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AULA 4 GESTÃO DA MUDANÇA E TRANSFORMAÇÃO ORGANIZACIONAL Prof.ª Maura Vello 02 CONVERSA INICIAL Olá! A aprendizagem será o foco dos temas que trataremos nesta aula, pois veremos que tranformações e mudanças estão intrinsecamente ligadas a processos de aprendizado, seja de âmbito pessoal ou organizacional, e não acontecem de forma isolada, pois são as pessoas que promovem o acúmulo de conhecimento nas organizações. Assim, nesta aula, vamos tratar da aprendizagem organizacional e como ela pode promove e sustentar os processsos de transição e mudança das empresas, vencendo barreiras e gerando engajamento e resultados. Trabalharemos, então, alguns conceitos de aprendizagem organizacional e entenderemos como eles surgem, de que formas as organizações podem entender tais processos de aprendizagem para dar direcionamento e torná-los parte do contexto corporativo como uma vantagem percebida por todos, de forma a criar uma estrutura de apoio nos processos de mudança. Entretanto, pensemos juntos! O processo de aprendizado individual não garante o aprendizado organizacional, pois o conhecimento é adquirido pelo indivíduo e não necessariamente é aplicado por ele em seu ambiente de trabalho. Esse conhecimento adquirido pode até mesmo ser utilizado pelo profissional no seu ambiente de trabalho, mas quando relacionado à organização, se não for compartilhado ou registrado, será levado com ele, certo? Assim, o aprendizado organizacional somente ocorre quando o aprendizado e o conhecimento acumulados pelos seus colaboradores são compartilhados, registrados e transformados em rotinas e processos. As organizações já perceberam o alto valor gerado pela inteligência corporativa por intermédio do desenvolvimento e do aprendizado dos seus colaboradores, pois, por meio dele, as organizações acumulam conhecimento, desenvolvem novas tecnologias, produtos, processos, relações com o mercado, entre outros. Então, o que temos é o seguinte contexto: O aprendizado individual nem sempre se refletirá em aprendizado organizacional... porém, sem o aprendizado individual não há aprendizado organizacional. CONTEXTUALIZANDO 03 “Aprendizado também requer estar pronto e aberto ao desaprender e reaprender”. Convido você a pensar no significado dessa frase. Evoluímos como seres humanos antes mesmo de nascer, e então, quando nos tornamos seres individuais no nascimento, ao sermos desligados do ventre de nossas mães, já começamos a aprender. Aprendemos a respirar, a chorar, a nos alimentar, a perceber o mundo à nossa volta, a andar, a falar, a ler e escrever e nunca mais paramos de aprender. Com o tempo, também desaprendemos coisas para reaprender, ou seja, fazer as mesmas coisas só que de outro jeito, entende? O desaprender aqui está mais relacionado a derrubar barreiras e resistências aos novos modos de fazer as coisas, perceber e aceitar as mudanças e os ganhos que elas podem trazer. Então, estamos falando em descontruir conceitos pré-estabelecidos e reconstruir novos conceitos, ok. Quer ver como tem várias coisas ao nosso redor que já foram desaprendidas e reaprendidas sem nem ao menos nos darmos conta? Como você se comunicava com familiares e amigos antes dos eventos Whatsapp, Skype, Messenger, entre outros tantos meios tecnológicos de comunicação usados hoje? Será que você descontinuou o uso de outros meios de comunicação e se adaptou a esses novos meios mais rápidos e de fácil acesso? Como você está lendo o material desta aula nesse momento? Pode ser no seu computador, no seu celular, no tablet, certo? Quanto ao local, você pode se conectar ao seu curso e interagir onde quer que esteja no momento e nos horários que achar mais adequado, correto? Ou seja, nos dois casos anteriores que estão no nosso cotidiano, foi preciso desconstruir o modelo formal aprendido e reconstruí-lo. No caso do formato do estudo à distância, a partir de novas configurações, percebe-se ainda a mudança de papéis em que o protagonista do aprendizado passa a ser você, e a decisão de como e quando ele acontecerá é toda sua. Perceba a grande diferença que isso representa em comparação ao modelo de ensino tradicional que você provavelmente teve durante quase toda a sua vida. 04 TEMA 1 – CONCEITOS DE APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL Vamos trabalhar agora com alguns dos conceitos teóricos relacionados à aprendizagem e como eles estão relacionados aos aspectos comportamentais de indivíduos e de sua atuação enquanto integrantes em grupos de pessoas nas organizações. Aprendizado, em geral, envolve mudança e esta pode ser uma via de mão dupla, ou seja, um momento de mudança com certeza exigirá das pessoas desenvolvimento de novas habilidades e competências, e o inverso também, o aprendizado e desenvolvimento pessoal promoverá mudanças comportamentais que, por sua vez, podem refletir em mudanças organizacionais. Veremos que as definições são variadas, porém, é importante esclarecer que comportamentos modificados nem sempre refletem em aprendizado. Vejamos isso um pouco melhor. Robbins (2002, p. 39) contribui com relação ao conceito de aprendizado afirmando que “deduzimos que houve aprendizado quando o comportamento, a reação ou resposta de um indivíduo, em consequência de uma experiência, são diferentes do que eram antes”, ou seja, houve mudança comportamental. Porém, o autor também ressalta que nem toda mudança comportamental reflete em aprendizado, como mudanças temporárias, que podem ser consideradas apenas reflexivas, e que não representam um aprendizado. Esse tipo de mudança não é incorporada de forma permanente ao comportamento, nas ações e nas atitudes. Um exemplo prático disso seria uma mudança comportamental em função de uma pressão externa, por exemplo, medo de perder o emprego em caso de crise na empresa. Isso pode provocar a mudança de comportamento temporária, mas não gera necessariamente aprendizado e melhora de desempenho. Chiavenato (2014, p. 374) considera que “aprendizado e mudança constituem hoje os aspectos essenciais para renovação, revitalização e o sucesso organizacional autossustentado”. O autor considera que, para tanto, as organizações precisam manter ambientes propícios à participação e colaboração, abertos ao diálogo e a novas ideias, com gestores e colaboradores também aptos a promover a inovação desde a forma de executar tarefas até o engajamento em processos maiores em momentos de mudança organizacional. Outra contribuição conceitual sobre o tema vem de Takahashi (2015, p.125), com o entendimento de que “a aprendizagem organizacional é um 05 fenômeno coletivo que ocorre no dia a dia das organizações e se dá com base nas reflexões, ações e experiências das pessoas que a compõem”. A autora ainda comenta que existem alguns aspectos básicos comuns encontrados nas organizações que aprendem. A continuidade de processos aprendidos e adotados. A transformação que se dá a partir da mudança de atitudes. Foco nos interesses do grupo, enfatizando o coletivo. Conscientização e inovação. Apropriação e disseminação do conhecimento. Assim, o que é possível perceber é que, apesar do processo de aprendizado partir das pessoas, as organizações buscam formas de reter o conhecimento desenvolvido criando processos e rotinas, registrando o aprendizado para que ele não se perca. Senge (1996, cirado por Robbins, 2004, p. 265) também contribui com algumas características de organizações que aprendem. Vejamos no quadro a seguir. Quadro 1 – Características de organizações que aprendem Fonte: Senge, 1996, citado por Robbins, 2004, p. 265. Esses são apenas alguns dos autores que tratam do tema; a discussão a respeito de aprendizagem organizacionalé ampla e passa por várias vertentes Existe uma visão compartilhada com a qual todos concordam. As pessoas abrem mão de velhas ideias e das rotinas padronizadas por meio das quais solucionam seus problemas ou realizam seu trabalho. Os membros da organização pensam em todos os processos, atividades, funções organizacionais e interações com o ambiente como parte de um sistema de inter-relacionamentos. A comunicação é aberta (vertical e horizontalmente) e não há medo de críticas ou punições. As pessoas sublimam os interesses pessoais e os de seus departamentos em prol do trabalho conjunto para alcançar a visão compartilhada da organização. 06 do conhecimento, desde a sociologia, a psicologia, a administração, entre outras, tornando-se interdisciplinar. Não poderia ser de outra forma, pois, observando aqui esses poucos conceitos, já é possível notar a complexidade que envolve seu estudo. No entanto, dois fatores são observados nos processos de aprendizagem de forma unanime: eles estão ligados às mudanças organizacionais, partindo delas ou as promovendo, e o conhecimento gerado pela aprendizagem precisa ser internalizado, registrado e transformado em inteligência organizacional por meio de sistemas, rotinas, processos, ações, comportamentos, entre outros. TEMA 2 – NÍVEIS DE APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL Vamos falar um pouco agora dos níveis de aprendizagem organizacional. Nesse contexto, também são diversas as vertentes teóricas, portanto, vamos trabalhar com os três níveis de aprendizado, sendo eles o aprendizado individual, em grupo e organizacional. Pode-se dizer que esses processos acontecem de forma simultânea e em direções diversificadas. No entanto, o que isso significa na prática? As organizações estão em constante processo de mudança e, com isso, seus colaboradores também. Esse processo de evolução constante promove aprendizados individuais, que também podem acontecer em grupo e ser compartilhados em formas de rotinas e processos, que, por sua vez, geram inteligência organizacional. Perceba que esse processo se retroalimenta nesses três níveis o tempo todo, dependendo das necessidades de desenvolvimento organizacional e do grau de mudanças propostas. Vejamos como isso ocorre em um exemplo prático. Se uma organização resolve implantar um novo sistema que afetará todos os departamentos, isso vai gerar mudanças de rotinas, tarefas, atividades diárias e processos. A partir dessa mudança, as pessoas precisarão ser treinadas para o uso desse novo sistema, o que vai gerar novos aprendizados individuais e em diferentes grupos, dependendo das necessidades de cada departamento (pessoal, financeiro, comercial). Registrados os novos processos e rotinas, a organização passa a gerar novos conhecimentos organizacionais, promovendo inteligência corporativa. 07 Assim, temos então uma retro alimentação em que indivíduos, grupos e organização estão em constante aprendizado simultaneamente. Takahashi (2015, p. 147) comenta que “aprendizagem organizacional não é um processo linear, que se inicia com o aprendizado individual, passa para a aprendizagem grupal, e por fim torna-se organizacional”. A autora, então, nos traz a reflexão de que a aprendizagem pode ocorrer em todos os sentidos, da organização para o indivíduo ou grupos, e do individuo para o grupo, e ainda, do indivíduo para a organização e vice-versa. Além disso, para se compreender esse processo, é preciso observar todo o fluxo de interação entre indivíduos e seus grupos, entre os próprios grupos, e, de forma global, a percepção da aprendizagem organizacional desenvolvida e as mudanças resultantes como um todo. Crossan, Lane e White (1999) apresentam uma estrutura unificante de aprendizagem organizacional, na qual apresentam esses três níveis – individual, do grupo e organizacional – ligados por quatro processos básicos. Quadro 2 – Estrutura unificante para aprendizagem organizacional Fonte: Crossan, Lane e White Senge, 1999, p. 525, citado por Takahashi, 2015, p. 148. Assim, temos os quatro processos comentados pela autora, que, interconectados, promovem mudanças comportamentais e cognitivas, sendo que não é tarefa fácil definir o começo e o término de cada fase desses processos. Entretanto, é possível, por exemplo, afirmar que a intuição está mais ligada ao nível de aprendizado individual, enquanto que a interpretação pode 08 estar também relacionada ao compartilhamento de ideias e atividades em grupo. A integração poderia ser considerada o compartilhamento de práticas comuns e, por fim, a institucionalização transformaria a aprendizagem e os conhecimentos adquiridos em normas e procedimentos registrados dentro da organização e adotados por todos, havendo assim uma padronização e uma identidade intelectual corporativa. Os autores ainda comentam que esse processo é retroalimentado, como podemos ver na Figura 1. Figura 1 – Aprendizagem organizacional como processo dinâmico Fonte: Crossan, Lane e White Senge, 1999, p. 532, citado por Takahashi, 2015, p. 150. Visualmente, é possível observar que esse processo de retroalimentação acontece em todos os níveis, ou seja, indivíduos, grupos e organização promovem o aprendizado entre si, de formas distintas, e comprova que esse processo é circular e dinâmico. TEMA 3 – TIPOS DE APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL Vimos, então, que a aprendizagem pode ocorrer em diferentes níveis, mas há também uma diferenciação entre os tipos de aprendizagem que estão relacionados também à profundidade das mudanças implementadas. Vamos entender melhor como esses conceitos foram desenvolvidos e se aplicam na prática. Aprendizagem está relacionada à mudança, pois, como já comentamos, ou é oriunda de um processo de mudança, ou leva ao processo de mudança a partir de novas interpretações do nosso cotidiano. 09 Para os autores que tratam do tema, mudança e transformação organizacional só ocorrem caso haja a internalização do processo de aprendizagem, ou seja, se houver mudança que se reflita na organização como um todo. Takahashi (2015) relacionou três teorias que tratam dessa relação entre mudança e tipos de aprendizagem em três diferentes décadas, mas que propõe uma leitura interessante sobre o tema. Vejamos. Quadro 3 – Tipos de mudança e aprendizagem organizacional Fonte: Adaptado de Argyris; Schön, 1978; Fiol; Lyles, 1985; Barr; Huff; Stimpert, 1992, citado por Takahashy, 2015, p. 153. Esses três modelos teóricos tratam de formas diferentes dos tipos de aprendizagem organizacional, mas acabam fazendo relações entre elas, como poderemos ver. A aprendizagem considerada single loop, também conhecida na teoria como aprendizagem de circuito simples, está relacionada a pequenas mudanças incrementais e de pequenos impactos, conforme comentam, no Quadro 3, os autores Fiole e Lyles, sendo, assim, consideradas de baixo grau por Barr, Huff e Stimpeert. Esse tipo de mudança acontece quando ocorrem aprendizagens incrementais em rotinas e tarefas, sem promover modificações significativas na organização. A aprendizagem considerada double loop, também conhecida como aprendizagem de circuito duplo, já é um pouco mais complexa, pois exige maior reflexão e mudanças mais profundas e significativas, geralmente se expandem pela organização e modificam modelos mentais e a cultura organizacional. Podem ocorrer por diversos motivos; um exemplo desse tipo de novas aprendizagens pode vir de uma mudança de dirigentes da 010 organização, que pode dar outra cara a empresa. Veja que, aqui, os autores do nosso quadro já tratam do processo de aprendizagem como enquadrados em níveis superior ou de alto grau. A aprendizagem deutero learning, conhecida como a habilidade organizacional de aprender a aprender, em que o processo de aprendizagem vai muito além dasreações a momentos de mudança, a organização chega ao nível em que o ponto central é o próprio aprendizado como parte estratégica das organizações voltadas ao aprendizado. Geralmente esse tipo de mudança envolve revisão de modelos mentais e comportamentais dentro das organizações, as mudanças são antecipadas, pensadas e repensadas e são mais profundas. As mudanças e os aprendizados são significativos e modificam o “DNA” da empresa, bem como suas relações com seu público interno e externo. Costumam também aproximar seus discursos teóricos de visão e missão cada vez mais da prática, ou seja, o que é dito é bem próximo do que é praticado dentro e fora da organização. Um exemplo desse tipo de organização são aquelas com ambientes propícios a inovações, menos engessadas. Temos então, aqui, alguns dos tipos de aprendizagem organizacional e que, como falado até aqui, levam a diferentes tipos de mudanças e impactos dentro das empresas. Agora proponho observarmos de forma simplificada o mapa mental a seguir, proposto por Perin et al. (2006), que mostra como esses tipos de aprendizagem acontecem de formas distintas. 011 Figura 2 – Tipos de aprendizagem organizacional Fonte: Adaptado de Probst; Bhuchel, 1997, citado por Perin et al., 2006. Se observarmos o mapa mental da Figura 2 a partir das ações, a percepção nos mostra que a aprendizagem de ciclo simples de aprendizagem é suscitada geralmente a partir de simples mudanças de ações que já geram resultados. A aprendizagem de ciclo duplo envolve maior reflexão e já propõe mudanças de modelos mentais e ações, e, por fim, o nível mais elevado, em que são criados novos modelos a partir das organizações que aprendem a aprender. Entretanto, precisamos lembrar que há um fator fundamental em todo esse contexto. É preciso haver um ambiente organizacional propício ao processo de aprendizagem, independentemente do tipo ou do nível em que venha a acontecer. TEMA 4 – CULTURA DE APRENDIZAGEM NAS ORGANIZAÇÕES Vamos tratar um pouco agora sobre os ambientes organizacionais propícios e abertos ao desenvolvimento da aprendizagem organizacional. Quantos momentos você já vivenciou, enquanto colaborador de uma empresa, a possibilidade de contribuição para algum tipo de mudança ou contribuição e o ambiente não era preparado ou receptivo? Essa é a realidade de muitas organizações, nas quais há falta de uma estrutura que proponha o aprendizado constante, seja por estarem ainda presas a conceitos culturais que não permitem tamanha abertura, por sinal, muito comum a esse tipo de situação, 012 seja por falta de preparo de gestores e áreas, ou, ainda, por uma série de outros fatores. Chiavenato (2014) coloca alguns questionamentos que devem ser feitos pelas organizações na criação de uma cultura de aprendizado. Vejamos. Quadro 4 – Modelo de criação de uma cultura de aprendizado Fonte: Chiavenato, 2014, p. 369. O que fica explícito nos questionamentos simples colocados pelo autor é que não há como as organizações se sustentarem em um ambiente dinâmico, complexo e em constante mudança, se não aceitarem o fato de que há que ser inserida em seu contexto a cultura da aprendizagem constante, bem como o fato de que as mudanças passam a fazer parte também desse contexto. Ou seja, dirigentes, gestores precisam se perguntar: estamos criando condições para que nossa organização seja competitiva e forte, temos criado condições para ser uma organização que aprende? Essa é uma reflexão organizacional difícil porque tocará em pontos que podem estar frágeis, mas ela precisa ser bastante honesta. Vamos entender um pouco melhor o que os autores estão dizendo sobre a cultura da aprendizagem. Para Schein (1992), “a turbulência do ambiente contemporâneo demanda que as organizações desenvolvam uma cultura que promova e incentive uma aprendizagem permanente, ou seja, uma cultura de aprendizagem”. Também Marsick e Watkins (2003) consideram que a cultura de aprendizagem “é aquela que suporta a aprendizagem permanente, integrada 013 com as rotinas diárias, por meio de políticas e práticas especificamente desenhadas para este propósito.”. Observando essas, entre outras tantas definições teóricas sobre o tema, Silva, Godoy e Hanashiro (2013) fazem um quadro com os elementos que compõem as dimensões da cultura de aprendizagem observadas por esses autores. Quadro 5 – Dimensões da cultura da aprendizagem Fonte: Shein, 1994; Marsick; Watkins, 2003, citado por Silva; Godoy; Hanashiro, 2013. A realidade é que as organizações passam por um profundo processo de mudança nas percepções do seu cotidiano. Estão sendo revistas muitas coisas, mas um dos fatores mais fundamentais para que elas possam permanecer no mercado é rever seus processos internos de relações e de formas de como fazer as coisas acontecerem. Incluir no seu cotidiano uma cultura de aprendizagem constante é imperativo para acompanhar as exigências de um cenário em constante mudança. Quanto mais flexibilidade, maior a adaptabilidade. Por incrível que pareça, vivemos na era em que as pequenas e médias empresas têm muito mais agilidade e desprendimento para se movimentar e criar cultura de aprendizagem organizacional do que muitas grandes corporações, pois conseguem essa interação maior entre colaboradores e lideranças por serem estruturas menos hierarquizadas e mais flexíveis. Essa horizontalização e a proximidade permitem a abertura ao diálogo, que por sua vez, cria um ambiente propício à participação e à cultura da aprendizagem e inovação. 014 TEMA 5 – A APRENDIZAGEM QUE PROMOVE COMPETÊNCIA ORGANIZACIONAL Ambientes organizacionais propícios à aprendizagem oferecem um caminho natural ao desenvolvimento de novas competências, ou, ainda, o aperfeiçoamento das já existentes. Quem já não ouviu falar dos famosos e tão comentados ambientes organizacionais de empresas como a Google e o Facebook? Que tem um perfil e uma cultura que promovem o aprendizado, a criatividade, a inovação, “o pensar fora da caixa”. Aposto que nesse momento você deve estar pensando: “mas são empresas norte-americanas e estão bem longe da nossa realidade, seus padrões jamais serão adotados por aqui!”. Será? Ok! Talvez algumas organizações de fato não cheguem a modelos tão abertos e descontraídos de gestão, mas já estão se adaptando a novas realidades. Quando imaginaríamos a alguns anos que as organizações teriam administradores de mídias sociais? Mudanças dos novos tempos! Que empresas investiriam em blogueiros que são seguidos por milhares de pessoas para vender seus produtos melhor que qualquer outro meio de comunicação? E aí a pergunta é: como as organizações chegaram a esse ponto? Isso parece absurdo e fora da realidade para você? Perceba que essas novas formas de fazer as coisas acontecerem, esses novos jeitos de se comunicar com o público, com o mercado, ocorreram com base no aprendizado, na necessidade de se adequar a novas linguagens para criar novas competências organizacionais que até então não existiam. Então, pensemos a consequência natural do desenvolvimento de um ambiente e cultura de aprendizado organizacional e o desenvolvimento de novas competências, como é possível perceber nos exemplos que acabamos de comentar. Agora, vamos ver como os autores tratam desses conceitos e como isso ocorre na prática. Segundo Le Boterf (2003, citado por Takahashi, 2015, p. 30), os fatores relevantes para o desenvolvimento de competências organizacionais são: organizar a cooperação entre as competências pela linguagem comum e pela complementariedade entre as competências, facilitar as relações de ajuda entre os diversos colaboradores ou junto a especialistas; promover a existência das competências ou de saberes comuns; dispor de uma ferramenta que permita proceder a oferta e procura de competências;implantar estruturas de geometria variável; desenvolver estruturas e projetos transversais; garantir o tratamento de interfaces; manter a diversidade de competências; criar relações de solidariedade e de convivência; implantar uma memória organizacional; implementar 015 um gerenciamento apropriado e instaurar anéis de aprendizagem (Le Bofert, 2003, citado por Takahashi, 2015, p. 30). O que é perceptível no contexto descrito anteriormente por Le Bofert e trazido por Takahashi é que o desenvolvimento de competências é dinâmico e construído ao longo de anos com o envolvimento da organização, olhando para suas habilidades e falhas, observando sua história e olhando para o ambiente e para as necessidades de desenvolvimento. Segundo Chiavenato (2014), cada organização deve buscar definir quais são as suas competências essenciais que vão distingui-la das demais no mercado. Vejamos melhor no quadro a seguir. Quadro 6 – Modelo de identificação de competências organizacionais Fonte: Chiavenato, 2014, p. 93. Para definir tais competências, é preciso que as organizações olhem para suas estruturas e percebam suas forças, seus gaps e como vão preenchê-los, se por meio de contratação de novos colaboradores, de melhor realocação dos seus talentos, ou ainda, do treinamento e do desenvolvimento de seus talentos, para que façam as mudanças necessárias e atendam às necessidades do ambiente em constante processo de mudança, de modo a se adaptarem e permanecerem competitivas no mercado. FINALIZANDO Vamos fechando mais uma aula, e só para lembrar, tratamos aqui sobre a relação intrínseca existente entre mudanças e transformações organizacionais e o aprendizado e acúmulo de conhecimento. Passamos por alguns conceitos que esclarecem a abordagem teórica sobre aprendizagem organizacional, seus tipos e níveis diferenciados, e de que forma a cultura organizacional pode promover um ambiente propício ao desenvolvimento da aprendizagem. 016 Chegamos, então, ao conceito conhecido como cultura da aprendizagem organizacional, que vem promovendo grande mudança na forma de gestão do conhecimento e da aprendizagem dentro das empresas. Toda essa revolução no processo de aprendizagem também vem afetando a forma como as organizações percebem e fazem a gestão de suas competências, que estão relacionadas ao desenvolvimento das pessoas e da própria inteligência corporativa. Veremos mais sobre esse tema na próxima aula. 017 REFERÊNCIAS CHIAVENATO, I. Comportamento organizacional: a dinâmica do sucesso das organizações. 3. ed. Barueri: Manole, 2014. MARSICK, V. J.; WATKINS, K. E. Demonstrating the Value of an Organization’s Learning Culture: The Dimensions of the Learning Organization Questionnaire. Advances in Developing Human Resources, v. 5, n. 2, p. 132-151, 2003. PERIN, M. G. et al. Processo de aprendizagem organizacional e desempenho empresarial: o caso da indústria eletroeletrônica no Brasil. RAE Eletrônica, São Paulo, v. 5, n. 2, art. 14, jul./dez. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/raeel/v5n2/v5n2a05.pdf>. Acesso em: 20 fev. 2018. ROBBINS, S. P. Comportamento organizacional. 9. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2002. _____. Fundamentos do comportamento organizacional. 7. Ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2004. SCHEIN, E. How can organizations learn faster? The problem of entering the green room. MIT Sloan School of Management, Spring 1992. _____. Organizational and managerial culture as a facilitator or inhibitor of organizational learning. MIT Sloan School of Management, may 1994. SILVA, P. T. M.; GODOY, A. S.; HANASHIRO, D. M. M. Cultura organizacional, aprendizagem organizacional e suas relações. Convibra, 2013. Disponível em: <http://www.convibra.com/upload/paper/2013/39/2013_39_6716.pdf>. Acesso em 20 fev. 2018. TAKAHASHI, A. R. W. Competências, aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento. Curitiba: InterSaberes, 2015.