acompanhasse tanto o produtor como o receptor no momento em que o texto é processado. O primeiro fornece ao segundo determinadas pistas sobre o que está focalizando, ao passo que o segundo terá de recorrer a crenças e conhecimentos partilhados sobre o que está sendo focalizado, para poder entender o texto (e as palavras que o compõem de modo adequado. KOCH e TRAVAGLIA, 2007, p. 88 Na ocorrência de divergências de focalização, o resultado é o comprometimento da coerência, pois há problemas de compreensão do texto. Para entendermos bem a focalização, vamos à leitura do texto abaixo. Viajou meu amigo Pedro. Fui levá‐lo ao Galeão, onde esperamos três horas o seu quadrimotor. Durante esse tempo, não faltou assunto para nos entretermos, embora não falássemos da vã e numerosa matéria atual. Sempre tivemos muito assunto, e não deixamos de explorá‐lo a fundo. Embora Pedro seja extremamente parco de palavras, e, a bem dizer, não se digne de pronunciar nenhuma. Quando muito, emite sílabas; o mais é conversa de gestos e expressões pelos quais se faz entender admiravelmente. É o seu 68 sistema. Passou dois meses e meio em nossa casa, e foi hóspede ameno. Sorria para os moradores, com ou sem motivo plausível. Era a sua arma, não direi secreta, porque ostensiva. A vista da pessoa humana lhe dá prazer. Seu sorriso foi logo considerado sorriso especial, revelador de suas boas intenções para com o mundo ocidental e oriental, e em particular o nosso trecho de rua. Fornecedores, vizinhos e desconhecidos, gratificados com esse sorriso (encantador, apesar da falta de dentes), abonam a classificação. Devo dizer que Pedro, como visitante, nos deu trabalho; tinha horários especiais, comidas especiais, roupas especiais, sabonetes especiais, criados especiais. Mas sua simplespresença e seu sorriso compensariam providências e privilégios maiores. Recebia tudo com naturalidade, sabendo‐se merecedor das distinções, e ninguém se lembraria de achá‐lo egoísta ou importuno. Suas horas de sono ‐ e lhe apraz dormir não só à noite como principalmente de dia ‐ eram respeitadas como ritos sagrados, a ponto de não ousarmos erguer a voz para não acordá-lo. Acordaria sorrindo, como de costume, e não se zangaria com a gente, porém nós mesmos é que não nos perdoaríamos o corte de seus sonhos. Assim, por conta de Pedro, deixamos de ouvir muito concerto para violino e orquestra, de Bach, mas também nossos olhos e ouvidos se forraram à tortura da tevê. Andando na ponta dos pés, ou descalços, levamos tropeções no escuro, mas sendo por amor de Pedro não tinha importância. Objetos que visse em nossa mão, requisitava‐os. Gosta de óculos alheio (e não os usa), relógios de pulso, copos, xícaras e vidros em geral, artigos de escritório, botões simples ou de punho. Não é colecionador; gosta das coisas para pegá‐las, mirá-las e (é seu costume ou sua mania, que se há de fazer) pô‐las na boca. Quem não o conhecer dirá que é péssimo costume, porém duvido que mantenha este juízo diante de Pedro, de seu sorriso sem malícia e de suas pupilas azuis ‐ porque me esquecia de dizer que tem olhos azuis, cor que afasta qualquer suspeita ou acusação apressada, sobre a razão íntima de seus atos. Poderia acusá‐lo de incontinência, porque não sabia distinguir entre os cômodos, e o que lhe ocorria fazer, fazia em qualquer parte? Zangar‐me com ele porque destruiu a lâmpada do escritório? Não. Jamais me voltei para Pedro que ele não me sorrisse; tivesse eu um impulso de irritação, e me sentiria desarmado com a sua azul maneira de olhar‐me. Eu sabia que essas coisas eram indiferentes à nossa amizade – e, até, que a nossa amizade lhe conferia caráter necessário de prova; ou gratuito, de poesia e jogo. Viajou meu amigo Pedro. Ficou refletindo na falta que faz um amigo de um ano de idade a seu companheiro já vivido e puído. De repente o aeroporto ficou vazio. ANDRADE, Carlos Drummond de. Cadeira de balanço No início do texto, o produtor dá-nos pistas sobre seu amigo Pedro. Conversavam, enquanto esperavam pelo voo, mas introduz uma informação nova: Pedro era parco de palavras, não pronunciava nenhuma. Com isso, somos levados a focalizar alguém com problemas de fala. 69 Outros dados são introduzidos no texto, tais como hóspede ameno, sorria para todos, deu trabalho, tinha horários e comidas especiais. A focalização já é outra: alguém dependente, podendo até ser um idoso. No entanto, quando o produtor introduz a pista de que Pedro gostava de objetos alheios, principalmente de óculos, embora não os usasse, já cai por terra a pista de pessoa idosa e uma nova é ativada: pessoa com algum problema. No entanto, ao mencionar a incontinência, somos levados a focalizar uma criança, o que é corroborado no final do texto “Ficou refletindo na falta que faz um amigo de um ano de idade a seu companheiro já vivido e puído”. Dependendo do caso uma mesma palavra poderá ter sentido diferente, como se observa abaixo: Estou cansado, vou para o meu rancho. a) Um rico empresário, dirigindo-se aos funcionários; b) Um cortador de cana, falando aos seus amigos. APROFUNDANDO O CONHECIMENTO 1)Além de conhecimento de conhecimento de mundo, outros fatores devem ser ativados para o estabelecimento da coerência. Examine o texto abaixo e faça o que se pede A vingança 70 a) Qual é o conhecimento de mundo que devemos ter para a compreensão do texto acima? b) Que outros fatores devem ser ativados? c) Justifique o título do texto 2) A PULGA Um, dois, três Um , dois, três Quatro, cinco, seis Quatro, cinco, seis Com mais um pulinho Tô de barriguinha cheia Estou na perna do freguês Tchau Um, dois, três Goodbye Quatro, cinco, seis Auf wiedersehen (Vinícius de Moares) Com mais uma mordidinha Coitadinho do freguês a) Que tipo de fator de coerência deve ser ativado para o entendimento do texto acima? RESPOSTAS 1- a) O conhecimento de mundo que devemos ter é sobre a história do Lobo mau e dos três porquinhos. b) Se não considerarmos o momento histórico em que o texto foi produzido, não atribuímos sentido. Trata-se da gripe suína, razão pela qual o lobo foge c) A vingança, porque era o lobo que perseguia os porquinhos. 2- a) Contextualizadores, pois é o título, a pulga que permite a atribuição de sentido do texto. É claro que temos conhecimento de mundo sobre como a pulga procede para picar as pessoas e se alimentar 71 UNIDADE 16 - FATORES DE COERÊNCIA: INTERTEXTUALIDADE, INTENCIONALIDADE E CONSISTÊNCIA E RELEVÂNCIA CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Abordar os fatores de coerência intertextualidade, intencionalidade e consistência e relevância. Nesta unidade, examinamos os fatores de coerência e explicitamos sua importância textual. ESTUDANDO E REFLETINDO Na disciplina Leitura e Produção Textual, já abordamos a intertextualidade . Se, por acaso, você se esqueceu reproduzimos, novamente, aqui, para você estar ciente. Como estudado até agora, os discursos não são criados do nada, mas são reproduzidos, reaproveitados em outro momento histórico-social. A esse mecanismo, modernamente, dá-se o nome de intertextualidade. O nome parece complicado, mas não é. Podemos definir intertextualidade como um diálogo, uma conversa, entre textos. Há três tipos de intertextualidade: citação, alusão e estilização. A citação consiste em trazer, literalmente, palavras e expressões de um texto a outro. É interessante ressaltar que esse mecanismo é comum até em nossa fala cotidiana. Por exemplo, quem nunca se ouviu dizendo: “Como dizia Vinícius de Moraes, a beleza é fundamental”. 72 Outra forma de intertextualidade é a alusão, que consiste na tomada de alguns elementos de um texto, substituindo-os por outros, com vistas à alteração do sentido. Um bom exemplo de alusão é o programa de TV Casseta e Planeta. Em outras palavras, eles tomam personagens e fatos de novelas, trocam por outros, efetuando a alteração de sentido e, consequentemente, produzem o humor. A estilização consiste retomada de certas características de um texto, como, por exemplo, a configuração gráfica (poesia ou prosa), certos estilos concernentes ao tipo de linguagem (culta ou popular); certas características temáticas. Vejamos os textos abaixo. O ESCORPIÃO E A RÃ O fogo crepita feroz e avassalador. Na margem do largo rio que permeia a floresta, encontram-se dois inimigos figadais: a rã e o escorpião. Lépida e faceira, a rã prepara-se para o salto nas águas salvadoras. O escorpião, que não sabe nadar, aterroriza-se ante a morte certa, estorricado pelas chamas ou impiedosamente tragado pelas águas revoltas. Arguto e num esforço derradeiro, implora o escorpião: - Bela rã, leva-me nas tuas costas na travessia do rio! — Não confio em ti! Teu ferrão é inclemente e mortal — responde a rã. — Jamais tamanha ingratidão. Ademais, se eu te picar, é morte certa para nós dois. — É verdade — pensou candidamente o bondoso batráquio. Então suba! E lá se foram irmanados e felizes. No entanto, no meio da travessia, a rã é atingida no dorso por uma impiedosa ferroada. Entremeando dor e revolta, trava o derradeiro diálogo: — Quanta maldade! — exclama a rã, contorcendo-se. Não vês que morreremos os dois? — Sim, responde o escorpião, mas essa é a minha natureza! O ESCORPIÃO E O SAPO Era uma vez um escorpião que estava na beira de um rio, quando a vegetação da margem começou a queimar. Ele ficou desesperado, pois, se pulasse na água, morreria afogado e, se permanecesse onde estava, morreria queimado. Nisso, viu um sapo que estava preparando-se para saltarno rio e, assim, livrar- se do fogo. Pediu-lhe, então, que o transportasse nas costas para o outro lado. O sapo respondeu-lhe que não faria de jeito nenhum o que ele estava solicitando, porque ele poderia dar-lhe uma ferroada, levando-o à morte por envenenamento. O escorpião retrucou que o sapo precisaria guiar-se pela lógica; ele não poderia dar-lhe uma ferroada, pois, se o sapo morresse, ele também morreria, porque se afogaria. O sapo disse que o escorpião estava certo e concordou em levá-lo até a outra margem. No meio do rio, o escorpião pica o sapo. Este, sentindo a ação do veneno, vira-se para aquele e diz que só 73 gostaria de entender os motivos que fizeram que ele o picasse, já que o ato era prejudicial também para o escorpião. Este, então, responde que simplesmente não podia negar a sua natureza. Você deve ter percebido que os dois textos abordam a mesma coisa, ou seja, a natureza dos seres. Cabe, entretanto, uma ressalva: os textos acima são fábulas, isto é, história sobre bichos. Mas, será que elas só podem ser lidas assim? É claro que não; na verdade, os textos acima reproduzem comportamentos humanos; são, portanto, histórias de gente, ou seja, cedo ou tarde o homem mostra a sua verdadeira natureza. Todos nós conhecemos bem as canções que animam as nossas festas juninas. Vejamos o texto de Arnaldo Jabor, comentarista da Rede Globo, em que se verifica uma alusão a elas. O fato que motivou esse texto foi a realização da primeira Festa Junina na Granja do Torto, em Brasília. O produtor do texto toma esse fato, coloca-o como em uma quadrilha, só que subvertendo o seu sentido. BUSCANDO CONHECIMENTO Cancelada a Festa Junina deste ano na Granja do Torto Motivo... A QUADRILHA dançou antes do tempo... Olha a fogueira ya ya, olha a fogueira, yo yo... Cuidado pra não se queimar! Viva a festa do populismo caipira! Nhô Lula e nhá Marisa são os noivos! O padre é frei Beto, o delegado é o ministro Thomaz Bastos e o sanfoneiro o Gilberto Gil! Trocar de parceiro!...Sai do PT e vai pro PMDB. PSDB pro PFL. Changê! Quedê a reforma política? Caiu na fogueira! E a reforma do judiciário? Não passa! Os juros vão baixar! É mentira! Olha os vampiros da saúde! É verdade! Caminho da roça! Olha o MST no caminho da roça! Olha a cobra! O Waldomiro que mordeu o Dirceu! Olha os padrinhos! O coronel Sarney e o coronel ACM! Olha o Lula dançando na mão deles! O país está no caminho do caracol...Virar para a direita! Para a esquerda! E a quadrilha roda! Há muitas outras quadrilhas no Brasil: vampiros, vereadores, Comando Vermelho. Mas quando ninguém sabe o caminho das pedras o melhor é esquecer tudo e pedir proteção a São João. Arnaldo Jabor. Jornal da Globo- 11/06/2004 74 Só para descontração, vejamos alguns exemplos de intertextualidade publicados na mídia. Veja a imagem abaixo Revista Veja, 31 agosto de 2005 Ao olharmos para essa imagem, capa da Revista Veja, imediatamente, vem em nossa mente a caixa de determinado produto: OMO. Trata-se de uma estilização, ou seja, as cores o formato retratam o OMO. Agora, por que essa estilização com o OMO? É simples, Omo lava mais fundo; Omo limpa mais e é disso que nossa política precisa. Algum tempo depois, a Veja publicou uma outra capa, em que há uma intertextualidade na forma de uma citação da canção infantil Ciranda, Cirandinha. Em outras palavras, citou-se um verso dessa canção na capa da Veja: Era vidro e se quebrou. 75 butecodoedu.wordpress.com Assim, o posicionamento do sujeito produtor desse texto é: PT é vidro, portanto, não resistente. Pode-se remeter também ao ditado popular “quem tem telhado de vidro, não atira pedra nos outros”. Assim, o PT jogou tanta pedra em outros telhados, quando na oposição que, agora, na situação, mostra-se frágil e, evidencia que ele é igual, pois o seu telhado também tem motivos para ser quebrado. BUSCANDO CONHECIMENTO Intencionalidade refere-se ao modo como o emissor usa o texto para obter sucesso na sua intenção. Vale dizer que nenhum texto é neutro, mas dotado de uma intenção: levar o outro a crer no que digo, levar o outro a fazer o que eu quero que faça. Neste caso o produtor do texto vale-se de outros fatores de coerência. Observe o texto a seguir. Você sabia que algumas aranhas cospem veneno? Conheça as cuspideiras, que jogam um grude sobre as suas vítimas para paralisá-las! A imagem pode não 76 ser das mais bonitas. Ela chega devagarzinho com suas oito pernas e rapidamente cospe uma gosma sobre sua vítima, que fica paralisada pelo grude. Filme de ficção? Que nada! Esta é a estratégia usada por algumas espécies de aranhas que vivem em florestas brasileiras para capturar suas presas. Afinal, esses animais também precisam se alimentar para sobreviver. As aranhas que lançam veneno sobre suas presas são chamadas cuspideiras – bem adequado, não?! O que sai de boca é uma mistura de veneno com um tipo de cola natural transparente, que deixa a vítima com dificuldade de se locomover. Tendo o seu alvo paralisado, a cuspideira se aproxima, pica, injeta mais veneno e, então, começa a se alimentar (Willemart, 2011). A leitura do texto permite-nos afirmar que a intenção do sujeito produtor é passar uma informação, um conhecimento sobre determinado tipo de aranha. No entanto, foge do gênero científico, pois observamos o emprego de vocabulário com expressões comuns, tais como grude, gosma, devagarzinho, além de marcas de oralidade: – bem adequado, não?! Pode-se afirmar que a intenção do sujeito produtor é dar a conhecer informações, possivelmente para leigos ou crianças, sobre determinado tipo de aranha. Falar de consistência implica falar da necessidade de um enunciado do texto ser consistente com os demais. Assim, não pode haver contradição entre os enunciados que compõem o texto. Pedro estava pintando a casa quando chegamos, porém ainda estava pintando a casa. Ora, no exemplo acima, não observamos consistência entre as duas informações, pois apresenta os mesmos processos verbais: estava pintando. Em relação à relevância, vale dizer que todos os enunciados que compõem um texto devem ser relevantes para um mesmo tópico, ou seja, devem abordar um mesmo tema. 77 APROFUNDANDO O CONHECIMENTO 1- Explique a intertextualidade (citação, alusão, estilização) presente nos textos abaixo a) b) Rosa e azul –As meninas Cahen d´Anvers (Renoir) Magali e Mônica de rosa e azul 78 2- Observe o texto abaixo e explique a intertextualidade, considerando o texto de origem. RESPOSTAS 1- A) Trata-se de alusão à música “o que é que a baiana tem? b) Estilização, pois o quadro de Maurício de Souza alude ao de Renori 2- O texto faz uma intertextualidade com a história infantil Joãozinho e Maria. Trata-se de uma alusão, cujo efeito de sentido é denunciar a devastação da natureza 79 UNIDADE 17- COERÊNCIA E TEXTO CONVERSACIONAL CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicitar os elementos básicos para o estabelecimento da coerência no texto conversacional. Como já abordado anteriormente, coerência liga-se ao princípio de interpretabilidade do texto. É global, porque se refere ao texto como um todo. O texto conversacional é coerente, embora, muitas vezes, seja difícil detectarmos as marcas linguísticas e discursivas da coerência. Por essa razão, é fundamental a noção de controle referencial, estabelecida como base na organização tópica (tema). ESTUDANDO E REFLETINDO Os elementos básicos responsáveis pela organização da coerência do texto conversacional são: turno, tópico discursivo, marcadores conversacionais e par adjacente. Turno pode ser definido como a produção do falante, enquanto estácom a palavra. Vale dizer que o silêncio também faz parte do turno. Como em uma conversação há alternância dos participantes, os interlocutores alternam os papéis de falante e de ouvinte. Por essa razão, pode-se dizer que a conversação é uma sucessão de turnos. Vale dizer também que qualquer intervenção dos participantes, mesmo que sejam ahn...ahn; sei; certo, entendi, constitui-se turno, durante a interação. 80 É preciso atentarmos para as propriedades da conversação: 1- A troca de falantes recorre ou pelo menos ocorre; 2- Em qualquer turno, fala um de cada vez; 3- Podem ocorrer turnos com mais de um falante, mas é raro; 4- Transições de um turno a outro sem intervalo e sem interrupção são comuns, ressaltando-se que pausas longas e demoradas e sobreposições extensas são minorias; 5- A ordem dos turnos não é fixa; 6- O tamanho do turno é variável; 7- A extensão da conversação não é fixa, nem previamente determinada; 8- O que o falante dirá também não é fixo; 9- A distribuição dos turnos não é fixa; 10- O número de participantes é variável; 11- A fala pode ser contínua ou descontínua; 12- São usadas técnicas de distribuição dos turnos; 13- São empregadas diversas unidades para a construção do turno: lexema, sintagma, sentença; 14- Certos mecanismos de reparação resolvem falhas ou violações, nas tomadas de turno, como, por exemplo,” desculpe...mas você estava dizendo que...” Examinemos o trecho de conversação, com vistas a verificar a mudança do turno e a sobreposição das falas. L2 A Moreninha foi um filme LIMpo... L1 ahn L2 não é? ... um filme:: ah ah profissionalmente limpo L1 bem feito [ L2 bem feito não é? como como L1 paisagens maravilhosas (D2.333: 783-90) No trecho acima, há dois interlocutores: L1 e L2. A conversa se inicia com a fala de L2, porém L1 interrompe o turno de L2, toma o turno e introduz Ahn. Em seguida, L2 retoma o turno, seguido novamente da tomada por L1, atentando para o fato de o sinal [ indicar 81 sobreposição de fala e da sequência do turno de L2 e da retomada de turno por L1. Em resumo, no pequeno trecho acima, há seis tomadas de turno. Tópico Discursivo Tópico discursivo pode ser definido como aquilo sobre o que se está falando. A percepção do mesmo tópico discursivo pelos interlocutores ocorre quando há cortes e retomadas do tópico em pauta, como, no exemplo acima, em que um locutor complementa, endossa a fala do outro. Vale dizer que o tópico discursivo, normalmente, vem assinalado linguisticamente, pois há uma negociação entre os envolvidos na interlocução. No trecho acima, o tópico é o filme A Moreninha. No entanto, há casos em que tópico deve ser pressuposto. Neste caso, o referencial não está no texto, mas no contexto situacional, como se observa abaixo. A mãe está em casa e observa que o filho está inquieto, andando de um lado para outro. Daí questiona-o: Mãe- Perdeu alguma coisa? Filho- Estou te incomodando? Mãe- Eu só queria te ajudar. Filho- Bem te conheço. Quando a mãe pergunta se o filho perdeu alguma coisa, ela, de fato, refere-se ao fato de ele andar de um lado para o outro, possivelmente, nervoso. O filho, por sua vez, muda o tópico e introduz nova pergunta à mãe, mudando o tópico da conversa. Da resposta da mãe infere-se uma avaliação do novo tópico instaurado pelo filho, que também instaura nova avaliação: bem te conheço. 82 Certa vez, fizeram a seguinte pergunta ao então governador Paulo Maluf: L1- Governador, por que esta obra custou tão cara? L2- Esta obra é muito importante, pois vai acabar com as enchentes da região. Ora, nitidamente, Maluf mudou o tópico discursivo, pois a resposta dada diz respeito a outro tópico: Por que a obra é importante? O tópico discursivo deve apresentar propriedades, tais como: a) Centração o que implica falar sobre algo e utilizar-se de referentes explícitos ou inferidos, mas que convirjam para o desenvolvimento textual; b) Organicidade, isto é, o estabelecimento do tópico a partir de uma relação de interdependência em dois planos: sequencial- distribuição linear ou horizontal e hierarquia: distribuição vertical; c) Delimitação Local- o tópico é marcado por início, desenvolvimento e fecho. Eh...eu vou falar sobre a minha família... bem...eu tenho uma família...pequena...ela é composta pelo meu pai...minha mãe...pelo meu irmão...eu tenho um irmão pequeno de...dez anos...eh ...meu irmão não influencia em nada...a minha mãe é uma pessoa superlegal...sabe? (narrativa oral de uma jovem de 17 anos, extraída de MARCURSCH, 2000, p: 78) No início de sua fala, o produtor já introduz o tópico: a família. A forma como organiza os enunciados mantém interdependência com o tema proposto: família, 83 BUSCANDO CONHECIMENTO Os marcadores conversacionais servem para designar não só elementos verbais, mas prosódicos e não linguísticos, desempenhando função interacional. São produzidos pelo falante e pelo ouvinte. São exemplos de marcadores: certo, entendeu? uhn..unh, viu? né? Os marcadores prosódicos são expressos por meio da entonação da voz, que pode ser ascendente ou descendente, pausas, velocidade da fala, prolongamento de vogais. Os marcadores não linguísticos são expressos por meio de gestos, sorrisos, aceno de cabeça, olhar incisivo ou expressão de dúvida. Os marcadores verbais podem ser de vários tipos, conforme se explicita abaixo: a) Marcadores simples- uma só palavra, que pode ser interjeição, advérbio, verbo, adjetivo, pronome, como se verifica no exemplo abaixo. L1- Não eu dei uma olhada rápida, sabe? Mas vi matérias interessantes para ela. b) Marcador composto- apresenta caráter sintagmático com tendência à cristalização, como, por exemplo: então daí, aí depois, quer dizer, digamos assim, como se constata no exemplo abaixo: Ex: depois volto para casa e espero a hora de buscá-las novamente. c) Marcador oracional- compreende pequenas orações, que se apresentam nos diversos tempos verbais e formas verbais ou, ainda, em modos oracionais (assertivo, indicativo, exclamativo), como, por exemplo: eu acho que; quer dizer que, então eu acho, como se observa abaixo: L1-olha eu costumo dizer:: O marcador prosódico associa-se a algum marcador verbal, mas realiza-se por meio de recursos prosódicos: entonação, tom de voz e pausa, por exemplo. 84 Vale dizer que os marcadores desempenham papel coesivo na organização hierárquica entre os tópicos. No diálogo abaixo, os marcadores simples apresentam-se por meio de interjeição, cuja função é concordância ou assentimento. Além disso, na fala de L1, observamos marcadores prosódicos, como pausa (na::quela) e maior empenho da voz, assinalado nos termos grifados. L1 e::depois volto para mais chego e já apronto o outro para ir à escola...o menorzinho... e fico na::quelas lides domésticas L2 ahn ahn APROFUNDANDO O CONHECIMENTO 1- Leia o texto abaixo e retire os marcadores conversacionais. Inf: eu vou passar a chamar vocês pelo nome todo pra identificar...tá bom? e tá todo mundo proibido de dizer não sei...hein? Al: eu sei...eu sei...eu sei... Inf: é? Bem...na aula passada (...) NURC, Inq. 364, linhas 1-5 2- Leia o texto abaixo e retire os marcadores conversacionais Dez anos — E aí? — Aí eu fui para o terreiro. Já contei que eu estava sozinho lá em casa, não contei? — Contou. — Papai e Mamãe tinham saído. Eu fui dar milho para as galinhas, depois fui lavar as mãos no tanquinho; aquele tanquinho da lavanderia, sabe qual? — Sei. 85 — Lavei as mãos e fui para dentro. Fiquei lá, na sala, olhando uma revista; então lembrei que tinha esquecido de pôr água para as galinhas e voltei lá, no galinheiro. Quando passei na lavanderia, escutei o barulho do chuveiro da empregada. Aí dei uma olhada para lá, mas continuei andando, e de repente leveium susto: vi que a porta do banheiro estava aberta. Feito a gente vê nos filmes: o sujeito vê uma coisa, parece que não viu, e de repente arregala os olhos e para, sabe como? — Sei. E aí? — O que você acha que eu fiz? — Você olhou. — É. Eu parei e dei uma olhada: a porta estava aberta mesmo, não era imaginação. — Que tanto mais ou menos? — Assim... — Então dava para ver muita coisa... e aí, conta. — Eu cheguei mais perto, pisando na ponta dos pés, e escondi atrás do tanque; do tancão, não é do tanquinho, não. — Sei. — Aí eu olhei... — Hum... — Menino.... — Estava dando para ver? — Era a mesma coisa da porta estar aberta inteira... — Puxa... E ela? — O quê? — Ela estava com alguma coisa? — Alguma coisa como? — Alguma roupa. — Gente tomando banho de roupa?... — Nada? 86 — Nada, uai. — Nada nada? — Nada nada. — Então deu para ver tudo? — Tudo. — Mas tudo tudo ou só tudo de cima? — Não, tudo tudo. — Tudo de baixo também? — Não estou dizendo que tudo? — Puxa, heim? — Tudo. — Deve ser, heim?... — Vou te contar... — É aquela loura mesmo, né? — É. Eu não sabia que ela era sem-vergonha. [...] (VILELA, 2008, p. 81-2) RESPOSTAS 1- tá bom? ...hein? eu sei...eu sei...eu sei é? Bem... 2- aí? não contei? sabe como?UM, UAI heim? NÉ? 87 UNIDADE 18 - COESÃO: DISCUTINDO CONCEITOS CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Discutir o conceito de coesão; Explicitar os conceitos de Halliday & Hasan Nesta unidade, abordamos a coesão, explicitando seu conceito e sua função na tessitura textual. É foco da unidade explicitar os principais conceitos estabelecidos por Halliday & Hasan. ESTUDANDO E REFLETINDO Coesão pode ser definida como o elo de ligação entre os elementos do texto. Enquanto a coerência é profunda, como já assinalado anteriormente, a coesão é superficial. Trata- se de uma ligação semântica entre as passagens que integram a estrutura textual. Pode-se afirmar que a coesão é um mecanismo que permite recuperar em um determinado enunciado algo que já foi dito, ou que será dito, em outro enunciado. Pedro Leonardo recuperou-se do coma. Ele conversou com a mãe Se atentarmos para o elemento ele, observamos que a sua função no texto é referir-se a algo já dito anteriormente, no caso em questão, Pedro Leonardo. Halliday & Hasan (1976) afirmam que a coesão é um conceito semântico, pois se refere às relações de sentido presentes no interior do texto. Para eles, a coesão ocorre quando para a interpretação de algum elemento do texto depende de outro elemento. Nessa perspectiva, um elemento depende do outro, no sentido de que um não pode ser decodificado sem que se recorra a outro. 88 Para os autores citados, cinco são os fatores de coesão: referencial, substituição, elipse, conjunção e coesão lexical. BUSCANDO CONHECIMENTO Halliday & Hasan (1976) afirmam que a referência ocorre, quando é possível a interpretação de um determinado elemento do texto sem se efetuar referência a outro. Neste caso, certos itens da língua não podem ser decodificados sem que se recorra a outros elementos. A referência pode ser exofórica, quando a remissão é feita a algum elemento da situação comunicativa, estando, portanto, fora do texto. Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá Se você, caro aluno, atentar para os elementos aqui e lá, presentes nos versos de Gonçalves Dias, perceberá que aqui não é um elemento do texto, mas indica um espaço da enunciação (ato produtor do enunciado) espaço do sujeito. O lá refere-se a um espaço fora do texto também e indica um lugar distante do sujeito produtor do texto. Observe a diferença: Adoro a Europa. Lá o inverno é maravilho. Neste caso, o lá não se refere ao espaço da enunciação do sujeito, mas a um elemento do texto: Europa. Percebeu o que é referência exofórica? Trata-se de uma referência ligada à situação de comunicação dos interlocutores. 89 De certa maneira, já explicitamos o outro tipo de referência: a endofórica, isto é, um elemento faz referência a outro presente no texto. A referência endofórica pode ser estabelecida a partir de dois mecanismos: anáfora e catáfora. Parecem dois nomes feios, mas não são não e são fáceis de serem compreendidos. Dizemos que a referência é anafórica, quando para a interpretação de um elemento do texto há a necessidade de recuarmos, isto é, voltar o texto. Veja o exemplo abaixo. Pedro foi ao cinema. Ele gostou muito do filme. Ora, só conseguimos decodificar a quem o elemento ele se refere, se recuarmos, voltarmos o texto. No caso em questão, o ele refere-se a algo já mencionado: Pedro. Na referência catafórica, ao contrário, para a decodificação de um elemento do texto, há a necessidade de avançarmos a leitura do texto. Só desejo uma coisa: que a paz reine entre os homens. O sentido de coisa do exemplo acima só é depreendido, a partir do avanço, no caso, a paz reine. Os mecanismos de referência podem ser: pessoal: obtida por meio de pronomes pessoais e possessivos; demonstrativa (explicitada por meio de advérbios de lugar e de pronomes demonstrativos) e comparativa (referência que se dá de forma indireta, por meio de identidade e similaridade). Observe os exemplos abaixo. 90 Onde você vai colocar essas coisas- referência exofórica. Maria e Carla são boas amigas. Elas estão sempre juntas- referência pessoal anafórica. José fez isto: amou, sorriu e viveu bem- referência demonstrativa catafórica. O dia está igual ao de ontem- referência comparativa A substituição, segundo os autores citados consiste na colocação de um elemento no lugar de outro. Vale dizer que a substituição pode se dar até de uma oração inteira. Vamos ver como fica? José arrumou uma namorada. João fez o mesmo. Maria saiu-se bem nas provas. Joana também. Se você observar bem, fez o mesmo substitui o já dito: arrumou uma namorada, o mesmo se dá com o elemento também que substitui sair-se bem na prova. Elipse diz respeito a uma substituição pro zero. Em outras palavras, certos elementos do texto deixam de ser mencionados, como se observa nos exemplos abaixo. José vai à festa? Vai No exemplo acima, há a elipse de José e de à festa. A conjunção é um mecanismo por meio do qual se estabelecem determinadas relações entre orações e passagens do texto. Tais relações são marcadas por meio de elementos formais que ligam o que está para ser dito àquilo já dito no texto. A conjunção pode ser aditiva, adversativa, causal, temporal e continuativa, como se observa nos exemplos abaixo. Maria saiu e comprou um lindo vestido- aditiva Não foi à aula, porque estava gripada- causal 91 Depois de dar o show o cantor se retirou para o camarim- temporal Todos os alimentos se conservaram, mas o feijão se estragou- adversativa Depois da tempestade, houve uma paz enorme- continuativa. Coesão lexical, conforme Halliday & Hasan (1976), dá-se por meio do léxico da língua. Há dois mecanismos de coesão lexical: reiteração e colocação. A reiteração se dá por meio da repetição do mesmo item lexical ou através de sinônimo, hiperônimo e nomes genéricos. Vamos ver o que é isso? Obama mostrou-se favorável ao casamento gay. Obama agradou muitos americanos- repetição O menino fez várias artes. O garoto não consegue se conter- sinônimo Adoro doces. Cocada, então, nem se fala- hiperônimo A carro bateu no poste. O veículo estava em alta velocidade- sinônimo Ouvimos um barulho estrondoso. Quando corremos vimos a coisa- nome genérico. A colocação é um mecanismo que consiste no emprego de termos do mesmo campo semântico. Houve uma grande festa. Os convidados estavam com roupas de gala. O anfitrião recebia a todos com sorriso nos lábios- convidados e anfitriãopertencem ao campo semântico de festa. APROFUNDANDO O CONHECIMENTO 1- Ressalve-se em favor de Xuxa que ela só existe em função de um contexto. O contexto é uma televisão sem freios, só comércio e busca de audiência, mais voltada para a formação de consumidores que de seres humanos. Ressalve-se igualmente que a TV – e a mídia em geral- não é causa profunda de tragédias brasileiras como prostituição infantil e gravidez precoce. A causa profunda é a pobreza e a ignorância. O que a mídia faz – e não é pouco – é ampliá-las, ao propagar comportamentos e valores 92 para os quais crianças e jovens não estão amadurecidos e tratá-los não só como naturais mas mistificá- los. (Roberto Pompeu de Toledo- Revista Veja) a) Delimite os referentes dos elementos grifados no texto acima. 2- Introduza elementos de coesão nas frases abaixo a) Não fui a Roma. Estava com pressa de regressar ao Brasil. b) A polícia conseguiu prender todos os ladrões. As joias ainda não foram encontradas 3- Reescreva os enunciados abaixo, eliminando as redundâncias a) Suzane disse que Daniel virou uma obsessão. Daniel aos poucos convenceu Suzane a matar os pais de Suzane. b) Suzane falou que Daniel resolveu arrumar uma arma e matar os pais de Suzane em maio deste ano. Suzane recebeu do pai de Suzane um tapa no rosto durante uma discussão, em maio deste ano. Respostas 1- Ressalve-se em favor de Xuxa que ela só existe em função de um contexto. O contexto é uma televisão sem freios, só comércio e busca de audiência, mais voltada para a formação de consumidores que de seres humanos. Ressalve-se igualmente que a TV – e a mídia em geral- não é causa profunda de tragédias brasileiras como prostituição infantil e gravidez precoce. A causa profunda é a pobreza e a ignorância. O que a mídia faz – e não é pouco – é ampliá-las, ao propagar comportamentos e valores para os quais crianças e jovens não estão amadurecidos e tratá-los não só como naturais, mas mistificá-los. (Roberto Pompeu de Toledo- Revista Veja) a-Delimite os referentes dos elementos grifados no texto acima. Ela- Xuxa Las- pobreza e ignorância Los –valores 2- Introduza elementos de coesão nas frases abaixo a- Não fui a Roma, porque estava com pressa de regressar ao Barsil b- A polícia conseguiu prender todos os ladrões, mas as joias ainda não foram encontradas 3- Reescreva os enunciados abaixo, eliminando as redundâncias c) Suzane disse que Daniel virou uma obsessão e que ele, aos poucos, convenceu -a a matar os pais. d) Suzane falou que Daniel resolveu arrumar uma arma e matar os pais dela em maio deste ano, porque ela recebeu do pai um tapa no rosto durante uma discussão. 93 UNIDADE 19 - COESÃO REFERENCIAL CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Estudar coesão referencial O foco da unidade em questão é a coesão referencial. Para tanto, chamo a atenção para um trecho de uma crônica de Drummond, publicada no Diário da Manhã, sobre a Música “A Banda”, de Chico Buarque. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá- las, distribuí-las, começando por querer que elas floreçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrangem terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longíngua, chamando o velho fraco, a moça feia, o homem sério, o faroleiro... todos os que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicar a alma da gente. Carlos Drummond de Andrade. No fragmento de texto, observamos que algumas palavras, especificamente, as que se encontram em negrito, para serem decodificadas, há necessidade que recorramos a outros elementos. Eis a coesão referencial. Assim, las, de cultivá-las, distribuí-las, referem- se a coisas de amor, o mesmo ocorre com elas, presente em elas floresçam, cujo referente é coisas de amor. Você deve observar, também que em “e não se limitam” e abrangem, há a elipse de “coisas de amor”. Fato análogo se dá em todos os, que tem como referente o velho fraco, a moça feia, o homem sério, o faroleiro... Em o que era doce acabou, o referente não se encontra explícito no texto, mas na situação comunicativa que retoma todo o ambiente descrito na banda, música de Chico Buarque. A repetição do termo banda é uma forma de coesão referencial. No entanto, devemos estar atentos a uma banda como essa, que, na verdade, retoma a Banda de Chico Buarque, a que fez uma cidade toda se enfeitar, a que fez todos sairem em comunhão para ver a Banda. 94 ESTUDANDO E REFLETINDO Para Koch (2009), há duas modalidades de coesão: a referencial, tópico dessa unidade, e a sequencial, que abordaremos em unidades posteriores. É importante ressaltar que o elemento retomado é denominado referente e o que faz referência denomina-se, conforme Koch (op. cit.), forma remissiva. Vale dizer que a cada retomada, o referente vai incorporando os traços que lhe são introduzidos. Assim, no texto que observamos acima, o referente, coisas de amor, ao ser retomado por elas, já não são mais apenas finezas, mas incluem-se o fato de serem cultivadas e distribuídas. Outro fato assinalado por Koch diz respeito a nem sempre ocorrer identidade entre a forma remissiva e seu referente textual, pois a relação referencial pode ser estabelecida entre contextos que envolvem ambos, ou entre partes do referente. Assim, ao dizermos: O sapato de Ana é vermelho. O meu é preto. Ora, claro que o referente é sapato, mas não há identidade, pois um é de Ana; o outro, meu. Outro aspecto assinalado por Koch (2009) diz respeito ao fato de uma forma remissiva referir-se ao contexto, como se constata em: Maria saiu para encontrar amigos, mas atrasou-se. Quando ela chegou no barzinho, todos já haviam ido embora. Não foi a primeira vez que isso ocorreu Na verdade, o elemento isso refere-se a Maria atrasar-se costumeiramente. Em seu estudo sobre coesão referencial, Koch classifica-a em formas remissivas referenciais e formas remissivas não-referenciais. 95 As formas remissivas não-referenciais não contribuem para as relações de sentido do texto, mas na concordância de gênero e número, podendo ser classificadas em livres e presas. As formas remissivas não-referenciais presas desempenham a função de artigo, pois acompanham um nome, antecendendo-o. Nas considerações de Koch, funcionam como artigos: artigos, pronomes adjetivos (demonstrativos, possessivos, indefinidos e interrogativos), numerais (cardinais e ordinais) e pronomes de 1ª e de 2ª pessoa. Os artigos definidos, como formas remissivas não-referenciais são anafóricos (fazem remissão a algo já dito anteriormente no texto) e os indefinidos como catafóricos (referem-se a algo que ainda vai ser dito) Um grave acidente ocorreu na Avenida Brasil. O fato fez várias vítimas. Vale dizer que o artigo indefinido introduz o elemento novo pela primeira vez no texto e sua retomada ocorre por meio do artigo definido. Os pronomes adjetivos desempenham a função artigo, pois acompanham o nome, como se constata nos exemplos abaixo. Há possibilidade de racionamento de energia. Essa/Tal hipótese é decorrente da falta de chuva- Pronomes demonstrativos José mudou para Paris. Quando sua mulher morreu, ele não quis viver mais no Brasil- Possessivo Várias razões fazem os homens se desentenderem. Algumas são tolas.- pronome indefinido 96 Nesta unidade, abordamos coesão referencial. Que coesão é esta?- Pronome interrogativo Na aula de Português dois alunos efetuaram a leitura do texto- Numeral. Diferentemente das formas remissivas não-referenciais presas,as livres não acompanham o nome, mas podem estabelecer referências anafóricas ou catafóricas. Tais formas são denominadas pro-formas, que podem ser pronomes ou pro-formas verbais, conforme veremos a seguir. Pro-formas verbais, normalmente, vêm expressas pelos verbos fazer e ser, como podemos observar nos exemplos abaixo. Maria cortou o cabelo. Joana fez o mesmo- Pro- forma verbal José fez toda o trabalho, mas eu não o farei- Pro- forma verbal Pedro é feliz. Maria, no entanto, não o é- Pro-forma verbal Os pronomes pessoais de 3ª pessoa funcionam como pro-formas, como verificamos nos exemplos abaixo. Os homens estavam cabisbaixos. Eles acabaram de perceber que o salário que recebem não dá para comprar nada. (O elemento eles retoma homens; já em que recebem, a referência se dá por elipse: eles recebem). Os pronomes substantivos também são considerados pro-formas e podem ser expressos por demonstrativos, possessivos, indefinidos, interrogativos e relativos. O dia estava quente. Que mormaço era aquele a nos deixar com modorra? - demonstrativo 97 Enchera-se de sal o cocho. Sinal de que o boi viria beber água. Foi o que aconteceu. (Mário Palmério) - o elemento o (demonstrativo)refere-se a fragmentos oracionais (encher de sal o cocho e o boi vir beber água) Esqueci-me do secador de cabelo. Ainda bem que Maria me emprestou o dela- Possessivo. Clamava por socorro. Ninguém lhe ajudou- indefinido Quais são os meses mais quentes do ano? –Interrogativo Muitos compareceram ao show de Roberto Carlos, dentre as quais destacaram-se artistas globais- pronome relativo Os numerais cardinais, ordinais , multiplicativos e fracionários funcionam, também, como pro-formas, como podemos observar nos exemplos abaixo. José e Paulo moram em São Paulo. Os dois são metalúrgicos- cardinal Todos participarão da corrida. O primeiro a chegar receberá medalha de ouro- ordinal Pedro construiu dez brinquedos, mas José construiu o triplo- multiplicativo A quermesse rendeu R$50000,00. Um terço será destinado ao lar dos velhinhos- Fracionário. Koch (2009) introduz em seus estudos os advérbios pronominais, considerados formas remissivas também. Para a autora, os advérbios lá, aí, ali, aqui e onde fazem remissão a grupos nominais, cujo traço semântico é menos animado. Adoro Londres. Lá a neblina é constante 98 Para um advérbio referir-se a um grupo nominal com traço mais animado, deve existir o traço mais localizável, como se constata abaixo. Loura, olhos verdes e corpo bem feito. Aí mora o perigo. BUSCANDO CONHECIMENTO As formas remissivas referenciais, além de estabelecerem conexões, acrescentam informações no nível de referência e podem se estabelecer por meio de recursos variados, conforme abordamos a seguir. Expressões ou Grupos Nominais Definidos são formas remissivas que além de efetuarem a retomada de um item, acrescentam-lhe informações adicionais. Lula esteve doente. O ex-presidente do Brasil teve câncer na laringe. O fundador do PT, felizmente respondeu bem ao tratamento. No exemplo acima, Lula é retomado por ex-presidente e por fundador do PT, que, na verdade, implementam informações sobre ele. Nominalizações consistem em formas deverbais (formas derivadas de verbos), que remetem à predicação estabelecida pelo verbo e argumentos da oração anterior. Os metroviários reuniram-se para decidir sobre a continuidade ou não da greve. A reunião ocorreu no sindicato. As formas remissivas referenciais podem ser estabelecidas por meio expressões sinônimas ou quase sinônimas, ressaltando-se que a retomada por esse mecanismo também acrescenta informações adicionais sobre o referente, conforme se depreende no exemplo abaixo. 99 O menino não gosta de regras. O traquinas só faz bagunça na aula. O peralta sempre coloca bombinha no rabo do gato. Nomes genéricos, tais como: coisa, pessoa, fato, também são formas remissivas referenciais. Houve um acidente horrível. O fato ocorreu em uma movimentada avenida de São Paulo. Hiperônimo é um termo que, em uma relação semântica, se apresenta como mais geral. Na verdade, o hiperônimo designa uma classe que agrupa várias sub-classes. Assim, na classe de doces, hiperônimo, por exemplo, há agrupados semanticamente: cocada, bolo, brigadeiro etc. Na classe de animais, observamos cavalo, cachorro, gato. Os animais estavam no pasto. As vacas estavam todas prenhas. Formas referenciais com lexema idêntico podem estabelecer coesão referencial, como se constata no exemplo abaixo. O dia mais feliz de sua vida. Esse dia marcou-a para sempre, pois se uniu à pessoa amada. Formas referenciais, cujo lexema fornece instruções de sentido que representam “categorizações das partes antecedentes do texto Acredita-se que vários políticos fazem parte da gang do Carlinhos Cachoeira. Essa hipótese está sendo considerada pela CPI. Na verdade, essa hipótese retoma a ideia expressa por acredita-se. Formas referenciais em que as instruções de sentido do lexema constituem uma “classificação” de partes anteriores ou seguintes do texto no nível metalinguístico. Você 100 sabe o que é metalinguagem? É a linguagem utilizada para descrever algo. Por exemplo, O que é ilha? Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados. Eis a metalinguagem. O juiz declarou: Considero o réu culpado. Esta frase caiu como um raio em todos os presentes no tribunal. APROFUNDANDO O CONHECIMENTO 1- Leia o texto abaixo e faça o que se pede. Hoje, Laerte desperta ódio e perplexidade. Friamente, confessou 11 assassinatos de crianças, entre quatro e dez anos. Duas outras mortes foram confessadas informalmente às polícia, até Quinta-feira, 27. O monstro de Rio Claro, como passou a ser conhecido, gostava de registrar num caderno o dia e a cidade onde passava (...) O andarilho da morte fez questão de dizer que tem profissão: é engraxador de portas de estabelecimentos (...) Isto É, 02/02/00 a) Retire as expressões nominais definidas presentes no texto acima. b) Explique o efeito de sentido produzido pelo uso de expressões nominais definidas. 2- Explicite o tipo de coesão referencial (lexical) presentes nos fragmentos abaixo. a- O presidente do Palmeiras, Silvano Eustáquio, afirmou que o time tem todas as condições para ganhar o campeonato. Segundo o dirigente, com Miudinho na zaga, o gol palmeirense será impenetrável. Na opinião do cartola, a torcida só terá motivos de alegria. b- Lucinha estava na poltrona do cinema, esperando o filme começar, quando, de repente, no assento ao lado, uma idosa desmaiou. RESPOSTAS 1- A- O monstro de Rio Claro; O andarilho da morte B- Exercem papel argumentativo para qualificar negativamente o referente Laerte 2 . a- Sinônimos b- Hiperônimo 101 UNIDADE 20 - COESÃO SEQUENCIAL CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicitar os mecanismos de coesão seqüencial Segundo Koch (2009), coesão sequencial refere-se aos procedimentos linguísticos, por meio dos quais se estabelecem relações semânticas e pragmáticas entre as passagens do texto. Na verdade, são os elementos que fazem o texto progredir semântica e pragmaticamente. ESTUDANDO E REFLETINDO Há dois tipos de coesão sequencial: a parafrástica e a frástica. Neste primeiro momento, dedicamos os estudos à parafrástica, em que há introdução de procedimentos de recorrência, conforme se explicita a seguir. Recorrência de termos- trata-se da repetição de termos, conforme se verifica no exemplo, embora não exista identidade total entre os termos recorridos, pois cada um traz novas instruções de sentido. (...) a pergunta roda E a cabeça agita Eu fico com a pureza Da resposta das crianças É a vida, é bonita E é bonita... O que é o que é (Gonzaguinha) Recorrência de estruturas- Paralelismos sintático-refere-se à repetição das estruturas sintáticas, cujo preenchimento se dá por meio de elementos lexicais diferentes. Casas entre bananeiras Mulheres entre laranjeiras Pomar, amor cantar Um burro vai devagar Um cachorro vai devagar 102 Cidadezinha qualquer- Drummond No exemplo acima, há a mesma estrutura: casas entre, mulheres entre e um burro vai devagar, um cachorro vai devagar. Recorrência de Conteúdos Semânticos- Paráfrase- Trata-se da repetição de conteúdos semânticos, sob formas estruturais diferentes. Vale dizer que a cada retomada, há alguma alteração, podendo ser reformulação, desenvolvimento, síntese ou previsão. Cada língua possui expressões introdutoras, tais como: isto é, ou seja, quer dizer, ou melhor, em outras palavras, em síntese, em resumo, conforme Koch (2009, p: 56). Ele não apareceu na festa, ou seja, deixou todo mundo a ver navios. Recorrência de recursos fonológicos- trata-se da exploração de recursos, tais como rimas, assonâncias, aliterações Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe Esperando, parada, pregada na pedra do porto Com seu único velho vestido, cada dia mais curto, laiá, laiá, laiá, laia Minha História- Chico Buarque No exemplo acima, observamos a aliteração (repetição) da consoante / p /. No fragmento de texto abaixo, observamos vários recursos fonológicos. Pelé, pelota, peleja. Bola, bolão, balaço. Pelé sai dando balõezinhos. Vai, vira, voa, vara, quem viu, quem previu? GGGGoooolll. Menino com três corações batendo nele, mina de ouro mineira. Garoto pobre sem saber que era tão rico. Riqueza de todos a todos doada na ponta do pé, na junta do joelho, na perna do peito. Letras louvando Pelé- Drummond 103 A aliteração se faz presente pela repetição das consoantes / p /, / b / / v / . No entanto, vale assinalar o ritmo presente em “Riqueza de todos a todos doada na ponta do pé, na junta do joelho, na perna do peito.”, que podem sugerir os movimentos realizados por Pelé no manejo com a bola. BUSCANDO CONHECIMENTO Recorrência de tempo e aspecto verbal Weinrich (1964, apud Koch, 2009) examina os tempos verbais, a partir de três características: atitude comunicativa, perspectiva e relevo. Considerando a atitude comunicativa, há verbos referentes ao mundo comentado e ao mundo narrado. Os tempos do mundo comentado conduzem o leitor/ouvinte a uma atitude de recepção tensa, atenta aos fatos que vão sendo apresentados. Os tempos verbais do mundo comentado são presente do indicativo, pretérito perfeito (simples e composto) e futuro do presente. No mundo narrado, segundo o autor, o leitor/ouvinte assume atitude de relaxamento. São tempos do mundo narrado o pretérito mais que perfeito simples, o imperfeito, o mais-que-perfeito e o futuro do pretérito do indicativo. Em relação à perspectiva, há os tempos zero (sem perspectiva) e os restrospectivos e prospectivos. 104 O grau zero do mundo comentado é o presente; o restrospectivo é o pretérito perfeito e o prospectivo é o futuro do presente. Na verdade, o presente é o grau zero, pois a partir dele se ordenam acontecimentos anteriores e posteriores, como se observa em: Hoje estou bem, ontem chorei muito, amanhã, só Deus sabe. No mundo narrado, há dois tempos zero: o pretérito perfeito e o imperfeito. O mais- que-perfeito é o retrospectivo e o futuro do pretérito é o prospectivo, pois a partir do tempo zero ordenam-se ações anteriores e posteriores. Em 2010, a situação de meio ambiente estava idem à observação acima No que diz respeito ao relevo, Weinrich considera o primeiro plano e o segundo plano. Vale dizer que, em português, o relevo assinalado pelo tempo verbal só ocorre no mundo narrado. Assim, o perfeito indica o primeiro plano (ações mais importantes, consideradas nós da narrativa) e o imperfeito funciona como pano de fundo. Leia o texto abaixo, de Carlos Drummond de Andrade. Debaixo da Ponte Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. (...) À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho (...) No fragmento de texto acima, há o emprego dos tempos verbais do mundo narrado: imperfeito e pretérito perfeito e do comentado, verbos no presente. Vale dizer que o emprego dos verbos do mundo comentado tem a função de introduzir uma opinião sobre o fato de pessoas morarem debaixo da ponte. 105 UNIDADE 21- SEQUENCIAÇÃO FRÁSTICA CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicitar os mecanismos de sequenciação frástica Já assinalamos, na unidade anterior que a sequenciação frástica ocorre sem recursos de recorrência estrita. Nesta unidade vamos examinar esse tipo de coesão seqüencial. ESTUDANDO E REFLETINDO A sequenciação frástica garante manutenção do tema, a progressão do tema, estabelece relações semânticas e/ou pragmáticas entre os segmentos, ordena e articula as sequências textuais. “O papel do negro escravo foi decisivo para os comércios da história econômica de um país fundado, como era o caso do Brasil, sob o signo do parasitismo imperialista. Sem o escravo a estrutura econômica do país jamais teria existido. O africano escravizado construiu as fundações da nova sociedade com a flexão e a quebra de sua espinha dorsal, quando ao mesmo tempo seu trabalho significava a própria espinha dorsal daquela colônia. Ele plantou, alimentou e colheu riqueza material do país para o desfrute exclusivo da aristocracia branca; tanto nas plantações de cana-de-açúcar e café e na mineração, quanto nas cidades, o africano incorporava as mãos e o pés das classes dirigentes que não se autodegradavam em ocupações vis como aquelas do trabalho braçal. A nobiliante ocupação das classes dirigentes - os latifundiários, os comerciantes, os sacerdotes católicos - consistia no exercício da indolência, o cultivo da ignorância, do preconceito, e na prática da mais licenciosa luxúria” (Abdias do Nascimento) (Texto Glamour e miséria no país onde tudo pode) 106 IMPORTÂNCIA DOS ESCRAVOS NA ECONOMIA FUNDAMENTAÇÃO SEM O ESCRAVO NÃO EXISTIRIA POR CAUSA DO PARASITISMO IMPERIALISTA ESTRUTURA ECONÔMICA RAZÕES PORQUE CONSTRUIU FUNDAÇÕES DA SOCIEDADE ESPINHA DORSAL DA COLÔNIA DESFRUTE DA ARISTROCARCIA PLANTOU NÃO SE AUTODEGRADAVAM ALIMENTOU EXERCÍCIO DA INDOLÊNCIA COLHEU RIQUEZAS CULTIVO DA IGNORÂNCIA PRECONCEITO LUXÚRIA Progressão temática Para entender como se dá a progressão temática de um texto, é preciso conhecer dois conceitos básicos: tema e rema. Tema é a informação dada, tópico dado ou, segundo a perspectiva oracional, é o que se toma como base da comunicação, aquilo do que se fala; rema é a informação nova, aquilo que se diz sobre o tema. 107 Há vários tipos de progressão temática, conforme estudaremos a seguir. Progressão temática linear- caracteriza-se pelo fato de o rema de um enunciado passar a tema do seguinte, cujo rema passa novamente a tema, conforme se verifica no exemplo abaixo. Quadrilha Carlos Drummond de Andrade João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. (...) Nos versos acima, configura-se a progressão temática linear, pois o rema Teresa constituiu-se tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente. Esquematizando temos: A -Tema- João; B –amava Teresa –rema B- tema-Teresa; C- amava Raimundo- rema D- tema Raimundo; E- amavaMaria-rema F-tema Maria; G amava Joaquim-rema H- tema Joaquim; I amava Lili- rema Progressão temática com tema constante- ao mesmo tema são acrescentadas novas informações. O Novo Homem O homem será feito em laboratório. Será tão perfeito como no antigório. Rirá como gente, beberá cerveja deliciadamente. Caçará narceja e bicho do mato. Jogará no bicho, tirará retrato com o maior capricho. Usará bermuda e gola roulée.. Drummond 108 A partir do tema: A- O homem são introduzidas informações novas, os remas: B- será feito em laboratório; C- será tão perfeito;D- rirá como gente; E-beberá cerveja; F-caçará narceja; G- jogará no bicho; H- tirará retrato; I- usará bermuda. Progressão temática com tema derivado- neste caso, existe um hipertema do qual derivam temas menores, como se verifica no exemplo abaixo. A planície litorânea apresenta feições variadas. A nordeste de Santos, apertada entre o mar e as escarpas da serra do Mar, que em alguns locais cai diretamente sobre o oceano. Para oeste, dilata-se progressivamente até atingir, no vale do rio Ribeira do Iguape, sua maior largura (sessenta quilômetros). O esquema de progressão temática pode ser visualizado da seguinte maneira: A- Hipertema- Planície Litorânea A1-_______b A2______C Progressão temática por desenvolvimento de rema dividido. Neste caso, há a colocação de uma informação nova, o rema, que é subdividido nos enunciados posteriores, como se constata abaixo. O globo ocular tem três camadas concêntricas: uma túnica fibrosa externa, protetora, que compreende a córnea e a esclera ou esclerótica; uma túnica pigmentada média, vascular, que compreende a íris, o corpo ciliar e a coróide, e uma túnica interna, denominada retina.(Anatomia, Gardener et alii..) 109 O esquema de progressão temática é: A (Globo Ocular- tema)________B (Camadas Concêntricas)(B1 + B2+ B3) B1-túnica fibrosa_________C B2-túnica pigmentada__________D B3-túnica interna______________E Progressão com salto temático em que ocorre a omissão de um segmento intermediário, mas que é deduzível do contexto. As categorias da narração são várias. Uma delas é a complicação. Instaurada, quebra o equilíbrio da situação inicial e dá o toque do desenvolvimento das ações. Tenho dois irmãos. Um deles é Manuel. Defensor dos Direitos Humanos, tornou-se advogado. O esquema desse tipo de progressão é: A_________B B_________C ...................... D_________E 110 UNIDADE 22- O ENCADEAMENTO TEXTUAL: JUSTAPOSIÇÃO CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Explicitar o encadeamento por justaposição O encadeamento é responsável pelo estabelecimento de relações semânticas e discursivas entre orações e enunciados do texto. Pode se dar por justaposição e conexão. Nesta unidade, abordamos a justaposição. ESTUDANDO E REFLETINDO A justaposição pode ocorrer com ou sem elementos sequenciadores. Na ausência de elementos sequenciadores, caberá ao leitor estabelecer a coerência textual. Vale dizer que a justaposição sem elementos que estabelecem sequência textual, foge um pouco do âmbito da coesão, pois, como já assinalado anteriormente, coesão textual refere-se à conexão dos enunciados. Ressalte-se que na falta de elementos que assinalam a sequencialidade textual, na escrita, verificamos a existência de sinais de pontuação (vírgula, dois pontos, ponto e vírgula). No exemplo abaixo, embora não observemos elementos que assinalam a sequência textual, é possível o resgate da coerência. Não foi ao teatro. Quebrou a perna. Ora, a relação que se estabelece no exemplo acima é clara: causa e consequência. Assim, não foi ao teatro, porque quebrou a perna. Vale dizer que a coesão não é imprescindível para que se resgate a coerência do texto. 111 BUSCANDO CONHECIMENTO A justaposição, manifestada por meio de elementos sequenciadores estabelece uma sequência coesiva entre partes do texto. Tais elementos são denominados sinais de articulação, conforme Koch (2009, p.66) Os sinais de articulação se manifestam em vários níveis: a) Nível metacomunicativo, cujos elementos funcionam como sinais demarcatórios e/ou resumidores de partes ou sequências do texto. Normalmente, são expressos por: por conseqüência, em razão do exposto, em resumo, essa posição, etc. Em razão do exposto anteriormente, concluímos que cuidar da saúde é fundamental ao ser humano. Em resumo, o cuidado com a saúde é fundamental ao ser humano. b) Nível inter-sequencial- ocorre entre sequências textuais ou episódios narrativos. Esses elementos são denominados marcadores de situação ou ordenação do tempo e do espaço em uma narração, como se pode verificar no exemplo abaixo, em que as expressões: na primeira noite, na segunda noite e até que um dia, assinalam a progressão temporal. Na primeira noite eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão’ e não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo nosso medo arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, 112 Já não podemos dizer nada. (Eduardo Alves da Costa) É possível assinalar, também, a ordenação textual, como se pode verificar no exemplo a seguir. Na aula de hoje, tratarei, primeiramente, da coerência textual; em seguida, abordarei os fatores de coerência e, finalmente, exporei os conceitos básicos de coesão. c)-Nível conversacional- Neste nível, elencam-se os marcadores conversacionais: elementos que assinalam introdução, mudança ou quebra do tópico (assunto). Pedro é excelente rapaz. Por falar nisso/ a propósito, você prestou atenção no seu comportamento na reunião? Maria está coberta de razão, a corrupção no Brasil está insustentável. Mas voltando ao nosso assunto, o que você fará no feriado? 113 UNIDADE 23- ENCADEAMENTO: CONEXÃO CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Estudar os mecanismos de conexão. A proposta desta unidade é estudar os mecanismos de conexão: articulação inter- frásticas. ESTUDANDO E REFLETINDO Conjunções, advérbios sentenciais e outras palavras e expressões prestam-se ao estabelecimento de relações semânticas e pragmáticas entre orações, enunciados ou partes do texto. Vamos a eles? Abordamos, primeiramente, as relações lógico-semânticas, estabelecidas por meio de conectores. Essas relações podem ser: 1- Relação de condicionalidade- caracteriza-se pela conexão de duas orações, em que uma é introduzida por se e a outra por então. Com esse tipo de relação o que se diz é que se a asserção efetuada na primeira oração for verdadeira, a da segunda também o será. Se você estudar bastante, (então) terá êxito nas provas. 2- Relação de causalidade- em uma das orações expressa-se a causa, que provoca a consequência explicitada na outra oração. Vale dizer que a relação causa e consequência pode ser expressa por diferentes conjunções. Passou mal, porque bebeu muito vinho Consequência Causa Como José tivesse bebido muito vinho, passou mal Causa Consequência 114 Bebeu tanto vinho, que passou mal Causa Consequência Bebeu demais, então passou mal Causa Consequência 3- Relação de Mediação- expressa a ligação entre duas orações, em uma das quais exprime-se o meio para se atingir determinado fim. Lutou muito para conseguir o amor de João Meio Fim 4-Relação de Disjunção – Esse tipo de relação expressa pelo conectivo ou, que pode indicar inclusão ou exclusão. Vejamos os exemplos abaixo. Paulo ou Pedroserá presidente da firma. Neste caso, o ou indica exclusão, pois só um será presidente. Os candidatos deverão levar para a prova canta preta ou vermelha. Neste caso, o ou é inclusivo, pois nas provas alguns candidatos levarão canetas vermelhas e outros azuis. 5-Relação de temporalidade- Trata-se do relacionamento de orações sob a perspectiva temporal. Esse tipo de relação pode se expressar por meio de: 51. Tempo simultâneo- as ações e eventos ocorrem pontualmente. Quando o professor chegou, os alunos começaram a prova Assim que No momento em que Logo que 5.2. Tempo anterior e tempo posterior 115 Antes que o sinal tocasse, os alunos arrumaram as mochilas Depois que o sinal tocou, os alunos arrumaram as mochilas. 5.3. Tempo contínuo ou progressivo- as ações estão em processo Enquanto Maria cozinhava, as crianças assistiam ao filme. 6- Relação de conformidade- Evidencia-se a conformidade de uma oração em relação à outra. Todos nós devemos agir, conforme determinam as leis. 7- Relação de Modo- nesta relação expressa-se o modo pelo qual alguma coisa é realizada. Sem se mexer, ouvia tudo atentamente. Como um sopro de vento, partiu para sempre. BUSCANDO CONHECIMENTO Vamos estudar as relações discursivas ou argumentativas. Tais relações estruturam enunciados em textos, em decorrência do emprego de encadeadores. Segundo Koch, Os encadeadores do tipo discursivo são responsáveis pela estruturação dos enunciados em textos, por meio de encadeadores sucessivos, sendo cada enunciado resultante de um ato de fala distinto. Neste caso, o que se assevera não é, como nas relações de tipo lógico, uma relação entre o conteúdo de duas orações, mas produzem-se dois (ou mais) enunciados distintos, encadeando-se o segundo sobre o primeiro, que é tomado como tema. Prova de que se trata de enunciados diferentes, resultantes cada um de um ato de fala particular, é que eles poderiam ser apresentados sob forma de dois períodos ou até proferidos por locutores diferentes. Koch, 2009, p: 72. 116 Os elementos que estabelecem relações discursivas são denominados operadores argumentativos, merecendo destaque: 1- Conjunção, cujos elementos que propiciam essa relação discursiva são: e, também, não só...mas também, tanto...como, além de, além disso, ainda. Esses elementos ligam argumentos que se voltam para uma mesma conclusão. Pedro, além de ser ótima pessoa, traz consigo um respeito humano invejável Os políticos não só enganam o povo, como enchem os seus próprios bolsos. 2- Disjunção argumentativa- dois enunciados possuem orientações discursivas diferentes. O segundo ato deve conduzir o leitor a modificar sua opinião sobre determinado assunto. Toda ajuda é útil. Ou não foi útil a campanha do agasalho no ano passado? 3- Contrajunção- por meio da contrajunção, contrapomos enunciados de orientações argumentativas opostas. O operador que estabelece esse tipo de relação é mas. Ressalte-se que o enunciado introduzido por mas deve prevalecer sobre o outro enunciado. Empregando-se mas/porém/ embora/ contudo o texto vai em direção oposta. Vivia bem com sua esposa, mas engraçou-se com outra mulher Existe uma diferença discursiva no emprego de mas e embora. Quando empregamos mas, existe um expectativa, como se constata em: Sua prova está boa (podemos pensar oba!), mas não conseguiu a média. Diferentemente, o emprego de embora assinala uma antecipação da ideia oposta: Embora sua prova (já sei que deu algo errado) estivesse boa, não foi aprovado. 4- Explicação ou justificativa- encadeia-se sobre o primeiro ato a sua justificativa ou explicação. Espera um pouco mais que a chuva não demora a passar. 5-Comprovação- O segundo ato comprova a asserção efetuada no primeiro. 117 Encontrei Maria, tanto é verdade que ela me disse estar muito doente. 6- Conclusão- introduz-se um enunciado com valor conclusivo, graças ao emprego de portanto, por conseguinte, pois. Todos os integrantes da CPI foram incisivos; portanto, a atuação do presidente não poderia ter sido diferente. 7- Comparação- estabelece-se por meio de tanto, tal, como (quanto), mais...que, menos...que Maria é tão inteligente quanto Carlos 8- Generalização/extensão- expressa-se uma generalização do fato expresso no primeiro enunciado. Pedro faltou ao evento. Aliás/é verdade que/ ele nunca comparece a nenhuma atividade da empresa. 9- Especificação/exemplificação- O segundo enunciado especifica o primeiro. No Brasil, os alimentos estão em alta. O pão, por exemplo, subiu 10%. 10-Correção/redefinição- O segundo enunciado corrige ou re-define o primeiro. Farei toda a tarefa atrasada. Isto é, se tiver tempo. 11-Contraste- O segundo enunciado expressa uma declaração, que contrasta com a do primeiro. Os honestos estão cada vez mais raros, ao passo que o número de desonestos aumenta a cada minuto.