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Evandro Borges Psicologia Positiva Uma mudança de Perspectiva Série Positiva Psicologia Copyright © 2017 by Evandro de Lemos Borges CRP 20/07141 Diagramação: Wenceslau Abtibol Filho Fotografia: Thainara Borges do Vale Revisão: Rodrigo Benarrós Ribeiro Série Positiva Psicologia contato@positivapsicologia.com.br www.positivapsicologia.com.br Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação de direitos autorais (Lei 9.610/98). O conteúdo desta obra é de responsabilidade do Autor, proprietário do Direito Autoral. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE EDIÇÃO DO AUTOR, SC, BRASIL Borges, Evandro, 1982- B732p Psicologia positiva: uma mudança de perspectiva [recurso eletrônico]: Evandro Borges. – 1ª ed. – Série Positiva Psicologia. Vol.1. – Joinville: Clube de Autores, 2017. Formato: ePub ISBN 978-85-923292-1-1 (recurso eletrônico) 1. Psicologia positiva. 2. Psicologia aplicada. 3. Bem-estar. I. Título. CDD: 158.1 17-07873 CDU: 159.947 Produced in Brazil / Produzido no Brasil ISBN 978-85-923292-1-1 SUMÁRIO PREFÁCIO 13 Uma mudança de perspectiva na psicologia 19 Meu encontro com a psicologia positiva 31 Como surgiu a psicologia positiva? 39 Psicologia Positiva vs Psicologia Humanista 41 Bem-estar versus doença 43 Os 5 Pilares da Psicologia Positiva – O Modelo PERMA 49 Emoções Positivas (P) 53 Engajamento ou Fluidez (E) 63 Relacionamentos Positivos (R) 65 Sentido no viver, significado ou propósito (M) 67 Realização (A) 69 O Papel das Emoções Positivas no processo psicoterapêutico 73 O Modelo de Emoção em psicologia positiva 76 Emoção versus Ação 78 A consolidação dos efeitos das emoções em longo prazo 80 Autoconsciência, autocompaixão e autocuidado 83 Autoconsciência 83 Autocompaixão 87 A Teoria do Autocuidado 90 Felicidade em Psicologia Positiva 97 Obstáculos ao aumento do nível de felicidade 102 O Relatório Mundial da Felicidade (World Happiness Report) 105 Antecedentes 107 Aproveitamento da informação e da investigação sobre a felicidade para melhorar o desenvolvimento sustentável. 108 Definição e medição de Florescimento 111 Florescimento 111 A Escala de Florescimento 114 A descoberta do Flow 117 As contribuições do Dr. Mihaly Csikszentmihalyi 117 A Teoria do Flow (Fluxo) 119 Exemplos Práticos de Estados de Flow / Fluxo 127 Prazer versus felicidade 131 O Estado de fluxo: 132 Fluxo versus Homeostase 135 Como obter maiores experiências de Fluxo 139 Introdução ao conceito de Engajamento 143 Engajamento nas Organizações 149 Engajamento no Trabalho 149 Identificando determinantes de satisfação com a vida 153 A felicidade e a Personalidade Autotélica 157 Autocontrole - Uma forma de superar momentos difíceis 171 Exercitando o Autocontrole 172 Depressão, um olhar biopsicossocial 179 Psicologia e Biologia – Um convite ao diálogo 183 Instrumentos de avaliação em psicologia positiva 189 Ampliando e construindo emoções positivas 197 Agradecimentos 203 ANEXO I - Relatório Mundial da Felicidade - Ranking 2016 205 ANEXO II – Estrutura da Escala de Florescimento 213 Referências 215 Notas 13 13 Dedicado aos meus queridos pais, Helena e Getúlio. Evandro Borges 14 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 13 PREFÁCIO Quando você tem amor por uma profissão, quando descobre nela sua vocação, quando você acredita que seu trabalho pode influenciar positivamente a vida de outras pessoas e, quando as pessoas depositam em você confiança, você descobre verdadeiramente um sentido maior pelo qual a vida deve ser digna de ser vivida. Esse é o maior retorno que um profissional do campo das ciências humanas pode ter. E no momento em que escrevo este livro, o Brasil passa por um processo de resseção econômica nunca antes visto na história moderna do país. Por um instante questiono a mim mesmo sobre os motivos pelos quais escrevo e quem irá comprar livros em um momento econômico tão difícil como este. Deste ponto em diante, meus motivos para continuar escrevendo são claros, trata-se de uma realização pessoal, de um objetivo, algo maior que eu, algo que me faz feliz de uma forma plena. E tudo começou com um pequeno projeto, um curso de introdução à psicologia positiva gratuito, que lancei em meados de 2015 na plataforma virtual www.positivapsicologiacom.br. Para a minha surpresa, recebi mais de 50 inscritos na primeira semana. Hoje tenho centenas de alunos inscritos e centenas deles já Evandro Borges 14 concluíram o curso, com direito a certificado de 40 horas. Em seguida comecei a lançar as bases para um curso de certificação em psicologia positiva aplicada. Para isso, precisei recorrer a cursos nos Estados Unidos e Canadá, o que me proporcionou uma base sólida em PP. Enquanto eu compunha os módulos do curso e as apostilas, eis que senti uma certa dificuldade em encontrar livros ou artigos em português, embora este cenário esteja mudando graças ao empenho de diversos profissionais e pesquisadores cada vez mais engajados no tema, tanto no Brasil quanto em boa parte da América Latina. E como os cinco pilares fundamentais da psicologia positiva baseiam-se no Modelo PERMA, que abordaremos no Cap. 5 deste livro, dei início ao projeto Série Positiva Psicologia, abordando os cinco pilares em 5 volumes de livros diferentes, todos em andamento até o presente momento. Devo esclarecer, de antemão, que ao contrário do que afirmam os críticos, o tema central da psicologia positiva não é a felicidade, mas o bem-estar. O conceito de felicidade é subjetivo e não pode ser aplicado a todos, uma vez que cada indivíduo possui sua própria percepção de mundo. E cada vez mais eu me convenço de que a felicidade plena não se resume a um estado de humor sempre alegre. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, ao refletir sobre a felicidade, compreendeu metaforicamente que ela seria uma porta que somente Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 15 poderia se abrir para fora, e que qualquer um que tentasse forçá-la no sentido contrário acabaria por fechá-la ainda mais 1 . De fato, nós podemos encontrar motivos para sermos felizes dentro de nós mesmos, mas a porta que se abre para fora é a mesma porta de entrada e saída. Isso significa que nós podemos transmitir e absorver felicidade ao abrirmos a porta. A alegria é passageira e o humor oscila repentinamente. Você pode acordar extremamente feliz e ir dormir extremamente triste. A conclusão de tudo isso é de que é possível encontrar a felicidade plena nas pessoas e até mesmo nas coisas exteriores. Somos parte de uma coletividade e nos conectamos uns com os outros constantemente, da mesma forma que nos conectamos com o mundo à nossa volta. No entanto, é necessário que nossa existência faça sentido nesse mundo. Deve haver uma causa exterior, um significado, um propósito. E talvez esse seja o motivo pelo qual muitas pessoas passem por crises existenciais que causam angústia e fazem-nas sentirem-se insignificantes. A angústia é sofrimento sem sentido, como bem definiu o psicólogo Viktor Frankl 2 . A felicidadeplena, a meu ver, é um estado mental que 1 Moreira, Neir; Holanda, Adriano. Logotherapy and the meaning of suffering: convergences in the spiritual and religious dimensions. Psico-USF, v. 15, n. 3, p. 345-356, 2010. 2 Frankl,Viktor E. Logoterapia e Análise Existencial - Textos de Seis Décadas. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. Evandro Borges 16 depende de fatores internos e externos, como relacionamentos positivos que agreguem emoções positivas, como alegria, coragem, motivação, inspiração, sentimento de ser acolhido e amparado, dentre outros. Por outro lado, também depende de sentido no viver, de sentir-se realizado e estar engajado, envolvido e comprometido com algo que nos faça perder a noção do tempo. É como alguém que ama jogar xadrez e consegue ficar envolvido em uma partida durante horas, ou como um atleta de alto rendimento que consegue correr 20 km, totalmente concentrado. Ambos buscam realização, ambos têm um propósito. E quando nos isolamos, quando não encontramos sentido e realização ou não estamos engajados em algo, a mente parece ser inundada por pensamentos aleatórios que podem causar insônia, ansiedade e até mesmo depressão. Não há furacão mais devastador do que uma crise existencial. E muitas pessoas encontram-se no olho de um furacão nesse exato momento, sem saberem o que fazer, sem terem a quem recorrer enquanto suas vidas desmoronam. Talvez tenham receio de procurar ajuda psicológica e serem diagnosticadas como neuróticas ou psicóticas. E eu quero vos dizer que, ao contrário do que muitos imaginam, crises existenciais são extremamente positivas. E é através delas que paramos para refletir, mudamos nossas atitudes com relação a nós mesmos, ao mundo e às Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 17 pessoas. Nós podemos reconstruir nossas vidas do zero quando tudo desmoronar. O ser humano possui forças indomáveis para superar adversidades. E essa é a mudança de perspectiva, explorar as forças humanas. Essa é a psicologia que eu desejo para o futuro, uma psicologia mais humana, com evidências científicas que comprovem seus efeitos, focada nas potencialidades das pessoas. Estar engajado neste livro, neste projeto e no objetivo de contribuir com o avanço da psicologia positiva no Brasil é o que me faz feliz e realizado. É difícil descrever tamanha experiência, mas é como se o tempo parasse, como se eu estivesse conectado com cada um de vocês, em um diálogo com uma linguagem acessível e que possibilite uma leitura agradável. Eu gostaria de agradecê-lo pela aquisição do livro, de coração. E desejo a você uma excelente leitura. Evandro Borges 18 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 19 Capítulo 1 Uma mudança de perspectiva na psicologia Independente de qualquer corrente teórica, metodológica ou prática, a psicologia visa, desde seus primórdios, emancipar o homem, torná-lo independente, livre para fazer suas escolhas, para pensar e agir por conta própria, um ser pujante, autônomo e dotado de senso crítico, consciência e razão. Qualquer coisa que fuja a esse direito fundamental estabelecido pela Declaração Evandro Borges 20 Universal dos Direitos Humanos contraria a psicologia 3 . A psicologia do homem inválido, doente, vítima de sua eterna infância traumática, do homem que tenta, em vão, superar seu passado ao mesmo tempo em que tem nas mãos a oportunidade de viver o presente e recomeçar do zero, parece estar mudando de perspectiva. O mundo evolui, tudo evolui. E o homem evolui constantemente. Na década de 90 os primeiros telefones celulares eram o que havia de mais avançado no campo das telecomunicações, hoje eles são obsoletos. Há centenas de novos modelos de aparelhos com funções das mais diversas possíveis. Da mesma forma, os automóveis também evoluíram, os computadores, os livros, os discos, as artes, o pensamento, a medicina, a robótica, a mecatrônica, os aparelhos de TV, os condicionadores de ar, a moda, as cidades e uma inúmera série de outras coisas. O homem torna possível a evolução das coisas por meio de sua própria evolução. E de certa forma, a evolução das coisas permite que o homem evolua, se adapte, aprenda, explore, descubra, refaça, reinvente, aprimore, aperfeiçoe, improvise, pense, repense, escolha, decida, desista, insista, persista. O homem torna possível a evolução das coisas que cria e as coisas tornam possível a evolução do homem. É uma via de mão dupla. A mente 3 Declaração Universal dos Direitos Humanos – ONU, 1948. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 21 humana está em constante evolução. As perspectivas mudam. Não somos os mesmo de 10 ou 20 anos atrás. Ocorre que a evolução das coisas são fruto de adaptações que se aperfeiçoam na medida em que o pensamento evolui, mas temos nas mãos o poder de escolha, sobre como utilizar o conhecimento acumulado. Governos podem optar por investimentos em ciências que tragam benefícios à população, como no desenvolvimento de vacinas que previnam epidemias, prevenção e promoção de saúde, educação, dentre outras, mas também podem investir maciçamente em programas nucleares e desenvolvimento de mísseis capazes de exterminar centenas de milhares de pessoas. As convicções que eu tinha há 10 anos atrás são totalmente diferentes das que eu tenho hoje. E talvez eu mude de ideia daqui para amanhã. Isso, a meu ver, é libertador. E como aspirante a cientista, tenho me pautado pelas descobertas da ciência. E sou incapaz de fechar os olhos para o esforço e tamanha dedicação da comunidade acadêmica e científica ao redor do mundo. A psicologia, no meu ponto de vista, vem perdendo muito de sua identidade original, principalmente na América Latina. E digo isso porque a psicologia moderna nasceu em um laboratório, em Leipzing, com Wundt, um filósofo que se abriu para a ideia de uma psicologia experimental. Wundt, além de filósofo, estudou medicina, fisiologia, Evandro Borges 22 química, anatomia e física. O fato é que, apesar das limitações da época, Wundt ousou constituir a psicologia como uma nova área da ciência objetiva e experimental independente, tornando-a distinta da filosofia. Foi um gênio, um gênio a seu tempo e com suas limitações. Mas a ciência sempre será um ponto de interrogação. E muitos outros vieram após ele e o refutaram. E isso é ciência, é uma reticência atrás da outra. E isso é simplesmente o combustível da ciência. E qualquer um que se arrisque a adentrar no campo das ciências deve estar disposto a abrir mão de suas convicções pessoais, ideológicas e políticas. Não é o que eu tenho percebido atualmente. Não há diálogo entre as diversas correntes da psicologia. Há, sim, uma visível dicotomia de egos inflados em suas próprias bolhas, e qualquer opinião, pesquisa ou tentativa de refutação de uma teoria torna-se semelhante a uma agulha. A psicologia como ciência deve estar aberta ao novo. E o cientista moderno não pode se fechar dentro de um círculo de séquitos que aplaudem tudo o que ele diz. Ele tem que aprender a conviver com as críticas, sejam positivas ou negativas, pois são as convergências de pensamentos diversificados que enriquecem a ciência. Por outro lado, tenho observado a psicologia latino americana cada vez mais distante de temas como neuropsicologia, neurogenética, biologia, genética, psiquiatria, dentre outros temas riquíssimos em Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 23 informações que podem contribuir bastante para pesquisas. Há, no entanto, uma forte inclinação para a sociologia, antropologia,filosofia e psicanálise, o que é normal dentro das chamadas ‘psicologias’. Mas, se você for a um seminário cujo tema seja X, dentro da perspectiva X e para o público X, falar em Y soa quase como uma ofensa, porque muitos pesquisadores estão se limitando a um único campo de conhecimento. Já não se arriscam a ouvir o contraditório, talvez por não dominarem o tema Y e por terem dedicado anos de pesquisas ao tema X. E a recomendação que eu tenho é: não se limitem apenas ao tema X, pois vocês serão surpreendidos com questões das mais diversas possíveis. E quando isso ocorrer, e se você não as dominar, não tenha medo de admitir que não tem uma resposta para o que você desconhece. E se acaso você tenha total domínio do tema em questão, dialogue, pois o que vejo constantemente são pessoas impondo um único ponto de vista a qualquer custo. Dentro da ciência existe espaço para a contradição. Pode-se questionar, debater, refutar, formular novas hipóteses, colher diferentes tipos de dados e validá-las. Sem tais premissas, a ciência perde seu caráter de ciência e passa a ser doutrina. É praticamente impossível estudar a psiquê humana excluindo fatores biológicos e evolucionistas, assim como é impossível Evandro Borges 24 estudar a evolução biológica excluindo os fatores sociológicos e culturais. É uma via de mão dupla. Se existe algo que eu aprendi com a ciência, é que a ciência nunca estará completa. E sendo assim, a ciência sempre estará aberta ao debate. Hoje há uma curva de deformação nas ciências, onde o pesquisador dificilmente se isenta de suas convicções pessoais ou ideológicas. São pesquisas “fabricadas”, onde o cientista moderno escolhe apenas as referências que embasem sua teoria, sem se arriscar em refutar uma teoria existente. Sem direito ao contraditório, ele chama isso de ciência, discursa pra seu próprio público e se fecha num casulo. Mas, virão outros após ele, outros com espíritos inquietos e indomáveis. Porque a ciência nunca terá todas as respostas. Os visionários precisam buscar respostas para o que ainda não existe. Essa é a verdadeira ciência. Este livro te caráter introdutório e, portanto, abordará de forma sucinta os temas centrais da psicologia positiva. E para ilustrar bem essa experiência extraordinária da evolução do pensamento eu gostaria de falar sobre minha primeira mudança de perspectiva sobre a vida, sobre o mundo e meu encontro com a psicologia. Sobre realização pessoal e profissional, pois tenho formação inicial na área de exatas e, após trabalhar por longos treze anos em um departamento comercial, questionei-me Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 25 sobre minha satisfação com a vida. Eu tinha um bom emprego, liberdade para tomar decisões, uma remuneração invejável, plano de saúde e garantias de estabilidade econômica e financeira, mas faltava-me algo, a satisfação pessoal e profissional. Era íntimo de uma lista de produtos que continha mais de cinco mil itens, dominava como ninguém as relações de compra e venda, importação e exportação, mercado financeiro, câmbio monetário, pregões eletrônicos, formação de preços, negociações comerciais e uma infinidade de outras coisas, só não dominava minha motivação. Acordar às 7 da manhã durante treze anos e fazer o mesmo percurso até o trabalho estava se tornando algo cansativo, tortuoso, monótono e difícil de lidar. Se a tal estabilidade resume- se em fazer a mesma coisa para o resto da vida, sem que isso me traga satisfação, prefiro ter uma vida instável e um pouco mais de liberdade. E foi aí que pensei em mudar um pouco a rotina. Tendo as noites livres, passei a dedicar-me à leitura, e lá na prateleira, esquecido e empoeirado, um livro sobre noções básicas de psicanálise. Até então eu não sabia a diferença entre psicanálise e psicologia. A única noção que tinha era aquela de consultório clínico, com um terapeuta sentado e um paciente deitado no divã. Talvez fosse meu ideal de tratamento psicológico, talvez fosse o que eu estivesse precisando no momento. E Evandro Borges 26 confesso, tornei-me um adepto da psicanálise. Foi amor à primeira vista. E como que em um insight, pensei: “Todos esses anos trabalhando só para conter meus impulsos primitivos reprimidos”. Um ano depois ingressei na faculdade de psicologia. De início conseguia conciliar trabalho e faculdade tranquilamente e pude até perceber uma pequena mudança, minhas noites nunca mais foram as mesmas. Abandonei meu emprego e fui trabalhar como professor na área de exatas. O salário não era muito atrativo, mas a satisfação em instigar meus alunos a pensarem e evoluírem não tinha preço. Aprendi muito com eles, uma aprendizagem mútua e facilitadora. Tinha a meu favor a experiência, mas eles tinham as dúvidas, perguntas inusitadas das quais não haviam respostas prontas. E compreendi, também, que ser professor não era simplesmente transmitir conhecimento, mas incentivar e facilitar a busca por conhecimento. No segundo período do curso de psicologia, eis que vejo estampado em meu cartão de matrícula a tão esperada disciplina de introdução à psicanálise. Na primeira aula, ouço entusiasmado a apresentação de um professor lacaniano que, em seguida, pede para que cada um dos presentes diga o motivo pelo qual escolheu o curso de psicologia. Convicto de minha escolha, respondi que estava ali por ser um admirador da psicanálise. O Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 27 professor balançou a cabeça como que em uma negativa e logo me disse a primeira verdade: “Você não precisa estudar psicologia para ser um psicanalista, basta procurar por um curso regular de psicanálise”. É... pesquisar sobre um curso ou fazer um teste vocacional antes de se matricular em uma faculdade faz toda a diferença, mas não tanta diferença quando seu objetivo é preencher um tempo livre ou estudar apenas para adquirir novos conhecimentos e manter a mente ativa. Este era meu real objetivo de estar ali, no início, até encontrar na psicologia um sentido maior, um propósito que não fosse apenas resolver minhas questões pessoais. E todo acadêmico de psicologia parece ser conhecedor do estigma que a profissão carrega. Esse estigma, para mim, foi nitidamente visível no início do curso. Predominava a ideia de que a maioria dos acadêmicos de psicologia ingressavam no curso para resolverem suas questões pessoais. Há um pouco de verdade, não devo negar, pois apesar de sermos orientados a separar o que é ciência e o que é um ponto de vista pessoal, baseado em nossas vivências, estamos sujeitos à condição humana, carregamos, inevitavelmente, questões pessoais não resolvidas, mas eu gostaria de dar a minha opinião sobre os reais motivos pelos quais acredito que uma pessoa escolha cursar psicologia, e não são as questões pessoais, mas uma personalidade altruísta, voltada para as questões Evandro Borges 28 humanas, uma inclinação indomável ao propósito de entender a mente humana, de doar-se a uma causa maior, de colaborar com a sociedade, sentir-se útil, dentre outros fatores. É uma questão puramente vocacional, e se não for, você verá sua turma diminuindo gradativamente com o passar dos anos. Caí no curso de psicologia de paraquedas, no primeiro período precisei fazer uma viagem de emergência e quase abandonei o curso. Ao retornar a Manaus, reencontrei um amigo de classe que me incentivou a voltar para a faculdade. E voltei no segundo período. Hoje, como profissional, aconselho a qualquer acadêmico ou psicólogo que façam terapia. A terapia nos ajuda a manter o equilíbrio necessário para os desafios de nossa profissão. E também é uma forma de adquirirmos confiança no que fazemos, e devemos começar por nós mesmos. Os cursos de psicologia nos dão um apanhado geral das váriascorrentes teóricas, metodológicas e práticas, mas é difícil concluí-los sabendo exatamente qual vertente seguir. Muitos acabam tornando-se adeptos daquilo que acreditam. E isso não deve ser considerado um aspecto negativo, desde que faça sentido para o indivíduo. Mas hoje acredito na psicologia baseada em evidências científicas. O que funciona para uns pode não funcionar para outros. E as pesquisas aplicadas a nível Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 29 global nos dão uma noção exata do que realmente pode ser eficaz no que diz respeito aos tratamentos psicológicos. Portanto, o caminho para uma formação sólida deve ser composto, não somente pelo que se aprende tradicionalmente na academia, mas pela busca independente de conhecimento paralelamente a isso. A grande maioria das grades curriculares que hoje integram os cursos superiores de psicologia estão atreladas à teorias do início do Século XX, enquanto que a psicologia aplicada na prática se faz necessária para pessoas do Século XXI. E isso é um desafio para qualquer psicólogo. Como podemos, então, utilizarmos de ferramentas tão antigas em tempos modernos e globalizados onde a informação corre na velocidade da luz? Enquanto eu fazia estudos de casos de 1910, em algum lugar do mundo um novo pesquisador publicava artigos e livros, novas demandas surgiam e novas pesquisas chegavam à novas conclusões acerca de determinados fatores dentro da psicologia. De fato, com o advento da tecnologia, da internet e da informação, a comunidade acadêmica e científica produziu muito mais conteúdo nos últimos 20 anos do que nos últimos 100 nos. E bastam alguns cliques e você estará acessando um artigo publicado na Austrália, Nova Zelândia ou em qualquer outra parte do mundo. Em contrapartida, a Evandro Borges 30 utilização de ferramentas para coleta de dados quantitativos em massa hoje possibilita que comparemos amostras globais e a transformemos em pesquisas qualitativas. Sim, devo dizer-lhes que a psicologia positiva, apesar de ter como princípio básico o aprimoramento científico, também possui ferramentas de mensuração de dados qualitativos. Um exemplo disso é o Questionário sobre as 24 Forças de Caráter disponibilizado gratuitamente no site do VIA Institute. 4 4 Via Institute on Character http://www.viacharacter.org Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 31 Capítulo 2 Meu encontro com a psicologia positiva Durante meu período de estágio profissionalizante tive a oportunidade de atuar como psicoterapeuta supervisionado. Meus primeiros supervisores tinham orientação psicanalítica e as supervisões seguiam a mesma abordagem. Não vou negar que encontrei na psicanálise uma base sólida para dar os meus primeiros passos como terapeuta. E não estou aqui para tecer críticas sobre uma determinada abordagem. Não é minha intenção fragmentar ainda mais a psicologia, mas uni-la, propor um diálogo e apresentar uma nova abordagem, não necessariamente a que acredito ser a melhor, mas a que mostrou-se eficaz em minhas experiências clínicas e na qual encontrei embasamento científico. Meu encontro com a Psicologia Positiva (PP) deu- se exatamente no momento em que eu questionava o modelo tradicional de psicodiagnóstico, durante o período de residência no departamento de plantão psicológico da clínica de psicologia da universidade. Na ocasião, me foi encaminhada uma criança com "indícios" de Transtorno Evandro Borges 32 do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), e as ferramentas diagnósticas de que eu dispunha no momento constavam nos famosos testes psicodinâmicos e manuais de classificação de transtornos mentais. Preocupava-me o fato de que, cada vez mais, crianças em idade escolar estarem sendo encaminhadas para os serviços de atendimento psicológico por supostamente apresentarem comportamentos "anormais" em casa ou na escola. E imediatamente me propus a pesquisar sobre novas abordagens que me levassem a uma compreensão mais ampla de "saúde mental", ao invés do modelo tradicional de "doença mental". Foi um longo desafio, eu confesso, mas minha concepção de psicologia nunca mais foi a mesma. Dediquei os últimos quatro anos ao estudo da psicologia positiva e tive a oportunidade de acompanhar de perto as recentes pesquisas e avanços científicos. Posso definir a psicologia positiva como uma abordagem nova preparada para lidar com demandas antigas e atuais, que utiliza-se de ferramentas modernas e explora a tecnologia que temos disponível em nossos dias, mais do que isso, é também a ampliação de um campo de visão sobre o mundo, sobre como explorar o potencial humano, suas forças de caráter, sua criatividade e virtude. Se antes os indivíduos eram classificados como neuróticos ou psicóticos, todo o trabalho do terapeuta concentrava–se Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 33 em diagnosticar o tipo de neurose ou psicose e então classificá-las em graus. Hoje meu trabalho é focado no diagnóstico do que há de saudável nas pessoas, do potencial a ser explorado, de como auxiliar pessoas a encontrarem sentido e realização em suas vidas. Isso é gratificante. Se antes eu estava atrelado a uma figura paterna ou ocupava o lugar de autoridade no set terapêutico, envolto em processos de transferência e contratransferência, neuroses, fixações, projeções e afins, sentia-me, de certa forma, afetado psicologicamente por estes processos. Seligman (2011) discorre sobre sua concepção original da psicologia positiva, onde afirma que achava que o tema da psicologia positiva deveria ser a felicidade, que o principal critério para a mensuração da felicidade seria a satisfação com a vida e que o objetivo da psicologia positiva era aumentar essa satisfação com a vida. O autor reavalia tais concepções e então chega a conclusão de que atualmente o tema central da psicologia positiva deva estar focado no bem-estar, que o principal critério para a mensuração do bem-estar é o florescimento, e que o objetivo da psicologia positiva é aumentar esse florescimento. A psicologia Positiva é, portanto, uma mudança de perspectiva do modelo tradicional de psicologia. Ela nasce de uma necessidade de se investigar as origens da saúde, ao invés de buscar o que há de Evandro Borges 34 "doente" nas pessoas (SELIGMAN, 2004). Mudança de perspectiva, me refiro a uma perspectiva angular, a forma como a enxergamos, uma nova postura frente ao modelo tradicional. Esse é um desafio. Um exemplo prático explica bem essa perspectiva: Se um paciente é diagnosticado com depressão, é bem provável que durante o processo psicoterapêutico o foco principal seja investigar a origem de sua depressão e, consequentemente, promover uma intervenção com o objetivo de aliviar os sintomas. Obviamente, havemos de considerar que a depressão pode ser proveniente de inúmeros fatores clínicos. Então, em uma escala de 1 a 10, onde 1 representa pouco depressivo e 10 muito depressivo, o foco da intervenção tende a regredir de 10 para 1. A Escala de Depressão de Beck (1988), onde avaliam-se os graus de depressão de um indivíduo por sintomas como tristeza, insatisfação, pessimismo, senso se fracasso, culpa, dentre outros, possibilitou uma verdadeira revolução no diagnóstico de depressão, mas há uma pergunta a se fazer, especialmente no que diz respeito às escalas e inventários diagnósticos. Seria a depressão apenas uma consequência da presença de aspectos negativos na vida do indivíduo, ou seria também decorrente da ausência de aspectos positivos? Portanto, pergunto-me se não poderíamos tratar determinados casos de depressão promovendo mudanças de Psicologia Positiva: uma mudançade perspectiva 35 comportamento que introduzissem tais aspectos positivos ausentes, ao invés de somente tentar amenizar aspectos negativos presentes. Aqui o foco seria a potencialização do que ainda há de saudável no indivíduo, explorando suas forças pessoas, ao passo que a outra alternativa seria a de minimizar o que há de "doente". De certa forma, minha relação com a psicologia e com as pessoas mudou. Se antes eu era um acadêmico preocupado em manter uma postura sempre vigilante, tentando avaliar o que havia de ‘errado’ em meu comportamento cotidiano, fora da academia ou da clínica, incorporando o psicólogo 24 horas por dia e 7 dias por semana, hoje levo uma vida absolutamente normal, separando a profissão de minha vida pessoal. É uma tarefa difícil, eu sei. Não é fácil desvincular-se completamente do que trabalho e do que é pessoal, mas o estado de vigília, de sempre se policiar, de analisar, mesmo que de maneira não intencional, as pessoas à sua volta, acaba gerando ansiedade. E isso de certa forma afeta a saúde do psicólogo, afeta suas emoções, faz com que o indivíduo abdique de sua liberdade de viver a vida como um ser humano qualquer, afinal, não somos deuses e nem detentores de poderes sobrenaturais. Estamos sujeitos a alterações de humor, emoções, problemas do dia-a-dia, e precisamos encontrar uma forma de deixar estes problemas em casa, da mesma forma que precisamos Evandro Borges 36 deixar o psicólogo ou a psicóloga no trabalho, na faculdade, na clínica e onde quer que a condição exija que sejamos psicólogos atuantes. E utilizo uma matemática simples, apenas dividindo as 24 horas do dia por três. Dedico oito horas ao trabalho, oito à família, lazer, amigos e afazeres rotineiros e, por fim, oito horas dedicadas ao descanso. Não é uma receita de bolo, mas isso me proporciona bem-estar, me dá a liberdade de ser ‘eu mesmo’ quando estou com a família ou amigos, de ter um ataque de raiva e não precisar justificar a mim mesmo com aquele mantra “Calma Evandro, respira, você é um psicólogo, precisa aprender a se controlar”. Sou um psicólogo, não um monge budista. E o mais difícil é convencer as pessoas mais próximas de que você, além de psicólogo, é um ser humano qualquer, como elas. E há o velho estigma de que ‘todo psicólogo é meio louco’, já ouvi isso de diversas pessoas, e não foram poucas. Eu diria que a questão é muito mais complexa do que se imagina. Devemos admitir que o modelo de ‘doença’ com o qual estamos habituados nos afeta diretamente. E estar imerso em um ambiente adoecido, onde acreditamos fazer parte de uma relação de transferência e contratransferência, nos torna vulneráveis e até mesmo doentes, padecendo dos próprios males que tentamos solucionar. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 37 Recebo diariamente dezenas de e-mails de profissionais psicólogos e acadêmicos com os mais variados tipos de perguntas. Me esforço para responder a todos, mesmo que em poucas palavras. E uma pergunta, em especial, me deixou bastante intrigado, e ela partiu de um profissional recém formado. “Evandro, como devo me comportar nas redes sociais, o que você me aconselharia a fazer, qual postura devo adotar?”. Isso me intrigou, pois as redes sociais são espaços públicos e há toda uma preocupação em construirmos uma imagem profissional positiva Evandro Borges 38 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 39 Capítulo 3 Como surgiu a psicologia positiva? Para Hutz (2014) essa é uma questão controversa e que tem gerado bastante polêmica. No ano 2000, Seligman e Csikszentmihalyi publicaram um artigo intitulado “Positive Psychology: an introdution”, na American Psychologist, onde afirmaram que desde a Segunda Guerra Mundial o foco da psicologia teria sido curar e reparar danos. Esse foco, quase exclusivamente curativo, ressaltam os autores, fez com que se olhasse pouco para os aspectos positivos que também são parte do sujeito e das comunidades. Tais aspectos teriam então sido negligenciados por um longo período, tornando a visão da psicologia incompleta. Com base em tais argumentos, os autores propuseram que o objetivo da psicologia positiva é promover um ajuste no foco da psicologia para que aspectos saudáveis também recebam atenção. "Dessa maneira, percebe-se que tanto a psicologia voltada à cura e à reparação do que precisa ser mais bem ajustado quanto a psicologia que se volta ao estudo das qualidades e das características positivas do Evandro Borges 40 ser humano são aspectos importantes e merecem atenção (HUTZ, 2014, p.13). "Desde 11 de setembro de 2001, tenho pensado na importância da Psicologia Positiva. Em tempos intranquilos, a compreensão e o alívio do sofrimento impedem a compreensão e a construção da felicidade? Acredito que não. Pessoas sem recursos, deprimidas ou com impulsos suicidas têm preocupações que vão muito além do alívio de seu sofrimento. Essas pessoas se preocupam — muitas vezes desesperadamente — com virtude, propósito, integridade e significado. As experiências que induzem emoções positivas fazem as emoções negativas se dissiparem rapidamente. As forças e virtudes, como veremos, funcionam como um para- choque contra a infelicidade e as desordens psicológicas, e podem ser a chave da resistência. Os melhores terapeutas não curam simplesmente os sintomas; eles ajudam a construir forças e virtudes. [...] A Psicologia Positiva leva a sério a esperança de que, caso você se veja preso no estacionamento da vida, com prazeres poucos e efêmeros, raras gratificações e nenhum significado, existe uma saída. Esta saída passa pelos campos do prazer e da gratificação, segue pelos planaltos da força e da virtude e, finalmente, alcança os picos da realização duradoura: significado e propósito (SELIGMAN, 2004, p.14). Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 41 Psicologia Positiva vs Psicologia Humanista Rich (2001 apud HUTZ, 2014) afirma que Carl Rogers e Abraham Maslow já trabalhavam com tópicos bastante próximos aos discutidos pela psicologia positiva, e defende que a psicologia positiva tem suas raízes na psicologia humanista. Assim, a psicologia positiva não seria um novo movimento, mas o florescimento de algo já iniciado muitos anos antes. Mas apesar de existirem diversas semelhanças e conexões entre a psicologia humanista e a psicologia positiva, estas seriam, segundo Rich, aparentemente negligenciadas, havendo poucas referências humanistas nos artigos de psicologia positiva. O fato a ser levado em consideração é que há semelhanças nas mudança de perspectivas de ambas as vertentes, tanto positiva quanto humanista. Evandro Borges 42 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 43 Capítulo 4 Bem-estar versus doença Bem-estar é um construto, e felicidade é uma coisa, afirma Seligman. Para o autor, uma “coisa real” é uma entidade diretamente mensurável. E portanto, uma tal entidade pode ser “operacionalizada”, ou seja, pode ser definida por um conjunto muito específico de medidas. A teoria da felicidade autêntica apresentada por Seligman, inicialmente deu-se como tentativa de explicar uma coisa real, a felicidade, que poderia ser definida pela satisfação com a vida, com uma escala de 0 a 10 onde o indivíduo poderia mensurar seus níveis de satisfação. De acordo com a teoria da felicidade autêntica, pessoas que possuíssem o máximo de emoções positivas, o máximo de engajamento e o máximo de sentido seriam as mais felizes e, portanto, teriam o máximo de satisfação com a vida. A teoria do bem-estaré fruto de uma revisão do próprio Dr. Seligman, e nega que o tema da psicologia positiva seja uma coisa real. O tema agora passa a ser um construto, o bem-estar, que agrega diversos elementos mensuráveis, “sendo cada um deles uma coisa real, cada um deles contribuindo para formar o bem-estar, mas nenhum deles o definindo (SELIGMAN, 2011, p.25)". Evandro Borges 44 Passareli e Silva (2007) apontam que diferentes dados disponíveis na literatura científica sugerem que o bem-estar leva ao desenvolvimento de boas relações sociais e não é meramente seguido por elas. Pesquisas de Burman e Margolin (1992 apud PASSARELI e SILVA, 2007) sugerem que muitos estudos têm indicado que, comparadas às pessoas solteiras, pessoas casadas têm melhor saúde física e psicológica, além de viverem mais. Confirmando esses estudos, prosseguem os autores, evidências experimentais indicam que as pessoas tendem a apresentar sofrimento quando não fazem parte de nenhum tipo de grupo ou quando têm relações pobres dentro dos grupos a que pertencem, os levantamentos foram feitos por Diener e Seligman (2004). Verificou-se, desta forma, que participar de grupos, como grupos de amigos, de trabalho, de apoio, é um fator favorável para o bem-estar subjetivo. Estudos conduzidos por diversos autores constataram que felicidade, ou bem-estar subjetivo, não significariam apenas a ausência de depressão, mas também a presença de um número de emoções e estados cognitivos positivos (Joseph, Linley, Harwood, Lewis & McCollam, 2004). Segundo Diener, Suh e Oishi (1997), o campo do bem-estar subjetivo inclui os estados indesejáveis tratados pelos psicólogos clínicos, embora Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 45 não se limite apenas ao estudo desses estados indesejáveis. Para esses autores, o bem-estar subjetivo também se refere aos fatores que diferem as pessoas ligeiramente felizes daquelas moderadamente e extremamente felizes (PASSARELI e SILVA, 2007). De acordo com Ferreira e Ramos (2007), Bem- Estar Psicológico (BEP), traduz a avaliação subjetiva que os indivíduos fazem das suas vidas, incluindo conceitos como a satisfação com a vida, a felicidade, as emoções agradáveis, os sentimentos de realização pessoal e de satisfação com o trabalho e a qualidade de vida, em detrimento de sentimentos negativos e desagradáveis. Desta forma, representa a avaliação acerca das suas vidas, em um dado momento e ao longo da vida, não significando propriamente saúde psicológica, mas refletindo um aspecto de bem-estar necessário (Diener & Scollon, 2003; Albuquerque & Tróccoli, 2004). Compreende-se também que a procura do bem-estar psicológico revela ser um elemento preventivo da saúde. A Organização Mundial de Saúde (1978) ressalta que “saúde – estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doença ou enfermidade - é um direito humano fundamental, cuja realização requer a ação de muitos outros setores sociais e econômicos, além do setor da saúde.” Evandro Borges 46 Já o conceito de doença é, segundo Perrez, Meinrad et al (2005), complexo e multifacetado. Porém, para efeito de aplicação destes conceitos na psicologia positiva, devemos levar em consideração o conceito biopsicossocial, ou seja, que englobam fatores, de acordo com os autores: a) Biológicos, como por exemplo, a predisposição genética e os processos de mutação que determinam o desenvolvimento corporal em geral, o funcionamento do organismo e o metabolismo, etc.; b) Os fatores psicológicos, como preferências, expectativas e medos, reações emocionais, processos cognitivos e interpretação das percepções, etc.; c) Os fatores socioculturais, como o convívio interpessoal, expectativas da sociedade e do meio cultural, influência do círculo familiar, de amigos, modelos de papéis sociais, etc. Para Novaes (1976), saúde e doença são muito mais valores sociais, historicamente colocados, do que a simples expressão da situação biológica do organismo, em um meio dado e, portanto, devem ser pensados em termos de sua historicidade. Rouquayrol (1983), considerando que a doença ocorre num dado ambiente, enfatiza que "o estado final provocador de uma doença é resultado da sinergização de uma multiplicidade de Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 47 fatores políticos, econômicos, sociais, culturais, psicológicos, genéticos, biológicos, físicos e químicos." Evandro Borges 48 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 49 Capítulo 5 Os 5 Pilares da Psicologia Positiva – O Modelo PERMA O Modelo PERMA foi desenvolvido pelo psicólogo norte americano Martin Seligman e publicado em seu livro “Florescer – Uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar (Rio de Janeiro: Objetiva, 2011)”. Conhecida como Teoria do Bem-Estar, "PERMA" representa os cinco elementos essenciais que devem estar presentes para que seja possível adquirir experiências de um bem-estar efetivo e duradouro. O modelo é o núcleo central de toda a psicologia positiva, embora novas pesquisas estejam agregando novos conceitos ao modelo vigente. De forma sucinta, veremos um resumo de cada elemento do modelo, visto que dedicarei os próximos volumes da Série Positiva Evandro Borges 50 Psicologia para abordá-los de uma forma mais abrangente. 5 6 7 PERMA P - Positive Emotions - Emoções positivas; E - Engagement (or flow) – Engajamento, Fluidez; R - Relationships - Relacionamentos Sociais Positivos; M - Meaning (and purpose) - Sentido no viver; Propósito; A - Accomplishment – Realização; Persistência; Metas. 5 Seligman, M. E. P. Florescer - uma nova e visionária interpretação da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. 6 Seligman, M. E. P. Felicidade Autêntica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004. 7 Seligman, M. E. P. & Csikszentmihalyi, M. (2001). Positive psychology: an introduction. American Psychologist, 55(1), 5-14, 2001. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 51 Para a psicologia positiva, seja na aplicação clínica, em psicoterapia, no contexto educacional ou ocupacional, nossa ‘bússola’ será o Modelo PERMA. Em outras palavras, os cinco elementos descritos acima, bem como seus derivados, no caso das emoções positivas, serão nossos objetos de investigação em relação ao indivíduo e às organizações. O Projeto Positiva Psicologia, como mencionei no início deste livro, irá abordar os cinco pilares da Psicologia Positiva separadamente, ou seja, a intenção é aprofundar cada elemento do modelo separadamente, em volumes separados. Apresento-vos uma prévia a seguir. Evandro Borges 52 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 53 Emoções Positivas (P) Um dos cinco pilares centrais da psicologia positiva são as Emoções Positivas. Para tanto, devemos compreender, inicialmente, o que são emoções, suas raízes biológicas, bem como as reações fisiológicas, ou seja, a maneira como sentimos as emoções e o impacto das mesmas em nossas relações com os outros. O termo “emoção” origina-se do latim “ex movere”, que significa, literalmente, “em movimento”. Se sorrimos, se choramos, se pulamos de alegria, se corremos de medo, se sentimos um frio na barriga ou ficamos pálidos diante de um acontecimento, ou corados Evandro Borges 54 de timidez, o termo faz todo sentido. Nosso corpo, mesmo que esteja aparentemente em repouso, move-se internamente. No entanto, há uma distinçãoentre emoção e sentimento, afirma Goleman (2001). Para o autor, sentimentos são informações que seres biológicos são capazes de sentir nas situações que vivenciam, isso porque, conforme observado, é um estado psico- fisiológico. Já o sentimento seria a emoção filtrada através dos centros cognitivos do cérebro, especificamente o lobo frontal, produzindo uma mudança fisiológica em acréscimo à mudança psico-fisiológica. Portanto, o sentimento seria uma consequência da emoção com características mais duráveis. Todavia, existem algumas relações entre sentimentos e emoções, as emoções, por exemplo, podem ser públicas, ou seja, notáveis, enquanto que os sentimentos podem ser privados. Para Goleman, a emoção é inconsciente e o sentimento, pelo contrário, consciente. De acordo com Casanova e Siqueira (2009), desde a Grécia Antiga até meados do século XIX, filósofos, psicólogos e pensadores acreditavam que as emoções eram instintos básicos que deveriam ser controlados sob pena de o homem ter sua capacidade de pensar seriamente afetada. Até meados do Século XX, o tema “emoção” foi parcialmente esquecido por influência do pensamento cartesiano. Mas é no início do Século XX que Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 55 o tema ressurge sob uma nova perspectiva. Cientistas de todo o mundo e de diversas áreas do conhecimento despertaram para o fato de que as emoções influenciam na capacidade do indivíduo de se relacionar com o meio em que vive. Além disso, estudos recentes demonstraram que as emoções influenciam diretamente em nosso sistema imunológico. O estresse, por exemplo, pode originar-se de fatores emocionais. Para o psicólogo e médico francês, Henri Wallon (1975), a emoção tem dupla origem. É tanto biológica quanto social. Em sua Teoria das Emoções ele destaca o importante papel dos laços de afetividade e ressalta que as emoções também possuem funções determinantes na garantia da sobrevivência da espécie humana. Para Wallon, é na convivência com o outro e com o grupo social que aprendemos a identificar, nomear e lidar com nossas emoções, aprender a estabelecer relações de reciprocidade, de cooperação, de rivalidade, desenvolvendo assim, nossa sociabilidade. Inteligência Emocional Ao longo da história, pesquisas significativas permitiram uma maior compreensão do intelecto humano. E munidos de bases mais apuradas, alguns autores passaram a desenvolver conceitos em torno da Evandro Borges 56 inteligência e todas as suas vertentes. Em 1920, Thorndike usou o termo “inteligência social” para descrever a habilidade de se relacionar com outras pessoas. Gardner, (1989), formulou a ideia de “inteligências múltiplas”, incluindo a inteligência interpessoal e a inteligência intrapessoal. Em 1985 surge o conceito de “inteligência emocional”, criado por Wayne Payne e, consequentemente aprofundado por Daniel Goleman, em 1995, ganhando projeção mundial. Tal conceito sustenta que “inteligência emocional” é um tipo de inteligência que envolve as habilidades para perceber, entender e influenciar as emoções. Para Goleman (2006), nossas emoções guiam-nos quando temos de enfrentar situações e tarefas muito importantes para serem deixadas apenas a cargo do intelecto. Cada emoção representa uma diferente predisposição para a ação, afirma o autor. Inteligência Emocional (IE), também pode ser compreendida como a capacidade de se autoconhecer, lidar bem consigo, conhecer e lidar bem com os outros, seja nos relacionamentos familiares, sociais ou profissionais. A inteligência emocional, portanto, caracteriza a maneira como cada indivíduo lida com suas emoções e com as emoções que o rodeiam. Em suma, abrange tudo o que está relacionado com a capacidade de perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 57 e nos outros. Já a habilidade de reconhecer o que os outros sentem é denominada “empatia”, que tem origem na autoconsciência, sendo a base da IE, ou seja, reconhecer um sentimento no momento em que ele ocorre é um fator determinante, darei um breve exemplo: Paulo ama sua esposa, e ela também o ama, estão casados há cinco anos e a relação estava indo bem, até Paulo começar a ter problemas no trabalho. Ao que parece, a empresa pretende fazer uma redução de quadro e o nome de Paulo está na lista de demissão. Com dívidas à pagar, ele passou a ficar estressado com frequência. E na sexta- feira, ao final do expediente, chegou em casa cabisbaixo. Sua esposa lhe perguntou o que havia acontecido. E ele teve um surto de raiva, agredindo-a verbalmente. Se Paulo adquirisse a capacidade de reconhecer que está estressado por conta do trabalho no momento em que chegasse em casa, não descontaria sua raiva na esposa. Essa é a base do “equilíbrio emocional”. Lembram daquele velho conselho, “Respire fundo e conte até 10? Faz parte do senso comum, mas pode ser útil. A respiração alivia a ansiedade e tensão do corpo e os 10 segundos são suficientes para refletir sobre qual postura tomar diante de uma situação complicada. O pensamento precede a ação, mesmo que por frações de segundos. Evandro Borges 58 Portanto, toda a ação sóbria e lúcida é consciente e intencional. A ideia de que certas ações sejam frutos de impulsos do inconsciente tira do sujeito a responsabilidade por seus atos. De protagonista, passa a ser vítima. Esse talvez tenha sido o motivo central de meu ponto de ruptura com a psicanálise, apesar de reconhecer que a psicanálise é uma faculdade independente e que somente psicanalistas possuam capacitação suficiente para aplicá-la. A mim, resta-me a atitude nobre de recolher-me à seara de minha capacitação. Não incentivo e nem encorajo que adeptos da psicologia positiva tomem como descartáveis os conhecimentos advindos de outras correntes de pensamento. Muito pelo contrário. Até que se refute uma teoria através do método científico, ela continua sendo válida. No entanto, a emoção não tem sempre este caráter negativo ou explosivo, como no surto imprevisível de Paulo. Alguém que está apaixonado, por exemplo, pode experimentar emoções maravilhosas, mas sentir ciúmes e insegurança ao mesmo tempo. Para que possamos aprender a regular atitudes impulsivas, devemos aprender a escoar nossas emoções, mas nunca represá-las. Utilizar de recursos físicos ou representacionais parece ser a forma mais eficiente: Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 59 Todo aquele que observa, reflete ou mesmo imagina, abole de si mesmo a perturbação emocional. Não nos livramos da emoção apenas ao reduzi-la às suas corretas proporções, mas sim, e principalmente, pelo esforço para representá-la" (WALLON, 1995, p. 86). Uma ampla gama de emoções positivas se relacionam com o bem-estar, como paz, gratidão, satisfação, prazer, inspiração, esperança, curiosidade ou amor. Na psicologia positiva, o primeiro ponto de partida para uma intervenção psicológica de uma determinada demanda de um cliente deve ser, ao contrário da psicologia tradicional, que procura investigar a presença de experiências dolorosas e negativas, a investigação da presença ou ausência de experiências positivas. Devemos nos lembrar de que o corpo precisa absorver as emoções e dissipá-las naturalmente. Tal processo também faz parte do processo de homeostase, uma vez que as emoções dependem de estímulos neurológicos e descargas de neurotransmissores, como a endorfina, noradrenalina, a acetilcolina e a dopamina. Quando há o desequilíbrio emocional, há também o desequilíbrio hormonal. E não podemos tratar das questões hormonais com menor relevância, algo que a psicologia tradicional aparentemente tem menosprezado. As mulheres,por exemplo, são mais suscetíveis à mudanças bruscas de humor devido ao ciclo menstrual, e Evandro Borges 60 não é raro que uma mulher comece a chorar do nada, sem motivo aparente durante o período de tensão pré- menstrual. Tais mudanças bruscas de humor ocorrem devido às alterações hormonais do corpo. Já o homem pode irritar-se com maior facilidade, chegando a perder o controle emocional e até mesmo agir com agressividade. Isso se deve a uma alta concentração do hormônio testosterona, que em homens adultos possui níveis cerca de 7 a 8 vezes mais altos do que em mulheres 8 . Não estou afirmando, com isto, que as mulheres estão em desvantagem emocional, muito pelo contrário, as mulheres possuem capacidades neurológicas e cognitivas relativamente significativas que permitem-nas gerenciar emoções com maior facilidade que os homens. E não somente emoções, mas conflitos sociais provenientes de conflitos emocionais. Para a psicóloga norte-americana Janet Hyde, professora de Psicologia e Estudos da Mulher na Universidade de Wisconsin-Madison , conhecida por suas mais recentes descobertas sobre sexualidade humana, diferenças entre os sexos e desenvolvimento de gênero, enquanto que os homens têm força corporal para 8 Taieb J, Mathian B, Millat F, Patricot M-C, Mathieu E, Queyrel N, et al. Testosterone measured by 10 immunoassays and by isotope-dilution gas chromatography–mass spectrometry in sera from 116 men, women, and children. Clin Chem 2003;49:1381-1395 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 61 competir com outros homens, as mulheres usam a linguagem para conseguir vantagens sociais, através da argumentação e persuasão. Hyde (2005) afirma que o cérebro masculino, no início da vida, desenvolve-se sob uma alta presença de hormônios androgênicos, enquanto que o cérebro feminino se desenvolve através de estrógenos pela falta de androgênios. Voltando às diferenças propriamente ditas entre os “diferentes” cérebros, existe um feixe de fibras nervosas que liga os dois hemisférios do cérebro e é considerado o ponto essencial do desenvolvimento intelectual, este feixe é maior nas mulheres. Enquanto que as mulheres usam várias partes do cérebro para resolverem determinadas questões, os homens pensam com regiões mais específicas do cérebro 9 . Se substituíssemos todos os membros do Conselho de Segurança da ONU por mulheres, por exemplo, a possibilidade de ainda haverem conflitos armados no mundo seria remota e os arsenais nucleares seriam desmantelados. Em abril de 2017, por exemplo, um grupo de ativistas fundou o ICAN - International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares), em Melbourne, 9 Vieira, A., Moreira, J. I., & Morgadinho, R. (2008). Inteligência Emocional Cérebro Masculino Versus Cérebro Feminino. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal). Evandro Borges 62 Austrália e, posteriormente em Viena, Áustria. Em 2017 o ICAN já conta com cerca de 468 organizações parceiras e está presente em 101 países10. Em 2017 o ICAN recebeu o Prêmio Nobel da Paz. O ICAN é dirigido por Beatrice Fihn, uma jurista sueca de 36 anos formada em relações internacionais e ex-membro da Women's International League for Peace and Freedom - WILPF (Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade). O Comitê de Gestão Internacional da campanha sem fins lucrativos registrada na Suíça é composto por Susi Snyder (presidente), Josefin Lind (secretária) e Celine Nahory (tesoureira). 10 ICAN (December 23, 2016). "UN General Assembly approves historic resolution". www.icanw.org. ICAN. Retrieved 12 January 2017. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 63 Engajamento ou Fluidez (E) Quando estamos verdadeiramente empenhados em uma situação, projeto ou atividade, nós experimentamos um estado de fluidez: o tempo parece parar, esquecemos os problemas comuns, nos concentramos intensamente no presente. Quanto mais experimentamos este tipo de concentração, mais provável é que a experiência de bem- estar aumente. Enquanto escrevo este livro, perco, por vezes e sem me dar conta disso, a noção de tempo. É como se o tempo parasse para mim, como se eu estivesse desconectado do mundo e minha mente estivesse voltada Evandro Borges 64 apenas ao que escrevo. É o que considero ser meu estado máximo de fluidez. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 65 Relacionamentos Positivos (R) Como seres humanos, somos "seres sociais", e dentro desse contexto, os relacionamentos positivos são fundamentais para o nosso bem-estar. Muitas pesquisas já demonstraram que pessoas envolvidas em relacionamentos significativos e positivos são mais felizes que as demais. Os relacionamentos realmente importam! Com o advento da tecnologia e o surgimento das redes sociais na virada do Século XXI, surgiram também os relacionamentos virtuais, dentro das chamadas Evandro Borges 66 comunidades virtuais ou ciberespaços, que proporcionaram os mais diversos tipos de relações sociais. Dentro destas comunidades virtuais são partilhados valores, sentimentos, gostos em comum, críticas, manifestações políticas, dentre uma infinidade de outros tipos de interações. E acredito que o mundo virtual tem afetado significativamente o comportamento das pessoas, seja de uma forma positiva, proporcionando novas experiências e ampliando círculos de amizades, ou até mesmo negativamente, condicionando o indivíduo ao isolamento no mundo real e interativo no mundo virtual. Não é uma afirmativa, mas a psicologia deve estar preparada para lidar com as novas demandas advindas da era tecnológica. E esse assunto carece de pesquisas mais aprofundadas. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 67 Sentido no viver, significado ou propósito (M) O sentido no viver, geralmente vem de servir a uma causa maior que nós mesmos. O encontro de um sentido para o que fazemos pode vir de uma crença, uma religião, uma causa humanitária ou um simples objetivo, desde que seja significativo para o indivíduo. As pessoas tendem a procurar por um sentido em suas vidas, um propósito, uma resposta que dê sentido à própria existência. Muito do que conhecemos como angústia, tema que foi amplamente estudado no último século, incluindo depressão, ansiedade, insônia, fobia social e síndrome do pânico, dentre outras sintomas, parecem ser advindos de Evandro Borges 68 duas fontes distintas: o medo de viver e o medo de morrer. O medo de viver está aparentemente relacionado aos sintomas da angústia e depressão, enquanto o medo de morrer parece estar relacionado a comportamentos de fuga e esquiva, um mecanismo de defesa inato, presente nos sintomas da fobia social, síndrome do pânico, dentre outros. Para o Dr. Viktor Frankl (2012), psiquiatra austríaco e idealizador da Logoterapia, a angústia é sofrimento sem sentido. A Logoterapia, segundo Frankl, concentra-se no sentido da existência humana, bem como na busca do indivíduo por um sentido no viver. O autor também aborda alguns outros temas, como esperança, objetivos e metas de vida, espiritualidade, altruísmo, sentimento de pertencer a uma comunidade, de ser acolhido e colaborar para o desenvolvimento do bem-estar coletivo. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 69 Realização (A) Muitos de nós dedicamos esforços para melhorar a nós mesmos de alguma forma, seja procurando dominar uma habilidade ou alcançarum objetivo significativo. Como tal, a realização é uma outra coisa importante e contribui para nosso bem-estar e nossa capacidade de florescer. 11 Realização pessoal é algo subjetivo e pode variar de pessoa para pessoa. Na antiguidade, diversos filósofos gregos refletiram sobre o conceito de realização pessoal, 11 Munhoz, Fábio. Introdução à Psicologia Positiva. Centro de Estudos em Terapia Cognitivo-Comportamental, 2016. Evandro Borges 70 com um grande destaque para Aristóteles 12 , que dedicou boa parte de sua vida ao propósito de desvendar o real objetivo da vida humana. Segundo o filósofo, esse objetivo seria o de alcançar a felicidade a fim de se atingir a realização pessoal. No entanto, há, hoje em dia, reflexões diversas sobre o real significado de realização pessoal. E interessa-nos aqui a reflexão de um psicólogo que, a meu ver, lançou as bases para uma psicologia mais humana e voltada para as potencialidades humanas. Refiro-me a Abraham Maslow (1943), que desempenhou um papel fundamental na reformulação da psicologia como ciência das potencialidades, e dedicou longos anos de pesquisas ao estudo das motivações humanas. A Teoria da Hierarquia de Necessidades de Maslow, também conhecida como A Pirâmide de Maslow, afirma que os seres humanos possuem necessidades que obedecem a um nível hierárquico. Na base da pirâmide estão as necessidades básicas e fisiológicas, como comer, beber, dormir, respirar, ter relações sexuais, manter o organismo em homeostase e, por fim, sobreviver. Uma vez que as necessidades básicas são atendidas, a motivação se desloca para o próximo nível da pirâmide, 12 Aristóteles. Ética a Nicômaco. 2.ed. Editora Universidade de Brasília. 1985. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 71 onde o indivíduo busca segurança pessoal, como moradia, saúde, segurança do corpo, emprego e recursos para manter-se. No terceiro estágio, de acordo com Maslow, a motivação do indivíduo estaria voltada às necessidades de afeto, como amor, intimidade, relacionamentos, amizades e afeto familiar. No quarto estágio a motivação estaria voltada aos sentimentos de estima, autoestima, confiança, conquista e respeito mútuo. Por último, no topo da pirâmide, a motivação estaria dirigida à realização pessoal ou autorrealização. Evandro Borges 72 Maslow (1943) afirma que a autorrealização somente pode ser atingida quando o indivíduo é capaz de suprir as necessidades anteriores. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 73 Capítulo 6 O Papel das Emoções Positivas no processo psicoterapêutico Estudos de Silvestre e Vandenberghe (2013) constataram que tradicionalmente a psicologia clínica se interessou mais pelas emoções negativas do que pelas positivas. Os autores ressaltam que no trabalho com pessoas que enfrentam, às vezes, um sofrimento profundo, esse viés faz sentido. Porém, os mesmos Evandro Borges 74 identificaram que trabalhos recentes têm chamado a atenção para o papel das emoções positivas no processo psicoterapêutico (Fizpatrick e Stalikas, 2008; Dick- Niederhauser, 2009; Hayes et al., 2011; Vandenberghe e Silvestre, 2013). Os autores advertem, porém, que é interessante observar que todos se referem a uma base de dados de pesquisa experimental, em parte já antiga. Trata-se, segundo eles, de uma tradição de trabalhos experimentais acerca dos benefícios das emoções positivas que foi iniciada por Alice Isen e continuada sob a liderança de Barbara Frederickson, que até recentemente continuou despercebida ou desconsiderada pelos autores clínicos (SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). De acordo com os autores, dados provenientes desses experimentos são usados como evidência empírica para sustentar que emoções positivas desempenham um papel central no processo terapêutico. Hayes et al. (2011 apud SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013) apontam que o relacionamento terapêutico pode ser curativo por promover emoções positivas no cliente, as quais, por sua vez, favorecem o desenvolvimento de recursos pessoais que ajudarão o cliente a superar seus problemas. Estudos de Fizpatrick e Stalikas (2008) e Dick- Niederhauser (2009) discutem ainda dinâmicas comuns em diferentes tratamentos psicológicos. De acordo com os Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 75 autores, o papel do psicoterapeuta seria o de promover experiências nos seus clientes que provoquem emoções positivas. As vivências positivas dos clientes em terapia, por consequência, passariam a promover novos comportamentos e a construção de novos recursos pessoais, que por sua vez, conduziriam a novas vivências positivas, e assim por diante. As mudanças comportamentais podem dar origem à construção de novas redes de apoio e a habilidades sociais, que continuam à disposição da pessoa muito tempo depois de ter cessado a emoção positiva que promoveu a mudança (SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). Vandenberghe e Silvestre (2013) discutem como emoções positivas do terapeuta podem influenciar no processo terapêutico. Podem promover mais atenção e criatividade na atuação do terapeuta e contribuir para o desenvolvimento de habilidades clínicas, além de contribuir para o conteúdo da sessão. A compreensão do cliente na sua complexidade, como também o desenvolvimento de uma sensação de 'nós' (o terapeuta e o cliente como uma equipe unida com objetivos e tarefas compartilhados) pode ser promovida pelas emoções positivas que o terapeuta sente no seu trabalho com o cliente. Por outro lado, terapeutas relatam que as vivências positivas contribuem para o desenvolvimento de novos recursos pessoais e profissionais, incluindo a Evandro Borges 76 expansão do repertório de técnicas terapêuticas, melhor regulação das emoções e um melhor sentimento de conexão com o cliente. O Modelo de Emoção em psicologia positiva De acordo com Gross (2008), o modelo típico de emoção utilizado pela psicologia positiva pressupõe que uma emoção é evocada por uma situação que exige atenção, tem um significado particular para a pessoa e desencadeia um conjunto de respostas que se encontram programadas em redes neurais ou armazenadas em esquemas mentais. Sendo assim, a emoção é vista como um programa engatilhado por um evento em que informações passam por um processamento automático. Um exemplo de modelo típico é o modelo cognitivo de Leventhal, amplamente utilizado durante as últimas décadas do século XX, sendo representativo de uma tendência geral na literatura empírica sobre emoções (SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). No modelo de Leventhal (1982), um esquema emocional é uma estrutura da memória que organiza e guia o processamento de novas informações e a recuperação das informações já armazenadas durante vivências anteriores. O modelo contém três diferentes níveis de processamento de informação. São eles: (I) Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 77 imagens e sequências que fizeram parte de vivências de uma emoção; (II) comportamentos expressivos e padrões de resposta autônomos que caracterizam essa emoção; e (III) regras conceituais e proposições sobre como se deve reagir nas situações que evocam essa emoção. A vivência de uma emoção é entendida como o efeito da ativação de tal esquema por informação subjetivamente relevante em função das necessidades, dos objetivos e das suposições da pessoa. Gross (2008) critica o modelo cognitivo de Leventhal por apresentar a emoção como um processo retilíneo e mecânico. O autor afirma que a vivência emocional é muito mais flexível e sujeita à intencionalidade. Envolve sistemasde resposta coordenados e maleáveis. A pessoa que está sentindo a emoção não é passiva. Ela direciona e maneja a emoção através de cinco famílias de regulação emocional, seriam elas: (I) seleção da situação: a pessoa procura entrar em situações (e evitar outras) que forneçam certa emoção; (II) modificação da situação: o indivíduo muda a situação que evoca a emoção; (III) distribuição estratégica da atenção: consiste em mudar o foco para alterar o impacto emocional da situação; (IV) mudança cognitiva: elaborar o significado da situação de modo que a vivência emocional seja alterada; e (V) modulação da resposta: o indivíduo reage de maneira diferente a uma emoção, resultando em Evandro Borges 78 uma vivência diferente. Ainda de acordo com Silvestre e Vandenberghe (2013), as estratégias de regulação descritas por Gross deixam a emoção como algo interativo e moldável. Emoção versus Ação Frederickson (1998 apud SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013) tentou identificar as tendências de ação de cada emoção positiva. Frederickson apontou que o interesse promove exploração e envolvimento. O contentamento inclui uma tendência para integrar vivências. O amor, por sua vez, amplia os repertórios de curtir e interagir. A alegria inclui a tendência de participar em atividades físicas, sociais ou intelectuais. Os autores perceberam que as tendências de ação ligadas a cada emoção positiva são amplas e difusas, enquanto as ligadas às emoções negativas são específicas. A falta de especificidade dos efeitos pode ofuscar as funções adaptativas que as emoções positivas possuem. Frederickson e Levenson (1998) investigaram o uso de emoções positivas experimentalmente. Em um destes experimentos, participantes assistiram a imagens que induziram ao medo, o que foi corroborado pelo relato deles e pela constatação de uma ativação cardiovascular intensa. Em seguida foram dispostos aleatoriamente em Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 79 quatro grupos para assistir a um de quatro filmes que evocavam: contentamento, diversão, tristeza e um era neutro. Comparando os grupos, pôde-se notar que os que viram os filmes positivos apresentaram uma retomada significativamente mais rápida dos níveis prévios de atividade cardiovascular. No segundo estudo, os participantes foram expostos a um filme eliciador de tristeza. A maioria deles sorriu espontaneamente, pelo menos uma vez, enquanto assistia a esse filme. Quem sorriu apresentou recuperação mais rápida dos níveis prévios de ativação fisiológica. Esses resultados apontam que emoções positivas combatem efeitos tóxicos de emoções negativas ao restaurar o equilíbrio do organismo (SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). Frederickson et al. (2000 apud SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013) verificaram que o efeito descrito acima é resultado da positividade e não da eliminação do estressor. Primeiro, obtiveram, por indução de ansiedade, uma resposta cardiovascular de estresse. Em seguida, uma parte dos participantes assistiu a filmes que suscitaram emoções brandas de contentamento, divertimento, ou tristeza; e outra parte, a um filme emocionalmente neutro. Outros participantes receberam, depois da indução da resposta de estresse, instruções para relaxar e esvaziar a mente de todos os pensamentos, sentimentos e memórias. De acordo com os autores, a Evandro Borges 80 indução das emoções positivas brandas acelerou o retorno para o estado fisiológico de repouso, enquanto o relaxamento e os filmes neutro ou triste não tiveram esse efeito. Posteriormente, os participantes que viram os filmes que evocaram emoções positivas mostraram capacidade de atenção significativamente ampliada num teste de processamento de informação visual. Esse efeito foi confirmado numa replicação por Frederickson e Branigan (2005). Segundo Frederickson e Branigan (2005), emoções positivas ajudam a pessoa a dar um passo atrás e a considerar os problemas em diferentes perspectivas. Os autores avaliaram que elas podem, com mais facilidade, ver o contexto maior. Assim podem visualizar mais possibilidades, o que aumenta a tendência de construção abstrata (por exemplo, focando o aspecto "por que" de um ato, em vez do aspecto mais concreto "como"). Também ajuda a investir a pôr em prática objetivos que a pessoa construiu numa forma abstrata (Labroo e Patrick, 2009 apud SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). A consolidação dos efeitos das emoções em longo prazo De acordo com pesquisas de Frederickson (2001 apud SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013), as emoções positivas promovem o engajamento em Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 81 atividades com outras pessoas, a exploração de novos assuntos e aprofundam relações interpessoais. Desta forma, a pessoa acumula novas aprendizagens e constrói redes sociais. Estes recursos, observam os autores, ajudarão a superar momentos difíceis e a crescer no futuro. Desse modo, as emoções positivas contribuem para a construção da resiliência. A consolidação das mudanças em longo prazo é considerada o efeito de um movimento em espiral. Frederickson cogita, por exemplo, que as emoções positivas ajudam indivíduos a entrar em espirais positivos, envolvendo relações causais recíprocas entre as emoções positivas de um lado e a ampliação de repertórios do outro. Evandro Borges 82 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 83 Capítulo 7 Autoconsciência, autocompaixão e autocuidado Autoconsciência Segundo Goleman (2001 apud CONSTANTINO, 2010), a máxima “conhece-te a ti mesmo”, do filosofo Sócrates, é um importante conceito de inteligência emocional, que é a consciência de nossos sentimentos no momento exato em que eles ocorrem. Esse processo, afirma o autor, é denominado de autoconsciência, pois é a Evandro Borges 84 permanente atenção ao que estamos sentindo internamente, numa atitude auto reflexiva, que a mente observa e investiga o que está vivenciando, incluindo as emoções. Para Goleman, a diferença entre estar arrebatado por um sentimento e ter a consciência de estar sendo arrebatado pelo mesmo, é a diferença entre apenas viver as emoções ou tomar consciência das mesmas. Por isso, assinala Constantino (2010), “a importância de tomar consciência das emoções quando elas ocorrem”. Autoconsciência seria, portanto, a atenção permanente ao que estamos sentindo internamente. O autor defende que a mente humana possui uma capacidade de auto reflexão, que observa e investiga o que está sendo vivenciado, incluindo as emoções. Essa autoconsciência dependeria, no entanto, do neocórtex ativado, sobretudo as áreas da linguagem, sintonizado para identificar e nomear as emoções despertadas. A autoconsciência, de acordo com o autor, não é uma atenção que se deixa levar pelas emoções, reagindo com exagero e amplificando o que se percebe. Ao contrário, “é um modo neutro, que mantém a auto reflexividade mesmo em meio a emoções turbulentas” (GOLEMAN, 2001 apud CONSTANTINO, 2010). Goleman observa ainda que os indivíduos tendem a adotar estilos para acompanharem e lidarem com suas emoções. O autor define tais indivíduos como: Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 85 Autoconscientes, o que os caracteriza como conscientes de seus estados de humor e clareza de suas emoções. E essa consciência, ressalta o autor, administra as emoções do indivíduo, pois são autônomas, tornando-os conscientes de seus próprios limites, proporcionando uma boa saúde psicológica e uma perspectiva positiva sobre a vida. Mergulhadas, pessoas imersas em suas emoções e incapazes de fugir das emoções e estados de humor, como se fossem controladas por elas,instáveis, sem consciência dos próprios sentimentos de modo que se perdem neles, sem controle emocional. Resignadas, pessoas capazes de perceber os estados de humor e suas emoções, mas sem a intenção de modificá-las. Dessa forma, a autoconsciência emocional é a base deste aspecto da inteligência emocional: ser capaz de estar atento às emoções e estados de humor, e ser capaz de dissipar as emoções perturbadoras e humores negativos. Para Weisinger (2001 apud CONSTANTINO, 2010, "autoconsciência é o monitorar-se e observar-se em ação. Mas pressupõe um conhecimento prévio de si. Evandro Borges 86 Compreender o que o faz agir como age, o que importante pra si, a maneira de experimentar as coisas, o que quer como se sente e se dirige aos outro". Portanto, assinalam os autores, esse conhecimento subjetivo a respeito da natureza de sua personalidade não apenas orienta sua conduta, mas fornece subsídios sólidos para que possamos fazer escolhas melhores. Já o conceito de "autoconhecimento” ou “auto percepção”, segundo Goleman, é o primeiro componente da inteligência emocional. E constitui-se de uma profunda percepção das próprias emoções, pontos fortes e fracos, necessidades e impulsos. Indivíduos com alto nível de autoconhecimento não mostram-se excessivamente críticos, nem têm expectativas irreais. São, em vez disso, francos consigo mesmos e com os outros. “Quem possui elevado nível de autoconhecimento sabe o efeito que seus sentimentos têm sobre si mesmo, sobre as outras pessoas e sobre seu trabalho (GOLEMAN, 1999, p. 69)". A percepção das emoções, segundo Primi (2006 apud CONSTANTINO, 2010), abrangeria desde a capacidade de identificar emoções em si, em outras pessoas e em objetos ou condições físicas, até a capacidade de expressar essas emoções e as necessidades a elas relacionadas, e ainda, a capacidade de avaliar a autenticidade de uma expressão emocional, detectando sua veracidade, falsidade ou tentativa de manipulação. De Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 87 acordo com Goleman (2001), a autoconsciência é um dos aspectos fundamentais da inteligência emocional, e tem haver com saber o que se sente no momento em que as emoções acontecem. Para o autor, a autoconsciência é importante porque permite ao individuo conhecer-se, possibilitando a ele também, conhecer e reconhecer seus sentimentos e emoções no exato momento em que emergem. Conforme Primi (2006 apud CONSTANTINO, 2010), conhecimento emocional inclui, desde a capacidade de nomear as emoções, englobando a capacidade de identificar e nomear diferenças e nuances entre elas, como por exemplo, gostar e amar, até a compreensão de sentimentos complexos, como amar e odiar uma mesma pessoa, bem como as transições de um sentimento para outro, como a de raiva para a vergonha, por exemplo. Na opinião de Goleman (2001), a autoconsciência significa uma profunda compreensão de nossas próprias emoções, bem como de nossas possibilidades, limites e valores. As pessoas dotadas de autoconsciência são realistas, pois não pecam pelo excesso de autocrítica e nem por nutrirem esperanças ingênuas (CONSTANTINO, 2010). Autocompaixão Segundo Gilbert (2005 apud NEVES, 2011), autocompaixão implica, estar aberto, atento e sensível ao Evandro Borges 88 nosso próprio sofrimento, quando, por exemplo, este surge em situações de fracasso ou adversidades, não o evitando, mas recebendo-o abertamente, experienciando assim, sentimentos de cuidado e bondade para conosco. Implica também abrir mão dos autojulgamentos e a adoção de uma postura compreensiva perante a nossa experiência, aceitando nossas limitações, imperfeições e dificuldades, contextualizando-a e reconhecendo-a inevitavelmente, assim, como fazendo parte da generalidade de uma experiência humana comum, em que muitos outros também agem da mesma forma, passam pelos mesmos sofrimentos e sofrem como nós (Neff, 2003b, 2004, 2008; Neff, Rude, et al., 2007 apud NEVES, 2011). Levantamentos feitos por Neves (2011) demonstram que pesquisas de Gilbert, Irons e Procter, (2004, 2006), verificaram através de registos de diários relativos à autocompaixão versus autocríticas, num contexto terapêutico focado no desenvolvimento de autocompaixão, que um aumento das capacidades de autocompaixão estava ligado a uma diminuição de depressão, ansiedade, vergonha, sentimentos de inferioridade e comportamento submisso. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 89 Neff (2003a apud NEVES, 2011) introduziu o conceito de autocompaixão na psicologia ocidental, baseando-se em referencial teórico e empírico da psicologia social e da personalidade, desenvolvendo uma escala para o medir, de forma a estabelecê-lo como um construto psicológico válido que influenciasse o bem- estar psicológico. De acordo com Neff, autocompaixão define-se como uma atitude para conosco, saudável e de auto aceitação, representando uma postura calorosa e de aceitação perante aspectos de nós mesmos e de nossa vida, dos quais não gostamos, mantendo as emoções dolorosas sob uma atenção consciente enquanto ampliamos sentimentos de cuidado e de bondade para conosco. De acordo com Neff (2003a, 2003b, 2008 apud NEVES, 2011) a autocompaixão é composta por três componentes, que apesar de distintos, interagem entre si: Compreensão (versus autocrítica); Condição humana (versus isolamento); Atenção Plena (mindfulness) versus (sobre- identificação). O construto da autocompaixão, afirma Neves (2011), foca-se assim, na postura emocional que o Evandro Borges 90 indivíduo tem perante si quando confrontado com dificuldades. Ela seria útil também na regulação emocional, favorecendo a saúde mental e o bem-estar. Neff, Rude, et al., (2007 apud NEVES, 2011) verificaram que o conceito de autocompaixão está negativamente associado com o auto criticismo, com a depressão, com a ansiedade, com a ruminação, com a supressão de pensamento, com o perfeccionismo neurótico e com a afetividade negativa em geral. O termo em inglês "self- pity", traduzido como autopiedade ou autocompaixão é amplamente associado a fatores negativos. No entanto, os autores salientam que, pelo contrário, a autocompaixão estaria positivamente ligada à satisfação com a vida, felicidade, inteligência emocional, conectividade social, sabedoria, iniciativa pessoal, otimismo, curiosidade e exploração, agradabilidade, extroversão, responsabilidade e afetividade positiva em geral. Desta forma, a autocompaixão, por sua importância para a saúde mental dos indivíduos demonstra ser uma características humana de extrema relevância. A Teoria do Autocuidado De acordo com Diógenes e Pagliuca (2003), a Teoria de Enfermagem do Déficit de Autocuidado ou Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 91 Teoria Geral de Enfermagem de Orem, é composta de três teorias interrelacionadas, ou seja, a do autocuidado, do déficit de autocuidado e do sistemas de enfermagem. Para efeito de aplicação na psicologia, adentraremos na teoria do autocuidado. O conceito de Capacidade de Autocuidado serviu de base para a elaboração da “Appraisal of Self-care Agency (ASA) Scale”, que foi adaptada e validada à cultura brasileira por Silva; Kimura (2002), sendo denominada Escala para Avaliar as Capacidades de Autocuidado (EACAC). De acordo com os autores, a estrutura das Capacidades de Autocuidado está representada por três subconceitos, são eles: 1) disposições e capacidades fundamentais; 2) componentes de poder; 3) operações de autocuidado, que constituem o limite entre as capacidades e ações de autocuidado. Se fosse viável ordená-las quanto à sua formação e desenvolvimento em um triângulo, poderia ser dito que as capacidades fundamentais estão nabase, as operações de autocuidado no ápice e os componentes de poder localizados como uma ponte entre ambas (OREM, 2001). Conforme assinalam Diógenes e Pagliuca (2003), para se entender a teoria do autocuidado é necessário definir os conceitos relacionados, como os de Evandro Borges 92 autocuidado, ação de autocuidado, fatores condicionantes básicos e demanda terapêutica de autocuidado. “Autocuidado é a atividade que os indivíduos praticam em seu benefício para manter a vida, a saúde e o bem estar. Ação de autocuidado é a capacidade do homem engajar-se no autocuidado. Fatores condicionantes básicos são idade, o sexo, o estado de desenvolvimento, o estado de saúde, a orientação sociocultural e os fatores do sistema de atendimento de saúde (FOSTER, BENETT e OREM, 2000 apud DIÓGENES e PAGLIUCA, 2003).” Incorpora-se ainda na teoria do autocuidado o conceito dos requisitos de autocuidado: universais, desenvolvimentais e desvio de saúde. De acordo com Diógenes e Pagliuca (2003), os requisitos universais são comuns aos seres humanos, auxiliando-os em seu funcionamento, estão associados com os processos da vida e com a manutenção da integridade da estrutura e do funcionamento humano. Os requisitos desenvolvimentais, assinalam os autores, ocorrem quando há a necessidade de adaptação às mudanças que surjam na vida do indivíduo. Os requisitos por desvio de saúde acontecem quando o indivíduo em estado patológico necessita adaptar-se a tal situação. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 93 Segundo Orem (1995 apud DIÓGENES e PAGLIUCA, 2003) os requisitos para o autocuidado por desvio de saúde são: busca e garantia de assistência médica adequada; conscientização e atenção aos efeitos e resultados de condições e estados patológicos; execução de medidas prescritas pelo médico e conscientização de efeitos desagradáveis dessas medidas; modificação do autoconceito (e da autoimagem) na aceitação de si como estando num estado especial de saúde; aprendizado da vida associado aos efeitos de condições e estados patológicos, bem como de efeitos de medidas de diagnósticos e tratamentos médicos, num estilo de vida que promova o desenvolvimento contínuo do indivíduo. Os requisitos de autocuidado, de acordo com os autores são: manutenção e ingesta suficiente de ar, água e alimento; a provisão de cuidados com eliminação e excreção; manutenção de um equilíbrio entre atividade e descanso, entre solidão e interação social; a prevenção de riscos à vida, ao funcionamento e ao bem-estar humano; a promoção do funcionamento e desenvolvimento humano, em grupos sociais, conforme o potencial humano, limitações humanas conhecidas e o desejo de ser normal. Evandro Borges 94 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 95 13 Em sua versão original, o instrumento acima inclui, sem domínio algum, 24 itens aos quais as pessoas atribuem valor em uma escala Likert, que vai de um a cinco pontos. As opções de escolha são: discordo totalmente, discordo, nem concordo nem discordo, concordo e concordo totalmente. As respostas tomam um valor mínimo de 24 e máximo de 120 pontos. Quanto maiores os escores, melhores serão as capacidades de 13 Silva, J. V.; Kimura, M. Adaptação Cultural e Validação do Instrumento de Capacidades de Autocuidado “Appraisal of self-care agency scale”. Trabalho de Pesquisa. (Doutorado em Enfermagem) – Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. Evandro Borges 96 autocuidado da pessoa que responde à escala. As formas utilizadas para a sua administração foram entrevista estruturada e questionário sob as modalidades auto administrada e aplicação assistida. Com o objetivo de facilitar a interpretação dos escores, a escala original foi transformada, durante o processo de validação, por decisão do profissional estatístico, em escala de 0 a 100 pontos, conforme sugere McDowell, Newell (1996). Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 97 Capítulo 8 Felicidade em Psicologia Positiva O termo felicidade possui muitas conotações e definições, a maioria delas faz menção a um estado emocional positivo, com sentimentos de bem-estar e prazer. O Dicionário Houaiss da língua portuguesa (2004) define felicidade como: “1. qualidade ou estado de feliz, estado de uma consciência plenamente satisfeita, satisfação, contentamento, bem-estar; 2. boa fortuna, sorte; 3. bom êxito, acerto, sucesso”. De acordo com Ferraz (2007), até o advento da filosofia socrática acreditava-se que a felicidade dependia Evandro Borges 98 dos deuses. Essa concepção de felicidade imperou durante muitos séculos e em diferentes culturas. A autora ressalta que no século IV a.C, Sócrates inaugura um paradigma a partir do qual buscar ser feliz seria uma tarefa de responsabilidade do indivíduo, debatendo sobre a felicidade e pregando que a filosofia seria o caminho que conduziria a essa condição. Aristóteles, assinala a autora, continua a investigação de Sócrates, concluindo que todos os outros objetivos perseguidos pela humanidade, como a beleza, riqueza, saúde e o poder, eram meios de se atingir a felicidade, sendo esta última a única virtude buscada como um bem por si mesma. Com o advento do Iluminismo, a concepção de mundo no Ocidente começa a girar em torno da crença de que todo ser humano tem o direito de atingir a felicidade. “Na mesma linha, o ideário da Revolução Francesa estabelece que o objetivo da sociedade deve ser a obtenção da felicidade de seus cidadãos (Csikszentmihalyi, 1990; McMahon, 2006 apud FERRAZ, 2007, p.235)”. Segundo Lunt (2004 apud FERRAZ, 2007), a felicidade é considerada um valor tão precioso e indiscutível na atualidade que, como um exemplo emblemático, podemos citar a Declaração de Independência dos EUA, que registra que “todo homem Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 99 tem o direito inalienável à vida, à liberdade e à busca da felicidade”. Ekman (1992 apud FERRAZ, 2007) afirma que a felicidade é uma emoção básica. E que diversos estados e experiências podem produzir felicidade, como o amor, a alegria, a saúde, a saciedade, o prazer sexual, o contentamento, a segurança e a serenidade. Segundo os autores, emoções como tristeza, medo, raiva e nojo, além de estados afetivos como ansiedade, angústia, dor e sofrimento, costumam diminuir a felicidade. Cloninger (2004 apud FERRAZ, 2007) considera que “felicidade” é a expressão que traduz a compreensão coerente e lúcida do mundo, de acordo com o autor, a felicidade autêntica requer uma maneira coerente de viver, e ara tanto, isso incluiria todos os processos humanos que regulam os aspectos sexuais, materiais, emocionais, intelectuais e espirituais da vida. Cloninger afirma que tais aspectos podem ser adaptativos ou não, a depender do grau de consciência que as pessoas têm de seus objetivos e valores. Afirma, ainda, que o grau de coerência dos pensamentos e relacionamentos humanos pode ser medido em termos de quanto estes seriam capazes de conduzir à harmonia e à felicidade CLONINGER, 2004 apud FERRAZ, 2007. P.236). Evandro Borges 100 Segundo Carvalho et al. (2014), referir o que significa a felicidade implica revelar a própria visão da vida. E Boiron (2001 apud CARVALHO et al., 2014) descreve a felicidade em 6 alíneas: 1) é um estado fisiopsicológico que caracteriza o bom funcionamento do organismo; 2) é acessível a todos os seres humanos; 3) é independente do prazer ou do sofrimento; 4) leva a uma realização pessoal; 5) a procura da felicidade é uma dever ético, e ; 6) tudo isto depende daquilo em que o sujeito acredita ser a sua felicidade.A teoria da Felicidade Autêntica de Seligman (2004) sustenta que a felicidade possui três dimensões: emoções positivas, engajamento e significado com a vida. Emoções positivas, de acordo com o autor, significa vivenciar uma vida agradável, remete à existência de emoções positivas no passado, presente e futuro. Emoções positivas sentidas no passado incluem no sujeito uma satisfação e sentimentos de serenidade. No presente inclui prazeres somáticos momentâneos e prazeres mais complexos que incluem outras aprendizagens e, no futuro, sentimento de otimismo, esperança e fé. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 101 A segunda dimensão, segundo o autor, significa um envolvimento com a vida, englobando o desenvolvimento das capacidades humanas, como um meio para atingir os objetivos que o sujeito idealiza como sendo importantes para si. Valores morais, liderança, bondade, integridade, originalidade, sabedoria, capacidade para amar e ser amado são alguns dos exemplos de competências que podem ser desenvolvidos nos sujeitos (Seligman, 2004 apud CARVALHO et al. 2014). A terceira dimensão trata da existência de uma vida com significado, que pode ser expressa por emoções positivas, incluindo traços de personalidade positivos de orientação na vida. (Seligman, 2004 apud CARVALHO et al. 2014). Após reformular sua teoria original da Felicidade Autêntica, Seligman (2011) substitui o termo felicidade pelo constructo de bem-estar, acrescentando cinco elementos essenciais, que são: emoções positivas, que seriam expressas por estados de felicidade e pela satisfação com a vida, o engajamento ou envolvimento, significado, realização pessoal e relações interpessoais positivas. Desta forma o indivíduo seria capaz de florescer e atingir o máximo de bem-estar (Huppert & So, 2009; 2013). Evandro Borges 102 Para Seligman (2011) felicidade é um constructo. Portanto, a classificação do conceito de felicidade propõe um conjunto de elementos que cada ser humano necessita ter presente em sua vida, e que são essenciais para alcançar o bem-estar (DURAYAPPAH, 2010 apud FERRAZ). Obstáculos ao aumento do nível de felicidade Seligman (2004) afirma que um dos obstáculos ao aumento do nível de felicidade é a “rotina hedonista”, que faz com que as pessoas se adaptem rapidamente e de forma inevitável às coisas boas, vendo-as como naturais. O autor observa que com o acúmulo de bens materiais e de realizações, as expectativas aumentam. Desta forma, os feitos conquistados tão arduamente não trazem mais felicidade, levando o sujeito a desejar alcançar algo ainda melhor, para elevar a felicidade até os níveis mais altos dos limites estabelecidos. Seligman observa, no entanto, que o indivíduo também vai se adaptando aos novos bens materiais ou realizações. De acordo com Seligman (2004), estudos demonstraram que coisas boas e realizações importantes têm o poder de aumentar a felicidade apenas Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 103 temporariamente. O autor argumenta que se não fosse assim, pessoas que têm mais coisas boas na vida seriam, em geral, muito mais felizes do que as que têm menos. Mas as menos afortunadas, sugere o autor, são, de modo geral, tão felizes quanto as mais afortunadas. Seligman observa ainda 6 pontos importantes sobre felicidade e sua relação com o bem-estar: 1. Em menos de três meses, eventos importantes, como uma demissão ou uma promoção, podem perder o impacto sobre os níveis de felicidade. 2. De acordo com o ator, a riqueza, que certamente traz com ela bens materiais, tem uma correlação surpreendentemente baixa com o nível de felicidade. Os ricos são, em média, apenas ligeiramente mais felizes que os pobres. 3. Estudo de Séligman (2004) apontam que os salários aumentaram bastante nas nações prósperas nos últimos 50 anos, mas o nível de satisfação com a vida manteve-se o mesmo nos Estados Unidos e na maioria dos outros países ricos. Evandro Borges 104 4. Mudanças recentes no salário do indivíduo são motivo de satisfação no trabalho, mas os níveis médios de salário, não, sustenta o autor. 5. A beleza física, que, como a riqueza, traz com ela uma série de vantagens, não teria muito efeito sobre a felicidade, afirma Seligman. 6. E ainda segundo o autor, a saúde física, talvez o mais valioso de todos os recursos, tem pouquíssima relação com a felicidade. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 105 Capítulo 9 O Relatório Mundial da Felicidade (World Happiness Report) Em julho de 2011 a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, por meio de sua Assembleia Geral, uma resolução convidando os países membros a medirem a felicidade de seus habitantes e usar os dados para ajudar em suas políticas públicas. Em abril de 2012, houve a primeira Reunião de Alto Nível da ONU sobre a "Felicidade e Bem-Estar: Definindo um Novo Paradigma Econômico". A reunião foi presidida por Jigme Thinley, Evandro Borges 106 primeiro-ministro do Butão, o primeiro e único país que até então havia adotado oficialmente a felicidade interna bruta, ao invés do produto interno bruto, como seu principal indicador de desenvolvimento. O Relatório Mundial da Felicidade (World Happiness Report) é uma medição da felicidade publicado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU (SDSN, na sigla em inglês). O primeiro Relatório Mundial da Felicidade foi lançado em 1 de abril de 2012 como material base para a reunião. Ele chamou a atenção internacional por ser a primeira pesquisa sobre a felicidade global. O relatório descrevia o estado de felicidade mundial, as causas da felicidade e da miséria, e as implicações políticas destacadas por estudos de caso. Em setembro de 2013, o segundo relatório apresentou a primeira continuação anual e, desde então, os relatórios passaram a ser emitidos todos os anos. A pesquisa utiliza dados do Gallup World Poll. Cada relatório anual está disponível para o público no site World Happiness Report. Nos relatórios, principais especialistas de várias áreas, como economia, psicologia, análise de pesquisa, estatísticas nacionais, entre outros. Descrevem como as medições de bem-estar podem ser efetivamente usadas para avaliar o progresso das nações. Cada relatório está organizado por capítulos, que se aprofundam nas Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 107 questões relacionadas à felicidade, incluindo doenças mentais, benefícios objetivos da felicidade, a importância da ética, implicações políticas e as ligações com a abordagem da OECD para mensurar o bem-estar subjetivo e o Índice de Desenvolvimento Humano. 14 Antecedentes O mundo mudou muito desde a publicação do primeiro Relatório Mundial da Felicidade em 2012. Constatou-se um aumento notável da consideração da felicidade como uma medida adequada do progresso social e um objetivo das políticas públicas. Um número rapidamente crescente de governos nacionais e locais está a utilizar a informação e a investigação sobre a felicidade na definição de políticas que permitam às pessoas ter uma vida melhor. Os governos estão a medir o bem-estar subjetivo e a utilizar a pesquisa sobre o bem-estar para orientar o design de espaços públicos e a prestação de serviços públicos. 14 World Happiness Report 2016 Updatep. 4, para. 1 cap. "2: The Distribution of World Happiness“. 2016. Evandro Borges 108 Aproveitamento da informação e da investigação sobre a felicidade para melhorar o desenvolvimento sustentável. O ano de 2015 representou um ponto positivo para a humanidade, com a adoção, pelos Estados-membros da ONU,de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que ajudem a conduzir a comunidade mundial para um padrão de desenvolvimento global mais inclusivo e sustentável. É muito provável que os conceitos de felicidade e bem-estar ajudem a orientar o progresso para um desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento sustentável é um conceito normativo, que requer que todas as sociedades equilibrem os seus objetivos econômicos, sociais e ambientais. De acordo com o relatório, quando os países procuram o crescimento do PIB de forma desproporcionada, atropelando os objetivos sociais e ambientais, os resultados têm frequentemente impactos negativos no bem-estar humano. Os ODS foram pensados para ajudar os países a atingir seus objetivos econômicos, sociais e ambientais de forma harmoniosa, levando-os, portanto, a proporcionar níveis mais elevados de bem- estar para as gerações presentes e futuras. Os ODS incluem metas, objetivos e indicadores quantitativos. A Rede de Soluções de Desenvolvimento Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 109 Sustentável, nas suas recomendações relativas à seleção de indicadores de ODS, recomendou vivamente a inclusão de indicadores de Bem-estar Subjetivo e de Atitude Positiva para ajudar a orientar e medir o progresso na consecução dos ODS. Encontramos considerável apoio de diversos governos e especialistas para a inclusão desses indicadores de felicidade nos ODS. O Relatório Mundial da Felicidade 2015 destaca uma vez mais a idoneidade da utilização da medição da felicidade para orientar a definição de políticas públicas e para ajudar a avaliar o bem-estar geral de cada sociedade. 15 ANEXO I - Relatório Mundial da Felicidade - Ranking 2016 15 World Happiness Report 2016 Update. UN Sustainable Development Solutions Network; Earth Institute (University of Columbia), 2016. Evandro Borges 110 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 111 Capítulo 10 Definição e medição de Florescimento Florescimento De acordo com Leite et al. (2016), as definições de florescimento presentes na literatura apontam para um estado de pleno desenvolvimento humano, caracterizado por elevada saúde mental, bem-estar e contribuição genuína. “A perspectiva do florescimento é baseada nas teorias humanísticas que abordam as exigências psicológicas, como as necessidades por competência, afinidade e auto aceitação” (MENDONÇA et al., 2014, p. 173 apud LEITE et al. 2016). Para Fredrickson e Losada 2005 (apud LEITE et al. 2016) “Florescer significa viver dentro de uma faixa ideal de funcionamento humano, que conota bondade, amadurecimento, crescimento e resiliência”. A Mental Health Foundation of New Zealand (2013) descreve o florescimento pessoal como um estado de saúde mental positiva, que permita ao indivíduo ampla experiência e significado. Dessa forma, pessoas que Evandro Borges 112 florescem experimentam, na maior parte do tempo, emoções positivas e funcionamento psicológico e social positivos. Isso significa, em termos filosóficos, acesso à uma vida boa e agradável, engajada e com significado. As pessoas em estado de florescimento teriam uma visão positiva de si e dos outros, com determinada predisposição a preocuparem-se mais com as demais pessoas que as rodeiam, serem menos tolerantes com a injustiça e mais promotores de instituições justas e equitativas. (MENTAL HEALTH FOUNDATION OF NEW ZEALAND, 2013 apud LEITE et al. 2016). Segundo Leite et al. (2016), estudos apontam diversos benefícios dos indivíduos que estão florescendo, como a capacidade de efetivamente aprender, trabalhar de forma produtiva, ter melhores relações sociais, mais suscetibilidade a contribuir para a sua comunidade, ter uma melhor saúde e expectativa de vida. Huppert e So (2009 apud LEITE, 2016) apresentam um conjunto de recursos básicos e um número mínimo de recursos adicionais com relação ao florescimento. Os recursos básicos incluem emoções positivas, engajamento, interesse, significado e propósito. Já os recursos adicionais são autoestima, otimismo, resiliência, vitalidade, autodeterminação e relações Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 113 positivas. Já na correlação entre florescimento e trabalho, destaca-se a pesquisa de Harter, Schmidt e Keyes (2003 apud LEITE, 2016), “que afirmam que a maior parte do tempo de um adulto é passada no trabalho e que ele é parte significante da vida do ser humano, afetando sua vida e bem-estar social”. De acordo com Mendonça et al. (2014 apud LEITE, 2016) o trabalho é um dos mais importantes bens na vida do ser humano e está diretamente relacionado ao florescimento. Isto se justificaria por ser o ambiente de trabalho um espaço que possibilita envolvimento com colegas, trabalho e a organização, vivência de relações sociais satisfatórias, trocas sociais favoráveis, desenvolvimento de competências, otimismo em relação ao futuro, propósito e significado na vida. Para Seligman (2004) as diferenças de gênero com relação ao florescimento são pequenas. O autor afirma que o maior florescimento estaria associado ao ensino superior e à renda. Evandro Borges 114 A Escala de Florescimento Diener et al. (2010 apud Becalli, 2014) apresentaram uma medida de florescimento. Trata-se de uma escala que pretende complementar as medidas existentes de bem-estar subjetivo de maneira a avaliar a prosperidade psicossocial com base nas teorias existentes acerca do bem-estar psicológico e social. Inicialmente denominada como sendo uma escala de bem-estar psicológico, teve sua nomenclatura alterada para Escala de Florescimento, de forma a revelar com maior precisão o que permite avaliar, uma vez que vai além do bem-estar psicológico, ressaltam os autores. De acordo com Becalli (2014), a Escala de Florescimento (Flow Scale), desenvolvida por Diener, Wirtz, Tov, Kim-Prieto, Choi, Oishi, & Biswas-Diener (2010); versão traduzida por Baptista, 2011), foi concebida com o objetivo de avaliar a prosperidade psicossocial e complementar outras escalas de avaliação do bem-estar subjetivo, mas tendo por base o conceito de florescimento humano. De acordo com os autores, a escala consiste em uma breve autoavaliação, é composta por oito itens formulados numa direção positiva e com formato de resposta numa escala tipo Likert de 7 pontos que varia de 1 (Discordo totalmente) a 7 (Concordo Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 115 fortemente). Também avalia aspetos do funcionamento humano que vão desde as relações sociais, autoestima, significado e propósito na vida, formando uma única dimensão, fornece um resultado total de bem-estar psicológico, que pode variar entre 8 (forte desacordo com todos os itens) e 56 (forte concordância com todos os itens). “A escala possui boas qualidades psicométricas demonstrando uma forte associação com outras escalas de bem-estar psicológico (Diener et al., 2010 apud BECALLI, 2014)”. ANEXO II – Estrutura da Escala de Florescimento Evandro Borges 116 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 117 Capítulo 11 A descoberta do Flow As contribuições do Dr. Mihaly Csikszentmihalyi Mihaly Csikszentmihalyi (Pronuncia-se Mirrale Chics sent-mirrai (1934). É um psicólogo húngaro- americano, renomado professor de ciências sociais da Peter Drucker School of Business, na Claremont University. Foi ele quem nomeou e investigou flow, o estado de gratificação em que entramos quando nos concentramos completamente noque estamos fazendo. É também professor de Psicologia e Gestão na Claremont Graduate University, ex-chefe do Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago e do Departamento de Sociologia e Antropologia da Lake Forest College. Fundador e co-diretor do Centro de Pesquisa de Qualidade de Vida (QLRC - Quality of Life Research Center). Atualmente a Divisão de Ciências Comportamentais e Organizacionais (DBOS) da Claremont Graduate University oferece um programa de Doutorado em Psicologia Positiva através do QLRC, instituto de pesquisa sem fins lucrativos que realiza Evandro Borges 118 pesquisas sobre uma ampla gama de questões de ponta em psicologia positiva, também fornece um fórum para pesquisadores de todo o mundo, com o objetivo de estender suas pesquisas e estudos em psicologia positiva. A biografia do Dr Mihaly é surpreendente, quando criança, ficava surpreendido ao observar que, mesmo sob o horror da Segunda Guerra Mundial, algumas pessoas utilizavam sua coragem para ajudar o próximo e eram capazes de dar direção e sentido às suas vidas. Após mais de trinta anos de estudos, o autor mantém a convicção de que, seja qual for a atividade que uma pessoa esteja exercendo, como por exemplo, esportes, trabalho braçal, intelectual ou artístico, o sentimento batizado por ele como “flow” (fluxo ou fluidez em português), é registrado quando há total envolvimento e satisfação com o que está sendo feito. A capacidade de discernir o que nos proporciona o fluxo é também a possibilidade de alcançar a sabedoria de viver plenamente, ressalta o autor. 'A descoberta do fluxo' parte de uma reflexão ao mesmo tempo simples e profunda do Dr. Mihaly: “se não assumirmos a direção de nossa vida, ela será controlada pelo mundo exterior para servir a propósitos alheios” 16 . 16 Andrade, Elisson. Finanças & comportamento: Coletânea de artigos. 2016. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 119 Ele alerta para o fato de que não podemos esperar que alguém nos ajude a viver. E no entanto, precisamos descobrir uma forma de como fazer isso por conta própria. A solução proposta pelo autor baseia-se na possibilidade do auto desafio, com tarefas que exijam alto grau de habilidade e comprometimento. Trabalhos mais recente do Dr. Mihaly estão concentrados no estudo da motivação. Ele enfatiza que pessoas que estão intrinsecamente motivadas lutam menos com a procrastinação e são mais propensas a estarem altamente motivadas. A Teoria do Flow (Fluxo) A teoria do Flow surgiu a partir de estudos do Dr. Mihaly Csikszentmihalyi. De acordo com Weinberg e Gould (2001, p. 158), ela representa uma inovação nos estudos sobre motivação intrínseca. Pesquisas envolvendo essa teoria evoluíram significativamente em países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Itália, Japão e Austrália, porém, no Brasil, há ainda poucos estudos. O conceito de flow é derivado do estudo de atividades que Csikszentmihalyi considerou substancialmente motivantes, ou seja, que proporcionam prazer por meio de suas realizações, levando o indivíduo a Evandro Borges 120 um estado de profundo envolvimento e a ter um sentimento intenso de alegria e satisfação pessoal. Para Csikszentmihalyi (1988, 1992, 1999), o flow acontece em condições específicas, quando a atenção está totalmente focada na atividade e sentimentos, desejos e pensamentos estão completamente alinhados. As pesquisas identificaram oito elementos que definem essa experiência: equilíbrio entre desafio e habilidade; metas claras e retorno (feedback); concentração total na atividade e no momento presente; fusão entre ação e consciência; sensação de controle; perda da autoconsciência; perda da noção do tempo e experiência autotélica. Iremos tratar da Experiência Autotélica mais adiante. De acordo com Massarella e Winterstein (2009), quando as pessoas refletem sobre o que sentem após vivenciarem uma experiência muito positiva, elas mencionam pelo menos um desses oito elementos: 1) Equilíbrio entre desafio e habilidade: há um equilíbrio entre o desafio com o qual o sujeito está envolvido e sua capacidade de responder a ele de forma adequada (Figura 1). Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 121 Figura 1. Relação entre nível de desafio/ habilidade e flow. (adaptado de CSIKSZENTMIHALYI, 1992, p. 113). 2) Metas claras e retorno (feedback) das ações: clareza sobre o objetivo a ser atingido, conhecimento das regras, do que é necessário fazer para que a atividade ocorra com sucesso. Ter indicadores efetivos sobre como está sendo o desempenho na tarefa. 3) Concentração total na atividade e no momento presente: o foco da atenção está totalmente na tarefa e no presente, não é desperdiçada energia psíquica para processar informações que não sejam pertinentes à Evandro Borges 122 realização da atividade. Sobre concentração, o professor Helder Kamei, um dos pioneiros no estudo de Flow e Psicologia Positiva no Brasil, ressalta que na vida cotidiana, raramente concentramos nossa atenção além de um nível muito breve. Para o autor, somos constantemente distraídos e nossa atenção salta de um estímulo para outro. Entretanto, o Dr. Kamei (2010) observa que na experiência de flow, os desafios são suficientemente altos para absolver o máximo de nossas habilidades. Desta forma, para que o indivíduo possa atingir o estado de flow é necessário que ele concentre toda a sua atenção na atividade que estiver realizando, sem desperdiçar nenhum recurso atencional para processar qualquer informação relevante. Por exemplo: se um maratonista começar a pensar sobre qualquer outra coisa enquanto estiver percorrendo um trecho difícil de um determinado percurso da competição, ele poderá perder a concentração e ser ultrapassado. 4) Sentimento de ‘fusão’ entre ação e consciência: Neste ponto, os autores ressaltam que o envolvimento na atividade é por vezes tão intenso que as ações parecem transcorrer quase que de maneira automática, de forma totalmente espontânea e natural, o indivíduo deixa de se perceber como distinto das ações que realiza. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 123 5) Sensação de controle: no flow, afirmam os autores, há uma certa sensação de controle sobre a situação, sem que haja, necessariamente uma preocupação efetiva com isso. Há, segundo eles, uma satisfação em exercer o controle sobre si mesmo em situações difíceis ou complexas. 6) Perda da autoconsciência: tal fenômeno ocorre, segundo os autores, quando a percepção que temos de um self, o que eles definem como sendo a soma dos conteúdos da consciência, tais como lembranças, ações, desejos, prazeres e dores, bem como a hierarquia de metas que construímos ao longo de nossas vidas, separado do mundo à nossa volta, deixa de existir. Desta forma, quando estamos profundamente envolvidos ou conectados uma determinada atividade, assinalam os autores, podemos ter um sentimento de união com as pessoas, coisas ou o ambiente à nossa volta. 7) Sentimento de distorção ou perda da noção da passagem do tempo: ainda de acordo com as pesquisas realizadas pelos autores, determinadas pessoas descreveram uma certa desorientação temporal, ou perda da noção da passagem do tempo. Eles observaram que em alguns relatos, determinados indivíduos afirmaram ter tido a sensação de que o tempo passou muito rápido, Evandro Borges 124 enquanto outros relataram que se passou muito mais tempo do que de fato ocorreu. 8) Sentimento de viver uma experiência autotélica: segundo Csikszentmihalyi (1992, p. 103) e Kamei (2010), “o elemento fundamental de uma experiência máxima, ou flow, é que ela tem um fim em si mesma”. Portanto, ressaltam,mesmo que a princípio uma determinada experiência seja efetuada por outras razões, a atividade que nos absorve, torna-se um fim em si mesma. Massarella e Winterstein (2009) também observaram que o resultado de vivenciar o flow é a percepção de uma “experiência autotélica”, capaz de proporcionar um profundo sentimento de prazer e satisfação, o fato de estar naquele determinado local e poder realizar a atividade é a recompensa. Dos oito elementos, assinalam os autores, três deles sendo o equilíbrio entre desafio e habilidade; metas claras e retorno (feedback); concentração total na atividade e no momento, podem ser entendidos como elementos necessários para que o flow ocorra. Os demais, como fusão entre ação e consciência; sensação de controle; perda da autoconsciência; perda da noção do tempo e experiência autotélica, podem ser interpretados como consequências, ou mesmo como percepções da ocorrência Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 125 do estado mental. Essa divisão, ressaltam, visa facilitar a compreensão do fenômeno e a análise de dados no estudo em questão. Csikszentmihalyi (1999) destaca ainda que atividades esportivas são potencialmente geradoras do estado de fluxo. Segundo o autor, nelas estão presentes todos os elementos necessários para que o flow ocorra. Constituem atividades que prendem nossa atenção, possuem metas claras, fornecem feedback e representam desafios que devem ser respondidos à altura com determinadas capacidades ou habilidades. No entanto, outras atividades cotidianas são capazes de proporcionar um estado de flow. Embora nem todas as dimensões do flow necessariamente precisem estar presentes para que seu estado seja atingido, Csikszentmihalyi (1988) afirma que a precondição universal consiste em o indivíduo saber que há algo que ele tem que fazer, e que ele é perfeitamente capaz de fazê-lo. Um exemplo claro disso é aprender a nadar ou andar de bicicleta. No início sentimos medo, mas ao adquirirmos a independência de dar as primeiras pedaladas ou braçadas na água, automaticamente nos remete a um estado de "experiência máxima". Evandro Borges 126 Em outras palavras, experimentamos o máximo de nossa capacidade. Porém, com o passar do tempo, andar de bicicleta já não nos garante as mesmas experiências de flow, mesmo que praticar atividades físicas elevem nossas experiências de bem-estar. Se você dirige automóveis, deve se lembrar da alegria de quando aprendeu a guiar um automóvel, talvez até tenha experimentado um estado de flow durante os primeiros 100 metros dirigindo. Agora eu pergunto se você consegue sentir a mesma sensação ao acordar pela manhã e enfrentar o trânsito para chegar ao trabalho, consegue? Pois bem, particularmente, raramente eu consigo. E isso se deve ao fato de que o estado de flow depende de experiências novas e que nos motivem a testar nossos limites e habilidades. Para Kamei (2010), as habilidades do indivíduo devem estar totalmente envolvidas em superar um desafio que está no limiar de sua capacidade de controle. Quando isso ocorre, afirma o autor, o indivíduo vivencia um estado de flow. Porém, observa Kamei, se as habilidades forem maiores que os desafios, o indivíduo entrará no estado de tédio. Para retornar ao estado de flow, de acordo com o autor, o indivíduo terá que aumentar o nível dos desafios. Em contrapartida, se os desafios forem maiores que as habilidades percebidas, o indivíduo Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 127 entrará em estado de ansiedade, observa. “Nesse caso, para retornar ao estado de flow, a pessoa terá que aumentar suas habilidades, ou então diminuir o nível dos desafios (KAMEI, 2010)." Exemplos Práticos de Estados de Flow / Fluxo17 Exemplo 1: “Quando completei 18 anos fui morar sozinha em outra cidade. Lá eu conheci um rapaz na faculdade, pelo qual me apaixonei perdidamente. Após 6 meses de namoro, descobri que estava gravida. Quando contei a ele, disse que eu estava louca, me chamou de irresponsável e em seguida me largou. Eu estava longe de minha família e receosa de contar aos meus pais. E quando meu pai soube, ficou muito revoltado e disse-me para assumir as consequências de minhas escolhas. Felizmente, consegui um emprego e guardei minhas economias durante 9 meses até o nascimento do bebê. Então ela nasceu, uma menina linda e saudável a quem dei o nome de Vitória. Você pode imaginar o que passei para conseguir cuidar dessa criança sozinha, sem ter ninguém da família para 17 Andrade, Elisson. Finanças & comportamento: Coletânea de artigos. 2016. Evandro Borges 128 ajudar? Encontrei dentro de mim uma mulher que não conhecia, descobri que era forte e capaz. E esse evento, sem dúvidas, foi uma das maiores realizações de minha vida. E apesar das dificuldades que passei, lembrome dessa época com muita alegria. Hoje sou uma médica e mãe de 3 filhos, Vitória, Cauã e o pequeno Victor. (Rebekka - *Nome Fictício).” Exemplo 2: “Sempre fui um aficionado por esportes radicais. E algo que marcou profundamente minha vida foi escalar o Monte Everest. Foram anos de trabalho duro para financiar a viagem e comprar os equipamentos para a escalada. Durante um ano, foquei nos treinos físicos de resistência. Eu sabia que não seria fácil e não queria que nada desse errado. Finalmente chegara o grande dia. E estava ali diante do gigante Everest. Porém, nas primeiras horas de escalada senti uma profunda falta de ar. Meu corpo não estava mais respondendo aos meus comandos. Pensei em desistir, em voltar atrás. Com a ajuda de amigos, armei minha barraca e dormi em meio a uma noite extremamente fria. Comecei a lembrar de todo o esforço que havia feito para estar ali, das coisas que abri mão. No dia seguinte, retomei a escalada rumo ao topo. E Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 129 lá chegando, senti uma das maiores sensações de felicidade do mundo! (Robert - *Nome Fictício).” Exemplo 3: “Durante a crise econômica de 2016 os negócios de minha empresa declinaram em 80%. Eu estava trabalhando apenas para cobrir os custos e pagar os funcionários. A maioria deles está na empresa há bastante tempo, somos praticamente uma família, mas o momento era difícil para todos nós. Minha autoestima estava no nível mais baixo de todos, por pouco não entrei em depressão. Pensei em fechar a empresa, então resolvi marcar uma reunião para definirmos um possível acordo sobre as demissões. Me vi surpreso quando, em meio a reunião, todos decidiram optar pela redução dos próprios salários para ajudar a empresa a se reerguer. Felizmente superamos a crise e os negócios voltaram a fluir. Todos estão engajados e ainda mais unidos. O espírito de equipe superou as dificuldades. Hoje valorizamos nosso trabalho cada vez mais. (Maik - *Nome Fictício)” Evandro Borges 130 Vejamos agora os pontos em comum nos exemplos citados: ESFORÇO PROATIVIDADE SUPERAÇÃO CORPO E MENTE LEVADOS AO EXTREMO CONDIÇÕES ADVERSAS FOCO E CONCENTRAÇÃO CONTROLE CONSCIENTE DOS ATOS > FOCO EXPERIÊNCIA ÓTIMA> CONTROLE DO PRÓPRIO DESTINO Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 131 Prazer versus felicidade FELICIDADE ESTÁ ASSCOCIADA A REALIZAÇÃO E INOVAÇÃO NO PRIMEIRO EXEMPLO NÃO HOUVERAM APENAS ATIVIDADES PRAZEROSAS. ATIVIDADES QUE PROPORCIONAM PRAZER SÃO IMPORTANTES PARA A VIDA, MAS PRAZER NEM SEMPRE PRODUZ CRESCIMENTO PESSOAL. DE ACORDO COM A TEORIA DO FLUXO, PRAZER NÃO EXIGE INVESTIMENTO EM CONCENTRAÇÃO E ENERGIA. PRAZER PODE SER ADQUIRIDO SEM MUITO ESFORÇO, BASTA QUE DETERMINADA ÁREA DO CÉREBRO SEJA ATIVADA. EXEMPLO: COMER DOCES PRAZER É PASSAGEIRO E NÃO AGREGAVALOR LOGO, PRAZER É PASSAGEIRO E NÃO PROPORCIONA FELICIDADE DURADOURA. Evandro Borges 132 O Estado de fluxo: CONTROLE DA CONSCIÊNCIA = PODER DE TRANSFORMAÇÃO ENTRAR EM ESTADO DE FLUXO É UMA OPÇÃO, UMA ESCOLHA BASTANDO OFERECER AS CONDIÇÕES BÁSICAS PARA TAL: FOCO, CONCENTRAÇÃO E ENERGIA MOMENTOS DEDICADOS A ALGUMA ATIVIDADE EM QUE NADA MAIS PARECE INTERESSAR. NÃO SE NOTA QUE O TEMPO PASSOU. O TEMPO PARECE “PARAR”. ALGUNS REQUISITOS PARA O FLUXO: > ATENÇÃO > ENERGIA IMPORTÂNCIA DAS PRIORIDADES Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 133 Diagrama do Estado De Fluxo 18 18 Diagrama que representa as principais sensações do indivíduo na realização de uma atividade até que possa atingir o estado de Flow. Fonte: CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. Flow: The psychology of optimal performance. 1990. p.74) Evandro Borges 134 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 135 Capítulo 12 Fluxo versus Homeostase Homeostase, dos termos gregos homeo, "similar" ou "igual", e stasis, "estático", é a condição relativa de estabilidade da qual o organismo necessita para realizar suas funções adequadamente para o equilíbrio do corpo. Em se tratando de seres vivos, é a propriedade de um sistema aberto, de regular o seu ambiente interno, de modo a manter uma condição estável mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico, controlados por mecanismos de regulação inter-relacionados. Este fenómeno foi descrito pela primeira vez por Claude Bernard, em 1859, que afirmou que todos os mecanismos vitais, por mais variados que sejam, não têm outro objetivo além da manutenção da estabilidade das condições do meio interno. Em 1929, tal fenômeno foi estudado por Walter Cannon, que chamou essa estabilidade de homeostase. 19 19 Sperelakis, Nicholas; Freedman, Jeffrey C.; Ferguson, Donald G. Biophysical Chemistry of Physiological Solutions. Cell Physiology Sourcebook. A Molecular Approach. 3ª ed. San Diego, California: Academic Press. (2001) p.3. Evandro Borges 136 Exemplo 1: Exemplo 2: Exemplo 3: Mary resolve anotar todos os assuntos importantes para a prova. Ela quer reservar os fins de semana para estudar. Passadas três semanas, Mary desiste. Paulo tomou a decisão de ser um marido mais atencioso. Ele chega em casa mais cedo, passa mais tempo com a família, ajuda com os afazeres domésticos, junta as meias e toalhas molhadas e já não vai mais ao futebol com os amigos com tanta frequência. Após um mês, Paulo nem percebeu que voltou a fazer as mesmas coisas de sempre. Paulo desistiu da mudança. Júlia foi ao médico e descobriu que estava com colesterol de alto risco. Júlia decidiu fazer uma dieta rigorosa. Na primeira semana ela malha duas horas por dia, evita refrigerantes e doces e adota uma alimentação saudável. Após uma briga com o namorado, tem uma crise de estresse e joga tudo para o alto. Ela desistiu. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 137 Pontos em comum nos exemplos: TENTATIVA DE MUDANÇA ABRUPTA DESISTÊNCIA APÓS UM INTERVALO DE TEMPO ELES ACREDITAM SER FALTA DE “FORÇA DE VONTADE” HOMEOSTASE: TENDÊNCIA DOS SISTEMAS BIOLÓGICOS EM RESISTIR A MUDANÇAS (BUSCA DE ESTABILIDADE) INCONSCIENTEMENTE, NOSSO CORPO RESISTE A MUDANÇAS; CONCEITO DE HOMEOSTASE SOCIAL: NORMAS, COSTUMES, PUNIÇÕES; DEVIDO À HOMEOSTASE: PESSOAS SE ACOMODAM E ACEITAM AS COISAS COMO ELAS SÃO. Evandro Borges 138 Referências 20 21 20 Csikszentmihalyi, Mihaly. A descoberta do fluxo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. 21 Andrade, Elisson. Finanças & comportamento: Coletânea de artigos. 2016. MUDANÇAS EXIGEM: • Compreender a homeostase; • Negociar com as próprias resistências do corpo, família, sociedade; • Evitar mudanças abruptas. MARY: “NUNCA VOU CONSEGUIR ESTUDAR”. JÚLIA: “NÃO CONSIGO FAZER DIETA.” PAULO: “MINHA SINA É SER ASSIM.” ACEITAR O FRACASSO É MAIS CÔMODO E MUDAR PERDE SUA FORÇA. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 139 Como obter maiores experiências de Fluxo Agora que já discorremos sobre a Teoria do Fluxo, é hora de entendê-la na prática aplicada do dia-a-dia, mas como nos foi mencionado anteriormente, quando atingimos um estado de fluxo, estamos tão envolvidos com o momento ou a atividade em questão, que simplesmente não nos damos conta. Deixe-lhe dizer algo sobre o estado de fluxo, é algo pessoal, mas certamente você também já o experimentou. Durante algum tempo estive trabalhando como voluntário em um projeto comunitário. Eu fazia parte de uma equipe de psicólogos de um projeto de plantão psicológico para pessoas de baixa renda. O local era distante de minha residência e eu precisava atravessar a cidade todos os fins de semana, onde passava a tarde inteira em atendimento. Se você é psicólogo clínico e faz atendimento em consultório, deve saber da importância de se usar um relógio de pulso, mas o fato é que eu não usava. E o motivo pelo qual eu não usava era simples, eu não me preocupava em como estava passando o tempo naquele local, eu simplesmente não percebia o tempo passar, com exceção dos momentos em que olhava para o relógio da parede para me certificar de que haviam decorrido 50 minutos de atendimento. Em suma, dedicava-me ao máximo em cada atendimento e procurava dar o meu melhor. Curiosamente, ao término Evandro Borges 140 dos plantões, voltava para casa sentindo-me leve como uma pluma. E foi durante esse intervalo de tempo que descobri que ser psicólogo era algo que verdadeiramente fazia sentido para mim, experimentei o efeito auto realizador do estado de "flow". E aqui vão algumas dicas de como obter mais experiências de fluxo. 22 Procure por desafios. Escolha algo que você goste de fazer. Pode ser qualquer coisa, como ler, escrever um livro, andar de bicicleta, assistir uma nova série de TV, fazer parte de um projeto voluntário e assim por diante. Desenvolva suas habilidades a fim de ser capaz de enfrentar o desafio. Lembre-se que se algo é muito fácil você poderá sentir tédio. E um dos efeitos do tédio é fazer a mente vagar de forma que venha a se distrair com outras atividades. Procure por atividades que exijam que suas habilidades sejam levadas ao limite. 22 Fabrega, Marelisa. How To Enter the Flow State. Daring to Live Fully. 2016 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 141 Defina metas claras. Você precisa ser claro sobre o que quer alcançar e sobre como saberá que estará sendo bem-sucedido(a) em seus desafios. Por exemplo: Ao estudar para um concurso público, procure responder questões de provas anteriores e, com base no seu desempenho você saberá se está obtendo resultados em seus estudos. Concentre-se completamente com a atividade que estiver realizando. Procure eliminar toda e qualquer distração, de forma que esteja plenamente focado(a). Certifique-se de que você reservou tempo suficiente para a atividade. Não existe um tempo determinado para se entrar em estado de flow, mas é muito provável que isso ocorra no momento em que você estiver concentrado(a). De qualquer forma, ao sentir- se imerso(a) em uma atividade, aproveite-a ao máximo sem a preocupação de ser interrompido(a). Monitore o seu estado emocional. Se você atender a todos os requisitos acima, mas ainda assim tiver dificuldades para entrar no estado de flow, não se preocupe. Procure monitorizar o seu estado emocional. Irritação,ansiedade e preocupações tiram Evandro Borges 142 toda a nossa atenção. Procure fazer algo relaxante, como estar na companhia de amigos, caminhar ou ouvir música. Finalmente, entregue-se. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 143 Capítulo 13 Introdução ao conceito de Engajamento De acordo com Seligman (2011), engajamento significa entregar-se completamente, sem se dar conta do tempo, e perder a consciência de si mesmo durante uma atividade envolvente. O engajamento, de acordo com o autor, é um dos caminhos para o florescimento. O autor destaca ainda que uma vida vivida com esses objetivos seria uma “vida engajada”. O engajamento, segundo Seligman, é algo diferente e até mesmo o oposto de uma emoção positiva, pois quando perguntamos às pessoas que se entregam a uma atividade o que estão pensando e sentindo, elas geralmente dizem: “Nada”, assinala o autor. A questão, embora complexa, pode ser compreendida facilmente se levarmos em consideração um pequeno detalhe, no engajamento nós nos fundimos com o objeto, ou seja, com a atividade em si. Seligman observa, por exemplo, que a atenção concentrada exigida pelo engajamento consome todos os recursos cognitivos e Evandro Borges 144 emocionais que formam nossos pensamentos e sentimentos (SELIGMAN, 2011). Para Seligman, não há atalhos para o engajamento. O autor assegura que, ao contrário, o indivíduo deve empregar suas forças pessoais e talentos para se envolver com o mundo, mas ressalta que existem atalhos fáceis para que o indivíduo possa sentir uma emoção positiva, e que há uma diferença entre uma emoção positiva e o engajamento em si. Os termos ‘engagement’ em inglês, ou ‘engajamento’ em português, no âmbito da psicologia positiva, não se resumem apenas a envolvimento, mas a um estado de profundo envolvimento com determinada atividade, em dado momento. Por exemplo: Alguém que esteja profundamente envolvido em uma partida de xadrez durante horas, sem se dar conta do tempo, pode estar engajado psicologicamente. A este fenômeno dá-se o nome de “Estado de Fluxo” ou “Estado de Flow”, como vimos anteriormente. O engajamento, bem como uma emoção positiva, é um elemento que só pode ser avaliado subjetivamente. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 145 Por exemplo: Para Seligman (2011), emoções positivas e engajamento são as duas categorias distintas dentro da teoria do bem-estar da psicologia positiva. Para o autor, os fatores são mensurados apenas subjetivamente. Ele classifica uma emoção positiva como um elemento hedônico ou aprazível, que abrange todas as variáveis subjetivas do bem-estar, como prazer, êxtase, conforto, afeição e outras afins. Para o autor, o pensamento e o sentimento estão geralmente ausentes durante o estado de engajamento, ou seja, quando estamos profundamente envolvidos em algo, só podemos dizer, por exemplo, que “Você teve a sensação de que o tempo parou?” “Ficou completamente absorvido pela tarefa?” “Perdeu a consciência de si mesmo?” Evandro Borges 146 uma atividade foi extremamente divertida, ou que um passeio por uma trilha foi maravilhoso, de uma perspectiva retrospectiva. Em outras palavras, enquanto o estado subjetivo para o prazer está no presente, o estado subjetivo para o engajamento é apenas retrospectivo, assinala. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 147 De acordo Seligman, a emoção positiva e o engajamento atendem facilmente aos três critérios para serem considerados elementos do bem-estar: 3) são mensurados independentemente do restante dos elementos. (2) as pessoas buscam essas coisas por elas mesmas e não necessariamente para obter qualquer um dos outros elementos (eu quero essa massagem nas costas mesmo que ela não traga nenhum sentido, nenhuma realização e nenhum relacionamento); (1) a emoção positiva e o engajamento contribuem para a formação do bem-estar; Evandro Borges 148 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 149 Capítulo 14 Engajamento nas Organizações Engajamento no Trabalho Em tempos globalizados onde gerenciar grandes ou pequenas organizações exige cada vez mais eficiência, a psicologia positiva tem se tonado peça chave no gerenciamento de recursos humanos. E embora Maslow seja referência no assunto, com a introdução da Teoria das Necessidades adaptada por diversos psicólogos às organizações, a teoria do engajamento tem ganhado cada vez mais espaço. Para Bakker e Leiter (2010 apud RODRIGUES et al., 2015), as organizações buscam, por meio de seus níveis de gerenciamento, manter um grupo de colaboradores engajados no trabalho, pois esses tendem, ressaltam os autores, a dedicarem-se mais à empresa e às tarefas apresentando melhores resultados. O engajamento no trabalho, portanto, estaria relacionado à satisfação advinda de uma grande carga de energia direcionada a uma atividade na qual o indivíduo se identifique. Em outras palavras, um indivíduo que desempenhe uma Evandro Borges 150 determinada função ou cargo com o qual sinta-se envolvido, motivado e realizado tende a engajar-se com maior facilidade, mesmo que isso exija um grande esforço. Para Schaufeli et al., (2002), o fenômeno estaria relacionado a um estado mental ligado a três dimensões: Vigor: considerando o ambiente de trabalho, o vigor estaria relacionado à energia empregada nas atividades executadas. Outros fatores importantes relacionados ao vigor seriam a persistência, os esforços e a vontade de empenhar-se em cada projeto ou atividade. Dedicação: estaria relacionada aos sentimentos de afeição e consideração em alto grau, quando da realização das tarefas. Um outro fator relevante seria a sensação de prazer pelo trabalho à medida que o indivíduo o vê como desafiador e carregado de significados. Absorção: seria a sensação de deleite para com o ambiente e as próprias dinâmicas da atividade profissional. Fenômeno em que colaborador se vê tomado por um sentimento de elevação e acaba por ter dificuldades em se separar das tarefas. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 151 Para Mowday, Steers e Porter (1979, p. 225 apud RODRIGUES et al., 2015), um outro fator estudado foi o comprometimento organizacional afetivo, estado no qual um indivíduo se identifica com uma organização particular e com seus objetivos, desejando manter-se afiliado a ela com vista a realizar tais objetivos. Já o fator bem-estar no trabalho estaria ligado à organização, ao vínculo afetivo do trabalhador para com a empresa e da consciência do que esta empresa representa positivamente para ele. A satisfação no trabalho, afirma Locke (1976), é um estado emocional positivo ou de prazer, resultante de um trabalho ou de experiências de trabalho. Tal estado emocional seria, no entanto, um fator particular do indivíduo em relação às realidades que envolvem suas atividades, inclusive, quando da falta delas, tais como o chefe, colegas, satisfação em relação à remuneração, oportunidades de ascensão e atividades desenvolvidas. Já o bem-estar no trabalho estaria relacionado à predominância de emoções positivas no desempenho das atividades diárias, ao mesmo tempo em que o colaborador “vê que o exercício de suas competências e habilidades profissionais colaboram para os resultados pessoais” (PASCHOAL, 2008 apud RODRIGUES et al., 2015). Evandro Borges 152 O envolvimento com o trabalho, de acordo com Lodahl e Kejner, (1965), diz respeito ao grau em que o desempenho de um colaborador, noexercício de suas atividades, afeta sua autoestima, ou ao grau em que as tarefas desempenhadas pelo colaborador são importantes e envolventes para ele. “Há também uma relação deste envolvimento com os conflitos oriundos das funções organizacionais e as orientações divergentes” (SIQUEIRA e GOMIDE JR., 2004; RODRIGUES et al.,, 2015). Em suma, estar engajado profissionalmente significa entregar-se completamente, sem se dar conta do tempo e perder a consciência de si mesmo durante uma atividade envolvente. O engajamento é algo diferente, até oposto de uma emoção positiva, pois as pessoas não percebem as emoções que estão sentindo durante uma atividade engajada, elas se envolvem a ponto de fundirem- se com o objeto da atividade. Não há atalhos para o engajamento. O indivíduo precisa empregar suas forças pessoais e talentos para se envolver com o mundo. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 153 Capítulo 15 Identificando determinantes de satisfação com a vida De acordo com Celinska e Olszewski, (2013), o tema satisfação com a vida já foi objeto de estudo de diversos pesquisadores, como os de Kahneman (1999), Graham e Pettinato (2001) e Grochowska e Strawinski (2012). A autora observou que nestes estudos o fator renda foi um dos determinantes mais expressivos da satisfação com a vida, mas afirma que, contudo, os resultados das pesquisas sobre o fator renda tendia a estar em contradição, dependendo da técnica de análise utilizada e outras variáveis incluídas no modelo. Todavia, ressalta Celinska, a renda é um fator que geralmente tem um impacto positivo na satisfação com a vida, o que pôde ser constatado nos estudos de Seghieri et al., (2006) e Deaton (2008). Celinska e Olszewski, (2013) afirma também que alguns pesquisadores concluíram que pode haver um impacto reverso de ambas as variáveis, o que significa que pessoas mais satisfeitas ganham mais (Diener et al., 2002; Graham et al., 2004). De acordo com Ferrer-iCarbonell e Frijters (2004 apud Celinska e Olszewski, 2013), a renda Evandro Borges 154 em si pode até não ser um determinante de felicidade, mas é um fator que significativo de satisfação para pessoais com maiores ganhos. Já a percepção da própria situação financeira pode ser ainda mais significativa na determinação da satisfação com a vida, apontam estudos de Johnson e Krueger (2006). A maioria das pesquisas também mostrou correlação positiva entre educação e satisfação, ou seja, o aumento dos níveis de educação têm um impacto positivo na satisfação com a vida, apontam Blanchflower e Oswald (2004). No entanto, tais fatores podem estar correlacionados com o impacto da renda, uma vez que pessoas com graus de escolaridade elevados e boa qualificação, possuem maiores chances de ocuparem postos de trabalho que ofereçam melhor remuneração. Ferrer-i-Carbonell (2005 apud Celinska e Olszewski, 2013) apontam que este fator pode também estar correlacionado com características latentes como motivação e inteligência. Os autores examinaram o impacto da educação em comparação com a renda per capita de diversos países, e chegaram à conclusão de que a o fator educação é mais significativo na determinação da satisfação com a vida em países mais pobres. O impacto do gênero na satisfação com a vida é ambíguo, afirma Celinska e Olszewski, (2013). A autora Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 155 avalia que em algumas pesquisas as mulheres apresentaram níveis mais elevados de satisfação com a vida do que os homens (Alesina et al. al., 2004). Por outro lado, estudos de Louis e Zhao (2002) não encontraram discrepâncias entre gêneros, o que sugere que o gênero em si não é um determinante de satisfação com a vida, afirma Celinska. Ainda de acordo com a autora, os níveis mais elevados de satisfação com a vida estão geralmente correlacionados com uma melhor saúde, pois proporcionaria maior entusiasmo com a vida (Shields e Price 2005 apud Celinska e Olszewski, 2013). Outra variável significativa observada pela autora foi o número de horas dedicadas a atividades sociais, que segundo ela, influenciam positivamente na satisfação com a vida. Constatou-se também, de acordo com Celinska, que populações de países que acreditam ter maior controle sobre suas vidas são mais felizes do que as que afirmaram não ter controle. O fator idade apresentou resultados ligeiramente negativos se comparados a idosos, afirma Celinska e Olszewski, (2013). Para a autora, o número de contatos sociais e o estado civil parecem demonstrar maior importância como fatores determinantes. Ela constatou que para indivíduos entre 64 e 65 anos, de ambos os sexos, os fatores determinantes foram a família, o convívio social, os amigos, o casamento, as realizações Evandro Borges 156 pessoais, a saúde e a sensação de serem amados. Para os homens, a ausência de divórcio após os 65 anos apresentou resultados positivos em comparação com as mulheres. Estudos de Cherie e Saun-Ders (1999) utilizaram o Inventário de Depressão de Beck (1988) para avaliar atitudes específicas relacionadas aos sintomas da depressão. Os resultados demonstraram que indivíduos mais afetados pelos sintomas da depressão possuem menor nível de satisfação com a vida e estão significativamente menos envolvidos em atividades sociais. Constatou-se também que as mulheres são geralmente mais ativas socialmente do que os homens, porém, tais fatores não estariam relacionados com menor intensidade de depressão. Um estudo de Rojas (2004), avaliou variáveis como saúde, fatores econômicos, trabalho, família, amigos, vida pessoal e social. Os resultados mostraram que fatores como amizade e relações sociais possuem pouca influência nos níveis de satisfação com a vida. Já o fator família teve o maior impacto, seguido, respectivamente por fatores econômicos e sociais. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 157 Capítulo 16 A felicidade e a Personalidade Autotélica No início de dezembro de 2016, em meio a Guerra Civil na Síria, na cidade de Aleppo, o mundo conheceu a identidade, até então desconhecida, de Anas al-Basha, um voluntário de 24 anos de idade que se vestia de palhaço para distrair crianças traumatizadas em meio aos intensos conflitos entre tropas militares do Governo Sírio e milícias que se opunham ao governo daquele país. Anas era membro voluntário da organização não governamental síria Space of Hope (Espaço da Esperança) e tinha se Evandro Borges 158 casado há dois meses. Ele se recusou a deixar a cidade após receber a notícia de que a mesma estava sitiada por tropas leais ao governo. Anas morreu em decorrência de bombardeios. Cerca de 30 mil civis já haviam deixado Aleppo nos últimos meses, inclusive os pais de Anas, em julho do mesmo ano. De acordo com estimativas de organizações humanitárias locais, incluindo a ONU, mais de 400 mil pessoas morreram e milhões foram obrigadas a fugir desde o início da guerra na Síria, há quase seis anos. Calcula-se que 250 mil pessoas ainda estão vivendo na cidade sitiada, das quais 100 mil são crianças. 23 24 Você deve estar se perguntando: "-Por que um título contendo a palavra felicidade começou com uma história triste?". A resposta está na história do próprio Anas. E minha intenção aqui, além de compartilhar esta história emocionante de dedicação, superação e amor à vida, foi também de demonstrar o quanto o ser humano pode ser altruísta, sensível, feliz e dedicado ao mundo em que vive, 23 Globo. G1 Internacional. "A trágica morte do palhaço que alegrava crianças em meio à guerra em Aleppo”. 24 Foto: Anas al-Basha se fantasiava de palhaço para alegrar as crianças nacidade sitiada de Aleppo (Foto: Courtesy of Ahmad al- Khatib, via AP). Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 159 independentemente das adversidades que o cercam. Talvez, o sentido da vida de Anas, a forma como se sentia feliz, realizado e motivado a viver, estivesse exatamente na razão pela qual escolheu ser voluntário e ajudar crianças. Talvez não tivesse alternativas para deixar a cidade, talvez não tenha lhe restado tempo, mas o que ele realmente fazia ultrapassava seus próprios interesses pessoais. Anas perdeu a vida fazendo o que amava. E isso, involuntariamente, na maioria das vezes, é a maneira pela qual as pessoas dão sentido às suas vidas, são estados de fluxo que ultrapassam a barreira do que é meramente compreensível. 25 Quando indagado sobre quais realizações em sua vida tinha mais orgulho, o famoso físico Freeman John Dyson afirmou: Suponho que foi apenas ter criado seis filhos, e feito deles, pelo que posso ver, pessoas interessantes. Acho que é disto que tenho mais orgulho, realmente (CSIKSZENTMIHALYI, 1999). E o ganhador, em duas ocasiões do Prêmio Nobel (de Química em 1954 e da Paz em 1962), o cientista norte-americano Linus Pauling, entrevistado aos 89 anos, 25 Csikszentmihalyi, Mihaly. A descoberta do fluxo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. Evandro Borges 160 deu a seguinte resposta ao ser questionado sobre o que faria da vida perto de completar 90 anos: Acho que nunca me sentei e me perguntei, o que vou fazer da minha vida, agora? Eu simplesmente continuo fazendo o que gosto. Se você se dedica seriamente a seu trabalho, perde a noção do tempo, fica completamente enlevado, totalmente dominado pelo que está fazendo... Quando trabalha em algo que gosta e trabalha bem, você tem a sensação de que não há outra maneira de dizer o que está sentindo (CSIKSZENTMIHALYI, 1999). Exemplos como estes, afirma Lima (2010), nos fazem refletir sobre como passamos nossos dias, o que nos dá prazer, como nos sentimos quando comemos, assistimos à televisão, trabalhamos, dirigimos ou saímos com nossos amigos. Tomando como base uma extensa pesquisa mundial sobre questões como estas, o Dr. Mihaly argumenta que muitas vezes consumimos nossos dias inconscientes e sem contato com nossas emoções. Por causa dessa desatenção, constantemente oscilamos entre dois extremos: durante a maior parte do dia estamos imersos na ansiedade e nas pressões do trabalho Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 161 e das obrigações e, nos momentos de lazer, tendemos a viver no tédio passivo. 26 A palavra “autotélica” vem do grego “auto”, “relativo ao próprio indivíduo”, e “telos”, que significa “finalidade”. Desta forma, uma vida autotélica seria aquela realizada por si mesma, tendo a experiência como meta principal. Por exemplo, se um indivíduo joga poker porque aprecia a inteligência das jogadas, então suas partidas são experiências autotélicas, mas se joga por dinheiro ou para alcançar um alto nível competitivo no nas rodas de poker, então o mesmo jogo torna-se “exotélico”, isto é, motivado por uma finalidade externa. Quando aplicado a uma personalidade, o termo autotélico denota um indivíduo que geralmente faz as coisas por si mesmas, sem se preocupar com metas externas posteriores. Dessa forma, o indivíduo possuidor de uma personalidade autotélica é desprendido de excesso de bens materiais, entretenimento, conforto, poder ou fama, porque o que ele faz já é gratificante o bastante. Ele poderá, contudo, adquirir bens materiais, ter entretenimento, desfrutar de conforto, alcançar poder e fama, mas todos estes fatores serão advindos das 26 Lima, Jerônimo. Resenha: A descoberta do fluxo, de Mihaly Csikszentmihalyi – Valores Reais. 20 de jun de 2010. Evandro Borges 162 consequências de sua alegria ou prazer pelo que faz, do modo como vive e se relaciona com o mundo, ou seja, não serão metas pré-estabelecidas. E uma vez que estes indivíduos experimentam o fluxo no trabalho, na vida familiar, na interação com os outros, quando comem e até mesmo quando ficam sozinhos, sem ter o que fazer, são menos dependentes das ameaças e recompensas externas que mantêm a maioria das pessoas motivadas a prosseguir com uma vida composta por rotinas tediosas e sem significado. Assim, são mais autônomos e independentes porque se envolvem mais com tudo ao seu redor, estão totalmente imersos nas experiências da vida. É necessário, no entanto, que o indivíduo leve uma vida significativa, sentir que pertence a algo maior que ele mesmo. Pessoas autotélicas que vivem imersas em experiências de fluxo, observa Csikszentmihalyi (1999), ajudam a reduzir a desordem na consciência daqueles com quem interagem, pois “quando agimos na plenitude da experiência do fluxo, também estamos construindo uma ponte de felicidade para o futuro do nosso universo”. Para o Dr. Mihaly, gastamos nosso tempo em atividades produtivas como trabalhar, estudar, falar, comer e divagar durante o trabalho; atividades de manutenção, como cuidados com a casa (cozinhar, limpar, fazer compras), dirigir ou locomover-se; e atividades de Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 163 lazer como mídia (TV e leitura), hobbies, esportes, filmes, restaurantes, conversas e contatos sociais e repouso. Segundo o autor, estes três tipos de atividades ocorrem numa proporção média de 42%, 31% e 27%, respectivamente. Partindo destes pressupostos, a vida cotidiana não seria definida apenas pelo que fazemos, mas também por aqueles com quem estamos. O significado de ‘viver’ ou ‘ter uma vida boa’ passaria a ter um novo sentido, e este sentido seria viver de maneira plena, expressando a própria individualidade, sem desperdício de tempo e potencial. De acordo com Csikszentmihalyi (1999), há três pressupostos básicos para compreendermos o sentido de viver de maneira plena. O primeiro, assinala o autor, é que profetas, poetas e filósofos vislumbraram verdades importantes no passado que são essenciais para a continuidade da sobrevivência da raça humana. Mas essas verdades, ressalta, foram expressas no vocabulário conceitual de sua época, de modo que, para que sejam úteis atualmente, seu significado precisa ser redescoberto e reinterpretado a cada geração. Por isso, os livros sagrados do Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Budismo e dos Vedas são os melhores repositórios das ideias mais importantes de nossos ancestrais, e ignorá-los é um ato de arrogância infantil, tanto quanto acreditar que tudo Evandro Borges 164 que foi escrito no passado é uma verdade absoluta e imutável. O segundo, de acordo com o Dr. Mihaly Csikszentmihalyi (1999), é que atualmente a ciência oferece as informações mais essenciais para a humanidade, expressando a “verdade científica” de acordo com a visão do mundo de sua época e, portanto mudará e poderá ser descartada no futuro. Os próprios cientistas – em especial os físicos e biólogos - hoje já acreditam, por exemplo, que, no futuro, a percepção extra-sensorial e a energia espiritual poderão nos levar à verdade sem a necessidade de teorias e experiências de laboratório. Mas também não vamos nos iludir pensando que nosso conhecimento é mais amplo e avançado do que realmente é. O terceiro, segundo o autor, é que, se desejamos compreender o que realmente seja “viver”, de fato, devemos escutar as vozes do passado e integrar suas mensagens com o conhecimento que a ciência acumula. Portanto, “vida”, observa Csikszentmihalyi (1999), significa aquilo que experimentamos, seja pelos processos químicos de nosso corpo, pela interação biológica entre os órgãos, “pelas ínfimas correntes elétricas saltandoentre as sinapses do cérebro e pela organização da informação que a cultura impõe sobre nossa mente”. Em contrapartida, a mensuração da qualidade real da vida, ou Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 165 seja, o que fazemos e como nos sentimos quanto a isso, será determinada subjetivamente por meio de nossos pensamentos e emoções, pelas interpretações que damos aos processos químicos, biológicos e sociais. Portanto, Com base em questões como essas, O Dr. Mihaly afirma que só conseguimos ser felizes à medida em que vivenciarmos experiências de fluxo, ou seja, momentos em que o que sentimos, o que desejamos e o que pensamos se harmonizam. O fluxo, observa o Dr. Mihaly, ocorre quando o indivíduo encara um conjunto claro de metas que oferecem feedback imediato sobre seu desempenho, ou seja, quando suas competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) estão totalmente envolvidas em superar um desafio que está no limiar de sua capacidade de controle. Se os desafios são altos demais, o indivíduo tende a frustrar-se, em seguida fica preocupado e, por último, ansioso. Se os desafios são baixos demais, ele fica relaxado, em seguida entediado. Um dia típico, portanto, estaria marcado por picos de ansiedade e tédio. As experiências de fluxo, afirma o autor, oferecem “lampejos de vida intensa contra esse cotidiano medíocre”. Mas, para que o fluxo ocorra, para fugirmos disso, é preciso “oscilar”. Na prática, as experiências de fluxo acontecem quando fazemos coisas diferentes do que Evandro Borges 166 estamos habituados a fazer, ou seja, quando oscilamos entre atividades rotineiras e atividades que prendam nossa atenção de maneira prazerosa. A pesquisa do Dr. Mihaly comprova que as atividades produtivas ajudam muito a melhorar nossa capacidade de concentração e nos dão um nível médio de fluxo. Já as atividades de manutenção pouco contribuem neste sentido, enquanto que as atividades de lazer são especialmente úteis para a geração de motivação e de fluxo, em especial quando praticamos nossos hobbies e esportes e um pouco menos quando conversamos com amigos, fazemos sexo e participamos de eventos de socialização. Assim, por exemplo, um executivo muito atarefado, que trabalha muito, poderia “oscilar” sua rotina praticando um pouco de meditação ou fazendo yoga, um psiquiatra poderia jogar tênis ou fazer alpinismo, um professor poderia ir mais ao cinema ou jogar futebol. Isto lhes daria maior equilíbrio no ritmo de suas ações, pensamentos e emoções. O difícil, contudo, é conseguir mudar nossos padrões de vida. Como para a maioria das pessoas o trabalho figura como parte central da vida, é essencial que esta atividade seja tão agradável e compensadora quanto possível. Para que isso ocorra, é preciso pensar e agir além do que reza a atribuição do cargo. Uma solução alternativa seria focarmos nossa atenção, uma energia psíquica adicional, a cada etapa exigida no trabalho, e Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 167 então nos perguntarmos: “-Esta etapa é necessária? Quem precisa dela? Se realmente é necessária, pode ser feita de maneira melhor, mais rápida e mais eficiente? Que passos adicionais tornariam minha contribuição em trabalho mais valiosa?” Nossa atitude para com o trabalho geralmente envolve gastar bastante tempo e esforço tentando resolver questões urgentes fazendo o mínimo possível. E isso consome recursos cognitivos que consomem uma enorme quantidade de energia. Portanto, se encontrarmos uma forma de gastarmos a mesma quantidade de atenção tentando encontrar maneiras criativas de realizarmos nossas atividades no trabalho, seremos mais bem- sucedidos e felizes. Carreiras de indivíduos criativos oferecem maiores alternativas de como moldar o trabalho segundo as próprias exigências, isto é, a maioria dessas pessoas não segue apenas uma rotina pré-estabelecida, mas reinventa seu trabalho enquanto o realiza. Além do trabalho, outra área que impacta a qualidade de vida é o tipo de relacionamento que temos. E é comum que exista um conflito entre estes dois lados, de modo que uma pessoa que ama trabalhar possa acabar por negligenciar a família e os amigos, e vice versa, uma vez que a atenção é um recurso limitado, e quando uma meta toma quase toda a energia psíquica do indivíduo, Evandro Borges 168 sobra pouco ou quase nada para as demais atividades. É como chegar em casa extremamente cansado do trabalho e não ter vontade para fazer mais nada, além de dormir ou descansar. Uma alternativa para que possamos aprender a dividir a energia psíquica é encontrarmos maneiras de equilibrar o significado das recompensas que recebemos no trabalho e nos relacionamentos. E isso parece esbarrar em dois fatores distintos, como o prazer no trabalho versus remuneração e relacionamentos versus recompensas afetivas. E muitas pessoas acabam negligenciando as recompensas afetivas por considerarem as necessidades materiais satisfeitas. O sentimento mais comum é o de que a família vai cuidar de si mesma, uma vez suprida de recursos materiais e sustento. Por exemplo, há a falsa ilusão de que o cônjuge vai continuar a ser cúmplice e a dar apoio incondicional, de que os filhos vão cuidar dos pais quando estes ficarem velhos, ou de que as conversas entre o casal e deste com os filhos continuarão para compartilhar ideias, emoções, memórias e sonhos. Em contrapartida, quando há equilíbrio entre trabalho e relacionamentos, ou seja, quando conseguimos obter experiências de fluxo em ambos os espaços, a qualidade da vida cotidiana tenderá a melhorar consideravelmente, tudo dependerá do fator adaptação. No entanto, isso exige que não desperdicemos energia Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 169 com problemas pequenos, ou seja, fáceis de se resolver. Quando estes fatores tornam-se equilibrados, podemos então, experimentar uma vida “autotélica”, ou seja, repleta de experiências de fluxo, mais digna de ser vivida do que uma vida de consumo, de entretenimento passivo, uma vida sem graça alguma. Para Scardua (2013), pessoas com personalidades autotélicas se caracterizam por usufruírem com maior frequência dos estados de fluxo nas mais diversas atividades da vida cotidiana. E por esta razão, precisam de poucos bens materiais, pouco entretenimento, pouco conforto, poder ou fama, sendo mais autônomas e independentes porque não se sentem ameaçadas ou seduzidas por recompensas externas. Ao mesmo tempo se envolvem mais com tudo ao seu redor porque estão totalmente imersas na corrente da vida. Evandro Borges 170 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 171 Capítulo 17 Autocontrole - Uma forma de superar momentos difíceis A cada dia que passa me convenço de que a capacidade de superar momentos extremamente difíceis repousa na capacidade que adquirimos de ser menos enérgicos. Isso me faz crer que quanto menos você gastar energia com problemas pequenos, mais fácil irá superar os problemas verdadeiramente grandes. Não é um ponto de vista meramente filosófico ou abstrato. E no que diz respeito a evidências, pesquisas conduzidas pelo psicólogo norte americano Roy Baumeister, da University of Queensland, têm avançado nesse sentido. Em sua mais recente publicação, “Willpower: Rediscovering the Greatest Human Strength, a Self studies, 2011 ( Força de Vontade: Redescobrindo a Maior Força Humana, um estudo sobre autocontrole)”, Baumeister constatou que as emoções se auto regulam quando aprendemos a lidar com elas de maneira mais amena. Isso não significa que devamos nos tornar frios emocionante, mas aceitarmos a instabilidade emocional como consequência da formacomo interpretamos nossos problemas cotidianos, bem como as interações com os outros. Não se pode ter total Evandro Borges 172 controle sobre os outros, mas é possível ter controle sobre si mesmo. Portanto, guarde suas energias para quando realmente for necessário. Exercitando o Autocontrole O autocontrole ou “self-control”, em inglês, é uma função central do funcionamento psíquico e uma importante chave para o sucesso na vida. Porém, o exercício do autocontrole parece depender de um recurso limitado. Assim como um músculo se cansa do esforço, os atos de autocontrole causam prejuízos de curto prazo. Tal fenômeno foi batizado de Depleção do Ego, que tem como definição, de acordo com os pesquisadores, “uma redução temporária na capacidade individual ou na vontade individual para engajar-se em uma ação intencional (incluindo o controle do ambiente, o controle do eu, tomar decisões e iniciar ações) causada por um exercício anterior de uma ação intencional” (BAUMEISTER et al., 1998, p. 1253). O Dr. Baumeister cunhou o termo “Ego Depletion”, que em português pode ser traduzido como “Depleção do Ego” ou “Esgotamento do Ego”, para explicar o fenômeno de redução de autocontrole, ou Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 173 dificuldade de manutenção do autocontrole. Tal esgotamento seria mental e, portanto, prejudicaria o indivíduo em suas metas e decisões, principalmente a longo prazo. Por exemplo, se uma pessoa passa uma semana inteira mantendo uma dieta rígida, sem consumir doces, as chances dessa pessoa sentir-se esgotada psicologicamente e abandonar a dieta seriam maiores, pois manter o autocontrole por um longo período de tempo causaria o esgotamento (Baumeister, et al., 1998). No entanto, o Dr. Baumeister e sua equipe de pesquisadores afirmam que autocontrole refere-se à capacidade de alterar as próprias respostas, especialmente para alinhá-las a padrões como ideais, valores, moral e expectativas sociais, e apoiar a busca de metas de longo prazo. Muitos escritores usam os termos autocontrole e autoregulação de forma intercambiável, mas aqueles que fazem uma distinção tipicamente consideram o autocontrole como o subconjunto deliberado, consciente e esforçado da autoregulação. Em contraste, processos homeostáticos tais como manter uma temperatura corporal constante podem ser chamados de autoregulação, mas não de autocontrole. O autocontrole permite que uma pessoa restrinja ou anule uma resposta, tornando possível uma resposta diferente (BAUMEISTER, R. F., VOHS, K. D., & TICE, D. M. 2007. p. 351). Evandro Borges 174 O tema autocontrole tem atraído a atenção crescente dos psicólogos por duas razões principais. No nível teórico, o autocontrole contém importantes chaves para a compreensão da natureza e funções do “self”. Enquanto isso, as aplicações práticas do autocontrole têm atraído o estudo em muitos contextos. O autocontrole inadequado tem sido associado a problemas comportamentais, tais como compulsão alimentar, abuso de álcool e drogas, crime, violência, gastos excessivos, comportamento sexualmente impulsivo, gravidez indesejada e tabagismo, por exemplo (Baumeister, Heatherton, e Tice, 1994 ; Gottfredson & Hirschi, 1990; Tangney, Baumeister, e Boone, 2004 ; Vohs & Faber, 2007). Os autores sugerem que o autocontrole também pode estar relacionado a problemas emocionais, falta de escolaridade, falta de persistência, várias falhas no desempenho das tarefas, problemas de relacionamento, dissolução e outros fatores. Quanto ao conceito de “self” proposto por Baumeister (1993), o autor refere-se a três experiências básicas do ser humano: 1ª) Consciência reflexiva, que é o conhecimento sobre si próprio e a capacidade de ter consciência de si; Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 175 2ª) Interpessoalidade dos relacionamentos humanos, através dos quais o indivíduo recebe informações sobre si; 3ª) Capacidade do ser humano de agir. Outro fenômeno explorado pelos pesquisadores foi a “força de vontade”. Para Gailliot et al., (2007) a glicose disponível na corrente sanguínea poderia ser convertida em neurotransmissores e, assim, fornecer combustível para a atividade cerebral. Para os autores, exercícios de autocontrole causariam reduções nos níveis de glicose no sangue, que por sua vez resultariam em um autocontrole pobre em tarefas comportamentais. Os pesquisadores identificaram que beber um copo de limonada com açúcar ajudou a neutralizar esses efeitos, presumivelmente restaurando a glicose no sangue. Já no grupo de controle, a limonada misturada com adoçante diet (sem glicose), não surtiu o mesmo efeito. No entanto, Baumeister et al., (2006) sugere que, assim como o exercício pode fazer os músculos mais fortes, há sinais de que esforços regulares de autocontrole podem aumenta a força de vontade, ou seja, embora exercitar o autocontrole com frequência possa causar esgotamento, com uma prática regular, o organismo se adaptaria, assim como um iniciante em uma academia de Evandro Borges 176 musculação se adaptaria a uma jornada de exercícios depois de alguns meses. Para os pesquisadores, estas melhorias tipicamente assumiriam uma forma de resistência ao esgotamento, no sentido de que o desempenho nas tarefas de autocontrole passariam a se deteriorar a uma taxa mais lenta. Muraven & Slessareva (2003) também constataram que pessoas que recebem recompensas ou incentivos durante o desempenho de atividades tiveram os efeitos do esgotamento neutralizados. Várias linhas de trabalho identificaram procedimentos que podem moderar ou neutralizar os efeitos do esgotamento, por exemplo, induzindo um estado de emoção positiva, como o humor, parece ter esse efeito (Tice, Baumeister, Shmueli, & Muraven de 2007). Quanto à possibilidade de interferência nas questões de comportamento inteligente, que dependem em parte do autocontrole, os pesquisadores destacam que alguns processos, como memória, são bastante automáticos e independentes do autocontrole e parecem não ser relativamente afetados pelo esgotamento. Em contrapartida, o raciocínio lógico poderia ter seu desempenho fortemente afetado quando as pessoas estão esgotadas (Schmeichel, Vohs, e Baumeister, 2003). Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 177 Processos interpessoais também parecem depender de operações de autocontrole. Richeson e Shelton (2003) argumentam que o autocontrole é necessário para discutir questões delicadas e sensíveis, e que o esgotamento poderia prejudicar um diálogo desse tipo, ou seja, as pessoas poderiam se ofender com maior facilidade. Estudos recentes indicam que a mesma energia utilizada para autocontrolar-se também pode ser direcionada para a tomada de decisões que exijam esforço (Vohs et al., 2007 ). Para os autores, isso parece corresponder ao que o senso comum entende como "livre- arbítrio", ou seja, a capacidade de substituir impulsos, se comportar moralmente, mostrar iniciativa e se comportar de acordo com escolhas racionais (Baumeister et al., 2007). Em suma, conclui-se que o autocontrole exige treino, desde que gradativo, moderado e constante, como forma de evitar o esgotamento completo e possibilitar uma adaptação, que também seria passível de melhorias mesmo em indivíduos em idade adulta. A indução de emoções positivas, como o humor, desacelerariam a taxa de esgotamento, da mesma forma que a incentivos ou recompensas. Também constatou-se que ao contrário do raciocínio lógico, a inteligência não seria afetada, e que a ingestão de glicose durante os experimentos demonstrou reduzir os efeitos do esgotamento. Evandro Borges 178 PsicologiaPositiva: uma mudança de perspectiva 179 Capítulo 18 Depressão, um olhar biopsicossocial De acordo com o Relatório Sobre a Saúde no Mundo publicado pela OMS (2001), atualmente a depressão atinge em torno de 7% da população brasileira (17 milhões de pessoas). Segundo pesquisa da IMS Health, em 2016 a venda de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceu 18,2% 27 . A OMS alerta que atualmente a depressão é a quarta causa global de incapacidade e deve se tornar a segunda até 2021. De acordo com o psiquiatra Bruno Nazar, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do King´s College, de Londres, a desinformação e o preconceito a respeito da doença parece refletir no agravamento da mesma, acarretando em danos secundários como ansiedade, síndrome do pânico, insônia e indisposição, que afetam o desempenho no trabalho e nas atividades diárias como estudar e se relacionar com outras pessoas. 27 IMS Institute For Healthcare Informatics. The global use of medicines: outlook through 2012-2016. Evandro Borges 180 Para a titular da Associação Brasileira de Psiquiatria, Dra. Evelyn Vinocur, a depressão também é uma doença psicossocial, não sendo necessariamente decorrente de fatores genéticos, que interferem no desequilíbrios de neurotransmissores do cérebro. A Dra Vinocur também afirma que de dois anos para cá, as pessoas estão muito mais estressadas, ansiosas, deprimidas, com sintomas característicos da psiquiatria, e que o cenário de um mundo globalizado, onde a informação está cada vez mais acelerada acaba contribuindo para que as pessoas fiquem mais aceleradas e, consequentemente, mais estressadas. 28 De acordo com os psiquiatras, os sintomas mais comuns são: cansaço repentino, apatia, taquicardia, insônia, hipersensibilidade, choro por qualquer coisa, medo e, aparentemente, tudo isso, sem motivo. Os psiquiatras também afirmam que doenças como diabetes e hipotireoidismo também podem estar relacionadas a determinados casos de depressão. Porém, um outro fator que me chamou a atenção foi a hipoglicemia, que se não for diagnosticada por um profissional especializado, acaba apresentando sintomas semelhantes à depressão e 28 Goussinsky, Eugenio. Venda de antidepressivos no Brasil cresce com o aumento de casos ligados à depressão. Notícias. Saúde. R7, 2017. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 181 fazendo com que, cada vez mais indivíduos recebam diagnósticos equivocados e passem a tomar antidepressivos, sem se preocupar com o consumo excessivo de açúcar, levando-os ao quadro irreversível de diabetes. Os sintomas da hipoglicemia ‘mascarados’ como o de uma depressão, na verdade são os sintomas do famoso ‘Perigo Branco’, termo cunhado por William Dufty no livro “Sugar Blues: O gosto amargo do açúcar ″, que alerta sobre o consumo exagerado de açúcar e seus derivados. E são os mesmos descritos anteriormente. 29 E é sempre bom fazer um alerta para que, em casos de suspeita de depressão, o primeiro passo deva ser procurar ajuda de um profissional qualificado e especializado no assunto. Uma conversa franca com a família ou pessoas próximas também é essencial. O uso de medicamentos sempre deverá seguir a orientação e prescrição médica. E em caso de suspeita de hipoglicemia, é aconselhável informar ao profissional para que exames complementares sejam realizados, tornando o diagnóstico mais preciso. 29 Dufty, William. Sugar blues: O gosto amargo do açúcar. Rio de Janeiro: Editora Ground, 1975. Evandro Borges 182 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 183 Capítulo 19 Psicologia e Biologia – Um convite ao diálogo Apesar de ser adepto da psicologia positiva, não deixo de ser um profundo admirador de Freud, um homem muito à frente de seu tempo, um visionário. E apesar de ter fundado os alicerces da psicanálise juntamente com o Dr. Josef Breuer, nunca se apartou completamente de sua vocação inicial, a neurologia. Antes de morrer, Freud deixou algo incompleto, “Um projeto para uma psicologia científica”, ao qual o psicanalista francês Jacques Lacan tentou ressuscitar. Freud, como um desbravador da mente humana, usou as ferramentas que tinha e em sua época, aplicando-as a seu contexto e demandas existentes, demandas estas consideradas tabus, fenômenos que não dispunham de meios de investigação avançada, como nos dias de hoje. E a frase mais impactante de Freud hoje me motiva a seguir uma linha de raciocínio diferente da que eu tinha há alguns anos atrás, quando, em conversa com o psiquiatra Joseph Wortis, seu aluno e posteriormente fundador da Revista Biological Psychiatry, Freud expressou sua vontade incansável de aproximar psicologia e biologia: Evandro Borges 184 Não aprenda apenas psicanálise como existe hoje. Já está ultrapassada. Sua geração chegará à síntese entre psicologia e biologia. Você deve se dedicar a isso (Sigmund Freud) 30 . O estabelecimento da psicologia como ciência 'pura' e, não somente aplicada, implica em uma série de fatores. Enquanto a ciência pura é dependente de deduções a partir de verdades demonstradas, experimentos bem controlados e seguindo a lógica do reducionismo científico, a ciência aplicada visa às aplicações do conhecimento para a solução de problemas práticos. Durante décadas a psicologia focou-se apenas na prática clínica, nos aspectos psicológicos e em resultados advindos da experiência clínica. Em contrapartida, as ciências biológicas avançaram de tal forma que hoje compreendem grande parte da anatomia e fisiologia cerebral. Nos campos da neurobiologia, neurologia e neurogenética, já é possível compreender a gênese de inúmeras patologias, sem que haja, necessariamente, uma correlação entre fatores externos, traumas ou aspectos psicossociais. 30 Servan-Schreiber, David; Bigotte, Magda. Curar: o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamentos nem psicanálise. 2004. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 185 Pesquisas dirigidas pelo Dr. Kerry Ressler, da Emory University, em Atlanta, EUA, identificaram e isolaram o gene FKBP5, através do "Grady Trauma Project". E descobriram quatro variantes que são mais comumente encontradas em pessoas que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade generalizada, síndrome do pânico e depressão. 31 Cientistas da Universidade de Bonn, na Alemanha, publicaram um estudo recente na revista "Behavioural Neuroscience", no qual atestaram uma mutação genética que atinge cerca de metade da população europeia, e que manifesta-se em 25% das pessoas, que herdam de seus pais duas cópias do mesmo gene. Esses indivíduos têm um risco significativamente maior que a média da população de sofrer de ansiedade e males relacionados como transtornos pós-traumáticos e doenças obsessivo- compulsivas. Para o Dr. Christian Montag, que liderou as pesquisas, é possível identificar diferenças genéticas entre as pessoas que afetam diretamente os neurotransmissores, substâncias que transmitem os 31 Binder, E. B., Bradley, R. G., Liu, W., Epstein, M. P., Deveau, T. C., Mercer, K. B., ... & Schwartz, A. C. (2008). Association of FKBP5 polymorphisms and childhood abuse with risk of posttraumatic stress disorder symptoms in adults. Jama, 299(11), 1291-1305. Evandro Borges 186 impulsos nervosos, e influenciam as variações psicológicas. 32 O Dr. Abraham Palmer,professor assistente de genética humana na Universidade de Chicago, EUA, conduziu um estudo publicado no “Journal of Clinical Investigation”, no qual foram constatados mecanismos que autorregulam comportamentos de ansiedade. Ao isolarem o gene Glo1, os cientistas descobriram um novo fator de inibição no cérebro: o subproduto metabólico metilglioxal (MG). De acordo com os pesquisadores, tal descoberta poderá resultar em novos métodos e técnicas de abordagens mais eficazes no tratamento de transtorno de ansiedade, epilepsia e distúrbios do sono. 33 Quando um indivíduo procura um médico, ele não quer receber um diagnóstico evasivo ou hipotético e, por mais que receba, o médico certamente solicitará exames complementares. Portanto, o paciente quer uma resposta concreta que possibilite um tratamento eficaz. Da mesma forma, quando um indivíduo procura auxílio psicológico, 32 Montag, C., Buckholtz, J. W., Hartmann, P., Merz, M., Burk, C., Hennig, J., & Reuter, M. (2008). COMT genetic variation affects fear processing: psychophysiological evidence. Behavioral neuroscience, 122(4), 901. 33 Palmer, Abraham A.; Margaret G. Distler; Marcelo A. Nobrega et al (2012). Glyoxalase 1 increases anxiety by reducing GABAA receptor agonist methylglyoxal. Journal of Clinical Investigation, june, 2012. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 187 suponho que ao deparar-se com explicações abstratas, hipotéticas ou que necessitem de 'insights', deva sentir-se desconfortável. E isso talvez explique o motivo pelo qual muitos pacientes abandonam um processo psicoterapêutico breve em curso. Pesquisas realizadas entre 1999 e 2000 em uma clínica-escola de psicologia revelaram diferentes índices de desistência em diversos momentos do atendimento: 45,05% antes da triagem, 56,59% no início do atendimento e 14,84% no decorrer da terapia. 34 Um outro estudo realizado em 2013, no Rio Grande do Sul, revelou que, do total de 188 indivíduos que deram entrada em um processo psicoterapêutico em um uma clínica-escola de psicologia, 163 residiam na cidade onde a universidade estava localizada e 25 residiam em cidades vizinhas. Do total de pessoas que realizaram psicoterapia durante o ano letivo de 2013, 37 receberam alta, aproximadamente 20% dos pacientes, e 45 desistiram durante o processo, totalizando 24% dos casos. O restante foi encaminhado para continuidade do atendimento no ano de 2014, totalizando 106 casos com 34 Chilelli, Karla Bittencourt; Enéas, M. L. E. Desistência em psicoterapia breve: pesquisa documental e da opinião do paciente. Boletim de Iniciação Científica de Psicologia, v. 1, n. 1, p. 47-52, 2000. Evandro Borges 188 indicação de continuidade da psicoterapia. Mediante a uma leitura dos resumos de encerramento dos casos atendidos, as justificativas apresentadas pelos terapeutas nos relatos de encerramento de caso foram classificadas da seguinte maneira, explicadas a seguir: não adesão à psicoterapia (20%), problemas com o terapeuta ou com a instituição (33,3%), questões particulares externas à clínica (17,7%), encerramento por faltas injustificadas (27%) e 2% não justificaram o encerramento do caso. 35 Não quero dizer, com isso, que a psicologia deva ser ‘fatalista’ ou que deva limitar-se ao uso de manuais de diagnósticos de transtornos mentais, encaminhando todos os casos de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico para serviços de atendimento que possibilitem uma abordagem psicofarmacológica, mas que devemos estar abertos ao diálogo com as ciências biológicas, analisando o histórico familiar de cada caso e solicitando exames complementares com o objetivo de se chegar a um diagnóstico mais preciso. Não devemos nos fechar para a possibilidade de determinados casos clínicos serem decorrentes de fatores, não somente psicológicos, mas biológicos, genéticos ou hereditários. 35 Sei, MB, Colavin JRP. Desistência e abandono da psicoterapia em um serviço-escola de Psicologia. Rev. bras. psicoter. 2016;18(2):37- 49. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 189 Capítulo 20 Instrumentos de avaliação em psicologia positiva Para Fortes e Ferreira (2013), o estudo dos aspectos saudáveis do ser humano é tão relevante quanto os estudos sobre a psicopatologia. Essa foi a grande contribuição da psicologia positiva, fornecendo outra perspectiva de análise do comportamento humano ao olhar para o que possuímos de melhor em nós. A psicologia positiva tem sua proposta baseada na ideia de favorecer que o psicólogo tenha uma postura mais apreciadora dos potenciais humanos e, portanto, alguns aspectos são extremamente importantes para essa nova ciência, como a avaliação do otimismo, altruísmo, esperança, alegria, bem-estar e resiliência, autoestima e esperança, aspectos estes tão importantes quanto a avaliação da depressão, ansiedade e desesperança (ÜCKER E NUNES, 2007). Por se tratar de uma abordagem nova, esforços significativos estão sendo empregados no desenvolvimento e validação de instrumentos de avaliação em psicologia positiva (SELIGMAN, 2004). No que tange Evandro Borges 190 a avaliação psicológica positiva, destaca-se a avaliação da satisfação com a felicidade ou BES, satisfação com a vida, afeto, otimismo, esperança e auto eficácia. ADVERTÊNCIAS Por questões éticas não poderemos reproduzir o conteúdo de testes ou avaliações psicológicas neste livro, porém, poderemos indicar as referências e literatura disponíveis atualmente, tanto no Brasil quanto no exterior, para efeito de consulta ou pesquisa. De acordo com os Artigos 10 e 16 da Resolução CFP n.º 002/2003 (CFP, 2003), só será permitida a utilização dos testes psicológicos que obtiverem o parecer favorável pelo Conselho Federal de Psicologia e será considerada falta ética a utilização de instrumento que não esteja em condição de uso. É importante destacar também que conforme dispõe o Art. 13 da Lei 4.119/62 (Brasil, 1962), no Brasil, o uso de testes psicológicos constitui função privativa do psicólogo. Em 2011 o Dr. Aaron Jarden, presidente da Associação de Psicologia Positiva da Nova Zelândia lançou um artigo intitulado “Avaliação Psicológica Positiva: Uma introdução prática a ferramentas de Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 191 pesquisa empiricamente validadas para medir o bem- estar”, atualizado posteriormente em 2014 (JARDEN, 2014). O artigo reúne dezenas de modelos de instrumentos de avaliação em psicologia positiva, com suas devidas referências para consulta no idioma inglês. 36 Segue uma lista dos instrumentos disponíveis com os títulos traduzidos e referência para consulta logo abaixo: Escala de Medidas de Felicidade (HM) Escala de Satisfação com a Vida (SWLS) Escala de Satisfação Temporal com a Vida (TSWLS) Escala de Felicidade Subjetiva (SHS) Questionário de Gratidão (GQ-6) Escala de Esperança do Adulto (AHS) Questionário de Significado de Vida (MLQ) Escala de Florescimento (FS) Escala de Experiência Positiva e Negativa (SPANE) Escala Grit Curta (GRIT) Inventário de Curiosidade e Exploração II (CEI-II) Escala do Uso de Forças e Conhecimento Corrente (SUCK) Teste de Orientação de Vida - Revisado (LOT-R) 36 Jarden, A. (2011). Positive Psychological Assessment: A practical introduction to empirically validated research tools for measuring wellbeing. Získáno, 2(3), 2014. Evandro Borges 192 Escala Breve de Resiliência (BRS) Escala de Vitalidade Subjetiva (VS) Escala de Combate à Auto-Ancoragem de Cantril (CSASS) Questionáriode Vida Valiosa (VLQ) Escala de Bem-Estar Psicológico (SPW) Escala de Depressão do Centro de Estudos Epidemiológicos (CES-DS) Escala de Depressão, Stress, Ansiedade (DASS21) Escala de Solidão (LS) Devo destacar também que o Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia mantém um banco de dados com atualmente 18 modelos de questionários para pesquisadores. Os recursos estão disponíveis no idioma inglês e podem ser acessados em: http://ppc.sas.upenn.edu/resources/questionnaires- researchers Outra ferramenta rica em informações é o website Felicidade Autêntica da Universidade da Pensilvânia, que disponibiliza uma série de escalas e questionários para auto preenchimento online, com referências-chave e Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 193 outras informações relevantes. O conteúdo está disponível nos idiomas: inglês, espanhol, alemão, japonês e mandarim. Para saber mais, visite o site: https://www.authentichappiness.sas.upenn.edu/testcent Er Lista de Instrumentos disponíveis no site Felicidade Autêntica: Inventário de felicidade autêntica - Mede a Felicidade Geral; Escala geral da felicidade - Avalia a felicidade duradoura; Questionário PANAS - Mede o Afeto Positivo e Negativo; Questionário CES-D - Mede os sintomas da depressão; Questionário de Emoções Fordyce - Mede a felicidade atual; Teste de Otimismo - Mede o otimismo sobre o futuro; Questionário de Motivações Transversais - Mede o Perdão; VIA Levantamento de Forças de Caráter - Mede as 24 forças de caráter; Inquérito de Gratidão - Mede a apreciação sobre o passado; Evandro Borges 194 VIA - Pesquisa de Força para Crianças - Mede as 24 forças de caráter para crianças; Avaliação Grit - Mede a força do caráter da perseverança; Teste Breve de Forças - Mede 24 forças de caráter; Questionário Vida-Trabalho - Mede a Satisfação Vida- Trabalho; Medidor PERMA ™ - Avalia as medidas de florescimento; Escala de Satisfação com a Vida - Mede a satisfação com a vida; Abordagens à Felicidade - Mede a Felicidade Geral; Questionário de Significado de Vida - Mede o significado de vida; Escala Compassiva do Amor - Mede sua tendência a apoiar, ajudar e entender outras pessoas; Questionário de Fechamento de Relacionamentos; O Centro Australiano de Qualidade de Vida (ACQOL), disponibiliza uma breve descrição sobre centenas de escalas de qualidade de vida e bem-estar, bem como suas referências e dados sobre pesquisas psicométricas. Você pode saber mais em: http://www.acqol.com.au/instruments/instrument.php Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 195 No Brasil, podemos destacar o Laboratório de Mensuração do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que tem desempenhado um papel extremamente significativo no desenvolvimento de instrumentos de avaliação psicológica. O site pode ser acessado em: http://www.ufrgs.br/psico-laboratorio/Instrumentos.htm Evandro Borges 196 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 197 Capítulo 21 Ampliando e construindo emoções positivas A Teoria do Ampliar e Construir das Emoções Positivas (The Broaden-And-Build Theory) A Teoria do Ampliar e Construir das Emoções Positivas, desenvolvida pela Dra. Barbara Fredrickson, professora e pesquisadora de psicologia da Universidade da Carolina do Norte, sugere que as emoções positivas ampliam nosso repertório de pensamentos e ações e constroem nossos recursos pessoais. A teoria sugere que as emoções positivas impulsionam o florescimento humano (COUTO, 2014). Pessoas que experimentam as emoções positivas, com frequência, são mais: 1. Interessadas em seu autodesenvolvimento; 2. Física e Psicologicamente saudáveis; Evandro Borges 198 3. Habilidosas para lidar com dificuldades e problemas; 4. Estruturadas em seus relacionamentos e interações sociais; 5. Abertas a desenvolver uma variedade de estratégias mentais; 6. Abertas ao novo; 7. Propensas a nutrir mais esperança, visão do todo e foco no futuro. Em diversos contextos as pessoas experimentam um misto de emoções agradáveis e desagradáveis, sugere Carvalho (2014). Tais emoções desencadeiam humores que são expressos posteriormente por uma variedade de comportamentos e sentimentos. No entanto, as evidências dos efeitos positivos das emoções somente ganharam força durante os últimos 20 anos (Fredrikson, 2002 apud CARVALHO, 2014). As investigações traçaram a divisão entre os afetos positivos e negativos, concluindo que o afeto positivo tem efeitos relevantes no desenvolvimento dos pensamentos e comportamentos. A teoria das emoções positivas de Fredrickson (2003) é um modelo que capta efeitos únicos, pois vivenciar estados positivos conduzirá a comportamentos, que indiretamente Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 199 irão influenciar positivamente o sujeito em situações difíceis. A teoria sugere que valores altos de positividade podem prever o funcionamento ideal do sujeito. As emoções positivas desenvolvem-se na construção de recursos pessoais, e ao longo do tempo, por consequência, transformam as pessoas para melhor, permitindo-lhes sobreviver e prosperar em diversas situações da vida (Fredrickson et al., 2008; Carvalho, 2014). Segundo as autoras, as emoções positivas ampliam os pensamentos e constroem recursos físicos, sociais e psicológicos para o futuro. E tanto as emoções positivas quanto negativas teriam uma função adaptativa, com efeitos fisiológicos diferentes e complementares. As emoções negativas estariam associadas à formas de agir, que diminuiriam e focalizariam os pensamentos para ações concretas, como por exemplo as de luta ou fuga (Fredrickson, 1998; 2001; 2003; 2013 apud CARVALHO, 2014). Através da expansão dos processos cognitivos, os recursos e capacidades pessoais estabelecem-se ao longo do tempo. Tais processos teriam sido úteis, não somente por preservaram ao longo dos tempos a evolução humana, mas também porque, espontaneamente provaram ser uteis para o desenvolvimento de recursos da Evandro Borges 200 sobrevivência. As autoras afirma que vivenciar experiências emocionais positivas coloca os sujeitos em trajetórias de crescimento pessoal. Já no processo de ampliar as estratégias comportamentais, as emoções positivas vão dissipar as emoções negativas, preparando o sujeito para ações específicas (Fredrickson, 1998; 2002; 2003; 2013; Carvalho, 2014). As emoções positivas ampliam a atenção e cognição, e a vivência das emoções positivas produz um efeito associado a aumentos de níveis de dopamina no cérebro (Ashby, Isen, & Turken, 1999). Cultivar emoções positivas também torna os sujeitos mais saudáveis, mais socialmente integrados, mais curiosos, mais eficazes na diversidade dos comportamentos, e muito mais resilientes (Fredrickson & Losada, 2005). Desta forma, podemos concluir que o efeito positivo das emoções amplia o comportamento perante a situação em que os sujeitos se encontrem. Ao longo do tempo, constrói mapas cognitivos muito apurados do que é agradável e desagradável na interação com o meio ambiente. E embora este efeito seja transitório, as capacidades pessoais que são adquiridas em momentos de positividade podem ser mantidas a longo prazo, possibilitando ao sujeito utilizá-las em situações de Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 201 stress. Este processo aumenta as probabilidades de sobrevivência, o que poderá desencadear também crescimento pessoal e maisresiliência. Em síntese, o processo desenvolvido influência o florescimento humano (Fredrikson & Losada, 2005 apud CARVALHO, 2014). Evandro Borges 202 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 203 Agradecimentos Gostaria de agradecer profundamente aos disseminadores da psicologia positiva no Brasil, América Latina, América do Norte e demais partes do mundo, em especial, ao núcleo da Associação de Psicologia Positiva da América Latina (APPAL), a Associação Brasileira de Psicologia Positiva (ABPP), ao Dr. Cláudio Simon Hutz, coordenador do Curso de Especialização em Psicologia Positiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ao professor de Psicologia Positiva do MBA Executivo em Desenvolvimento do Potencial Humano na Franklin Covey Business School, Helder Kamei, ao núcleo de pesquisa do Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia, EUA, aos Doutores Martin Seligman, ex-presidente da Associação Americana de Psicologia (APA), e Chris Peterson, fundadores do VIA Instituto do Caráter, pioneiros nos estudos da psicologia positiva no mundo. Ao Dr. Tal Ben-Shahar, coordenador do Curso de Psicologia Positiva da Universidade de Harvard, EUA, ao Dr. Tayyab Rashid, pesquisador em psicologia positiva na Universidade de Toronto Scarborough, Canadá, ao Dr. Mihaly Csikszentmihalyi, professor da Universidade de Pós-Graduação Claremont e um dos principais pesquisadores em psicologia positiva no mundo. A Dra. Sofia Bauer e sua equipe do curso de Evandro Borges 204 Certificação em Psicologia Positiva, a Dra. Renata Livramento, fundadora e presidente do Instituto Brasileiro de Psicologia Positiva, ao querido amigo de profissão e sempre incentivador de meu trabalho, Paulo Henrique. E a todos os fomentadores, pesquisadores, profissionais, professores, mestres, doutores, admiradores, praticantes e simpatizantes da psicologia positiva. Gratidão. Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 205 ANEXO I - Relatório Mundial da Felicidade - Ranking 2016 Evandro Borges 206 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 207 Evandro Borges 208 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 209 Evandro Borges 210 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 211 Evandro Borges 212 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 213 ANEXO II – Estrutura da Escala de Florescimento Evandro Borges 214 Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 215 Referências Albuquerque, A.S.; & Tróccoli, B.T. (2004). Desenvolvimento de uma Escala de Bem-Estar Subjetivo. Alesina A., Di Tella R., MacCulloch R. (2004) Inequality and happiness: Are Europeans and Americans different? Journal of Public Economics, 88, 2009-2042. Andrade, Elisson. (2016). Finanças & comportamento: Coletânea de artigos. Aristóteles. (1985) Ética a Nicômaco. 2.ed. Editora Universidade de Brasília. Ashby, F. G., Isen, A. M., & Turken, A. U. (1999). 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