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Evandro Borges 
 
 
 
 
Psicologia Positiva 
Uma mudança de Perspectiva 
 
Série Positiva Psicologia 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Copyright © 2017 by Evandro de Lemos Borges 
CRP 20/07141 
Diagramação: Wenceslau Abtibol Filho 
Fotografia: Thainara Borges do Vale 
Revisão: Rodrigo Benarrós Ribeiro 
Série Positiva Psicologia 
contato@positivapsicologia.com.br 
www.positivapsicologia.com.br 
 
Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta 
publicação, no todo ou em parte, constitui violação de direitos 
autorais (Lei 9.610/98). O conteúdo desta obra é de responsabilidade 
do Autor, proprietário do Direito Autoral. 
 
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE 
EDIÇÃO DO AUTOR, SC, BRASIL 
 
Borges, Evandro, 1982- 
B732p Psicologia positiva: uma mudança de perspectiva [recurso eletrônico]: 
Evandro Borges. – 1ª ed. – Série Positiva Psicologia. Vol.1. – Joinville: 
Clube de Autores, 2017. 
 
Formato: ePub 
 
ISBN 978-85-923292-1-1 (recurso eletrônico) 
 
1. Psicologia positiva. 2. Psicologia aplicada. 3. Bem-estar. I. Título. 
 
 CDD: 158.1 
17-07873 CDU: 159.947 
 
Produced in Brazil / Produzido no Brasil 
 
ISBN 978-85-923292-1-1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
PREFÁCIO 13 
Uma mudança de perspectiva na psicologia 19 
Meu encontro com a psicologia positiva 31 
Como surgiu a psicologia positiva? 39 
Psicologia Positiva vs Psicologia Humanista 41 
Bem-estar versus doença 43 
Os 5 Pilares da Psicologia Positiva – O Modelo 
PERMA 49 
Emoções Positivas (P) 53 
Engajamento ou Fluidez (E) 63 
Relacionamentos Positivos (R) 65 
Sentido no viver, significado ou propósito (M) 67 
Realização (A) 69 
O Papel das Emoções Positivas no processo 
psicoterapêutico 73 
O Modelo de Emoção em psicologia positiva 76 
Emoção versus Ação 78 
A consolidação dos efeitos das emoções em longo prazo 80 
Autoconsciência, autocompaixão e autocuidado 83 
Autoconsciência 83 
Autocompaixão 87 
 
 
A Teoria do Autocuidado 90 
Felicidade em Psicologia Positiva 97 
Obstáculos ao aumento do nível de felicidade 102 
O Relatório Mundial da Felicidade (World 
Happiness Report) 105 
Antecedentes 107 
Aproveitamento da informação e da investigação sobre a 
felicidade para melhorar o desenvolvimento sustentável. 108 
Definição e medição de Florescimento 111 
Florescimento 111 
A Escala de Florescimento 114 
A descoberta do Flow 117 
As contribuições do Dr. Mihaly Csikszentmihalyi 117 
A Teoria do Flow (Fluxo) 119 
Exemplos Práticos de Estados de Flow / Fluxo 127 
Prazer versus felicidade 131 
O Estado de fluxo: 132 
Fluxo versus Homeostase 135 
Como obter maiores experiências de Fluxo 139 
Introdução ao conceito de Engajamento 143 
Engajamento nas Organizações 149 
Engajamento no Trabalho 149 
 
Identificando determinantes de satisfação com a 
vida 153 
A felicidade e a Personalidade Autotélica 157 
Autocontrole - Uma forma de superar momentos 
difíceis 171 
Exercitando o Autocontrole 172 
Depressão, um olhar biopsicossocial 179 
Psicologia e Biologia – Um convite ao diálogo 183 
Instrumentos de avaliação em psicologia positiva
 189 
Ampliando e construindo emoções positivas 197 
Agradecimentos 203 
ANEXO I - Relatório Mundial da Felicidade - Ranking 2016 205 
ANEXO II – Estrutura da Escala de Florescimento 213 
Referências 215 
Notas 13 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
13 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dedicado aos meus queridos pais, Helena e 
Getúlio. 
Evandro Borges 
14 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
13 
 
PREFÁCIO 
 
 
Quando você tem amor por uma profissão, quando 
descobre nela sua vocação, quando você acredita que seu 
trabalho pode influenciar positivamente a vida de outras 
pessoas e, quando as pessoas depositam em você 
confiança, você descobre verdadeiramente um sentido 
maior pelo qual a vida deve ser digna de ser vivida. Esse é 
o maior retorno que um profissional do campo das 
ciências humanas pode ter. E no momento em que 
escrevo este livro, o Brasil passa por um processo de 
resseção econômica nunca antes visto na história 
moderna do país. Por um instante questiono a mim 
mesmo sobre os motivos pelos quais escrevo e quem irá 
comprar livros em um momento econômico tão difícil 
como este. Deste ponto em diante, meus motivos para 
continuar escrevendo são claros, trata-se de uma 
realização pessoal, de um objetivo, algo maior que eu, 
algo que me faz feliz de uma forma plena. E tudo 
começou com um pequeno projeto, um curso de 
introdução à psicologia positiva gratuito, que lancei em 
meados de 2015 na plataforma virtual 
www.positivapsicologiacom.br. Para a minha surpresa, 
recebi mais de 50 inscritos na primeira semana. Hoje 
tenho centenas de alunos inscritos e centenas deles já 
Evandro Borges 
14 
 
concluíram o curso, com direito a certificado de 40 horas. 
Em seguida comecei a lançar as bases para um curso de 
certificação em psicologia positiva aplicada. Para isso, 
precisei recorrer a cursos nos Estados Unidos e Canadá, o 
que me proporcionou uma base sólida em PP. Enquanto 
eu compunha os módulos do curso e as apostilas, eis que 
senti uma certa dificuldade em encontrar livros ou artigos 
em português, embora este cenário esteja mudando 
graças ao empenho de diversos profissionais e 
pesquisadores cada vez mais engajados no tema, tanto no 
Brasil quanto em boa parte da América Latina. E como os 
cinco pilares fundamentais da psicologia positiva 
baseiam-se no Modelo PERMA, que abordaremos no Cap. 
5 deste livro, dei início ao projeto Série Positiva 
Psicologia, abordando os cinco pilares em 5 volumes de 
livros diferentes, todos em andamento até o presente 
momento. Devo esclarecer, de antemão, que ao contrário 
do que afirmam os críticos, o tema central da psicologia 
positiva não é a felicidade, mas o bem-estar. O conceito 
de felicidade é subjetivo e não pode ser aplicado a todos, 
uma vez que cada indivíduo possui sua própria percepção 
de mundo. E cada vez mais eu me convenço de que a 
felicidade plena não se resume a um estado de humor 
sempre alegre. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, 
ao refletir sobre a felicidade, compreendeu 
metaforicamente que ela seria uma porta que somente 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
15 
 
poderia se abrir para fora, e que qualquer um que tentasse 
forçá-la no sentido contrário acabaria por fechá-la ainda 
mais
1
. De fato, nós podemos encontrar motivos para 
sermos felizes dentro de nós mesmos, mas a porta que se 
abre para fora é a mesma porta de entrada e saída. Isso 
significa que nós podemos transmitir e absorver felicidade 
ao abrirmos a porta. A alegria é passageira e o humor 
oscila repentinamente. Você pode acordar extremamente 
feliz e ir dormir extremamente triste. A conclusão de tudo 
isso é de que é possível encontrar a felicidade plena nas 
pessoas e até mesmo nas coisas exteriores. Somos parte 
de uma coletividade e nos conectamos uns com os outros 
constantemente, da mesma forma que nos conectamos 
com o mundo à nossa volta. No entanto, é necessário que 
nossa existência faça sentido nesse mundo. Deve haver 
uma causa exterior, um significado, um propósito. E 
talvez esse seja o motivo pelo qual muitas pessoas passem 
por crises existenciais que causam angústia e fazem-nas 
sentirem-se insignificantes. A angústia é sofrimento sem 
sentido, como bem definiu o psicólogo Viktor Frankl
2
. A 
felicidadeplena, a meu ver, é um estado mental que 
 
1
 Moreira, Neir; Holanda, Adriano. Logotherapy and the meaning of 
suffering: convergences in the spiritual and religious dimensions. 
Psico-USF, v. 15, n. 3, p. 345-356, 2010. 
2
 Frankl,Viktor E. Logoterapia e Análise Existencial - Textos de Seis 
Décadas. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. 
Evandro Borges 
16 
 
depende de fatores internos e externos, como 
relacionamentos positivos que agreguem emoções 
positivas, como alegria, coragem, motivação, inspiração, 
sentimento de ser acolhido e amparado, dentre outros. 
Por outro lado, também depende de sentido no viver, de 
sentir-se realizado e estar engajado, envolvido e 
comprometido com algo que nos faça perder a noção do 
tempo. É como alguém que ama jogar xadrez e consegue 
ficar envolvido em uma partida durante horas, ou como 
um atleta de alto rendimento que consegue correr 20 km, 
totalmente concentrado. Ambos buscam realização, 
ambos têm um propósito. E quando nos isolamos, 
quando não encontramos sentido e realização ou não 
estamos engajados em algo, a mente parece ser inundada 
por pensamentos aleatórios que podem causar insônia, 
ansiedade e até mesmo depressão. Não há furacão mais 
devastador do que uma crise existencial. E muitas pessoas 
encontram-se no olho de um furacão nesse exato 
momento, sem saberem o que fazer, sem terem a quem 
recorrer enquanto suas vidas desmoronam. Talvez 
tenham receio de procurar ajuda psicológica e serem 
diagnosticadas como neuróticas ou psicóticas. E eu quero 
vos dizer que, ao contrário do que muitos imaginam, 
crises existenciais são extremamente positivas. E é 
através delas que paramos para refletir, mudamos nossas 
atitudes com relação a nós mesmos, ao mundo e às 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
17 
 
pessoas. Nós podemos reconstruir nossas vidas do zero 
quando tudo desmoronar. O ser humano possui forças 
indomáveis para superar adversidades. E essa é a 
mudança de perspectiva, explorar as forças humanas. Essa 
é a psicologia que eu desejo para o futuro, uma psicologia 
mais humana, com evidências científicas que comprovem 
seus efeitos, focada nas potencialidades das pessoas. Estar 
engajado neste livro, neste projeto e no objetivo de 
contribuir com o avanço da psicologia positiva no Brasil é 
o que me faz feliz e realizado. É difícil descrever tamanha 
experiência, mas é como se o tempo parasse, como se eu 
estivesse conectado com cada um de vocês, em um 
diálogo com uma linguagem acessível e que possibilite 
uma leitura agradável. Eu gostaria de agradecê-lo pela 
aquisição do livro, de coração. E desejo a você uma 
excelente leitura. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
18 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
19 
 
Capítulo 1 
 
Uma mudança de perspectiva na 
psicologia 
 
 
 
Independente de qualquer corrente teórica, 
metodológica ou prática, a psicologia visa, desde seus 
primórdios, emancipar o homem, torná-lo independente, 
livre para fazer suas escolhas, para pensar e agir por conta 
própria, um ser pujante, autônomo e dotado de senso 
crítico, consciência e razão. Qualquer coisa que fuja a esse 
direito fundamental estabelecido pela Declaração 
Evandro Borges 
20 
 
Universal dos Direitos Humanos contraria a psicologia
3
. A 
psicologia do homem inválido, doente, vítima de sua 
eterna infância traumática, do homem que tenta, em vão, 
superar seu passado ao mesmo tempo em que tem nas 
mãos a oportunidade de viver o presente e recomeçar do 
zero, parece estar mudando de perspectiva. O mundo 
evolui, tudo evolui. E o homem evolui constantemente. 
Na década de 90 os primeiros telefones celulares 
eram o que havia de mais avançado no campo das 
telecomunicações, hoje eles são obsoletos. Há centenas de 
novos modelos de aparelhos com funções das mais 
diversas possíveis. Da mesma forma, os automóveis 
também evoluíram, os computadores, os livros, os discos, 
as artes, o pensamento, a medicina, a robótica, a 
mecatrônica, os aparelhos de TV, os condicionadores de 
ar, a moda, as cidades e uma inúmera série de outras 
coisas. O homem torna possível a evolução das coisas por 
meio de sua própria evolução. E de certa forma, a 
evolução das coisas permite que o homem evolua, se 
adapte, aprenda, explore, descubra, refaça, reinvente, 
aprimore, aperfeiçoe, improvise, pense, repense, escolha, 
decida, desista, insista, persista. O homem torna possível 
a evolução das coisas que cria e as coisas tornam possível 
a evolução do homem. É uma via de mão dupla. A mente 
 
3 Declaração Universal dos Direitos Humanos – ONU, 1948. 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
21 
 
humana está em constante evolução. As perspectivas 
mudam. Não somos os mesmo de 10 ou 20 anos atrás. 
Ocorre que a evolução das coisas são fruto de adaptações 
que se aperfeiçoam na medida em que o pensamento 
evolui, mas temos nas mãos o poder de escolha, sobre 
como utilizar o conhecimento acumulado. Governos 
podem optar por investimentos em ciências que tragam 
benefícios à população, como no desenvolvimento de 
vacinas que previnam epidemias, prevenção e promoção 
de saúde, educação, dentre outras, mas também podem 
investir maciçamente em programas nucleares e 
desenvolvimento de mísseis capazes de exterminar 
centenas de milhares de pessoas. 
As convicções que eu tinha há 10 anos atrás são 
totalmente diferentes das que eu tenho hoje. E talvez eu 
mude de ideia daqui para amanhã. Isso, a meu ver, é 
libertador. E como aspirante a cientista, tenho me 
pautado pelas descobertas da ciência. E sou incapaz de 
fechar os olhos para o esforço e tamanha dedicação da 
comunidade acadêmica e científica ao redor do mundo. A 
psicologia, no meu ponto de vista, vem perdendo muito 
de sua identidade original, principalmente na América 
Latina. E digo isso porque a psicologia moderna nasceu 
em um laboratório, em Leipzing, com Wundt, um filósofo 
que se abriu para a ideia de uma psicologia experimental. 
Wundt, além de filósofo, estudou medicina, fisiologia, 
Evandro Borges 
22 
 
química, anatomia e física. O fato é que, apesar das 
limitações da época, Wundt ousou constituir a psicologia 
como uma nova área da ciência objetiva e experimental 
independente, tornando-a distinta da filosofia. Foi um 
gênio, um gênio a seu tempo e com suas limitações. Mas 
a ciência sempre será um ponto de interrogação. E muitos 
outros vieram após ele e o refutaram. E isso é ciência, é 
uma reticência atrás da outra. E isso é simplesmente o 
combustível da ciência. E qualquer um que se arrisque a 
adentrar no campo das ciências deve estar disposto a abrir 
mão de suas convicções pessoais, ideológicas e políticas. 
Não é o que eu tenho percebido atualmente. Não há 
diálogo entre as diversas correntes da psicologia. Há, sim, 
uma visível dicotomia de egos inflados em suas próprias 
bolhas, e qualquer opinião, pesquisa ou tentativa de 
refutação de uma teoria torna-se semelhante a uma 
agulha. A psicologia como ciência deve estar aberta ao 
novo. E o cientista moderno não pode se fechar dentro de 
um círculo de séquitos que aplaudem tudo o que ele diz. 
Ele tem que aprender a conviver com as críticas, sejam 
positivas ou negativas, pois são as convergências de 
pensamentos diversificados que enriquecem a ciência. 
Por outro lado, tenho observado a psicologia latino 
americana cada vez mais distante de temas como 
neuropsicologia, neurogenética, biologia, genética, 
psiquiatria, dentre outros temas riquíssimos em 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
23 
 
informações que podem contribuir bastante para 
pesquisas. Há, no entanto, uma forte inclinação para a 
sociologia, antropologia,filosofia e psicanálise, o que é 
normal dentro das chamadas ‘psicologias’. Mas, se você 
for a um seminário cujo tema seja X, dentro da 
perspectiva X e para o público X, falar em Y soa quase 
como uma ofensa, porque muitos pesquisadores estão se 
limitando a um único campo de conhecimento. Já não se 
arriscam a ouvir o contraditório, talvez por não 
dominarem o tema Y e por terem dedicado anos de 
pesquisas ao tema X. E a recomendação que eu tenho é: 
não se limitem apenas ao tema X, pois vocês serão 
surpreendidos com questões das mais diversas possíveis. 
E quando isso ocorrer, e se você não as dominar, não 
tenha medo de admitir que não tem uma resposta para o 
que você desconhece. E se acaso você tenha total domínio 
do tema em questão, dialogue, pois o que vejo 
constantemente são pessoas impondo um único ponto de 
vista a qualquer custo. Dentro da ciência existe espaço 
para a contradição. Pode-se questionar, debater, refutar, 
formular novas hipóteses, colher diferentes tipos de dados 
e validá-las. Sem tais premissas, a ciência perde seu 
caráter de ciência e passa a ser doutrina. É praticamente 
impossível estudar a psiquê humana excluindo fatores 
biológicos e evolucionistas, assim como é impossível 
Evandro Borges 
24 
 
estudar a evolução biológica excluindo os fatores 
sociológicos e culturais. É uma via de mão dupla. 
Se existe algo que eu aprendi com a ciência, é que a 
ciência nunca estará completa. E sendo assim, a ciência 
sempre estará aberta ao debate. Hoje há uma curva de 
deformação nas ciências, onde o pesquisador dificilmente 
se isenta de suas convicções pessoais ou ideológicas. São 
pesquisas “fabricadas”, onde o cientista moderno escolhe 
apenas as referências que embasem sua teoria, sem se 
arriscar em refutar uma teoria existente. Sem direito ao 
contraditório, ele chama isso de ciência, discursa pra seu 
próprio público e se fecha num casulo. Mas, virão outros 
após ele, outros com espíritos inquietos e indomáveis. 
Porque a ciência nunca terá todas as respostas. Os 
visionários precisam buscar respostas para o que ainda 
não existe. Essa é a verdadeira ciência. Este livro te 
caráter introdutório e, portanto, abordará de forma 
sucinta os temas centrais da psicologia positiva. 
 
E para ilustrar bem essa experiência extraordinária 
da evolução do pensamento eu gostaria de falar sobre 
minha primeira mudança de perspectiva sobre a vida, 
sobre o mundo e meu encontro com a psicologia. Sobre 
realização pessoal e profissional, pois tenho formação 
inicial na área de exatas e, após trabalhar por longos treze 
anos em um departamento comercial, questionei-me 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
25 
 
sobre minha satisfação com a vida. Eu tinha um bom 
emprego, liberdade para tomar decisões, uma 
remuneração invejável, plano de saúde e garantias de 
estabilidade econômica e financeira, mas faltava-me algo, 
a satisfação pessoal e profissional. Era íntimo de uma lista 
de produtos que continha mais de cinco mil itens, 
dominava como ninguém as relações de compra e venda, 
importação e exportação, mercado financeiro, câmbio 
monetário, pregões eletrônicos, formação de preços, 
negociações comerciais e uma infinidade de outras coisas, 
só não dominava minha motivação. Acordar às 7 da 
manhã durante treze anos e fazer o mesmo percurso até o 
trabalho estava se tornando algo cansativo, tortuoso, 
monótono e difícil de lidar. Se a tal estabilidade resume-
se em fazer a mesma coisa para o resto da vida, sem que 
isso me traga satisfação, prefiro ter uma vida instável e 
um pouco mais de liberdade. E foi aí que pensei em 
mudar um pouco a rotina. 
Tendo as noites livres, passei a dedicar-me à 
leitura, e lá na prateleira, esquecido e empoeirado, um 
livro sobre noções básicas de psicanálise. Até então eu 
não sabia a diferença entre psicanálise e psicologia. A 
única noção que tinha era aquela de consultório clínico, 
com um terapeuta sentado e um paciente deitado no divã. 
Talvez fosse meu ideal de tratamento psicológico, talvez 
fosse o que eu estivesse precisando no momento. E 
Evandro Borges 
26 
 
confesso, tornei-me um adepto da psicanálise. Foi amor à 
primeira vista. E como que em um insight, pensei: “Todos 
esses anos trabalhando só para conter meus impulsos 
primitivos reprimidos”. 
Um ano depois ingressei na faculdade de 
psicologia. De início conseguia conciliar trabalho e 
faculdade tranquilamente e pude até perceber uma 
pequena mudança, minhas noites nunca mais foram as 
mesmas. Abandonei meu emprego e fui trabalhar como 
professor na área de exatas. O salário não era muito 
atrativo, mas a satisfação em instigar meus alunos a 
pensarem e evoluírem não tinha preço. Aprendi muito 
com eles, uma aprendizagem mútua e facilitadora. Tinha a 
meu favor a experiência, mas eles tinham as dúvidas, 
perguntas inusitadas das quais não haviam respostas 
prontas. E compreendi, também, que ser professor não 
era simplesmente transmitir conhecimento, mas 
incentivar e facilitar a busca por conhecimento. 
No segundo período do curso de psicologia, eis que 
vejo estampado em meu cartão de matrícula a tão 
esperada disciplina de introdução à psicanálise. Na 
primeira aula, ouço entusiasmado a apresentação de um 
professor lacaniano que, em seguida, pede para que cada 
um dos presentes diga o motivo pelo qual escolheu o 
curso de psicologia. Convicto de minha escolha, respondi 
que estava ali por ser um admirador da psicanálise. O 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
27 
 
professor balançou a cabeça como que em uma negativa e 
logo me disse a primeira verdade: “Você não precisa 
estudar psicologia para ser um psicanalista, basta 
procurar por um curso regular de psicanálise”. É... 
pesquisar sobre um curso ou fazer um teste vocacional 
antes de se matricular em uma faculdade faz toda a 
diferença, mas não tanta diferença quando seu objetivo é 
preencher um tempo livre ou estudar apenas para adquirir 
novos conhecimentos e manter a mente ativa. Este era 
meu real objetivo de estar ali, no início, até encontrar na 
psicologia um sentido maior, um propósito que não fosse 
apenas resolver minhas questões pessoais. E todo 
acadêmico de psicologia parece ser conhecedor do estigma 
que a profissão carrega. Esse estigma, para mim, foi 
nitidamente visível no início do curso. Predominava a 
ideia de que a maioria dos acadêmicos de psicologia 
ingressavam no curso para resolverem suas questões 
pessoais. Há um pouco de verdade, não devo negar, pois 
apesar de sermos orientados a separar o que é ciência e o 
que é um ponto de vista pessoal, baseado em nossas 
vivências, estamos sujeitos à condição humana, 
carregamos, inevitavelmente, questões pessoais não 
resolvidas, mas eu gostaria de dar a minha opinião sobre 
os reais motivos pelos quais acredito que uma pessoa 
escolha cursar psicologia, e não são as questões pessoais, 
mas uma personalidade altruísta, voltada para as questões 
Evandro Borges 
28 
 
humanas, uma inclinação indomável ao propósito de 
entender a mente humana, de doar-se a uma causa maior, 
de colaborar com a sociedade, sentir-se útil, dentre outros 
fatores. É uma questão puramente vocacional, e se não 
for, você verá sua turma diminuindo gradativamente com 
o passar dos anos. 
Caí no curso de psicologia de paraquedas, no 
primeiro período precisei fazer uma viagem de 
emergência e quase abandonei o curso. Ao retornar a 
Manaus, reencontrei um amigo de classe que me 
incentivou a voltar para a faculdade. E voltei no segundo 
período. Hoje, como profissional, aconselho a qualquer 
acadêmico ou psicólogo que façam terapia. A terapia nos 
ajuda a manter o equilíbrio necessário para os desafios de 
nossa profissão. E também é uma forma de adquirirmos 
confiança no que fazemos, e devemos começar por nós 
mesmos. 
Os cursos de psicologia nos dão um apanhado geral 
das váriascorrentes teóricas, metodológicas e práticas, 
mas é difícil concluí-los sabendo exatamente qual 
vertente seguir. Muitos acabam tornando-se adeptos 
daquilo que acreditam. E isso não deve ser considerado 
um aspecto negativo, desde que faça sentido para o 
indivíduo. Mas hoje acredito na psicologia baseada em 
evidências científicas. O que funciona para uns pode não 
funcionar para outros. E as pesquisas aplicadas a nível 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
29 
 
global nos dão uma noção exata do que realmente pode 
ser eficaz no que diz respeito aos tratamentos 
psicológicos. Portanto, o caminho para uma formação 
sólida deve ser composto, não somente pelo que se 
aprende tradicionalmente na academia, mas pela busca 
independente de conhecimento paralelamente a isso. 
A grande maioria das grades curriculares que hoje 
integram os cursos superiores de psicologia estão 
atreladas à teorias do início do Século XX, enquanto que a 
psicologia aplicada na prática se faz necessária para 
pessoas do Século XXI. E isso é um desafio para qualquer 
psicólogo. Como podemos, então, utilizarmos de 
ferramentas tão antigas em tempos modernos e 
globalizados onde a informação corre na velocidade da 
luz? 
Enquanto eu fazia estudos de casos de 1910, em 
algum lugar do mundo um novo pesquisador publicava 
artigos e livros, novas demandas surgiam e novas 
pesquisas chegavam à novas conclusões acerca de 
determinados fatores dentro da psicologia. De fato, com o 
advento da tecnologia, da internet e da informação, a 
comunidade acadêmica e científica produziu muito mais 
conteúdo nos últimos 20 anos do que nos últimos 100 
nos. E bastam alguns cliques e você estará acessando um 
artigo publicado na Austrália, Nova Zelândia ou em 
qualquer outra parte do mundo. Em contrapartida, a 
Evandro Borges 
30 
 
utilização de ferramentas para coleta de dados 
quantitativos em massa hoje possibilita que comparemos 
amostras globais e a transformemos em pesquisas 
qualitativas. Sim, devo dizer-lhes que a psicologia 
positiva, apesar de ter como princípio básico o 
aprimoramento científico, também possui ferramentas de 
mensuração de dados qualitativos. Um exemplo disso é o 
Questionário sobre as 24 Forças de Caráter 
disponibilizado gratuitamente no site do VIA Institute. 
4
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 Via Institute on Character http://www.viacharacter.org 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
31 
 
Capítulo 2 
 
Meu encontro com a psicologia 
positiva 
 
 
Durante meu período de estágio profissionalizante 
tive a oportunidade de atuar como psicoterapeuta 
supervisionado. Meus primeiros supervisores tinham 
orientação psicanalítica e as supervisões seguiam a 
mesma abordagem. Não vou negar que encontrei na 
psicanálise uma base sólida para dar os meus primeiros 
passos como terapeuta. E não estou aqui para tecer 
críticas sobre uma determinada abordagem. Não é minha 
intenção fragmentar ainda mais a psicologia, mas uni-la, 
propor um diálogo e apresentar uma nova abordagem, 
não necessariamente a que acredito ser a melhor, mas a 
que mostrou-se eficaz em minhas experiências clínicas e 
na qual encontrei embasamento científico. 
Meu encontro com a Psicologia Positiva (PP) deu-
se exatamente no momento em que eu questionava o 
modelo tradicional de psicodiagnóstico, durante o período 
de residência no departamento de plantão psicológico da 
clínica de psicologia da universidade. Na ocasião, me foi 
encaminhada uma criança com "indícios" de Transtorno 
Evandro Borges 
32 
 
do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), e as 
ferramentas diagnósticas de que eu dispunha no 
momento constavam nos famosos testes psicodinâmicos e 
manuais de classificação de transtornos mentais. 
Preocupava-me o fato de que, cada vez mais, crianças em 
idade escolar estarem sendo encaminhadas para os 
serviços de atendimento psicológico por supostamente 
apresentarem comportamentos "anormais" em casa ou na 
escola. E imediatamente me propus a pesquisar sobre 
novas abordagens que me levassem a uma compreensão 
mais ampla de "saúde mental", ao invés do modelo 
tradicional de "doença mental". Foi um longo desafio, eu 
confesso, mas minha concepção de psicologia nunca mais 
foi a mesma. 
Dediquei os últimos quatro anos ao estudo da 
psicologia positiva e tive a oportunidade de acompanhar 
de perto as recentes pesquisas e avanços científicos. Posso 
definir a psicologia positiva como uma abordagem nova 
preparada para lidar com demandas antigas e atuais, que 
utiliza-se de ferramentas modernas e explora a tecnologia 
que temos disponível em nossos dias, mais do que isso, é 
também a ampliação de um campo de visão sobre o 
mundo, sobre como explorar o potencial humano, suas 
forças de caráter, sua criatividade e virtude. Se antes os 
indivíduos eram classificados como neuróticos ou 
psicóticos, todo o trabalho do terapeuta concentrava–se 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
33 
 
em diagnosticar o tipo de neurose ou psicose e então 
classificá-las em graus. Hoje meu trabalho é focado no 
diagnóstico do que há de saudável nas pessoas, do 
potencial a ser explorado, de como auxiliar pessoas a 
encontrarem sentido e realização em suas vidas. Isso é 
gratificante. 
Se antes eu estava atrelado a uma figura paterna ou 
ocupava o lugar de autoridade no set terapêutico, envolto 
em processos de transferência e contratransferência, 
neuroses, fixações, projeções e afins, sentia-me, de certa 
forma, afetado psicologicamente por estes processos. 
Seligman (2011) discorre sobre sua concepção 
original da psicologia positiva, onde afirma que achava 
que o tema da psicologia positiva deveria ser a felicidade, 
que o principal critério para a mensuração da felicidade 
seria a satisfação com a vida e que o objetivo da psicologia 
positiva era aumentar essa satisfação com a vida. O autor 
reavalia tais concepções e então chega a conclusão de que 
atualmente o tema central da psicologia positiva deva 
estar focado no bem-estar, que o principal critério para a 
mensuração do bem-estar é o florescimento, e que o 
objetivo da psicologia positiva é aumentar esse 
florescimento. A psicologia Positiva é, portanto, uma 
mudança de perspectiva do modelo tradicional de 
psicologia. Ela nasce de uma necessidade de se investigar 
as origens da saúde, ao invés de buscar o que há de 
Evandro Borges 
34 
 
"doente" nas pessoas (SELIGMAN, 2004). Mudança de 
perspectiva, me refiro a uma perspectiva angular, a forma 
como a enxergamos, uma nova postura frente ao modelo 
tradicional. Esse é um desafio. 
Um exemplo prático explica bem essa perspectiva: 
Se um paciente é diagnosticado com depressão, é bem 
provável que durante o processo psicoterapêutico o foco 
principal seja investigar a origem de sua depressão e, 
consequentemente, promover uma intervenção com o 
objetivo de aliviar os sintomas. Obviamente, havemos de 
considerar que a depressão pode ser proveniente de 
inúmeros fatores clínicos. Então, em uma escala de 1 a 
10, onde 1 representa pouco depressivo e 10 muito 
depressivo, o foco da intervenção tende a regredir de 10 
para 1. A Escala de Depressão de Beck (1988), onde 
avaliam-se os graus de depressão de um indivíduo por 
sintomas como tristeza, insatisfação, pessimismo, senso 
se fracasso, culpa, dentre outros, possibilitou uma 
verdadeira revolução no diagnóstico de depressão, mas há 
uma pergunta a se fazer, especialmente no que diz 
respeito às escalas e inventários diagnósticos. Seria a 
depressão apenas uma consequência da presença de 
aspectos negativos na vida do indivíduo, ou seria também 
decorrente da ausência de aspectos positivos? Portanto, 
pergunto-me se não poderíamos tratar determinados 
casos de depressão promovendo mudanças de 
Psicologia Positiva: uma mudançade perspectiva 
 
35 
 
comportamento que introduzissem tais aspectos positivos 
ausentes, ao invés de somente tentar amenizar aspectos 
negativos presentes. Aqui o foco seria a potencialização 
do que ainda há de saudável no indivíduo, explorando 
suas forças pessoas, ao passo que a outra alternativa seria 
a de minimizar o que há de "doente". 
De certa forma, minha relação com a psicologia e 
com as pessoas mudou. Se antes eu era um acadêmico 
preocupado em manter uma postura sempre vigilante, 
tentando avaliar o que havia de ‘errado’ em meu 
comportamento cotidiano, fora da academia ou da clínica, 
incorporando o psicólogo 24 horas por dia e 7 dias por 
semana, hoje levo uma vida absolutamente normal, 
separando a profissão de minha vida pessoal. É uma tarefa 
difícil, eu sei. Não é fácil desvincular-se completamente 
do que trabalho e do que é pessoal, mas o estado de 
vigília, de sempre se policiar, de analisar, mesmo que de 
maneira não intencional, as pessoas à sua volta, acaba 
gerando ansiedade. E isso de certa forma afeta a saúde do 
psicólogo, afeta suas emoções, faz com que o indivíduo 
abdique de sua liberdade de viver a vida como um ser 
humano qualquer, afinal, não somos deuses e nem 
detentores de poderes sobrenaturais. Estamos sujeitos a 
alterações de humor, emoções, problemas do dia-a-dia, e 
precisamos encontrar uma forma de deixar estes 
problemas em casa, da mesma forma que precisamos 
Evandro Borges 
36 
 
deixar o psicólogo ou a psicóloga no trabalho, na 
faculdade, na clínica e onde quer que a condição exija que 
sejamos psicólogos atuantes. E utilizo uma matemática 
simples, apenas dividindo as 24 horas do dia por três. 
Dedico oito horas ao trabalho, oito à família, lazer, 
amigos e afazeres rotineiros e, por fim, oito horas 
dedicadas ao descanso. Não é uma receita de bolo, mas 
isso me proporciona bem-estar, me dá a liberdade de ser 
‘eu mesmo’ quando estou com a família ou amigos, de ter 
um ataque de raiva e não precisar justificar a mim mesmo 
com aquele mantra “Calma Evandro, respira, você é um 
psicólogo, precisa aprender a se controlar”. Sou um 
psicólogo, não um monge budista. E o mais difícil é 
convencer as pessoas mais próximas de que você, além de 
psicólogo, é um ser humano qualquer, como elas. E há o 
velho estigma de que ‘todo psicólogo é meio louco’, já 
ouvi isso de diversas pessoas, e não foram poucas. Eu 
diria que a questão é muito mais complexa do que se 
imagina. Devemos admitir que o modelo de ‘doença’ com 
o qual estamos habituados nos afeta diretamente. E estar 
imerso em um ambiente adoecido, onde acreditamos fazer 
parte de uma relação de transferência e 
contratransferência, nos torna vulneráveis e até mesmo 
doentes, padecendo dos próprios males que tentamos 
solucionar. 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
37 
 
Recebo diariamente dezenas de e-mails de 
profissionais psicólogos e acadêmicos com os mais 
variados tipos de perguntas. Me esforço para responder a 
todos, mesmo que em poucas palavras. E uma pergunta, 
em especial, me deixou bastante intrigado, e ela partiu de 
um profissional recém formado. “Evandro, como devo me 
comportar nas redes sociais, o que você me aconselharia a 
fazer, qual postura devo adotar?”. Isso me intrigou, pois 
as redes sociais são espaços públicos e há toda uma 
preocupação em construirmos uma imagem profissional 
positiva 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
38 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
39 
 
Capítulo 3 
 
 
Como surgiu a psicologia positiva? 
 
 
Para Hutz (2014) essa é uma questão controversa e 
que tem gerado bastante polêmica. No ano 2000, 
Seligman e Csikszentmihalyi publicaram um artigo 
intitulado “Positive Psychology: an introdution”, na 
American Psychologist, onde afirmaram que desde a 
Segunda Guerra Mundial o foco da psicologia teria sido 
curar e reparar danos. Esse foco, quase exclusivamente 
curativo, ressaltam os autores, fez com que se olhasse 
pouco para os aspectos positivos que também são parte 
do sujeito e das comunidades. Tais aspectos teriam então 
sido negligenciados por um longo período, tornando a 
visão da psicologia incompleta. Com base em tais 
argumentos, os autores propuseram que o objetivo da 
psicologia positiva é promover um ajuste no foco da 
psicologia para que aspectos saudáveis também recebam 
atenção. "Dessa maneira, percebe-se que tanto a 
psicologia voltada à cura e à reparação do que precisa ser 
mais bem ajustado quanto a psicologia que se volta ao 
estudo das qualidades e das características positivas do 
Evandro Borges 
40 
 
ser humano são aspectos importantes e merecem atenção 
(HUTZ, 2014, p.13). 
"Desde 11 de setembro de 2001, tenho pensado na 
importância da Psicologia Positiva. Em tempos 
intranquilos, a compreensão e o alívio do sofrimento 
impedem a compreensão e a construção da felicidade? 
Acredito que não. Pessoas sem recursos, deprimidas ou 
com impulsos suicidas têm preocupações que vão muito 
além do alívio de seu sofrimento. Essas pessoas se 
preocupam — muitas vezes desesperadamente — com 
virtude, propósito, integridade e significado. As 
experiências que induzem emoções positivas fazem as 
emoções negativas se dissiparem rapidamente. As forças e 
virtudes, como veremos, funcionam como um para-
choque contra a infelicidade e as desordens psicológicas, e 
podem ser a chave da resistência. Os melhores terapeutas 
não curam simplesmente os sintomas; eles ajudam a 
construir forças e virtudes. [...] A Psicologia Positiva leva 
a sério a esperança de que, caso você se veja preso no 
estacionamento da vida, com prazeres poucos e efêmeros, 
raras gratificações e nenhum significado, existe uma 
saída. Esta saída passa pelos campos do prazer e da 
gratificação, segue pelos planaltos da força e da virtude e, 
finalmente, alcança os picos da realização duradoura: 
significado e propósito (SELIGMAN, 2004, p.14). 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
41 
 
Psicologia Positiva vs Psicologia Humanista 
 
Rich (2001 apud HUTZ, 2014) afirma que Carl 
Rogers e Abraham Maslow já trabalhavam com tópicos 
bastante próximos aos discutidos pela psicologia positiva, 
e defende que a psicologia positiva tem suas raízes na 
psicologia humanista. Assim, a psicologia positiva não 
seria um novo movimento, mas o florescimento de algo já 
iniciado muitos anos antes. Mas apesar de existirem 
diversas semelhanças e conexões entre a psicologia 
humanista e a psicologia positiva, estas seriam, segundo 
Rich, aparentemente negligenciadas, havendo poucas 
referências humanistas nos artigos de psicologia positiva. 
O fato a ser levado em consideração é que há semelhanças 
nas mudança de perspectivas de ambas as vertentes, tanto 
positiva quanto humanista. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
42 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
43 
 
Capítulo 4 
 
Bem-estar versus doença 
 
Bem-estar é um construto, e felicidade é uma coisa, 
afirma Seligman. Para o autor, uma “coisa real” é uma 
entidade diretamente mensurável. E portanto, uma tal 
entidade pode ser “operacionalizada”, ou seja, pode ser 
definida por um conjunto muito específico de medidas. A 
teoria da felicidade autêntica apresentada por Seligman, 
inicialmente deu-se como tentativa de explicar uma coisa 
real, a felicidade, que poderia ser definida pela satisfação 
com a vida, com uma escala de 0 a 10 onde o indivíduo 
poderia mensurar seus níveis de satisfação. De acordo 
com a teoria da felicidade autêntica, pessoas que 
possuíssem o máximo de emoções positivas, o máximo de 
engajamento e o máximo de sentido seriam as mais 
felizes e, portanto, teriam o máximo de satisfação com a 
vida. A teoria do bem-estaré fruto de uma revisão do 
próprio Dr. Seligman, e nega que o tema da psicologia 
positiva seja uma coisa real. O tema agora passa a ser um 
construto, o bem-estar, que agrega diversos elementos 
mensuráveis, “sendo cada um deles uma coisa real, cada 
um deles contribuindo para formar o bem-estar, mas 
nenhum deles o definindo (SELIGMAN, 2011, p.25)". 
Evandro Borges 
44 
 
 
Passareli e Silva (2007) apontam que diferentes 
dados disponíveis na literatura científica sugerem que o 
bem-estar leva ao desenvolvimento de boas relações 
sociais e não é meramente seguido por elas. Pesquisas de 
Burman e Margolin (1992 apud PASSARELI e SILVA, 
2007) sugerem que muitos estudos têm indicado que, 
comparadas às pessoas solteiras, pessoas casadas têm 
melhor saúde física e psicológica, além de viverem mais. 
Confirmando esses estudos, prosseguem os autores, 
evidências experimentais indicam que as pessoas tendem 
a apresentar sofrimento quando não fazem parte de 
nenhum tipo de grupo ou quando têm relações pobres 
dentro dos grupos a que pertencem, os levantamentos 
foram feitos por Diener e Seligman (2004). Verificou-se, 
desta forma, que participar de grupos, como grupos de 
amigos, de trabalho, de apoio, é um fator favorável para o 
bem-estar subjetivo. 
Estudos conduzidos por diversos autores 
constataram que felicidade, ou bem-estar subjetivo, não 
significariam apenas a ausência de depressão, mas 
também a presença de um número de emoções e estados 
cognitivos positivos (Joseph, Linley, Harwood, Lewis & 
McCollam, 2004). Segundo Diener, Suh e Oishi (1997), o 
campo do bem-estar subjetivo inclui os estados 
indesejáveis tratados pelos psicólogos clínicos, embora 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
45 
 
não se limite apenas ao estudo desses estados 
indesejáveis. Para esses autores, o bem-estar subjetivo 
também se refere aos fatores que diferem as pessoas 
ligeiramente felizes daquelas moderadamente e 
extremamente felizes (PASSARELI e SILVA, 2007). 
 
De acordo com Ferreira e Ramos (2007), Bem-
Estar Psicológico (BEP), traduz a avaliação subjetiva que 
os indivíduos fazem das suas vidas, incluindo conceitos 
como a satisfação com a vida, a felicidade, as emoções 
agradáveis, os sentimentos de realização pessoal e de 
satisfação com o trabalho e a qualidade de vida, em 
detrimento de sentimentos negativos e desagradáveis. 
Desta forma, representa a avaliação acerca das suas vidas, 
em um dado momento e ao longo da vida, não 
significando propriamente saúde psicológica, mas 
refletindo um aspecto de bem-estar necessário (Diener & 
Scollon, 2003; Albuquerque & Tróccoli, 2004). 
Compreende-se também que a procura do bem-estar 
psicológico revela ser um elemento preventivo da saúde. 
A Organização Mundial de Saúde (1978) ressalta 
que “saúde – estado de completo bem-estar físico, mental 
e social, e não simplesmente a ausência de doença ou 
enfermidade - é um direito humano fundamental, cuja 
realização requer a ação de muitos outros setores sociais e 
econômicos, além do setor da saúde.” 
Evandro Borges 
46 
 
Já o conceito de doença é, segundo Perrez, Meinrad 
et al (2005), complexo e multifacetado. Porém, para 
efeito de aplicação destes conceitos na psicologia positiva, 
devemos levar em consideração o conceito 
biopsicossocial, ou seja, que englobam fatores, de acordo 
com os autores: 
a) Biológicos, como por exemplo, a predisposição genética 
e os processos de mutação que determinam o 
desenvolvimento corporal em geral, o funcionamento 
do organismo e o metabolismo, etc.; 
b) Os fatores psicológicos, como preferências, 
expectativas e medos, reações emocionais, processos 
cognitivos e interpretação das percepções, etc.; 
c) Os fatores socioculturais, como o convívio interpessoal, 
expectativas da sociedade e do meio cultural, influência 
do círculo familiar, de amigos, modelos de papéis 
sociais, etc. 
Para Novaes (1976), saúde e doença são muito 
mais valores sociais, historicamente colocados, do que a 
simples expressão da situação biológica do organismo, em 
um meio dado e, portanto, devem ser pensados em 
termos de sua historicidade. Rouquayrol (1983), 
considerando que a doença ocorre num dado ambiente, 
enfatiza que "o estado final provocador de uma doença é 
resultado da sinergização de uma multiplicidade de 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
47 
 
fatores políticos, econômicos, sociais, culturais, 
psicológicos, genéticos, biológicos, físicos e químicos." 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
48 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
49 
 
Capítulo 5 
 
Os 5 Pilares da Psicologia Positiva – O 
Modelo PERMA 
 
 
 
O Modelo PERMA foi desenvolvido pelo psicólogo 
norte americano Martin Seligman e publicado em seu 
livro “Florescer – Uma nova compreensão sobre a 
natureza da felicidade e do bem-estar (Rio de Janeiro: 
Objetiva, 2011)”. Conhecida como Teoria do Bem-Estar, 
"PERMA" representa os cinco elementos essenciais que 
devem estar presentes para que seja possível adquirir 
experiências de um bem-estar efetivo e duradouro. O 
modelo é o núcleo central de toda a psicologia positiva, 
embora novas pesquisas estejam agregando novos 
conceitos ao modelo vigente. De forma sucinta, veremos 
um resumo de cada elemento do modelo, visto que 
dedicarei os próximos volumes da Série Positiva 
Evandro Borges 
50 
 
Psicologia para abordá-los de uma forma mais abrangente. 
5
 
6
 
7
 
 
PERMA 
 
 
 P - Positive Emotions - Emoções positivas; 
 E - Engagement (or flow) – Engajamento, Fluidez; 
 R - Relationships - Relacionamentos Sociais Positivos; 
 M - Meaning (and purpose) - Sentido no viver; 
Propósito; 
 A - Accomplishment – Realização; Persistência; Metas. 
 
 
 
 
 
 
5 Seligman, M. E. P. Florescer - uma nova e visionária interpretação 
da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. 
6
 Seligman, M. E. P. Felicidade Autêntica. Rio de Janeiro: Objetiva, 
2004. 
7
 Seligman, M. E. P. & Csikszentmihalyi, M. (2001). Positive 
psychology: an introduction. American Psychologist, 55(1), 5-14, 
2001. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
51 
 
 
 
 
Para a psicologia positiva, seja na aplicação clínica, 
em psicoterapia, no contexto educacional ou ocupacional, 
nossa ‘bússola’ será o Modelo PERMA. Em outras 
palavras, os cinco elementos descritos acima, bem como 
seus derivados, no caso das emoções positivas, serão 
nossos objetos de investigação em relação ao indivíduo e 
às organizações. O Projeto Positiva Psicologia, como 
mencionei no início deste livro, irá abordar os cinco 
pilares da Psicologia Positiva separadamente, ou seja, a 
intenção é aprofundar cada elemento do modelo 
separadamente, em volumes separados. Apresento-vos 
uma prévia a seguir. 
Evandro Borges 
52 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
53 
 
Emoções Positivas (P) 
 
 
 
Um dos cinco pilares centrais da psicologia positiva 
são as Emoções Positivas. Para tanto, devemos 
compreender, inicialmente, o que são emoções, suas 
raízes biológicas, bem como as reações fisiológicas, ou 
seja, a maneira como sentimos as emoções e o impacto 
das mesmas em nossas relações com os outros. 
 O termo “emoção” origina-se do latim “ex 
movere”, que significa, literalmente, “em movimento”. Se 
sorrimos, se choramos, se pulamos de alegria, se 
corremos de medo, se sentimos um frio na barriga ou 
ficamos pálidos diante de um acontecimento, ou corados 
Evandro Borges 
54 
 
de timidez, o termo faz todo sentido. Nosso corpo, 
mesmo que esteja aparentemente em repouso, move-se 
internamente. No entanto, há uma distinçãoentre 
emoção e sentimento, afirma Goleman (2001). Para o 
autor, sentimentos são informações que seres biológicos 
são capazes de sentir nas situações que vivenciam, isso 
porque, conforme observado, é um estado psico-
fisiológico. Já o sentimento seria a emoção filtrada através 
dos centros cognitivos do cérebro, especificamente o lobo 
frontal, produzindo uma mudança fisiológica em 
acréscimo à mudança psico-fisiológica. Portanto, o 
sentimento seria uma consequência da emoção com 
características mais duráveis. Todavia, existem algumas 
relações entre sentimentos e emoções, as emoções, por 
exemplo, podem ser públicas, ou seja, notáveis, enquanto 
que os sentimentos podem ser privados. Para Goleman, a 
emoção é inconsciente e o sentimento, pelo contrário, 
consciente. 
De acordo com Casanova e Siqueira (2009), desde 
a Grécia Antiga até meados do século XIX, filósofos, 
psicólogos e pensadores acreditavam que as emoções 
eram instintos básicos que deveriam ser controlados sob 
pena de o homem ter sua capacidade de pensar 
seriamente afetada. Até meados do Século XX, o tema 
“emoção” foi parcialmente esquecido por influência do 
pensamento cartesiano. Mas é no início do Século XX que 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
55 
 
o tema ressurge sob uma nova perspectiva. Cientistas de 
todo o mundo e de diversas áreas do conhecimento 
despertaram para o fato de que as emoções influenciam 
na capacidade do indivíduo de se relacionar com o meio 
em que vive. Além disso, estudos recentes demonstraram 
que as emoções influenciam diretamente em nosso 
sistema imunológico. O estresse, por exemplo, pode 
originar-se de fatores emocionais. 
Para o psicólogo e médico francês, Henri Wallon 
(1975), a emoção tem dupla origem. É tanto biológica 
quanto social. Em sua Teoria das Emoções ele destaca o 
importante papel dos laços de afetividade e ressalta que as 
emoções também possuem funções determinantes na 
garantia da sobrevivência da espécie humana. Para 
Wallon, é na convivência com o outro e com o grupo 
social que aprendemos a identificar, nomear e lidar com 
nossas emoções, aprender a estabelecer relações de 
reciprocidade, de cooperação, de rivalidade, 
desenvolvendo assim, nossa sociabilidade. 
 
Inteligência Emocional 
 
Ao longo da história, pesquisas significativas 
permitiram uma maior compreensão do intelecto 
humano. E munidos de bases mais apuradas, alguns 
autores passaram a desenvolver conceitos em torno da 
Evandro Borges 
56 
 
inteligência e todas as suas vertentes. Em 1920, 
Thorndike usou o termo “inteligência social” para 
descrever a habilidade de se relacionar com outras 
pessoas. Gardner, (1989), formulou a ideia de 
“inteligências múltiplas”, incluindo a inteligência 
interpessoal e a inteligência intrapessoal. Em 1985 surge 
o conceito de “inteligência emocional”, criado por Wayne 
Payne e, consequentemente aprofundado por Daniel 
Goleman, em 1995, ganhando projeção mundial. Tal 
conceito sustenta que “inteligência emocional” é um tipo 
de inteligência que envolve as habilidades para perceber, 
entender e influenciar as emoções. Para Goleman (2006), 
nossas emoções guiam-nos quando temos de enfrentar 
situações e tarefas muito importantes para serem 
deixadas apenas a cargo do intelecto. Cada emoção 
representa uma diferente predisposição para a ação, 
afirma o autor. Inteligência Emocional (IE), também pode 
ser compreendida como a capacidade de se autoconhecer, 
lidar bem consigo, conhecer e lidar bem com os outros, 
seja nos relacionamentos familiares, sociais ou 
profissionais. A inteligência emocional, portanto, 
caracteriza a maneira como cada indivíduo lida com suas 
emoções e com as emoções que o rodeiam. Em suma, 
abrange tudo o que está relacionado com a capacidade de 
perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, 
compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
57 
 
e nos outros. Já a habilidade de reconhecer o que os 
outros sentem é denominada “empatia”, que tem origem 
na autoconsciência, sendo a base da IE, ou seja, 
reconhecer um sentimento no momento em que ele 
ocorre é um fator determinante, darei um breve exemplo: 
 
Paulo ama sua esposa, e ela também o ama, estão casados 
há cinco anos e a relação estava indo bem, até Paulo 
começar a ter problemas no trabalho. Ao que parece, a 
empresa pretende fazer uma redução de quadro e o nome 
de Paulo está na lista de demissão. Com dívidas à pagar, 
ele passou a ficar estressado com frequência. E na sexta-
feira, ao final do expediente, chegou em casa cabisbaixo. 
Sua esposa lhe perguntou o que havia acontecido. E ele 
teve um surto de raiva, agredindo-a verbalmente. 
 
Se Paulo adquirisse a capacidade de reconhecer que está 
estressado por conta do trabalho no momento em que 
chegasse em casa, não descontaria sua raiva na esposa. 
Essa é a base do “equilíbrio emocional”. Lembram 
daquele velho conselho, “Respire fundo e conte até 10? 
Faz parte do senso comum, mas pode ser útil. A 
respiração alivia a ansiedade e tensão do corpo e os 10 
segundos são suficientes para refletir sobre qual postura 
tomar diante de uma situação complicada. O pensamento 
precede a ação, mesmo que por frações de segundos. 
Evandro Borges 
58 
 
Portanto, toda a ação sóbria e lúcida é consciente e 
intencional. A ideia de que certas ações sejam frutos de 
impulsos do inconsciente tira do sujeito a 
responsabilidade por seus atos. De protagonista, passa a 
ser vítima. Esse talvez tenha sido o motivo central de meu 
ponto de ruptura com a psicanálise, apesar de reconhecer 
que a psicanálise é uma faculdade independente e que 
somente psicanalistas possuam capacitação suficiente 
para aplicá-la. A mim, resta-me a atitude nobre de 
recolher-me à seara de minha capacitação. Não incentivo 
e nem encorajo que adeptos da psicologia positiva tomem 
como descartáveis os conhecimentos advindos de outras 
correntes de pensamento. Muito pelo contrário. Até que 
se refute uma teoria através do método científico, ela 
continua sendo válida. 
 
No entanto, a emoção não tem sempre este caráter 
negativo ou explosivo, como no surto imprevisível de 
Paulo. Alguém que está apaixonado, por exemplo, pode 
experimentar emoções maravilhosas, mas sentir ciúmes e 
insegurança ao mesmo tempo. Para que possamos 
aprender a regular atitudes impulsivas, devemos aprender 
a escoar nossas emoções, mas nunca represá-las. Utilizar 
de recursos físicos ou representacionais parece ser a 
forma mais eficiente: 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
59 
 
Todo aquele que observa, reflete ou mesmo imagina, 
abole de si mesmo a perturbação emocional. Não nos 
livramos da emoção apenas ao reduzi-la às suas 
corretas proporções, mas sim, e principalmente, pelo 
esforço para representá-la" (WALLON, 1995, p. 86). 
 
Uma ampla gama de emoções positivas se 
relacionam com o bem-estar, como paz, gratidão, 
satisfação, prazer, inspiração, esperança, curiosidade ou 
amor. Na psicologia positiva, o primeiro ponto de partida 
para uma intervenção psicológica de uma determinada 
demanda de um cliente deve ser, ao contrário da 
psicologia tradicional, que procura investigar a presença 
de experiências dolorosas e negativas, a investigação da 
presença ou ausência de experiências positivas. 
Devemos nos lembrar de que o corpo precisa 
absorver as emoções e dissipá-las naturalmente. Tal 
processo também faz parte do processo de homeostase, 
uma vez que as emoções dependem de estímulos 
neurológicos e descargas de neurotransmissores, como a 
endorfina, noradrenalina, a acetilcolina e a dopamina. 
Quando há o desequilíbrio emocional, há também o 
desequilíbrio hormonal. E não podemos tratar das 
questões hormonais com menor relevância, algo que a 
psicologia tradicional aparentemente tem menosprezado. 
As mulheres,por exemplo, são mais suscetíveis à 
mudanças bruscas de humor devido ao ciclo menstrual, e 
Evandro Borges 
60 
 
não é raro que uma mulher comece a chorar do nada, sem 
motivo aparente durante o período de tensão pré-
menstrual. Tais mudanças bruscas de humor ocorrem 
devido às alterações hormonais do corpo. Já o homem 
pode irritar-se com maior facilidade, chegando a perder o 
controle emocional e até mesmo agir com agressividade. 
Isso se deve a uma alta concentração do hormônio 
testosterona, que em homens adultos possui níveis cerca 
de 7 a 8 vezes mais altos do que em mulheres
8
. 
Não estou afirmando, com isto, que as mulheres 
estão em desvantagem emocional, muito pelo contrário, 
as mulheres possuem capacidades neurológicas e 
cognitivas relativamente significativas que permitem-nas 
gerenciar emoções com maior facilidade que os homens. E 
não somente emoções, mas conflitos sociais provenientes 
de conflitos emocionais. Para a psicóloga norte-americana 
Janet Hyde, professora de Psicologia e Estudos da Mulher 
na Universidade de Wisconsin-Madison , conhecida por 
suas mais recentes descobertas sobre sexualidade 
humana, diferenças entre os sexos e desenvolvimento de 
gênero, enquanto que os homens têm força corporal para 
 
8 Taieb J, Mathian B, Millat F, Patricot M-C, Mathieu E, 
Queyrel N, et al. Testosterone measured by 10 immunoassays and by 
isotope-dilution gas chromatography–mass spectrometry in sera from 
116 men, women, and children. Clin Chem 2003;49:1381-1395 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
61 
 
competir com outros homens, as mulheres usam a 
linguagem para conseguir vantagens sociais, através da 
argumentação e persuasão. 
Hyde (2005) afirma que o cérebro masculino, no 
início da vida, desenvolve-se sob uma alta presença de 
hormônios androgênicos, enquanto que o cérebro 
feminino se desenvolve através de estrógenos pela falta de 
androgênios. Voltando às diferenças propriamente ditas 
entre os “diferentes” cérebros, existe um feixe de fibras 
nervosas que liga os dois hemisférios do cérebro e é 
considerado o ponto essencial do desenvolvimento 
intelectual, este feixe é maior nas mulheres. Enquanto 
que as mulheres usam várias partes do cérebro para 
resolverem determinadas questões, os homens pensam 
com regiões mais específicas do cérebro
9
. Se 
substituíssemos todos os membros do Conselho de 
Segurança da ONU por mulheres, por exemplo, a 
possibilidade de ainda haverem conflitos armados no 
mundo seria remota e os arsenais nucleares seriam 
desmantelados. Em abril de 2017, por exemplo, um grupo 
de ativistas fundou o ICAN - International Campaign to 
Abolish Nuclear Weapons (Campanha Internacional para 
a Abolição das Armas Nucleares), em Melbourne, 
 
9 Vieira, A., Moreira, J. I., & Morgadinho, R. (2008). Inteligência 
Emocional Cérebro Masculino Versus Cérebro Feminino. Universidade de 
Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal). 
Evandro Borges 
62 
 
Austrália e, posteriormente em Viena, Áustria. Em 2017 o 
ICAN já conta com cerca de 468 organizações parceiras e 
está presente em 101 países10. Em 2017 o ICAN recebeu o Prêmio 
Nobel da Paz. O ICAN é dirigido por Beatrice Fihn, uma jurista 
sueca de 36 anos formada em relações internacionais e ex-membro 
da Women's International League for Peace and Freedom - 
WILPF (Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade). O 
Comitê de Gestão Internacional da campanha sem fins lucrativos 
registrada na Suíça é composto por Susi Snyder (presidente), 
Josefin Lind (secretária) e Celine Nahory (tesoureira). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
10 ICAN (December 23, 2016). "UN General Assembly approves 
historic resolution". www.icanw.org. ICAN. Retrieved 12 January 2017. 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
63 
 
 
Engajamento ou Fluidez (E) 
 
 
Quando estamos verdadeiramente empenhados em 
uma situação, projeto ou atividade, nós experimentamos 
um estado de fluidez: o tempo parece parar, esquecemos 
os problemas comuns, nos concentramos intensamente 
no presente. Quanto mais experimentamos este tipo de 
concentração, mais provável é que a experiência de bem-
estar aumente. Enquanto escrevo este livro, perco, por 
vezes e sem me dar conta disso, a noção de tempo. É 
como se o tempo parasse para mim, como se eu estivesse 
desconectado do mundo e minha mente estivesse voltada 
Evandro Borges 
64 
 
apenas ao que escrevo. É o que considero ser meu estado 
máximo de fluidez. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
65 
 
 
Relacionamentos Positivos (R) 
 
 
 
Como seres humanos, somos "seres sociais", e 
dentro desse contexto, os relacionamentos positivos são 
fundamentais para o nosso bem-estar. Muitas pesquisas já 
demonstraram que pessoas envolvidas em 
relacionamentos significativos e positivos são mais felizes 
que as demais. Os relacionamentos realmente importam! 
Com o advento da tecnologia e o surgimento das 
redes sociais na virada do Século XXI, surgiram também 
os relacionamentos virtuais, dentro das chamadas 
Evandro Borges 
66 
 
comunidades virtuais ou ciberespaços, que 
proporcionaram os mais diversos tipos de relações sociais. 
Dentro destas comunidades virtuais são partilhados 
valores, sentimentos, gostos em comum, críticas, 
manifestações políticas, dentre uma infinidade de outros 
tipos de interações. E acredito que o mundo virtual tem 
afetado significativamente o comportamento das pessoas, 
seja de uma forma positiva, proporcionando novas 
experiências e ampliando círculos de amizades, ou até 
mesmo negativamente, condicionando o indivíduo ao 
isolamento no mundo real e interativo no mundo virtual. 
Não é uma afirmativa, mas a psicologia deve estar 
preparada para lidar com as novas demandas advindas da 
era tecnológica. E esse assunto carece de pesquisas mais 
aprofundadas. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
67 
 
Sentido no viver, significado ou propósito (M) 
 
 
O sentido no viver, geralmente vem de servir a uma 
causa maior que nós mesmos. O encontro de um sentido 
para o que fazemos pode vir de uma crença, uma religião, 
uma causa humanitária ou um simples objetivo, desde 
que seja significativo para o indivíduo. As pessoas tendem 
a procurar por um sentido em suas vidas, um propósito, 
uma resposta que dê sentido à própria existência. Muito 
do que conhecemos como angústia, tema que foi 
amplamente estudado no último século, incluindo 
depressão, ansiedade, insônia, fobia social e síndrome do 
pânico, dentre outras sintomas, parecem ser advindos de 
Evandro Borges 
68 
 
duas fontes distintas: o medo de viver e o medo de 
morrer. O medo de viver está aparentemente relacionado 
aos sintomas da angústia e depressão, enquanto o medo 
de morrer parece estar relacionado a comportamentos de 
fuga e esquiva, um mecanismo de defesa inato, presente 
nos sintomas da fobia social, síndrome do pânico, dentre 
outros. Para o Dr. Viktor Frankl (2012), psiquiatra 
austríaco e idealizador da Logoterapia, a angústia é 
sofrimento sem sentido. A Logoterapia, segundo Frankl, 
concentra-se no sentido da existência humana, bem como 
na busca do indivíduo por um sentido no viver. O autor 
também aborda alguns outros temas, como esperança, 
objetivos e metas de vida, espiritualidade, altruísmo, 
sentimento de pertencer a uma comunidade, de ser 
acolhido e colaborar para o desenvolvimento do bem-estar 
coletivo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
69 
 
Realização (A) 
 
 
 
Muitos de nós dedicamos esforços para melhorar a 
nós mesmos de alguma forma, seja procurando dominar 
uma habilidade ou alcançarum objetivo significativo. 
Como tal, a realização é uma outra coisa importante e 
contribui para nosso bem-estar e nossa capacidade de 
florescer.
11
 
Realização pessoal é algo subjetivo e pode variar de 
pessoa para pessoa. Na antiguidade, diversos filósofos 
gregos refletiram sobre o conceito de realização pessoal, 
 
11 Munhoz, Fábio. Introdução à Psicologia Positiva. Centro de 
Estudos em Terapia Cognitivo-Comportamental, 2016. 
 
Evandro Borges 
70 
 
com um grande destaque para Aristóteles
12
, que dedicou 
boa parte de sua vida ao propósito de desvendar o real 
objetivo da vida humana. Segundo o filósofo, esse 
objetivo seria o de alcançar a felicidade a fim de se atingir 
a realização pessoal. No entanto, há, hoje em dia, 
reflexões diversas sobre o real significado de realização 
pessoal. E interessa-nos aqui a reflexão de um psicólogo 
que, a meu ver, lançou as bases para uma psicologia mais 
humana e voltada para as potencialidades humanas. 
Refiro-me a Abraham Maslow (1943), que desempenhou 
um papel fundamental na reformulação da psicologia 
como ciência das potencialidades, e dedicou longos anos 
de pesquisas ao estudo das motivações humanas. 
 
A Teoria da Hierarquia de Necessidades de 
Maslow, também conhecida como A Pirâmide de Maslow, 
afirma que os seres humanos possuem necessidades que 
obedecem a um nível hierárquico. Na base da pirâmide 
estão as necessidades básicas e fisiológicas, como comer, 
beber, dormir, respirar, ter relações sexuais, manter o 
organismo em homeostase e, por fim, sobreviver. Uma 
vez que as necessidades básicas são atendidas, a 
motivação se desloca para o próximo nível da pirâmide, 
 
12 Aristóteles. Ética a Nicômaco. 2.ed. Editora Universidade de 
Brasília. 1985. 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
71 
 
onde o indivíduo busca segurança pessoal, como moradia, 
saúde, segurança do corpo, emprego e recursos para 
manter-se. 
 
 
No terceiro estágio, de acordo com Maslow, a 
motivação do indivíduo estaria voltada às necessidades de 
afeto, como amor, intimidade, relacionamentos, amizades 
e afeto familiar. No quarto estágio a motivação estaria 
voltada aos sentimentos de estima, autoestima, confiança, 
conquista e respeito mútuo. Por último, no topo da 
pirâmide, a motivação estaria dirigida à realização pessoal 
ou autorrealização. 
 
Evandro Borges 
72 
 
Maslow (1943) afirma que a autorrealização 
somente pode ser atingida quando o indivíduo é capaz de 
suprir as necessidades anteriores. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
73 
 
Capítulo 6 
 
 
O Papel das Emoções Positivas no 
processo psicoterapêutico 
 
 
 
Estudos de Silvestre e Vandenberghe (2013) 
constataram que tradicionalmente a psicologia clínica se 
interessou mais pelas emoções negativas do que pelas 
positivas. Os autores ressaltam que no trabalho com 
pessoas que enfrentam, às vezes, um sofrimento 
profundo, esse viés faz sentido. Porém, os mesmos 
Evandro Borges 
74 
 
identificaram que trabalhos recentes têm chamado a 
atenção para o papel das emoções positivas no processo 
psicoterapêutico (Fizpatrick e Stalikas, 2008; Dick-
Niederhauser, 2009; Hayes et al., 2011; Vandenberghe e 
Silvestre, 2013). 
 Os autores advertem, porém, que é interessante 
observar que todos se referem a uma base de dados de 
pesquisa experimental, em parte já antiga. Trata-se, 
segundo eles, de uma tradição de trabalhos experimentais 
acerca dos benefícios das emoções positivas que foi 
iniciada por Alice Isen e continuada sob a liderança de 
Barbara Frederickson, que até recentemente continuou 
despercebida ou desconsiderada pelos autores clínicos 
(SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). 
De acordo com os autores, dados provenientes 
desses experimentos são usados como evidência empírica 
para sustentar que emoções positivas desempenham um 
papel central no processo terapêutico. Hayes et al. (2011 
apud SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013) apontam 
que o relacionamento terapêutico pode ser curativo por 
promover emoções positivas no cliente, as quais, por sua 
vez, favorecem o desenvolvimento de recursos pessoais 
que ajudarão o cliente a superar seus problemas. 
Estudos de Fizpatrick e Stalikas (2008) e Dick-
Niederhauser (2009) discutem ainda dinâmicas comuns 
em diferentes tratamentos psicológicos. De acordo com os 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
75 
 
autores, o papel do psicoterapeuta seria o de promover 
experiências nos seus clientes que provoquem emoções 
positivas. As vivências positivas dos clientes em terapia, 
por consequência, passariam a promover novos 
comportamentos e a construção de novos recursos 
pessoais, que por sua vez, conduziriam a novas vivências 
positivas, e assim por diante. As mudanças 
comportamentais podem dar origem à construção de 
novas redes de apoio e a habilidades sociais, que 
continuam à disposição da pessoa muito tempo depois de 
ter cessado a emoção positiva que promoveu a mudança 
(SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). 
Vandenberghe e Silvestre (2013) discutem como 
emoções positivas do terapeuta podem influenciar no 
processo terapêutico. Podem promover mais atenção e 
criatividade na atuação do terapeuta e contribuir para o 
desenvolvimento de habilidades clínicas, além de 
contribuir para o conteúdo da sessão. A compreensão do 
cliente na sua complexidade, como também o 
desenvolvimento de uma sensação de 'nós' (o terapeuta e 
o cliente como uma equipe unida com objetivos e tarefas 
compartilhados) pode ser promovida pelas emoções 
positivas que o terapeuta sente no seu trabalho com o 
cliente. Por outro lado, terapeutas relatam que as 
vivências positivas contribuem para o desenvolvimento de 
novos recursos pessoais e profissionais, incluindo a 
Evandro Borges 
76 
 
expansão do repertório de técnicas terapêuticas, melhor 
regulação das emoções e um melhor sentimento de 
conexão com o cliente. 
 
O Modelo de Emoção em psicologia positiva 
 
De acordo com Gross (2008), o modelo típico de 
emoção utilizado pela psicologia positiva pressupõe que 
uma emoção é evocada por uma situação que exige 
atenção, tem um significado particular para a pessoa e 
desencadeia um conjunto de respostas que se encontram 
programadas em redes neurais ou armazenadas em 
esquemas mentais. Sendo assim, a emoção é vista como 
um programa engatilhado por um evento em que 
informações passam por um processamento automático. 
Um exemplo de modelo típico é o modelo cognitivo de 
Leventhal, amplamente utilizado durante as últimas 
décadas do século XX, sendo representativo de uma 
tendência geral na literatura empírica sobre emoções 
(SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). 
No modelo de Leventhal (1982), um esquema 
emocional é uma estrutura da memória que organiza e 
guia o processamento de novas informações e a 
recuperação das informações já armazenadas durante 
vivências anteriores. O modelo contém três diferentes 
níveis de processamento de informação. São eles: (I) 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
77 
 
imagens e sequências que fizeram parte de vivências de 
uma emoção; (II) comportamentos expressivos e padrões 
de resposta autônomos que caracterizam essa emoção; e 
(III) regras conceituais e proposições sobre como se deve 
reagir nas situações que evocam essa emoção. A vivência 
de uma emoção é entendida como o efeito da ativação de 
tal esquema por informação subjetivamente relevante em 
função das necessidades, dos objetivos e das suposições 
da pessoa. 
Gross (2008) critica o modelo cognitivo de 
Leventhal por apresentar a emoção como um processo 
retilíneo e mecânico. O autor afirma que a vivência 
emocional é muito mais flexível e sujeita à 
intencionalidade. Envolve sistemasde resposta 
coordenados e maleáveis. A pessoa que está sentindo a 
emoção não é passiva. Ela direciona e maneja a emoção 
através de cinco famílias de regulação emocional, seriam 
elas: (I) seleção da situação: a pessoa procura entrar em 
situações (e evitar outras) que forneçam certa emoção; 
(II) modificação da situação: o indivíduo muda a situação 
que evoca a emoção; (III) distribuição estratégica da 
atenção: consiste em mudar o foco para alterar o impacto 
emocional da situação; (IV) mudança cognitiva: elaborar o 
significado da situação de modo que a vivência emocional 
seja alterada; e (V) modulação da resposta: o indivíduo 
reage de maneira diferente a uma emoção, resultando em 
Evandro Borges 
78 
 
uma vivência diferente. Ainda de acordo com Silvestre e 
Vandenberghe (2013), as estratégias de regulação 
descritas por Gross deixam a emoção como algo interativo 
e moldável. 
 
Emoção versus Ação 
 
Frederickson (1998 apud SILVESTRE e 
VANDENBERGHE, 2013) tentou identificar as 
tendências de ação de cada emoção positiva. Frederickson 
apontou que o interesse promove exploração e 
envolvimento. O contentamento inclui uma tendência 
para integrar vivências. O amor, por sua vez, amplia os 
repertórios de curtir e interagir. A alegria inclui a 
tendência de participar em atividades físicas, sociais ou 
intelectuais. Os autores perceberam que as tendências de 
ação ligadas a cada emoção positiva são amplas e difusas, 
enquanto as ligadas às emoções negativas são específicas. 
A falta de especificidade dos efeitos pode ofuscar as 
funções adaptativas que as emoções positivas possuem. 
Frederickson e Levenson (1998) investigaram o 
uso de emoções positivas experimentalmente. Em um 
destes experimentos, participantes assistiram a imagens 
que induziram ao medo, o que foi corroborado pelo relato 
deles e pela constatação de uma ativação cardiovascular 
intensa. Em seguida foram dispostos aleatoriamente em 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
79 
 
quatro grupos para assistir a um de quatro filmes que 
evocavam: contentamento, diversão, tristeza e um era 
neutro. Comparando os grupos, pôde-se notar que os que 
viram os filmes positivos apresentaram uma retomada 
significativamente mais rápida dos níveis prévios de 
atividade cardiovascular. No segundo estudo, os 
participantes foram expostos a um filme eliciador de 
tristeza. A maioria deles sorriu espontaneamente, pelo 
menos uma vez, enquanto assistia a esse filme. Quem 
sorriu apresentou recuperação mais rápida dos níveis 
prévios de ativação fisiológica. Esses resultados apontam 
que emoções positivas combatem efeitos tóxicos de 
emoções negativas ao restaurar o equilíbrio do organismo 
(SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). 
Frederickson et al. (2000 apud SILVESTRE e 
VANDENBERGHE, 2013) verificaram que o efeito 
descrito acima é resultado da positividade e não da 
eliminação do estressor. Primeiro, obtiveram, por indução 
de ansiedade, uma resposta cardiovascular de estresse. 
Em seguida, uma parte dos participantes assistiu a filmes 
que suscitaram emoções brandas de contentamento, 
divertimento, ou tristeza; e outra parte, a um filme 
emocionalmente neutro. Outros participantes receberam, 
depois da indução da resposta de estresse, instruções para 
relaxar e esvaziar a mente de todos os pensamentos, 
sentimentos e memórias. De acordo com os autores, a 
Evandro Borges 
80 
 
indução das emoções positivas brandas acelerou o retorno 
para o estado fisiológico de repouso, enquanto o 
relaxamento e os filmes neutro ou triste não tiveram esse 
efeito. Posteriormente, os participantes que viram os 
filmes que evocaram emoções positivas mostraram 
capacidade de atenção significativamente ampliada num 
teste de processamento de informação visual. Esse efeito 
foi confirmado numa replicação por Frederickson e 
Branigan (2005). 
Segundo Frederickson e Branigan (2005), emoções 
positivas ajudam a pessoa a dar um passo atrás e a 
considerar os problemas em diferentes perspectivas. Os 
autores avaliaram que elas podem, com mais facilidade, 
ver o contexto maior. Assim podem visualizar mais 
possibilidades, o que aumenta a tendência de construção 
abstrata (por exemplo, focando o aspecto "por que" de um 
ato, em vez do aspecto mais concreto "como"). Também 
ajuda a investir a pôr em prática objetivos que a pessoa 
construiu numa forma abstrata (Labroo e Patrick, 2009 
apud SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013). 
 
A consolidação dos efeitos das emoções em longo prazo 
 
De acordo com pesquisas de Frederickson (2001 
apud SILVESTRE e VANDENBERGHE, 2013), as 
emoções positivas promovem o engajamento em 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
81 
 
atividades com outras pessoas, a exploração de novos 
assuntos e aprofundam relações interpessoais. Desta 
forma, a pessoa acumula novas aprendizagens e constrói 
redes sociais. Estes recursos, observam os autores, 
ajudarão a superar momentos difíceis e a crescer no 
futuro. Desse modo, as emoções positivas contribuem 
para a construção da resiliência. A consolidação das 
mudanças em longo prazo é considerada o efeito de um 
movimento em espiral. Frederickson cogita, por exemplo, 
que as emoções positivas ajudam indivíduos a entrar em 
espirais positivos, envolvendo relações causais recíprocas 
entre as emoções positivas de um lado e a ampliação de 
repertórios do outro. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
82 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
83 
 
Capítulo 7 
 
Autoconsciência, autocompaixão e 
autocuidado 
 
 
 
Autoconsciência 
 
Segundo Goleman (2001 apud CONSTANTINO, 
2010), a máxima “conhece-te a ti mesmo”, do filosofo 
Sócrates, é um importante conceito de inteligência 
emocional, que é a consciência de nossos sentimentos no 
momento exato em que eles ocorrem. Esse processo, 
afirma o autor, é denominado de autoconsciência, pois é a 
Evandro Borges 
84 
 
permanente atenção ao que estamos sentindo 
internamente, numa atitude auto reflexiva, que a mente 
observa e investiga o que está vivenciando, incluindo as 
emoções. Para Goleman, a diferença entre estar 
arrebatado por um sentimento e ter a consciência de estar 
sendo arrebatado pelo mesmo, é a diferença entre apenas 
viver as emoções ou tomar consciência das mesmas. Por 
isso, assinala Constantino (2010), “a importância de 
tomar consciência das emoções quando elas ocorrem”. 
Autoconsciência seria, portanto, a atenção permanente ao 
que estamos sentindo internamente. 
O autor defende que a mente humana possui uma 
capacidade de auto reflexão, que observa e investiga o que 
está sendo vivenciado, incluindo as emoções. Essa 
autoconsciência dependeria, no entanto, do neocórtex 
ativado, sobretudo as áreas da linguagem, sintonizado 
para identificar e nomear as emoções despertadas. A 
autoconsciência, de acordo com o autor, não é uma 
atenção que se deixa levar pelas emoções, reagindo com 
exagero e amplificando o que se percebe. Ao contrário, “é 
um modo neutro, que mantém a auto reflexividade 
mesmo em meio a emoções turbulentas” (GOLEMAN, 
2001 apud CONSTANTINO, 2010). 
Goleman observa ainda que os indivíduos tendem a 
adotar estilos para acompanharem e lidarem com suas 
emoções. O autor define tais indivíduos como: 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
85 
 
 
 Autoconscientes, o que os caracteriza como 
conscientes de seus estados de humor e clareza de suas 
emoções. E essa consciência, ressalta o autor, 
administra as emoções do indivíduo, pois são 
autônomas, tornando-os conscientes de seus próprios 
limites, proporcionando uma boa saúde psicológica e 
uma perspectiva positiva sobre a vida. 
 
 Mergulhadas, pessoas imersas em suas emoções e 
incapazes de fugir das emoções e estados de humor, 
como se fossem controladas por elas,instáveis, sem 
consciência dos próprios sentimentos de modo que se 
perdem neles, sem controle emocional. 
 
 Resignadas, pessoas capazes de perceber os estados de 
humor e suas emoções, mas sem a intenção de 
modificá-las. Dessa forma, a autoconsciência emocional 
é a base deste aspecto da inteligência emocional: ser 
capaz de estar atento às emoções e estados de humor, e 
ser capaz de dissipar as emoções perturbadoras e 
humores negativos. 
 
Para Weisinger (2001 apud CONSTANTINO, 
2010, "autoconsciência é o monitorar-se e observar-se em 
ação. Mas pressupõe um conhecimento prévio de si. 
Evandro Borges 
86 
 
Compreender o que o faz agir como age, o que importante 
pra si, a maneira de experimentar as coisas, o que quer 
como se sente e se dirige aos outro". Portanto, assinalam 
os autores, esse conhecimento subjetivo a respeito da 
natureza de sua personalidade não apenas orienta sua 
conduta, mas fornece subsídios sólidos para que 
possamos fazer escolhas melhores. 
Já o conceito de "autoconhecimento” ou “auto 
percepção”, segundo Goleman, é o primeiro componente 
da inteligência emocional. E constitui-se de uma profunda 
percepção das próprias emoções, pontos fortes e fracos, 
necessidades e impulsos. Indivíduos com alto nível de 
autoconhecimento não mostram-se excessivamente 
críticos, nem têm expectativas irreais. São, em vez disso, 
francos consigo mesmos e com os outros. “Quem possui 
elevado nível de autoconhecimento sabe o efeito que seus 
sentimentos têm sobre si mesmo, sobre as outras pessoas 
e sobre seu trabalho (GOLEMAN, 1999, p. 69)". 
A percepção das emoções, segundo Primi (2006 
apud CONSTANTINO, 2010), abrangeria desde a 
capacidade de identificar emoções em si, em outras 
pessoas e em objetos ou condições físicas, até a 
capacidade de expressar essas emoções e as necessidades 
a elas relacionadas, e ainda, a capacidade de avaliar a 
autenticidade de uma expressão emocional, detectando 
sua veracidade, falsidade ou tentativa de manipulação. De 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
87 
 
acordo com Goleman (2001), a autoconsciência é um dos 
aspectos fundamentais da inteligência emocional, e tem 
haver com saber o que se sente no momento em que as 
emoções acontecem. Para o autor, a autoconsciência é 
importante porque permite ao individuo conhecer-se, 
possibilitando a ele também, conhecer e reconhecer seus 
sentimentos e emoções no exato momento em que 
emergem. Conforme Primi (2006 apud CONSTANTINO, 
2010), conhecimento emocional inclui, desde a 
capacidade de nomear as emoções, englobando a 
capacidade de identificar e nomear diferenças e nuances 
entre elas, como por exemplo, gostar e amar, até a 
compreensão de sentimentos complexos, como amar e 
odiar uma mesma pessoa, bem como as transições de um 
sentimento para outro, como a de raiva para a vergonha, 
por exemplo. Na opinião de Goleman (2001), a 
autoconsciência significa uma profunda compreensão de 
nossas próprias emoções, bem como de nossas 
possibilidades, limites e valores. As pessoas dotadas de 
autoconsciência são realistas, pois não pecam pelo 
excesso de autocrítica e nem por nutrirem esperanças 
ingênuas (CONSTANTINO, 2010). 
Autocompaixão 
 
Segundo Gilbert (2005 apud NEVES, 2011), 
autocompaixão implica, estar aberto, atento e sensível ao 
Evandro Borges 
88 
 
nosso próprio sofrimento, quando, por exemplo, este 
surge em situações de fracasso ou adversidades, não o 
evitando, mas recebendo-o abertamente, experienciando 
assim, sentimentos de cuidado e bondade para conosco. 
Implica também abrir mão dos autojulgamentos e a 
adoção de uma postura compreensiva perante a nossa 
experiência, aceitando nossas limitações, imperfeições e 
dificuldades, contextualizando-a e reconhecendo-a 
inevitavelmente, assim, como fazendo parte da 
generalidade de uma experiência humana comum, em que 
muitos outros também agem da mesma forma, passam 
pelos mesmos sofrimentos e sofrem como nós (Neff, 
2003b, 2004, 2008; Neff, Rude, et al., 2007 apud NEVES, 
2011). 
 
Levantamentos feitos por Neves (2011) 
demonstram que pesquisas de Gilbert, Irons e Procter, 
(2004, 2006), verificaram através de registos de diários 
relativos à autocompaixão versus autocríticas, num 
contexto terapêutico focado no desenvolvimento de 
autocompaixão, que um aumento das capacidades de 
autocompaixão estava ligado a uma diminuição de 
depressão, ansiedade, vergonha, sentimentos de 
inferioridade e comportamento submisso. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
89 
 
 Neff (2003a apud NEVES, 2011) introduziu o 
conceito de autocompaixão na psicologia ocidental, 
baseando-se em referencial teórico e empírico da 
psicologia social e da personalidade, desenvolvendo uma 
escala para o medir, de forma a estabelecê-lo como um 
construto psicológico válido que influenciasse o bem-
estar psicológico. De acordo com Neff, autocompaixão 
define-se como uma atitude para conosco, saudável e de 
auto aceitação, representando uma postura calorosa e de 
aceitação perante aspectos de nós mesmos e de nossa 
vida, dos quais não gostamos, mantendo as emoções 
dolorosas sob uma atenção consciente enquanto 
ampliamos sentimentos de cuidado e de bondade para 
conosco. 
 De acordo com Neff (2003a, 2003b, 2008 apud 
NEVES, 2011) a autocompaixão é composta por três 
componentes, que apesar de distintos, interagem entre si: 
 
 
 Compreensão (versus autocrítica); 
 Condição humana (versus isolamento); 
 Atenção Plena (mindfulness) versus (sobre-
identificação). 
 
O construto da autocompaixão, afirma Neves 
(2011), foca-se assim, na postura emocional que o 
Evandro Borges 
90 
 
indivíduo tem perante si quando confrontado com 
dificuldades. Ela seria útil também na regulação 
emocional, favorecendo a saúde mental e o bem-estar. 
Neff, Rude, et al., (2007 apud NEVES, 2011) verificaram 
que o conceito de autocompaixão está negativamente 
associado com o auto criticismo, com a depressão, com a 
ansiedade, com a ruminação, com a supressão de 
pensamento, com o perfeccionismo neurótico e com a 
afetividade negativa em geral. O termo em inglês "self-
pity", traduzido como autopiedade ou autocompaixão é 
amplamente associado a fatores negativos. No entanto, os 
autores salientam que, pelo contrário, a autocompaixão 
estaria positivamente ligada à satisfação com a vida, 
felicidade, inteligência emocional, conectividade social, 
sabedoria, iniciativa pessoal, otimismo, curiosidade e 
exploração, agradabilidade, extroversão, responsabilidade 
e afetividade positiva em geral. Desta forma, a 
autocompaixão, por sua importância para a saúde mental 
dos indivíduos demonstra ser uma características humana 
de extrema relevância. 
 
 
A Teoria do Autocuidado 
 
De acordo com Diógenes e Pagliuca (2003), a 
Teoria de Enfermagem do Déficit de Autocuidado ou 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
91 
 
Teoria Geral de Enfermagem de Orem, é composta de três 
teorias interrelacionadas, ou seja, a do autocuidado, do 
déficit de autocuidado e do sistemas de enfermagem. Para 
efeito de aplicação na psicologia, adentraremos na teoria 
do autocuidado. O conceito de Capacidade de 
Autocuidado serviu de base para a elaboração da 
“Appraisal of Self-care Agency (ASA) Scale”, que foi 
adaptada e validada à cultura brasileira por Silva; Kimura 
(2002), sendo denominada Escala para Avaliar as 
Capacidades de Autocuidado (EACAC). De acordo com 
os autores, a estrutura das Capacidades de Autocuidado 
está representada por três subconceitos, são eles: 
 
1) disposições e capacidades fundamentais; 
2) componentes de poder; 
3) operações de autocuidado, que constituem o limite 
entre as capacidades e ações de autocuidado. Se fosse 
viável ordená-las quanto à sua formação e 
desenvolvimento em um triângulo, poderia ser dito que as 
capacidades fundamentais estão nabase, as operações de 
autocuidado no ápice e os componentes de poder 
localizados como uma ponte entre ambas (OREM, 2001). 
 
Conforme assinalam Diógenes e Pagliuca (2003), 
para se entender a teoria do autocuidado é necessário 
definir os conceitos relacionados, como os de 
Evandro Borges 
92 
 
autocuidado, ação de autocuidado, fatores condicionantes 
básicos e demanda terapêutica de autocuidado. 
“Autocuidado é a atividade que os indivíduos praticam 
em seu benefício para manter a vida, a saúde e o bem 
estar. Ação de autocuidado é a capacidade do homem 
engajar-se no autocuidado. Fatores condicionantes 
básicos são idade, o sexo, o estado de desenvolvimento, o 
estado de saúde, a orientação sociocultural e os fatores do 
sistema de atendimento de saúde (FOSTER, BENETT e 
OREM, 2000 apud DIÓGENES e PAGLIUCA, 2003).” 
 
Incorpora-se ainda na teoria do autocuidado o 
conceito dos requisitos de autocuidado: universais, 
desenvolvimentais e desvio de saúde. De acordo com 
Diógenes e Pagliuca (2003), os requisitos universais são 
comuns aos seres humanos, auxiliando-os em seu 
funcionamento, estão associados com os processos da 
vida e com a manutenção da integridade da estrutura e do 
funcionamento humano. Os requisitos desenvolvimentais, 
assinalam os autores, ocorrem quando há a necessidade 
de adaptação às mudanças que surjam na vida do 
indivíduo. Os requisitos por desvio de saúde acontecem 
quando o indivíduo em estado patológico necessita 
adaptar-se a tal situação. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
93 
 
Segundo Orem (1995 apud DIÓGENES e 
PAGLIUCA, 2003) os requisitos para o autocuidado por 
desvio de saúde são: busca e garantia de assistência 
médica adequada; conscientização e atenção aos efeitos e 
resultados de condições e estados patológicos; execução 
de medidas prescritas pelo médico e conscientização de 
efeitos desagradáveis dessas medidas; modificação do 
autoconceito (e da autoimagem) na aceitação de si como 
estando num estado especial de saúde; aprendizado da 
vida associado aos efeitos de condições e estados 
patológicos, bem como de efeitos de medidas de 
diagnósticos e tratamentos médicos, num estilo de vida 
que promova o desenvolvimento contínuo do indivíduo. 
Os requisitos de autocuidado, de acordo com os 
autores são: manutenção e ingesta suficiente de ar, água e 
alimento; a provisão de cuidados com eliminação e 
excreção; manutenção de um equilíbrio entre atividade e 
descanso, entre solidão e interação social; a prevenção de 
riscos à vida, ao funcionamento e ao bem-estar humano; a 
promoção do funcionamento e desenvolvimento humano, 
em grupos sociais, conforme o potencial humano, 
limitações humanas conhecidas e o desejo de ser normal. 
Evandro Borges 
94 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
95 
 
13
 
 
Em sua versão original, o instrumento acima inclui, 
sem domínio algum, 24 itens aos quais as pessoas 
atribuem valor em uma escala Likert, que vai de um a 
cinco pontos. As opções de escolha são: discordo 
totalmente, discordo, nem concordo nem discordo, 
concordo e concordo totalmente. As respostas tomam um 
valor mínimo de 24 e máximo de 120 pontos. Quanto 
maiores os escores, melhores serão as capacidades de 
 
13 Silva, J. V.; Kimura, M. Adaptação Cultural e Validação do 
Instrumento de Capacidades de Autocuidado “Appraisal of self-care 
agency scale”. Trabalho de Pesquisa. (Doutorado em Enfermagem) – 
Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, São Paulo, 
2002. 
 
Evandro Borges 
96 
 
autocuidado da pessoa que responde à escala. As formas 
utilizadas para a sua administração foram entrevista 
estruturada e questionário sob as modalidades auto 
administrada e aplicação assistida. 
Com o objetivo de facilitar a interpretação dos 
escores, a escala original foi transformada, durante o 
processo de validação, por decisão do profissional 
estatístico, em escala de 0 a 100 pontos, conforme sugere 
McDowell, Newell (1996). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
97 
 
Capítulo 8 
 
Felicidade em Psicologia Positiva 
 
 
O termo felicidade possui muitas conotações e 
definições, a maioria delas faz menção a um estado 
emocional positivo, com sentimentos de bem-estar e 
prazer. O Dicionário Houaiss da língua portuguesa (2004) 
define felicidade como: “1. qualidade ou estado de feliz, 
estado de uma consciência plenamente satisfeita, 
satisfação, contentamento, bem-estar; 2. boa fortuna, 
sorte; 3. bom êxito, acerto, sucesso”. 
 
De acordo com Ferraz (2007), até o advento da 
filosofia socrática acreditava-se que a felicidade dependia 
Evandro Borges 
98 
 
dos deuses. Essa concepção de felicidade imperou durante 
muitos séculos e em diferentes culturas. A autora ressalta 
que no século IV a.C, Sócrates inaugura um paradigma a 
partir do qual buscar ser feliz seria uma tarefa de 
responsabilidade do indivíduo, debatendo sobre a 
felicidade e pregando que a filosofia seria o caminho que 
conduziria a essa condição. Aristóteles, assinala a autora, 
continua a investigação de Sócrates, concluindo que todos 
os outros objetivos perseguidos pela humanidade, como 
a beleza, riqueza, saúde e o poder, eram meios de se 
atingir a felicidade, sendo esta última a única virtude 
buscada como um bem por si mesma. Com o advento do 
Iluminismo, a concepção de mundo no Ocidente começa a 
girar em torno da crença de que todo ser humano tem o 
direito de atingir a felicidade. “Na mesma linha, o ideário 
da Revolução Francesa estabelece que o objetivo da 
sociedade deve ser a obtenção da felicidade de seus 
cidadãos (Csikszentmihalyi, 1990; McMahon, 2006 apud 
FERRAZ, 2007, p.235)”. 
 
Segundo Lunt (2004 apud FERRAZ, 2007), a 
felicidade é considerada um valor tão precioso e 
indiscutível na atualidade que, como um exemplo 
emblemático, podemos citar a Declaração de 
Independência dos EUA, que registra que “todo homem 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
99 
 
tem o direito inalienável à vida, à liberdade e à busca da 
felicidade”. 
 
Ekman (1992 apud FERRAZ, 2007) afirma que a 
felicidade é uma emoção básica. E que diversos estados e 
experiências podem produzir felicidade, como o amor, a 
alegria, a saúde, a saciedade, o prazer sexual, o 
contentamento, a segurança e a serenidade. Segundo os 
autores, emoções como tristeza, medo, raiva e nojo, além 
de estados afetivos como ansiedade, angústia, dor e 
sofrimento, costumam diminuir a felicidade. 
Cloninger (2004 apud FERRAZ, 2007) considera 
que “felicidade” é a expressão que traduz a compreensão 
coerente e lúcida do mundo, de acordo com o autor, a 
felicidade autêntica requer uma maneira coerente de 
viver, e ara tanto, isso incluiria todos os processos 
humanos que regulam os aspectos sexuais, materiais, 
emocionais, intelectuais e espirituais da vida. Cloninger 
afirma que tais aspectos podem ser adaptativos ou não, a 
depender do grau de consciência que as pessoas têm de 
seus objetivos e valores. Afirma, ainda, que o grau de 
coerência dos pensamentos e relacionamentos humanos 
pode ser medido em termos de quanto estes seriam 
capazes de conduzir à harmonia e à felicidade 
CLONINGER, 2004 apud FERRAZ, 2007. P.236). 
 
Evandro Borges 
100 
 
Segundo Carvalho et al. (2014), referir o que 
significa a felicidade implica revelar a própria visão da 
vida. E Boiron (2001 apud CARVALHO et al., 2014) 
descreve a felicidade em 6 alíneas: 
 
1) é um estado fisiopsicológico que caracteriza o bom 
funcionamento do organismo; 
2) é acessível a todos os seres humanos; 
3) é independente do prazer ou do sofrimento; 
4) leva a uma realização pessoal; 
5) a procura da felicidade é uma dever ético, e ; 
6) tudo isto depende daquilo em que o sujeito acredita ser 
a sua felicidade.A teoria da Felicidade Autêntica de Seligman 
(2004) sustenta que a felicidade possui três dimensões: 
emoções positivas, engajamento e significado com a vida. 
Emoções positivas, de acordo com o autor, significa 
vivenciar uma vida agradável, remete à existência de 
emoções positivas no passado, presente e futuro. 
Emoções positivas sentidas no passado incluem no sujeito 
uma satisfação e sentimentos de serenidade. No presente 
inclui prazeres somáticos momentâneos e prazeres mais 
complexos que incluem outras aprendizagens e, no 
futuro, sentimento de otimismo, esperança e fé. 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
101 
 
A segunda dimensão, segundo o autor, significa um 
envolvimento com a vida, englobando o desenvolvimento 
das capacidades humanas, como um meio para atingir os 
objetivos que o sujeito idealiza como sendo importantes 
para si. Valores morais, liderança, bondade, integridade, 
originalidade, sabedoria, capacidade para amar e ser 
amado são alguns dos exemplos de competências que 
podem ser desenvolvidos nos sujeitos (Seligman, 2004 
apud CARVALHO et al. 2014). 
 
A terceira dimensão trata da existência de uma vida 
com significado, que pode ser expressa por emoções 
positivas, incluindo traços de personalidade positivos de 
orientação na vida. (Seligman, 2004 apud CARVALHO et 
al. 2014). 
Após reformular sua teoria original da Felicidade 
Autêntica, Seligman (2011) substitui o termo felicidade 
pelo constructo de bem-estar, acrescentando cinco 
elementos essenciais, que são: emoções positivas, que 
seriam expressas por estados de felicidade e pela 
satisfação com a vida, o engajamento ou envolvimento, 
significado, realização pessoal e relações interpessoais 
positivas. Desta forma o indivíduo seria capaz de florescer 
e atingir o máximo de bem-estar (Huppert & So, 2009; 
2013). 
 
Evandro Borges 
102 
 
 
Para Seligman (2011) felicidade é um constructo. 
Portanto, a classificação do conceito de felicidade propõe 
um conjunto de elementos que cada ser humano necessita 
ter presente em sua vida, e que são essenciais para 
alcançar o bem-estar (DURAYAPPAH, 2010 apud 
FERRAZ). 
 
Obstáculos ao aumento do nível de felicidade 
 
Seligman (2004) afirma que um dos obstáculos ao 
aumento do nível de felicidade é a “rotina hedonista”, que 
faz com que as pessoas se adaptem rapidamente e de 
forma inevitável às coisas boas, vendo-as como naturais. 
O autor observa que com o acúmulo de bens materiais e 
de realizações, as expectativas aumentam. Desta forma, os 
feitos conquistados tão arduamente não trazem mais 
felicidade, levando o sujeito a desejar alcançar algo ainda 
melhor, para elevar a felicidade até os níveis mais altos 
dos limites estabelecidos. Seligman observa, no entanto, 
que o indivíduo também vai se adaptando aos novos bens 
materiais ou realizações. 
 
De acordo com Seligman (2004), estudos 
demonstraram que coisas boas e realizações importantes 
têm o poder de aumentar a felicidade apenas 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
103 
 
temporariamente. O autor argumenta que se não fosse 
assim, pessoas que têm mais coisas boas na vida seriam, 
em geral, muito mais felizes do que as que têm menos. 
Mas as menos afortunadas, sugere o autor, são, de modo 
geral, tão felizes quanto as mais afortunadas. Seligman 
observa ainda 6 pontos importantes sobre felicidade e sua 
relação com o bem-estar: 
 
1. Em menos de três meses, eventos importantes, como 
uma demissão ou uma promoção, podem perder o 
impacto sobre os níveis de felicidade. 
 
2. De acordo com o ator, a riqueza, que certamente traz 
com ela bens materiais, tem uma correlação 
surpreendentemente baixa com o nível de felicidade. Os 
ricos são, em média, apenas ligeiramente mais felizes que 
os pobres. 
 
3. Estudo de Séligman (2004) apontam que os salários 
aumentaram bastante nas nações prósperas nos últimos 
50 anos, mas o nível de satisfação com a vida manteve-se 
o mesmo nos Estados Unidos e na maioria dos outros 
países ricos. 
 
Evandro Borges 
104 
 
4. Mudanças recentes no salário do indivíduo são motivo 
de satisfação no trabalho, mas os níveis médios de salário, 
não, sustenta o autor. 
5. A beleza física, que, como a riqueza, traz com ela uma 
série de vantagens, não teria muito efeito sobre a 
felicidade, afirma Seligman. 
 
6. E ainda segundo o autor, a saúde física, talvez o mais 
valioso de todos os recursos, tem pouquíssima relação 
com a felicidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
105 
 
Capítulo 9 
 
O Relatório Mundial da Felicidade 
(World Happiness Report) 
 
 
 
Em julho de 2011 a Organização das Nações 
Unidas (ONU) aprovou, por meio de sua Assembleia 
Geral, uma resolução convidando os países membros a 
medirem a felicidade de seus habitantes e usar os dados 
para ajudar em suas políticas públicas. Em abril de 2012, 
houve a primeira Reunião de Alto Nível da ONU sobre a 
"Felicidade e Bem-Estar: Definindo um Novo Paradigma 
Econômico". A reunião foi presidida por Jigme Thinley, 
Evandro Borges 
106 
 
primeiro-ministro do Butão, o primeiro e único país que 
até então havia adotado oficialmente a felicidade interna 
bruta, ao invés do produto interno bruto, como seu 
principal indicador de desenvolvimento. O Relatório 
Mundial da Felicidade (World Happiness Report) é uma 
medição da felicidade publicado pela Rede de Soluções 
para o Desenvolvimento Sustentável da ONU (SDSN, na 
sigla em inglês). 
O primeiro Relatório Mundial da Felicidade foi 
lançado em 1 de abril de 2012 como material base para a 
reunião. Ele chamou a atenção internacional por ser a 
primeira pesquisa sobre a felicidade global. O relatório 
descrevia o estado de felicidade mundial, as causas da 
felicidade e da miséria, e as implicações políticas 
destacadas por estudos de caso. Em setembro de 2013, o 
segundo relatório apresentou a primeira continuação 
anual e, desde então, os relatórios passaram a ser 
emitidos todos os anos. A pesquisa utiliza dados do 
Gallup World Poll. Cada relatório anual está disponível 
para o público no site World Happiness Report. 
Nos relatórios, principais especialistas de várias 
áreas, como economia, psicologia, análise de pesquisa, 
estatísticas nacionais, entre outros. Descrevem como as 
medições de bem-estar podem ser efetivamente usadas 
para avaliar o progresso das nações. Cada relatório está 
organizado por capítulos, que se aprofundam nas 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
107 
 
questões relacionadas à felicidade, incluindo doenças 
mentais, benefícios objetivos da felicidade, a importância 
da ética, implicações políticas e as ligações com a 
abordagem da OECD para mensurar o bem-estar 
subjetivo e o Índice de Desenvolvimento Humano.
14
 
 
 
 
Antecedentes 
 
O mundo mudou muito desde a publicação do 
primeiro Relatório Mundial da Felicidade em 2012. 
Constatou-se um aumento notável da consideração da 
felicidade como uma medida adequada do progresso 
social e um objetivo das políticas públicas. Um número 
rapidamente crescente de governos nacionais e locais está 
a utilizar a informação e a investigação sobre a felicidade 
na definição de políticas que permitam às pessoas ter uma 
vida melhor. Os governos estão a medir o bem-estar 
subjetivo e a utilizar a pesquisa sobre o bem-estar para 
orientar o design de espaços públicos e a prestação de 
serviços públicos. 
 
14
 World Happiness Report 2016 Updatep. 4, para. 1 cap. "2: The 
Distribution of World Happiness“. 2016. 
 
Evandro Borges 
108 
 
Aproveitamento da informação e da investigação sobre a 
felicidade para melhorar o desenvolvimento sustentável. 
 
O ano de 2015 representou um ponto positivo para 
a humanidade, com a adoção, pelos Estados-membros da 
ONU,de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 
(ODS), que ajudem a conduzir a comunidade mundial 
para um padrão de desenvolvimento global mais inclusivo 
e sustentável. É muito provável que os conceitos de 
felicidade e bem-estar ajudem a orientar o progresso para 
um desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento 
sustentável é um conceito normativo, que requer que 
todas as sociedades equilibrem os seus objetivos 
econômicos, sociais e ambientais. 
De acordo com o relatório, quando os países 
procuram o crescimento do PIB de forma 
desproporcionada, atropelando os objetivos sociais e 
ambientais, os resultados têm frequentemente impactos 
negativos no bem-estar humano. Os ODS foram pensados 
para ajudar os países a atingir seus objetivos econômicos, 
sociais e ambientais de forma harmoniosa, levando-os, 
portanto, a proporcionar níveis mais elevados de bem-
estar para as gerações presentes e futuras. 
 
Os ODS incluem metas, objetivos e indicadores 
quantitativos. A Rede de Soluções de Desenvolvimento 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
109 
 
Sustentável, nas suas recomendações relativas à seleção 
de indicadores de ODS, recomendou vivamente a inclusão 
de indicadores de Bem-estar Subjetivo e de Atitude 
Positiva para ajudar a orientar e medir o progresso na 
consecução dos ODS. Encontramos considerável apoio de 
diversos governos e especialistas para a inclusão desses 
indicadores de felicidade nos ODS. O Relatório Mundial 
da Felicidade 2015 destaca uma vez mais a idoneidade da 
utilização da medição da felicidade para orientar a 
definição de políticas públicas e para ajudar a avaliar o 
bem-estar geral de cada sociedade.
15
 
 
ANEXO I - Relatório Mundial da Felicidade - Ranking 2016 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
15
 World Happiness Report 2016 Update. UN Sustainable 
Development Solutions Network; Earth Institute (University of 
Columbia), 2016. 
 
Evandro Borges 
110 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
111 
 
Capítulo 10 
 
Definição e medição de 
Florescimento 
 
 
Florescimento 
 
De acordo com Leite et al. (2016), as definições de 
florescimento presentes na literatura apontam para um 
estado de pleno desenvolvimento humano, caracterizado 
por elevada saúde mental, bem-estar e contribuição 
genuína. “A perspectiva do florescimento é baseada nas 
teorias humanísticas que abordam as exigências 
psicológicas, como as necessidades por competência, 
afinidade e auto aceitação” (MENDONÇA et al., 2014, p. 
173 apud LEITE et al. 2016). 
Para Fredrickson e Losada 2005 (apud LEITE et al. 
2016) “Florescer significa viver dentro de uma faixa ideal 
de funcionamento humano, que conota bondade, 
amadurecimento, crescimento e resiliência”. 
A Mental Health Foundation of New Zealand 
(2013) descreve o florescimento pessoal como um estado 
de saúde mental positiva, que permita ao indivíduo ampla 
experiência e significado. Dessa forma, pessoas que 
Evandro Borges 
112 
 
florescem experimentam, na maior parte do tempo, 
emoções positivas e funcionamento psicológico e social 
positivos. Isso significa, em termos filosóficos, acesso à 
uma vida boa e agradável, engajada e com significado. As 
pessoas em estado de florescimento teriam uma visão 
positiva de si e dos outros, com determinada 
predisposição a preocuparem-se mais com as demais 
pessoas que as rodeiam, serem menos tolerantes com a 
injustiça e mais promotores de instituições justas e 
equitativas. (MENTAL HEALTH FOUNDATION OF 
NEW ZEALAND, 2013 apud LEITE et al. 2016). 
 
Segundo Leite et al. (2016), estudos apontam 
diversos benefícios dos indivíduos que estão florescendo, 
como a capacidade de efetivamente aprender, trabalhar de 
forma produtiva, ter melhores relações sociais, mais 
suscetibilidade a contribuir para a sua comunidade, ter 
uma melhor saúde e expectativa de vida. 
 
Huppert e So (2009 apud LEITE, 2016) 
apresentam um conjunto de recursos básicos e um 
número mínimo de recursos adicionais com relação ao 
florescimento. Os recursos básicos incluem emoções 
positivas, engajamento, interesse, significado e propósito. 
Já os recursos adicionais são autoestima, otimismo, 
resiliência, vitalidade, autodeterminação e relações 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
113 
 
positivas. Já na correlação entre florescimento e trabalho, 
destaca-se a pesquisa de Harter, Schmidt e Keyes (2003 
apud LEITE, 2016), “que afirmam que a maior parte do 
tempo de um adulto é passada no trabalho e que ele é 
parte significante da vida do ser humano, afetando sua 
vida e bem-estar social”. 
De acordo com Mendonça et al. (2014 apud LEITE, 
2016) o trabalho é um dos mais importantes bens na vida 
do ser humano e está diretamente relacionado ao 
florescimento. Isto se justificaria por ser o ambiente de 
trabalho um espaço que possibilita envolvimento com 
colegas, trabalho e a organização, vivência de relações 
sociais satisfatórias, trocas sociais favoráveis, 
desenvolvimento de competências, otimismo em relação 
ao futuro, propósito e significado na vida. 
 
Para Seligman (2004) as diferenças de gênero com 
relação ao florescimento são pequenas. O autor afirma 
que o maior florescimento estaria associado ao ensino 
superior e à renda. 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
114 
 
A Escala de Florescimento 
 
Diener et al. (2010 apud Becalli, 2014) 
apresentaram uma medida de florescimento. Trata-se de 
uma escala que pretende complementar as medidas 
existentes de bem-estar subjetivo de maneira a avaliar a 
prosperidade psicossocial com base nas teorias existentes 
acerca do bem-estar psicológico e social. Inicialmente 
denominada como sendo uma escala de bem-estar 
psicológico, teve sua nomenclatura alterada para Escala de 
Florescimento, de forma a revelar com maior precisão o 
que permite avaliar, uma vez que vai além do bem-estar 
psicológico, ressaltam os autores. 
 
De acordo com Becalli (2014), a Escala de 
Florescimento (Flow Scale), desenvolvida por Diener, 
Wirtz, Tov, Kim-Prieto, Choi, Oishi, & Biswas-Diener 
(2010); versão traduzida por Baptista, 2011), foi 
concebida com o objetivo de avaliar a prosperidade 
psicossocial e complementar outras escalas de avaliação 
do bem-estar subjetivo, mas tendo por base o conceito de 
florescimento humano. De acordo com os autores, a 
escala consiste em uma breve autoavaliação, é composta 
por oito itens formulados numa direção positiva e com 
formato de resposta numa escala tipo Likert de 7 pontos 
que varia de 1 (Discordo totalmente) a 7 (Concordo 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
115 
 
fortemente). Também avalia aspetos do funcionamento 
humano que vão desde as relações sociais, autoestima, 
significado e propósito na vida, formando uma única 
dimensão, fornece um resultado total de bem-estar 
psicológico, que pode variar entre 8 (forte desacordo com 
todos os itens) e 56 (forte concordância com todos os 
itens). “A escala possui boas qualidades psicométricas 
demonstrando uma forte associação com outras escalas de 
bem-estar psicológico (Diener et al., 2010 apud BECALLI, 
2014)”. 
 
ANEXO II – Estrutura da Escala de Florescimento 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
116 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
117 
 
Capítulo 11 
 
 
A descoberta do Flow 
 
As contribuições do Dr. Mihaly Csikszentmihalyi 
 
Mihaly Csikszentmihalyi (Pronuncia-se Mirrale 
Chics sent-mirrai (1934). É um psicólogo húngaro-
americano, renomado professor de ciências sociais da 
Peter Drucker School of Business, na Claremont 
University. Foi ele quem nomeou e investigou flow, o 
estado de gratificação em que entramos quando nos 
concentramos completamente noque estamos fazendo. É 
também professor de Psicologia e Gestão na Claremont 
Graduate University, ex-chefe do Departamento de 
Psicologia da Universidade de Chicago e do 
Departamento de Sociologia e Antropologia da Lake 
Forest College. Fundador e co-diretor do Centro de 
Pesquisa de Qualidade de Vida (QLRC - Quality of Life 
Research Center). Atualmente a Divisão de Ciências 
Comportamentais e Organizacionais (DBOS) da 
Claremont Graduate University oferece um programa de 
Doutorado em Psicologia Positiva através do QLRC, 
instituto de pesquisa sem fins lucrativos que realiza 
Evandro Borges 
118 
 
pesquisas sobre uma ampla gama de questões de ponta 
em psicologia positiva, também fornece um fórum para 
pesquisadores de todo o mundo, com o objetivo de 
estender suas pesquisas e estudos em psicologia positiva. 
 
A biografia do Dr Mihaly é surpreendente, quando 
criança, ficava surpreendido ao observar que, mesmo sob 
o horror da Segunda Guerra Mundial, algumas pessoas 
utilizavam sua coragem para ajudar o próximo e eram 
capazes de dar direção e sentido às suas vidas. Após mais 
de trinta anos de estudos, o autor mantém a convicção de 
que, seja qual for a atividade que uma pessoa esteja 
exercendo, como por exemplo, esportes, trabalho braçal, 
intelectual ou artístico, o sentimento batizado por ele 
como “flow” (fluxo ou fluidez em português), é registrado 
quando há total envolvimento e satisfação com o que está 
sendo feito. A capacidade de discernir o que nos 
proporciona o fluxo é também a possibilidade de alcançar 
a sabedoria de viver plenamente, ressalta o autor. 'A 
descoberta do fluxo' parte de uma reflexão ao mesmo 
tempo simples e profunda do Dr. Mihaly: “se não 
assumirmos a direção de nossa vida, ela será controlada 
pelo mundo exterior para servir a propósitos alheios”
16
. 
 
16 Andrade, Elisson. Finanças & comportamento: Coletânea de 
artigos. 2016. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
119 
 
Ele alerta para o fato de que não podemos esperar que 
alguém nos ajude a viver. E no entanto, precisamos 
descobrir uma forma de como fazer isso por conta 
própria. A solução proposta pelo autor baseia-se na 
possibilidade do auto desafio, com tarefas que exijam alto 
grau de habilidade e comprometimento. 
Trabalhos mais recente do Dr. Mihaly estão 
concentrados no estudo da motivação. Ele enfatiza que 
pessoas que estão intrinsecamente motivadas lutam 
menos com a procrastinação e são mais propensas a 
estarem altamente motivadas. 
 
 
A Teoria do Flow (Fluxo) 
 
A teoria do Flow surgiu a partir de estudos do Dr. 
Mihaly Csikszentmihalyi. De acordo com Weinberg e 
Gould (2001, p. 158), ela representa uma inovação nos 
estudos sobre motivação intrínseca. Pesquisas envolvendo 
essa teoria evoluíram significativamente em países como 
Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Itália, Japão e 
Austrália, porém, no Brasil, há ainda poucos estudos. 
O conceito de flow é derivado do estudo de 
atividades que Csikszentmihalyi considerou 
substancialmente motivantes, ou seja, que proporcionam 
prazer por meio de suas realizações, levando o indivíduo a 
Evandro Borges 
120 
 
um estado de profundo envolvimento e a ter um 
sentimento intenso de alegria e satisfação pessoal. Para 
Csikszentmihalyi (1988, 1992, 1999), o flow acontece em 
condições específicas, quando a atenção está totalmente 
focada na atividade e sentimentos, desejos e pensamentos 
estão completamente alinhados. As pesquisas 
identificaram oito elementos que definem essa 
experiência: equilíbrio entre desafio e habilidade; metas 
claras e retorno (feedback); concentração total na 
atividade e no momento presente; fusão entre ação e 
consciência; sensação de controle; perda da 
autoconsciência; perda da noção do tempo e experiência 
autotélica. Iremos tratar da Experiência Autotélica mais 
adiante. 
 
De acordo com Massarella e Winterstein (2009), 
quando as pessoas refletem sobre o que sentem após 
vivenciarem uma experiência muito positiva, elas 
mencionam pelo menos um desses oito elementos: 
 
1) Equilíbrio entre desafio e habilidade: há um equilíbrio 
entre o desafio com o qual o sujeito está envolvido e 
sua capacidade de responder a ele de forma adequada 
(Figura 1). 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
121 
 
 
Figura 1. Relação entre nível de desafio/ habilidade e flow. 
(adaptado de CSIKSZENTMIHALYI, 1992, p. 113). 
 
 
2) Metas claras e retorno (feedback) das ações: clareza 
sobre o objetivo a ser atingido, conhecimento das regras, 
do que é necessário fazer para que a atividade ocorra com 
sucesso. Ter indicadores efetivos sobre como está sendo o 
desempenho na tarefa. 
 
3) Concentração total na atividade e no momento 
presente: o foco da atenção está totalmente na tarefa e no 
presente, não é desperdiçada energia psíquica para 
processar informações que não sejam pertinentes à 
Evandro Borges 
122 
 
realização da atividade. Sobre concentração, o professor 
Helder Kamei, um dos pioneiros no estudo de Flow e 
Psicologia Positiva no Brasil, ressalta que na vida 
cotidiana, raramente concentramos nossa atenção além de 
um nível muito breve. Para o autor, somos 
constantemente distraídos e nossa atenção salta de um 
estímulo para outro. Entretanto, o Dr. Kamei (2010) 
observa que na experiência de flow, os desafios são 
suficientemente altos para absolver o máximo de nossas 
habilidades. Desta forma, para que o indivíduo possa 
atingir o estado de flow é necessário que ele concentre 
toda a sua atenção na atividade que estiver realizando, 
sem desperdiçar nenhum recurso atencional para 
processar qualquer informação relevante. Por exemplo: se 
um maratonista começar a pensar sobre qualquer outra 
coisa enquanto estiver percorrendo um trecho difícil de 
um determinado percurso da competição, ele poderá 
perder a concentração e ser ultrapassado. 
 
4) Sentimento de ‘fusão’ entre ação e consciência: Neste 
ponto, os autores ressaltam que o envolvimento na 
atividade é por vezes tão intenso que as ações parecem 
transcorrer quase que de maneira automática, de forma 
totalmente espontânea e natural, o indivíduo deixa de se 
perceber como distinto das ações que realiza. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
123 
 
5) Sensação de controle: no flow, afirmam os autores, há 
uma certa sensação de controle sobre a situação, sem que 
haja, necessariamente uma preocupação efetiva com isso. 
Há, segundo eles, uma satisfação em exercer o controle 
sobre si mesmo em situações difíceis ou complexas. 
 
6) Perda da autoconsciência: tal fenômeno ocorre, 
segundo os autores, quando a percepção que temos de um 
self, o que eles definem como sendo a soma dos 
conteúdos da consciência, tais como lembranças, ações, 
desejos, prazeres e dores, bem como a hierarquia de 
metas que construímos ao longo de nossas vidas, 
separado do mundo à nossa volta, deixa de existir. Desta 
forma, quando estamos profundamente envolvidos ou 
conectados uma determinada atividade, assinalam os 
autores, podemos ter um sentimento de união com as 
pessoas, coisas ou o ambiente à nossa volta. 
 
7) Sentimento de distorção ou perda da noção da 
passagem do tempo: ainda de acordo com as pesquisas 
realizadas pelos autores, determinadas pessoas 
descreveram uma certa desorientação temporal, ou perda 
da noção da passagem do tempo. Eles observaram que em 
alguns relatos, determinados indivíduos afirmaram ter 
tido a sensação de que o tempo passou muito rápido, 
Evandro Borges 
124 
 
enquanto outros relataram que se passou muito mais 
tempo do que de fato ocorreu. 
 
8) Sentimento de viver uma experiência autotélica: 
segundo Csikszentmihalyi (1992, p. 103) e Kamei (2010), 
“o elemento fundamental de uma experiência máxima, ou 
flow, é que ela tem um fim em si mesma”. Portanto, 
ressaltam,mesmo que a princípio uma determinada 
experiência seja efetuada por outras razões, a atividade 
que nos absorve, torna-se um fim em si mesma. 
 
Massarella e Winterstein (2009) também 
observaram que o resultado de vivenciar o flow é a 
percepção de uma “experiência autotélica”, capaz de 
proporcionar um profundo sentimento de prazer e 
satisfação, o fato de estar naquele determinado local e 
poder realizar a atividade é a recompensa. Dos oito 
elementos, assinalam os autores, três deles sendo o 
equilíbrio entre desafio e habilidade; metas claras e 
retorno (feedback); concentração total na atividade e no 
momento, podem ser entendidos como elementos 
necessários para que o flow ocorra. Os demais, como 
fusão entre ação e consciência; sensação de controle; 
perda da autoconsciência; perda da noção do tempo e 
experiência autotélica, podem ser interpretados como 
consequências, ou mesmo como percepções da ocorrência 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
125 
 
do estado mental. Essa divisão, ressaltam, visa facilitar a 
compreensão do fenômeno e a análise de dados no estudo 
em questão. 
 
Csikszentmihalyi (1999) destaca ainda que 
atividades esportivas são potencialmente geradoras do 
estado de fluxo. Segundo o autor, nelas estão presentes 
todos os elementos necessários para que o flow ocorra. 
Constituem atividades que prendem nossa atenção, 
possuem metas claras, fornecem feedback e representam 
desafios que devem ser respondidos à altura com 
determinadas capacidades ou habilidades. No entanto, 
outras atividades cotidianas são capazes de proporcionar 
um estado de flow. 
Embora nem todas as dimensões do flow 
necessariamente precisem estar presentes para que seu 
estado seja atingido, Csikszentmihalyi (1988) afirma que 
a precondição universal consiste em o indivíduo saber que 
há algo que ele tem que fazer, e que ele é perfeitamente 
capaz de fazê-lo. Um exemplo claro disso é aprender a 
nadar ou andar de bicicleta. No início sentimos medo, 
mas ao adquirirmos a independência de dar as primeiras 
pedaladas ou braçadas na água, automaticamente nos 
remete a um estado de "experiência máxima". 
 
Evandro Borges 
126 
 
Em outras palavras, experimentamos o máximo de 
nossa capacidade. Porém, com o passar do tempo, andar 
de bicicleta já não nos garante as mesmas experiências de 
flow, mesmo que praticar atividades físicas elevem nossas 
experiências de bem-estar. Se você dirige automóveis, 
deve se lembrar da alegria de quando aprendeu a guiar 
um automóvel, talvez até tenha experimentado um estado 
de flow durante os primeiros 100 metros dirigindo. 
 
Agora eu pergunto se você consegue sentir a 
mesma sensação ao acordar pela manhã e enfrentar o 
trânsito para chegar ao trabalho, consegue? Pois bem, 
particularmente, raramente eu consigo. E isso se deve ao 
fato de que o estado de flow depende de experiências 
novas e que nos motivem a testar nossos limites e 
habilidades. 
Para Kamei (2010), as habilidades do indivíduo 
devem estar totalmente envolvidas em superar um desafio 
que está no limiar de sua capacidade de controle. Quando 
isso ocorre, afirma o autor, o indivíduo vivencia um 
estado de flow. Porém, observa Kamei, se as habilidades 
forem maiores que os desafios, o indivíduo entrará no 
estado de tédio. Para retornar ao estado de flow, de 
acordo com o autor, o indivíduo terá que aumentar o nível 
dos desafios. Em contrapartida, se os desafios forem 
maiores que as habilidades percebidas, o indivíduo 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
127 
 
entrará em estado de ansiedade, observa. “Nesse caso, 
para retornar ao estado de flow, a pessoa terá que 
aumentar suas habilidades, ou então diminuir o nível dos 
desafios (KAMEI, 2010)." 
 
Exemplos Práticos de Estados de Flow / Fluxo17 
 
Exemplo 1: 
 
“Quando completei 18 anos fui morar sozinha em 
outra cidade. Lá eu conheci um rapaz na faculdade, pelo 
qual me apaixonei perdidamente. Após 6 meses de 
namoro, descobri que estava gravida. Quando contei a ele, 
disse que eu estava louca, me chamou de irresponsável e 
em seguida me largou. Eu estava longe de minha família e 
receosa de contar aos meus pais. E quando meu pai 
soube, ficou muito revoltado e disse-me para assumir as 
consequências de minhas escolhas. Felizmente, consegui 
um emprego e guardei minhas economias durante 9 
meses até o nascimento do bebê. Então ela nasceu, uma 
menina linda e saudável a quem dei o nome de Vitória. 
Você pode imaginar o que passei para conseguir cuidar 
dessa criança sozinha, sem ter ninguém da família para 
 
17
 Andrade, Elisson. Finanças & comportamento: Coletânea de 
artigos. 2016. 
 
Evandro Borges 
128 
 
ajudar? Encontrei dentro de mim uma mulher que não 
conhecia, descobri que era forte e capaz. E esse evento, 
sem dúvidas, foi uma das maiores realizações de minha 
vida. E apesar das dificuldades que passei, lembrome 
dessa época com muita alegria. Hoje sou uma médica e 
mãe de 3 filhos, Vitória, Cauã e o pequeno Victor. 
(Rebekka - *Nome Fictício).” 
 
 
Exemplo 2: 
 
“Sempre fui um aficionado por esportes radicais. E 
algo que marcou profundamente minha vida foi escalar o 
Monte Everest. Foram anos de trabalho duro para 
financiar a viagem e comprar os equipamentos para a 
escalada. Durante um ano, foquei nos treinos físicos de 
resistência. Eu sabia que não seria fácil e não queria que 
nada desse errado. Finalmente chegara o grande dia. E 
estava ali diante do gigante Everest. Porém, nas primeiras 
horas de escalada senti uma profunda falta de ar. Meu 
corpo não estava mais respondendo aos meus comandos. 
Pensei em desistir, em voltar atrás. Com a ajuda de 
amigos, armei minha barraca e dormi em meio a uma 
noite extremamente fria. Comecei a lembrar de todo o 
esforço que havia feito para estar ali, das coisas que abri 
mão. No dia seguinte, retomei a escalada rumo ao topo. E 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
129 
 
lá chegando, senti uma das maiores sensações de 
felicidade do mundo! (Robert - *Nome Fictício).” 
 
 
Exemplo 3: 
 
“Durante a crise econômica de 2016 os negócios de 
minha empresa declinaram em 80%. Eu estava 
trabalhando apenas para cobrir os custos e pagar os 
funcionários. A maioria deles está na empresa há bastante 
tempo, somos praticamente uma família, mas o momento 
era difícil para todos nós. Minha autoestima estava no 
nível mais baixo de todos, por pouco não entrei em 
depressão. Pensei em fechar a empresa, então resolvi 
marcar uma reunião para definirmos um possível acordo 
sobre as demissões. Me vi surpreso quando, em meio a 
reunião, todos decidiram optar pela redução dos próprios 
salários para ajudar a empresa a se reerguer. Felizmente 
superamos a crise e os negócios voltaram a fluir. Todos 
estão engajados e ainda mais unidos. O espírito de equipe 
superou as dificuldades. Hoje valorizamos nosso trabalho 
cada vez mais. (Maik - *Nome Fictício)” 
 
 
 
 
Evandro Borges 
130 
 
Vejamos agora os pontos em comum nos exemplos citados: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ESFORÇO 
PROATIVIDADE 
SUPERAÇÃO 
CORPO E MENTE LEVADOS AO EXTREMO 
CONDIÇÕES ADVERSAS 
FOCO E CONCENTRAÇÃO 
CONTROLE CONSCIENTE DOS ATOS > FOCO 
EXPERIÊNCIA ÓTIMA> CONTROLE DO PRÓPRIO DESTINO 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
131 
 
Prazer versus felicidade 
 
 
 
 
FELICIDADE ESTÁ ASSCOCIADA A REALIZAÇÃO E INOVAÇÃO 
NO PRIMEIRO EXEMPLO NÃO HOUVERAM APENAS ATIVIDADES 
PRAZEROSAS. 
ATIVIDADES QUE PROPORCIONAM PRAZER SÃO IMPORTANTES PARA A 
VIDA, MAS PRAZER NEM SEMPRE PRODUZ CRESCIMENTO PESSOAL. 
DE ACORDO COM A TEORIA DO FLUXO, PRAZER NÃO EXIGE 
INVESTIMENTO EM CONCENTRAÇÃO E ENERGIA. 
PRAZER PODE SER ADQUIRIDO SEM MUITO ESFORÇO, BASTA 
QUE DETERMINADA ÁREA DO CÉREBRO SEJA ATIVADA. 
EXEMPLO: COMER DOCES 
PRAZER É PASSAGEIRO E NÃO AGREGAVALOR 
LOGO, PRAZER É PASSAGEIRO E NÃO PROPORCIONA FELICIDADE 
DURADOURA. 
Evandro Borges 
132 
 
 
 
O Estado de fluxo: 
 
 
 
 
CONTROLE DA 
CONSCIÊNCIA = PODER 
DE TRANSFORMAÇÃO 
ENTRAR EM ESTADO DE 
FLUXO É UMA OPÇÃO, 
UMA ESCOLHA 
BASTANDO OFERECER 
AS CONDIÇÕES BÁSICAS 
PARA TAL: FOCO, 
CONCENTRAÇÃO E 
ENERGIA 
MOMENTOS DEDICADOS A ALGUMA ATIVIDADE EM QUE 
NADA MAIS PARECE INTERESSAR. NÃO SE NOTA QUE O 
TEMPO PASSOU. O TEMPO PARECE “PARAR”. 
ALGUNS REQUISITOS PARA O FLUXO: 
> ATENÇÃO 
> ENERGIA 
 
IMPORTÂNCIA DAS PRIORIDADES 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
133 
 
Diagrama do Estado De Fluxo 18 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
18
 Diagrama que representa as principais sensações do indivíduo na 
realização de uma atividade até que possa atingir o estado de Flow. 
Fonte: CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. Flow: The psychology of 
optimal performance. 1990. p.74) 
Evandro Borges 
134 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
135 
 
Capítulo 12 
 
Fluxo versus Homeostase 
 
Homeostase, dos termos gregos homeo, "similar" 
ou "igual", e stasis, "estático", é a condição relativa de 
estabilidade da qual o organismo necessita para realizar 
suas funções adequadamente para o equilíbrio do corpo. 
Em se tratando de seres vivos, é a propriedade de um 
sistema aberto, de regular o seu ambiente interno, de 
modo a manter uma condição estável mediante múltiplos 
ajustes de equilíbrio dinâmico, controlados por 
mecanismos de regulação inter-relacionados. Este 
fenómeno foi descrito pela primeira vez por Claude 
Bernard, em 1859, que afirmou que todos os mecanismos 
vitais, por mais variados que sejam, não têm outro 
objetivo além da manutenção da estabilidade das 
condições do meio interno. Em 1929, tal fenômeno foi 
estudado por Walter Cannon, que chamou essa 
estabilidade de homeostase.
19
 
 
 
19
 Sperelakis, Nicholas; Freedman, Jeffrey C.; Ferguson, Donald G. 
Biophysical Chemistry of Physiological Solutions. Cell Physiology 
Sourcebook. A Molecular Approach. 3ª ed. San Diego, California: 
Academic Press. (2001) p.3. 
 
Evandro Borges 
136 
 
Exemplo 1: 
 
 
Exemplo 2: 
Exemplo 3:
 
 
Mary resolve anotar todos os assuntos importantes para 
a prova. Ela quer reservar os fins de semana para estudar. 
Passadas três semanas, Mary desiste. 
 
Paulo tomou a decisão de ser um marido mais 
atencioso. Ele chega em casa mais cedo, passa mais 
tempo com a família, ajuda com os afazeres domésticos, 
junta as meias e toalhas molhadas e já não vai mais ao 
futebol com os amigos com tanta frequência. Após um 
mês, Paulo nem percebeu que voltou a fazer as mesmas 
coisas de sempre. Paulo desistiu da mudança. 
 
Júlia foi ao médico e descobriu que estava com 
colesterol de alto risco. Júlia decidiu fazer uma dieta 
rigorosa. Na primeira semana ela malha duas horas por 
dia, evita refrigerantes e doces e adota uma 
alimentação saudável. Após uma briga com o namorado, 
tem uma crise de estresse e joga tudo para o alto. Ela 
desistiu. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
137 
 
Pontos em comum nos exemplos: 
 
 
 
 
 
 
 
TENTATIVA DE MUDANÇA ABRUPTA 
DESISTÊNCIA APÓS UM INTERVALO DE TEMPO 
ELES ACREDITAM SER FALTA DE “FORÇA DE VONTADE” 
HOMEOSTASE: TENDÊNCIA DOS SISTEMAS BIOLÓGICOS 
EM RESISTIR A MUDANÇAS (BUSCA DE ESTABILIDADE) 
INCONSCIENTEMENTE, NOSSO CORPO RESISTE A 
MUDANÇAS; 
CONCEITO DE HOMEOSTASE SOCIAL: NORMAS, 
COSTUMES, PUNIÇÕES; 
DEVIDO À HOMEOSTASE: PESSOAS SE ACOMODAM 
E ACEITAM AS COISAS COMO ELAS SÃO. 
Evandro Borges 
138 
 
Referências
20
 
21
 
 
20
 Csikszentmihalyi, Mihaly. A descoberta do fluxo. Rio de Janeiro: Rocco, 
1999. 
21
 Andrade, Elisson. Finanças & comportamento: Coletânea de artigos. 2016. 
 
MUDANÇAS EXIGEM: 
 
• Compreender a homeostase; 
• Negociar com as próprias resistências do corpo, família, 
sociedade; 
• Evitar mudanças abruptas. 
MARY: “NUNCA VOU CONSEGUIR 
ESTUDAR”. 
JÚLIA: “NÃO CONSIGO FAZER DIETA.” 
PAULO: “MINHA SINA É SER ASSIM.” 
ACEITAR O FRACASSO É MAIS CÔMODO E 
MUDAR PERDE SUA FORÇA. 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
139 
 
Como obter maiores experiências de Fluxo 
 
Agora que já discorremos sobre a Teoria do Fluxo, 
é hora de entendê-la na prática aplicada do dia-a-dia, mas 
como nos foi mencionado anteriormente, quando 
atingimos um estado de fluxo, estamos tão envolvidos 
com o momento ou a atividade em questão, que 
simplesmente não nos damos conta. Deixe-lhe dizer algo 
sobre o estado de fluxo, é algo pessoal, mas certamente 
você também já o experimentou. Durante algum tempo 
estive trabalhando como voluntário em um projeto 
comunitário. Eu fazia parte de uma equipe de psicólogos 
de um projeto de plantão psicológico para pessoas de 
baixa renda. O local era distante de minha residência e eu 
precisava atravessar a cidade todos os fins de semana, 
onde passava a tarde inteira em atendimento. Se você é 
psicólogo clínico e faz atendimento em consultório, deve 
saber da importância de se usar um relógio de pulso, mas 
o fato é que eu não usava. E o motivo pelo qual eu não 
usava era simples, eu não me preocupava em como estava 
passando o tempo naquele local, eu simplesmente não 
percebia o tempo passar, com exceção dos momentos em 
que olhava para o relógio da parede para me certificar de 
que haviam decorrido 50 minutos de atendimento. Em 
suma, dedicava-me ao máximo em cada atendimento e 
procurava dar o meu melhor. Curiosamente, ao término 
Evandro Borges 
140 
 
dos plantões, voltava para casa sentindo-me leve como 
uma pluma. E foi durante esse intervalo de tempo que 
descobri que ser psicólogo era algo que verdadeiramente 
fazia sentido para mim, experimentei o efeito auto 
realizador do estado de "flow". E aqui vão algumas dicas 
de como obter mais experiências de fluxo.
22
 
 
 Procure por desafios. Escolha algo que você goste de 
fazer. Pode ser qualquer coisa, como ler, escrever um 
livro, andar de bicicleta, assistir uma nova série de TV, 
fazer parte de um projeto voluntário e assim por 
diante. 
 
 Desenvolva suas habilidades a fim de ser capaz de 
enfrentar o desafio. Lembre-se que se algo é muito 
fácil você poderá sentir tédio. E um dos efeitos do 
tédio é fazer a mente vagar de forma que venha a se 
distrair com outras atividades. Procure por atividades 
que exijam que suas habilidades sejam levadas ao 
limite. 
 
 
 
 
22
 Fabrega, Marelisa. How To Enter the Flow State. Daring to Live 
Fully. 2016 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
141 
 
 
 Defina metas claras. Você precisa ser claro sobre o que 
quer alcançar e sobre como saberá que estará sendo 
bem-sucedido(a) em seus desafios. Por exemplo: Ao 
estudar para um concurso público, procure responder 
questões de provas anteriores e, com base no seu 
desempenho você saberá se está obtendo resultados 
em seus estudos. 
 
 Concentre-se completamente com a atividade que 
estiver realizando. Procure eliminar toda e qualquer 
distração, de forma que esteja plenamente focado(a). 
 
 Certifique-se de que você reservou tempo suficiente 
para a atividade. Não existe um tempo determinado 
para se entrar em estado de flow, mas é muito 
provável que isso ocorra no momento em que você 
estiver concentrado(a). De qualquer forma, ao sentir-
se imerso(a) em uma atividade, aproveite-a ao 
máximo sem a preocupação de ser interrompido(a). 
 
 Monitore o seu estado emocional. Se você atender a 
todos os requisitos acima, mas ainda assim tiver 
dificuldades para entrar no estado de flow, não se 
preocupe. Procure monitorizar o seu estado 
emocional. Irritação,ansiedade e preocupações tiram 
Evandro Borges 
142 
 
toda a nossa atenção. Procure fazer algo relaxante, 
como estar na companhia de amigos, caminhar ou 
ouvir música. Finalmente, entregue-se. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
143 
 
Capítulo 13 
 
 
Introdução ao conceito de 
Engajamento 
 
 
De acordo com Seligman (2011), engajamento 
significa entregar-se completamente, sem se dar conta do 
tempo, e perder a consciência de si mesmo durante uma 
atividade envolvente. O engajamento, de acordo com o 
autor, é um dos caminhos para o florescimento. O autor 
destaca ainda que uma vida vivida com esses objetivos 
seria uma “vida engajada”. O engajamento, segundo 
Seligman, é algo diferente e até mesmo o oposto de uma 
emoção positiva, pois quando perguntamos às pessoas 
que se entregam a uma atividade o que estão pensando e 
sentindo, elas geralmente dizem: “Nada”, assinala o 
autor. 
A questão, embora complexa, pode ser 
compreendida facilmente se levarmos em consideração 
um pequeno detalhe, no engajamento nós nos fundimos 
com o objeto, ou seja, com a atividade em si. Seligman 
observa, por exemplo, que a atenção concentrada exigida 
pelo engajamento consome todos os recursos cognitivos e 
Evandro Borges 
144 
 
emocionais que formam nossos pensamentos e 
sentimentos (SELIGMAN, 2011). 
 
Para Seligman, não há atalhos para o engajamento. 
O autor assegura que, ao contrário, o indivíduo deve 
empregar suas forças pessoais e talentos para se envolver 
com o mundo, mas ressalta que existem atalhos fáceis 
para que o indivíduo possa sentir uma emoção positiva, e 
que há uma diferença entre uma emoção positiva e o 
engajamento em si. 
Os termos ‘engagement’ em inglês, ou 
‘engajamento’ em português, no âmbito da psicologia 
positiva, não se resumem apenas a envolvimento, mas a 
um estado de profundo envolvimento com determinada 
atividade, em dado momento. 
Por exemplo: Alguém que esteja profundamente 
envolvido em uma partida de xadrez durante horas, sem 
se dar conta do tempo, pode estar engajado 
psicologicamente. A este fenômeno dá-se o nome de 
“Estado de Fluxo” ou “Estado de Flow”, como vimos 
anteriormente. 
O engajamento, bem como uma emoção positiva, é 
um elemento que só pode ser avaliado subjetivamente. 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
145 
 
Por exemplo: 
 
 
 
Para Seligman (2011), emoções positivas e 
engajamento são as duas categorias distintas dentro da 
teoria do bem-estar da psicologia positiva. Para o autor, 
os fatores são mensurados apenas subjetivamente. Ele 
classifica uma emoção positiva como um elemento 
hedônico ou aprazível, que abrange todas as variáveis 
subjetivas do bem-estar, como prazer, êxtase, conforto, 
afeição e outras afins. Para o autor, o pensamento e o 
sentimento estão geralmente ausentes durante o estado 
de engajamento, ou seja, quando estamos profundamente 
envolvidos em algo, só podemos dizer, por exemplo, que 
“Você teve a sensação 
de que o tempo parou?” 
“Ficou completamente 
absorvido pela tarefa?” 
“Perdeu a consciência 
de si mesmo?” 
Evandro Borges 
146 
 
uma atividade foi extremamente divertida, ou que um 
passeio por uma trilha foi maravilhoso, de uma 
perspectiva retrospectiva. Em outras palavras, enquanto o 
estado subjetivo para o prazer está no presente, o estado 
subjetivo para o engajamento é apenas retrospectivo, 
assinala. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
147 
 
De acordo Seligman, a emoção positiva e o 
engajamento atendem facilmente aos três critérios para 
serem considerados elementos do bem-estar: 
 
 
 
 
3) são mensurados independentemente do 
restante dos elementos. 
(2) as pessoas buscam essas coisas por elas 
mesmas e não necessariamente para obter 
qualquer um dos outros elementos (eu quero 
essa massagem nas costas mesmo que ela não 
traga nenhum sentido, nenhuma realização e 
nenhum relacionamento); 
(1) a emoção positiva e o engajamento 
contribuem para a formação do bem-estar; 
Evandro Borges 
148 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
149 
 
Capítulo 14 
 
 
Engajamento nas Organizações 
 
Engajamento no Trabalho 
 
Em tempos globalizados onde gerenciar grandes ou 
pequenas organizações exige cada vez mais eficiência, a 
psicologia positiva tem se tonado peça chave no 
gerenciamento de recursos humanos. E embora Maslow 
seja referência no assunto, com a introdução da Teoria 
das Necessidades adaptada por diversos psicólogos às 
organizações, a teoria do engajamento tem ganhado cada 
vez mais espaço. 
Para Bakker e Leiter (2010 apud RODRIGUES et 
al., 2015), as organizações buscam, por meio de seus 
níveis de gerenciamento, manter um grupo de 
colaboradores engajados no trabalho, pois esses tendem, 
ressaltam os autores, a dedicarem-se mais à empresa e às 
tarefas apresentando melhores resultados. O engajamento 
no trabalho, portanto, estaria relacionado à satisfação 
advinda de uma grande carga de energia direcionada a 
uma atividade na qual o indivíduo se identifique. Em 
outras palavras, um indivíduo que desempenhe uma 
Evandro Borges 
150 
 
determinada função ou cargo com o qual sinta-se 
envolvido, motivado e realizado tende a engajar-se com 
maior facilidade, mesmo que isso exija um grande 
esforço. 
 Para Schaufeli et al., (2002), o fenômeno estaria 
relacionado a um estado mental ligado a três dimensões: 
 
 Vigor: considerando o ambiente de trabalho, o vigor 
estaria relacionado à energia empregada nas atividades 
executadas. Outros fatores importantes relacionados ao 
vigor seriam a persistência, os esforços e a vontade de 
empenhar-se em cada projeto ou atividade. 
 
 Dedicação: estaria relacionada aos sentimentos de 
afeição e consideração em alto grau, quando da 
realização das tarefas. Um outro fator relevante seria a 
sensação de prazer pelo trabalho à medida que o 
indivíduo o vê como desafiador e carregado de 
significados. 
 
 Absorção: seria a sensação de deleite para com o 
ambiente e as próprias dinâmicas da atividade 
profissional. Fenômeno em que colaborador se vê 
tomado por um sentimento de elevação e acaba por ter 
dificuldades em se separar das tarefas. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
151 
 
Para Mowday, Steers e Porter (1979, p. 225 apud 
RODRIGUES et al., 2015), um outro fator estudado foi o 
comprometimento organizacional afetivo, estado no qual 
um indivíduo se identifica com uma organização 
particular e com seus objetivos, desejando manter-se 
afiliado a ela com vista a realizar tais objetivos. Já o fator 
bem-estar no trabalho estaria ligado à organização, ao 
vínculo afetivo do trabalhador para com a empresa e da 
consciência do que esta empresa representa positivamente 
para ele. 
A satisfação no trabalho, afirma Locke (1976), é 
um estado emocional positivo ou de prazer, resultante de 
um trabalho ou de experiências de trabalho. Tal estado 
emocional seria, no entanto, um fator particular do 
indivíduo em relação às realidades que envolvem suas 
atividades, inclusive, quando da falta delas, tais como o 
chefe, colegas, satisfação em relação à remuneração, 
oportunidades de ascensão e atividades desenvolvidas. 
Já o bem-estar no trabalho estaria relacionado à 
predominância de emoções positivas no desempenho das 
atividades diárias, ao mesmo tempo em que o colaborador 
“vê que o exercício de suas competências e habilidades 
profissionais colaboram para os resultados pessoais” 
(PASCHOAL, 2008 apud RODRIGUES et al., 2015). 
 
Evandro Borges 
152 
 
O envolvimento com o trabalho, de acordo com 
Lodahl e Kejner, (1965), diz respeito ao grau em que o 
desempenho de um colaborador, noexercício de suas 
atividades, afeta sua autoestima, ou ao grau em que as 
tarefas desempenhadas pelo colaborador são importantes 
e envolventes para ele. “Há também uma relação deste 
envolvimento com os conflitos oriundos das funções 
organizacionais e as orientações divergentes” (SIQUEIRA 
e GOMIDE JR., 2004; RODRIGUES et al.,, 2015). 
 
Em suma, estar engajado profissionalmente 
significa entregar-se completamente, sem se dar conta do 
tempo e perder a consciência de si mesmo durante uma 
atividade envolvente. O engajamento é algo diferente, até 
oposto de uma emoção positiva, pois as pessoas não 
percebem as emoções que estão sentindo durante uma 
atividade engajada, elas se envolvem a ponto de fundirem-
se com o objeto da atividade. Não há atalhos para o 
engajamento. O indivíduo precisa empregar suas forças 
pessoais e talentos para se envolver com o mundo. 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
153 
 
Capítulo 15 
 
Identificando determinantes de 
satisfação com a vida 
 
De acordo com Celinska e Olszewski, (2013), o 
tema satisfação com a vida já foi objeto de estudo de 
diversos pesquisadores, como os de Kahneman (1999), 
Graham e Pettinato (2001) e Grochowska e Strawinski 
(2012). A autora observou que nestes estudos o fator 
renda foi um dos determinantes mais expressivos da 
satisfação com a vida, mas afirma que, contudo, os 
resultados das pesquisas sobre o fator renda tendia a estar 
em contradição, dependendo da técnica de análise 
utilizada e outras variáveis incluídas no modelo. Todavia, 
ressalta Celinska, a renda é um fator que geralmente tem 
um impacto positivo na satisfação com a vida, o que pôde 
ser constatado nos estudos de Seghieri et al., (2006) e 
Deaton (2008). 
 Celinska e Olszewski, (2013) afirma também que 
alguns pesquisadores concluíram que pode haver um 
impacto reverso de ambas as variáveis, o que significa que 
pessoas mais satisfeitas ganham mais (Diener et al., 2002; 
Graham et al., 2004). De acordo com Ferrer-iCarbonell e 
Frijters (2004 apud Celinska e Olszewski, 2013), a renda 
Evandro Borges 
154 
 
em si pode até não ser um determinante de felicidade, 
mas é um fator que significativo de satisfação para 
pessoais com maiores ganhos. 
 
Já a percepção da própria situação financeira pode 
ser ainda mais significativa na determinação da satisfação 
com a vida, apontam estudos de Johnson e Krueger 
(2006). A maioria das pesquisas também mostrou 
correlação positiva entre educação e satisfação, ou seja, o 
aumento dos níveis de educação têm um impacto positivo 
na satisfação com a vida, apontam Blanchflower e Oswald 
(2004). No entanto, tais fatores podem estar 
correlacionados com o impacto da renda, uma vez que 
pessoas com graus de escolaridade elevados e boa 
qualificação, possuem maiores chances de ocuparem 
postos de trabalho que ofereçam melhor remuneração. 
Ferrer-i-Carbonell (2005 apud Celinska e Olszewski, 
2013) apontam que este fator pode também estar 
correlacionado com características latentes como 
motivação e inteligência. Os autores examinaram o 
impacto da educação em comparação com a renda per 
capita de diversos países, e chegaram à conclusão de que a 
o fator educação é mais significativo na determinação da 
satisfação com a vida em países mais pobres. 
O impacto do gênero na satisfação com a vida é 
ambíguo, afirma Celinska e Olszewski, (2013). A autora 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
155 
 
avalia que em algumas pesquisas as mulheres 
apresentaram níveis mais elevados de satisfação com a 
vida do que os homens (Alesina et al. al., 2004). Por 
outro lado, estudos de Louis e Zhao (2002) não 
encontraram discrepâncias entre gêneros, o que sugere 
que o gênero em si não é um determinante de satisfação 
com a vida, afirma Celinska. Ainda de acordo com a 
autora, os níveis mais elevados de satisfação com a vida 
estão geralmente correlacionados com uma melhor saúde, 
pois proporcionaria maior entusiasmo com a vida (Shields 
e Price 2005 apud Celinska e Olszewski, 2013). 
Outra variável significativa observada pela autora 
foi o número de horas dedicadas a atividades sociais, que 
segundo ela, influenciam positivamente na satisfação com 
a vida. Constatou-se também, de acordo com Celinska, 
que populações de países que acreditam ter maior 
controle sobre suas vidas são mais felizes do que as que 
afirmaram não ter controle. 
O fator idade apresentou resultados ligeiramente 
negativos se comparados a idosos, afirma Celinska e 
Olszewski, (2013). Para a autora, o número de contatos 
sociais e o estado civil parecem demonstrar maior 
importância como fatores determinantes. Ela constatou 
que para indivíduos entre 64 e 65 anos, de ambos os 
sexos, os fatores determinantes foram a família, o 
convívio social, os amigos, o casamento, as realizações 
Evandro Borges 
156 
 
pessoais, a saúde e a sensação de serem amados. Para os 
homens, a ausência de divórcio após os 65 anos 
apresentou resultados positivos em comparação com as 
mulheres. 
 
 Estudos de Cherie e Saun-Ders (1999) utilizaram 
o Inventário de Depressão de Beck (1988) para avaliar 
atitudes específicas relacionadas aos sintomas da 
depressão. Os resultados demonstraram que indivíduos 
mais afetados pelos sintomas da depressão possuem 
menor nível de satisfação com a vida e estão 
significativamente menos envolvidos em atividades 
sociais. Constatou-se também que as mulheres são 
geralmente mais ativas socialmente do que os homens, 
porém, tais fatores não estariam relacionados com menor 
intensidade de depressão. 
 
Um estudo de Rojas (2004), avaliou variáveis como 
saúde, fatores econômicos, trabalho, família, amigos, vida 
pessoal e social. Os resultados mostraram que fatores 
como amizade e relações sociais possuem pouca 
influência nos níveis de satisfação com a vida. Já o fator 
família teve o maior impacto, seguido, respectivamente 
por fatores econômicos e sociais. 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
157 
 
Capítulo 16 
 
A felicidade e a Personalidade 
Autotélica 
 
 
 
No início de dezembro de 2016, em meio a Guerra 
Civil na Síria, na cidade de Aleppo, o mundo conheceu a 
identidade, até então desconhecida, de Anas al-Basha, um 
voluntário de 24 anos de idade que se vestia de palhaço 
para distrair crianças traumatizadas em meio aos intensos 
conflitos entre tropas militares do Governo Sírio e 
milícias que se opunham ao governo daquele país. Anas 
era membro voluntário da organização não governamental 
síria Space of Hope (Espaço da Esperança) e tinha se 
Evandro Borges 
158 
 
casado há dois meses. Ele se recusou a deixar a cidade 
após receber a notícia de que a mesma estava sitiada por 
tropas leais ao governo. Anas morreu em decorrência de 
bombardeios. Cerca de 30 mil civis já haviam deixado 
Aleppo nos últimos meses, inclusive os pais de Anas, em 
julho do mesmo ano. De acordo com estimativas de 
organizações humanitárias locais, incluindo a ONU, mais 
de 400 mil pessoas morreram e milhões foram obrigadas 
a fugir desde o início da guerra na Síria, há quase seis 
anos. Calcula-se que 250 mil pessoas ainda estão vivendo 
na cidade sitiada, das quais 100 mil são crianças.
23
 
24
 
 
Você deve estar se perguntando: "-Por que um 
título contendo a palavra felicidade começou com uma 
história triste?". 
A resposta está na história do próprio Anas. E 
minha intenção aqui, além de compartilhar esta história 
emocionante de dedicação, superação e amor à vida, foi 
também de demonstrar o quanto o ser humano pode ser 
altruísta, sensível, feliz e dedicado ao mundo em que vive, 
 
23
 Globo. G1 Internacional. "A trágica morte do palhaço que alegrava 
crianças em meio à guerra em Aleppo”. 
24
 Foto: Anas al-Basha se fantasiava de palhaço para alegrar as 
crianças nacidade sitiada de Aleppo (Foto: Courtesy of Ahmad al-
Khatib, via AP). 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
159 
 
independentemente das adversidades que o cercam. 
Talvez, o sentido da vida de Anas, a forma como se sentia 
feliz, realizado e motivado a viver, estivesse exatamente 
na razão pela qual escolheu ser voluntário e ajudar 
crianças. Talvez não tivesse alternativas para deixar a 
cidade, talvez não tenha lhe restado tempo, mas o que ele 
realmente fazia ultrapassava seus próprios interesses 
pessoais. Anas perdeu a vida fazendo o que amava. E isso, 
involuntariamente, na maioria das vezes, é a maneira pela 
qual as pessoas dão sentido às suas vidas, são estados de 
fluxo que ultrapassam a barreira do que é meramente 
compreensível.
25
 
Quando indagado sobre quais realizações em sua 
vida tinha mais orgulho, o famoso físico Freeman John 
Dyson afirmou: 
Suponho que foi apenas ter criado seis 
filhos, e feito deles, pelo que posso ver, 
pessoas interessantes. Acho que é disto que 
tenho mais orgulho, realmente 
(CSIKSZENTMIHALYI, 1999). 
 
E o ganhador, em duas ocasiões do Prêmio Nobel 
(de Química em 1954 e da Paz em 1962), o cientista 
norte-americano Linus Pauling, entrevistado aos 89 anos, 
 
25
 Csikszentmihalyi, Mihaly. A descoberta do fluxo. Rio de Janeiro: 
Rocco, 1999. 
Evandro Borges 
160 
 
deu a seguinte resposta ao ser questionado sobre o que 
faria da vida perto de completar 90 anos: 
 
Acho que nunca me sentei e me perguntei, 
o que vou fazer da minha vida, agora? Eu 
simplesmente continuo fazendo o que 
gosto. Se você se dedica seriamente a seu 
trabalho, perde a noção do tempo, fica 
completamente enlevado, totalmente 
dominado pelo que está fazendo... Quando 
trabalha em algo que gosta e trabalha bem, 
você tem a sensação de que não há outra 
maneira de dizer o que está sentindo 
(CSIKSZENTMIHALYI, 1999). 
 
Exemplos como estes, afirma Lima (2010), nos 
fazem refletir sobre como passamos nossos dias, o que 
nos dá prazer, como nos sentimos quando comemos, 
assistimos à televisão, trabalhamos, dirigimos ou saímos 
com nossos amigos. Tomando como base uma extensa 
pesquisa mundial sobre questões como estas, o Dr. 
Mihaly argumenta que muitas vezes consumimos nossos 
dias inconscientes e sem contato com nossas emoções. 
Por causa dessa desatenção, constantemente oscilamos 
entre dois extremos: durante a maior parte do dia 
estamos imersos na ansiedade e nas pressões do trabalho 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
161 
 
e das obrigações e, nos momentos de lazer, tendemos a 
viver no tédio passivo.
26
 
 
A palavra “autotélica” vem do grego “auto”, 
“relativo ao próprio indivíduo”, e “telos”, que significa 
“finalidade”. Desta forma, uma vida autotélica seria 
aquela realizada por si mesma, tendo a experiência como 
meta principal. Por exemplo, se um indivíduo joga poker 
porque aprecia a inteligência das jogadas, então suas 
partidas são experiências autotélicas, mas se joga por 
dinheiro ou para alcançar um alto nível competitivo no 
nas rodas de poker, então o mesmo jogo torna-se 
“exotélico”, isto é, motivado por uma finalidade externa. 
 Quando aplicado a uma personalidade, o termo 
autotélico denota um indivíduo que geralmente faz as 
coisas por si mesmas, sem se preocupar com metas 
externas posteriores. Dessa forma, o indivíduo possuidor 
de uma personalidade autotélica é desprendido de excesso 
de bens materiais, entretenimento, conforto, poder ou 
fama, porque o que ele faz já é gratificante o bastante. Ele 
poderá, contudo, adquirir bens materiais, ter 
entretenimento, desfrutar de conforto, alcançar poder e 
fama, mas todos estes fatores serão advindos das 
 
26
 Lima, Jerônimo. Resenha: A descoberta do fluxo, de Mihaly 
Csikszentmihalyi – Valores Reais. 20 de jun de 2010. 
 
Evandro Borges 
162 
 
consequências de sua alegria ou prazer pelo que faz, do 
modo como vive e se relaciona com o mundo, ou seja, não 
serão metas pré-estabelecidas. E uma vez que estes 
indivíduos experimentam o fluxo no trabalho, na vida 
familiar, na interação com os outros, quando comem e até 
mesmo quando ficam sozinhos, sem ter o que fazer, são 
menos dependentes das ameaças e recompensas externas 
que mantêm a maioria das pessoas motivadas a 
prosseguir com uma vida composta por rotinas tediosas e 
sem significado. Assim, são mais autônomos e 
independentes porque se envolvem mais com tudo ao seu 
redor, estão totalmente imersos nas experiências da vida. 
 É necessário, no entanto, que o indivíduo leve uma 
vida significativa, sentir que pertence a algo maior que ele 
mesmo. Pessoas autotélicas que vivem imersas em 
experiências de fluxo, observa Csikszentmihalyi (1999), 
ajudam a reduzir a desordem na consciência daqueles com 
quem interagem, pois “quando agimos na plenitude da 
experiência do fluxo, também estamos construindo uma 
ponte de felicidade para o futuro do nosso universo”. 
 
Para o Dr. Mihaly, gastamos nosso tempo em 
atividades produtivas como trabalhar, estudar, falar, 
comer e divagar durante o trabalho; atividades de 
manutenção, como cuidados com a casa (cozinhar, limpar, 
fazer compras), dirigir ou locomover-se; e atividades de 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
163 
 
lazer como mídia (TV e leitura), hobbies, esportes, filmes, 
restaurantes, conversas e contatos sociais e repouso. 
Segundo o autor, estes três tipos de atividades ocorrem 
numa proporção média de 42%, 31% e 27%, 
respectivamente. Partindo destes pressupostos, a vida 
cotidiana não seria definida apenas pelo que fazemos, mas 
também por aqueles com quem estamos. O significado de 
‘viver’ ou ‘ter uma vida boa’ passaria a ter um novo 
sentido, e este sentido seria viver de maneira plena, 
expressando a própria individualidade, sem desperdício 
de tempo e potencial. 
 
De acordo com Csikszentmihalyi (1999), há três 
pressupostos básicos para compreendermos o sentido de 
viver de maneira plena. O primeiro, assinala o autor, é 
que profetas, poetas e filósofos vislumbraram verdades 
importantes no passado que são essenciais para a 
continuidade da sobrevivência da raça humana. Mas essas 
verdades, ressalta, foram expressas no vocabulário 
conceitual de sua época, de modo que, para que sejam 
úteis atualmente, seu significado precisa ser redescoberto 
e reinterpretado a cada geração. Por isso, os livros 
sagrados do Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Budismo 
e dos Vedas são os melhores repositórios das ideias mais 
importantes de nossos ancestrais, e ignorá-los é um ato 
de arrogância infantil, tanto quanto acreditar que tudo 
Evandro Borges 
164 
 
que foi escrito no passado é uma verdade absoluta e 
imutável. 
O segundo, de acordo com o Dr. Mihaly 
Csikszentmihalyi (1999), é que atualmente a ciência 
oferece as informações mais essenciais para a 
humanidade, expressando a “verdade científica” de acordo 
com a visão do mundo de sua época e, portanto mudará e 
poderá ser descartada no futuro. Os próprios cientistas – 
em especial os físicos e biólogos - hoje já acreditam, por 
exemplo, que, no futuro, a percepção extra-sensorial e a 
energia espiritual poderão nos levar à verdade sem a 
necessidade de teorias e experiências de laboratório. Mas 
também não vamos nos iludir pensando que nosso 
conhecimento é mais amplo e avançado do que realmente 
é. 
O terceiro, segundo o autor, é que, se desejamos 
compreender o que realmente seja “viver”, de fato, 
devemos escutar as vozes do passado e integrar suas 
mensagens com o conhecimento que a ciência acumula. 
Portanto, “vida”, observa Csikszentmihalyi (1999), 
significa aquilo que experimentamos, seja pelos processos 
químicos de nosso corpo, pela interação biológica entre os 
órgãos, “pelas ínfimas correntes elétricas saltandoentre 
as sinapses do cérebro e pela organização da informação 
que a cultura impõe sobre nossa mente”. Em 
contrapartida, a mensuração da qualidade real da vida, ou 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
165 
 
seja, o que fazemos e como nos sentimos quanto a isso, 
será determinada subjetivamente por meio de nossos 
pensamentos e emoções, pelas interpretações que damos 
aos processos químicos, biológicos e sociais. Portanto, 
Com base em questões como essas, O Dr. Mihaly 
afirma que só conseguimos ser felizes à medida em que 
vivenciarmos experiências de fluxo, ou seja, momentos 
em que o que sentimos, o que desejamos e o que 
pensamos se harmonizam. 
 
O fluxo, observa o Dr. Mihaly, ocorre quando o 
indivíduo encara um conjunto claro de metas que 
oferecem feedback imediato sobre seu desempenho, ou 
seja, quando suas competências (conhecimentos, 
habilidades e atitudes) estão totalmente envolvidas em 
superar um desafio que está no limiar de sua capacidade 
de controle. Se os desafios são altos demais, o indivíduo 
tende a frustrar-se, em seguida fica preocupado e, por 
último, ansioso. Se os desafios são baixos demais, ele fica 
relaxado, em seguida entediado. Um dia típico, portanto, 
estaria marcado por picos de ansiedade e tédio. 
As experiências de fluxo, afirma o autor, oferecem 
“lampejos de vida intensa contra esse cotidiano 
medíocre”. Mas, para que o fluxo ocorra, para fugirmos 
disso, é preciso “oscilar”. Na prática, as experiências de 
fluxo acontecem quando fazemos coisas diferentes do que 
Evandro Borges 
166 
 
estamos habituados a fazer, ou seja, quando oscilamos 
entre atividades rotineiras e atividades que prendam 
nossa atenção de maneira prazerosa. A pesquisa do Dr. 
Mihaly comprova que as atividades produtivas ajudam 
muito a melhorar nossa capacidade de concentração e nos 
dão um nível médio de fluxo. Já as atividades de 
manutenção pouco contribuem neste sentido, enquanto 
que as atividades de lazer são especialmente úteis para a 
geração de motivação e de fluxo, em especial quando 
praticamos nossos hobbies e esportes e um pouco menos 
quando conversamos com amigos, fazemos sexo e 
participamos de eventos de socialização. Assim, por 
exemplo, um executivo muito atarefado, que trabalha 
muito, poderia “oscilar” sua rotina praticando um pouco 
de meditação ou fazendo yoga, um psiquiatra poderia 
jogar tênis ou fazer alpinismo, um professor poderia ir 
mais ao cinema ou jogar futebol. Isto lhes daria maior 
equilíbrio no ritmo de suas ações, pensamentos e 
emoções. O difícil, contudo, é conseguir mudar nossos 
padrões de vida. Como para a maioria das pessoas o 
trabalho figura como parte central da vida, é essencial que 
esta atividade seja tão agradável e compensadora quanto 
possível. Para que isso ocorra, é preciso pensar e agir 
além do que reza a atribuição do cargo. Uma solução 
alternativa seria focarmos nossa atenção, uma energia 
psíquica adicional, a cada etapa exigida no trabalho, e 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
167 
 
então nos perguntarmos: “-Esta etapa é necessária? Quem 
precisa dela? Se realmente é necessária, pode ser feita de 
maneira melhor, mais rápida e mais eficiente? Que passos 
adicionais tornariam minha contribuição em trabalho 
mais valiosa?” 
 
Nossa atitude para com o trabalho geralmente 
envolve gastar bastante tempo e esforço tentando resolver 
questões urgentes fazendo o mínimo possível. E isso 
consome recursos cognitivos que consomem uma enorme 
quantidade de energia. Portanto, se encontrarmos uma 
forma de gastarmos a mesma quantidade de atenção 
tentando encontrar maneiras criativas de realizarmos 
nossas atividades no trabalho, seremos mais bem-
sucedidos e felizes. Carreiras de indivíduos criativos 
oferecem maiores alternativas de como moldar o trabalho 
segundo as próprias exigências, isto é, a maioria dessas 
pessoas não segue apenas uma rotina pré-estabelecida, 
mas reinventa seu trabalho enquanto o realiza. 
Além do trabalho, outra área que impacta a 
qualidade de vida é o tipo de relacionamento que temos. 
E é comum que exista um conflito entre estes dois lados, 
de modo que uma pessoa que ama trabalhar possa acabar 
por negligenciar a família e os amigos, e vice versa, uma 
vez que a atenção é um recurso limitado, e quando uma 
meta toma quase toda a energia psíquica do indivíduo, 
Evandro Borges 
168 
 
sobra pouco ou quase nada para as demais atividades. É 
como chegar em casa extremamente cansado do trabalho 
e não ter vontade para fazer mais nada, além de dormir ou 
descansar. Uma alternativa para que possamos aprender a 
dividir a energia psíquica é encontrarmos maneiras de 
equilibrar o significado das recompensas que recebemos 
no trabalho e nos relacionamentos. E isso parece esbarrar 
em dois fatores distintos, como o prazer no trabalho 
versus remuneração e relacionamentos versus 
recompensas afetivas. E muitas pessoas acabam 
negligenciando as recompensas afetivas por considerarem 
as necessidades materiais satisfeitas. O sentimento mais 
comum é o de que a família vai cuidar de si mesma, uma 
vez suprida de recursos materiais e sustento. Por 
exemplo, há a falsa ilusão de que o cônjuge vai continuar 
a ser cúmplice e a dar apoio incondicional, de que os 
filhos vão cuidar dos pais quando estes ficarem velhos, ou 
de que as conversas entre o casal e deste com os filhos 
continuarão para compartilhar ideias, emoções, memórias 
e sonhos. 
 Em contrapartida, quando há equilíbrio entre 
trabalho e relacionamentos, ou seja, quando conseguimos 
obter experiências de fluxo em ambos os espaços, a 
qualidade da vida cotidiana tenderá a melhorar 
consideravelmente, tudo dependerá do fator adaptação. 
No entanto, isso exige que não desperdicemos energia 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
169 
 
com problemas pequenos, ou seja, fáceis de se resolver. 
Quando estes fatores tornam-se equilibrados, podemos 
então, experimentar uma vida “autotélica”, ou seja, 
repleta de experiências de fluxo, mais digna de ser vivida 
do que uma vida de consumo, de entretenimento passivo, 
uma vida sem graça alguma. 
 
Para Scardua (2013), pessoas com personalidades 
autotélicas se caracterizam por usufruírem com maior 
frequência dos estados de fluxo nas mais diversas 
atividades da vida cotidiana. E por esta razão, precisam de 
poucos bens materiais, pouco entretenimento, pouco 
conforto, poder ou fama, sendo mais autônomas e 
independentes porque não se sentem ameaçadas ou 
seduzidas por recompensas externas. Ao mesmo tempo se 
envolvem mais com tudo ao seu redor porque estão 
totalmente imersas na corrente da vida. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
170 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
171 
 
Capítulo 17 
 
Autocontrole - Uma forma de superar 
momentos difíceis 
 
A cada dia que passa me convenço de que a 
capacidade de superar momentos extremamente difíceis 
repousa na capacidade que adquirimos de ser menos 
enérgicos. Isso me faz crer que quanto menos você gastar 
energia com problemas pequenos, mais fácil irá superar 
os problemas verdadeiramente grandes. Não é um ponto 
de vista meramente filosófico ou abstrato. E no que diz 
respeito a evidências, pesquisas conduzidas pelo 
psicólogo norte americano Roy Baumeister, da University 
of Queensland, têm avançado nesse sentido. Em sua mais 
recente publicação, “Willpower: Rediscovering the 
Greatest Human Strength, a Self studies, 2011 ( Força de 
Vontade: Redescobrindo a Maior Força Humana, um 
estudo sobre autocontrole)”, Baumeister constatou que as 
emoções se auto regulam quando aprendemos a lidar com 
elas de maneira mais amena. Isso não significa que 
devamos nos tornar frios emocionante, mas aceitarmos a 
instabilidade emocional como consequência da formacomo interpretamos nossos problemas cotidianos, bem 
como as interações com os outros. Não se pode ter total 
Evandro Borges 
172 
 
controle sobre os outros, mas é possível ter controle sobre 
si mesmo. Portanto, guarde suas energias para quando 
realmente for necessário. 
 
 
Exercitando o Autocontrole 
 
O autocontrole ou “self-control”, em inglês, é uma 
função central do funcionamento psíquico e uma 
importante chave para o sucesso na vida. Porém, o 
exercício do autocontrole parece depender de um recurso 
limitado. Assim como um músculo se cansa do esforço, os 
atos de autocontrole causam prejuízos de curto prazo. Tal 
fenômeno foi batizado de Depleção do Ego, que tem como 
definição, de acordo com os pesquisadores, “uma redução 
temporária na capacidade individual ou na vontade 
individual para engajar-se em uma ação intencional 
(incluindo o controle do ambiente, o controle do eu, 
tomar decisões e iniciar ações) causada por um exercício 
anterior de uma ação intencional” (BAUMEISTER et al., 
1998, p. 1253). 
 
O Dr. Baumeister cunhou o termo “Ego 
Depletion”, que em português pode ser traduzido como 
“Depleção do Ego” ou “Esgotamento do Ego”, para 
explicar o fenômeno de redução de autocontrole, ou 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
173 
 
dificuldade de manutenção do autocontrole. Tal 
esgotamento seria mental e, portanto, prejudicaria o 
indivíduo em suas metas e decisões, principalmente a 
longo prazo. Por exemplo, se uma pessoa passa uma 
semana inteira mantendo uma dieta rígida, sem consumir 
doces, as chances dessa pessoa sentir-se esgotada 
psicologicamente e abandonar a dieta seriam maiores, 
pois manter o autocontrole por um longo período de 
tempo causaria o esgotamento (Baumeister, et al., 1998). 
 
No entanto, o Dr. Baumeister e sua equipe de 
pesquisadores afirmam que autocontrole refere-se à 
capacidade de alterar as próprias respostas, especialmente 
para alinhá-las a padrões como ideais, valores, moral e 
expectativas sociais, e apoiar a busca de metas de longo 
prazo. Muitos escritores usam os termos autocontrole e 
autoregulação de forma intercambiável, mas aqueles que 
fazem uma distinção tipicamente consideram o 
autocontrole como o subconjunto deliberado, consciente e 
esforçado da autoregulação. Em contraste, processos 
homeostáticos tais como manter uma temperatura 
corporal constante podem ser chamados de 
autoregulação, mas não de autocontrole. O autocontrole 
permite que uma pessoa restrinja ou anule uma resposta, 
tornando possível uma resposta diferente (BAUMEISTER, 
R. F., VOHS, K. D., & TICE, D. M. 2007. p. 351). 
Evandro Borges 
174 
 
O tema autocontrole tem atraído a atenção 
crescente dos psicólogos por duas razões principais. No 
nível teórico, o autocontrole contém importantes chaves 
para a compreensão da natureza e funções do “self”. 
Enquanto isso, as aplicações práticas do autocontrole têm 
atraído o estudo em muitos contextos. O autocontrole 
inadequado tem sido associado a problemas 
comportamentais, tais como compulsão alimentar, abuso 
de álcool e drogas, crime, violência, gastos excessivos, 
comportamento sexualmente impulsivo, gravidez 
indesejada e tabagismo, por exemplo (Baumeister, 
Heatherton, e Tice, 1994 ; Gottfredson & Hirschi, 1990; 
Tangney, Baumeister, e Boone, 2004 ; Vohs & Faber, 
2007). Os autores sugerem que o autocontrole também 
pode estar relacionado a problemas emocionais, falta de 
escolaridade, falta de persistência, várias falhas no 
desempenho das tarefas, problemas de relacionamento, 
dissolução e outros fatores. 
 
Quanto ao conceito de “self” proposto por 
Baumeister (1993), o autor refere-se a três experiências 
básicas do ser humano: 
 
1ª) Consciência reflexiva, que é o conhecimento sobre si 
próprio e a capacidade de ter consciência de si; 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
175 
 
2ª) Interpessoalidade dos relacionamentos humanos, 
através dos quais o indivíduo recebe informações sobre si; 
 
3ª) Capacidade do ser humano de agir. 
 
Outro fenômeno explorado pelos pesquisadores foi 
a “força de vontade”. Para Gailliot et al., (2007) a glicose 
disponível na corrente sanguínea poderia ser convertida 
em neurotransmissores e, assim, fornecer combustível 
para a atividade cerebral. Para os autores, exercícios de 
autocontrole causariam reduções nos níveis de glicose no 
sangue, que por sua vez resultariam em um autocontrole 
pobre em tarefas comportamentais. Os pesquisadores 
identificaram que beber um copo de limonada com açúcar 
ajudou a neutralizar esses efeitos, presumivelmente 
restaurando a glicose no sangue. Já no grupo de controle, 
a limonada misturada com adoçante diet (sem glicose), 
não surtiu o mesmo efeito. 
 
No entanto, Baumeister et al., (2006) sugere que, 
assim como o exercício pode fazer os músculos mais 
fortes, há sinais de que esforços regulares de autocontrole 
podem aumenta a força de vontade, ou seja, embora 
exercitar o autocontrole com frequência possa causar 
esgotamento, com uma prática regular, o organismo se 
adaptaria, assim como um iniciante em uma academia de 
Evandro Borges 
176 
 
musculação se adaptaria a uma jornada de exercícios 
depois de alguns meses. Para os pesquisadores, estas 
melhorias tipicamente assumiriam uma forma de 
resistência ao esgotamento, no sentido de que o 
desempenho nas tarefas de autocontrole passariam a se 
deteriorar a uma taxa mais lenta. Muraven & Slessareva 
(2003) também constataram que pessoas que recebem 
recompensas ou incentivos durante o desempenho de 
atividades tiveram os efeitos do esgotamento 
neutralizados. 
 
Várias linhas de trabalho identificaram 
procedimentos que podem moderar ou neutralizar os 
efeitos do esgotamento, por exemplo, induzindo um 
estado de emoção positiva, como o humor, parece ter esse 
efeito (Tice, Baumeister, Shmueli, & Muraven de 2007). 
 
Quanto à possibilidade de interferência nas 
questões de comportamento inteligente, que dependem 
em parte do autocontrole, os pesquisadores destacam que 
alguns processos, como memória, são bastante 
automáticos e independentes do autocontrole e parecem 
não ser relativamente afetados pelo esgotamento. Em 
contrapartida, o raciocínio lógico poderia ter seu 
desempenho fortemente afetado quando as pessoas estão 
esgotadas (Schmeichel, Vohs, e Baumeister, 2003). 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
177 
 
Processos interpessoais também parecem depender 
de operações de autocontrole. Richeson e Shelton (2003) 
argumentam que o autocontrole é necessário para discutir 
questões delicadas e sensíveis, e que o esgotamento 
poderia prejudicar um diálogo desse tipo, ou seja, as 
pessoas poderiam se ofender com maior facilidade. 
Estudos recentes indicam que a mesma energia 
utilizada para autocontrolar-se também pode ser 
direcionada para a tomada de decisões que exijam esforço 
(Vohs et al., 2007 ). Para os autores, isso parece 
corresponder ao que o senso comum entende como "livre-
arbítrio", ou seja, a capacidade de substituir impulsos, se 
comportar moralmente, mostrar iniciativa e se comportar 
de acordo com escolhas racionais (Baumeister et al., 
2007). 
Em suma, conclui-se que o autocontrole exige 
treino, desde que gradativo, moderado e constante, como 
forma de evitar o esgotamento completo e possibilitar 
uma adaptação, que também seria passível de melhorias 
mesmo em indivíduos em idade adulta. A indução de 
emoções positivas, como o humor, desacelerariam a taxa 
de esgotamento, da mesma forma que a incentivos ou 
recompensas. Também constatou-se que ao contrário do 
raciocínio lógico, a inteligência não seria afetada, e que a 
ingestão de glicose durante os experimentos demonstrou 
reduzir os efeitos do esgotamento. 
Evandro Borges 
178 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PsicologiaPositiva: uma mudança de perspectiva 
 
179 
 
Capítulo 18 
 
 
Depressão, um olhar biopsicossocial 
 
De acordo com o Relatório Sobre a Saúde no 
Mundo publicado pela OMS (2001), atualmente a 
depressão atinge em torno de 7% da população brasileira 
(17 milhões de pessoas). Segundo pesquisa da IMS 
Health, em 2016 a venda de antidepressivos e 
estabilizadores de humor cresceu 18,2%
27
. A OMS alerta 
que atualmente a depressão é a quarta causa global de 
incapacidade e deve se tornar a segunda até 2021. 
De acordo com o psiquiatra Bruno Nazar, da 
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e 
pesquisador do King´s College, de Londres, a 
desinformação e o preconceito a respeito da doença 
parece refletir no agravamento da mesma, acarretando em 
danos secundários como ansiedade, síndrome do pânico, 
insônia e indisposição, que afetam o desempenho no 
trabalho e nas atividades diárias como estudar e se 
relacionar com outras pessoas. 
 
27
 IMS Institute For Healthcare Informatics. The global use of 
medicines: outlook through 2012-2016. 
 
Evandro Borges 
180 
 
Para a titular da Associação Brasileira de 
Psiquiatria, Dra. Evelyn Vinocur, a depressão também é 
uma doença psicossocial, não sendo necessariamente 
decorrente de fatores genéticos, que interferem no 
desequilíbrios de neurotransmissores do cérebro. A Dra 
Vinocur também afirma que de dois anos para cá, as 
pessoas estão muito mais estressadas, ansiosas, 
deprimidas, com sintomas característicos da psiquiatria, e 
que o cenário de um mundo globalizado, onde a 
informação está cada vez mais acelerada acaba 
contribuindo para que as pessoas fiquem mais aceleradas 
e, consequentemente, mais estressadas.
28
 
De acordo com os psiquiatras, os sintomas mais 
comuns são: cansaço repentino, apatia, taquicardia, 
insônia, hipersensibilidade, choro por qualquer coisa, 
medo e, aparentemente, tudo isso, sem motivo. Os 
psiquiatras também afirmam que doenças como diabetes 
e hipotireoidismo também podem estar relacionadas a 
determinados casos de depressão. Porém, um outro fator 
que me chamou a atenção foi a hipoglicemia, que se não 
for diagnosticada por um profissional especializado, acaba 
apresentando sintomas semelhantes à depressão e 
 
28
 Goussinsky, Eugenio. Venda de antidepressivos no Brasil cresce 
com o aumento de casos ligados à depressão. Notícias. Saúde. R7, 
2017. 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
181 
 
fazendo com que, cada vez mais indivíduos recebam 
diagnósticos equivocados e passem a tomar 
antidepressivos, sem se preocupar com o consumo 
excessivo de açúcar, levando-os ao quadro irreversível de 
diabetes. 
Os sintomas da hipoglicemia ‘mascarados’ como o 
de uma depressão, na verdade são os sintomas do famoso 
‘Perigo Branco’, termo cunhado por William Dufty no 
livro “Sugar Blues: O gosto amargo do açúcar ″, que alerta 
sobre o consumo exagerado de açúcar e seus derivados. E 
são os mesmos descritos anteriormente.
29
 
E é sempre bom fazer um alerta para que, em casos 
de suspeita de depressão, o primeiro passo deva ser 
procurar ajuda de um profissional qualificado e 
especializado no assunto. Uma conversa franca com a 
família ou pessoas próximas também é essencial. O uso 
de medicamentos sempre deverá seguir a orientação e 
prescrição médica. E em caso de suspeita de hipoglicemia, 
é aconselhável informar ao profissional para que exames 
complementares sejam realizados, tornando o diagnóstico 
mais preciso. 
 
 
29
 Dufty, William. Sugar blues: O gosto amargo do açúcar. Rio de 
Janeiro: Editora Ground, 1975. 
 
Evandro Borges 
182 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
183 
 
Capítulo 19 
 
Psicologia e Biologia – Um convite ao 
diálogo 
 
Apesar de ser adepto da psicologia positiva, não 
deixo de ser um profundo admirador de Freud, um 
homem muito à frente de seu tempo, um visionário. E 
apesar de ter fundado os alicerces da psicanálise 
juntamente com o Dr. Josef Breuer, nunca se apartou 
completamente de sua vocação inicial, a neurologia. Antes 
de morrer, Freud deixou algo incompleto, “Um projeto 
para uma psicologia científica”, ao qual o psicanalista 
francês Jacques Lacan tentou ressuscitar. Freud, como um 
desbravador da mente humana, usou as ferramentas que 
tinha e em sua época, aplicando-as a seu contexto e 
demandas existentes, demandas estas consideradas tabus, 
fenômenos que não dispunham de meios de investigação 
avançada, como nos dias de hoje. E a frase mais 
impactante de Freud hoje me motiva a seguir uma linha 
de raciocínio diferente da que eu tinha há alguns anos 
atrás, quando, em conversa com o psiquiatra Joseph 
Wortis, seu aluno e posteriormente fundador da Revista 
Biological Psychiatry, Freud expressou sua vontade 
incansável de aproximar psicologia e biologia: 
Evandro Borges 
184 
 
Não aprenda apenas psicanálise como 
existe hoje. Já está ultrapassada. Sua 
geração chegará à síntese entre 
psicologia e biologia. Você deve se 
dedicar a isso (Sigmund Freud)
30
. 
 
O estabelecimento da psicologia como ciência 'pura' 
e, não somente aplicada, implica em uma série de fatores. 
Enquanto a ciência pura é dependente de deduções a 
partir de verdades demonstradas, experimentos bem 
controlados e seguindo a lógica do reducionismo 
científico, a ciência aplicada visa às aplicações do 
conhecimento para a solução de problemas práticos. 
Durante décadas a psicologia focou-se apenas na 
prática clínica, nos aspectos psicológicos e em resultados 
advindos da experiência clínica. Em contrapartida, as 
ciências biológicas avançaram de tal forma que hoje 
compreendem grande parte da anatomia e fisiologia 
cerebral. Nos campos da neurobiologia, neurologia e 
neurogenética, já é possível compreender a gênese de 
inúmeras patologias, sem que haja, necessariamente, uma 
correlação entre fatores externos, traumas ou aspectos 
psicossociais. 
 
30
 Servan-Schreiber, David; Bigotte, Magda. Curar: o stress, a 
ansiedade e a depressão sem medicamentos nem psicanálise. 2004. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
185 
 
Pesquisas dirigidas pelo Dr. Kerry Ressler, da 
Emory University, em Atlanta, EUA, identificaram e 
isolaram o gene FKBP5, através do "Grady Trauma 
Project". E descobriram quatro variantes que são mais 
comumente encontradas em pessoas que sofrem de 
transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade 
generalizada, síndrome do pânico e depressão.
31
 
Cientistas da Universidade de Bonn, na Alemanha, 
publicaram um estudo recente na revista "Behavioural 
Neuroscience", no qual atestaram uma mutação genética 
que atinge cerca de metade da população europeia, e que 
manifesta-se em 25% das pessoas, que herdam de seus 
pais duas cópias do mesmo gene. Esses indivíduos têm 
um risco significativamente maior que a média da 
população de sofrer de ansiedade e males relacionados 
como transtornos pós-traumáticos e doenças obsessivo-
compulsivas. Para o Dr. Christian Montag, que liderou as 
pesquisas, é possível identificar diferenças genéticas entre 
as pessoas que afetam diretamente os 
neurotransmissores, substâncias que transmitem os 
 
31
 Binder, E. B., Bradley, R. G., Liu, W., Epstein, M. P., Deveau, T. C., 
Mercer, K. B., ... & Schwartz, A. C. (2008). Association of FKBP5 
polymorphisms and childhood abuse with risk of posttraumatic stress 
disorder symptoms in adults. Jama, 299(11), 1291-1305. 
 
Evandro Borges 
186 
 
impulsos nervosos, e influenciam as variações 
psicológicas.
32
 
O Dr. Abraham Palmer,professor assistente de 
genética humana na Universidade de Chicago, EUA, 
conduziu um estudo publicado no “Journal of Clinical 
Investigation”, no qual foram constatados mecanismos 
que autorregulam comportamentos de ansiedade. Ao 
isolarem o gene Glo1, os cientistas descobriram um novo 
fator de inibição no cérebro: o subproduto metabólico 
metilglioxal (MG). De acordo com os pesquisadores, tal 
descoberta poderá resultar em novos métodos e técnicas 
de abordagens mais eficazes no tratamento de transtorno 
de ansiedade, epilepsia e distúrbios do sono.
33
 
Quando um indivíduo procura um médico, ele não 
quer receber um diagnóstico evasivo ou hipotético e, por 
mais que receba, o médico certamente solicitará exames 
complementares. Portanto, o paciente quer uma resposta 
concreta que possibilite um tratamento eficaz. Da mesma 
forma, quando um indivíduo procura auxílio psicológico, 
 
32
 Montag, C., Buckholtz, J. W., Hartmann, P., Merz, M., Burk, C., 
Hennig, J., & Reuter, M. (2008). COMT genetic variation affects fear 
processing: psychophysiological evidence. Behavioral neuroscience, 
122(4), 901. 
33
 Palmer, Abraham A.; Margaret G. Distler; Marcelo A. Nobrega et al 
(2012). Glyoxalase 1 increases anxiety by reducing GABAA receptor 
agonist methylglyoxal. Journal of Clinical Investigation, june, 2012. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
187 
 
suponho que ao deparar-se com explicações abstratas, 
hipotéticas ou que necessitem de 'insights', deva sentir-se 
desconfortável. E isso talvez explique o motivo pelo qual 
muitos pacientes abandonam um processo 
psicoterapêutico breve em curso. Pesquisas realizadas 
entre 1999 e 2000 em uma clínica-escola de psicologia 
revelaram diferentes índices de desistência em diversos 
momentos do atendimento: 45,05% antes da triagem, 
56,59% no início do atendimento e 14,84% no decorrer 
da terapia.
34
 
Um outro estudo realizado em 2013, no Rio 
Grande do Sul, revelou que, do total de 188 indivíduos 
que deram entrada em um processo psicoterapêutico em 
um uma clínica-escola de psicologia, 163 residiam na 
cidade onde a universidade estava localizada e 25 residiam 
em cidades vizinhas. Do total de pessoas que realizaram 
psicoterapia durante o ano letivo de 2013, 37 receberam 
alta, aproximadamente 20% dos pacientes, e 45 
desistiram durante o processo, totalizando 24% dos casos. 
O restante foi encaminhado para continuidade do 
atendimento no ano de 2014, totalizando 106 casos com 
 
34
Chilelli, Karla Bittencourt; Enéas, M. L. E. Desistência em 
psicoterapia breve: pesquisa documental e da opinião do 
paciente. Boletim de Iniciação Científica de Psicologia, v. 1, n. 1, p. 
47-52, 2000. 
 
Evandro Borges 
188 
 
indicação de continuidade da psicoterapia. Mediante a 
uma leitura dos resumos de encerramento dos casos 
atendidos, as justificativas apresentadas pelos terapeutas 
nos relatos de encerramento de caso foram classificadas 
da seguinte maneira, explicadas a seguir: não adesão à 
psicoterapia (20%), problemas com o terapeuta ou com a 
instituição (33,3%), questões particulares externas à 
clínica (17,7%), encerramento por faltas injustificadas 
(27%) e 2% não justificaram o encerramento do caso.
35
 
Não quero dizer, com isso, que a psicologia deva 
ser ‘fatalista’ ou que deva limitar-se ao uso de manuais de 
diagnósticos de transtornos mentais, encaminhando todos 
os casos de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico 
para serviços de atendimento que possibilitem uma 
abordagem psicofarmacológica, mas que devemos estar 
abertos ao diálogo com as ciências biológicas, analisando 
o histórico familiar de cada caso e solicitando exames 
complementares com o objetivo de se chegar a um 
diagnóstico mais preciso. Não devemos nos fechar para a 
possibilidade de determinados casos clínicos serem 
decorrentes de fatores, não somente psicológicos, mas 
biológicos, genéticos ou hereditários. 
 
35
 Sei, MB, Colavin JRP. Desistência e abandono da psicoterapia em 
um serviço-escola de Psicologia. Rev. bras. psicoter. 2016;18(2):37-
49. 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
189 
 
Capítulo 20 
 
Instrumentos de avaliação em 
psicologia positiva 
 
 
Para Fortes e Ferreira (2013), o estudo dos 
aspectos saudáveis do ser humano é tão relevante quanto 
os estudos sobre a psicopatologia. Essa foi a grande 
contribuição da psicologia positiva, fornecendo outra 
perspectiva de análise do comportamento humano ao 
olhar para o que possuímos de melhor em nós. A 
psicologia positiva tem sua proposta baseada na ideia de 
favorecer que o psicólogo tenha uma postura mais 
apreciadora dos potenciais humanos e, portanto, alguns 
aspectos são extremamente importantes para essa nova 
ciência, como a avaliação do otimismo, altruísmo, 
esperança, alegria, bem-estar e resiliência, autoestima e 
esperança, aspectos estes tão importantes quanto a 
avaliação da depressão, ansiedade e desesperança 
(ÜCKER E NUNES, 2007). 
 
Por se tratar de uma abordagem nova, esforços 
significativos estão sendo empregados no 
desenvolvimento e validação de instrumentos de avaliação 
em psicologia positiva (SELIGMAN, 2004). No que tange 
Evandro Borges 
190 
 
a avaliação psicológica positiva, destaca-se a avaliação da 
satisfação com a felicidade ou BES, satisfação com a vida, 
afeto, otimismo, esperança e auto eficácia. 
 
 
ADVERTÊNCIAS 
 
Por questões éticas não poderemos reproduzir o conteúdo 
de testes ou avaliações psicológicas neste livro, porém, 
poderemos indicar as referências e literatura disponíveis 
atualmente, tanto no Brasil quanto no exterior, para 
efeito de consulta ou pesquisa. De acordo com os Artigos 
10 e 16 da Resolução CFP n.º 002/2003 (CFP, 2003), só 
será permitida a utilização dos testes psicológicos que 
obtiverem o parecer favorável pelo Conselho Federal de 
Psicologia e será considerada falta ética a utilização de 
instrumento que não esteja em condição de uso. É 
importante destacar também que conforme dispõe o Art. 
13 da Lei 4.119/62 (Brasil, 1962), no Brasil, o uso de 
testes psicológicos constitui função privativa do 
psicólogo. 
 
Em 2011 o Dr. Aaron Jarden, presidente da 
Associação de Psicologia Positiva da Nova Zelândia 
lançou um artigo intitulado “Avaliação Psicológica 
Positiva: Uma introdução prática a ferramentas de 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
191 
 
pesquisa empiricamente validadas para medir o bem-
estar”, atualizado posteriormente em 2014 (JARDEN, 
2014). O artigo reúne dezenas de modelos de 
instrumentos de avaliação em psicologia positiva, com 
suas devidas referências para consulta no idioma inglês.
36
 
Segue uma lista dos instrumentos disponíveis com os 
títulos traduzidos e referência para consulta logo abaixo: 
 
 Escala de Medidas de Felicidade (HM) 
 Escala de Satisfação com a Vida (SWLS) 
 Escala de Satisfação Temporal com a Vida (TSWLS) 
 Escala de Felicidade Subjetiva (SHS) 
 Questionário de Gratidão (GQ-6) 
 Escala de Esperança do Adulto (AHS) 
 Questionário de Significado de Vida (MLQ) 
 Escala de Florescimento (FS) 
 Escala de Experiência Positiva e Negativa (SPANE) 
 Escala Grit Curta (GRIT) 
 Inventário de Curiosidade e Exploração II (CEI-II) 
 Escala do Uso de Forças e Conhecimento Corrente 
(SUCK) 
 Teste de Orientação de Vida - Revisado (LOT-R) 
 
36
 Jarden, A. (2011). Positive Psychological Assessment: A practical 
introduction to empirically validated research tools for measuring 
wellbeing. Získáno, 2(3), 2014. 
 
Evandro Borges 
192 
 
 Escala Breve de Resiliência (BRS) 
 Escala de Vitalidade Subjetiva (VS) 
 Escala de Combate à Auto-Ancoragem de Cantril 
(CSASS) 
 Questionáriode Vida Valiosa (VLQ) 
 Escala de Bem-Estar Psicológico (SPW) 
 Escala de Depressão do Centro de Estudos 
Epidemiológicos (CES-DS) 
 Escala de Depressão, Stress, Ansiedade (DASS21) 
 Escala de Solidão (LS) 
 
 
 
Devo destacar também que o Centro de Psicologia 
Positiva da Universidade da Pensilvânia mantém um 
banco de dados com atualmente 18 modelos de 
questionários para pesquisadores. Os recursos estão 
disponíveis no idioma inglês e podem ser acessados em: 
 
http://ppc.sas.upenn.edu/resources/questionnaires-
researchers 
 
Outra ferramenta rica em informações é o website 
Felicidade Autêntica da Universidade da Pensilvânia, que 
disponibiliza uma série de escalas e questionários para 
auto preenchimento online, com referências-chave e 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
193 
 
outras informações relevantes. O conteúdo está 
disponível nos idiomas: inglês, espanhol, alemão, japonês 
e mandarim. Para saber mais, visite o site: 
 
https://www.authentichappiness.sas.upenn.edu/testcent
Er 
 
Lista de Instrumentos disponíveis no site Felicidade Autêntica: 
 
 Inventário de felicidade autêntica - Mede a Felicidade 
Geral; 
 Escala geral da felicidade - Avalia a felicidade 
duradoura; 
 Questionário PANAS - Mede o Afeto Positivo e 
Negativo; 
 Questionário CES-D - Mede os sintomas da depressão; 
 Questionário de Emoções Fordyce - Mede a felicidade 
atual; 
 Teste de Otimismo - Mede o otimismo sobre o futuro; 
 Questionário de Motivações Transversais - Mede o 
Perdão; 
 VIA Levantamento de Forças de Caráter - Mede as 24 
forças de caráter; 
 Inquérito de Gratidão - Mede a apreciação sobre o 
passado; 
Evandro Borges 
194 
 
 VIA - Pesquisa de Força para Crianças - Mede as 24 
forças de caráter para crianças; 
 Avaliação Grit - Mede a força do caráter da 
perseverança; 
 Teste Breve de Forças - Mede 24 forças de caráter; 
 Questionário Vida-Trabalho - Mede a Satisfação Vida-
Trabalho; 
 Medidor PERMA ™ - Avalia as medidas de 
florescimento; 
 Escala de Satisfação com a Vida - Mede a satisfação 
com a vida; 
 Abordagens à Felicidade - Mede a Felicidade Geral; 
 Questionário de Significado de Vida - Mede o 
significado de vida; 
 Escala Compassiva do Amor - Mede sua tendência a 
apoiar, ajudar e entender outras pessoas; 
 Questionário de Fechamento de Relacionamentos; 
 
O Centro Australiano de Qualidade de Vida (ACQOL), 
disponibiliza uma breve descrição sobre centenas de 
escalas de qualidade de vida e bem-estar, bem como suas 
referências e dados sobre pesquisas psicométricas. Você 
pode saber mais em: 
http://www.acqol.com.au/instruments/instrument.php 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
195 
 
 No Brasil, podemos destacar o Laboratório de 
Mensuração do Instituto de Psicologia da Universidade 
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que tem 
desempenhado um papel extremamente significativo no 
desenvolvimento de instrumentos de avaliação 
psicológica. O site pode ser acessado em: 
http://www.ufrgs.br/psico-laboratorio/Instrumentos.htm 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
196 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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197 
 
Capítulo 21 
 
 
Ampliando e construindo emoções 
positivas 
 
 
A Teoria do Ampliar e Construir das Emoções Positivas (The 
Broaden-And-Build Theory) 
 
 
A Teoria do Ampliar e Construir das Emoções 
Positivas, desenvolvida pela Dra. Barbara Fredrickson, 
professora e pesquisadora de psicologia da Universidade 
da Carolina do Norte, sugere que as emoções positivas 
ampliam nosso repertório de pensamentos e ações e 
constroem nossos recursos pessoais. A teoria sugere que 
as emoções positivas impulsionam o florescimento 
humano (COUTO, 2014). 
Pessoas que experimentam as emoções positivas, 
com frequência, são mais: 
 
1. Interessadas em seu autodesenvolvimento; 
 
2. Física e Psicologicamente saudáveis; 
 
Evandro Borges 
198 
 
3. Habilidosas para lidar com dificuldades e problemas; 
 
4. Estruturadas em seus relacionamentos e interações 
sociais; 
 
5. Abertas a desenvolver uma variedade de estratégias 
mentais; 
 
6. Abertas ao novo; 
 
7. Propensas a nutrir mais esperança, visão do todo e foco 
no futuro. 
 
Em diversos contextos as pessoas experimentam 
um misto de emoções agradáveis e desagradáveis, sugere 
Carvalho (2014). Tais emoções desencadeiam humores 
que são expressos posteriormente por uma variedade de 
comportamentos e sentimentos. No entanto, as 
evidências dos efeitos positivos das emoções somente 
ganharam força durante os últimos 20 anos (Fredrikson, 
2002 apud CARVALHO, 2014). As investigações 
traçaram a divisão entre os afetos positivos e negativos, 
concluindo que o afeto positivo tem efeitos relevantes no 
desenvolvimento dos pensamentos e comportamentos. A 
teoria das emoções positivas de Fredrickson (2003) é um 
modelo que capta efeitos únicos, pois vivenciar estados 
positivos conduzirá a comportamentos, que indiretamente 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
199 
 
irão influenciar positivamente o sujeito em situações 
difíceis. 
 
A teoria sugere que valores altos de positividade 
podem prever o funcionamento ideal do sujeito. As 
emoções positivas desenvolvem-se na construção de 
recursos pessoais, e ao longo do tempo, por consequência, 
transformam as pessoas para melhor, permitindo-lhes 
sobreviver e prosperar em diversas situações da vida 
(Fredrickson et al., 2008; Carvalho, 2014). Segundo as 
autoras, as emoções positivas ampliam os pensamentos e 
constroem recursos físicos, sociais e psicológicos para o 
futuro. E tanto as emoções positivas quanto negativas 
teriam uma função adaptativa, com efeitos fisiológicos 
diferentes e complementares. As emoções negativas 
estariam associadas à formas de agir, que diminuiriam e 
focalizariam os pensamentos para ações concretas, como 
por exemplo as de luta ou fuga (Fredrickson, 1998; 2001; 
2003; 2013 apud CARVALHO, 2014). 
 
Através da expansão dos processos cognitivos, os 
recursos e capacidades pessoais estabelecem-se ao longo 
do tempo. Tais processos teriam sido úteis, não somente 
por preservaram ao longo dos tempos a evolução humana, 
mas também porque, espontaneamente provaram ser 
uteis para o desenvolvimento de recursos da 
Evandro Borges 
200 
 
sobrevivência. As autoras afirma que vivenciar 
experiências emocionais positivas coloca os sujeitos em 
trajetórias de crescimento pessoal. Já no processo de 
ampliar as estratégias comportamentais, as emoções 
positivas vão dissipar as emoções negativas, preparando o 
sujeito para ações específicas (Fredrickson, 1998; 2002; 
2003; 2013; Carvalho, 2014). 
 
As emoções positivas ampliam a atenção e 
cognição, e a vivência das emoções positivas produz um 
efeito associado a aumentos de níveis de dopamina no 
cérebro (Ashby, Isen, & Turken, 1999). Cultivar emoções 
positivas também torna os sujeitos mais saudáveis, mais 
socialmente integrados, mais curiosos, mais eficazes na 
diversidade dos comportamentos, e muito mais resilientes 
(Fredrickson & Losada, 2005). 
 
Desta forma, podemos concluir que o efeito 
positivo das emoções amplia o comportamento perante a 
situação em que os sujeitos se encontrem. Ao longo do 
tempo, constrói mapas cognitivos muito apurados do que 
é agradável e desagradável na interação com o meio 
ambiente. E embora este efeito seja transitório, as 
capacidades pessoais que são adquiridas em momentos de 
positividade podem ser mantidas a longo prazo, 
possibilitando ao sujeito utilizá-las em situações de 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
201 
 
stress. Este processo aumenta as probabilidades de 
sobrevivência, o que poderá desencadear também 
crescimento pessoal e maisresiliência. Em síntese, o 
processo desenvolvido influência o florescimento humano 
(Fredrikson & Losada, 2005 apud CARVALHO, 2014). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Evandro Borges 
202 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
203 
 
Agradecimentos 
 
Gostaria de agradecer profundamente aos disseminadores 
da psicologia positiva no Brasil, América Latina, América 
do Norte e demais partes do mundo, em especial, ao 
núcleo da Associação de Psicologia Positiva da América 
Latina (APPAL), a Associação Brasileira de Psicologia 
Positiva (ABPP), ao Dr. Cláudio Simon Hutz, 
coordenador do Curso de Especialização em Psicologia 
Positiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
(UFRGS), ao professor de Psicologia Positiva do MBA 
Executivo em Desenvolvimento do Potencial Humano na 
Franklin Covey Business School, Helder Kamei, ao núcleo 
de pesquisa do Centro de Psicologia Positiva da 
Universidade da Pensilvânia, EUA, aos Doutores Martin 
Seligman, ex-presidente da Associação Americana de 
Psicologia (APA), e Chris Peterson, fundadores do VIA 
Instituto do Caráter, pioneiros nos estudos da psicologia 
positiva no mundo. Ao Dr. Tal Ben-Shahar, coordenador 
do Curso de Psicologia Positiva da Universidade de 
Harvard, EUA, ao Dr. Tayyab Rashid, pesquisador em 
psicologia positiva na Universidade de Toronto 
Scarborough, Canadá, ao Dr. Mihaly Csikszentmihalyi, 
professor da Universidade de Pós-Graduação Claremont e 
um dos principais pesquisadores em psicologia positiva 
no mundo. A Dra. Sofia Bauer e sua equipe do curso de 
Evandro Borges 
204 
 
Certificação em Psicologia Positiva, a Dra. Renata 
Livramento, fundadora e presidente do Instituto 
Brasileiro de Psicologia Positiva, ao querido amigo de 
profissão e sempre incentivador de meu trabalho, Paulo 
Henrique. E a todos os fomentadores, pesquisadores, 
profissionais, professores, mestres, doutores, 
admiradores, praticantes e simpatizantes da psicologia 
positiva. 
 
 
Gratidão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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205 
 
ANEXO I - Relatório Mundial da Felicidade - Ranking 2016 
 
Evandro Borges 
206 
 
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Evandro Borges 
208 
 
 
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Evandro Borges 
212 
 
 
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213 
 
ANEXO II – Estrutura da Escala de Florescimento 
 
Evandro Borges 
214 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Positiva: uma mudança de perspectiva 
 
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6. Seligman, M. E. P. Felicidade Autêntica. Rio de 
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24. Foto: Anas al-Basha se fantasiava de palhaço para 
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Courtesy of Ahmad al-Khatib, via AP). 
 
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